Paris is Burning ao vivo

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A cena começa do lado de fora do teatro. Magô Tonhon enfatiza que é necessário destruir as normas, não enfatizá-las. Seu discurso é de praxe e a acompanha em suas andanças, sejam acadêmicas, políticas, ou artísticas. Enquanto questiona que infância estamos ambicionando, a menos de 100 metros, ouve-se uma senhora gritar “Pedofilia é crime”. Não, não a nenhuma criança no elenco da empreitada dirigida por Leonardo Moreira. Mas não, não importa. A reunião de artistas ali, o filme em questão, e a proposta sugerida dá munição suficiente para ser alvo da intolerância. O SESC empareda quem protesta, Magô pede silêncio – é hora dela falar – os discursos se chocam (o novo e o velho x mulher cisgênero e mulher trans), Wagner Schwartz (o artista do polêmico episódio de nudez do MAM) está diluido no público, e um clima de desconforto se estabelece, afinal, quem goza com as dores das travestis?

As portas se abrem e mais noves artistas nos aguardam do lado de dentro. O projeto Cinema Falado, do SESC Pompéia, propõe que seja criado outra manifestação artística a partir do que o filme sugerido. “Paris is Burning” é um emblemático filme que retrata a noite americana no final dos anos 80. Ou seja, 30 anos depois os artistas reunidos em cena se tornam um decalque dos personagens retratados na tela. Não há uma necessidade de fidelidade com o que está sendo narrado, a “graça” é justamente como você subverte o original. Mas Moreira se acanha e arrisca pouco. O filme é festivo e provocativo e a montagem oferece poucos momentos de explosão. Tirando o fato de atualizarem as gírias do “mundinho” LGBT, não houve riscos.

Subverter o filme dirigido por Jennie Livingston lançado em 1990, não é tarefa fácil. As personagens retratadas são emblemáticas e fornecem material suficiente para que a empatia ocorra. Ao propor a dublagem full time dos artistas retratados, a direção engessa alguns de seus artistas, que ficam refém da legenda que devem seguir. O produto sugere uma transgressão ousada, mas o resultado é careta. É ruim? Não. Mas nem todos tem uma personagem e a empatia que Aretha Sadick ostenta. É uma questão.

O mais complicado no resultado é que o filme tem momentos empolgantes, embates entre as participantes e o que se vê em cena é uma “reunião de amigas”, que cartesianamente esperam sua vez de falar. Uma retratação frouxa e pouco festiva. As vezes esse recurso é funcional, levantar falar no microfone e sentar, na maioria das vezes não. Ou seja… o filme permanece empolgando mais. As possibilidades são infinitas. Leonardo reuniu em cena artistas como Renata Carvalho – famigerada atriz travesti que protagoniza “O Evangelho Segundo Jesus – Rainha do Céu”; Danna Lisboa, emblemática cantora  (trans) de rapper, drags como Mackaylla Maria e atrizes como Marina Matheus – por exemplo. É muita inquietação precisando de visibilidade. Mediar essas singularidades não é tarefa fácil. Já que todos estão a serviço do filme. Em vez do risco, a direção opta pelo óbvio.

São personagens diferentes, como a retratada por Magô – uma artista da noite, mais velha, que sabedora de conhecimento, equilibra sua vivência com colocações de artistas mais jovens e ousadas, que no embate entre os discursos, oferecem um retrato cruel do mundo gay. Se Magô oferece sobriedade em sua dublagem, Marina Matheus fica aquém de sua personagem. Uma jovem e feminina transex, que é assassinada antes do final das filmagens. Marina é o exemplo de uma transgressão que não ocorre. Suas marcações são praticamente uma tentativa ipsis litteris de retratar o que estamos vendo.

O filme e suas protagonistas, na tela e no palco, teriam ganhado força, caso a intertextualidade entre as linguagens fosse atravessada pelo poder perfomático de todas. O filme é festivo, mas sua retratação não. A direção acerta ao dar espaço para que elas se expressem no final. Com exceção de Renata e Thiago Amaral, todxs tem seu momento, em que podemos contemplar o que de melhor fazem. As poucas manifestações  – durante o filme – de Ueriques Samuel, são bem vindas. As festas que o filme retrata, não está em cena, mas o corpo de Samuel se inquieta. Mesmo a montação de Marcio Telles, o corpo dançante de Danna e o deboche de Mackaylla, ficam cerceadas.

As verdadeiras travestis são as que não são detectadas. Não sangram“, “Ser capaz de se misturar, isso é autenticidade“, são colocações pungente que nos obriga a pensar e a perceber que anos se passaram, mas as questões permanecem similares. O clima de “guerrilha” entre travestis e gays, reiterado no filme como “xoxação” (quando os indivíduos em questão duelam entre si, satirizado e/ou debochando um do outro) tem grande relevância. É um dos momentos mais esperados do programa de competição (por exemplo) de drags Ru Paul Drag Race, que em cena não é teatralizado.  Não há o corpo e nem o discurso no embate. “Dançar é como pegar uma faca e ir para cima do outro. Só que você vai pra pista e em vez de brigar,  dança“. Voguing uma dança que se tornou pop e mundialmente conhecida depois do vídeo icônico (Vogue) de Madonna, nada mais é – como relata o filme – ” uma forma segura de jogar veneno“. Uma pena que esse detalhe do filme passou batido na direção de Moreira.

