Trajetória Sexual

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Numa época onde a diversidade sexual corre o risco de ser tolhida e reprimida, Álamo Facó vem a cena e se desnuda para falar sobre sua suposta Trajetória Sexual. O solo que encerrou temporada ontem no SESC Ipiranga, fecha a Trilogia da Perda, combo de solos do ator que inclui: Talvez (2008) e Mamãe (2015). Todos eles buscam um diálogo direto com a plateia, uma “estética documental” – como o autor cita no programa distribuído antes do inicio –  resultando num misto de teatro e performance.

O tom confessional imprimido pelo ator à montagem causa empatia. A auto ficção é uma forma bastante em voga que os artistas encontraram para teatralizarem suas inquietações e assim se expor e teatralizar seus fantasmas, com a “vantagem” de poder mentir descaradamente, afinal ao contar um fato/história já estamos reinventando algo.  Por mais bem intencionado que sejamos, nunca seremos capazes de narrar de forma fidedigna um acontecimento. O ator sabe disso e em dado momento zomba de si mesmo quando enfatiza que provavelmente seu desempenho no sexo oral numa mulher, se fosse narrado por ela, teria outra narrativa.

O trabalho é dirigido por Facó,  Renato Linhares e Gunnar Borges, mas tudo é bem simples e direto, não há complexidades para tantas mentes pensantes. Com o palco vazio, apenas com um tapete, o ator de cara limpa e peito aberto narra o que seria suas aventuras amorosas. A entrega e o despojamento de Facó e bem vinda, numa pesa que fala justamente sobre sexo. Nada mais honesto que seu corpo fosse posto na arena de forma  natural. Porém, nem tudo o que conta atravessou seu corpo, mas do inicio para o meio do trabalho, a encenação faz parecer que sim. Quando o ator abre margem para a participação do público é um sinal de que o que ele diz pode pertencer a todos. Será?

Todos tem suas questões com a sexualidade e suas possibilidades. A variedade que há nessa potência recheada de desejo e impulso “é que são elas“. Nem todos tem a tal desenvoltura do ator em experimentar de forma tão “descolada” e “bonita” esse lugar, convenhamos. Sexo anal, com mulheres transexuais e a prática do fist-fucking é exposto em cena sem o menor conflito. Como se a realidade do ator sempre fosse se permitir de forma fluída e generosa com o(s) outro(s), o que de fato não é crível. E a lembrança de uma juventude conflituosa parece distante para um adulto tão disponível.

É divertido e leve as histórias narrada pelo ator. Ouvimos e nos tornamos cúmplices de suas aventuras e no melhor estilo machadiano “também gozamos pelos lábios alheios“. Porém o tom de cumplicidade que é estabelecido entre público e artista é rompido quando o solo perde o tom testemunhal e parte para o discurso panfletário. A amarração que é dado ao trabalho no terço final, reitera esse lugar, perde se o diálogo descompromissado e entra em cena o discurso pronto que serve para educar a platéia e não fornecer a ela uma experiência potente e transformadora. O inicio supõe esse lugar, o final atesta que ele não foi trilhado até o fim.

A cena de violência homofóbica na escola, como lidar com um corpo trans, a indicação para ler Djamila Ribeiro e o exemplo de criação de crianças sem encarcerá-las num nome que defina seu gênero, são as pistas deixadas pela encenação para um suposto futuro ideal.

Quando o teatro me impõe caminhos e inibe que eu, com as minhas questões pessoais recrie as minhas escolhas, eu desconfio, me afasto, me desconecto. Num solo tão direto quanto o de Facó essa opção é um risco que ilude os desatentos. Mesmo que a platéia se deixe levar pelo discurso em vários momentos, a imposição é sempre um risco. Um pretensão desnecessária.

Rodolfo Lima

(Crédito foto: João Penoni)

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Dois a duas

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A descoberta da sexualidade é um nicho criativo sempre revisitado por artistas de diversas áreas, em especial o cinema e o teatro. Como se trata de um período de conturbações e descobertas, a abordagem de assuntos variados por vezes funciona. Dois a duas, escrito por Maria Fernanda de Barros Batalha, aos 18 anos, é um exemplo dos possíveis senões que a abordagem sofre.

