Sobre Renata Carvalho e o Movimento Nacional de Artistas Trans

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Aprendi recentemente que o afeto não é suficiente para sustentar uma opinião. Fui acusado de opressor e isso me colocou a pensar – mais – sobre o assunto que o Coletitvo T, encabeçado pela atriz Renata Carvalho, colocou em pauta de maneira irreversível no ambiente teatral. Algo denominado TRANS FAKE que simplificando é a ausência de atores e atriz travestis e transexuais em prol de atores cisgêneros (que tem sua expressão de gênero compatível com seu sexo biológico) para interpretarem personagens com tal singularidade. Assim como o movimento do black face, talvez cabe ai uma reparação histórica, já que entre as reivindicações está o fato delas deixarem de ser apenas objeto de estudo para artistas interessados nesse universo, para ocuparem o posto de protagonismo da ação. Seja ela peça de teatro, novela, filme, videoclipe, dança e por ai ai. Uma amigo relembra que a associação black/trans com o fake seria um erro, já que os negros eram proibidos de intepretarem, e as travestis não. Bom, elas se sentem vilipendiadas e excluídas. É um assunto polêmico, delicado, complexo e cheio de nuances. Eu, como ator, parto do principal que o artista pode tudo, e isso me deixa tendenciosamente do lado de profissionais como Silvero Pereira e Luis Lobianco. Antes de falar sobre as peças deles, quero falar sobre  a acusação de ser um opressor e reiterar que a afetividade não me salvou. Quem me acusou foi a amiga que suponho ter, a própria Renata.

Se pensarmos numa retrospectiva afetiva sobre personagens travestis no teatral, qual suas referências? Me peguei a pensar. Queria achar o cerne da questão. Onde germinava essa minha tendência a favorecer os atores cis, em prol da artistas travestis? Queria apoia-lás 100% mas não consigo. Sou transfóbico? Que “lugar” é esse que elas reiteram que eu ocupo que me dá o direito de dizer que elas estão equivocadas? Não há sossego para quem se põe a pensar nisso. Amigos vem até mim para dialogar sobre a questão e percebo que é um assunto que inquieta a todos, mesmo que muitos não queiram se envolver e/ou se aprofundar no assunto. Mas eu quis, quero, vou querer.

Minha memória volta pra 2006 depois de ver as peças “O Anjo do Pavilhão Cinco” e “Abre as Asas sobre Nós”, produção do ator André Fusko, que ocupou os espaços Satryos e Parlapatões e que com equipes diferentes trazia duas versões para a realidade da travesti Barbara e a transexual Galega. A primeira foi interpretada por Ivam Cabral e Emerson Rosini e a segunda por Rodrigo Gaion, Walter Baltazhar e Maria Gandara. Todos cisgêneros. O que me chamou a  atenção na época nessas peças não foi a questão pautada hoje pelo Movimento Trans: Onde estão as artistas Travestis e Transegeneres!!! E sim a violência da realidade delas, as complexidades da diferença entre travestilidade e transexualidade e claro…a qualidade do trabalho… dos a.to.res. Fã dessa dobradinha, o “Projeto Bárbara ao Quadrado” foi tema do trabalho de Iniciação Cientifica na Universidade. Ivam Cabral por exemplo deu corpo a outra personagem que adorei na época que protagonizava a peça “Transex” (2004), do grupo Os Satyros. Na época mesmo tendo no elenco Phedra de Córdoba (1938-2016) e Savanah Meirelles, o papel da transexual protagonista foi para um ator cisgenero, algo impensado hoje em dia. Pirei nos closes, na afetação, no colorido, na composição do Ivam e tudo aquilo que o universo gay valoriza. Você se incomodou com o fato “delas” não ocuparem o lugar “delas”? Nem eu… nem percebi. É essa conscientização, que não fomos educados a ter, que elas reivindicam.

Pensando ainda na questão afetiva e referencial… lembro de Olair Coan (1959 – 2007) em “Pobre Super Homem” (2000) e do meu entusiasmo para ir ver  Rogéria em ” 7 – o musical” (2007), da presença mítica de Maite Schneider pelo Festival de Teatro de Curitiba. Assumo, Phedra nunca me foi referencial, mesmo se eternizando como musa absoluta dos’Satyros. Não sei onde estava as outras atrizes travestis, nem sabia da existência delas, eis a verdade. A ignorância é minha. Mas reflete a maioria. O imbróglio começa ai, na falta de referencial. O filme de Leandra Leal “Divinas Divas” veio para enfatizar que elas existiam a décadas, faziam muito mais teatro que imaginávamos e do que os livros deram conta de pautar. Cansadas desse inviabilização, Renata lidera a luta contra esse fato. Creio que demorá anos para que se repare essas questão. E o questionamento delas põe por terra meu desejo de interpretar a travesti da peça “Avental todo sujo de ovo”. Teria que achar uma contra partida boa para que eu me emponderasse desse personagem.  Bancar a produção não é um argumento válido, para elas.

O importante, creio, que é a empatia pela questão. Acho que muitos tem, porém com ressalvas. E são essas ressalvas que fazem com que a amiga me acuse tão severamente. Entendo sua postura. Não sei mensurar o grau de legitimidade de seu protesto, escuto e reflito. Diante do imbróglio, peças como “Luiz Antonio Gabriela”, “BRTrans” e “Gisberta” são o alvo de questionamentos das artistas. A questão não é impedir que o outro o faça, sim elas não gostam, mas o pior para elas é serem subestimadas. E como combater esse descaso?

Nesse sentido apoio o barulho em torno de “Gisberta”, Lobianco estreou a peça quando o Movimento estava dando seus primeiros passos. E foi alvo de desconforto de cara. E o que o ator fez para sanar essas questões? Na contestação, elas pedem a inserção no mercado de trabalho. Se eu fosse amigo de Lobianco teria dito: “bee, contrata uma para te maquiar, outra para distribuir os programas e elas estarão parcialmente satisfeitas e te darão uma trégua”. Mas ele defender que lutou com os amigos – todos Cis – e que conta com o apoio da família da Gisberta – todos cis – não pode ser aceito como resposta válida. Se o Brasil é o pais que mais mata a população T e elas estão gritando por visibilidade, empregabilidade e oportunidades, como se portar diante desse pedido de socorro? Coloco minha peruca, me maqueio e subo no palco?

