Certos Rapazes

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O Teatro Augusta está se tornando um local rotineiro de produções de peças com conteúdo gay. A peça da vez é Certos Rapazes – nosso amor a gente inventa que chega a São Paulo com a chancela de ser o melhor espetáculo gay de MG por voto popular. Na página http://www.facebook.com/onossoamoragenteinventa2017/ é divulgado que a peça também foi indicada a prêmios como  melhor qualidade artística e melhor trilha sonora e efeitos. Além da indicação ao Prêmio CENYM de 2017 de teatro nacional na categoria melhor texto original.

Na peça Pedro Henrique (Rafael Braga) e Guilherme (Hugo Caramello) se encontram num site de aplicativos de celular, um “kit puta”. Hornet, Grindr, Scruff e Tinder, são algumas opções para os desejos masculinos vazarem, por vezes na surdina. Afinal, é de praxe que essa opção oferta encontros escusos e efêmeros. Características como essas são levemente citadas com o tom cômico acentuado no inicio. O que torna tudo superficial. Já que não há opções para adensar nas questões de tais encontros. Portanto, os clichês são reforçados para arrancar riso e cativar a platéia, sem o menor pudor de parecerem fúteis.

É realmente difícil montar uma peça gay e não fugir dos clichês. É sempre curioso ver como a montagem vai lidar com questões caras ao universo homoerótico, como nudez, relacionamento entre eles e a postura e retratação de tais singularidades. Guilherme é bem resolvido, bem sucedido, magro, mora na região central de SP e não tem medo de dar pinta, afinal, “seu armário” explodiu. Pedro é morador de Itaquera, trabalha com telemarketing, não tem trejeitos de gays e está no armário, uma família religiosa o impede de ser livre. A união dessas singularidades é o mote da peça.

A direção de Maurício Canguçu é limpa e objetiva, privilegia o jogo entre os atores e impõe ritmo na peça, sem abrir mão de sutilezas para reforçar o tom romântico da história. Isso não impediu da peça de se furtar de clichês, totalmente desnecessários, como a música da Maria Bethânia no final – sim, isso é spoiler. Beyoncé e Britney Spears é aceitável, a cantora nacional, é um erro apelativo e desnecessário. Tiago Iorc um reforço pro novelão.  A forma como os autores Júnior de Sousa e Luís Villefort arrematam o final, já dá conta de garantir a emoção do público.

Sousa e Villefort construem um texto direto e sem firulas, ressaltando o cotidiano do casal e mesmo que as coisas pareçam acontecer rápido demais e o conflitos de Guilherme soarem, por vezes, incoerente, a empatia acontece. Um texto sem o menor acabamento estético ser indicado a um prêmio de melhor texto, é uma curiosidade, mas, se pensarmos em peças de conteúdo gay, há em Certos rapazes… um adendo interessante para o climax da peça. O trabalho é honesto, força para ser engraçado e conta com a simpatia do público – o talo boca a boca.

Há sintonia entre Hugo e Rafael, e mesmo que não exista cenas ardentes, é possível identificar um carinho entre os personagens e isso é bom, pois preserva a energia necessária para que acreditemos no casal. Rafael se sai melhor. O namorado ciumento, heteronormativo e desprovido de oportunidades que torna sua figura mais vulnerável, é crível. Cabe ao Hugo oscilar entre o drama e a comédia, e se ele não dá conta do primeiro, também não funciona na segunda opção. Sua bicha afetada e forçada e sua porção sentimental over. Em Amor e Restos Humanos, montagem de Jean Mendonça, o ator passava mais credibilidade. O curioso é que mesmo com oscilações na sua composição de personagens, ele cativa. O povo reage aos seus comentários, dialoga com ele. E isso é um ganho.

A qualidade artística do trabalho eu diria que está nesse jogo entre os atores, na possibilidade deles de suscitarem empatia, independente da composição física do corpo, que claro, é esteticamente bem acabado e desejado, por boa parte do público gay.

Certos Rapazes diverte, é despretensioso e pode te emocionar, sem o menor pudor de parecer piegas. Isso não é um problema, é só uma observação. Programa para se distrair e deixar o senso crítico do lado de fora. Na platéia, atrás de mim, ouço o seguinte comentário “Quem dera se isso fosse verdade. Não existe“. Uma questão: o que será de nós se não pudermos contar com a possibilidade de sonhar no teatro?

Rodolfo Lima

Obs: a peça segue em cartaz no Teatro Augusta, as quartas e quintas (21h) até 26 de abril.

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O Incrível mundo dos baldios

foto de lenise pinheiro

Desde que os Satyros se instalaram na Praça Roosevelt, em meados de 2000, sentei para ver suas produções 30 vezes e 1 vez em Curitiba (PR), portanto fui educado a observar a sua opção de lidar/conviver e inserir, em suas produções os supostos párias da sociedade. Ou como eles dizem no programa de O incrível mundo dos baldios, os baldios, seres inúteis, sem proveito. Então se você olhar o histórico do grupo, não há nada de novo e sim uma continuidade do trabalho de Rodolfo García Vázquez e Ivam Cabral, “cabeças” do grupo, que respondem  – quase sempre – respectivamente, pela direção e dramaturgia da maioria das produções.