O intuito foi investigar a descoberta da homossexualidade e a juventude contemporânea. Dito isso, é de se esperar que a montagem dirigida por Erica Montanheiro e Mariá Guedes, sofressem com o excesso de informações e possibilidades. Embora bem intencionada e com um resultado simpático, a montagem desperdiça uma oportunidade valiosa de problematizar questões urgentes que resvala num imbróglio que inclui educação/assedio/relações inter geracionais/ negritude/ homossexualidade feminina/sexualidade, para citar o básico do referido trabalho.

Ligia (Jhenifer Santine) e Ana (Bruna Betito) são best friends. Estudam em uma escola particular, porém a primeira é negra e bolsista – sua mãe (Bia Toledo) é funcionária da escola – e a segunda é branca e provavelmente tem pais que bancam a sua educação.  O elenco é completado por: Mário (Lui Seixas) namorado de Ana e Cecilia (Luzia Rosa) a professora por quem Ligia se apaixonara.

Temos poucos exemplos de peças com a temática lésbica. Quando isso é associado a juventude, a porcentagem – em comparação com peça de temática gay masculino – é quase inexistente. Embora o foco da peça seja a descoberta da sexualidade de Ligia, a encenação demora mais da metade do tempo da montagem para entrar propriamente dito na questão em pauta. É uma pena. Quando o assunto surge, ele é tratado de forma ligeira e óbvia. Não há complexidades na abordagem e nem riscos na encenação. Tudo insosso e moroso, como se a platéia não fosse capaz de tensionar um tratamento mais ousado do assunto.

Não se sabe se a peça é para um público teenager e portanto a abordagem é – infelizmente – tatibitati, ou para um público adulto e ai a encenação é basicamente infantiloide. Carecemos de mais. Somos bombardeados diariamente com tanta informação, que o teatro precisa ser arrojado e subverter esse lugar de acomodação que estamos habituados a (con)viver. Trabalhos que ousam abordam e captar um público jovem, são as que mais sofrem, pois é difícil que o trabalho escape de certa banalização.

O tal do contemporâneo na encenação é uma bagunça, do tema aos assuntos abordados. A encenação se utiliza de projeções, público no espaço cênico, música ao vivo. Nada usado de forma limpa e pontual. As projeções é um recurso para facilitar a visualização da cena, mas não deixa de ser uma opção pop. Se o celular fosse algo incorporado na realidade dos personagens, ok. Mas não é o que acontece. O público em possíveis cadeiras de escola é uma ideia boa, porém desperdiçada. E a música ao vivo não tem relevância quando precisa duelar com os hits do momento que vai de Anitta e Ludmila, passa por Cássia Eller, As Bahias e a cozinha mineira, e claro… músicas protestos como a de Linn da Quebrada. A inclusão de “(You make me feellike) A natural woman”, um clássico na voz de Aretha Franklin é uma das “forçação de barra”.

Se a abordagem da homossexualidade feminina não é problematizada, outros temas também não. Como o vício da mãe e filha com o cigarro, o uso de drogas ilícitas e um possível assédio de Mário com Ligia, que valida discursos libertários e feministas com bordões como “esquerdo macho” e “machistas não passaram”. Se o sistema é patriarcal a peça aborda isso de forma rasteira colocando o garoto – o único homem da peça e da ficha técnica – como um infantiloide egoísta, um exemplo masculino de ego frágil.

“Não vou ter coragem de te assumir. Vou fazer com você o que 90% dos  homens fazem com as garotas: iludem” – Cecilia

Dois a duas oferece um balaio de assuntos, mas o resultado da abordagem é pueril. Como se apenas citar fosse o suficiente. A depender do público alvo, pode até funcionar. Mas… o resultado fica aquém. O que é uma pena se levarmos em conta a empatia que os artistas causam em cena. Principalmente Jhenifer (Ligia) e Luzia (Cecilia), respectivamente a aluna que se apaixona pela professora.

Negras e supostamente a margem, aluna e professora se envolvem de forma singela e interessante. A professora tem um histórico de uma paixão lésbica adolescente, reprimida pelo pai, que a fez na vida adulta, ter um casamento heterossexual. Cede a simpatia de Ligia, que tem com a professora a oportunidade de perder a virgindade. Seria bom se a peça adensasse as questões que envolvem essa história.

