Autobiografia Autorizada

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Falar da própria história ganhou um nome pomposo a partir de 2002 quando a diretora e performer argentina Vivi Tellas cunhou o termo biodrama, que simplificando, nada mais é do que narrar a fatos reais sobre si mesmo, ficcionalmente, para uma platéia.  Aliar ficção e memória é de praxe, e o trabalho ganha cunho biográficos. Ao reler um caderno de anotações, que mapeava 10 anos de sua vida (1982-1992) Paulo Betti achou que daria uma peça de teatro com o intuito de “provocar emoção, riso, entretenimento e entendimento” – como especifica no programa do espetáculo. O resultado leva o nome de “Autobiografia Autorizada”.

Claro, que é um olhar “chapa branca” sobre si mesmo. Não há conflito nem dubiedades quanto a suas intenções ou escolhas. Ele também não teve/tem problemas com nenhum personagem do seu passado, citado em cena. Vemos o personagem Paulo se revelando, mas sem nunca ficar desnudo efetivamente. E digo isso, não no sentido da nudez explicita, mas sim da que o fragilizaria em cena e nos poria cúmplice de um dos atores  – com um currículo considerável – mais respeitável da teledramaturgia brasileira.

Esse ar de respeitabilidade persegue o indivíduo em cima do palco o tempo todo. Por mais que Paulo tente quebrar esse “lugar”, na estréia a reação do público era de benevolência e acolhimento. Como se o ator estivesse entre amigos. É notório que é esse o clima que pretende estabelecer. A encenação a quatro mais, assinada com por ele e Rafael Ponzi, deixa o ator mais confortável ainda.

Paulo Betti tem presença cênica, domina o texto, tem projeção e consegue nos pegar pela mão e fazer mergulhar no seu universo emocional e com ele, todos nós voltamos a Sorocaba, sua terra natal. É um longo e pontual trabalho para revelar sua infância e adolescência, e parte de sua juventude. São duas horas de peça e o período citado anteriormente abocanha uns 80% do tempo. Paulo cita levemente sua passagem pela EAD (Escola de Artes Dramáticas, da Universidade de São Paulo) e só a peça só não termina ai – o que seria o “correto”, já que o formato com que a dramaturgia conduz a vida do protagonista, as escolhas para falar de sua passagem pelo cinema, pela TV e pelos palcos, acaba sendo truncada e inferior ao inicio de sua história.

Paulo, se desculpa, dizendo que a peça já vai acabar, mas antes ele vai passar umas fotos, para suprir boa parte da sua história. O público aceita, pois já está cativado pelo ator e sua prosódia. Suas piadas e seus familiares. Não deve haver ninguém na platéia que não se sinta tocado pelo ator em algum momento. Porém seria instigante que a peça tivesse uma segunda parte. Seria interessante ver o ator repassar momentos de sua trajetória justamente quando se deparou com personagens e colegas de profissões tão emblemáticos e marcantes. Exemplifico com a “Crô”, de Agnaldo Silva e José Wilker (1944 – 2014) um de seus estimados colegas de profissão, com o qual o ator nos presenteia com uma impagável colocação sobre sexo anal.

O destaque fica para a forma como Betti se permite rever a morte da mãe e a figura do pai. Se no primeiro caso a peça tende para o melodrama – a questão aqui não é o gênero em si, mas como ele é utilizado – e não permite que nos emocionemos (ator e público) de forma a estragar a diversão. No segundo também não somos atingidos pela frustração do ator de ter um pai esquizofrênico e ausente. São momentos que, embora não verticalizados, são poetizados e delicadamente divididos conosco.  Outro destaque fica por conta da citação do ator Chiquinho Brandão (1952 – 1991), que deixa o público carente por saber mais.

Porém, embora eu tenha apontado alguns senões, não duvide, a capacidade de fabulação de Paulo Betti é irretocável. O ator causa empatia no primeiro momento e tem o respeito de seu público, que ri e se emociona. No meio de um dos bairros ícones da pauliceia desvairada, o ator consegue nos transportar para seu passado de forma singela e nostálgica. É uma viagem agradável, acredite.

Rodolfo Lima

Agnaldo Rayol – A Alma do Brasil

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Nada emociona mais em cena do que ver um ator com uma composição bem feita e entregue ao seu personagem. Tudo ao redor pode ser ruim, mas basta a dedicação de um ator para que não tenhamos a sensação de tempo perdido. Na peça em questão é o próprio intérprete do protagonista, Marcelo Nogueira que dá vida e voz a Agnaldo Rayol,  e nos emociona. Não é fácil compor um personagem vivo, com trejeitos, maneirismos e um trabalho vocal que se aproxime do original. E Nogueira se mostra inteiro e seguro em cena. Um feito.

O musical estreou no Rio de Janeiro em 2014, na época foi indicado a prêmios – Cesgranrio (melhor ator, atriz e direção musical); Fita de Teatro (Melhor espetáculo pelo Júri Popular); e APTR (atriz coadjuvante) – porém isso não garantiu uma vida longa a ele, que só chega a São Paulo – por exemplo – agora, três anos depois.  A temporada popular, com ingressos a R$20 deve ajudar, e é uma oportunidade de ouvir boa música e voltar para uma época tão distante das urgências e modismos atuais, que parece ficção, mas não o é. E creia, os espectadores idosos – e animados – da platéia dá um sensação boa de cumplicidade.

