Navalha na Carne

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Exaltamos muito os dramaturgos internacionais e suas obras insuperáveis. Para além do legado deixado por Nelson Rodrigues (1912-1980), o dramaturgo Santista Plínio Marcos (1935-1999), tem em Navalha na Carne, um desses exemplos que o teatro nacional irá exaltar para sempre. Seja pelo registro de párias da sociedade, pelo retrato cruel da prostituição feminina, do machismo impregnado no imaginário coletivo e pela retratação de uma  homossexualidade afetada. Veludo e Neusa Sueli são exemplos extremos de indivíduos apaixonados e apaixonantes. Seja pelas suas carências, pela sua forma desmedida de amar, ou pelo retrato triste de suas pobrezas individuais.

Portanto Navalha na Carne é daqueles textos que sabemos o que vai acontecer, mas que nos gera expectativa sempre. Afinal, a peça é uma proposta para composições rebuscadas e intensas e/ou interessantes de seus interpretes. Da parte de quem vós escreve, Veludo tem meu apreço especial. Seja pelo meu interesse na retratação dos homossexuais nas artes cênicas, como pelo jogo cênico que o dramaturgo propõe a esse personagem, que vai da passionalidade ao deboche.

Veludo (Ranieri Gonzalez) é faxineiro na pensão que reside a prostituta Neusa Sueli (Luisa Thiré) e o cafetão Vado (Alex Nader). Ao limpar o quarto do casal, Veludo “afana” o dinheiro do cafetão e seu ato vai fazer com que desnude para o público a realidade submissa e exploratória a que Neusa está submetida. Assim como ela, Veludo também mendiga afeto e atenção, vive de migalhas e com pouco. Veludo usa a grana de Neusa para comprar drogas e um pouco de sexo na vizinhança. Neusa vende seu sexo para manter a ilusão de ter um homem para chamar de seu.

A peça tem dois momentos, o final, no embate entre Neusa e Vado,  e quando se descobre a farsa do sumiço do dinheiro e o embate é entre Veludo e Vado.  Se no caso do casal o que impera é a forma humilhante e depreciativa com que Neusa é julgada pelo companheiro, fazendo com que a cena inevitavelmente caia no teatro dramático. É com Veludo e Vado que a peça oferta momentos de risos e euforia, temperados com sadismo, erotismo e certa vulgaridade. Torcemos por Neusa Sueli, porque somos cúmplices de sua dependência amorosa e torcemos por Veludo, pois a forma sacal como ele é humilhado e reage, nós desperta uma sensação estranha de prazer.

Na montagem carioca, dirigida por Gustavo Wabner, Ranieri consegue fazer dos clichês afetados de sua interpretação, mola propulsora para dar nuances interessantes a seu personagem. Não há erotismo a contento no jogo entre gato e rato de Veludo e Vado. Mas o Veludo que o público presencia consegue ser lascivo e histriônico de uma forma interessante e diferente. Não lembra por exemplo o Veludo de Gero Camilo – na montagem paulista de 2008, dirigida por Pedro Granato –  e ambos se apropriaram do personagem por registros similares.

Luisa Thiré ganha força nos momentos finais, onde consegue adensar a interpretação de sua personagem nos momentos em que o texto propicia esse mergulho. A questão é que até chegar no momento de sua derrocada emocional e cênica, a atriz tem pouca expressividade. Preocupados com a porção “puta velha” da personagem, a montagem – não dá para dizer se é uma opção da direção ou da atriz – deixa em segundo plano a construção emocional da personagem, o que fomentaria com mais propriedade a suposta explosão emocional da personagem.

O resultado da direção de Wabner é correta. O cenário bem cuidado de Sergio Marimba dá certo charme ao acabamento final, ilustrando a contento o ambiente decadente dos personagens de Plínio Marcos.

A montagem tem tom saudosista, pois Luisa é neta de Tônia Carrero (1922-2018), homenageada antes do inicio da peça, que teve a composição de sua Neusa Sueli imortalizada na história do teatro nacional. Se sua avó, que para vencer alguns empecilhos – o fato de ser muito bonita para o papel, por exemplo – se arriscou, Luisa foi comedida e guardou para o final da encenação o que dê melhor sua personagem podia oferecer. É pouco.

Navalha na Carne sobrevive com seu discurso machista. Infelizmente muitas mulheres são submetidas a homens exploratórios, abusivos e violentos. Escrito em 1967, o texto hoje, com a existência da lei do feminicídio, ganha leituras mais problematizadoras, para além do universo da prostituição, da falta de amor e da pobreza financeira. Plínio permanece atual e necessário. O tempo trata de reinventar as possibilidade de leituras de sua obra. O público agradece.

Rodolfo Lima

Obs: a peça segue em cartaz no SESC Bom Retiro, de sexta a domingo, até 30 de setembro de 2018

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Josephine Baker – a Vênus Negra

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Um dos grandes méritos de Josephine Baker – a Vênus Negra é trazer a cena as questões raciais, sem ser panfletário ou didático. O que temos em 90 minutos é um misto de diversão, informação e empatia pela história de Josephine, e graças – outro mérito – a presença luminosa de Aline Deluna, em seu solo, que demorou 3 anos para ser concebido. Completando a ficha técnica, Walter Daguerre assina o texto e Otavio Muller a direção. Pelo que se vê em cena, foi um encontro muito feliz, diga-se de passagem.