Na peça em questão, cinco histórias tentam abarcar o que seria a possibilidade de um milagre na vida, uma epifania. Um momento em que algo inexplicável e positivo agiria sobre a vida de pessoas comuns, como eu, como você. A opção de colocar Ivam Cabral para narrar é mais do mesmo. Ele não se renova como artista e o público não tem a possibilidade de conhecer o que o ator pode oferecer. Em quantas peças recentes do grupo ele assumiu esse papel? Seu narrador interage na cena e por vezes nos conduz a uma suposta emoção, embora a direção do Rodolfo jogue pesado na intenção e comover seu público. É visível então, a encenação de Rodolfo e como ele alia elementos, a principio cafona, de forma positiva, para que a história ganhe força. Ivam, como dramaturgo, segue tecendo melodramas sobre a vida e apesar de conseguir em muitos momentos unir poesia e cotidiano, sempre burla com a obviedade e a pieguice. Há quem diga que o trabalho atual tem resquícios de genialidade. Um exagero, levando em conta as centenas de imagens, com o mesmo tom, já propiciadas pela dupla.

Na primeira cena um palhaço envelhecido (Roberto Francisco), morador de uma casa de repouso divide com o público seus anseios. Sua rotina é quebrada com a presença da voluntária (Julia Bobrow) que divide com ele momentos do dia a dia, onde as horas carecem de epifanias. Não há milagre na vida desse palhaço, já que a voluntária sente culpa e não se doa à toa . Sem a irmã gêmea que morreu afogada, a mulher passa os dias fazendo algo por outra pessoa, já que não pode fazer pela irmã. Ou seja, não é de graça sua ação.

Outra cena que merece ser questionada é a protagonizada por Márcia Dailyn, que dá vida a uma cantora maranhense que encontra irmãos evangélicos num ponto de ônibus e carente de atenção os prende com seu jeito de ser e falar – para dizer o mínimo. O inusitado da situação toma ares non sense com as ações da cantora no final. O público identifica sua questão, porém tudo é colocado com tanto estardalhaço e de forma estereotipada que é impossível não rir da caricatura que Márcia representa. Se sua composição fosse limpa e sutil, ela não pareceria uma drag queen exagerada (a redundância é proposital), desesperada para arrancar o riso do público a qualquer preço. Se pensarmos que uma das reivindicações de artistas trans é a possibilidade de representar personagens longe dos estereótipos que já carregam, a encenação desperdiça um momento de fazer valer, para além dos clichês, o trabalho da atriz.

A presença de Oula al-Saghir, que dá voz a palestina, refugiada de guerra é o grande trunfo da montagem. Pois assim como outros apartados já tiveram vez na arena do Satyros, nada substitui a força do depoimento pessoal. Oula causa empatia e seu depoimento singelo e simples toca e nos atravessa. Diante da situação tão delicada como a que compartilha conosco, o sentido da palavra saudade se reconfigura, com a ajuda da dramaturgia, sem que nos seja imposto, conceitos a respeito dela.  Diante desta cena a presença excessiva do peregrino/narrador é evidente.

Não há anjo (Henrique Mello) e nem peregrino (Ivam Cabral) que possa substituir a poesia que há no sotaque e nas vestimentas de Oula. A saber, a aparência (responsabilidade de Adriana Vaz e Rogerio Romualdo) do Anjo e do Peregrino deixa a dúvida: é uma marca do grupo ou uma revisitação estéticas de opções antigas? O tom etéreo dado a esses personagens, fica a aquém de outros já mostrado, por exemplo, na trilogia das pessoas (Pessoas Perfeitas, Pessoas Brutas, Pessoas Sublimes).

O grupo se sai melhor quando burla com a farsa e faz valer, com o apoio da encenação e da dramaturgia – ambos cheios de altos e baixos e por isso mesmo instigante –  uma realidade desprezada pelo universo burguês-cristão e assim desmascara para seu público vidas e vozes ruidosas, poéticas e potentes. Opções essas que recheiam boa parte de seu extenso currículo e que em O incrível mundos dos baldios, definitivamente atesta um caminho que o grupo deve seguir em suas produções futuras, deixando seu núcleo principal longe da ousadia e dos ruídos estéticos e cênicos, que marcaram seu nome na história do cenário teatral paulista. Se a composição dramática não é o forte dos atores do grupo, nos resta apreciar o que propõe a encenação de Rodolfo, que consegue extrair beleza e ironia de um universo kitsch que não cansa de frequentar e reinventar.