A aluna tem 17 anos, se envolve com a professora e o suposto amor e admiração que nasce desse contato tem uma abordagem exagerada e rápida. Se Jhenifer Santine funciona em boa parte da encenação, ao citar Clarice Lispector, nos deparamos com a fragilidade da composição da atriz.

A decepção amorosa é encarada como mais uma etapa da vida e isso é bom. O que não é interessante em Dois a duas é a forma como a encenação aborda a sexualidade das personagens principais, seus corpos e o contato entre elas. Reitero, perde se a chance de contar uma história de amor entre mulheres negras de forma provocativa, para além dos clichês da temática. Afinal o que é ser uma “bixa preta”?

A inclusão e associação de “Romeu e Julieta” na dramaturgia, para reiterar o drama dos personagens principais, é mais do mesmo. Um recurso tão batido que chega a ser frustrante. Para citar um exemplo atual, o musical off Broadway, “Na pele” em cartaz no Teatro Augusta, se utiliza do mesmo recurso. Mesmo que a cena seja um dos pontos cômicos da peça, ela contém piadas internas para “a classe teatral” que parece mais um dos temas incluídos e não desmembrado a contento.  A citação das personagens referência a versão cinematográfica protagonizada por Leonardo DiCaprio (1996), mas a música executada – se não me engano – é a de Franco Zeffirelli (1968). Ou seja…

O teatro é a arte da repressão” como atesta Ana. E o que Dois a duas resulta é justamente nisso, um teatro reprimido e com ares de descolado, que peca ao achar que apenas verbalizar temas pungentes do momento basta. Oferece assim um simulacro da realidade que se vê nas escolas, porém não as representa e tão pouco as problematiza. É legitima a opção de oferecer um programa leve, sem que os temas ganhem densidade excessiva, mas há de ser ter cuidado para que tudo não vire uma grande salada de assuntos, como se apenas expor a questão fosse o suficiente.

Em tempos de extrema intolerância, onde alunos estão sendo induzidos a entregarem seus professores. Onde o discurso racial, misógino e homofóbico ganhou relevância e legitimou quem defende tais ideias, colocar a dupla de amigas pixando uma parede para assim terem uma atitude “educativa, política e artística” soa no máximo, risível.

Rodolfo Lima

Obs: a peça fica em cartaz gratuitamente até 18 de novembro de 2018, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, de quinta e sexta 20h, sábados e feriados 18h.

 

 

Gavião de duas cabeças

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A questão indígena é um ponto inflamado na história do Brasil que segue sem uma resolução que dê conta de preservar a história dos indígenas e satisfazer os desejos e a necessidade do homem e do capitalismo. Fomos educados de forma ingênua sobre tais questões a ponto do tal “Dia do índio” se tornar uma piada. Não se pode falar em celebração quando as singularidade e os direitos de tais povos seguem relegados e de certa forma desvalorizado. O solo Gavião de duas cabeças é um belo exercício de alteridade oferecido por Andreia Duarte, que um dia, sensibilizada pela música produzida por “eles”,se organizou a passar dois meses numa tribo indígena, ficou 5 anos.  A peça traz um recorte da sua história, nos alerta e nos sensibiliza.

Com direção de Juliana Pautilla,o solo se aproxima do gênero do biodrama, que ganha cada vez mais popularidade no universo das artes cênicas, ao trazer o intérprete teatralizando a própria experiência de vida. Sem proselitismo,  Andreia vai da garota sonhadora a mulher militante, sem que isso soe pretensioso ou empostado. Dribla de forma leve as curiosidades sobre a nudez, a sexualidade, as necessidades pessoais, os afetos. Se sabe pouco da vida REAL de Andreia nos seus anos de vivência por lá. Mas a sensação é que sabemos muito.

Mais do que tecer um texto cheio de curiosidades e mimimi, Andreia nos oferece a possibilidade de nos aproximarmos de sua experiência e isso não a inibe de ser debochada, provocativa e política. Andreia e Juliana conseguem equilibrar a crítica ao descaso da sociedade para as causas indígenas, mostrar a disparidade que há entre nós (brancos, não indígenas) e eles, e nos oferecer uma experiência de vida. O “tal lugar de fala”, termo em alta nas artes cênicas, que inibe um indivíduo de falar pelo outro, caso não tenha a mesma vivência, é dado a Andreia, pela sua experiência real e pelo público que se torna cúmplice.