Em tempos de obscuridade e intolerância é um ganho termos no mesmo palco travestis, mulheres trans, travestis, gays masculinos cisgêneros e drags queens, como a nos alertar para a riqueza da pluralidade sexual e de gênero. Quando as artistas avançam para a platéia com “sua pele suave” a mercê do toque alheio, poucas delas bancam a proposta. Se intimidam?

Se não podemos ter momentos de afeto quando as artistas reproduzem a marcação. Somos provocados (mais uma vez) quando ouvimos refrões como: “Sai fora machista, se informa“, ou “Eu não vou ficar quieta, sou veada que dá pinta” e até mesmo “Eu não sou perfeita não, mas eu sou perfeita pra você“.  Mesmo o emblemático desabafo poético sobre transfobia de Marina, resulta em motivo de contestação. Na saida, ouço algo como: “já vivo isso todo dia – a transfobia – não vim aqui para ouvir isso“. Ou seja,  o assunto e o resultado é espinhoso e desconfortável para todos, independente de gênero e sexualidade.

Ao dar voz a individualidade delas (Marina, Magô, Ueriques, Marcio Telles, Flavio Sales, Danna e Aretha) atualiza e resiginifca as personagens do filme, estereótipos revividos nos corpos ao vivo (e dos vivos). Uma releitura necessária e bem vinda. Mas o filme já acabou e uma festa é sugerida. Tarde demais? O teatro é como um filme “se não tiver emoção, você não curte”.

Rodolfo Lima

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Nós

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A história é simples, mas os sentimentos são complexos. É essa dicotomia clássica, entre amigos, que permeia a trama de “Nós”, texto de Elmor Férrer, dirigido por Juliana Lucilha e protagonizado por Eduardo Osório e Bruno Soares. Se por um lado temos uma montagem sissuda, sem a menor ousadia, “quadrada” eu diria…Do outro, um ator entregue e pulsante. O trabalho está todo concentrado na força da presença de Bruno.

A dramaturgia de Férrer constroi um breve quebra cabeça em três tempos, onde vemos os protagonistas em idades que vão entre 10, 15 e 20 anos. Embaralhados, esses tempos exigem mais dos atores, pois precisamos ver o que permeia o universo desses personagens e com poucas nuances, fica o texto pelo texto. É esse o mal que acomete o trabalho de Eduardo Osório. Ele força emoção e se exime de variações consistentes quando seu personagem precisa balizar toda a utopia e amor que vaza do seu melhor amigo, por quem é nutrito um amor do qual ele não digere bem.

Não se trata de uma história entre homens feitos, e sim sobre um amor que nasce enquanto esses homens crescem, se fazem. Um não tem a mãe, outro não tem o pai. Um é sonhador, o outro é apegado as raizes, o que inclui o apego as crenças religiosas da mãe. Obviamente que esse (des)encontro não acaba bem. Todo o amor destinado pelo personagem defendido por Bruno cai por terra quando ele recebe “na cara” a informação de que ele está só, que nunca teve o outro. Diante dessa verdade latente, não há mais nada a ser feito a não ser ir embora. A peça tem seu fim decretado.

O que ressalta aos olhos do público é a garra com que Bruno Soares se destaca em cena. A direção de Juliana não equilibra a contento a energia dos atores. Enquanto Bruno reage ao texto, ao parceiro, a platéia… e imprime uma força – que pode soar “over” – que é sempre bem vinda, diante de um elenco irregular.  Se pensarmos que o texto é cartesiano, maniqueista, definindo sem grandes nuances seus personagens, é mais díficil para Eduardo Ósorio esboçar as quebras, tanto na variação de idade, quanto na de emoções. Porém, isso não o exime de esboçar algo, de se esforçar para. Emparedado com Bruno, que está inteiro em cena, falta para Eduardo, pulso, vibração, tonos e principalmente a demonstração do afeto.

Com trilha original composta por Pedro Paulo Bogossian, que impõe o barulho do mar como condição sine qua non para o desenrolar da história, dá um ar classudo a uma história que carecia de mais delicadeza e simplicidade. As batas usadas como item do figurino é um exagero. Que meninos são esses? Que praia é essa? Que tempo e lugar estamos? Nada disso é explicado e nem precisa, pois o tempo dos personagens, e o nosso –  que os assiste – é todo interno.

A religião cruzando a história é como um nó cego, que inviabiliza o outro de ver com o coração. Um tema atual, num momento onde a homossexualidade voltou a ser tratada como doença e a religião assume um protagonismo desnecessário para o bem estar de todos. Porém, a peça se torna refém dessa condição religiosa e por mais que Bruno Soares cante bem, a música final soa mais como um canto religioso, do que uma ode em favor da liberdade. Algo que ele sempre defendeu.  A produção da Meraki Cia. Teatral é honesta, bem intencionada, porém se encontra refém de convenções que a direção de Juliana não ultrapassa. A liberdade, que tanto é almejada por uma das personagens, permanece sendo uma utopia.