O caso do Lobianco é um caso diferente do trabalho de Silvero Pereira que está anterior a todo esse debate. É inegável a qualidade da performance do ator em cena. Seu BRTrans o tornou nacionalmente conhecido, fez com que o mesmo circulasse por todos os principais festivais do país e o alçou a ator de telenovela.  No caso dele, temos duas questões, a peça e a personagem: Gisele Almodovar, alter ego do ator, que se se identifica com um gênero fluido, ou seja, transita entre o feminino e o masculino sem se ater a nenhum deles definitivamente. O histórico do artista com as travestis o gabaritaria a ocupar o lugar que ele ocupa, afinal ele é um ator e lutou pelo reconhecimento. O ônus e o bônus disso, não sei se me cabe julgar. Mas para elas uma das questões é ele lucrar em cima dessa “montação”.

Assim como “BRTrans”, “Luiz Antonio Gabriela” – considerado por algumas delas, transfóbico – modificou o paradigma da opinião do público sobre as questões da travestilidade. Ou seja, são um marco, o teatro e as atrizes do Movimento devem a esses dois trabalhos uma reverência. Pois de lá para cá, tudo o que se faz sobre travesti – onde as mesmas não são interpretadas por atrizes T – parece orbitar em volta dessas referências, convenhamos. Como acusar o ator Marcos Felipe, diante de uma composição tão delicada para sua Gabriela? Não consigo. Como invalidar o lugar do Silvero? Não consigo. Como dizer que Carol Duarte deveria ter recusado o papel na novela em prol de uma atriz trans? Não consigo. Não consigo apoiar minha amiga integralmente.

A matéria de Gustavo Fioratti na Folha de São Paulo, de ontem (12/01) traz na manchete “Ativistas atacam ator que faz trans em peça”. O certo não seria anunciar que elxs reivindicam esse lugar? Material inútil, não problematiza a questão e fazer alarde em cima do ponto nevrálgico: quem ataca quem? Atacar é um verbo que por si só, já traz um simbolismo de desrespeito pelo outro. Mas nesse caso, quem tá desrespeitando quem? As cinco travestis que entraram para ver a peça na estreia em BH e deixaram para se manifestar legitimamente no final, com cartaz, nudez e a fala, ou o ator, que dizem – saiu escoltado por seguranças pelos fundos do teatro? Olha o B.O.

Renata Carvalho não é só a atriz de “O Evangelho Segundo Jesus – Rainha do Céu”, meu referencial afetivo dela, vem do seu solo “Dentro de mim mora outra”, mas claro que a peça que supõe a volta de uma Jesus Travesti, a emponderou e a tornou uma voz de projeção no meio do descaso e da invisibilidade. Gosto de pensar que apoio a luta da minha amiga e de suas parceiras, embora tenha muita dificuldades em aceitar o Manifesto na integra. Falho, me falta compreensão, assumo.  Ver o texto de Tony Goes desmerecendo esse lugar que Renata pleiteia, desmerecendo a repercussão belíssima e necessária da peça que nos oferece a oportunidade de rever os escritos da bíblia por outros ângulos, é de uma tristeza sem fim. Somos todos fóbicos. O desafio diário é lutar contra essas fobias que nos impede de exercer a alteridade.

Ao ver a imagem criada por Neto Lucon para apoiar a Renata, não pude ficar indiferente. Estou a investigar as raízes da minha inquietação perante o assunto. Defendo que nossa dificuldade vem da falta de referencial afetivo. Da nossa dificuldade de abrir mão do que nos afetou e nos transformou. É como se não fossemos capazes de olhar com empatia para o trabalho delas, as possibilidades do corpo delas. E isso é sério. Gostei muito de ouvir a fala de uma atriz chamada Leonarda Glück, onde ela baliza a questão dizendo não ser contra a presença de cis em peças que retratem as Ts, desde que se tenha empatia, respeito e ofereçam um trabalho digno e de qualidade. Caso contrário, sim o barulho se faz necessário. Para mim o Movimento do Coletivo está mais associado a movimentos sociais, onde indivíduos lutam primeiro por uma oportunidade, revogam um lugar, para depois se questionar a qualidade e abrangência dessa oportunidade. É um buraco bem profundo.

Rodolfo Lima

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Hebe, o musical

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Existem figuras públicas que se tornam míticas em vida, foi o caso da apresentadora Hebe Camargo (1929 – 2012), a estreia do musical em 2017 só veio reforçar a imagem recheada de empatia e graça que envolvia a artista. Com direção de Miguel Falabella e dramaturgia de Arthur Xexéo o musical é uma oportunidade ótima para rever a trajetória de Hebe, pena que foi desperdiçada a oportunidade de problematizar questões importantes na vida e obra da protagonista. Os temas estão lá, esboçados, mas sem aprofundamento que dê peso e potência a retratada. O público se diverte mas é uma pena essa falta de “sustança” no todo.

Hebe casou com o primeiro Hebe se “amigou”, mas como diziam na época “amigado com fé casado é”) três vezes: Luís (Frederico Reuter), Décio (Guilherme Magon) e Lélio (Dino Fernandes) e em todos os casos foi alvo de maridos machistas e que de certa forma cobraram um preço alto para que Hebe pudesse compartilhar de uma casa – seu sonho era uma com três cômodos – e o amor de um homem. Com Décio, Hebe teve seu único filho. O que aconteceu com o filho que Hebe esperava de Luís, quando terminou seu relacionamento com Luís,  a peça não conta.