Rodolfo Lima

(Crédito da foto: Lenise Pinheiro)

Obs: a peça segue em cartaz até 26 de agosto de 2018, de quinta a domingo

http://www.satyros.com.br

Feminino Abjeto

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O projeto Libertária do SESC Belenzinho trouxe a tona uma longa programação que tinha como proposta evidenciar outras possibilidades poéticas sobre o corpo, a sexualidade e os gêneros. Programação essa que se iniciou em janeiro e termina dia 31/03 com show de Linn da Quebrada. Uma pena que demorou para termos acesso ao programa físico com todas as atividades. Se você não acompanhou a programação on line, perdeu. Antes que tudo se acabe você pode conferir Feminino Abjeto, onde 13 performers, sob a direção de Janaína Leite, questionam o feminino, suas reminiscências e reverberações.

Assim como a questão da negritude e das travestis, o feminino, teve destaque na programação teatral do evento. Oriundo dos núcleos de estudos desenvolvidos pelo Grupo XIX (grupo no qual a diretora é integrante) na Vila Maria Zélia e apoiada na pesquisa acadêmica de Janaína, que entre outras referências, se apoia nas obras da artista espanhola Angélica Liddell, Feminino Abjeto, ganha força ao trazer a tona questões complexas do universo feminino, que permanece entalado na garganta, delas. A direção orquestrou suas artistas num misto de depoimentos pessoal e encenação, jogando por vezes para o público o poder de tomar decisões, no lugar delas. É corajoso os momentos de interação, mais pelo que a ideia suscita, do que a ação em si. Essa subversão está muito representada no corpo de Sol Faganello. Sempre bom ver uma artista que se expõe e compra para si o risco da interação. Pode parecer pouco, mas numa sociedade conservadora e hipócrita (inclusive no meio artístico) é muito.

O trabalho como um todo é irregular. Pois há em duas horas de peça um misto de desabafo, loucura, teatralização, improviso, risco, deboche e loucura e claro, certo hermetismo. Dado a pluralidade de singularidades em cena, seria quase impossível coordenar tudo de forma coerente e pontual. Essa falta de linearidade é o que impede o arrebatamento. Pois o público trafega entre as cenas, se cativando ou desprezando o visto. A dúvida: o público resiste a temática ou a encenação dela?

Um dos imbróglios, por vezes excessivos, é a relação do elenco com as mães. Realmente é de se assustar como uma mãe pode – literalmente – foder, com a cabeça da filha. O feminino realmente é uma “coisa” louca, e certa histeria, também está em cena, como que a nos lembrar que antes de tudo, a mulher é bicho. Assim como todos nós. Mas, convenhamos, os círculos menstruais, suas possibilidades de obter prazer e o fato de poder parir outro ser humano, a coloca num lugar diferenciado, é fato.

Vale a pena ressaltar a fala de Maíra Maciel, que questiona de forma pungente a relação mãe x filha e a dificuldade de separar o elo. Muito além do cordão umbilical que fornece ao feto: ferro, neurônios e cálcio, há uma amalgama entre genitora e cria, que perpetua para a vida toda. Um horror, convenhamos, se pegarmos como exemplo os relatos presente em Feminino Abjeto. “Tudo é culpa da mãe”, já dizem por ai, e certa culpa é reforçado em cena. .

Tudo bem que a questão é o feminino, mas a figura paterna é praticamente apagada, como se não tivesse relevância. Minha questão é: para relações tão fraturadas entre mãe e filha, o pai (quando existiu na concepção familiar)  não serviu como um respiro? Maíra portanto, grávida, joga em cena, para mim o questionamento mais interessante: será eu capaz de ser uma pessoa a desfazer amalgamas? Você acha isso possível? Acha que sou capaz? #bingo

A crítica está toda ai, pois de certa forma é o próprio feminino que reforça o feminino que está sendo criticado. A mulher é reprodutora de um feminino tacanho que ela mesmo despreza, mas que pode/deve reproduz ao ser mãe. Ou seja…Vide a primeira cena, que nada mais é do que um retratado estereotipado de diversas mulheres, com seus sotaques, trejeitos, roupas, localidades regionais e claro comida, tem coisas mais feminina que a associação mulher e alimentos?

O gozo, o pênis, a maternidade, a homossexualidade, o conceito de belo, o desejo, o “boy magia”, a religião, são temas que permeiam o todo, mas são cenas como a da tarantula que projetam com força o trabalho, pois ali se acha um caminho interessante de unir texto, cena e performance. A mítica dos homens que podem urinar de pé, ganham realces interessante, em outro momento potente do trabalho. Certa despretensão é bem vinda, assim como na cena em que Murilo Rosa tem destaque. Essa subversão do politicamente correto faz com que todos respirem, atrizes e público. Mas, muito além do que um homem pode fazer ao urinar, é a fala de uma delas que reforça a ideia de que o homem “mete a cabeça” (e aqui vale o trocadilho) num lugar desconhecido e precisa se virar com qualidade nessa “caverna escura”. É isso, ninguém sabe o que se encontra dentro. E a metáfora é boa, pois sugere que cada mulher tem suas questões e nessa hora é impossível pensar numa generalização. Nesse sentido é o mesmo que ocorre com a homossexualidade masculina e seus rótulos.

