A Família Addams

São Paulo definitivamente virou um polo prospero na meca dos musicais. Tanto é que tem agendas culturais que já separa as peças pela opção: musicais. “A Família Addams”, recente produção da Time For Fun a ocupar o Teatro Abril, é um belo exemplar que une entretenimento com qualidade e diversão. É irresistível.

Criado por Charles Addams (1912-1988), a tal família nasceu como desenho para a revista The New Yorker, virou série nos anos 60, desenho animado, filme e chegou ao universo dos musicais. O misto de humor politicamente incorreto e sádico, atrelado às questões familiares, sempre agradou ao público.

Pronta para questionar, sem perder o humor, a peça – e a história – questiona o conceito de normal. Em cena a família de Wandinha (Laura Lobo) encontra a família (tradicional e “normal”) do certinho Lucas (Beto Sargentelli) as contradições se sobrepõem e deixa para o público, os inevitáveis julgamentos.

“Para nossa alegria” todo discurso vem recheado de dubiedade e sim, queremos ser no mínimo amigos da tal família Addams. Daniel Boaventura é um irresistível chefe de família que abusa da caricatura e do falsete para compor com muita propriedade e sucesso seu Gomez. Junto com Tio Fester (Claudio Galvan), um ser andrógino – veja bem – Boaventura se destaca sem precedentes na montagem nacional.

Fester – que namora a lua – é responsável por uma das melhores cenas do musical, o momento em que ele canta para sua amada lunar. Bem feita, poética e debochada, é o típico momento que valeria rever no youtube. E nem pense em levar sua câmera para fotografar, é quase impossível registrar algo.

Marisa Orth, musa absoluta do Show do Gongo, está contida. Para uma impagável Maralú Menezes (da banda Vexame) e uma tresloucada Magda (Sai de Baixo), esperar algum tipo de escracho da artista é fato. Mortícia – que tem um primo trans – é a mais conservadora de todos. E claro, é com ela que as mães mais conservadoras e as filhas mais rebeldes irão se identificar.

Piadas regionalistas em adaptações musicais são inevitáveis e nem sempre bem colocada. Parece mais um recurso facilitador do riso, do que necessário. Mas na adaptação da ‘bizarra’ família, tudo coube. Já que o universo macabro e modorrento da mansão dialoga com citações estapafúrdias, como a canção da Família Barbosa, para ‘nossa’ alegria.

“A Família Addams” é diversão garantida. Se apegue no modelito a caráter e se jogue. Afinal, para quem é Addams, certo humor é necessário. E ser legal é ser do mal.

Rodolfo Lima

Priscilla – Rainha do Deserto

Comparações são inevitáveis. Mas a versão brasileira do musical “Priscilla – Rainha do Deserto”, não merece o peso dessa associação.  O que salva de antemão a montagem, é o carinho que o público tem pela história. Assim como acontecia com “A Noviça Rebelde” – musical carioca que ficou em cartaz no Teatro Alfa, por exemplo – o público já chega no Teatro Bradesco disposto a gostar da montagem, difícil achar quem não goste do filme. A peça é perfeita? Não, não é. Mas quem se importa?

A produção milionária não poupou esforços para fazer o melhor. E o melhor está exposto no ônibus que sim, é um plus na montagem, e seria inconcebível a história sem ele. E os figurinos (com mais de 500 peças) irretocáveis de Tim Chappel e Lizzy Gardiner fazem toda a diferença, se houvesse uma premiação nacional que valorizasse as produções musicais, o prêmio tava garantido. São roupas e acessórios criativos, coloridos, engraçados, bonitos e (aparentemente) bem feitos.

Numa comparação – elas são inevitáveis – com outro musical gay-bafonico-no-mesmo-teatro chamado “A Gaiola das Loucas”, Priscilla dá um banho no quesito glamour/purpurina. Mas fica aquém nas coreografias, a tal Gaiola trazia coreografias empolgantes e excitantes. Mas justiça seja feita: quando Bernadete vai relembrar da época em que fazia show, o palco se transforma com duas gigantescas escadas e os atores executam muito bem o sobe e desce no número musical. É de se encher os olhos.