Rodolfo Lima

Obs: a peça volta em cartaz em Outubro aos finais de semana.

Mais informações: https://www.facebook.com/merakiciateatral/

Crédito da foto: Alexandre Ghati

Pink Star

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A nova produção do grupo teatral Satyros, liderado por Rodolfo García Vázques e Ivam Cabral se passa em 2501, aqui mesmo no Planeta Terra, porém se você pensa que algo mudará mesmo daqui meio século, está enganado. “Pink Star” é pessimista e apesar do close bem vindo e divertido, ofertado no segundo endereço do grupo (“Estação Satyros”, na mesma calçada da famigerada praça, número 134) o discurso avança pouco e isso não significa invalidar a dramaturgia, e sim questioná-la.

Purpurinex Brilhante (Diego Ribeiro) é livre de categorizações binárias, nasce pleiteando seu lugar de falar e de problematização da própria sexualidade e identidade de gênero, tem uma família desconstruída – pai, mãe, amante da mãe e um irmão evangélico – e quando resolve fugir  – para outro planeta distante – após uma decepção amorosa, é assassinada. O que a trama da peça faz é recontar os passos da protagonista para que entendamos o que a levou aquele fim. O suposto interesse em descobrir o assassinato de Purpurinex se dá em função dela portar o diamante mais caro do mundo, ou seja, ela morreu sem descobrir realmente o amor. Todos viram réus, de familiares a amantes, passando pelo amantes.

Entre as passagens de sua vida, vemos a dramaturgia se desenvolver e trazer a tona novos conceitos e categorizações vigentes, que rótula os personagens para fazer o público entender que um dia chegaremos a um lugar onde a sexualidade e a suposta identificação dela, deveria se tornar mero acessório de identificação das pessoas. Mas assim como vivemos hoje, os personagens de “Pink Star”, também estão emaranhados em definições que os prendem e os limitam. Alegóricos, essas personas do nosso cotidiano, parecem ora reais demais, ora bizarros demais. Essa estética que beira o absurdo é de praxe nas montagens dirigidas por Rodolfo, porém numa peça em que se questiona um futuro que pretendemos que seja diferente, rever todos os clichês do mundo atual, não deixa de ser frustrante. Como disse, vai passar meio século mas ainda estaremos refém de lideres religiosos querendo abrir suas igrejas, Ru Paul ainda vai reinar com seu programa de competição de Drags, São Thomé das Letras será point, as irmãs kardashian serão referência, haverá Mc Donalds, fila pras “bees” novinhas entrar na “Hot Hot” e claro…a galera “diferentona” da Praça Roosevelt. Ou seja: para tudo, podemos descer, pois o mundo deu errado e não se consertará.

Fiquei a pensar como seria possível construir essa dramaturgia que visa questionar o presente, mirando o futuro, sem se deixar submergir pelo passado que nos assombra. É uma ousadia onde a dramaturgia patina, fato. “Transex”, que será remontada e que faz parte da “Trilogia do Patriarcado”, e que promete a montagem de “Cabaret Transperipatético”, na época de sua primeira montagem (2004), arejava de forma cômica, kitsch, debochada e surreal essas mesmas questões abordadas em “Pink Star”, a graça era justamente o “foda-se” que o grupo mandava para as convenções e o politicamente correto. Na montagem em questão, parece que ele está refém da militância.

A direção maneja bem um elenco enorme e como é de praxe, desigual, o que é uma pena, pois há bons desempenhos como é o caso dos protagonizados por Diego Ribeiro, Daiane Brito, Cristian Silva e Márcia Dailyn – candidata a nova divã trans do grupo. A roupagem coloridérrima e a maquiagem – que vai do sutil ao escalafobético – nos contamina de brilho e poesia e em sua centésima montagem, pode-se dizer que são os números musicais que segura e impulsiona  as quase duas horas de peça. No melhor estilo dos “musicais”, a peça está falando e do nada…. começa a cantoria. Um deboche bem vindo e sempre divertido. As composições de Felipe Soares são interessantes, mas nada é mais contagiante e divertido do que a inserção de “My Heart Will Go On”, no casamento de Purpurinex, um momento “O casamento do meu melhor amigo” as avessas. Cristian dubla bem, se diverte e satiriza, tudo junto e misturado. Prestem atenção nessa cena.

“Pink Star” parte de um pressuposto interessante, mas radicalizou pouco. O grupo em questão pode e deve verticalizar as questões, pois além de ser um tema urgente, eles poderiam fazer valer todo o histórico de transgressão que ostentam no currículo. Refazer a “família tradicional brasileira”, talvez seja mais do mesmo. O termo demissexual, que denomina pessoas que se atraem pela inteligência alheia e não pelo gênero ou mesmo orgão sexual é colocado de forma crível, muito por conta da naturalidade com que Diego imprime em sua personagem. Ele leva sua Purpurinex, da adolescência deslocada a uma militância voraz com muita propriedade.