Digo isso, pois Aline canta, dança, faz graça e é capaz de emocionar seu público, e essa versatilidade joga a favor da personagem retratada e consequentemente influencia no desenrolar da história. A última direção de Muller havia sido na comédia “A vida sexual da mulher feia”, adaptação recheada de clichês, do bem humorado livro de Claudia Tajes. Muller se superou,  quebrou as convenções dos musicais que estamos acostumados a ver em terras tupiniquins, e fez dos músicos Dany Roland, Christiano Sauer e Jonathan Ferr antagonista e apoio importante para que a atriz pudesse avançar em cena com sua emblemática personagem.

Na pobreza, Josephine foi encontrada morta em 1975 rodeada dos jornais que destacaram sua vida, obra e talento. Depois de 5 casamentos se convenceu de que o amor não era pra ela. Não há toa, uma das canções incluídas  no roteiro musical é “Love is a Losing Game” (o amor é um jogo de azar) de Amy Winehouse, num dos momentos mais tocantes da montagem. Que mesmo com tantos assuntos importantes – adoção, racismo, nudez, guerra, miséria, doença – torna tudo leve, sem deixar de ser pontual e emblemático. Se a artista teve dificuldade em encontrar o tal amor dá forma como supunha, não se sabe ao certo. Um das frases dita na peça, reitera o pensamento dela sobre: Sexo pra mim sempre foi assim, sexo de um lado, amor de outro. Uma coisa é entregar o corpo, outra a confiança.

Considerada a primeira grande estrela negra das artes cênicas e a primeira a protagonizar um filme, Josephine foi também uma ferrenha ativista e mesmo em momentos nebulosos não arrefeceu na luta pelos seus semelhantes. O que a direção de Muller fez foi aliar as informações do texto com números musicais, onde Aline pôde mostrar a dimensão artística de sua personagem. Baker também ficou conhecida pela nudez que levava aos palcos. No palco do SESC 24 de maio, a nudez foi naturalizada de forma delicada, o que potencializava a figura da americana.

Assim como ela, Aline também cresceu sendo vista como uma figura atípica e estranha. Talvez Aline viu em Josephine a possibilidade de extravasar suas angústias e a mescla de desabafo, militância, feminismo e criatividade que desse conta de suas inquietações. É como se uma servisse a outra e se camuflassem a olhos nus do público. E tudo isso é feito com o menor recurso cênico possível, apenas com uma toca/peruca e algumas trocas de figurino , feitas no palco, para reverenciar a função de camareira – uma de suas profissões ao longo da vida.

O que Josephine Baker – a Vênus Negra propõe é um programa leve e despretensioso que envolve a todos sem que se perceba. Essa possibilidade mágica de encantar do teatro, torna a montagem impactante e tocante.  Josephine não queria ser reconhecida como uma artista negra, e sim como uma artista. Foi tratada como escrava e vista com desconfiança por muitos anos. Fez da fetichização de sua cor e de suas características e singularidades mola propulsora para se aventurar em lugares como o território francês, que a acolheu de forma irreversível e respeitosa, o que fez com que a mesma se tornasse uma cidadã francesa e deixasse para trás todo o passado racista que os americanos não a deixavam esquecer nenhum dia.

Talvez por dores como essa e por uma doença que lhe roubou a possibilidade de ser mãe, Josephine criou sua tribo do arco iris e adotou 12 crianças, de nacionalidades diferentes, pois o desejo dela era criar uma família diversificada e que se respeitassem. Exemplo esse que a cantora também passou a exigir pelos palcos por onde passava, que deveria dar os mesmos direitos de acesso aos seus shows a brancos e negros. Inclusive reiterando a importância de profissionais negros na produção de seus trabalhos. Curiosamente – e infelizmente – na platéia (lotada) de 210 lugares do SESC, nem 5% estava ocupada por negros.

Josephine Baker – a Vênus Negra teve uma passagem rápida pela cidade de São Paulo, o que é uma pena. Sua encenação areja temas como a questão racial e gêneros teatrais com o musical, traz uma atriz versátil e divertida, com uma composição desajeitadamente pensada, que com sua personagem mais do que nos “colocar no lugar do outro” – no seu caso, de mulher e negra e artista – nos cativa com os altos e baixos de sua vida. Josephine foi uma mulher atípica, mas parece “gente como a gente”.

Atualizações com exemplos recentes, improvisos e o virtuosismo da atriz ressaltaram o leve cunho social da peça, sem deixar de entreter e radiografar sua biografada. A nudez da artista – outro tabu nos palcos – a libertou, lhe trouxe autonomia e a emponderou. E estamos falando de quase 1 século atrás. Em épocas de retrocessos onde o país está prestes a eleger um candidato com discurso racista – assim como o fez os EUA – a Vênus Negra se torna uma epifania necessária e urgente.