Contemplado pelo edital Programa Cena Aberta Funarte em 2016, a dupla de artista puderam dar vazão as pesquisas pessoais sobre corpo/política e o resultado é um ato emblemático e crítico, que imprime no corpo de Andreia as referências que mudaram a sua percepção de vida. A ingenuidade (bonita) da artista de querer sobreviver a um mundo sem os apelos midiáticos e a coca cola – por exemplo, duelam com a intolerância da representante do agronegócio, uma das personagens em cena. Essa ambiguidade entre relato pessoal e testemunho crítico, e as “janelas” que se abrem para diversas interpretações, faz com que a percepção do trabalho ganhem um grande alcance. A simbologia da indígena que une a plateia através das mãos é o maior exemplo de fragilidade e precariedade, que nós brancos e não indígenas, carregamos diante de um mundo vasto e  indecifrável e por vezes impenetrável.

Andreia transformou sua saudade – que para os indígenas é algo que mata – em protesto. Sua experiência em bandeira e seu canto em um lamento pertinente e tocante. Não há como sair indiferente de Gavião de duas cabeças.

Para os indígenas o Gavião de duas cabeças é aquele que devora o espírito que sobrevive a morte do corpo. O momento que Andreia divide com a plateia a forma como eles reagem a perda do corpo físico é tocante e não deixa de ser um recado para aqueles tão afeitos a matéria. Se matar o espírito é esquecer, esquecer liberta.

Gavião de duas cabeças, encerrou a programação do projeto TEPI – Teatro e os Povos Indígenas: encontros e resistência, idealizado por Andreia e realizado no SESC Pompeia, que em cinco datas trouxeram a questão indígena dialogando com o fazer artístico e sua real representatividade. Projeto esse que merece novas edições.

Rodolfo Lima

 

 

 

As irmãs siamesas

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O conflito entre irmãos é um clássico das histórias familiares. Além de um suposto revanchismo que existe em irmãos do mesmo sexo, quando se acrescenta a atenção de um dos pais na história, as questões se complexificam e se um dos filhos cuidou dos progenitores doente e o outro não, pronto, tudo armado para um conflito sem fim. E com esse elementos que as irmãs Maria (nara Marques) e Marta (Cinthya Hussey) se enfrentam após o enterro da mãe. O texto de José Rubens Siqueira foi escrito em 1986 e rendeu ao autor o Prêmio APCA de melhor dramaturgia.

Vale ressaltar que o texto precisaria de uns reparos, além dos que o diretor afirma ter feito. Termos como “bichona”ou a associação de que uma mulher que transa com quem bem entender e por ventura escolhe interromper uma gravidez indesejada, não é sinônimo de ser uma “puta”. Convenhamos que rotular uma mulher por causa de suas escolhas supostamente libertárias e autônomas, é um desserviço. Ainda mais numa época de tanta intransigência com o outro. Para “piorar”, os figurinos de Kene Heuser, embora sóbrio e funcional traga o vermelho, uma cor com associações voluptuosas, para estampar o figurino da irmã que apesar do despudor de fazer sexo com quem bem entender, nunca conseguiu ter um orgasmo.

A direção é de Sébastien Brottet-Michel, que integra a companhia francesa Théâtre du Soleil. Não por acaso,  o diretor concebeu uma encenação limpa e direta, de forma classuda e rebuscada, onde toda a ação dramática habita o corpo das atrizes. A cenografia de Marisa Rebollo é bonita e delicada e dialoga diretamente com a direção, que tornou um suposto universo brejeiro e cotidiano em espaços para diversas metáforas.

O mausoléu-casa onde o acerto de contas ocorre é o grande achado da montagem, acrescido da bela iluminação de Rodrigo Alves, ajuda a imprimir uma sobreposição da encenação, diante da dramaturgia e até mesmo do trabalho das atrizes.  A qualidade estética do trabalho é complementada com a delicadeza da trilha original composta por Wayne Hussey.