A forma como é tratado a homossexualidade feminina em Feminino Abjeto é tímida, uma pena. Já que tais singularidades tem pouca visibilidade na cena. E são nessas horas que o coletivo está unido que o atrito dos corpos femininos, suscitando além de relações heterossexuais, poderia ser explorado. Referências, como a  da série da Netflix Glow para mim, foi explicita, e bem vinda, já que a série é um potente material para se rever questões do feminino.  O cuidado é para que nada soe pueril, embora isso ocorra, e não são todas as performers que ganham contornos interessantes no decorrer dos minutos, permanecendo no ilustrativo.

Com que tipo de mulher, você quer dormir essa noite? Como eu faço para você não me achar burra? O meu sexo diz alguma coisa? Se eu digo que sou mulher no que me torno? Uma mulher com estilo de puta, interessa todo mundo? Você foderia com uma grávida? Você acha que o filho é meu?

Eis ai uma boa questão: um filho é PROPRIEDADE de quem?

A autopiedade de algumas performers é ruim, até porque a cena não propicia a carga dramática. Não há espaço para o drama, embora certo mimimi (muita mãe louca, filhas depressivas, incompreensão) paire o trabalho como um todo. Jogar calcinhas e/ou papel higiênico para o alto funciona em muitos momentos, embora o limite entre “querer chocar” e “entreter” seja dúbio. E a de se tomar cuidado com a primeira opção. Ouvi de uma amiga: Não há lugar para a poesia. Uma crítica, que a direção com o intuito de ser anárquica não privilegiou.

Nunca se viu tanta vagina em cena, como em Feminino Abjeto, essa opção a primeira vista over, ganha relevância quando o genital feminino é metaforizado como uma bandeira a ser hasteada. E foi. Talvez esteja ai a grande força do trabalho: o excesso. Como se forçando o tema, o trabalho pudesse forçar reflexões a respeito da mulher. O público foi condescendente na apresentação que vi. Esse complacência impede que o trabalho exploda. O público diz realmente o que pensa, ou se acanha? Há um grito guardado na garganta delas, mas há alguém disposto a fazer com que elas engulam ele?

Rodolfo Lima

Obs: a peça será apresentada dias 24/03 (21h30) e dia 25/03 (18h30), no SESC Belenzinho.

 

 

 

 

Isto é um negro?

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E se todo mundo se identificasse como negro?” Essa é uma das questões colocadas em cena pela equipe de criação da peça “Isto é um negro?“. Oriundos da mítica Escola de Artes Dramáticas – EAD, da USP, famigerado lugar de suposto racismo e elitismo, e porque não “embranquecimento”. Para usar um termo muito em uso para revelar certa higienização no que concerne a pluralidade de corpos, em cores e formatos. E que (ainda) aparta a população negra, reforçando estereotipos e enfatizando velhos conceitos sobre raça, que nada mais é do que um forma disparatada de alimentar fobias e produzir mais desumanidade entre as pessoas.

A tal escola, deu um passo largo recentemente quando na sua  disputada lista de aprovados ao curso técnico de Artes Cênicas, permitiu que metade da turma fosse estudantes negros. Um avanço, obviamente, quase como uma reparação histórica. O que levou ao colegiado incluir tantos negros de uma tacada só, é uma questão, talvez para além do talento de cada individuo. Quatro deles, estão em cena publicamente (na ficha técnica a criação é creditada a 12 artistas) para nos revelar o que tal inquietação e oportunidade produziram. Eles não são apenas criativos, tiveram uma oportunidade e sambam  – literalmente – na cara da sociedade. Parece pouco? O que eles fizeram com isso, é o que você tem que presenciar.

Raoni Garcia, Lucas Wickhaus, Ivy Souza e Mirella Façanha, negros de tonalidades diferentes, estão a mercê da direção de Tarina Quelho, uma branca. A cor da pele talvez seja um detalhe na ficha técnica, mas essa questão também é pautada quando se pensa: o que faz um espetáculo ser negro? A presença da diretora é um belo exemplo de alteridade. Tarina, ordenou aquelas singularidades e preocupada em extrair o melhor de cada, aliou cena de possibilidade anárquicas, com sensibilidade escancarada – por vezes de difícil aceitação, mas extremamente potente na sua possibilidade de deslocar o público de seu lugar comum de passividade. Rir ou não rir das piadas racistas é uma questão. A cena final protagonizada por Ivy Souza traz em si a essência do trabalho, pois alia inquietação, inconformismo, ironia crítica, sarcasmo e o conceito sobre solidariedade. Que “nós” brancos, os colonizadores, não tivemos pela raça negra. O público ri deles ou de si mesmo? Essa resposta fica em aberto. Afinal, como se questiona a certeza de algo?