Katia Veruska/Rômulo Valente (Lucas Allmeida) é um bom exemplo para enfatizar como o texto pode soar confuso. Seu dilema, vestir calças no dia a dia e ser uma drag de noite detona uma contradição para um trabalho que pressupõe transgredir. São 500 anos a mais, porém temos em cena, o mesmo dilema da novela das nove, by Nonato/ Elis Miranda (Silvero Pereira), oi? E sim, em época de cura gay, a diferença entre homossexualidade e homossexual-ISMO ainda deve/terá que ser explicado. A dúvida: a dramaturgia crítica as questões atuais da sociedade e isso basta ou o texto escorrega e não se desapega de signos e dilemas atuais? Somos/seremos apenas seres reprodutores de hábitos?

Parafraseando os dramaturgos da peça, o fato é que nunca vamos esgotar nosso desejo nos corpos alheio, teremos dificuldade em praticar o desapego e da tentativa de dominar e querer o outro exclusivamente. O amor? ah… ele ainda será material de muita visita ao analista. Pensa que “tragédia”? E “se eu tenho pau ou buceta que pergunta velha e careta”, a montagem reforça. A questão do amor e como ele se desenrola é responsável pelos momentos mais interessantes do trabalho, pois ao vermos o outro se revelar em sua sensibilidade, o trabalho produz empatia e cativa. E convenhamos, “Pink Star” é cheio de casais, românticos eu diria.

Uma pena que em cenas como a do casamento de Purpurinex, não tenha sido trabalhado as nuances que tantos personagens interessantes trazem em suas propostas. Repito, somos agraciados com uma cena deliciosa e bem executada ao som da trilha sonora do filme “Titanic”, que nos distrai e nos joga – ao fim da utopia cantada – na realidade das questões de gênero, do respeito, da diversidade e a da representatividade. Essas “chatices” necessárias e urgentes. A loucura descompromissada de “Transex”, fez falta

Rodolfo Lima

Obs:  “Pink Star” segue em cena de quinta a sábado às 21h, no Estação Satyros (Praça Roosevelt, 134, Consolação, tel. 3258 6345), por tempo indeterminado, claro.

 

 

Eu em pessoa

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Escrita e interpretada por Amarílio Sales a peça estreou em Salvador (BA), depois de ser contemplado duas vezes com o extinto Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz . Primeiro para montagem(2012) e depois para circulação (2014), desde então passou por Maceió, Recife, Alagoas e Ceará – por exemplo. Neste mês, cumpre uma breve temporada na Casa dos Magaldi. Intimista, o monólogo de Sales dá corpo e voz a Teté, uma personagem hibrida (sua identidade de gênero não é clara) que sugere permear um dos lugares mais arenosos do universo gay, o da bicha velha, afetada e dona de casa, que passa os dias costurando roupas e lembranças.

Dirigido por Flavia Pucci, toda a ação ocorre na força narrativa do ator. A cenografia de Luis Parras é acessório que por vezes aprisiona o ator e rouba-lhe a naturalidade. Presença física, uma voz bem colocada e disponibilidade corporal são qualidades essenciais para um ator e Amarílio, um ator sexagenário, tem de sobra. É bonito e inspirador ver um corpo vibrando energia, mesmo que já esteja abastado do mitie comercial do universo das artes cênicas. Uma platéia diminuta não lhe rouba o fôlego, muito pelo contrário. É na intimidade que Amarílio cresce.

Acalentado por anos, “Eu em pessoa” narra as memórias de Teté – um alter ego do ator – que joga todo o protagonismo de sua história em Mario Sergio, um dos seus amantes. Um clichê irremediável do universo gay, que abastado de histórias reais e concretas, fica a margem do mercado dos afetos. Como se o amor e o paraíso da descoberta do corpo do outro, em sintonia com o próprio, pudesse fazer valer o sentido da existência.  Simbólico e poético, o corpo de Amarílio se inspira no corpo da mãe – a imagem feminina no programa do espetáculo é um indício? – e em textos do poeta português Fernando Pessoa, que equilibra a narrativa cotidiana da personagem. Uma possível travestilidade é sugerida porém não afirmada.

A dramaturgia é uma costura de memórias de infância revelando uma sociedade preconceituosa e intolerante que continua prevalecendo em muitos cantos do país. Mais do que seu suposto cunho social, a peça ganha força pois pretende o desnudamento do ator. A sugestão existe, porém é pouco trabalhada. Toda a composição do ator e colocada em cena sem grandes nuances, o que é uma pena, pois pausas – por exemplo, para reforçar as quebras –  seriam bem vindas para potencializar o universo interior do personagem.

Amarílio narrando ou não suas memórias, carecia de um cuidado em sua composição que o permitisse navegar com mais potencia entre os extremos, da alegria forjada a saudade extremada, da submissão do amor, ao cotidiano frustrante. É justamente a capacidade do ator de navegar entre (esses) opostos que enriquece sua arte e fortalece sua memória muscular.