Luciano Andrey (Mitzi/Tick), Ruben Gabira (Bernadette) e André Torquatto (Adam/Felicia) possuem empatia e talento. Se sobressaem uns sobre os outros em suas características sem apaga-las ou subjulgar o companheiro de cena. Andrey é emotivo e viril, e harmoniza a tensão entre as demais personagens. Gabira é uma engraçada e romântica Bernadette, tão interessante quanto à do filme. E Torquatto tem jovialidade, beleza e disposição para ser mais que um rosto bonito e talentoso, retrata uma deliciosa Felicia. Aquelas bibas “poc poc” que são tão pixadas, mas que adoramos. Essa harmonia entre virilidade, maturidade e jovialidade é o trunfo da montagem.

Na parte musical a surpresa é a presença de Cindy Lauper no check list. A belíssima “True Colours” acrescenta emoção a encenação e se equipara a presença de Madonna com as batidissimas “Like a Prayer” e “Material Girl”. Impossível não sentir falta das músicas de Charlene “I’ve Never Been To Meela” e Vanessa Williams “Save the best for last”, são tão emblemática no filme, que as ausências são sentidas. Mas ok, Priscilla merece ser vista e aplaudida, pois é um trabalho interessante, que traz novidades para a cena paulista e é belissimamente iluminada por Nick Schlieper. O acréscimo de músicas como “I say a little prayer” é bem vinda.

Há três momentos na peça que merecem destaque e que não consta no filme, ou é um exemplo de que foi muito bem resolvido em cena. A cena em que Mitzi conversa com o filho a sós, a cena em que Felicia corre para não ser espancada e o show final do trio no Cassino Alice.

Os valores do ingresso são salgados – claro, mas o tempo curto, é o ideal. Não se cansa na poltrona e a peça oferece um misto de entretenimento, arte e futilidade. Um belo produto. Sim as cores brilham sem parar e o público se sente acolhido pelo universo colorido das personagens. É quase uma peça família. Ou melhor seria dizer: porque não para toda a familia?

Há breguice? Sim. Há clichê? Sim. Nem tudo é tão incrível. Um exemplo é a mescla do português e do inglês na mesma canção. Serve pra? Não entendi. Outro momento que redunda a peça é a música nacional no final – durante os aplausos. Todo gay se vê nas músicas das Frenéticas? Não, não quero abrir minhas asas e imagino que há “outras” que também não queiram. Gracinhas na montagem nacional a parte, o todo se salva.

O fato das músicas em sua maioria não ser cantada pelo trio protagonista é um diferencial. Que hora soa interessante, ora atrapalha. É interessante vê-las voando sobre as drags, como rainhas/divas/inspiradoras absolutas, mas quando estão no mesmo plano que seus pupilos a magia se dissipa. Cabe ao público ficar completando esses “buracos” na concepção.

Mesmo que não queiramos comparar com o filme, é inevitável. Mas encare como um exercício sadio de associações. Na cena final, os figurinos do filme são lembrados, claro, e é um balsamo para os amantes do filme. Produtos diferentes e tão interessantes quanto. Um complementa o outro de certa forma. Então não tenha medo de deixar transparecer suas cores coloridas e se jogue. Suas cores – assim como as do personagem – são bonitas e verdadeiras.

Rodolfo Lima

Publicado originalmente no endereço: http://mixbrasil.uol.com.br/cultura-gls/teatro/priscilla-e-musical-bonito-de-se-ver-em-sao-paulo.html

 

21° Festival de Curitiba

Cena da peça "Eqqus"

A 21° edição do Festival de Curitiba acabo neste domingo (8) oferecendo um mix de teatro, dança, cinema, show. Entre as centenas de peças que o Festival trouxe em sua programação dividida – por exemplo – entre XXX, Fringe e Mostra Oficial, o Mix acompanhou 16 peças, das quais 10 trazia de alguma forma conteúdo LGBT em suas propostas.