Mas não pense que você vai saber quem é Agnaldo Rayol. Na linha de peças musicais com enfoque em cantores brasileiros – Cássia Eller, Elis Regina, Cauby Peixoto, Cazuza, Isaurinha Garcia, Orlando Silva, Mamonas Assassinas,  Linda e Dircinha Batista, por exemplo – esse é mais um exemplo “chapa branca” de retratação de uma história. Ou seja, a peça não se aprofunda em nenhum assunto inédito da vida do artista, que poderia justificar uma dramaturgia mais complexa, ou arriscada. A peça é mais uma homenagem, assim como foi o Cauby Peixoto de Diogo Vilela, e mesmo arriscado, como a retratação da cantora Cássia Eller (por Tacy de Campos), e também não gera tantas opiniões adversas como foram os musicais sobre Elis Regina. Ainda nas “comparações”, Nogueira poderia ter feito como Bruce Gomlevsky que sozinho dá conta de retratar a vida de Renato Russo. Em cena, se não somos informados sobre a vida pessoal do artista, e ficamos relegado a sua voz e suas canções, que não houvesse tropeços na encenação, mas há.

Os personagens que ajudam a contar a “história” de Rayol são: seus pais, Hebe Camargo,  Ângela Maria, Renato Côrte Real , Wanderléa e Erasmo Carlos. Se Hebe tem um espaço privilegiado na peça, que de tabela presta uma singela homenagem a apresentadora – parceira do cantor e saudosista da sua obra – não temos a mesma impressão no quadro que revela que Rayol também protagonizou filmes. É sofrível a retratação da atriz Mona Vilardo para Wandeca e de tabela o Erasmo de Fabrício Neri é um pastiche. Eles fazem um pout pourri de músicas da Jovem Guarda, e como isso se problematiza na obra do cantor não é explicado. Uma cena desnecessária. Diante da composição de Nogueira – que se dedicou três anos na pesquisa do seu personagem – qualquer interpretação sem vigor, se fragiliza.

Mas é o exemplo de um deslize na direção de Roberto Bomtempo, que se não inova, não compromete o todo. Neri e Stella Maria Rodrigues – que dá voz a Hebe e Ângela – por exemplo, criam empatia e se tornam aliado de Nogueira em cena.

Rayol, já foi galã, astro, rei… fez novelas, casamentos, filmes, programas de auditório… Com certeza um artista com 60 anos de carreira – e 80 a completar ano que vem – tem muito a contar e a revelar. A peça equilibra comicidade com momentos simbólicos como o encontro do cantor com uma empregada do estúdio onde gravava. Momentos que revelam um artista sensível e endeusado.

Na estreia paulista, Rayol da platéia se emocionava, e ao sumir no palco no final da peça e cantar “A noite do meu bem” de Dolores Duran – que segundo ele por pouco não gravou na época, e segue cantando sempre em shows, sem nunca registrar oficialmente – emocionou a todos com sua humilde. Ele prometeu voltar a ver o trabalho aqui em São Paulo. Vá ver o espetáculo, e tomara que você dê a sorte de esbarrar com o cantor por lá. Vai ser a cereja do bolo.

Rodolfo Lima

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Eles não usam tênis naique

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O programa de teatro as terças feiras do Itaú Cultural é uma programação meio que aleatória. Peças novas, com coisas antigas são misturadas sem o menor pudor. Não é vanguarda pois não se apega só no que supostamente deu certo nos palcos nacionais e nem se dá ao trabalho de ousar e ser inovador, oferecendo ao público de terça feira, uma programação nova e provocadora. Portanto cabe ao público ficar atento e garimpar “a” novidade. E eis que “Eles não usam tênis naique” da carioca Cia. Marginal é daquelas peças que você lamenta não estar em cartaz, merece ser vista e revista. O trabalho é de 2015, mas nunca tinha “pisado” em terras paulista, arrisco afirmar.

A trama é “simples”, pai  (ex bandido, omisso, agora religioso) volta para dentro da favela e quer retirar a filha de lá. Ela, prestes a se tornar uma poderosa líder do tráfico, depois que a vida e a sociedade fizeram questão de devasta-la por dentro, se recusa. E a peça é o embate entre essas duas singularidades contaminadas pela realidade que os sufocaram e os oprime, e os obriga a reagir. Pai e filha, papéis interpretados  – sem protagonismo e com vigor – pelo quarteto Geandra Nobre, Jaqueline Andrade, Phellipe Azevedo e Wallace Lino (além da participação de Rodrigo Maré Souza) nos colocam dentro de seu barraco, e desvela um mundo cruel e caótico, que sabemos que existe, mas que por vezes nos parece fetiche de filmes, telenovelas e passeios turísticos. Morro de vontade de fazer aqueles passeios por entre as ruas de uma favela, mas sempre achei o passeio meio que bizarro no sentido de: vou entrar na favela acompanhado e guiado, como num safári?