Rodolfo Lima

A porta da frente

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Não há nenhum tipo de indicação no programa da peça A Porta da Frente, para guiar o espectador sobre o que os aguarda. No Guia da Folha, a peça é descrita da seguinte forma: “O espetáculo acompanha uma família infeliz, com país à beira do divórcio que não sabem se comunicar com os filhos. A dinâmica da casa muda com a chegada de um vizinho que expõe suas relações desestruturadas”. No site da Assessoria de Imprensa (morenteforte.com/porta-da-frente/) um esclarecimento importante: “Sacha (Fabiano Medeiros) é “crossdresser” assumido e professor de canto. Essa ambiguidade faz de Sacha uma figura muito peculiar, que mexe com o imaginário de todos. Além de se incomodarem com o barulho das aulas de canto, nenhum deles sabe como lidar com aquela figura tão diferente e bizarra do ponto de vista de suas caretices. Mas, apesar de ser demonizado pelos vizinhos, Sacha é um homem de paz. É muito refinado, educado e simpático”.

Diante desses apontamentos você pode supor que a peça escrita por Julia Spadaccini navega por um terreno arenoso e bastante perigoso pois a personagem que detona toda as questões familiares, é Sacha, que na peça se trata de um homem travestido, grosseiramente visto pelos vizinhos como um travesti.  Depois do levante encabeçado pela atriz Renata Carvalho em meados de  2016, que resultou no MONART – Movimento Nacional de Artista Trans, não se pode investir sobre o tema da travestilidade ou da transexualidade sem que se tome alguns cuidados. Precaução essa que a “comédia ácida” dirigida por Marcelo Varzea, simplesmente ignorou.

A tal família infeliz ao se referir a Sacha – o tal homem que gosta de mulher mas também se sente melhor vestido de mulher – lança “pérolas” como: “A casa do traveco“, “Tem um traveco no prédio“, “toda botocada que parece um travesti“, “pintão dentro da meia calça“, “Como será que vive um travesti? O que come? O que lê?“, e “a orgia mora ao lado“.

Ou seja, os estereotipos que alimentam a transfobia estão postos em cena, e o público ri das piadas consideradas transfóbicas, sem o menor pudor. No riso “descompromissado”, o escárnio, e ele beneficia quem? Não beneficia ninguém nem o público presente, pois as piadas são rasas e prontas a fazer rir. Segundo o texto da assessoria a dramaturgia de Júlia foi considerado o mais impactante de 2013 no RJ e levou o Prêmio Shell (em sua 26° edição) e o FITA. A nova montagem careceria de uns acertos no texto, mas como corrigir um texto que está alavancado em clichês, no que diz respeito a tríade Homossexualidade, Travestis e Crossdresser? Afinal Sacha em algum momento é citado como um “veadinho”.

A família de Ruy (Roney Facchini) e Lenita (Sandra Pêra) está passando por momentos delicados. Mamãe infeliz, papai desatento, filha com baixa autoestima, filho sofrendo de amor, vovó com alzheimer. Acrescente ai, o mundo midiático criando mais distâncias entre as pessoas, e deixando que a intolerância e a surdez reinem sobre os indivíduos. A peça deve ser sobre isso, sobre nossas infelicidades diárias, sobre a possibilidade de não sermos aceitos como gostaríamos, da dificuldade que é dar conta das expectativas alheias. Talvez tenha sido essas questões que fez com o texto fosse premiado e as questões indelicadas que apontei nos parágrafos acima colocadas debaixo do tapete.

O que me chamou a atenção foi os artistas aceitarem dizem tal texto, cientes – imagino eu – de que estão reforçando mais fobias. Poderia ser uma forma de auto crítica, caso o texto da dramaturga se propusesse a esclarecer quem de fato é Sacha, mas isso não acontece. Não é “importante”. O climax da peça é o final, justamente porque Sacha permanece nas sombras. Suas questões não importam, e sim a intolerância alheia. Afinal, como cita Lenita em algum momento: Tudo é sempre uma ameaça e nós não podemos ameaçar alguém? Que raios de democracia é essa?

Vale ressaltar também que o mote da peça não é completamente inédito. Lembra bem o roteiro do filme “Ninguém e perfeito”, Flawless (1999), com Robert de Niro e Philip Seymour Hoffman. Na trama, De Niro é um policial homofóbico  que após sofrer um AVC, faz aulas de canto, para melhorar a dicção, com o vizinho homossexual. Ainda sobre o filme, que é ótimo, vejam, vale ressaltar que o personagem de Hoffman gosta de se versti de drag queen. Na peça de Júlia, o pai de família, recupera a autoestima e a poesia do cotidiano tendo aulas de canto com Sacha, o “traveco”.  Deu para sentir a diferença de tratamento?

A prática do crossdresser, consiste no prazer que homens e mulheres sentem em se vestir com roupas do sexo oposto, sem que a necessidade de mudança de sexo exista. Vale ressaltar que um caso famoso é a da cartunista Laerte, que durante anos participou de sessões fechadas com outros praticantes, e que depois de anos se entendeu com uma transexual. Ou seja,é um tema delicado que na peça não é usado nem como uma exaltação ao fetiche.