Cinthya por compor uma personagem mais caricatural se sai melhor, já que cabe a ela as maiores nuances dramáticas. Porém, sua interpretação destoa de todo o resto, já que Nara tem uma composição mais limpa e naturalista, que integra melhor a cena concebida por Sébastien. Esse ruído e certa lentidão desmedida no todo, arrasta o ritmo e impede que a peça se torne uma experiência arrebatadora.

As irmãs siamesas portanto oferece esse encontro entre uma estética rebuscada e assertiva, e um texto coloquial e cotidiano, que ganha força pela temática universal e pelo verniz impresso em cena. Além de ser uma oportunidade do público acessar o universo artístico da companhia francesa, deglutida pelo olhar da direção.

Rodolfo Lima

obs:a peça segue em cartaz até 02 de dezembro de 2018,no Teatro Aliança Francesa, sempre as sextas e sábados (20h30) e domingos (19h)

Teatro para quem não gosta

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O teatro não é unanimidade, infelizmente. Deveria, mas permanece ainda sendo uma plataforma importante e pungente de divulgação de discursos, informação, entreter, fazer rir e emocionar. Além, claro… (assim como em todas as áreas) ser um lugar de picaretagem. É zombando desse lugar ambíguo que o teatro ocupa que a dupla de atores Marcelo Médici e Ricardo Rathsam (foto), oferece ao público Teatro para quem não gosta. Um mix de cenas cômicas e críticas, usada para entreter e para os interessados em ouvir para além das piadas, uma crônica agridoce do que se pensa sobre o teatro hoje.

É engraçado para o público mais afeito a esse gênero. Mas não deixa de ser triste, pensar que o teatro pode “acabar nas mãos” de youtubers. Descompromissada, mais arriscando uma linha do tempo, a peça traça paralelos entre do teatro grego até os dias atuais. E dai trocar o teatro por um estádio de futebol, quando se visa o retorno financeiro e ser confundido com um mecenas picareta, é uma triste previsão do futuro. Artistas na plateia, entendem literalmente a crítica do texto e o endossam.

Diferente de “Eu era tudo pra ela… E ela me deixou“, que também trazia a dupla de atores ocupando o palco do Teatro FAAP, é Rathsam que protagoniza as cenas, vestido de mulher. Sua Julieta (Romeu e Julieta) e sua Margarida (A Dama das Camélias) são impagáveis, no deboche, na acidez e na desconstrução. Ricardo fez escola com o Marcelo, é verdade, mas isso não é problema. Na melhor cena da peça vemos os atores se utilizam do metateatro para se autocriticarem em cena. A opção é bem vinda é dar escopo para a dramaturgia que patina entre boas sacadas e piadas fáceis e nem sempre eficientes.

Os atores se vestem de personagens femininos, mas não deixam de evidenciar as os períodos e as práticas artísticas, onde as mulheres era proibida de estar no palco. Fiquei a pensa até que ponto o humor pode aprofundar uma crítica, sem que caia na necessidade de fazer o público rir com chavões clichês? É possível?

A cena do balcão entre Romeu e Julieta ganham uma releitura provocativa e interessante, ao trazer o casal de protagonista vivido por duas mulheres. É “a” Romeu, e não “o” Romeu (Afinal: o artigo está fora de moda). Julieta fuma maconha e é emponderada, se recusando a acreditar que precisa morrer por outra pessoa (Julieta pode ser feliz sozinha), por um crush adolescente.  O senão da cena é a representação da mulher-lésbica-caminhoneira, como se o fato de ser duas mulheres não bastasse para fazer o público rir. Olha o perigo. Se a comédia é amoral e por muitas vezes criada a partir de piadas vexatórias, o teatro para quem não gosta reforça esse lugar, fazendo com que o público ria dos estereótipos da homossexualidade feminina sem senso crítico.

Outro momento emblemático é a crítica explicita ao encenador Gerald Thomas e a mítica da falta de compreensão de seus trabalhos. É praticamente uma piada interna para os profissionais das artes cênicas, já que pressupõe que se tenha um repertório cênico para entender a piada. Não é a única (Parem de aprovar o Tiago Abravanel – em testes de musicais –  ele já é rico e eu to devendo meu aluguel), porém a mais afiada. O teatro infantil também tem um espaço interessante. Médici surge como uma Ariel (A pequena Sereia) para falar sobre musicais, ecologia, o politicamente correto,e claro…debochar de tudo. A “criança demônia” que em vez de assistir a peça de teatro, interage e atrapalha os atores também é lembrada.