Os integrantes da Cia. são atores da peça e do meio social em que vivem, frutos da Favela da Maré, local originário do grupo. O embate ideológico é brutal e emotivo e divide a platéia. Sou colocado naquela realidade sem sair da cadeira confortável. Uma pessoa nasce má ou se torna má? É um questão que ninguém responde, mas que a realidade não cansa de nos jogar na cara. E quem gosta de viver apanhando e sob suspeita? Ninguém…

A concepção cênica é simples, porém isso não a exime de ser desafiadora. Harmonizar os atores na mesma vibração é um trabalho louvável e creditado a Isabel Penoni, que responde pela direção. Ela mantém a tensão entre pai e filha, mesmo com marcações básicas, muito comum a qualquer leitor de Viola Spolin ou Augusto Boal. Sabe que a palavra tem força e que seus atores tem gana e é nisso que aposta.

O ponto alto do trabalho é quando literalmente a ficção é quebrada para que a realidade invada, de forma direta e assumida, como se – caso não estivéssemos entendido ainda, o teor das questões para os artistas em cena – tivemos uma segunda chance de nos sensibilizar por aquelas realidades. Não precisava, mas o efeito é certeiro. Na boca de Wallace, que narra sua experiência de negro, gay, favelado, periférico, sai o decreto: ele precisa ir embora, sair de cena/de vista porque “ele” é a questão.

O público não pia.

Quando Geandra relata que é difícil para ela deixar a favela, pois tudo o que ela ama está lá… somos automaticamente colocados no lugar dela. E sentimos o peso disso.

Nenhum Deus nos salvará.

A peça é o exemplo literal do tal “lugar de fala”. Os atores são negros, periféricos e falam de si mesmo, de forma provocadora, crua, simulando agressividade e com certo didatismo – opção perdoada, em função da verdade que o grupo imprime nas suas falas.

Para mim, que tenho o tal “privilegio” (detesto esse rótulo, assumo), por ser branco, cis, e etc e tal… a “peça” começou já na fila, quando fiquei entre duas garotas com cabelos enormes e armados, que já me fazia temer uma delas na minha frente na platéia – não veria nada. Mas enquanto estava ali, entre os cachos alheios de duas mulheres joviais, sorridentes e falantes, achei que sim, aquela experiência era importante e só me cabia me calar e observar. Foi o que fiz.

A minha sensação de opressão entre elas é o que elas sente entre outros iguais a mim?

Na saída da sala de teatro, enquanto esperava para usar o bebedouro, uma cena de grosseria entre duas mulheres – uma mais branca, outra mais morena – quando a primeira grosseiramente pegou água sem se preocupar com a fila, furando a vez da outra. Pensei: essa pessoa não se comoveu nada com a peça e está aqui fora reproduzindo o mundo violento e insensível que vivemos.

Ou seja… a guerra civil é interminável.

Na calçada voltei a falar banalidades com os amigos presentes e voltamos para nossas realidades. No ônibus fiquei a pensar que aqueles atores depois daquele desnudamento voltariam para o lugar que moram, com ou sem mãe, com ou sem namorado. Torcendo para que nada esteja em chamas, assim como recentemente os moradores de uma ocupação na Bela Vista (SP) encontraram seu habitat. Viver está perigoso.

A Cia. Marginal irá para Portugal em Setembro, para o IV Encontro Internacional de Arte e Comunidade (MEXE) graças ao apoio coletivo (o pedido foi de 20 mil reais, mas o grupo recolheu mais) que conseguiram pelo site Benfeitoria. São 10 anos de resistência e a primeira viagem internacional. O grupo merece. São inesquecíveis.

Rodolfo Lima

 

Luzir é Negro!

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Vivemos numa época em que somos constantemente convidados a ser cúmplice da vivência alheia, porém não autorizados a falar sobre. Equilibrar essas possibilidades é a grande dificuldade contemporânea, onde temos que ter sensibilidade, mas não ousar “viver” o outro. E se você for travesti, transexual ou negro, o teatro é o principal local onde suas idiossincrasias são (re)tomadas e teatralizadas. Se antes os atores tinham esse espaço como uma ode a experimentação, hoje em dia os atores estão sendo descreditados. Segundo as militâncias de tais minorias, nem tudo e nem todos podem ser protagonizados por você, se você não pertencer ao nicho que a dramaturgia da peça aborda.

Para ficarmos no tema do racismo e da visibilidade da cultura negra e seus fazedores, em São Paulo o espetáculo “Entrevista com Stela do Patrocinio” protagonizado a mais de uma década pela atriz e diretora Georgette Fadel foi interrompido na primeira das três apresentações que realizou na capital esse mês. Acusada de dar voz indevidamente a uma mulher negra. Os artistas envolvidos na montagem absorveram a crítica do público e do movimento negro e terminada as apresentações agendadas, devem modificar o trabalho ou mesmo interrompe-lo. O que muita gente não sabia, e que foi explicado pelos artistas que conceberam a montagem,no último dia, é que o trabalho era para ter sido protagonizado por um ator negro, que morreu logo após o trabalho estrear. Então a referida atriz foi a primeira substituta a ser pensada no lugar do ator.

Dito isso, foi com naturalidade que encarei o depoimento cênico de Marconi Bispo no solo “Luzir é Negro!”, do Teatro da Fronteira, com direção de Rodrigo Dourado. O teatro é um território fértil para o biodrama – gênero teatral que possibilite que o artista revele sua vida de forma poética, crítica e alegórica, ou mesmo de forma crua e abrupta, como que a provocar o público a se colocar no lugar do outro, mesmo que – repito – não possamos falar pelo outro. O “lugar de fala” tem nome e sobrenome no caso de Bispo. Sua “arma” é sua memória e o lugar que ela ocupa hoje em sua vida e ganha dimensão no palco.