Diante dessas questões, piadas frouxas, adolescentes imbecilizados – a composição de Greta Antoine é risível – uma trilha sonora descompassada, um ator (Fabiano Medeiros) que patina entre a afetação de um gay e os trejeitos de uma mulher e da participação luminosa de Miriam Mehler, sai incrédulo do teatro. Assim como aconteceu depois de ter visto “Paisagem em Campos do Jordão” de Marcelo Mirisola.

Rodolfo Lima

 

 

Cobra na Geladeira

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A expectativa de assistir trabalhos de autores contemporâneos que deem conta de retratar parte da neurose atual é sempre bem vinda. Com o canadense Brad Fraser, não é diferente. Autor de “clássicos” como “Pobre Super Homem” e “Amor e Restos Humanos”, Fraser sempre chafurda no que o ser humano tem de mais complexo, regado a sexo, drogas, sexualidades confusas e personalidades perturbadas. É como se no universo descrito pelo autor fossemos todos a margem de um sistema que na impossibilidade de assimilar o que foge da norma, o regurgita. Ou seja… seus personagens são o resto. E nós, inevitavelmente, podemos nos identificamos com eles.

Marco Antônio Pâmio é o responsável pela montagem e esteve envolvido nas duas peças citadas do autor no parágrafo acima. Ou seja… em São Paulo, Pâmio é – digamos – o responsável por trazer a cena o dramaturgo. A peça escrita em 2000, ocupa a mesma sala do Centro Cultural São Paulo, onde no mesmo ano estreava “Pobre Super Homem”. Foi marcante a montagem, o mesmo não se repete com Cobra na Geladeira. O que é frustrante.

Numa casa, supostamente mal assombrada e “caindo aos pedaços” vivem seis pessoas: um viciado, um ajudante de garçom, uma stripper e sua irma paranormal, uma garota vinda do interior e seu namorado. Junte-se a eles, um homem que não tem onde morar, a proprietária da casa e um vendedor de drogas. Esses são os arquétipos exposto pela dramaturgia de um mundo caótico e singular. Dinheiro, poder, sexo e mau caratismo, estão acompanhados, dessa vez, de um toque sobrenatural, já que a casa, pode ter vida própria. Ou seja… o tal “se as paredes falassem…” na peça faz todo o sentido. Esse clima sobrenatural é interessante. Já que a casa, assim com o sistema, precisa se alimentar de párias.

O problema maior é a fragilidade do elenco como um todo. Não se tem um peso nos dramas expostos, as personagens parecem pueris e fúteis, como se fossem um simulacro de si mesmas. A cenografia desinteressante de Duda Arruk ajuda a tornar tudo distante e desinteressante. Fiquei a pensar, qual o intuito de se montar um autor como esse se não for para arriscar? Estamos tão bombardeados de imagens e problemas que se o teatro não nos rouba desse lugar clandestino e nos coloca a par de uma vidas intensas e complexas, a ida ao teatro pode ser tornar um programa enfadonho.

A direção de Pâmio é temerosa e burocrática. Não consegue se sobrepor a um elenco caricatural e vazio. É duro crer que o mesmo artista esteve envolvida em outras montagens do autor e que sim, envelheceu e não se conectou de forma pungente com o texto e sua potência. Cobra na Geladeira poderia ser hard, pois há nele assassinos, sexo fora dos padrões, sex web, viciados, e problemáticos descontentes com o tamanho do orgão genital. Há nele mulheres de dançam semi nuas. Mulheres que pagam por prazer. Mulheres fora dos padrões de normalidades. É muita complexidade num texto só, e o resultado é enfadonho e escolar.

Tony (Esdras de Lúcia) e Charles (Felipe Hofstatter) são os personagens mais problemáticos. Não é muito crível a função deles na peça. E não se sabe se isso tem a ver com o corte que o diretor fez no texto original, para diminuir o tamanho da montagem. Se o primeiro personagem traz em si o clichê do homem negro, pronto para o sexo, honesto e boa pinta, sua retratação fica só nisso. O segundo, serve apenas de “escada” para a personagem de Tailine Riberio (Sarah). Para piorar as cenas em que o homem se envolve com a “paranormal” não tem a menor sensibilidade. Ou seja… não cativa e não provoca. Consequentemente o desempenho dos dois atores não passa do razoável.

Marina Possebon (Keila) é fraca em cena, parece uma adolescente, suas cenas são risíveis; Lui Vizotto (Gabriel/Christian) e Juliane Arguello (Dany) não são direcionados a escapar da obviedade e embora pareçam conter material para mais, não são explorados a contento; Regina Maria Remencius (Vivian) parece histérica além da conta e sua interpretação perde em nuances e ganha em afetação; Algo similar ocorre com o trabalho de Tailine, que surge como uma criança abobalhada e no decorrer da peça descobrimos que se trata de uma mulher, sua personagem cresce no desenrolar da peça, talvez a que melhor possa trazer nuances, mas não há tempo e nem espaço para isso. O que faz com que a atriz reproduza clichês. Gustavo Moura (Adrian) como o boy fracassado, sub utilizado e romântico, poderia também propor bons momentos, mas…

Rodrigo Basso (foto) é uma espécie de protagonista (Eric), e é dele que pulsa algo que poderia se assimilar o universo decadente de Fraser. É ele quem se apropria do que o diretor atesta como personagem limítrofe. O ator soa ao mesmo tempo, intenso e frágil e seu registro chapado do personagem só não alça voos maiores, porque o trabalho de atores em Cobras na Geladeira não é realizado a contento. O desejo do seu personagem por um pênis maior e a gana que ele tem por sobreviver não importa a que custo, tem força e comunica. Mas em vez de nos comovermos com seu drama, ou até mesmo concordamos com suas loucuras – porque não? Só conseguimos reparar em como o ator e seu personagem destoa do resto do elenco.