Nessa gangorra de emoções que Amarílio passeia, somos cativados pela sua sinceridade e isso não é pouco. Somos brindados por sua bagagem que vem cravado na sua pele e no seu olhar, que ora mareja de emoção, ora explode de vitalidade.

Repito: peças onde homossexuais mais velhos são protagonistas e que propõe uma retratação crua da realidade é um feito raro e bem vindo. Eles existem. E no caso de Amarílio é como se essa demanda fosse agraciada no corpo do ator, figura real indissociável de sua projeção ficcional.

Se arrisquem. “Eu em pessoa” é o tipo de peça que te obriga a sair do senso comum do universo teatral, te desloca para uma casa no bairro do sumaré, te empareda cara a cara com o ator e te faz ter a experiência de ser cúmplice do outro. Em tempos de intolerância, a peça é um tentativa de aproximação. De dizer sim ao outro. De ser um pouco o outro.

Vá ouvir o que Teté tem a dizer. Para mim, a máxima foi: Paixão é igual catarata, quanto mais tempo passa, mais embaçado fica.

Rodolfo Lima

Obs: A Casa dos Magaldi fica na rua votuporanga, 86, Sumaré. Última apresentação 30/09 as 19h – R$30 – Reservas (11) 95495 – 8553

Cindy

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A espera de um gênero sem rótulos é uma utopia. Afinal, sempre seremos balizados pelo feminino e o masculino, pois tudo em nossa cultura é equiparado entre esses dois pólos. Eis que Gabriel Miziara, estreou um solo intitulado “Cindy” que promete revelar uma nova mulher. É uma balela, pois o tal “novo” vem recheado de questões do passado. Ou seja: é impossível nos livrarmos da história. E todo discurso que se faz em questões que pretende invalidar outras subjetividades, desconfio. A fala dessa nova mulher soa retrograda e preconceituosa.

O discurso é confuso mesmo. E é necessário muita imaginação para se embarcar no que é proposto por Marcelo Lazzaratto, que assume a direção. Miziara, responsável pelo texto  (escrito com o diretor) “de cara” provoca: O teatro está morto. Não há mais porque representar histórias inventadas. O que resta ao teatro é a imaginação. O ator depende da disponibilidade de cada um para que a fantasia ocorra. Infelizmente não consegui embarcar. Sou daqueles espectadores que precisa ser iludido, senão, qual a graça?

Exposto a minha “incapacidade”, vamos aos detalhes.

O cenário é composto por uma mesa, arara com roupas, sapatos, livros pelo chão. Tem também lap top, celular, projetores, tecnologia…mas tudo isso parece acessório dispensável entulhando o espaço cênico. Escolhas simplistas, longe do rigor estético que o ator apresentou no seu último solo (As Ondas), sobram… “Patty Diphusa”, uma personagem do cineasta Pedro Almodóvar, também está lá.

Longe do virtuosismo que lhe trouxe a cena teatral (no solo “Loucura”, em 2001), Miziara tem uma composição apática, amparada em detalhes sutis, que revela que o ator está em conexão com a sensibilidade dessa “mulher” que ele quer que enxerguemos. O ator disseca o fazer teatral, mas em vez de cativar, entedia. Segundo ele (o ator) “as coisas são o que são e NÃO precisa de interpretação“, o que me parece uma contradição, pois o que vemos é um ator, vestido de preto, dissertando sobre questões de gêneros, amparado em autores como Virginia Woolf e Pier Paolo Pasolini, esse último, ícone do universo gay. A verborragia soa impostada.

É tanta referência que é impossível não pensar nos excessos e no quanto ele atrapalha a fluidez. A primeira cena é o ator assistindo um mix de cenas de filmes com divas hollywoodianas. Está lá Audrey Hepburn, Marlene Dietrich, Catherine Deneuve e claro…Marilyn Monroe, entre elas…. o ator Charles Bronson…. Tais referências talvez se explique porque que Cindy Spencer era casada com Prince Spencer, um crítico de cinema. Porém não é claro em que ano a personagem está. Se na primeira metade do século XX ou no inicio do século XXI.

Cindy se diz flagelada pelos homens, e é só com  a ausência do marido que ela nasce, surge, se empondera. Ou seja… a mulher AINDA é subjugada ao universo masculino de forma castradora. Diz que nasceu para ser uma estrela de cinema, que é ambivalente e que quer destruir todos os resquícios de virilidade. Assim como Prince, que não aceitava sair com homens que não fosse viril – sim, pelo visto ele era uma “bichinha complicada” – Cindy também tinha questões com a universo do macho, vide o deboche e a referência ao Stanley de Marlon Brando, da peça filmada “Um bonde chamado desejo”. Porém, a exibição de trecho do mítico filme “Querelle”, enquanto o personagem é “currado” reforça que embora haja um repudio, há muita atração por esse universo mais cru e rústico dos homens. Praticamente uma fetichização da imagem desse homem “ideal” sem resquícios de traços femininos. Mas não é “ela” que nos sugere quebrar padrõezinhos?