O texto costurado por José Fernando Peixoto de Azevedo consegue ser pontual e pessoal, ao não desprezar a individualidade de cada um, o que universaliza as questões porque sua potente capacidade de identificação é imensurável. Há o “negro bicha”, o “ex-branco”, a “negra padrão”, e muitos modelos de clichês que são estigmatizados desde a infância, na escola, por exemplo. Como nos revela a cena em que Mirella disserta sobre suas (nossas?) questões. A montagem com o atriz tem o adendo de além da raça, trazer a possibilidade de desmitificar o corpo gordo. O melhor de tudo é que em nenhum momento a atriz fala sobre sua beleza fora dos padrões. Mas, para os gordofóbicos, a mensagem está explicita.

Assim como o Grupo Carmin, com “A Invenção do Nordeste”, que ocupou o mesmo endereço no ano passado, procurava questionar o que vem a ser um homem do nordeste, o quarteto de artistas negros, criam uma balburdia interessante para questionar o que vem a ser um corpo negro: “Um sorriso negro, um abraço negro, traz felicidade…”. A música (Sorriso Negro)executada pelo grupo Fundo de Quintal é um exemplo triste de adjetivação que se outrora servia para emponderar a cor, hoje soa duvidoso.  Que Deus me guarde, pois sei que ele não é negro. O grupo não se furta de questionar isso, mas não o faz de forma intimidadora, como que a ditar verdades, ou impor um pensamento. Assim como a projeção de personalidades públicas, como Beyoncé, Grande Otelo, Michael Jackson, Família Obama, Neymar, além de Lucélia Santos e Anitta – com suas tranças do clipe “Vai malandra”. Quem define o que é o negro? É justamente essa possibilidade de levantar questões sem fechar ideias que reside a força do trabalho. “O que fazer com aquele que passou pelo processo de coisificação?

A homossexualidade (masculina e feminina) negra está lá. O axé, o berimbau, as marchinhas de carnaval, a fetichização do negro , o trabalho escravo, o estupro de mulheres negras, o cabelo que não nega as origens, o samba, a falta de conscientização dos próprios negros (e de todos nós), que crescemos assistindo pela TV o que é ser negro. “Será que conseguimos definir com facilidade?

Se o palco é um lugar de privilégios, e estar em cartaz numa instituição como o SESC, idem, é emblemático e sagaz quando Mirella vibra com a possibilidade de ser ouvida. De estar ali. O público não sabe qual é a cicatriz preferida de cada um, mas ao ir ouvindo os questionamentos dos atores, reage instantaneamente. Lembra um exercício que se chama “O Jogo dos privilégios”, (Alguém diz: “eu nunca…” e quem sem identifica, afirma) ou seja… o público se insere no contexto nos primeiros 15 minutos de encenação, sem o menor esforço. O trabalho fica assim estabelecido: é para todos. Há uma generosidade ali, sem se utilizar de mimimi para se vitimizar.

Se o conceito de negritude é uma forma de você enxergar a história, a montagem levanta questões de forma despretensiosa, sem discursos inflamados e teóricos (como foi utilizado em “A missão em fragmentos – 12 cenas de descolonização em legitima defesa“), herméticos e pretensiosos (com em “Branco – o cheiro do lírio e do formol”), sem grandes acabamentos estéticos (como é o trabalho musical em “Farinha com açúcar ou a sustança de meninos e homens”) e mesmo sem a preocupação de parecer agradável ou se furtar de assuntos delicados (assim como o fez a montagem carioca de “Eles não usam tênis nike”). Os discursos são potencializados de forma direta e sem meandros. Há na montagem um trânsito irônico da questão, que vai eficientemente do brutal para o sútil, assim como ocorreu no solo da africana Ntando Cele (Black Off). Mais do que responder perguntas complexas, a montagem abre margem para que as repostas seja construída por todos, em conjunto. Uma utopia necessária e apaziguadora.

Não há final, não há respostas, mas as inquietações não param de surgir. Como que a enfatizar nosso atraso em compreender as raízes do nosso racismo. E como dar cabo delas?

Uau, que tarefa árdua!!!

Rodolfo Lima

 

obs: atenha-se para a única – e inesquecível –  referência a questão do black face.

Paisagem em Campos de Jordão

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O argumento promete: dois amigos conversam num bar e um deles revela que a filha de 8 anos, pegou ele no flagra na sala de casa com uma travesti. A peça divida em dois atos, tem no segundo o embate do pai, com a mãe, mulher essa com quem ele supostamente divide a guarda da criança. No elenco três conhecidos atores do circuito cultural paulista: Fábio Espósito, Henrique Stroeter e Patrícia Vilela, a direção é de Mauro Baptista Vedia, com textos de Marcelo Mirisola e Nilo Oliveira. Dado as informações básicas, a principal de todas: provavelmente é a pior peça que você verá esse ano.