O ator – negro, gay e candoblecista – nunca conseguiu um emprego registrado como ator. Suas maiores conquistas foram suas mãos que apareceram em imagens captadas pela câmera, uma delas do diretor Heitor Dalia, ou seja… o ator faz troça do próprio azar, fazendo com que o público ria dele e com ele, sem o menor pudor. Nos tornamos cúmplice porque o tom de voz e as colocações do mesmo são amenas. Marconi tem empatia e nos envolve porém a direção o engessa com uma marcação que impede que o ator exploda em cena todas as suas mazelas e desabores. Curiosamente, quando o ator parece desconstruido e/ou se fragiliza é quando o trabalho ganha força e avança, mas a direção ofereceu poucos escapes para o ator que é acompanhado por dois músicos, um contra regra e pela intervenção do diretor – que participa agindo sobre a cena. Não pude deixar de pensar que o ator em questão poderia dar conta de todo o troca a troca de roupas e objetos, já que toda a encenação é escancarada na nossa frente. A troca de roupa num canto escuro da sala cênica não se justifica. E o ganho do trabalho é justamente revelar o que não se sabe de Marconi, e no meu caso, vê-lo cantar, foi uma surpresa, boa. Pois redimensionou meu olhar sobre ele, provando que independente da cor, o ator tem seus predicados. Fiquei a pensar se não seria essa a função do trabalho, revelar o personagem em “lugares” onde ele ainda não pôde/pode ser visto.

Não é construído um personagem, e sim uma persona. Marconi ao revela seu passado, sua família, sua sexualidade e religiosidade não está apenas elencando o que o toca, mas, antes de tudo nos mostrando que todas as suas questões perpassa de forma irreversível a sua condição de negro e pobre, periférico e incompreendido. O que faz o contraponto do racismo que o ator expõe é a graça e disposição com que o mesmo se expõe. A direção parece não explorar todas as potencialidade de seu protagonista. Não exige dele um acabamento externo, se concentra mais no desnudamento interno, mas tudo é aparentemente pensado para passar uma mensagem, abordar um tema polêmico (o Black Face, por exemplo) e talvez um ator vulnerável em cena, potencializasse a mensagem. As variações entre esses extremos é mínima, isso é um problema.

São 120 minutos onde vemos o ator fazer graça e por vezes esse gracejo é bem questionável, como nos casos do pastor, do paneleiro, quando interpreta um clássico teatral. Essa sequência é empostada e parece não combinar com o discurso coloquial do ator, que antes de críticar o sistema que o oprime e lhe rouba as oportunidades, quer que vivenciemos com ele suas memórias, eis ai a qualidade do trabalho, quando ele é simples e pontual, mesmo que supostamente zere a teatralidade ou sua função de denúncia. Um bom exemplo disso é quando o ator fala sobre a mãe.

A emoção não é potencializada a contento, é como se Marconi lidasse bem com todo seu drama interno. Isso é possível? Se for, a impressão que se tem é que a direção fez pouco, se não for, a direção não extrai do ator o ponto nevrálgico do calcanhar de aquiles de seu protagonista. Refém de muletas que rouba a atenção do público e impõe uma marcação desnecessária. A ação do diretor pode ser um trunfo bom, pois ali, ele é o único capaz de desestabilizar o artista no palco, assumindo esse lugar de provocador, a leitura poderia ser mais profunda: branco x negro, opressor x oprimido, as hierarquias. Essa problematização soa promissora, mas é reduzida – por exemplo – com piadas a constranger a contra regragem.

Repito, a qualidade do trabalho é a simpatia do próprio protagonista. Como se jogou com os temas e situações de sua vida é que são elas. Em dado momento me parece que falta a identidade do próprio, que está rendido pela ação da direção. Ou seria pelas escolhas?

É funcional – e bonito – quando o trabalho inclui o público em suas memórias, como é o caso  da brincadeira dividida com o pai, ou mesmo os depoimentos sobre racismo que o ator colhe da platéia. Essas escolhas tem força, diferente dos espectadores escalados para ilustrar um comercial que o ator fez, e claro… não foi valorizado a contento. Numa ironia, nem a cena e os espectadores escolhidos o são.

Luzir é negro! carece de certa radicalidade, daquelas que transpassa o bom mocismo e que não pretende acolher o outro e sim intimidar. Não como forma de impor ou ser grosseiro, mas como se recebecemos um oilhar profundo do ator e assim podermos nos ver refletido nas mazelas alheia. O certo não é pautar um trabalho pelo outro, mas não pude deixar de lembrar do trabalho da atriz africana Black Off, na última edição da MIT-SP, onde sozinha e com músicos em cena, a atriz oferecia 3 possibilidades (uma crítica/debochada, outra metafórica/poética e outra explicita/ agressiva) de leitura para o racismo, misoginia e o drama da invisibilidade negra nas artes. E aqui não se trata de um gosto pessoal como espectador e sim de vislumbrar uma potencialidade no artista em questão, usada de forma moderada.