Então nesse embate entre entre Hebe e seus homens, as velhas questões masculino x feminino vem a tona e vemos uma mulher emponderada, que no limite, privilegiava a carreira e jamais aceitou por muito tempo ser condicionada aos desejos de um homem. Feminista portanto, diriam alguns. A peça não reforça essa ideia, mas supor isso torna a figura de Hebe mais interessante. Com certeza os dilemas enfrentado na carreira pela apresentadora, em confronto com seus desejos e sonhos pessoais contém muito dos antagonismos que nos faz mais humanos e mais interessantes. Essas questões provavelmente reforçaram a força de Hebe como mulher, comunicadora e uma voz dissoante na TV Brasileira. Só no SBT – onde minha memória alcança – foram 24 anos a frente do seu programa de entrevistas.

Outra questão emblemática é a carreira de cantora, que foi suplantada pela projeção de Hebe na função de apresentadora, revelando que esse foi um dos grandes celeumas na sua carreira. Hebe não teve uma projeção como cantora, é a peça sugere uma pontinha de mágoa por isso, sugerida na cena que Agnaldo Rayol convida Hebe para cantar com ele. Se Hebe foi um cantora frustrada, se o mercado a rejeitou, se os maridos a impediram… são muitas questões implícitas no universo de Hebe. Essa problematização aumentaria o drama da retratada, mas a peça se revela um retrato leve e ilustrativo, optando por desviar da complexidade que preenchia a protagonista. Um público mais crítico se ressente.  Faltou algo ali.

Por se tratar de um musical, a direção de Daniel Rocha não empolga. Sem a inclusão de grandes hits, e com versões desinteressantes das mais conhecidas, os números musicais ficam aquém. As coreografias de Fernanda Chamma também não é que de melhor o espetáculo oferece. Assim como a cenografia de Grinco Cardia e o visagismo de Anderson Bueno em muitos momentos tua soa apatica e gélido. As exceções são os figurinos de Ligia Rocha e Marco Pacheco, e claro Débora Reis, a Hebe em questão.

Alçada a diva por sua composição, Débora oferece uma Hebe sem nuances. Sua composição “chapada” é um problema, pois entrega todos os trejeitos que fizeram a graça de ser “Hebe” nos últimos anos de vida. A sutileza que apresenta quando Hebe aparece envelhecida – por exemplo – é abafada pelos gracejos da personagem, aparentemente sempre pronta a fazer graça e arrancar riso do seu público. Esse maniqueísmo é prejudicial para a composição da atriz, que parecida com a sua homenageada, fica refém do apelo ao riso. As direções de Falabella geralmente oscilam entre os apelos do mercado e as possibilidades de uma investigação artística. Hebe é fruto da primeira opção.

A composição de Carol Costa, que dá vida a Hebe jovem, também sofre desse otimismo forçado.

Nair Bello e Lolita Rodrigues (Renata Ricci) formavam com Hebe um delicioso “clube da luluzinha”. Momento muito bem vindo na montagem – arejando a dramaturgia que patina na repetição de um talk show  –  que humaniza Hebe. O diálogo do encontro de Hebe com Lolita, quando a primeira já se encontrava adoentada é um momento inesquecível. Amigas que se distanciaram por questões pessoais, ao ver a Lolita, Hebe dispara: “Se eu soubesse que você só viria me ver quando eu estivesse doente, teria adoecido antes”.

O momento mais dramático fica para o final, quando é reservado o momento da música “Você não sabe”, escrita por Roberto Carlos e Erasmo Carlos e claro, a morte da protagonista. Curiosamente seria o momento onde o melodrama ganharia uma força incontrolável, pois além da belíssima música que fala da presença de um amor infinito ela serve para ilustrar a ausência definitiva de Hebe. Mas não é o que se vê. Esse seria o melhor momento para que víssemos Débora Reis trabalhar – e emocionar –  para retratar um momento singular na carreira de Hebe, que foi a participação no show do cantor “Elas cantam Roberto Carlos”. O malabarismo musical para incluir todos na canção é um momento memorialista e pretensiosamente apoteótico, que não funciona. Uma pena.

Cheio de altos e baixos “Hebe – o musical” é o exemplo do quão é importante ter uma protagonista de peso. É a prova cabal de como o público – que continua lotando as sessões – já chega pretenso a gostar, já que supostamente era o público da apresentadora. A grande questão é surpreender esse público e oferecer um produto para além do retrato informativo. Tem que pagar para ver, literalmente.

Rodolfo Lima

obs: a peça segue em cartaz no Teatro Procópio Ferreira, até o dia 25 de fevereiro de 2018, de quinta a domingo, em diversos horários e ingressos que variam de R$50 a R$190 reais.

L – o musical

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Peças com conteúdo gay feminino são praticamente uma raridade na dramaturgia nacional. Segundo meus arquivos de 2000 para cá são pouco mais de 30 peças que versam sobre o amor entre mulheres. Para se ter uma noção, comparando com peças sobre homens gays, os números são 10 vezes maiores. L, o musical vem engrossar a lista, mas é bem frágil no que tange uma dramaturgia consistente.  Com direção e texto de Sérgio Maggio, a peça é mais um apunhado de cenas,  que juntas tem lá sua graça, mas inflada pela reação do público, que vibra com as canções imortalizadas por cantoras lésbicas.

Assisti uma das últimas apresentações da temporada carioca e o público reagia positivamente ao que se via em cena. Mesmo que o texto tenha se apoiado no clássico de Rainer Werner Fassbinder (As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant) no texto de Maggio tudo soa pueril e frágil. Por vezes ilustrativo e incoerente. Essa costura da dramaturgia com as músicas é sempre um risco. E quando as músicas são enxertadas no texto para supostamente fazer valer sua presença, o resultado é risível e piegas. A utilização de “Não vá ainda” é um exemplo de dramaturgia forçada. As canções conhecidas na voz de Maria Bethânia, Isabela Taviani, Zélia Duncan, Adriana Calcanhoto e Angela Rô Rô, por exemplo, carregam histórias e são sempre um risco pois o ouvinte tem sua bagagem sobre ela, e a peça simplesmente não consegue transpor esse lugar da subjetividade e nos lançar numa experiência nova.