O musical sobre a eterna Dorothy e seus destemperos amorosos e emocionais empolgaram e emocionaram a platéia presente no Teatro Guaira – cartão postal da cidade. “Judy Garland – O fim do arco-íris” era/é um ícone gay e o musical que retrata os últimos meses da sua vida, faz jus a sua história além de ser um belo cartão de visita para os desavisados. Morta aos 48 anos por efeitos de barbitúricos, Judy tinha em seu pianista – fiel escudeiro gay – o apoio que recai sempre sobre os amigos homossexuais das meninas. Francisco Cuoco funciona bem e sua fama não ofusca Claudia Netto. Carismática, despojada e com uma voz de emocionar cadáver, a atriz desempenha com propriedade a perda do arco-íris na vida de Judy.

Pernambuco trouxe a Mostra Oficial duas peças: “Aquilo que meu olhar guardou para você” e “Essa febre que não passa”, peças que tratava de sentimentos que burlam com amor, atenção, rejeição, entre outros. Os 5 atores do grupo Magiluth falaram mais do que mostrou o que o olhar do outro deveria refletir sobre eles. Dirigida por Luiz Fernando Marques a peça é feita de cenas soltas e depoimentos pessoais, atrelados a uma pretensa festa – onde não há bebida para todos – para assim impor o clima de intimidade entre público x plateia. Cenas de beijo e abraços entre eles recheiam a montagem que se preocupa com o blá blá blá por vezes histriônico – e parece se perder no próprio roteiro. Sabemos onde começa, mas onde termina…

Em contrapartida as atrizes do Coletivo Angu de Teatro trouxeram a cena os meandros da sensibilidade feminina. Na primeira história, vemos uma mulher em dúvida entre comprar ou não um gato para a namorada. Retratação sutil do amor homossexual entre mulheres que amam demais e acabam sós. O tom monocromático da encenação uniformiza as personagens (e as atrizes de certa forma) e impede que as histórias tenham vida própria, emolduradas num formato cafona, imposto pela direção de André Brasileiro e Marcondes Lima.

O autor Caio Fernando Abreu é presença obrigatória no Festival. Todo ano tem, pode procurar. Do Rio de Janeiro “Cartas para além dos muros”, de Curitiba “Amor e Ponto”. Ambos pecam por um problema: esquece de servir ao universo do autor. Com direção de Adriana Sottomaior, “Amor e ponto” é mais problemática. Apoiado em contos conhecidíssimos do autor, os atores narram as histórias, sem o menor tempo para que se percebam o que está acontecendo. Forçam uma emoção e acabam se tornando mais frágeis como artistas, do que talvez sejam. Puro simulacro.

A montagem carioca costura Caio com depoimentos pessoais e vende tudo como produto do autor. É mentira. Frases soltas e pensamentos permeiam a montagem que força a mão no “vamos emocionar o público” e apresentam um panorama bem irregular do que seria as supostas ‘Cartas para além do muro’. Escritas quando o autor se encontrava internado no Instituto de Infectologia Emilio Ribas. Não, definitivamente rostos bonitos e simpáticos não bastam para defender com propriedade um universo tão denso, verdadeiro e questionador.

O público jovem/adolescente podia se identificar com o jovem Felipe na peça “Memórias de Garagem”, afinal aos 15 anos não se sabe muito bem o que se é, do que se gosta. A peça é sobre uma turma de escola, e toda turma que se preze tem um “afrescalhado”. A direção de Humberto Gomes trabalhou bem as personalidades de seus atores, mas impôs um ar retrô – e por vezes não crível – na parte musical. Colocar eles para cantar Legião Urbana, Balão Mágico e Kid Abelha (oi?) destoa do universo da “galera”.