Desacreditado do mercado de trabalho e do mercado dos afetos, o corpo de Marconi pode expandir mais em cena, e não se trata aqui da famigerada sexualização da mítica do corpo negro masculino.  Em cena, o ator se realiza como fada, apresentadora, cantor, filho, ator… Ali Marconi pode tudo. Essa cumplicidade entre ator e direção é bonita, cativante e bem vinda, já que vivemos num mundo hostil é desagregador. Porém é como se a duração longa, a contra regragem, a necessidade de ser político e de usar referências dramaturgicas para embasar o trabalho, atravancasse o todo, impedindo que pudessemos emergir sem piedade no mundo de Marconi.

Rodolfo Lima

 

*A peça segue em cartaz, até 30/07/17, no Teatro Hermilo Borba Filho (Recife/PE)

+ informações

https://www.facebook.com/pg/TeatroDeFronteira/

 

As Criadas

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Vivemos em guerra. Essa constatação é generalizada e irreversível. O mais triste é que os inimigos não estão só fora de nós e sim dentro de nós, deturpando a realidade, gerando rancores, desvalorizando singularidades, potencializando disparidades. Não podemos ter a inocência de temer apenas quem nos governa, quem nos educa, quem nos ama e quem declara querer ficar ao nosso lado independente de. Uma das verdades cruas e violentas do texto de Jean Genet, As Criadas, jogadas na cara do público sem o menor senão é: Quando escravos se amam não é amor.

Partindo desse pressuposto e da dura constatação de que vivemos escravizados em dogmas, esquemas, guetos, turmas e qualquer outra coisa que nos faça ser incluído num sistema cada vez mais ambíguo e  seletivo, não há amor em nenhuma instância. Pois não somos capazes de “amar” para além do que nos enquadra e nos aceita, se é que sabemos com clareza o que é isso. Todos estamos a caça dessa epifania da aceitação e de ser valorizado. Escravos das expectativas.

Num sistema ordinário, onde vence quem pode mais. Onde a potência é medida pelo poder de manipulação, o que nos resta, por vezes é apenas se revoltar. E é isso que Solange (Magali Biff) e Claire (Bete Coelho) compartilham conosco, uma simulação do que poderia ser esse sistema invertido, onde oprimido e opressor, lutam pelo protagonismo. Reféns de padrões estigmatizantes como rico x pobre, branco x preto, feliz x infeliz e por ai vai. Vivemos setorizados. Um desespero.

Nessa loucura que é querer estar no lugar do outro, desfrutando de toda acessibilidade que ilude a alguns com promessas de um dia a dia melhor, Solange e Claire se tornam alegorias bizarras e tristonhas de um sistema cultural, trabalhista e escravagista que parte do pressuposto de que o outro está aquém.

No palco do SESC Santana o que vemos não é apenas o clássico texto de Jean Genet, escrito em 1946, enquanto estava preso. Não vemos apenas uma peça sobre luta de classes: empregados x patrões. Vemos antes de tudo vidas vilipendiadas por um sistema que valoriza antes a capacidade de produção do indivíduo. E se não somos capazes de produzir nada, além do que repetições rotineiras e cotidianas, que se não nos salva do tédio, no permite ter uma vida comum e básica, o que nos restará?

A direção do polonês Radoslaw Rychcik não remontou apenas o texto do famigerado dramaturgo francês. Ele, ao colocar suas personagens sentadas e em poltronas/palanques nos obrigou – nós, o público, reféns delas por mais de uma hora – a mergulhar naquele universo humano cheio de rancor, tédio, resignação e humilhação. Ao invés de preencher a cena com quiproquós cênicos, Rychcik esteriliza a realidade delas e o discurso das personagens – ali só se tem a palavra, como uma arma poderosa e irrevogavel –  ganham sabores agridoces e ácidos, que torna a vida, por aquele período, insustentável. Não há saídas, acredite.

De quebra, ao colocar no topo do sistema “a atriz e cantora negra Denise Assunção” (assim que o diretor se refere a ela no programa do espetáculo) a peça oferece uma leitura do racismo e de toda luta por igualdade que os negros tanto lutam. Assim, a peça é atualizada e problematizada. Ao surgir cantando “O morro não tem vez”, o figurino – por sinal belíssimo de Hanna Maciag –  nos remete a figura de Oxum. Infelizmente não há amor naquele palco e de quebra  – se bobear – nem entre nós. O “morro” tem voz, mas o que se ouve é gritaria. Estamos fadados ao fracasso?

A proposta arriscada da direção só é bem sucedida pois tem a mercê duas atrizes potentes. Magali  e Bete são o que há de melhor na geração delas nos palcos nacionais. Se a primeira tem força em sua dramaticidade madura e convincente, a segunda flerta com o trágico, nos oferecendo um simulacro da realidade que mais do que nos entreter com sua capacidade corporal e vocal, nos inibe com seu poder de persuasão: nos reconhecemos naquela loucura histérica, infelizmente.

A música minimalista – e poderosa – composta pelos irmãos Michael Lis e Piotr Lis, nos enreda de uma forma sufocante e poética. Como se pudesse ir vislumbrando uma realidade bela, mesmo que nas trevas. Esse lugar potencializado pelas câmeras utilizadas em cena, revela que também vivemos num mundo que além de estigmatizar nos revela a todo instante. Registrando uma rotina que não nos traduz poeticamente, mas nos desnuda. Ou seja, não há escapatória.