A crise entre Cindy e o masculino é latente, e ela assume sua porção masculina: “Fui homem, sou mulher agora”. Como nos livraremos das questões de gênero com uma personagem que transita com excitação entre esses universos? E o “melhor”, a personagem tem prazer em aniquilar o outro, em manipular, ou como ela se justifica: O que são as relações humanas senão exercer poder sobre o outro. Um mundo igualitário está fora de cogitação, certo Cindy?

Pois assim como seu marido, Cindy gostava de homens heterossexuais, gostava de conquistar o “macho”. Afinal parafraseando Mae West: quando eu sou boa, eu sou ótima, mas quando eu sou sarcástica, sou melhor ainda. O ideal seria um mundo onde não houvesse limites para a atuação humana. Ou seja: questões requentadas para a velha guerra dos sexos.

Cindy conquistou o masculino e absorveu o feminino. E nos aconselha que resistamos a bissexualidade. Na prática isso significa? O binarismo briga dentro dela o tempo todo. Também não é legível referências a Caio Fernando Abreu ou Oscar Wilde – por exemplo, autores tão marcado pelas suas questões (homo)sexuais. Cindy “atira” pra tudo quanto é lado e carece de personalidade. Sem a identificação com sua figura, o que sobra?

Rodolfo Lima

Obs: a peça faz sua última apresentação gratuita na próxima segunda (25/09, as 19h), na Biblioteca Mário de Andrade e depois segue em temporada no mês de Outubro no Viga Espaço Cênico ( as segundas e terças, até 31/10, ingressos R$40)

 

Caio em mim

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Existem autores que não podem ser visitados impunimente. Caio Fernando Abreu (1948-1996) é um desses. Não porque ele não deva ser lido, reverenciado, referenciado e mesmo questionado. Muito pelo contrário. Qualquer fã quer é mais que seu autor seja falado e – nesse caso – montado. A pergunta que não quer calar é: mesmo a custo de deturpações? Não sei responder, talvez devesse. Mas quem sou eu para me preocupar com tal questão?

Sou acusado de ter uma visão purista para a obra do Caio, de não aceitar experimentações ou mesmo um “outro” olhar para sua literatura que não a minha. Ou o que julgo ser o correto. A questão que sempre me pega é que esse tal “outro” olhar, na maioria das vezes lê a obra do autor de uma forma muito duvidosa. E ai, não à boa intenção que salve. Pois além da leitura supostamente errônea, há a encenação, que se não melhora, nas maioria das vezes, piora o feito.

Como fã, sempre me coloco a escutar Caio pela boca alheia, e já discordei da leitura de alguns artistas, mas respeitei, pois sua “leitura” era clara, mesmo que eu, nas minhas escolhas, fizesse diferente. O que é muito difícil para suportar é a leitura equivocada com certa pretensão. Pois ai, junta duas características que são complicadas de suportar juntas: a burrice e o equívoco. Suportei com calma as duas horas de peça, que a Escola de Atores Wolf Maya, colocou em seu palco e abriu a público, sob direção de Marco Antônio Pâmio.

Eles foram ousados, mesclam contos, peças de teatro e crônicas, sem nenhuma ordem aparente e sem temer parecer excessivo ou mesmo confuso. Um narrador aparece as vezes para tecer comentários, e o conto “Sargento Garcia”, que sugere costurar as cenas, parece que é abandonado em algum momento. Se ambas as opções, do narrador e do conto, estivesse norteando com pungência a dramaturgia, o resultado poderia ter sido mais coerente. Não foi o caso.

Acompanhei – de intruso, veja bem – o ensaio aberto ocorrido no último dia 08, oferecido para alunos da escola, com direito a bate papo com o diretor no final. Caio faria 70 anos ano que vem, caso estivesse vivo, e manifestações artísticas com e sobre sua obra já começam a despontar, principalmente em Porto Alegre. São Paulo sempre oferece opções, quando se trata da obra do autor. Não sei qual o futuro de “Caio em mim”, mas torço para que fique apenas como exercicio final de um dos módulos da escola. Explico.

São 17 atores em cena, a direção divide de forma bem simples o encadeamento de histórias, textos são apresentados adaptados e/ou fragmentado, o que pode soar confuso para quem não conhece a obra do autor, e um risco para que a conhece. É o que acontece com textos como: “Dama da Noite”, “Os sobreviventes”, “Fotografias”, “Creme de Alface”, “Linda, uma história horrível” – por exemplo. Mesmo crônicas como “Zero Grau de libra”, “Na terra do coração” e “Pequenas Epifanias“,  publicada no jornal “O Estado de São Paulo” na época, carece de melhores cuidados.

É mais fácil aceitar qualquer interpretação errônea, preterida pelo aluno em questão, do que os “benditos” jograis escolares, que mata na maioria das vezes a poética do texto. Com o Caio, que em muito casos carece de tempo, silêncio, introspecção, o crime é certeiro. Uma pena. Firulas corporais para incrementar o que está sendo dito, nas obras do autor também tem efeito duvidoso, pois a maioria dos seus personagens possuem uma movimentação interna, muito maior do que externa. Ou seja, é texto para trabalho de ator que não teme a imersão no assunto e nem o trabalhoso cuidado de tecer suas palavras e ideias de forma pungente e cuidadosa. É comum ver as pessoas “vomitando” o texto, que como disse, para alguns autores, isso soa tão inverrosimel que se não irrita, entristece. Uma frase como “deixar apodrecer a vida como a vida deixou apodrecer o coração….” não se diz impunemente.

