O que restou de você em mim

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          Histórias de amor são marcantes pelas suas especificidades, pelo que a singulariza. Amar e pertencer, amar e perder, amar e ser abandonado, amar e não ser amado… praticamente faz parte do histórico de todos. O que restou de você em mim, solo biográfico de Davi Novaes oferece essa possibilidade de catarse na reduzida platéia (8 pessoas ao todo) e não necessariamente por uma entrega visceral ou uma exposição explícita, das emoções, digo. E sim, porque o público se identifica com essa necessidade de amar e ser amado, com as ilusões que nos movem diariamente e também pela presença carismática do ator. 
 
          A peça tem um quê de biodrama – estética onde o artista parte de um acontecimento real de sua vida e teatraliza os fatos e/ou cria uma performance para expor suas questões – porém sua excessiva teatralidade rouba o que poderia nos contaminar pela sinceridade e naturalidade. Uma das músicas que abre o trabalho é “Someone Like You” de Adele, um hino romântico e certeiro. Ao adentrarmos o quarto de Davi – o personagem/ator, tudo tem uma estética vermelha. Das paredes a capa de livros, posters, copo, tênis, embalagem de chocolate e por ai vai. Qual a relação da cor com a história de Davi, não sabemos. Tirando o clichê que vermelho é supostamente a cor da paixão… Poderia ser do sangue, da raiva, do sexo ou de qualquer outra pulsão latente que desse a Davi uma ambiguidade. Isso não ocorre. 
 
          Davi é revelado a nós como uma pessoa sensível, sonhadora e claro, machucada. Afinal seu solo é sobre isso, sobre o fim de algo que termina na prática, no dia a dia, nas ações. Porém permanece dentro de nós, como que nos a assombrar e nos mover rumo a lugares nebulosos, como o passado, as lembranças… um inferno chamado saudade. O texto escrito por Davi ganha mais força quando ele se atém a revelar detalhes do cotidiano perdido. Quando sua atenção volta a reconstruir momentos que são só dele e por isso mesmo encanta e emociona. Ao oferecer uma analise sobre o que é o amor, o texto soa impostado e pretensioso, embora Davi tenha uma presença cênica acolhedora e carismática. O que cativa é ele ou a história dele? 
 
          O momento mais emblemático do solo é quando narra seu primeiro encontro oficial. Sabemos o título do filme, o cinema, o sabor do chiclete…são essas  particularidades que individualiza o personagem e o enriquece, não o poster do filme Moulin Rouge na parede ou o livro de Virginia Woolf. Quem gostava de Ana Cristina Cesar? Davi ou seu amado? O filme Ela é importante pra quem? Porquê? 
 
          Em O que restou de você em mim a ambientação aprisiona o ator numa estética que não traduz com verossimilhança o universo do quarto do “personagem”. A honestidade do simples e do banal, e de objetos dispostos ao leu e sem uma combinação excessiva teria surtido mais efeito. Um trabalho como esse, mereceria mais momentos onde pudéssemos ouvir a respiração do ator e o sentimento aflorando dentro dele, do que marcações onde o faz pular de um canto para o outro, como se isso potencializasse sua história. Discordo. O que potencializaria isso era seu desnudamento emocional. O olho no olho. A montagem por vezes pede que o ator apenas divida conosco a sua versão da história, como se isso bastasse para o livrar da solidão de ser deixado. Há um momento em que o ator, sentando numa cadeira, apenas respira. Três respiros ofegantes que não nos deixa perceber com clareza se é cansaço, saudade ou dor. No meio do abandono não há com saber e esse “estar perdido”, faz toda a diferença.
          A direção é da dupla Alejandra Sampaio e Virginia Buckowski, atrizes da Velha Companhia, conhecidas por encabeçarem o elenco de montagens sensíveis como “Sínthia” e “Cais ou a indiferença das embarcações”. Davi Novaes cativou o público no musical infantil “O príncipe desencantado”. Ou seja, não é por falta de exemplos de sutileza que a equipe de construção do trabalho carece.
          O Jornal Agora São Paulo trouxe uma nota no dia 23 de novembro com o seguinte trecho: “Sozinho no palco, Novaes interpreta um homem que, para se redimir de algumas histórias do passado, visita lugares que representam antigos namoros.” A falta de objetividade nessa “peça-depoimento” como é citado no release,causa esse tipo de distorção. Se trata de uma experiência pessoal, um namorado, um amor específico e porque não: uma história de amor gay.
          A experiência de adentrar o quarto de Davi é válida, não necessariamente catártica, embora na sessão que eu estive, apenas eu e outro espectador não nos debulhamos em lágrimas. Davi conta sua versão da história, o público se espelha no seu desamor e é fisgado. Mas que o ator e a direção podiam ter se arriscado mais… e fugido de algumas opções fáceis, ah… isso podia.
          Rodolfo Lima
          Obs: a peça faz suas últimas apresentações do ano sexta, sábado e domingo na Zona Franca (Rua Almirante Marques Leão, 378 – Bela Vista. Informações: 98202-4658)
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Tinta Bruta