E quando nos resta apenas cuspir no outro, como se esse ato de repudio e desespero nos salvaguardasse de nós mesmos, vemos que o teatro é capaz de nos ofertar o lado mais cruel da realidade. “As Criadas” do quarterto Radslaw, Bete, Magali e Denise, não é para iniciantes, tudo ali exige do público bagagem e repertório. Ao mesmo tempo que tem uma mensagem direta e certeira. Um feito e tanto. E prepare-se, não há epifanias na referida montagem, não foi dessa vez que o teatro irá te salvar.

Rodolfo Lima

Bug Chaser – Coração Purpurinado

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Você já pensou que pode ser infectado pelo HIV de propósito? Ou quantas vezes já passou pela sua cabeça ser infectado, para poder assim curtir o sexo sem neuras e aproveitar tudinho o que o corpo alheio oferece? A primeira vez que ouvi falar no tema, foi quando assisti “The Gift” (O presente) dentro da programação do Festival Mix Brasil. Lembro de sair sem rumo da sala de cinema e encontrar um amigo aos prantos do lado de fora. Isso foi em 2003. Corajosamente a Cia. Artera de Teatro (Ricardo Corrêa e Davi Reis) estimulado pela PROAC LGBT se debruçaram sobre o tema. E o resultado disso é um trabalho pungente, que aborda questões delicadas – e necessária – do universo gay e que oferece um questionamento maduro e urgente sobre a questão. Um trabalho importante.

Mark não tem ninguém. É um advogado criminalista bem sucedido, mas marcado por uma infância reprimida, cresce sequelado. Muito em prol de uma sociedade homofóbica, machista, e…heteronormativa. O personagem em questão vence na profissão e se sustenta. Porém não consegue bancar seu passado de forma sadia e produtiva. É justamente esses senões acumulados com o tempo que fazem com que Mark tome o seminal  caminho da infecção voluntária. Uma forma de se sentir vivo e integrado num sistema. É um personagem rico, porém sua retratação soa maniqueísta e tendenciosa. Primeiro porque vemos sua vida exposta de uma forma tão violenta e esvaziada de sentido que parece uma efemeridade pensar que ele possa ser feliz um dia. E segundo porque quem se infecta propositadamente, tem no mínimo uma perturbação interna, algo não resolvido. É sempre assim?

Para complicar o assunto, Ricardo Corrêa, ator e dramaturgo, isola seu personagem numa espécie de cela/laboratório, para uma quarentena, afinal, ele é uma arma ambulante (Uma possibilidade de leitura, porém segundo o ator o período é também o tempo referente a profilaxia – onde o indíviduo exposto ao vírus, toma um coquetel para barra a multiplicação do vírus). Sua “porra” pode ser mais fatal que qualquer outra idiossincrasia que seu corpo produza, embora letal mesmo, seja o câncer, como bem frisa o personagem em dado momento. Esse clima de história-de-ficção-futurista é cabível. Já que infectar o parceiro propositadamente pode render algum período encarcerado. Virou crime, e é sério. Afinal, “a cidade é um circo de horrores, ora luxo, ora esgoto.

Corrêa não deixa dúvida e ao surgir com uma cabeça de rato na primeira cena, reitera que seu personagem pode ser sim associado a um animal vil e pestilento, quiça virulento e repugnante. Seria uma forma de rotular o personagem? É uma questão importante que é celebrada quando vemos o personagem transitando por cinemas pornôs, cheios de homossexuais deprimidos e promiscuos, e garotos de programas sem esperanças. É um visão fatalista e real dos guetos da cidade. Uma realidade camuflada.

Ele gosta de ser assim? Eis ai uma questão que impede que o público se apegue ao personagem, mesmo que o ator tenha um desempenho cênico energizante, potencializado pela direção veloz de Davi Reis e a iluminação criativa de Fran Barros. Marc só revela esse lado “bad” da vida. Fiquei me perguntando: será possível querer conviver com o vírus e tudo bem, ser livre e bem resolvido? Bug Chaser, não oferece essa opção, e esse é o deslize da montagem, não deixar que o público se coloque em seu lugar, ou o julgue. Tudo é dado pelo personagem, ficamos de voyeur a observar ora com cumplicidade, ora com repúdio a realidade do outro, que rezamos, torcemos para estar bem longe de nós. Mas a verdade é uma só, quando se aceita transar com o outro sem preservativo, é feito um pacto, mudo e irreversível. Muitas vezes nem é uma exigência (a camisinha), apenas se aceita. Uma verdade que cala a todos.

O problema que o personagem apresenta é o coração que vai pifar a qualquer momento. Essas 400 gramas recheada de rancor e mágoa que Mark carrega no peito. O vírus mesmo não é a questão, serve para que o personagem consiga concretizar uma possibilidade de aceitação e parceria com Jhony, que se infecta primeiro e “vira purpurina”, antes que possa ser agraciado com alguém que o aceite. Mark é tão desgostoso da vida que um coração não resolveria seu problema, então sua desumanização – reiterada pela sua fala – é um exagero. Que dubiamente poderia soar como que um pedido de socorro, de atenção. Não é clara se a intenção do autor foi essa. A metáfora do problema do coração é uma reverberação bem bonita e trágica, da herança deixada pelos pais.