A peça concebida para comemorar os 30 anos de carreira de Marcelo Médici é irregular, mas entretêm e coloca os mais atento para pensar. Borra as fronteiras entre teatro de personagens e comediantes do gênero stand up. Mas sem se ater numa crítica mais contundente. O cenário de Kleber Montanheiro é acessório dispensável já que seria mais interessante para a encenação, que a coxia desaparecesse e víssemos o troca troca de figurinos, para que assim o público pudesse entender a mecânica do que há por trás do faz de conta.

Preservar o riso pela surpresa, parece ser uma escolha dos artistas. Se fosse mais ousada, talvez a montagem desconstruísse essa possibilidade. A inserção do famoso personagem Mico leão dourado  (da peça “Cada um com seus pobrema“) na tragédia de Édipo Rei, é uma sacada certeira, que renova o humor do famoso comediante que Médici se tornou, sem deixar de fazer uma auto crítica.

Teatro para que não gosta é um programa interessante, pois coloca os atores a mercê de boas sacadas e ciladas habituais no formato e na condução das piadas, como se o público não fosse capaz de rir além do convencional. A arte não paga os boletos, mas dá sentido a vida dos artistas.  E o público ao pagar o ingresso, endossa a escolha alheia e o impulsiona. Esse amor que une artistas e plateia é o bônus da peça.

Rodolfo Lima

Quarta-feira sem falta, lá em casa

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Uma amizade só é validada quando é capaz de superar as adversidades, os erros individuais, a magoa, as dores que ficam. Um amigo que se afasta depois do problema estabelecido, não é seu amigo. Pois o que faz fazer sentido uma vida a dois, seja lá qual sentimento e arranjos que nutre essa parceria, é justamente a vontade de querer caminhar a dois, de perdoar,  mesmo que tudo ao redor sugira, não. Existe no âmbito da amizade uma sutil e triste ambuiguidade entre “se afastar” e “se perder”. Algumas amizades são afastadas pelo cotidiano, outras rompidas de forma abrupta. A perda de um amigo é sempre motivo para que revisitemos nossas relações. Quarta-feira sem falta, lá em casa te propõe revisitar esse lugar.

Escrito por Mario Brasini (1921-1997) em 1976, traz a cena uma comédia de costumes, onde o tema da amizade norteia as personagens Alcina (Eva Wilma) e Laura (Suely Franco). Nossos conceitos sobre amizade são levemente revirado quando nos deparamos com as amigas em questão. Nossos senões se tornam antagonistas e disputam a atenção. Eu, por exemplo, vivi uma situação similar. Não perdoei.

A direção de Alexandre Reinecke torna tudo leve evidenciando o trabalho das atrizes. Ambas octogenárias (Eva, com 84 anos e Suely com 79 anos) e com um vasto histórico no teatro nacional.  Se a peça soa ingênua e despretensiosa e o tema importante, é a presença das atrizes que ajuda o trabalho a alçar outros voos. Reinecke foi o responsável por outra montagem consagrada do texto, em 2002, que trazia a cena as atrizes Beatriz Segall (25/07/26 – 05/09/18) e Miriam Pires (20/04/27 – 07/07/04).

Observar Eva e Suely é prazeroso e um convite a reverenciar o trabalho que as mesmas oferece. Se Suely é mais farsesca e se apoia em máscaras e trejeitos no corpo para evidenciar o descontentamento da personagem, Eva tem uma composição mais natural e cotidiana. As duas tem força cênica e se completam, principalmente quando uma “tropeça” no texto. A sensação que se tem é que mais do que amigas na ficção, parecem amigas na vida real, é o que eu chamaria de química, cumplicidade, quando o público pode confundir o trabalho dos atores com os personagens.

Temas como a solidão e certo deslocamento diante das novas gerações, permeiam os subtextos da peça, que é potencializada por questões latentes da terceira idade. Talvez seja a idade das personagens que faz com que a relação delas ganhem relevância diante das próprias falhas. Na solidão da velhice, poucas coisas restam para se apegar. Não deixa de ter um gosto agridoce essa realidade.