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Filmes gays interessantes, que se propõe a subverter os clichês de tal universo, são uma raridade. Não que não haja tentativas e uma produção ambiciosa por. Mas, é sempre um desafio para os artistas, conseguir driblar os velhos “chavões”. Tinta Bruta de Filipe Matzembacher e Márcio Reolon não deve passar desapercebido na história na cinematografia gay nacional.  Não falo pelos prêmios importantes que recebeu e sim pela forma como os diretores abordaram temas rotineiros para os homossexuais, como – por exemplo – solidão, desamparo, violência e exposição online.

Independente da idade que tenha o público do filme, a comunicação é imediata. Pedro (Shico Menegat) vive só e é acusado de uma agressão. Retraído na vida social, se expõe na internet com o codinome de “Garoto Neon”, ou seja, ganha a vida expondo seu corpo em meio a tintas coloridas para homens que pagam para acessar virtualmente sua intimidade. Pedro é jovem, mas a vida parece não ter saída. E essa nefasta constatação vai tirando a passividade do público que aos poucos vai se aquietando com a realidade do protagonista.

Sua realidade seca e árida, ganha realces quando conhece outro rapaz (Bruno Fernandes) seu possível concorrente. Pedro se aproxima então de seu suposto inimigo e as singularidades dos dois rapaz se fundem. São diferentes em seus propósitos, mas dividem a mesma inquietação. Tem realidades dispares, mas isso não os impedem de tentar se comunicar. Como se fossem os únicos habitantes de uma terra devastada. No caso, a cidade de Porto Alegre, que sofre com o descaso cultural e vê a intolerância ganhar dimensões desproporcionais.

Os garotos que se pintam são contaminados pela violência e pelo afeto na mesma proporção em que se esbarram e tentar sair de seus mundos. Se vêm desamparados e confusos, na mesma medida que são obrigados a continuar tentando sobreviver as intempéries da vida. A solidão vem de brinde para uma juventude que não consegue escapar das mazelas de uma sociedade fóbica e doente. Vitimizados, se refugiam no universo online, como se esse lugar pudesse o salvar deles mesmos, o que raramente acontece.

Essa forma sem pieguice e direta de lidar com o isolamento de Pedro, faz toda a diferença quando nos vemos sobrecarregados de problemas alheios que esbarram em toda uma falta de estrutura emocional e social, e porque não educacional, para lidar com o futuro.

Esmiuçar o filme é revelar o que ele guarda de mais precioso: sua delicadeza. Seja no desconforto impresso no olhar de Menegat ou mesmo na ansiedade esperançosa da presença de Fernandes. Atores tão diferentes, unidos pela alquimia da ficção. Ambos expostos, verossímeis e intensos. Como se pudessem se complementar e por alguns minutos iludissem o público de que essa opção é possível. Sexy sem serem vulgares, talvez seja uma boa forma de traduzir os corpos dos atores na tela grande.