Para complicar a composição das atrizes são frágeis e não acrescenta ao todo. Elisa Lucinda tem um lugar de respeito e destaque na encenação e ninguém fica indiferente ao vê-la recitar seus poemas, ou cantar canções tocantes e românticas. Porém a direção não extrai o melhor da atriz que oferece o básico para que a cena ocorra. É a primeira personagem lésbica que interpreta, mas o desafio na empreitada é zero. O diferencial fica por conta de Gabriela Correa e Luiza Guimarães. A primeira surpreende ao dar voz ao transexual da história, tematizando uma questão atual, onde o casal tem que começar a lidar com a readequação de gênero de uma das partes. Casal da personagem de Ellen Oléria, em dado momento sua personagem questiona ao se conscientizar que namora um homem trans: – agora eu sou heterossexual? Eis ai uma das questões boas sugeridas pela montagem, mas não problematizadas. Ok, talvez não fosse o momento para. Mas sua sugestão é bem vinda e instiga.

Luiza recebe o público e dá voz a youtuber da peça em projeções que entram entre uma cena e outra. A atriz é engraçada, causa empatia, improvisa e segura o público. É uma pena que não é aproveitada a contento. As tiradas cômicas de sua personagem seriam tiros certeiros no público ao vivo. A opção de ter as projeções é mais um dos arremedos sem sentido da direção. A forma como joga com o público fazendo com que o mesmo se torne parte do todo como figuração é o melhor momento da peça. Detalhe: é a primeira cena.

Uma questão curiosa na montagem é a alternância entre canto e recital. Enquanto algumas cantam outra parecem recitar o texto, essa combinação, essas inversões, parece um ruído dissonante no todo. Não é bonito, não é inovador, não dá conta do peso da música. Vozes como a de Ellen e Elisa não se harmonizam. Ou seja… firulas para tornar o todo engraçado e causar empatia, já que seduzir a platéia é uma das tônicas da montagem. Sim, por vezes parece que estamos num episódio do Zorra Total.

A montagem chega a São Paulo com a alcunha de preencher uma lacuna LGBT, mas me pergunto: a que preço? Pois ela está longe de propor uma discussão aprofundada. É mais uma celebração desse afeto – isso não é um problema, é bem vindo, óbvio – do que uma montagem que pode mudar parâmetros sobre “elas”. Por vezes a peça se apoia em clichês, o que empobrece ainda mais seu discurso. A caricatura é boa apenas quando ironiza a si próprio (Gay é o cacete eu sou sapatão) gerando de tabela uma auto crítica, quando se leva a sério, enfraquece tudo ao redor.

O metateatro é sempre um recurso interessante. Em L, o musical isso é explicitado quando vemos o trabalho do ator cruzar com a vida real criando situações para fomentar a história. Nesses momentos… o tom de conversar entre as atrizes é cativante, mas tem em sua intenção aquele momento (escancarado) de educar o espectador. Feminicídio, Lesbicidio, homens abusivos, estupros corretivos,  o palco virá um palanque. Rimos com a mítica do famoso “chá de buceta”, mas é nítido que o palco é uma trincheira onde todos-os-temas-possíveis-se-encontram.

Outra possibilidade de diversão ao público é buscar associações: eu associei o drama do casal protagonista, onde uma delas teve um filho fora do casamento, com a história de Cássia Eller; o amigo que me acompanhava encontrou sinais sobre a autora Cassandra Rios, o fato de uma das atrizes só usar branco a cantora Simone, além dos pés no chão – das atrizes – serem uma referência explicita a Maria Bethânia. Isso não está explicado, veja bem, é uma possibilidade de leitura.

O texto acima parece ranzinza, mas a verdade é que para além dos achismos e de uma suposto adensamento no tema, L, o musical, diverte, simples assim. E parte do público se vê representado. O que é um ganho. O rebuceteio da mulherada faz falta, pois o humor ácido arranca as reações de forma abrupta, interrompendo o fluxo do julgamento. E se tem algo que podemos aprender com a mulherada da peça é que a cama é um processo colaborativo. O que ninguém duvida, claro.

Rodolfo Lima

Obs: a peça estará em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo até o dia 26 de fevereiro de 2018 de sexta, sábado e segunda, as 20h e domingo às 19h

Manifesto Inapropriado

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O Teatro de Arena Eugênio Kusnet sediou uma programação elaborada pela Cia. Histriônica que trouxe luz para as problemáticas no universo LGBT. Oficina de maquiagem, dramaturgia,  literatura, dança, rodas de conversas, palestra e uma peça de teatro, que leva o nome do evento, ocupou o mítico teatro paulista. Dirigido por Rodrigo Mercadante Manifesto Inapropriado me causou surpresa pela reação do público, que eufóricos reagia com ênfase ao proposto pelos artistas em cena. Havia ali uma fragilidade, fiquei pensando.

São quase duas horas de peça e se o que é exposto no palco não surpreende em absolutamente nada, a conexão com a platéia acabou sendo o crème de la crème da apresentação. O  público ainda precisa ver validado o seu lugar de existência. Observando, percebi que antes de pensar se a peça é boa ou ruim, tinha que me ater no fato de quem sim, ela tinha uma importância, já que retratava os anseios de uma parcela do público que se sentia representado pelo que era narrado em cena.

O grupo se pauta em textos e figuras emblemáticas do universo gay, como Federico Garcia Lorca e Oscar Wilde, figuras soturnas como Roberto Piva e os não declarados como Mário de Andrade. Mesmo que os artistas vomitem diversos nomes da cultura LGBT como Caio Fernando Abreu – para ficarmos no campo da literatura. E exponha livros, como “Devassos no Paraíso”, de João Silvério Trevisan, a problematização sobre a temática é rasa. Tudo soa ilustrativo e ingênuo.

Rodrigo Mercadante já esteve envolvido num trabalho que trazia as questões gays em pauta, na época mergulhado sobre o jornal “Lampião na Esquina” (Sob a luz de um Lampião da Esquina), e assim como o trabalho anterior, ficou faltando uma verticalização nas questões. Mercadante fez o que sabe fazer de melhor… orquestrou seu atores a falar bem o texto, aliou a um trabalho musical interessante e transformou tudo num grande sarau. E nesse balaio de opções para se expressar a sexualidade, não transgrediu, fez mais do mesmo.