Praticamente tudo em “Caio em mim” é dito de forma pueril. Há exemplos que beiram uma comédia popular, que é o que acontece com a personagem da mãe em “Linda, uma história horrível“. Aquela leitura não é apenas mal feita, é equivocada. Caio defendia que o conto era o primeiro na literatura nacional a tratar do tema da AIDS, e narra o encontro do filho já doente, com uma “velha”, sua mãe. Não há a possibilidade de rir, nesse momento, mesmo com a leitura mais “up” que se faça. Acrescente ai o cachorro, metafora da doença manifestada no corpo do filho. Uma familia que tem como sina, ver seus entes morrerem sozinhos, oferece possibilidade de riso ao público.

Falta de tudo por lá, consciência textual, malicia (Sargento Garcia) delicadeza (Harriett), troca-se a melancolia pela agressividade (Os Sobreviventes), a montagem carece de silêncios (Pela passagem de uma grande dor) e tudo é “gritado” e apresentado sem nuances. Não há nada interiorizado, ou que ofereça um peso para a obra do autor. Isso sem falar da chacota, como é o que acontece com a travesti Isadora de “Sargento Garcia“. Ao meu lado um amiga com deficiência visual, sofria para entender o que era exposto, pois não havia o menor trabalho textual, nuances ou intenções que a ajudasse a entrar na história. Atrizes que mal sabiam mexer os quadris e suas saias longas, não a ajudariam em nada, infelizmente.

Corajosos ao encarar textos como “O inimigo Secreto“, “O aborto” e polarizar em dois atores o famigerado “Dama da Noite“, que é uma polêmica quando se tenta definir o gênero e a orientação sexual da personagem. Lembro de uma vez que bem jovem, me meti a querer recitar o poema “Aniversário” de Fernando Pessoa, e fui rechaçado de forma debochada por Elisa Lucinda, que mediava a oficina. Eu não tinha idade para dimensionar aquele texto, concordei. Mas o pior não é ter “a” idade e sim não ter a maturidade para compreender aquela situação. Para LER o texto com cuidado e apuro. Com “Caio em mim”, ocorre o mesmo. Uma professora como Elisa, gritaria com todos? E o Caio?

Porém o mais difícil de engolir se deu quando os atores esbarram nas questões do HIV e da AIDS e levaram a cena, além de “Linda…”, “Primeira Carta para além dos muro” e “A mais justa das saias” num bloco final onde o tema era a doença do autor e consequentemente o final da peça. Essa mescla de ficção e realidade, veio a tona na boca de três atores, que sem a menor conexão, reproduzia suas marcas. Ou seja, nem no mais delicado dos temas para o autor, se vê sensibilidade na abordagem.

Mas a surpresa viria no bate papo com o diretor, Pâmio fez um introdução falando sobre o autor, suas questões e explicou que a criação foi colaborativa, que ele incentivou os atores a procurarem o “caio que havia neles” e que não interferio nas escolhas dos textos, pois traduzia as inquietações do seu elenco. Que Caio não era apenas um autor depressivo e que a montagem ressaltava isso.

Observação: todos os textos que eles pegaram para encenar não está entre os mais “solares” do autor. Ou seja, há um desencontro de entendimento ai, não? Também disse que alinhavar os contos, foi “desafiador”, pois não havia feito nada parecido na escola.

Percebia-se.

Eis que o público se manifesta com a seguinte questão: – Vocês entraram em contato com algum soropositivo?

Pâmio responde  – e faça você, que me lê, suas considerações – que não era necessário uma pesquisa sobre o tema, e nem emergir “num lugar stanislavskiano” e que não queria “pesar” a montagem, e nem reproduzir o “calvário de pessoas como Cazuza e Freddie Mercury, e ainda devolveu para platéia, como que a jogar a questão para o público: – alguém aqui é soropositivo?

Ou seja, se ninguém era soropositivo, ninguém validou a provocação da pergunta que obviamente revelava a forma pueril como o tema foi tratado. Seu eu fosse soropositivo, teria feito uma barraco, pensei. Não é o caso.

Antes de me retirar do recinto, pois já havia ouvido tudo o que não queria, ainda ouvi Marco Aurélio – responsável pela preparação corporal dos alunos, dizer que eles queria trabalhar com a poesia e o desassossego.

Não sei se a escola sabe o que é poesia. Nem o que entende de desconforto. Só acho que uma escola deveria ter mais cuidado. Pois é o espaço da experimentação. Mesmo exercicios cênicos abertos ao público, se não revela a escola no todo, sinaliza muito de seus ideais. E o que vi ali na platéia da Escola de Atores Wolf Maya, foi uma enxurrada de equivocos, que além de não fazer jus a literatura do autor, revelou professores que não entendem que “naufragar” num personagem, não significa vivenciar na pele os seus fragelos, e sim abrir a percepção para se entender o que viria a ser esse lugar. Não quero ensinar tais profissionais como fazer, mas convenhamos, que ator que passa verdade em cena sem mergulhar em si mesmo?