A suposta carpintaria do dramaturgo que sugere uma linguagem mais próxima do cinema, não deveria inviabilizar uma montagem sensível e emblemática. A comicidade  e o patético das situações traz em si, o riso constrangedor que o público soltaria. Mas não é o que se vouve.  A montagem inédita se torna arrastada e mesmo que o texto avance para o climax, a direção não “esquenta os ânimos”.

Realizada com verba da 7° Edição do Prêmio Zé Renato de Teatro para a cidade de São Paulo, Cobra na Geladeira revela seres humanos reféns do sexo como catalisador de algo bom, homens e mulheres frustrados, broxados e temerosos com o afeto alheio e cegos por dinheiro e sobrevida. São muitas as possibilidades de leituras no texto de Fraser. Não tem como comprar a versão do diretor e achar que encará-lo de forma rasa basta.

Rodolfo Lima

obs; a peça fica em cartaz até o dia 16 de setembro de 2018, no Centro Cultural São Paulo, sex e sáb, 21h e dom as 20h.

 

Love Love Love

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No amor não existe final feliz, porque somos animais”

Sandra (Débora Falabella, na primeira fase – Yara de Novaes, na segunda) tinha 19 anos, fazia faculdade em Oxford, quando conheceu seu “amor”, Ken (Alexandre Cioletti, na primeira fase e Augusto Madeira, na segunda), quando foi pra casa do então “namoradinho” Henry (Mateus Monteiro). Desse encontro, toda sua vida foi transformada e consequentemente a dos seus familiares, futuramente Rose (Débora Falabella) e Charles (Alexandre Cioletti). Não há como prever os (des) caminhos do amor e Love Love Love, do inglês Mike Bartlett nos deixa com a sensação no final de ter visto uma história de terror. Sim, isso é um elogio.

Não se sabe se é uma comédia dramática ou um drama cômico, mas uma certeza é inerente, a peça é de uma acidez que perturba e transforma o espectador. Não há como sair indiferente das mais de duas horas de peça, que passa, surpreendentemente sem que percebamos. A peça se passa em três tempos: 1967, 1990 e 2011 e com isso é possível um espelhamento de diversos ângulos. Você reconhece parte de sua família em cena e mesmo que isso seja o básico no teatro, no drama de Bartlett, o gosto é agridoce.

É uma história de amor, como sugere o título, mas estruturada no núcleo básico familiar que consiste em um pai, uma mãe, um filho e uma filha. Um dos trunfos da carpintaria do autor é que a peça pode ser lida por todos os personagens e isso propicia uma leitura/viagem/percepção dos fatos, diferente. A mãe é a mais emblemática. Para além do chavão psicológico: “tudo é culpa da mãe”, ela retém dentro dela toda a dicotomia do que se vende como amor. Para ela, amor é liberdade, loucura, aceitação, principalmente entrega e porque não, um pitada de rejeição. O que se espera desse sentimento, que se aproxime de cumplicidade, acolhimento e generosidade, passa longe de suas atitudes.

Sandra é egoísta? Cruel? Desapegada? Como rotular essa mãe que prezando pela liberdade, pela possibilidade de viver o momento presente, e com plena consciência de que viver é foda e que as coisas acabam, se joga de forma irreversível nas situações? Não é possível. A interpretação de Yara de Novaes  – que levou o Prêmio Shell de melhor atriz pelo trabalho – potencializa essa ambiguidade da personagem. Um grande momento da atriz alavancada pela direção certeira de Eric Lenate que conduziu a atriz em momentos de repudio, emoção e tensão. Esse “caldo” é o que humaniza a personagem, mesmo quando ela é puramente corrosiva.

Lenate conseguiu potencializar a dramaturgia, sem subjulga la. Respeitou a obra do autor e conseguiu fazer com que seus atores crescesse nos silêncios. As pausas propostas pela direção são tão importantes como as farpas que os familiares trocam rotineiramente. Love Love Love nos coloca de volta diante da potência de um bom texto, fazendo com que voltemos os olhos para a importância seminal de uma dramaturgia eficiente. Bons atores, complementam as ferramentas que o diretor tem nas mãos.

Com viés femininista o embate entre mãe e filha é inevitável e sem soluçãoso. De um lado uma mulher que trabalhou décadas e sobreviveu ao final do século XX e do outro lado uma mulher que se torna um simulacro do “homem” na atualidade, onde a falta de projeção na carreira, de bens financeiros e até mesmo de uma família para chamar de sua, a joga no limbo da descrença e da sensação de fracasso no inicio do século XXI – bem sabemos como é.