Se Lucas Sequinato e Ton Ribeiro causam empatia e dão conta do recado, e os músicos Paulo Ohana e Theo Coelho Yepez estão em sintonia, o que faltou para que os temas abordados fossem inflamados a ponto de doer no público? O resultado apresentado pareceu “fofo” demais. Inclusive a interação com o público. Essa impressão aumentou buscando na internet material sobre o trabalho dos artistas oriundos das salas de aula do curso de artes cênicas da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Há fotos – por exemplo – que esboça uma inquietação da dupla de atores, muito mais interessante do que o visual cafona e quadrado proposto por Ângela Sauerbronn. Parece que o trabalho foi higienizado para parecer teatral e caber no palco. É justamente certa “sujeira” em cena, que faz falta. Uma veadagem sincera, com autonomia. É tudo milimetricamente pensado. Até as piadas são colocadas para atingir um objetivo específico. É uma chatice. Mesmo que a direção seja correta no entra e sai dos textos e músicas, a sensação é que o trabalho fica devendo.

Mas repito, o público se envolve, reage, grita, participa. Então fiquei me perguntando: – ficou devendo a quem sr. Rodolfo?

Dois momentos me chamaram a atenção, curiosamente protagonizado pelos músicos. Paulo Ohana apoiada na música “Três travestis” de Caetano Veloso narra um episódio ao lado do pai, justamente quando eles se depararam com uma travesti de rua. A cena é singela, simbólica e o tom pessoal dado a ela, potencializa e imprime personalidade ao todo. Como se a peça fosse feita de impressões pessoais, o que salvaguardaria a pretensão de fazer um manifesto contra todas as fobias que oprime os não heteronormativos.

Yepez protagoniza o momento onde a sexualidade é problematizada ao lado do machismo e de todos aos achismos que imperam na ignorância do ser humano. Ao narrar que adentrando um metrô lotado, sentou numa cadeira – que ninguém queria  – onde estava pichado um pênis. Se a simples ideia de sentar num órgão masculino, mesmo que simbolicamente retratado como desenho ainda inibe muitos, nada mais pode ser mais tão emblemático.

Tirando esses dois momentos, o que se vê é um amontoado de clichês, alguns bem realizados cenicamente, como a dublagem ao som de Daniela Mercury, retratando a famosa rivalidade entre drag queens num palco. Ou para atualizar num termo conhecido pelos fãs de Ru Paul, os famosos “Lip sync”.

Se a ideia era pensar na complexidade da definição do que é ser homossexual hoje em dia, falar de Mário de Andrade e no quanto sua suposta vivência no armário foi nefasta parece pueril demais, num momento onde a internet e as redes sociais acabam dando voz e força para muitos homossexuais oprimidos e que tem sua singularidade vazada como um grito de alerta o discurso moderado do grupo é destinado a quem?

É esse lugar da transgressão e da subversão da temática que falta para que Manifesto Inapropriado saia do lugar do bom mocismo e transforme seu manifesto num grito feroz de alerta.

Rodolfo Lima

 

A cena teatral em 2017 – meu momentos preferidos!!!

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Em 2017 vi 124 peças em 7 cidades do Brasil. Muito mais do que prezar pela qualidade técnica e inovação dos trabalhos o que me chamou a atenção quando fui olhar essa lista, foram os momentos emotivos que presenciei. Então essa lista é sobre isso, sobre aquele momento que a situação/o momento a ação/feito cênico transpõe nossas defesas e nosso senso crítico e nos emociona, nos fazendo mais humanos, por segundos.

Teve a exposição sobre Laura Cardoso, foi emocionante seus depoimentos em videos; Escrevo sobre peças e muito artistas ignoram meus textos, mas não foi o caso de Paulo Betti (Autobiografia Autorizada), que me enviou recado agradecendo minhas observações e reiterando que estava consciente do tempo excedente do trabalho e que iria reduzi-ló; Quando ousei criticar Sinthia, de Kiko Marques, ele também enviou  mensagem para reiterar que meu olhar  era inédito, já que ninguém havia lido o trabalho pelo recorte que enfatizei. Ou seja… artistas que reconheceram minhas palavras mesmo eu não estando no mainstream na crítica teatral.

Nada mais me emociona do que um ator dando o seu melhor… e foram eles: Caio Blat e toda a epopeia que foi Grandes Sertões: Veredas, um texto de fôlego a ser decorado por um ator corajoso; Lena Roque (Louca de amor, quase surtada) sobrevivendo no palco e dando seu texto, se investigando, achando outras possibilidades em cena, por puro amor, vocação. Mesmo que sem a trilha sonora preterida; Andréa Beltrão e sua Antígona, sua vivacidade, seu poder de retórica, seu talento; Bete Coelho recuperadíssima em As Criadas, poucos artistas vão do trágico para o dramático, com tanta facilidade. Vale ressaltar aqui a montagem de Eles não usam tênis naique, um trabalho tocante surgido num grupo localizado na favela da maré (RJ). Um hibrido de teatralidade, depoimento pessoal e crítica social. A garra do todo, suas questões individuais, seus dramas aparentemente irreversíveis. Um mistura poderosa e potente a modificar o olhar de que os ouve.