A trans mais pop de Curitiba Maite Schneider é uma das atrizes de “Geração Whatever”, onde vemos uma mulher fútil, rica e desiludida, um crítico e dois homossexuais que trabalham com “pé e mão”, e uma pastora. História que não vai muito longe e para piorar traz dois gays estereotipados, bizarros e afetados além da contas. Piadas soltas não salvam o texto de Cesar Alemida, da “punhetação” filosófica, sobre o mundo e suas consequências.

O momento mais homoerótico de todos ficou para a peça “Eqqus” onde vemos Alan (Leonardo Miggiorin) e seu cavaloaladosexualfálico levá-lo para os descaminhos da mente humana em descoberta dos seus instintos animalescos. O confronto entre Alan e seu psiquiatra e as questões que surge desse embate, provoca o público há quase 40 anos. Alexandre Reinecke dirige seus trabalhos a toque de caixa, mas soube trabalhar a contento o lado sexualizado da história. Miggiorin defende com intensidade exarcebada seu personagem perdido entre os caminhos da moral e dos instintos, incapaz de discernir o que é melhor para si. Mas alguém aos 20 anos tem certeza de algo?

O melhor ficou na mão dos mineiros de “Drika”, ser andrógino, questionador e piadista. A encenação trazia em a cena três gays de gerações diferentes com problemas similares. Texto ácido que não omite o lado b dos gays e nem se furta de ocultar caminhos incômodos para a plateia. Tudo muito simples, nem sempre elaboradas a contento, ou “encaixadas” de forma coerente. Mas ok, no mundo disforme de Drika, até tal desordem faz parte.

Na grade de programação havia duas versões para Satyricon. Fui conferir a dos curitibanos. De longe o momento mais excitante de todos. Com direção de Edson Bueno e recheado de ninfetos, a peça “Satyricon Delírio” rejuvenesce a história com toda a imaturidade do elenco. Bueno trabalhou com o universo de seus atores e cacos, piadas e referências contemporâneas permeiam a peça toda. É uma delicia de assistir, embora em alguns momentos a peça peque pelo excesso – como o final, por exemplo. As aventuras de Ascilto, Gilton e Encolpo são engraçadas e provocativas. A saga orgiástica do trio revela bastante sobre nossos desejos e impulsos sexuais.

Rodolfo Lima

*O jornalista viajou a convite do Festival

Publicado originalmente no endereço: http://mixbrasil.uol.com.br/cultura-gls/teatro/colunista-faz-balanco-do-festival-de-curitiba.html

Drïka

“Se todas as bichas fossem pintadas de verde as pessoas achariam que a terra teria sido invadido por extraterrestres”, é com essa metáfora que “Drika” começa sua crítica sobre o universo gay.

Os atores Paolo Madatti, Luiz Felipe D’Avila e Henrique Limadu – este último também diretor, dão vida a três gays de épocas diferentes e comportamentos similares. É uma reflexão ácida sobre a história e os rumos da identidade homossexual.

E tome referências: Madonna (Paradise Not For Me), Jair Bolsonaro, vídeo, internet, gírias, o filme “O Céu de Suely”, Lênin, Adolf Hitler. Nesse balaio – nem sempre harmônico e crível – vale tudo, mas o grupo escorrega em vários momentos, nem sempre as amarrações entre uma cena e outra funciona a contento.

O trabalho é muito simples, pois se trata de cenas amarradas a partir da história de Drika, um ser que não se encontra no corpo que habita, potencializando o deslocamento existencial do ser humano – em particular de transexuais e travestis – por exemplo.

“Eu vou me tornar uma idéia e você vai me amar por isso”, a frase dita por um dos personagens ilustra com muita propriedade o universo homossexual, onde o mundo das idéias é super valorizado em função da crueza da realidade.

Cenas engraçadas, debochadas e sentimentais são alternadas para que o público veja a variedade do significado da palavra GAY. A quantidade de tipos que se enquadram nessa “categoria” ressalta a individualidade e intolerância entre eles.

 Palco praticamente nú, projeções na parede “aleatoriamente” selecionadas, para dar uma cara de “modernidade”, um personagem principal em constante (re)construção e um texto fragmentado para enfatizar a perda da imposição das verdades.