Rodolfo Lima

Obs: a peça fez três apresentações dias 11, 12 e 13 de setembro de 2017, cobrando R$15

Heartstone

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O filme é daqueles onde a sinopse oferece todas as informações para que a experiência de ir ao cinema caia no clichê e descontente. A amizade de dois garotos, um verão, um lugar afastado, desejos reprimidos e carente de entendimento, preconceito.  Para “ajudar”, mais de duas horas de filme. Eis que Heartstone (2016) dirigido pelo islandês Gudmundur Arnar Gudmundsson surpreende e nos cativa pela poesia crua e sem firulas que imprime em seu longa metragem. Não há toa o filme tem no currículo o prêmio de melhor filme com temática LGBT no Festival de Veneza.

Thor (Baldur Einarsson) e Cristian (Blaer Hinriksson) são amigos, do tipo inseparáveis. Isolado em algum lugar da Islândia, onde a aridez do local, as poucas opções de lazer e famílias problemáticas potencializam o afeto que há entre os meninos. Obviamente que nesse ambiente inóspito, embora o filme se passe no verão, há homens machistas, mulheres reprimidas, e garotos e garotas que chacoalham o pré estabelecido e nos revelam que a juventude sempre traz o desejo do novo, de transgressão, por mais torto que seja.

A aridez poética do lugar, explorado sem excessos e que nos enebria, parece tecer contraponto com a sexualidade sendo descoberta no belo elenco, em tomadas contundentes e de bom gosto. O filme revela o óbvio sem temer tensionar as imagens que expõe, sem que a fotografia da película favoreça a percepção do olhar.

Entre brincadeiras de criança, descobertas do próprio corpo e de sentimentos difusos, os meninos vão descobrindo um mundo sufocado pela solidão, pela incompreensão e pela sutileza do vazio de cada um. Uma mãe é solitária e carece ser amada, a outra é reprimida num casamento falido. Thor tem duas irmãs. Enquanto uma é artista e sensível, a outra rebelde e impetuosa. O filme oferece uma gama de personagens complexos.

Se Thor sofre com a ausência do pai e com a suposta vida sexual da mãe, Cristian não se sente acolhido pelo pai que tem e nem pela relação abusiva que os pais parecem ter. Cristian vai ser futuramente filho de pais separados, Thor já é. Fraturados, os meninos se apoiam, mas com uma diferença sutil de sentimentos. É tudo tão delicado no filme de Arnar que somos conduzidos – sem oferecer resistências – pela forma como ele vai desnivelando esse afeto.

Há uma maturidade nas telas, que pouco se vê em filmes com temática gay. As cenas com uma das irmãs de Thor – a artista, em questão – são de um bem vindo bom gosto. Somos surpreendidos pela garota que ouve Bjork, que desenha, que entende o que está subtendido na relação do irmão com o amigo, que oferece um ombro, como que a dizer: está tudo bem ser assim.

A rotina daqueles meninos, parece um microscópio da realidade de qualquer lugar. Identificamos os “lugares” visitados pelos meninos, mesmo que não tenhamos tido experiências parecidas. Os arquétipos estão esboçados a catapultar uma melancolia romântica e esperançosa dentro de nós. Como se através do olhar de Thor e Cristian pudessemos reviver a descoberta do amor, do companheirismo, daquele “melhor amigo”, que um dia sabemos a vida dará conta de afastar.

O desespero de um sentimento que não é reciproco, o medo da violência da incompreessão, a estupidez da intolerancia que explode em agressão, o desejo que aflora no corpo mesmo que não consigamos apreender sua dimensão. Está tudo lá, no desenrolar da história, como que a nos confrontar, revertendo em nostalgia nossas lembranças pessoais e dando voz a uma juventude que cresce numa sociedade repressora e que tem pouco acesso ao diálogo e a compreensão.

Thor não está insento de julgamentos. Esboça sinais de machismo, incompreensão. Sua estatura mignon em contraste com sua expressão facial emblemática e madura, embaralha e potencializa o ar homoerótico presente no filme. É um homem feito em corpo de criança, pensa-se com facilidade.

A cena seminal de Thor e Cristian é de apertar o coração. Dado a crueza da realidade e do peso que o futuro os reserva. Saimos silenciados do cinema, pois a poesia exposta não é capaz de suplantar uma história que pode ter dado errado. Porém, no universo das descobertas juvenis, o que é o errado?

É Cristian que revive num peixe no fundo do mar, e nos resta como uma metáfora de sobrevivencia. Sofremos com sua dor muda.  Seu desespero que implode contra si mesmo. Sabemos que o peixe-menino é frágil e delicado, que sua vida é pautada pela solidariedade alheia. Que assim como os humanos, precisará andar em bando para se sentir seguro, pertecente a um mundo onde, caso o afeto falte, sobrará vivências.

As vezes o outro nos salva, muito as vezes…

Rodolfo Lima