Outros momentos:

10) Pink Star

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Gostamos de close e uma boa dublagem. Quando a peça tem temática gay a expectativa é sempre esse momento. Pink Star do Satyros é sobre uma transexual e seus desencontros na vida. No seu casamento uma apresentação rouba todo o momento, pois é engraçada, bem feita e com uma versão incrível de Postmodern Jukebox para My Heart Will Go On. Foi daqueles momentos que esqueci que estava no teatro e quis ir para o palco dançar junto. #veadagememnivelmaxímo

09) O Jornal

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Na peça, tudo funciona, o que já é um feito. Atores, dramaturgia e direção, bem como elementos cênicos em harmonia. Temas delicados como a religião, família, o amor e a sexualidade vem a tona de forma imbricada e irreversível. O drama de Dembe e a relação com a irmã nos minutos finais de O Jornal – The Rolling Stone é delicado, triste e irreversível. Supor o drama de cada um deles e o embate dessas dores transposta na interpretação dos atores… poxa… #docaralho

08) Tom na Fazenda

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Tom na Fazenda pode ter muito méritos, embora tenha me causado estranhamento  – em comparação com a versão cinematográfica – e seja contra o tom “auto ajuda” do final. Mas uma coisa é certa, o clima homoerótico empregado na montagem é um primor. A peça consegue aliar drama, comicidade e erotismo com bom gosto e de forma certeira. #bapho

07) Black Off

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A gente demora para entender o tal lugar de privilégio. Creio que é uma luta diária de conscientização e observação. No meu caso… por ser branco, cisgênero, classe média, barbudo… e por ai vai. Portanto foi certeiro e importante ver Black Off performance da africana Ntando Cele, onde através de um humor ácido, do seu gestual e de sua rebeldia, pude presenciar um relato urgente, necessário e importante. Sobre racismo e negritude no universo artístico. #lacrô

06) Bicho

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Eduardo Speroni é daqueles artistas que na primeira olhada você não dá nada. Tipo mignon, cara de menino…. porém sua performance em Bicho é um espetáculo a parte. Vibrante, emocionante e bem executada. A dramaturgia ajuda a contar a história desse michê e suas comparações com a profissão de prostituto e de artista. É uma pena que os tais prêmios ignorem um trabalho OFF como esse, Eduardo merecia ser olhado com mais atenção. #arrazôbee

05) Grazzi Ellas

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Mel Campus é uma travesti bem atuante em Londrina. Sua performance para Grazzi Ellas já havia chegado aos meu ouvidos. Pude conferir o trabalho é e de aplaudir de pé sua entrega. Seja pelo desnudamento físico, como pela capacidade de expor na pele as questões que o texto aborda. Transfobia, medo, sonhos, agressão, saudade… ficção… tudo junto & misturado num trabalho que antes de tudo é um grito de alerta, uma possibilidade de trabalhar a empatia. Mel consegue… mesmo que saia do palco sangrando. #respeitemos

04) Entrevista com Stela do Patrocínio

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Não sou amigo pessoal de Georgette Fadel, mas sou fã. Foi ela que me abriu a primeira porta no universo do teatro, quando permitiu que eu ocupasse um horário num teatro público que coordenava com seu grupo, isso há uns 15 anos atrás. Não pude deixar de ir no último dia de Entrevista com Stella do Patrocínio. Acho um exagero ela ser acusada de black face, culpabilizada por dar voz e corpo a uma poeta negra, num projeto que não morreu, porque ela assumiu o lugar do amigo protagonista (negro) falecido logo após a estreia. Ver a artista se disponibilizando a conversar, permitindo que o público a interrompa e validando a ideia de que a peça era de todos e portanto ela não detinha nenhum poder ser a obra em si, foi FODA, literalmente. Um aula, um momento único. Aprendizado para a vida toda. #inesquecivel

03) 60!Década de Arromba

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Tua mãe te ensina a ouvir a Jovem Guarda, você cresce com essa referência, se apega em alguns artistas. Cria uma nostalgia, acha que algumas músicas traduz o seu universo sentimental. 60!Década de Arromba recupera esse lugar da inocência, “da mãe” no meu caso. Minha mãe ia nesses auditórios ver seus ídolos. Chorou por eles. E eis que quando Wanderleia, a estrela convidada do musical, surge no meio da platéia sozinha e sem proteção, a reação do público de devoção e espanto é emocionante. Você não sabe se olha para o público que reage ou a artista que se disponibiliza. O musical é bem interessante, com acertos, mas nada foi mais emocionante nesse trabalho, do que virar tiete e ver a cantora surge de forma icônica e poderosa, entre seus fãs. #momentomaravilhoso

02) 2 x 2=5: O Homem do Subsolo

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Fui aluno de Cacá Carvalho no primeiro semestre, e pude contar com a generosidade do seu olhar e de sua crítica certeira e pontual de forma impressionante. Cacá, dos atores conhecidos do mundo artístico, foi o primeiro que validou meu trabalho reconhecendo minha entrega, enfatizando que sou daqueles atores que parecem incorporados por uma entidade. Disse isso com muito respeito, me enxergando como um igual. Uma pena que não gravei minha cena final + sua avaliação, como queria rever e aprender mais e mais com suas observações. Como aluno foi chamado para interagir com ele em cena em seu  2 x 2=5: O Homem do Subsolo. Pensa: Teatro Faap, um ator como Cacá Carvalho e “nóis ali” na deixa para entrar em cena e não foder com a peça do coleguinha. Ahhhh…. que delicia de oportunidade. Que experiência incrível. #gratocacágrato por tudo.

01) A noite em claro (Rio Diversidade)

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Com texto de Joaquim Vicente e direção de Cesar Vicente, Thadeu Matos deu corpo e voz para um michê assassino na peça Rio Diversidade. Seria mais um em cena. Mais um prostituto, mais um corpo nu, mais um ator bonitão, mais uma bicha velha enfatizada. Se não fosse o poder para juntar todas essas questões numa cena certeira e pungente, tudo seria diferente. Ao ir desnudando seu ator o texto de Vicente nós encurrala numa armadilha. Somos arrebatados com a pungência do discurso que poderia vitimar qualquer um de nós, homossexuais, sedentos por sexo e um corpo heterotizado. E o que a nudez propõe ali é um ganho impar na cena, pois ela não é ilustrativa. É a condutora da ação, potencializando a narrativa. O que aprendi ali, e o impacto que senti… ao me ver vítima e testemunha daquele desejo escancarado é o tipo de momento irreversível. Como ser diferente depois que o teatro te transforma?

Rodolfo Lima

O Jornal – The Rolling Stone

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A homofobia é uma causa a ser combatida. Sempre foi e pelo panorama atual, será ainda por muito tempo. E não se trata apenas de aceitar ou não um casal do mesmo sexo no convívio social e/ou dentro da própria casa. É necessário antes de tudo quebrar os paradigmas religiosos que alicerçam o discurso discriminatório que cada vez mais ganha espaço, infelizmente.