É no mínimo curioso acompanhar Drika e seus amigos. Eles merecem ser conhecidos.

A companhia 171, participou do 19° Festival de Curitiba na Mostra FRINGE de 01 a 4 de abril.

Rodolfo Lima

*O Jornalista viajou a convite do festival.

“Amor e ponto” e “Cartas para além dos muros”

 

cartas para além dos muros

Encenar bem Caio Fernando Abreu é tarefa para poucos. A literatura cotidiana e sensível do escritor gaucho permanece tocando artista e público Brasil afora. Sinal de sua contemporaneidade. No Festival de Curitiba é de praxe peças encenadas a partir dos seus textos. Este ano “Amor e ponto” e “Cartas para além dos muros” assumiram a vez.

“Amor e ponto” é um trabalho de Curitiba dirigido por Adriana Sottomaior. Em cena contos como “Sapatinhos Vermelhos”, “Sem Ana, blues”, “Além do ponto”, “Os sobreviventes” – entre outros – e o conhecidíssimo “Dama da noite”.

Desafio não completado a contento. A encenação é frágil, o texto ora é “vomitado”, ora colocado sem nuances, ora sem a menor noção do que se diz. E o tom choroso que os atores imprime nos personagens tornam tudo mais arrastado. Talvez Adriana tenha pretendido deixar tudo soft demais e acabou prejudicando a peça como um todo. Ninguém pode interpretar uma Dama da Noite da forma como o grupo o fez. Não é crível.

Do Rio de Janeiro, com direção de Daniel Pereira, “Cartas para além dos muros” também fica a desejar. Se o primeiro peca pela falta de verdade cênica, o segundo quer se fazer “verdadeiro” demais, com um visual despretensioso e acaba não dando conta de apreender os sentidos das cartas que o escrito escreveu para além dos muros do hospital em que ficou internado.

A peça parte do ato de escrever cartas – hábito rotineiro do escritor – e não especifica o porquê do “além dos muros”. O público entende que é uma metáfora? Então tá! Então o que vemos é um sarau cênico com cenas atreladas a depoimentos pessoais, tudo levando o nome do autor, erro crasso, nem tudo que se diz na peça é Caio.

Os dois grupos querem sensibilizar seu público a qualquer custo. O primeiro pelo choro forçado e a solidão escancarada dos personagens e o segundo pela impostação do “somos sensíveis” e revelamos nossos segredos. Ambos esqueceram o básico: de servir a obra do autor.

Rodolfo Lima

* O Jornalista viajou a convite do Festival

Eqqus

 

O lado animal do ser humano é sempre algo complexo de se lidar. O teatro é bombardeado de textos que burlam com essa temática. Eqqus, escrito em 1973 por Peter Shaffer é considerado um clássico do teatro mundial. E suas questões permanecem pertinentes.

Como domar o instinto que nos toma por inteiro e nos tira a normalidade? Como compreender no outro a complexidade dos seus desejos e mesmo assim aceitá-lo? Quem é o normal? Quem acusa, ou o acusado? A partir de que parâmetro se encontra a verdade?

Alan Strung (Leonardo Miggiorin) é um rapaz de 20 anos, enebriado pela figura do cavalo e as sensações que o mesmo lhe provoca. Ao se deparar com seu instinto mais irracional o garoto não lida bem com a situação e provoca estragos. Porque somos todos assim: irracionais diante do inesperado.

O embate entre as questões do menino e do psiquiatra (Elias Andreato) revelam que as subjetividades se confluem e se chocam de acordo com o grau de percepção que se tem da realidade e seus descaminhos. É um embate a se observar, o texto abre margem para questões pertinentes a nossa realidade.

A direção de Alexandre Reinecke é bem irregular e oferece registros diferente na composição dos atores; Os cenários de André Cortez ora estábulo, ora cinema, ora casa o protagonista, pesa a cena e deixa tudo muito pesado; E a luz de Paulo Cesar de Medeiros é funcional. E houve muitas pessoas que torceram o nariz para a montagem nas apresentações no Festival de Curitiba.