Esse deslocamento já perseguia o personagem desde criança, primeira lembrança de se sentir imundo – mais um adjetivo para o animal que supõe ser. Um troca troca entre primos se torna uma teorização sobre sua desumanização. Seria ali o inicio de uma caminhada que condenaria Marc a restar sempre com os líquidos alheios em seu corpo? A cena remete a um momento da peça “Luiz Antônio-Gabriela” onde diante do inevitável, a “leitada” (ato de jogar o esperma no outro sem nenhum tipo de proteção) se torna problemática.

Essa situação – experimentar o esperma do outro – é um assunto delicado, que Ricardo frisa com muita contundência: “Ditadura do Látex. Você acha que é fácil ter nascido sobre o estigma desse tempo“. As projeções utilizadas pela encenação, muito mais do que reiterar a violência homofóbica que muitas estão sujeitos – um clichê aceitável – poderia ter atualizado o aumento da doença entre os jovens, que no afã da juventude e numa era pós estigmatização do AIDS, que associava a doença APENAS aos gays, não temem a contaminação. O coquetel segura o baque das consequências e a vida pode seguir seu curso. Ter nascido com certa culpa é um fardo nefasto. E notícias do vírus em 1983, não é justificável.

Pode parecer uma exaltação ao ato, mas na peça é super pertinente quando o personagem reitera com todas letras que os praticantes de Barebacking transam sem camisinha, quando explica o que é cavalgar sem cela. Receber “vitamina” ou mesmo zerar a carga viral e ai… sai transando a vontade sem temor, uma roleta russa interminável. Obviamente que isso acarreta outros riscos para a saúde, mas colocada de forma crua e sem rodeios é o melhor que a peça pode fazer. Pois assim como Marc, para algumas pessoas o amor começa no sexo. E para essas pessoas, há limites quando o sentimento surge? Elas pagam o preço?!?!

O melhor momento da peça é incontestavelmente o momento que Marc supostamente se infecta. Para quem já frequentou qualquer tipo de inferninho – sauna, clube de sexo, dark room, suruba e similares – sabe do que o personagem fala, e se você nunca foi, poderá ter um exemplo do quem vem a ser. Quando o personagem caça o vírus como se isso o aproximasse mais do outro, e declara “eu posso viver contaminado, seja lá o que isso significa” é um “eu te amo” avassalador. Me remeteu a Hilda Hilst: “Te amo, ainda que isso te fulmine ou que um soco na minha cara, me faça menos osso e mais verdade”.

O “bom mocismo” contamina o trabalho e isso enfraquece o todo. Um cara sujeito a todo tipo de doença está lá preocupado com “seu lugar de privilégio”? Palavra da moda. Que importância tem a tragédia de Aleppo, se o personagem é incapaz de olhar para si mesmo com amor? O drama social em que o personagem está imerso é “maior” que seu universo interno. Eles deveriam estar complementares e não subjulgados um pelo outro. Partindo desse pressuposto da universalidade a peça perde a individualidade e não arrebata, oferece um recorte frio e racional de muitas questões inflamadas e urgentes para os homossexuais.

Imagina não ter o que sentir. Isso deve ser libertador“, diz Marc. Pena que ele não nos oferece essa possibilidade, essa epifania, essa abertura de na sua tragédia pessoal eu (re)construa meus senões. Porque eu tenho que me importar com quem me pede algo na rua? Que pieguismo é esse? É como se Marc fosse frágil, mesmo que a presença de Ricardo em cena demonstre o contrário. O melhor que Ricardo oferece é quando arrisca e oferece uma composição – e um texto – crua e sem rodeios. Não é uma (con)sequência de socos. O artista não opta por esse caminho e corre o risco de se exceder.

Eu era o depósito“. Essa imagem é poderosa. É das que o público deve guardar, assim como um dos momentos mais emblemáticos da encenação. “Bug Chaser – coração purpurinado” se rende ao virtuosismo em cena e isso prejudica em alguns momentos. Como se as marcações fosse mais importante do que o que está sendo dito, ledo engano. Uma insegurança de não deixar com que as palavras façam o serviço dela. A peça aborda um tema tão complexo e importante que é impossível sair indiferente. Precisa ser (re)vista, questionada e problematizada. Os artistas envolvidos prestam uma contribuição valiosa a história de peças gays no cenário paulista. Confiram.

 

Rodolfo Lima

Sínthia

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A complexidade é um dos adjetivos mais interessantes que se pode ofertar a uma obra. Isso pressupõe que há diversas camadas a serem lidas/interpretadas. E isso no teatro é uma raridade, um feito ousado e inteligente que tem que ser reverenciado. “Sínthia” da Velha Companhia é uma dessas peças. Porém, com tantas questões postas em cena, o risco da escorregadela pode ser maior. E arrisco dizer que no que tange a transgeneridade e a sexualidade do personagem Vicente (Kiko Marques, ator, autor e diretor) temos um exemplo um pouco nebuloso.