Nesse duelo, onde a filha questiona a mãe, e ambas são postas no mesmo patamar das questões feministas, a mãe vocifera: eu também sou mulher, sabe o quanto eu tive que suportar? Ou seja, não existem culpados, embora o ser humano passe a vida toda querendo achar um, ou uns, no caso dos pais. Talvez o mundo pudesse ser sobre sermos livres e iguais. Mas, a gente vai morrer, o mundo é horrível. Essa é a constatação que o núcleo familiar nos impõe. Enquanto o filho agoniza no meio da sala, o restante da família está ensurdecendo pelos próprios problemas. Não há boia para todos. E quando se trata de amor, você salva a si e a seu amado, ou o próximo? Como mensurar o amor?

Depois de ver Love Love Love, você também não saberá. E a pergunta fica em aberto como uma “feridinha” irritante. Da minha parte, como expectador estimulado pelas questões exposta no limbo cênico, uma única certeza: nunca culpei minha mãe por nada. Ufa!!! essa lapada na cara que a peça proporciona, não me cabe.

A montagem é charmosa, sem ser apelativa. Dramática sem ser piegas e soa fresca, mesmo se debruçando sobre velhos chavões da dramaturgia, como irmãos que disputam  a mesma mulher, pais alcoólatras, filhos disfuncionais, rejeição aos pais e  adolescentes suicidas – por exemplo. E como nem todos podem fugir para Londres, que foi criado porque as famílias são chatas. O ideal é sobreviver além de. Porém quem consegue? E a que preço?

Cometa seus erros, eu sempre estarei aqui para catar os cacos, essa mensagem da mãe em algum período da vida dos filhos é inspiradora, mesmo que dita de fora debochada. Qual o papel de uma mãe diante da falência geral? Se ela cuida dos outros, quem cuida dela? Qual melhor alento: o dinheiro e uma vida estável ou colo e atenção? Veja Love Love Love e faça seu julgamento. Sim, somos cruéis.

Filhos e pais não são arquétipos de heróis, embora sempre esperamos que o seja. A velhice e um corpo que se torna desinteressante, sempre será um problema. Afinal, o ser humano carece de novidade e frescor. Ser tecnicamente uma família não é garantia de nada. E a aposentadoria, junto com as mazelas do corpo e um espaço ambíguo para o ostracismo e o descaso. Eu não consigo me concentrar, mas eu não preciso me concentrar, a fala do pai é triste e emblemática. Em algum momento da sua vida você vai querer desistir. Simples assim.

No amor não existe final feliz, porque somos animais. A mãe atesta nossa falida necessidade de criar expectativas, porque em muitos caso o que se deve fazer é expor os fatos. E a culpa e o suposto amor não podem andar juntos como se um pudesse sublimar o outro. Assim como não podemos e nem sempre sabemos o que é seguir nossos sonhos, ou quando nossa carreira começa. Diferenciar o que é bom para nós e o que é bom para o status quo é uma dialética interminável. Você quer uma carreira ou uma família? E se der errado?

Se você não se arrepende, não se desculpe, siga. Não se torne ridículo e contraditório. Eis a mensagem fatal da mãe. E nessa caminhada inevitavelmente, alguém e coisas ficam pelo caminho. Love Love Love é a constatação de que as mazelas do dia a dia e a utopia de seguir seus ideias, cobraram seus custos. Tudo tem seu preço, inclusive o amor, que se for intenso e verdadeiro, não acaba.

Assim como não acabou o de Sandra por seu amado ex marido, pais de seu filhos, que permanece irresistível aos seus olhos, mesmo com o passar do tempo. Você me deixa sem lugar, sem jeito. As vezes acho que você não vai ter fim. É isso, o amor não tem fim e pode passar como um trator por você e sobre os que você ama. Um choque (necessário) para quem vê de fora. A peça termina aos berros e Love Love Love se torna imperdível e necessário.

Rodolfo Lima

Obs: a peça está em cartaz no Teatro Vivo, sexta (20h) sábado (21h) e dom (18h).

Cérebro Coração

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“Eu estou tão úmida que desaguei, virei rio. Virei esgoto. Finjo que não sinto esse cheiro. Finjo que o amor não está aqui”

Uma das minhas inquietações da atualidade recai sobre os motivos/estímulos que movem um artista a se renovar. Já que são tantos os desafios para ser inovador e fazer a diferença, que sempre volto para a mesma conclusão: ser sincero, se expor. Mariana Lima em “Cérebro Coração” sugere isso nos primeiros minutos em que está em cena. Sua facilidade em se fazer honesta é imbatível. Isso se via lá trás em “Apocalipse 1,11” (2000), se via em “A paixão segundo G.H” (2002), se viu em “Pterodátilos” (2011) e no tocante “A Primeira Vista” (2012). Se você não conhece o trabalho da atriz, está perdendo. Mariana é daquelas atrizes que considero “obrigatória”.