Desamparados ficamos todos. Não porque a realidade é mais impactante do que a ficção, mas porque nos vemos naquela desesperada sensação de um possível sim. Vemos os sonhos dos meninos se desfazerem e junto com eles, morremos um pouco. Tinta Bruta talvez seja o filme nacional com o melhor retrato agridoce dos dependentes da internet. Pessoas incapazes do convívio social, que renegam a si mesmo, por medo ou covardia, uma possibilidade real de contato e que constroem toda a sua subjetividade entre os limites da tela de um computador. Pedro se despe, pela web cam, mas os tais nudes que são trocados diariamente é uma forma triste de mercantilizar o próprio corpo, como se os afetos pudessem entrar nesse balaio de brinde. Não entra. O que se vende diariamente no mundo on line é a ilusão de acesso, de pertencimento, de emponderamento. É deprimente a realidade de quem depende dessa opção para se sentir vivo, incluído.

A cena em que é revelado ao espectador o motivo do isolamento de Pedro é um grande momento onde solidariedade, empatia, sedução e carinho são alinhavadas e todos nós nos sentimos confortados. Todos somos Pedro nesse momento. Somos beijados em nossas questões mais dolorosas e esse efeito imagético do filme é o seu grande momento, eu diria.

O filme ganhou os 4 prêmios importantes no Festival do Rio de 2018 (Melhor filme, roteiro, ator principal e coadjuvante) além de ser eleito o melhor filme no Teddy Award, em Berlim, considerado Oscar de produções com temática gays. No Festival Mix Brasil, foi completamente ignorado na premiação. Uma discrepância para um filme que potencializa a produção nacional com maturidade e delicadeza, sem deixar de ser cruel e verdadeiro.

Vale ressaltar a observação que o filme traz em relação a violência homofóbica. Ela só é legitimada quando é imposta aos homossexuais. Quando esse reagem, temos um problema social. Gays terem suas singularidades achincalhadas diariamente, faz parte do contexto cultural da sociedade em que vivemos. Mas e se reagíssemos a cada tentativa de opressão e fobia, que mundo estaríamos prospectando para o amanhã.

Em Tinta Bruta o amanhã é um oásis. Nos tornamos cúmplice de Pedro no que ele tem de bom e ruim e de precário também. Afinal, todos carregamos uma parte que nos falta, mesmo que seja ela que nos impulsione a crescer…amadurecer. Ao som da maravilhosa “Drone bomb me“, ecoada na voz de Anohni, deixamos o cinema. Assim como Pedro, não sabemos dançar para além dos nossas paredes, mas assim como ele, implodimos sem querer por dentro e o amanhã,  bem… continuamos sem saber.

Rodolfo Lima

Trajetória Sexual

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Numa época onde a diversidade sexual corre o risco de ser tolhida e reprimida, Álamo Facó vem a cena e se desnuda para falar sobre sua suposta Trajetória Sexual. O solo que encerrou temporada ontem no SESC Ipiranga, fecha a Trilogia da Perda, combo de solos do ator que inclui: Talvez (2008) e Mamãe (2015). Todos eles buscam um diálogo direto com a plateia, uma “estética documental” – como o autor cita no programa distribuído antes do inicio –  resultando num misto de teatro e performance.

O tom confessional imprimido pelo ator à montagem causa empatia. A auto ficção é uma forma bastante em voga que os artistas encontraram para teatralizarem suas inquietações e assim se expor e teatralizar seus fantasmas, com a “vantagem” de poder mentir descaradamente, afinal ao contar um fato/história já estamos reinventando algo.  Por mais bem intencionado que sejamos, nunca seremos capazes de narrar de forma fidedigna um acontecimento. O ator sabe disso e em dado momento zomba de si mesmo quando enfatiza que provavelmente seu desempenho no sexo oral numa mulher, se fosse narrado por ela, teria outra narrativa.

O trabalho é dirigido por Facó,  Renato Linhares e Gunnar Borges, mas tudo é bem simples e direto, não há complexidades para tantas mentes pensantes. Com o palco vazio, apenas com um tapete, o ator de cara limpa e peito aberto narra o que seria suas aventuras amorosas. A entrega e o despojamento de Facó e bem vinda, numa pesa que fala justamente sobre sexo. Nada mais honesto que seu corpo fosse posto na arena de forma  natural. Porém, nem tudo o que conta atravessou seu corpo, mas do inicio para o meio do trabalho, a encenação faz parecer que sim. Quando o ator abre margem para a participação do público é um sinal de que o que ele diz pode pertencer a todos. Será?