O cenário evita evidenciar o realismo da cena, mas é na humanidade que as atrizes imprimem em suas personagens, e no tom dramático, que o trabalho ganha força. A idade das mesmas é fator indissociável, já que as fazem terem uma noção exata das perdas e da necessidade de se preservar o pouco que se tem.

Assistir a peça nas primeiras fileiras imprime um tom intimista que favorece ainda mais a empatia com as personagens e o drama vivido por elas. Eva e Suely são atrizes com um repertórios importantes e para um artista – no caso eu – não há nada mais prazeroso do que poder saborear os detalhes que compõem o trabalho de outros profissionais do gênero.

Eva e Suely se esforçam, dão tudo o que lhes é permitido em cena. Laura e Alcina se expõe, reviram o passado e as consequência de suas ações. O público fica de cúmplice das quatro, e emerge junto, sem sair indiferente nesse grande pedido de desculpas.

Rodolfo Lima

Obs: A peça fica em cartaz até dia 25 de novembro de 2018, de sexta a domingo, no Teatro Porto Seguro.

Daqui ninguém me tira

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Sabe aquele ditado: “de boas intenções o inferno está cheio?”, poderia ser usado para Daqui ninguém me tira, a comédia dramática escrita por Noemi Marinho e dirigida por Neyde Veneziano, uma referência no Brasil, do teatro de revista. Em cena, Veludo (Ataíde Arcoverde) é uma espécie de camareiro aposentado, que passa os dias entre roupas e objetos das vedetes do passado. Herculano (Giovani Tozi) está imbuído em convencer Veludo a desistir do imóvel. Esse encontro não é sem afeto. Está em jogo, as memórias do camareiro e a amizade entre eles. Todas as contradições em cena está entre esses dois pólos.

A dramaturgia é simples. Para convencer Herculano do quanto é importante preservar o espaço e os objetos que contém, Veludo vai trocando de roupa e dublando, e didaticamente contando ao público a história de grandes vedetes do passado, que supostamente estão esquecidas. Frutos de uma época onde a sensualidade e partes do corpo eram exaltadas de forma audaciosa para o momento presente e que se tornaram pueris ao se comparar com as formas de como o corpo é utilizado em cena hoje em dia. Caiu o viés arrojado e tomou conta a possibilidade de transgressão. Tudo isso é sugerido, não explicitado. Infelizmente.

Ataíde Arcoverde é engraçado, e seu biotipo funciona na comédia, mas o esquematismo de sua interpretação e a marcação grosseira de troca de roupas, torna gélido seu amor por suas musas. Se pensarmos que tais vedetes eram as divas do passado, os momentos que a montagem exalta a presença delas, com o ator cantando e dançando, se tornam chochos e apáticos. E por mais que os figurinos e cenário de Fábio Namatame cumpra a função de lembrar do glamour da época, o personagem Veludo não dá conta.

O suposto atrito criado entre Veludo e Herculano, quando o primeiro pensa em aniquilar o segundo, é constrangedor. Por mais que se quisesse referenciar um fazer teatro mais ingênuo, o exibido em cena é risível. O que vemos é um arranjo frágil de um texto que se torna um panfleto nostálgico dos tempos de outrora.

Veludo não é um personagem gay assumido, sua sexualidade não é pautada, mas seus trejeitos e bordões sugerem que sim, Veludo portanto, dialoga com o universo gay, extraindo de sua composição afetada e histriônica o riso fácil e óbvio. A questão: Teria como ser diferente? Já que a peça exalta mulheres em volta de luxo, glamour e sedução.

A montagem tem sabor agridoce, é bem cuidada esteticamente, mas não alça voo. O texto traz um quiproquó frouxo, que fica refém da retratação histórica da qual se propõe. Neyde não agrega nada de arrojado e/ou provocativo e tudo se torna mais do mesmo. Ataíde ganha fôlego quando vai improvisar com o público. Mas é pouco. Daqui ninguém me tira se torna um simulacro de tudo aquilo que pretende homenagear.

Rodolfo Lima

obs: a peça segue em cartaz no Teatro Porto Seguro, toda quarta e quinta-feira, até 11 de outubro de 2018