Mas, em vez de ficar enfatizando minha admiração longeva pela atriz, quero falar sobre o que ela está propondo numa das salas do SESC Belenzinho. Não sei se gosto do rótulo de “peça conferência”, pois não é isso que ela faz. Ela não está “encapada” no papel de professor como faz o ator Renato Livera em “Colônia”, para nos fazer pensar e refletir e consequentemente submergir em sua singularidade. Mariana parece uma velha conhecida que adentra a sala de teatro e divide conosco suas questões sobre o cérebro, as emoções, sinapses e possibilidades de vir a ser. No melhor estilo Deleuziano de  olhar o mundo, a atriz vai nos guiando pelos labirintos de sua memória/aflição para que consequentemente criemos nosso próprio repertório de indagações. E possamos existir, mesmo que ficcionalmente e por instantes na frente da atriz.

Nada na fala de Mariana é impostado ou irrisório. Sua capacidade de fabular sobre questões complexas como memória e discernimento são o grande trunfo da montagem. É como se a atriz nos pegasse pela mão e nos conduzisse por um labirinto poético e complexo, sem que isso resulte em algo de difícil compreensão ou vago. Responsável pela dramaturgia a atriz é dirigida a quatro mãos por Enrique Diaz e Renato Linhares. Indicada aos Prêmios Shell de Dramaturgia, Atriz e Iluminação – essa última categoria a cargo de Beto Bruel, é outro item na montagem que se destaca, pois ao mergulhar nas inúmeras possibilidades de leituras que nosso cérebro e nossas emoções é capaz, a luz de Bruel, mergulha de forma pontual na atmosfera da peça, potencializando a crítica da atriz. São Paulo deve ceder a qualidade do trabalho e incluir Mariana nos prêmios locais.

Um dos pontos altos da montagem é justamente a nossa capacidade de simbolizar alguma coisa, o que nesse caso, poderia muito bem ser a cultura. E quando se pensa nisso, no quanto valorizamos e a que preço, nos deparamos com questões inflamados na atualidade com termos como “apropriação cultural” e os “fakes” no universo das artes. Resignificamos algo, pois a carência é nossa. Nomeamos e valorizamos as coisas/os outros pois o desacerto nos preenche. Essa triste constatação é um dos “toques” cruéis, e necessários, que a montagem oferta, quase que despropositadamente.

Se parte de nossa memória está fora de nós e a lenda de que ao morrer um filme passa pela nossa vida, a atriz reitera: “O filme da nossa vida são os outros“, ou até mesmo “as coisas”. Ou seja… tudo ilusão, projeção, suposição, sensação. O que há de concreto em nós? Nesse ínterim de não se saber “inteiro”, Mariana pondera que importante também é o que nossa memória não acessa, o que o tempo não transforma, e até mesmo o fato do passado e do futuro estarem nos tomando por inteiro no momento presente. Ou seja, somos eternos refém dessa caixa de pandora chamada cérebro.

Nesse lugar que carregamos mas não acessamos, se faz morada muitas referências. Os da atriz vão do artista plástico Leonilson, o ex presidente Lula, os escritores Hilda Hilst e Marcel Proust, e seu avô. Assim como Hilda tentou apreender o tempo e significar sua existência se registrando num gravador portátil, Mariana assim o faz em cena.

Sua própria sanidade é problematizada quando ela cita que pessoas que sentem profundamente não são compreendidas a contento, bem como as que se perdem. Quem nos perdoa, se estamos o tempo todo sob o julgo do outro? Como manter a delicadeza diante das adversidades se o que se vê no dia a dia é um mundo prestes a te condicionar e aprisionar ao caos das normas e conceitos.  Somos alimentamos diariamente ao excesso, aos padrões, a falta de empatia. Não à toa, algumas pessoas explodem por dentro.

Eu tô me confundindo. Eu tô fingindo“, ao  assumir essa possibilidade Mariana reitera o nosso vicio em se apegar as identidade fixas. Seu monólogo não deixa de ser um convite a desconstruir tudo o que se encontra enrijecido em nós. Quiça no olhar, na percepção.  A atriz não é Exu, Jesus, remédio, índio… mas poderia ser qualquer um deles. Tudo soa emotivo e introspectivo, mas isso não impede da atriz criticar a indústria farmacêutica.

Cérebro Coração” é daqueles momento em que o artista te convida a se permitir. De forma tocante e instigante.  Mariana é uma de nós. Temos a sensação de espelhamento e acolhimento, e que em 60 minutos somos roubados de nós. É um raro momento no teatro de exposição, sinceridade e inteligência.

Rodolfo Lima

Obs: a peça fica em cartaz até o dia 23 de setembro, no SESC Belenzinho, sex e sáb 21h30 e dom 18h30

O VI Prêmio Aplauso Brasil – achismos

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O que é?

O Aplauso Brasil é um site criado por Michel Fernandes a cerca de 15 anos, para divulgar teatro, trazendo resenhas opinativas e divulgando a produção teatral da cidade de São Paulo, entre outras abordagens. Michel foi um ator egresso do INDAC – Escola de Atores, que acometido por uma doença degenerativa, se afastou dos palcos e dedica desde então seus anos a manter o site e a divulgar sua grande paixão, o teatro. Seus critérios de avaliação, escolha de conteúdo, de colaboradores e de “seu” prêmio, é questionável. Ou até mesmo duvidosa. Mas, quer queira quer não, ele merece todo o respeito que a classe artística pode ofertar e sua marca está atestada e a gratidão que as pessoas tem por sua figura idem. Não a toa, todos se referiam a ele nos agradecimentos. Corajoso, é sempre tocante se deparar com ele e sua luta, por e para o teatro, que emblematicamente também é sua vida.