Todos tem suas questões com a sexualidade e suas possibilidades. A variedade que há nessa potência recheada de desejo e impulso “é que são elas“. Nem todos tem a tal desenvoltura do ator em experimentar de forma tão “descolada” e “bonita” esse lugar, convenhamos. Sexo anal, com mulheres transexuais e a prática do fist-fucking é exposto em cena sem o menor conflito. Como se a realidade do ator sempre fosse se permitir de forma fluída e generosa com o(s) outro(s), o que de fato não é crível. E a lembrança de uma juventude conflituosa parece distante para um adulto tão disponível.

É divertido e leve as histórias narrada pelo ator. Ouvimos e nos tornamos cúmplices de suas aventuras e no melhor estilo machadiano “também gozamos pelos lábios alheios“. Porém o tom de cumplicidade que é estabelecido entre público e artista é rompido quando o solo perde o tom testemunhal e parte para o discurso panfletário. A amarração que é dado ao trabalho no terço final, reitera esse lugar, perde se o diálogo descompromissado e entra em cena o discurso pronto que serve para educar a platéia e não fornecer a ela uma experiência potente e transformadora. O inicio supõe esse lugar, o final atesta que ele não foi trilhado até o fim.

A cena de violência homofóbica na escola, como lidar com um corpo trans, a indicação para ler Djamila Ribeiro e o exemplo de criação de crianças sem encarcerá-las num nome que defina seu gênero, são as pistas deixadas pela encenação para um suposto futuro ideal.

Quando o teatro me impõe caminhos e inibe que eu, com as minhas questões pessoais recrie as minhas escolhas, eu desconfio, me afasto, me desconecto. Num solo tão direto quanto o de Facó essa opção é um risco que ilude os desatentos. Mesmo que a platéia se deixe levar pelo discurso em vários momentos, a imposição é sempre um risco. Um pretensão desnecessária.

Rodolfo Lima

(Crédito foto: João Penoni)

Dois a duas

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A descoberta da sexualidade é um nicho criativo sempre revisitado por artistas de diversas áreas, em especial o cinema e o teatro. Como se trata de um período de conturbações e descobertas, a abordagem de assuntos variados por vezes funciona. Dois a duas, escrito por Maria Fernanda de Barros Batalha, aos 18 anos, é um exemplo dos possíveis senões que a abordagem sofre.

O intuito foi investigar a descoberta da homossexualidade e a juventude contemporânea. Dito isso, é de se esperar que a montagem dirigida por Erica Montanheiro e Mariá Guedes, sofressem com o excesso de informações e possibilidades. Embora bem intencionada e com um resultado simpático, a montagem desperdiça uma oportunidade valiosa de problematizar questões urgentes que resvala num imbróglio que inclui educação/assedio/relações inter geracionais/ negritude/ homossexualidade feminina/sexualidade, para citar o básico do referido trabalho.

Ligia (Jhenifer Santine) e Ana (Bruna Betito) são best friends. Estudam em uma escola particular, porém a primeira é negra e bolsista – sua mãe (Bia Toledo) é funcionária da escola – e a segunda é branca e provavelmente tem pais que bancam a sua educação.  O elenco é completado por: Mário (Lui Seixas) namorado de Ana e Cecilia (Luzia Rosa) a professora por quem Ligia se apaixonara.

Temos poucos exemplos de peças com a temática lésbica. Quando isso é associado a juventude, a porcentagem – em comparação com peça de temática gay masculino – é quase inexistente. Embora o foco da peça seja a descoberta da sexualidade de Ligia, a encenação demora mais da metade do tempo da montagem para entrar propriamente dito na questão em pauta. É uma pena. Quando o assunto surge, ele é tratado de forma ligeira e óbvia. Não há complexidades na abordagem e nem riscos na encenação. Tudo insosso e moroso, como se a platéia não fosse capaz de tensionar um tratamento mais ousado do assunto.

Não se sabe se a peça é para um público teenager e portanto a abordagem é – infelizmente – tatibitati, ou para um público adulto e ai a encenação é basicamente infantiloide. Carecemos de mais. Somos bombardeados diariamente com tanta informação, que o teatro precisa ser arrojado e subverter esse lugar de acomodação que estamos habituados a (con)viver. Trabalhos que ousam abordam e captar um público jovem, são as que mais sofrem, pois é difícil que o trabalho escape de certa banalização.

