
Cena da peça "Eqqus"
A 21° edição do Festival de Curitiba acabo neste domingo (8) oferecendo um mix de teatro, dança, cinema, show. Entre as centenas de peças que o Festival trouxe em sua programação dividida – por exemplo – entre XXX, Fringe e Mostra Oficial, o Mix acompanhou 16 peças, das quais 10 trazia de alguma forma conteúdo LGBT em suas propostas.
O musical sobre a eterna Dorothy e seus destemperos amorosos e emocionais empolgaram e emocionaram a platéia presente no Teatro Guaira – cartão postal da cidade. “Judy Garland – O fim do arco-íris” era/é um ícone gay e o musical que retrata os últimos meses da sua vida, faz jus a sua história além de ser um belo cartão de visita para os desavisados. Morta aos 48 anos por efeitos de barbitúricos, Judy tinha em seu pianista – fiel escudeiro gay – o apoio que recai sempre sobre os amigos homossexuais das meninas. Francisco Cuoco funciona bem e sua fama não ofusca Claudia Netto. Carismática, despojada e com uma voz de emocionar cadáver, a atriz desempenha com propriedade a perda do arco-íris na vida de Judy.
Pernambuco trouxe a Mostra Oficial duas peças: “Aquilo que meu olhar guardou para você” e “Essa febre que não passa”, peças que tratava de sentimentos que burlam com amor, atenção, rejeição, entre outros. Os 5 atores do grupo Magiluth falaram mais do que mostrou o que o olhar do outro deveria refletir sobre eles. Dirigida por Luiz Fernando Marques a peça é feita de cenas soltas e depoimentos pessoais, atrelados a uma pretensa festa – onde não há bebida para todos – para assim impor o clima de intimidade entre público x plateia. Cenas de beijo e abraços entre eles recheiam a montagem que se preocupa com o blá blá blá por vezes histriônico – e parece se perder no próprio roteiro. Sabemos onde começa, mas onde termina…
Em contrapartida as atrizes do Coletivo Angu de Teatro trouxeram a cena os meandros da sensibilidade feminina. Na primeira história, vemos uma mulher em dúvida entre comprar ou não um gato para a namorada. Retratação sutil do amor homossexual entre mulheres que amam demais e acabam sós. O tom monocromático da encenação uniformiza as personagens (e as atrizes de certa forma) e impede que as histórias tenham vida própria, emolduradas num formato cafona, imposto pela direção de André Brasileiro e Marcondes Lima.
O autor Caio Fernando Abreu é presença obrigatória no Festival. Todo ano tem, pode procurar. Do Rio de Janeiro “Cartas para além dos muros”, de Curitiba “Amor e Ponto”. Ambos pecam por um problema: esquece de servir ao universo do autor. Com direção de Adriana Sottomaior, “Amor e ponto” é mais problemática. Apoiado em contos conhecidíssimos do autor, os atores narram as histórias, sem o menor tempo para que se percebam o que está acontecendo. Forçam uma emoção e acabam se tornando mais frágeis como artistas, do que talvez sejam. Puro simulacro.
A montagem carioca costura Caio com depoimentos pessoais e vende tudo como produto do autor. É mentira. Frases soltas e pensamentos permeiam a montagem que força a mão no “vamos emocionar o público” e apresentam um panorama bem irregular do que seria as supostas ‘Cartas para além do muro’. Escritas quando o autor se encontrava internado no Instituto de Infectologia Emilio Ribas. Não, definitivamente rostos bonitos e simpáticos não bastam para defender com propriedade um universo tão denso, verdadeiro e questionador.
O público jovem/adolescente podia se identificar com o jovem Felipe na peça “Memórias de Garagem”, afinal aos 15 anos não se sabe muito bem o que se é, do que se gosta. A peça é sobre uma turma de escola, e toda turma que se preze tem um “afrescalhado”. A direção de Humberto Gomes trabalhou bem as personalidades de seus atores, mas impôs um ar retrô – e por vezes não crível – na parte musical. Colocar eles para cantar Legião Urbana, Balão Mágico e Kid Abelha (oi?) destoa do universo da “galera”.
A trans mais pop de Curitiba Maite Schneider é uma das atrizes de “Geração Whatever”, onde vemos uma mulher fútil, rica e desiludida, um crítico e dois homossexuais que trabalham com “pé e mão”, e uma pastora. História que não vai muito longe e para piorar traz dois gays estereotipados, bizarros e afetados além da contas. Piadas soltas não salvam o texto de Cesar Alemida, da “punhetação” filosófica, sobre o mundo e suas consequências.
O momento mais homoerótico de todos ficou para a peça “Eqqus” onde vemos Alan (Leonardo Miggiorin) e seu cavaloaladosexualfálico levá-lo para os descaminhos da mente humana em descoberta dos seus instintos animalescos. O confronto entre Alan e seu psiquiatra e as questões que surge desse embate, provoca o público há quase 40 anos. Alexandre Reinecke dirige seus trabalhos a toque de caixa, mas soube trabalhar a contento o lado sexualizado da história. Miggiorin defende com intensidade exarcebada seu personagem perdido entre os caminhos da moral e dos instintos, incapaz de discernir o que é melhor para si. Mas alguém aos 20 anos tem certeza de algo?
O melhor ficou na mão dos mineiros de “Drika”, ser andrógino, questionador e piadista. A encenação trazia em a cena três gays de gerações diferentes com problemas similares. Texto ácido que não omite o lado b dos gays e nem se furta de ocultar caminhos incômodos para a plateia. Tudo muito simples, nem sempre elaboradas a contento, ou “encaixadas” de forma coerente. Mas ok, no mundo disforme de Drika, até tal desordem faz parte.
Na grade de programação havia duas versões para Satyricon. Fui conferir a dos curitibanos. De longe o momento mais excitante de todos. Com direção de Edson Bueno e recheado de ninfetos, a peça “Satyricon Delírio” rejuvenesce a história com toda a imaturidade do elenco. Bueno trabalhou com o universo de seus atores e cacos, piadas e referências contemporâneas permeiam a peça toda. É uma delicia de assistir, embora em alguns momentos a peça peque pelo excesso – como o final, por exemplo. As aventuras de Ascilto, Gilton e Encolpo são engraçadas e provocativas. A saga orgiástica do trio revela bastante sobre nossos desejos e impulsos sexuais.
Rodolfo Lima
*O jornalista viajou a convite do Festival
Publicado originalmente no endereço: http://mixbrasil.uol.com.br/cultura-gls/teatro/colunista-faz-balanco-do-festival-de-curitiba.html