O racismo é uma catastrófica e triste forma de nivelar o outro, a partir de conceitos reducionistas, pobres e vexatórios. Pois antes de tudo… ao levar em consideração a cor da pele, em prol do caráter, da dignidade e do talento, estamos imputando sobre o outro nosso julgamento empobrecido pelo que nos ensinaram sobre o certo e o errado. Permanece sendo um horror.

Peças de temática gay é sempre bem vinda e não deixa de ser uma oportunidade de rever os estereótipos, mesmo que através do riso, da violência ou mesmo dos clichês. Quando ela minimiza os danos difamatórios, ufa!!! Um ganho.

Peças com artistas negros encabeçando o elenco, ainda é uma luta do movimento negro. Esse emponderamento é necessário pois precisamos supor Julietas, Blanche Dubois e Neusas Sueli, negras. Porquê não? O termo Black Face é utilizado para mapear (e acusar) peças que se utilizam desse lugar confuso e emblemático que é a representatividade negra, em prol de um apagamento desses artistas da cena artística.

Pois bem, O Jornal – The Rolling Stone, peça do britânico Cris Urch (que estreou em 2015 em Londres, arrebatando prêmios locais), com direção de Kiko Mascarenhas e produção de Lazaro Ramos, une esses dois temas espinhosos de forma impecável. Um ganho pra cena local carioca, que tem duas peças em cartaz com protagonistas gays e negros: “O Jornal…” e “L, o Musical”.

O Jornal “The Rolling Stone” circulou durante 10 anos em Kampala, capital de Uganda, estampando fotos de supostos homossexuais, o que incitava a população local a reagir com atos de extrema homofobia. Um dos casos foi o do ativista David Kato – uma espécie de Harvey Milk (emblemático militante dos direitos LGBT) local – que depois de ver seu retrato estampado, foi morto a marteladas. Sua circulação está enterrada, porém a reverberação de suas consequências, não. No mundo, hoje, ainda existe cerca de 70 países que consideram a homossexualidade ilegal, em alguns casos, passível de pena de morte.

Em cena, Dembe (Danilo Ferreira) e Sam (Marcos Guian) se amam. Dembe é negro, acabou de perder o pai e mora com os irmãos: Joe (André Luiz Miranda) e Wummie (Indira Nascimento). Dembe mora num lugar onde a homossexualidade é um crime… passível de punição divina. Mas assim como muitos, Dembe não consegue ter fé no desconhecido.  E não se sente obrigado a acreditar no silêncio e no vazio. Sim, a peça além dos temas citados, ainda traz questões sobre a presença e veracidade de Deus. Que ser é esse? É ele quem julga o próximo, ou nós?

Sam é negro, mas a pele pode ser considerada clara demais. Tal fato o “classifica” como branco. Ou seja, é nós mesmos que continuamos apartando semelhantes e fomentando a segregação. E o pior, fazemos isso com pessoas da nossa “comunidade”. É um dilema também dentro do movimento negro, qual o limite desse lugar da negritude? Sam é médico, irá partir. Dembe não sabe se poderá estudar ou só trabalhará. Ambos precisam fugir desses lugares opressores que oprimem dentro e fora do indivíduo, seja uma religião, um familiar, a sociedade local, nossa capacidade de nos assumirmos como somos.

O ápice da história de Urch está dado de início, sabemos que não tem como acabar bem uma história que joga luzes em tantos assuntos delicados e de difícil digestão para alguns. Porém a direção de Mascarenhas torna a encenação ágil, simpática e nada no texto traduzido por Diego Teza é desperdiçado na boca do atores: um elenco excelente, pinçado de milhares de candidatos. A seleção inicial se deu com 5 mil inscritos.

Se temos em Joe uma espécie de Jair Bolsonaro bizarro, retratação essa que só causa horror e repúdio em pessoas cientes de que esses discursos extremistas, só servem para suplantar a solidariedade e a empatia pelo outro, e na retratação de Wummie que o público é pego de forma irreversível. Seu discurso mistura de forma bem tênue os limites da religião, do amor e do conceito de família, o certo e o errado é alicerçado dentro dela a partir de pré-conceitos a ela ensinado. Wummie, assim como outras pessoas, não foi ensinada a pensar por si mesma. Tem esse choque interno quando vê sua família ameaçada pela intolerância e extremismo. Nesse momento ela fraqueja, e como ela fraquejamos todos. O trabalho de Indira Nascimento é pontual e nos arrebata. O elenco todo é uniforme e preciso em suas falas e intenções. Assim como suas colegas de elenco, os homens também dominam suas falas e se posicionam, não nos deixando desatentos.

Infelizmente os personagens da peça, vivem numa sociedade onde é mais importante pastores do que médicos. Onde o trabalho enobrece o homem, mesmo que o aniquile. Onde é privilegiado a fofoca, o mau dito e a propagação de informações depreciativas, como se não bastasse alimentarmos dentro de nós nossas fobias, ainda temos que divulgá-las. Onde a violência é melhor que o diálogo (uma das falas da peça: “É necessário quebrar o pulso, do menino que desmunheca“). Onde levantar falsos testemunhos e jogar as primeiras pedras é lei. A lei da sobrevivência, como é pontuado na personagem  Mama (Heloisa Jorge). Se os inocentes  – Naome (Marcella Gobatti) – serão culpabilizados e terão suas sensibilidades atravessadas pela brutalidade dos que detêm algum tipo de poder, a quem recorrer para que lutemos por um mundo mais justo, igualitário e agregador?

Os diálogos da peça são ágeis, precisos, engraçados, violentos e sutilmente maliciosos, o que é muito bem vindo, obrigado. A direção de Mascarenhas é limpa e certeira e acrescido de elementos como o figurino (Tereza Nabuco) e a trilha sonora original (Wladimir Pinheiro) – por exemplo – oferece ao público um produto bem acabado e atual. Não há como sair indiferente da platéia do Teatro Poeira. Guerreamos com nossos valores, assim como vemos Demme se debater. Estamos todos na arena, a mercê de orações que nos salvem do fim trágico. A deriva de nossas emoções e do julgamento alheio. Alguns se salvarão, outros infelizmente, continuarão a morrer… por nós.