O tal do contemporâneo na encenação é uma bagunça, do tema aos assuntos abordados. A encenação se utiliza de projeções, público no espaço cênico, música ao vivo. Nada usado de forma limpa e pontual. As projeções é um recurso para facilitar a visualização da cena, mas não deixa de ser uma opção pop. Se o celular fosse algo incorporado na realidade dos personagens, ok. Mas não é o que acontece. O público em possíveis cadeiras de escola é uma ideia boa, porém desperdiçada. E a música ao vivo não tem relevância quando precisa duelar com os hits do momento que vai de Anitta e Ludmila, passa por Cássia Eller, As Bahias e a cozinha mineira, e claro… músicas protestos como a de Linn da Quebrada. A inclusão de “(You make me feellike) A natural woman”, um clássico na voz de Aretha Franklin é uma das “forçação de barra”.

Se a abordagem da homossexualidade feminina não é problematizada, outros temas também não. Como o vício da mãe e filha com o cigarro, o uso de drogas ilícitas e um possível assédio de Mário com Ligia, que valida discursos libertários e feministas com bordões como “esquerdo macho” e “machistas não passaram”. Se o sistema é patriarcal a peça aborda isso de forma rasteira colocando o garoto – o único homem da peça e da ficha técnica – como um infantiloide egoísta, um exemplo masculino de ego frágil.

“Não vou ter coragem de te assumir. Vou fazer com você o que 90% dos  homens fazem com as garotas: iludem” – Cecilia

Dois a duas oferece um balaio de assuntos, mas o resultado da abordagem é pueril. Como se apenas citar fosse o suficiente. A depender do público alvo, pode até funcionar. Mas… o resultado fica aquém. O que é uma pena se levarmos em conta a empatia que os artistas causam em cena. Principalmente Jhenifer (Ligia) e Luzia (Cecilia), respectivamente a aluna que se apaixona pela professora.

Negras e supostamente a margem, aluna e professora se envolvem de forma singela e interessante. A professora tem um histórico de uma paixão lésbica adolescente, reprimida pelo pai, que a fez na vida adulta, ter um casamento heterossexual. Cede a simpatia de Ligia, que tem com a professora a oportunidade de perder a virgindade. Seria bom se a peça adensasse as questões que envolvem essa história.

A aluna tem 17 anos, se envolve com a professora e o suposto amor e admiração que nasce desse contato tem uma abordagem exagerada e rápida. Se Jhenifer Santine funciona em boa parte da encenação, ao citar Clarice Lispector, nos deparamos com a fragilidade da composição da atriz.

A decepção amorosa é encarada como mais uma etapa da vida e isso é bom. O que não é interessante em Dois a duas é a forma como a encenação aborda a sexualidade das personagens principais, seus corpos e o contato entre elas. Reitero, perde se a chance de contar uma história de amor entre mulheres negras de forma provocativa, para além dos clichês da temática. Afinal o que é ser uma “bixa preta”?

A inclusão e associação de “Romeu e Julieta” na dramaturgia, para reiterar o drama dos personagens principais, é mais do mesmo. Um recurso tão batido que chega a ser frustrante. Para citar um exemplo atual, o musical off Broadway, “Na pele” em cartaz no Teatro Augusta, se utiliza do mesmo recurso. Mesmo que a cena seja um dos pontos cômicos da peça, ela contém piadas internas para “a classe teatral” que parece mais um dos temas incluídos e não desmembrado a contento.  A citação das personagens referência a versão cinematográfica protagonizada por Leonardo DiCaprio (1996), mas a música executada – se não me engano – é a de Franco Zeffirelli (1968). Ou seja…

O teatro é a arte da repressão” como atesta Ana. E o que Dois a duas resulta é justamente nisso, um teatro reprimido e com ares de descolado, que peca ao achar que apenas verbalizar temas pungentes do momento basta. Oferece assim um simulacro da realidade que se vê nas escolas, porém não as representa e tão pouco as problematiza. É legitima a opção de oferecer um programa leve, sem que os temas ganhem densidade excessiva, mas há de ser ter cuidado para que tudo não vire uma grande salada de assuntos, como se apenas expor a questão fosse o suficiente.