Na trama, Cida (Denise Weinberg) é mãe de quatro filhos. Personagem essa que abdicou cedo do sonho profissional e viveu “condenada” a cuidar dos filhos. Teve suas singularidades abafadas. Possíveis desejos suprimidos e a felicidade de ter uma menina perdida. Há muito senões nela. E para complementar, uma doença ameaça colocar tudo o que restou em risco. Mas o que restará, é uma questão que o público carrega a peça toda.

Henrique Schafer dá vida ao marido. O “poeta”, que nada mais é do que um torturador dos anos 60, e que paga com a própria sanidade as escolhas da profissão. Se a mulher sofre por não se expressar para além dos afazeres domésticos, o marido complementa sua rotina com os dilemas que omite, e nessa omissão potencializa o abismo entre eles.

O trabalho é de fôlego, são três horas de uma encenação em boa parte do tempo inspirada e interessante, que alterna drama e comicidade de forma leve e cotidiana, o que aumenta a identificação do público. A peça ocorre em três tempos/período histórico, o que poderia confundir, se a direção de Marques fosse frágil. Não o é. Aliado com o trabalho dos atores – das atrizes, em especial Alejandra Sampaio – “Sínthia” é uma potente encenação teatral.

O que vemos naquela família é o desmantelamento das emoções, embora aparentemente a união entre eles seja o que os fortaleça. Porém, num mundo de ausências, silêncios e emoções abafadas, há muito o que se pesar/dizer. E é isso que os personagens “vomitam” em cena: suas questões mau resolvidas e/ou ainda não extravasadas a contento.

No prospecto do trabalho o grupo assume três temas na encenação: o feminino, a ditadura e a transgeneridade. Vou me ater a essa última e não a toa, ela carrega as outras duas, de forma indissociável.

A sexualidade de Vicente é colocada em cena pela primeira vez quando ele assume a falta de traquejo na iniciação sexual. E/ou quando assume que, depois de ter usado drogas, se vê/se imagina sem o pênis. Ao relatar para mãe, o fato, ouve da mesma: filho veado eu capo. Bom, a mãe é tão castradora e militar como o pai. Isso é herança: o autoritarismo. E isso veremos mais no final, quando os irmãos de Vicente narram o feito seminal.

Pois bem, Vicente é musicista, sensível, e a composição de Marques é formal e opaca, como que a esconder algo. Mas não sabemos bem ao certo do que se trata, ou se é apenas a personalidade introspectiva do personagem. Ele casa, tem filhas e em dado momento da vida é devastado pelo suicídio de um aluno, um pupilo, que o então professor, apadrinha. “Amigo” (Valmir Sant’anna) esse, a princípio, abastado de qualquer possibilidade de melhoria de vida. O embate entre eles é artístico e com questões sociais os diferenciando. Poderia haver ali uma camada sexual que os envolvessem numa áurea sexual? Sim. Mas a direção não escolhe esse caminho. Os momentos de diálogo entre os dois são carentes de desejo e empatia. Isso não evita que a mulher (Virgínia Buckowski) de Vicente desconfie da relação dos dois. Se não fosse a personagem apontar, tal possibilidade passaria batido.

Vicente desconcertado e infeliz resolve numa noite de natal, depois de passar três dias sumido, voltar para casa da mãe vestido de …”Sínthia”, a tal filha que a mãe não teve. E que deveria ter vindo na vez de Vicente. Ou seja, ou o personagem sente culpa, ou uma insatisfação interna com o próprio corpo. Nenhuma das duas questões é esboçada a contento na encenação. Os supostos 40 minutos do segundo ato, que se debruça sobre o tema, é pouco diante dos 120 minutos para se contar a saga familiar, e que perfaz o primeiro ato.

É comum no universo gay, o filho que supostamente é solteiro, cuidar da mãe no final, ainda mais se a mesma adoece. O clichê é legitimo e inquestionável. Mas usar roupas femininas não o faz melhor que os irmãos – que demonstram afeto e preocupação pela mãe – e sua infelicidade é usada para justificar suas ações. Ou seja, qual o papel real da mãe nessa história?Mãe essa que continua o chamado de filhO.

É uma pena que um trabalho tão sério, bonito e bem encenado, patine tanto nas questões de gênero. Para engrossar o caldo: a homofobia internalizada dos irmãos – usada claro, para enfatizar que todos naquela casa carregam o DNA do familiar militar. Soa forçado. Uma déjà vu desnecessário.

A peça tem base em memórias reais do diretor, que assim como seu protagonista foi esperado como menina e teve que viver com a frustração da mãe, vivendo num mundo estritamente masculino. Os dois anos de pesquisa do grupo não exímio a dramaturgia de “forçar” a sexualidade do protagonista, num mundo rígido e solitário, porém vivo e emotivo.

O drama final, com a mãe variando em função da doença avassaladora é verossímil e real. Se eu não tivesse vivido na pele tal realidade… Mas vale lembrar que a saúde da mãe é posta em cena em outros momentos. O público cria essa possibilidade junto com a personagem e os filhos. Mas quanto a transexualidade de Vicente… realmente isso não ocorre. Causando uma confusão nessa transição. Abafada por causa do potencial dramático da cena, em função do fim da mãe.

Se for possível alguém reler o trabalho, pelo viés das questões de Vicente, como se daria essas colocações? Vicente é travesti ou transexual? Gay ou apenas um homem em depressão? Questões que o trabalho sugere, mas não responde a contento.

Rodolfo Lima