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Rodolfo Lima

Grazzi Ellas

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A causa trans (abreviação para as singularidades de travestis e transexuais) está com cadeira cativa nas artes cênicas (pensemos no palco de teatro, em festivais, mostras e silimares e etc, não em boates – por exemplo), lugar que sempre frequentou, porém sem tanto protagonismo. O jogo está virando. Se como objeto de cena e de estudos fomentou famigerados resultados, é quando elas se colocam na linha de frente e voltam os olhos para si mesmas que a teatralidade (o certo aqui seria performatividade, mas vou trabalhar com o primeiro conceito, pois me é mais familiar) se reveste de outras máscaras, bem complexas, convenhamos. Como se potencializando suas memórias pudessem fazer valer sua existência. Faz, é inevitável e bem vindo.

Infelizmente a realidade de travestis e transexuais no Brasil está colado com uma realidade vexatória, apartada, de exclusão e repúdio, ao mesmo tempo que causa atração (tudo pontuado com muita delicadeza e suavidade, quase sem querer) e curiosidade. É uma cultura nacional bizarra e tacanha, calcada na hipocrisia.

Se em Julho, durante a edição do PLURAL – Festival da Diversidade de Araçatuba, a cidade conheceu Renata Carvalho, protagonista de “O Evangelho Segundo Jesus – Rainha do Céu”, agora durante o FESTARA – Festival de Teatro de Araçatuba é a vez de Melissa Campus, da Cia. Divina Decadência. Mulher transexual, moradora de Londrina (PR), que sob a direção de Luan Almeida Sales (com orientação de Aguinaldo Moreira de Souza), protagoniza Grazzi Ellas.

A Grazzi em questão é uma das vítimas da transfobia – cegueira que extermina rotineiramente e coloca o Brasil no topo do ranking da intolerância. Os tempos são obscuros e de pouco diálogo, mas Melissa e Luan pretendem que a memória das que se foram não se apaguem. E é isso que Melissa faz, contar a história de muitas Grazzis, na própria pele.

Não é possível montar um espetáculo sem que se fale um pouco de sim mesmos, dos próprios horrores, fantasmas e desejos (Ariane Mnouchkine). É sobre os horrores que Melissa se debruça, e nos leva juntos. Num arrebatamento que nos choca pela crueza da situação. “Vida real, baby“, ela poderia dizer no final. Mas é educada e nos salva desse constrangimento. Cada qual que se vire com seus próprios pré-conceitos.

O trabalho é resultado da conclusão de gradução de Luan. A violência ao corpo trans e uma protagonista disposta a entrega é o que a direção tem nas mãos. O hibridismo entre entre teatro e performance contamina o resultado final e pode confundir a percepção do todo. Do ponto de vista teatral, a mise en scène é criado sem grandes aparatos ou novidades. Uma cadeira, velas, águas, flores, terra… o público ao redor. Cabe ao expectador conectar esses signos. Do ponto de vista da performance é quando vemos a carne de Melissa avermelhar que a ação se potencializa. O jogo proposto entre atriz e direção é aberto, o que possibilita rearranjos na hora da cena. Quantas camadas Melissa revelará hoje? Assim como “fazer pista” (se prostituir), ir para o centro da roda diante de uma platéia (oficial), também é um mergulho no escuro.

Talvez seja desonesto ignorar o “teatrinho” engraçado e leve que Melissa encena com alguém da platéia, que do ponto de vista da dramaturgia é uma ponta solta e sem muita conexão com o todo – não alcancei, confesso – mas que funciona para ganhar a atenção do público. Que diante da agressividade e da gravidade da situação da peça como um todo, nos emudece. Ver Melissa toda suja se debatendo pela sua vida é uma imagem inesquecível.

Diante do desnudamento da atriz – e não digo só físico, mas da necessidade, da coragem e da militância, a dramaturgia inicial desaparece. É frágil a primeira metade da peça, embora a presença de Melissa se imponha com propriedade em seu terrero-palco-rua-cova. O discurso entre 1° e 3° pessoa, pode confundir. Carecia de uma “limpeza”. Na “confusão”, a encenação perde força, pois tudo está no corpo alterado e vilipendiado que nos rouba a atenção.

Esse misto de boneca-Eva-Cicciolina-Melissa-Grazzi vai sendo destroçado a cada fio de cabelo que a atriz perde. E sim, é uma performance para se ver de perto. O olho no olho com a platéia é como um pedido de aceitação, não de desculpas, mas de permanência. Não no sentido católico e culposo e sim no que tange reconhecer o outro como ser humano, igual a si mesmo.

Nascida em 1976, Melissa já passou da média de mortalidade de outras como ela. Sobrevivente todos somos, mas são pessoas como ela que carrega o rótulo no peito. Melissa faz parte de uma “leva” de atrizes trans que estão ganhando força no cenário das artes cênicas, que conta com nomes (recentes, veja bem) como Renata Carvalho, Wallace Ruy, Leona Jhovs, Glamour Garcia (SP), Dandara Vital (RJ), Maite Schneider e Leonarda Glück (PR) e Verónika Valenttino (CE). Mas a história é sacal e invisibiliza. Leonarda e Maite tem uma longa trajetória no cenário curitibano, por exemplo. Assim como as ações de Melissa. Mas quem “aqui”sabe disso?

Grazzi Ellas é potente e honesto. A crueza da cena faz falta no cenário teatral onde tudo é imagem, poses e pretensões. É tocante a forma como as pessoas se disponibilizam a tocar a atriz no final. Lembrei-me na hora de sua irmã-jesus-Renata e do sentimento de solidariedade e compaixão que inunda o espaço cênico. Aquele momento que constatamos que a arte salva (só por hoje) e pode transformar.

#obrigatório

Rodolfo Lima

Crédito da foto: João TK

A peça integrou a programação do FESTARA 2017 (Festival de Teatro de Araçatuba), com apresentações dias 28 e 29/11 as 22h30.