Em tempos de extrema intolerância, onde alunos estão sendo induzidos a entregarem seus professores. Onde o discurso racial, misógino e homofóbico ganhou relevância e legitimou quem defende tais ideias, colocar a dupla de amigas pixando uma parede para assim terem uma atitude “educativa, política e artística” soa no máximo, risível.

Rodolfo Lima

Obs: a peça fica em cartaz gratuitamente até 18 de novembro de 2018, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, de quinta e sexta 20h, sábados e feriados 18h.

 

 

Gavião de duas cabeças

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A questão indígena é um ponto inflamado na história do Brasil que segue sem uma resolução que dê conta de preservar a história dos indígenas e satisfazer os desejos e a necessidade do homem e do capitalismo. Fomos educados de forma ingênua sobre tais questões a ponto do tal “Dia do índio” se tornar uma piada. Não se pode falar em celebração quando as singularidade e os direitos de tais povos seguem relegados e de certa forma desvalorizado. O solo Gavião de duas cabeças é um belo exercício de alteridade oferecido por Andreia Duarte, que um dia, sensibilizada pela música produzida por “eles”,se organizou a passar dois meses numa tribo indígena, ficou 5 anos.  A peça traz um recorte da sua história, nos alerta e nos sensibiliza.

Com direção de Juliana Pautilla,o solo se aproxima do gênero do biodrama, que ganha cada vez mais popularidade no universo das artes cênicas, ao trazer o intérprete teatralizando a própria experiência de vida. Sem proselitismo,  Andreia vai da garota sonhadora a mulher militante, sem que isso soe pretensioso ou empostado. Dribla de forma leve as curiosidades sobre a nudez, a sexualidade, as necessidades pessoais, os afetos. Se sabe pouco da vida REAL de Andreia nos seus anos de vivência por lá. Mas a sensação é que sabemos muito.

Mais do que tecer um texto cheio de curiosidades e mimimi, Andreia nos oferece a possibilidade de nos aproximarmos de sua experiência e isso não a inibe de ser debochada, provocativa e política. Andreia e Juliana conseguem equilibrar a crítica ao descaso da sociedade para as causas indígenas, mostrar a disparidade que há entre nós (brancos, não indígenas) e eles, e nos oferecer uma experiência de vida. O “tal lugar de fala”, termo em alta nas artes cênicas, que inibe um indivíduo de falar pelo outro, caso não tenha a mesma vivência, é dado a Andreia, pela sua experiência real e pelo público que se torna cúmplice.

Contemplado pelo edital Programa Cena Aberta Funarte em 2016, a dupla de artista puderam dar vazão as pesquisas pessoais sobre corpo/política e o resultado é um ato emblemático e crítico, que imprime no corpo de Andreia as referências que mudaram a sua percepção de vida. A ingenuidade (bonita) da artista de querer sobreviver a um mundo sem os apelos midiáticos e a coca cola – por exemplo, duelam com a intolerância da representante do agronegócio, uma das personagens em cena. Essa ambiguidade entre relato pessoal e testemunho crítico, e as “janelas” que se abrem para diversas interpretações, faz com que a percepção do trabalho ganhem um grande alcance. A simbologia da indígena que une a plateia através das mãos é o maior exemplo de fragilidade e precariedade, que nós brancos e não indígenas, carregamos diante de um mundo vasto e  indecifrável e por vezes impenetrável.

Andreia transformou sua saudade – que para os indígenas é algo que mata – em protesto. Sua experiência em bandeira e seu canto em um lamento pertinente e tocante. Não há como sair indiferente de Gavião de duas cabeças.

Para os indígenas o Gavião de duas cabeças é aquele que devora o espírito que sobrevive a morte do corpo. O momento que Andreia divide com a plateia a forma como eles reagem a perda do corpo físico é tocante e não deixa de ser um recado para aqueles tão afeitos a matéria. Se matar o espírito é esquecer, esquecer liberta.