Mirisola – por exemplo – tem uma escrita debochada e politicamente incorreta, que preza pelo risco, com personagens amorais. Mas no caso de “Paisagem em Campos de Jordão” não há nada que se salva, e para piorar o texto é extremamente de mau gosto e transfóbico. Eis ai o pior de tudo. A forma vexatória como é descrita as características de Jéssica “o traveco” em questão.

Antes de expor algumas das frases que contém no texto, além da encenação ser pobre e tacanha, fiquei a pensar se o fato de Fábio e Henrique dizerem aquele texto traduz o que os mesmo pensam sobre a questão da travestilidade. Ou seja… é um show de horrores pensar que o que se vê, quando se senta na platéia do Teatro Cemitério de Automóveis (Rua Frei Caneca, 384, Consolação) é uma equipe, que tende a ser considerada preconceituosa, que perdeu completamente o limite do humor e do bom gosto e faz “graça” depreciando os outros. Você assiste e pensa que precisa existir um limite.

Vou retomar o primeiro parágrafo. Léo (Fábio Espósito) revela para o amigo Guga (Henrique Stroeter) que saiu com uma travesti e gostou. O argumento que poderia se debruçar sobre a descoberta do amigo, do sexo gostoso e “acolhedor” (palavras do personagem) vira um show de palavras ofensivas. Em vez de explicar como os amigos encadeiam as ideias e os argumentos… prefiro transcrever algumas frases. Nada do que eu diga, tem mais força do que elas. Atenha-se:

O buraco do pau de Jéssica sorria para mim, parecia uma buceta pra fora

Cuzão agridoce arrombado até cuspir marrom

O que desejamos no fundo é uma mulher que não barganha o cu e tenha o mesmo desejo de pinto que nós

o cu estava mau depilado, arranhando meu queixo

Jéssica é denominada como: “diabo do traveco“, “travecão“, “um travesti“, seu sexo biológico é “piroca do traveco” e sua voz “de rapaizinho“.

Um pau é um pau, não faz diferença se está no meio das minhas pernas ou na dela

O pau dele era parecido com o meu

Elas se submetem, se sujeitam as nossas taras

A mulher que se casa é a que serve para andar de mão dadas. Para ir a forra, as suburbanas, gordas, putas, travecos...”

Traveco é nostalgia pornográfica

Chupar o próprio pau, mas no corpo de mulher

Traveco é mulher de pau, um avanço tecnológico”

Um homem que pensa e sente como um homem num corpo de mulher é como se ele se transformasse num buraco

Acho que nem preciso dizer que o texto também é sexista e machista. É de causar horror a ignorância do público pois vi mulheres rindo, como se a piada fizesse sentido. O texto até tenta criar alguma complexidade já que Léo se apaixona pelo orgão genital da travesti, porque acha similar ao seu, e como não pode se chupar – duro o pau não dobra e mole não entra – se contenta com o de Jéssica.

O final…  abre margem para duas leituras: a das taras sexuais e a da transexualidade. O que só piora. Em tempos onde artistas travestis e transexuais lutam por espaço, acolhimento e participação no universo das artes cênicas, um texto como esse é um retrocesso de décadas. Não tem como encarar como uma comédia, está tudo errado ali. Dos termos usados na dramaturgia, a direção, a atuação dos atores, a bandeira do time de futebol Palmeiras, que tem sua torcida seus membros chamados de Porco. Eu como ator,  jamais compactuaria com tamanha falta de empatia com as questões de travestis e transexuais.

No Jornal A Folha de São Paulo, em resenha crítica (07/02/18) escrita por Bruno Machado, o mesmo resumiu que: “é uma comédia de costumes e, como tal, traz consigo uma lição que, em contraste com sua grotesca trama, soa quase piegas: abandonar o o preconceito faz as pessoas mais felizes. De modo torto e rude, os autores parecem advogar que a salvação do homem, especialmente o paulistano de classe média, reside no gozo livre do medo”.

Parece inocente, certo? #sóquenão

A peça é uma comédia e chafurda no escracho para fazer valer suas piadas. As frases aqui expostas estão descontextualizada. Mas alguém acredita que há salvação para elas? Fica em cartaz até 29 de março de 2018. Sempre as 4° e 5° e custa R$40 reais. #nãoveja #nãogasteseudinheiro #nãosejacúmplice

Rodolfo Lima

Se meu apartamento falasse…

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Existem peças que são produzidas com números ostentosos, porém não funcionam na prática. No boca a boca a nova direção da Charles Möeller & Claudio Botelho, estreou no Rio de Janeiro no final do ano passado e de cara deixou muita gente desgostosa. Em São Paulo aparentemente não foi diferente, fui conferir o que havia acontecido com os “papas” do teatro musical no Brasil. Apesar da casa relativamente ocupada numa quinta feira, os aplausos no final foram mornos e poucas risadas se ouve. Observação: a peça é uma comédia.