Porém justiça seja feita, o tom homoerótico do trabalho alcança bons momentos. As cenas emblemáticas que Alan se relaciona com o cavalo é de encher os olhos. E está muito bem dosada. Há ali tensão, tesão, conflitos e emoção. Leonardo tem a difícil missão de conduzir o trabalho com um personagem tão conflituoso. A cena de sexo entre seu personagem e a garota é outro bom momento. Reinecke não é um diretor de inovações portanto não espere muito. Mas Miggiorin – que para muitos está acima do tom necessário – se entrega (caracteristica para poucos) a Alan e seus descaminhos.

Rodolfo Lima

Shame

“(…)’Shame’ também é político. (…) é sobre como a liberdade de alguém pode aprisioná-lo” – Michael Fassbender

Para algumas pessoas o sexo é sinônimo de vício. Um vício tão sorrateiro, que quando a pessoa se percebe ali, já não há mais volta. Tão viciante quanto às drogas e tão inebriante quanto o álcool, o sexo proporciona emoções à flor da pele e prazer imediato. Tão rápido, que é impossível contabilizar o tempo. E vem daí a necessidade desenfreada de mais.

Em Shame, Michael Fassbender (Brandon) dá vida a um cara que não vê possibilidades e nuances em ninguém. Qualquer mulher pode ser passível de receber seu gozo e não importa os meios que ele se utiliza para conseguir isso. Prostitutas, sexo pela cam, homossexuais, colegas de trabalho e por ai vai. No mundo de Brandon a realidade é literalmente foda.

O filme de Steven McQueen é seco, não abre concessões – nem para o público, nem para o personagem – e vai mostrando a vida de Brandon da forma mais crua que pode. Até a lágrima que rola no rosto do protagonista, quando ele vê a irmã cantar sua solidão – parece ser “colocada” ali para enfatizar que sim, apesar de ser uma máquina do sexo, ele tem sentimentos, mas não se rende.

Não conheço um dependente sexual que se renda. Para eles não a fim na sua compulsão por sexo, por sua desenfreada busca por algo que ele não faz a menor idéia do que seja. Claro que existe aqueles que convivem bem com essas questões. Mas não é o caso de Brandon.

O filme é um espelho da contemporaneidade, onde as pessoas trepam sem a menor preocupação, sem criar vínculos, sem construir histórias. O mundo está muito rápido e as pessoas tem pressa. Não há como perder tempo com o outro. Me fez gozar? Ótimo, pegue suas coisas e suma.

Essa frieza das relações – ironicamente – é o que comove o espectador de Shame, Fassbender traz uma ambiguidade interessante para o personagem. Revela seu interior, ao mesmo tempo em que consegue se mostrar sacana e perigosamente irresistível.

A cena mais emblemática é justamente quando o personagem revela que não é capaz de transar com quem ele estabelece vínculos. É de uma realidade que incomoda. Estamos tão inebriados pelo novo, pelo desconhecido, pela pulsão do mistério, que rever todo dia o mesmo corpo, ou revelar intimidade pra alguém que pode te desmascarar, é tarefa para poucos.

O contraponto da historia é a presença da irmã (Carey Mulligan). Solitária, frágil e carente, a irmã é o irmão sem as mascaras. E ao se confrontar com essa realidade suicida, Brandon se incomoda e se revela ao espectador. Não, ele não é apenas um escroto a fim de fuder o primeiro buraco que encontrar. Há mais por trás do seu sex appeal.

Shame não é fácil e não oferece respostas. Não vai pelo caminho dos filmes com personagens problemáticos que encontram a redenção no final da película. Não há respostas, há só perguntas e o espectador que seja capaz de não julgá-lo.  É um bom exemplo do esvaziamento das relações, da descrença no outro. E creia, o mundo está cheio de Brandon(s) por ai.

Rodolfo Lima