Gavião de duas cabeças, encerrou a programação do projeto TEPI – Teatro e os Povos Indígenas: encontros e resistência, idealizado por Andreia e realizado no SESC Pompeia, que em cinco datas trouxeram a questão indígena dialogando com o fazer artístico e sua real representatividade. Projeto esse que merece novas edições.

Rodolfo Lima

 

 

 

As irmãs siamesas

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O conflito entre irmãos é um clássico das histórias familiares. Além de um suposto revanchismo que existe em irmãos do mesmo sexo, quando se acrescenta a atenção de um dos pais na história, as questões se complexificam e se um dos filhos cuidou dos progenitores doente e o outro não, pronto, tudo armado para um conflito sem fim. E com esse elementos que as irmãs Maria (nara Marques) e Marta (Cinthya Hussey) se enfrentam após o enterro da mãe. O texto de José Rubens Siqueira foi escrito em 1986 e rendeu ao autor o Prêmio APCA de melhor dramaturgia.

Vale ressaltar que o texto precisaria de uns reparos, além dos que o diretor afirma ter feito. Termos como “bichona”ou a associação de que uma mulher que transa com quem bem entender e por ventura escolhe interromper uma gravidez indesejada, não é sinônimo de ser uma “puta”. Convenhamos que rotular uma mulher por causa de suas escolhas supostamente libertárias e autônomas, é um desserviço. Ainda mais numa época de tanta intransigência com o outro. Para “piorar”, os figurinos de Kene Heuser, embora sóbrio e funcional traga o vermelho, uma cor com associações voluptuosas, para estampar o figurino da irmã que apesar do despudor de fazer sexo com quem bem entender, nunca conseguiu ter um orgasmo.

A direção é de Sébastien Brottet-Michel, que integra a companhia francesa Théâtre du Soleil. Não por acaso,  o diretor concebeu uma encenação limpa e direta, de forma classuda e rebuscada, onde toda a ação dramática habita o corpo das atrizes. A cenografia de Marisa Rebollo é bonita e delicada e dialoga diretamente com a direção, que tornou um suposto universo brejeiro e cotidiano em espaços para diversas metáforas.

O mausoléu-casa onde o acerto de contas ocorre é o grande achado da montagem, acrescido da bela iluminação de Rodrigo Alves, ajuda a imprimir uma sobreposição da encenação, diante da dramaturgia e até mesmo do trabalho das atrizes.  A qualidade estética do trabalho é complementada com a delicadeza da trilha original composta por Wayne Hussey.

Cinthya por compor uma personagem mais caricatural se sai melhor, já que cabe a ela as maiores nuances dramáticas. Porém, sua interpretação destoa de todo o resto, já que Nara tem uma composição mais limpa e naturalista, que integra melhor a cena concebida por Sébastien. Esse ruído e certa lentidão desmedida no todo, arrasta o ritmo e impede que a peça se torne uma experiência arrebatadora.

As irmãs siamesas portanto oferece esse encontro entre uma estética rebuscada e assertiva, e um texto coloquial e cotidiano, que ganha força pela temática universal e pelo verniz impresso em cena. Além de ser uma oportunidade do público acessar o universo artístico da companhia francesa, deglutida pelo olhar da direção.

Rodolfo Lima

obs:a peça segue em cartaz até 02 de dezembro de 2018,no Teatro Aliança Francesa, sempre as sextas e sábados (20h30) e domingos (19h)

Teatro para quem não gosta

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O teatro não é unanimidade, infelizmente. Deveria, mas permanece ainda sendo uma plataforma importante e pungente de divulgação de discursos, informação, entreter, fazer rir e emocionar. Além, claro… (assim como em todas as áreas) ser um lugar de picaretagem. É zombando desse lugar ambíguo que o teatro ocupa que a dupla de atores Marcelo Médici e Ricardo Rathsam (foto), oferece ao público Teatro para quem não gosta. Um mix de cenas cômicas e críticas, usada para entreter e para os interessados em ouvir para além das piadas, uma crônica agridoce do que se pensa sobre o teatro hoje.