A trama é simples, e nem por isso desinteressante. Chuck (Marcelo Medici) é um funcionário mediano, que leva sua pacata vida de casa para o escritório e sonha em uma promoção no trabalho e com uma das funcionárias do restaurante onde almoça,  Fran (Malu Rodrigues). Mas na sede da companhia de seguros, a maioria dos homens supostamente tem uma amante, e um deles, tem a “brilhante” ideia de pedir emprestado a chave do apartamento de Chuck, que mora a 50 metros do escritório. Chuck que é meio um bobão sentimentaloide, aceita. A noticia se espalha e rapidamente outros funcionários também usam a casa do colega de motel. Em troca, eles elogiam Chuck ao chefe, que fica sonhando com a tal promoção. Os números musicais com os quatro amigos, além das letras desinteressantes, soa non sense. Não havia motel em Nova York em 1960?

É uma comédia de costumes, e muitas deles se baseia na ingenuidade dos personagens e na forma pueril, lúdica e engraçada que os acontecimentos se desenrolam. Mas em Se meu apartamento falasse… muitos momentos soam “forçados” e as letras das canções de Hal David, adaptadas por Claudio Botelho não tem a menor graça. Levando-se em consideração que Marcelo Medici não é um cantor de musicais… a coisa “piora” com o desenrolar da trama. A impressão que se tem, é que música mesmo, se ouve quando são as executadas por Fran:  I’ll Never fall in love again, uma belezura que não foi traduzida, mas mesmo assim comunica e I Say a little prayer for you, adaptada ao português sem perder o encanto que a canção oferta. Mesmo que a coreografia seja praticamente inexistente – não sei o que Alonso Barros, fez dessa vez, porque é a movimentação de forma geral é pobre – o momento é adorável, o melhor da peça.

Fran é amante de Sheldrake (Marcos Pasquim), o chefe da empresa. Assim como todas as outras mulheres, Fran é a típica mulher usada e apaixonada. E os homens garanhões dispostos a sanar o tesão alheio e só. Há um pouco de crítica no texto de Neil Simon, na boca de Fran, mas é pouco, bem pouco. Resultado, os machistas riem… os que tem um mínimo de noção, não. Fran também é o sonho de consumo de Chuck que longe de sonhar em usá-la, aparenta acalentar por ela sentimentos genuínos.

A peça é encabeçada por quatro atores conhecidos, Medici, Marcos Pasquim, Maria Clara Gueiros e Malu Rodrigues, embora seja Medici que conduza toda a trama. A peça de forma geral é apática e arrastada em vários momentos, seja cantados ou falados. Não pude conferir o trabalho de Maria Clara, pois no dia em que fui assistir, ela não fez. O texto de Marge (sua personagem) é direto, curto e engraçado. Chuck e Marge se encontram bêbados num bar é uma paquera atrapalhada com pitadas de ironia e sacanagem é uma delicia de escutar e destoa do todo. Digo isso, porque o trecho é melhor que a peça toda. Sem a famosa comediante, a cena fica descaracterizada, pois a stand in provavelmente imita a composição alheia, o que nem sempre resulta positivamente. O que para mim foi uma frustração, já que ansiava por esse momento, da cena com Maria. Nesse mesmo dia, Fran também não foi interpretada por Malu Rodrigues. Duas baixas no elenco, sem aviso prévio.

A crítica escrita por Dirceu Alves Jr. na Revista Veja ressalta sobre o trabalho de Medici: “Como é bonito ver um artista entregar ao público algo diferente do esperado. (…) Sem forçar a graça…“. Acho completamente o contrário. Medici está repetitivo, se apoiando em trejeitos antigos e cacoetes que ele sabe que funciona e reutiliza. Que ele é um ator talentoso, versátil, interessante e carismático, ninguém questiona. Mas em dado momento Medici parece fazer colsplay do ator Marco Nanini, e é impossível não lembra de “O mistério de Irma Vap“, que ambos interpretaram. Ou seja, vemos o ator forçando a barra para arrancar gargalhadas do público. Medici poderia ter composto seu personagem de forma mais singela e tocante, quem disse que ele tinha que ser um “trapalhão” em cena? Ou seja… quem acompanha a carreira do ator, não é convencido da composição do seu personagem, o que é uma pena.

O clima agridoce da montagem não é o problema, mesmo que o visual não atraia, as coreografias sejam simples e os números musicais não empolguem, tudo seria mais ou menos balizado se nos deparássemos com uma boa composição dos personagens, que ofertasse nuances, ousadias e sutilezas. Mas tudo é pueril e déjà vu.  É como se nos deparássemos com uma montagem que pretende alçar grandes voos mas não consegue se manter muito tempo no ar.