É engraçado para o público mais afeito a esse gênero. Mas não deixa de ser triste, pensar que o teatro pode “acabar nas mãos” de youtubers. Descompromissada, mais arriscando uma linha do tempo, a peça traça paralelos entre do teatro grego até os dias atuais. E dai trocar o teatro por um estádio de futebol, quando se visa o retorno financeiro e ser confundido com um mecenas picareta, é uma triste previsão do futuro. Artistas na plateia, entendem literalmente a crítica do texto e o endossam.

Diferente de “Eu era tudo pra ela… E ela me deixou“, que também trazia a dupla de atores ocupando o palco do Teatro FAAP, é Rathsam que protagoniza as cenas, vestido de mulher. Sua Julieta (Romeu e Julieta) e sua Margarida (A Dama das Camélias) são impagáveis, no deboche, na acidez e na desconstrução. Ricardo fez escola com o Marcelo, é verdade, mas isso não é problema. Na melhor cena da peça vemos os atores se utilizam do metateatro para se autocriticarem em cena. A opção é bem vinda é dar escopo para a dramaturgia que patina entre boas sacadas e piadas fáceis e nem sempre eficientes.

Os atores se vestem de personagens femininos, mas não deixam de evidenciar as os períodos e as práticas artísticas, onde as mulheres era proibida de estar no palco. Fiquei a pensa até que ponto o humor pode aprofundar uma crítica, sem que caia na necessidade de fazer o público rir com chavões clichês? É possível?

A cena do balcão entre Romeu e Julieta ganham uma releitura provocativa e interessante, ao trazer o casal de protagonista vivido por duas mulheres. É “a” Romeu, e não “o” Romeu (Afinal: o artigo está fora de moda). Julieta fuma maconha e é emponderada, se recusando a acreditar que precisa morrer por outra pessoa (Julieta pode ser feliz sozinha), por um crush adolescente.  O senão da cena é a representação da mulher-lésbica-caminhoneira, como se o fato de ser duas mulheres não bastasse para fazer o público rir. Olha o perigo. Se a comédia é amoral e por muitas vezes criada a partir de piadas vexatórias, o teatro para quem não gosta reforça esse lugar, fazendo com que o público ria dos estereótipos da homossexualidade feminina sem senso crítico.

Outro momento emblemático é a crítica explicita ao encenador Gerald Thomas e a mítica da falta de compreensão de seus trabalhos. É praticamente uma piada interna para os profissionais das artes cênicas, já que pressupõe que se tenha um repertório cênico para entender a piada. Não é a única (Parem de aprovar o Tiago Abravanel – em testes de musicais –  ele já é rico e eu to devendo meu aluguel), porém a mais afiada. O teatro infantil também tem um espaço interessante. Médici surge como uma Ariel (A pequena Sereia) para falar sobre musicais, ecologia, o politicamente correto,e claro…debochar de tudo. A “criança demônia” que em vez de assistir a peça de teatro, interage e atrapalha os atores também é lembrada.

A peça concebida para comemorar os 30 anos de carreira de Marcelo Médici é irregular, mas entretêm e coloca os mais atento para pensar. Borra as fronteiras entre teatro de personagens e comediantes do gênero stand up. Mas sem se ater numa crítica mais contundente. O cenário de Kleber Montanheiro é acessório dispensável já que seria mais interessante para a encenação, que a coxia desaparecesse e víssemos o troca troca de figurinos, para que assim o público pudesse entender a mecânica do que há por trás do faz de conta.

Preservar o riso pela surpresa, parece ser uma escolha dos artistas. Se fosse mais ousada, talvez a montagem desconstruísse essa possibilidade. A inserção do famoso personagem Mico leão dourado  (da peça “Cada um com seus pobrema“) na tragédia de Édipo Rei, é uma sacada certeira, que renova o humor do famoso comediante que Médici se tornou, sem deixar de fazer uma auto crítica.

Teatro para que não gosta é um programa interessante, pois coloca os atores a mercê de boas sacadas e ciladas habituais no formato e na condução das piadas, como se o público não fosse capaz de rir além do convencional. A arte não paga os boletos, mas dá sentido a vida dos artistas.  E o público ao pagar o ingresso, endossa a escolha alheia e o impulsiona. Esse amor que une artistas e plateia é o bônus da peça.

Rodolfo Lima