Rodolfo Lima

(Foto: Leo Aversa)

Os iniciados

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Deixemos de lado os filmes pop gay do momento: “Me chame pelo seu nome” e “120 batimentos por minuto” e pensemos sobre “Os Iniciados”, filme do sul africano John Trengove, um dos 9 finalistas para o Oscar 2018, mas acabou de fora da seleção final. Um palpite: ele é bem similar a Moonlight, que arrebatou o prêmio de melhor filme, além das estatuetas de roteiro adaptado e ator coadjuvante no Oscar de 2017.

O vídeo que está circulando na internet referente ao XVIII Prêmio Arte na Escola Cidadã, na categoria Ensino Médio, que premiou os alunos da E.E. Maria do Carmo Viana dos Anjos (Macapá/AP), traz um dos alunos questionando: O que é ser sensível hoje?

Numa época onde as sexualidades e os conceitos de gêneros que marcavam sem variações o que se entende por feminino e masculino estão sendo implodidos e carecendo de novas definições, filme como Moonlight e Os iniciados são importantes pois deslocam nosso olhar, primeiramente da realidade branca e supostamente classista e mediana, para outras formas de abordar o sexo em corpos com outros marcadores sociais. Em ambos os filmes: a violência, a realidade de homens negros, a secura das relações e o estereotipo do macho em pleno conflito de ideias. Ambos ganharam força e relevância justamente numa abordagem diferenciada, para as questões da homossexualidade e suas consequências.

Os heterossexuais xiitas acham que ser homossexual é só dar “close”, dar a bunda, ouvir Pablo Vittar e ser promiscuo. Há muita coisa em jogo quando  sua sexualidade é deslocada do status quo e você tem que o tempo todo ficar mediano essa realidade. Como que a provar para si mesmo que você é capaz de vencer as intempéries, o preconceito e a violência cotidiana que não cansa de privá-lo dos sonhos e da liberdade.

Em Os iniciados não há homens livres. Reclusos entre montanhas para um ritual tradicional de iniciação e circuncisão de jovens sul africanos da etnia Xhosa – algo que ocorre até hoje – o filme orbita entre a realidade de três homens: Xolani (Nakhane Touré), Kwanda (Nisa Jay Ncoyini) e Vija (Bongile Montsai). O primeiro volta ao local do ritual para orientar o processo a que Kwanda – supostamente sensível demais – se submeterá, e rever Vija. Esses homens estarão atrelados um aos outros de forma que a atração e a repulsa disputam atenção, num lugar que só deveria ter espaço para o afeto. Mas esse sentimento, (ainda) não é bem vindo entre homens. Triste pensarmos que vivemos numa época em que a intolerância ficou acirrada, onde a intimidade entre familiares do mesmo sexo, também é visto com vilania.

O que as pessoas que tentam privar a sexualidade alheia não conseguem dimensionar é o quanto pode ser violento e tóxico essa repressão, principalmente se tais homens devem/precisam ou tem que, conviver por um tempo entre eles isolados das regras de boa conduta, reinventando as regras. A carne ainda é um norteador poderoso. Por vezes ignorada, mas sempre latente e pungente. Ignorá-la é uma burrice.

É justamente esse chamado dos corpos que fará com que a realidade do trio se choque causando o trágico final. Trengove oferece momentos belos e importantes do homem entre homens, no meio da aridez da falta de compreensão do que seria esse universo. Ainda coloca em questão conceitos de família, amizade, lealdade e amor.

Não é um filme fácil, assim como não foi Moonlight. Protagonistas negros, sexualidades fraturadas, o desejo de ser amado livremente e acertadamente. Se o ritual Ukwaluka é um tabu, o amor que dá certo entre homens também o é. Nos dois filmes citados no primeiro parágrafo, é justamente a impossibilidade de dar certo no fim, que faz com que se tornem grandes norteadores da sexualidade gay.

Não é mais possível para Xolani abafar seus ideais sobre o amor. Não é fácil para ele conviver com a espera e a ausência, de si e do outro. Esse “modelo” de gay representado por Xolani é um dos mais triste de todos, pois isso inclui muita renuncia, apagamento social e solidão. Tudo isso junto não é maior que a capacidade de amar e proteger que o protagonista carrega.

É um filme triste e duro. Seco e direto. Que em vez de explicar algo, quer que passemos pela experiência de vivenciar algo. Isso é importante pois não tem o apelo estetizante e romanceado do que é belo (Me chame pelo seu nome) e nem o as questões da militância e da maldição do sexo, com o surgimento do vírus do HIV (120 batimentos por minuto). Os iniciados nos remete ao mais primitivo de nós mesmos, que é a capacidade de sentir independente de. E de nossa capacidade de renunciar a quem somos e o que sentimos.

Não sabemos como definir o que é sensível hoje. Talvez seja nossa capacidade de resiliência diante/perante e pelo outro.

Rodolfo Lima