O prêmio está na sua 6° edição e mesmo sem apoio financeiro, resiste, persiste. A platéia lotada do Teatro Sergio Cardoso, na noite dessa segunda feira (06 de agosto) é a prova de seu reconhecimento. Há a premiação do Júri Técnico e a do Júri Popular. O primeiro formado por Júlio Cesar Dória, Teca Spera, Nanda Rovere, Kyra Piscitelli e Carlos Calabone. Levando em consideração que os nomes citados não são remunerados para exercer a função e ainda precisam acatar as inúmeras exigências de seu criador. Talvez fazer parte desse “time” não seja tarefa fácil.

Quais os critérios de julgamento desse júri é algo que não se sabe. Supostamente à uma votação interna e no desempate, o próprio Fernandes interfere com o voto de minerva. Há de se levar em consideração a premiação desse ano, bem sabemos que nem tudo pode ser creditado na conta da “justiça” quando se pensa em premiar os “melhores”. Bem sabemos que são escolhas subjetivas e nunca se sabe a contento o bafafá que rola quando as opções são postas na mesa. E sempre terá a turma que discorda. #Rodolfopresente

No programa da premiação, os números: 57 trabalhos indicados em 16 categorias. Com todo o respeito aos vencedores, ai vai meus achismos sobre o que presenciei nas quase quatro horas de premiação, que terminou com um buffet (#bafo) que não deixou ninguém com fome ou sede e uma discotecagem que transformou o espaço numa agradável pista de dança.

O que foi?

  • Apresentado por Marisa Orth e Leopoldo Pacheco, a noite foi regada de deboche e descontração, muito por conta de Marisa, que não estava no Show do Gongo (evento do Festival Mix Brasil), mas parecia. A vontade, a atriz tirou risos da platéia praticamente em todos os indicados, fazendo a alegria de uns e irritando outros. Verdade seja dita, Marisa – para o bem ou para o mal – alegrou a noite;
  • O prêmio teve três homenageadas oficialmente (mas na verdade foram cinco). Rosamaria Murtinho (que não compareceu), Eva Wilma e Miriam Mehler.  Aplaudidas de pé, foram momentos tocantes e simbólicos para todos. Emocionadas, as atrizes teceram comentários sobre o prêmio, suas carreiras e os presentes. Miriam encerrou sua fala dizendo que faz teatro para viver e não morrer, aumentando assim os aplausos. Foi bonito;
  • No whatsApp um amigo manda uma mensagem: “Prêmio Aplauso Brasil: o único patrocinador ganha o prêmio especial”. Isso porque o ganhador foi Luís Sobral, então Presidente na Fundação para o Desenvolvimento da Educação – FDE, Ex, Diretor Executivo da APAA – Associação Paulista dos Amigos da Arte, organização que gerencia, entre outros espaços culturais na cidade, o Teatro Sergio Cardoso, que abrigou o prêmio e deu o pontapé inicial das comemorações desse ano. Partindo da mesma lógica de raciocínio, o prêmio para “o” produtor foi para Leandro Knopfholz responsável pelo Festival de Teatro de Curitiba – em São Paulo não há produtores a contento? Precisa exportar um? Isso abre margem para citar profissionais de outros estados? E o prêmio “Destaque” foi para o SESC SP, pela realização da Exposição Gianni Ratto 100 anos. Não há toa, Danilo Santos Miranda, o “papa” da instituição foi citado pelo próprio Michel como um dos grandes mantedores do site no ar. Liguem os pontos.
  • Vale ressaltar que o SESC Consolação também concorria com a Exposição do Living Theater. Mas o prêmio não foi em conjunto. Uma dúvida que pairou na minha cabeça foi: o interessante não seria ter premiado a pessoa que mantêm a obra de Ratto preservada, por exemplo? Já que carecemos de respaldo similar de grandes instituições.
  • Miguel Falabella chutou o “pau da barraca” ao ser anunciado como melhor diretor pelo Júri Popular, por O som e a sílaba e Hebe, o musical e ao receber a placa que evidencia o prêmio, desprezou a mesma, dizendo que queria o troféu. #curtoegrosso Foi indelicado e engraçado, e como a verdade é sempre uma faca de dois gumes, dividiu opiniões. Marisa Orth ao anunciar o ganhador escolhido pelo Júri Técnico… soltou um “se fudeu”. Falabella subiu ao palco e pegou a tão esperada estatueta.
  • Pink Star do’Satyros levou o prêmio do júri popular  como melhor espetáculo de grupo e encheu o palco de cores e alegria, pena que a platéia já estava cansada e a trupe + Silvetty Montilla não puderam aproveitar melhor e nos agraciar com suas histórias. Isso não impediu a atriz Márcia Araújo Dailyn de corrigir uma atriz que havia se referida as atrizes travestis com o artigo masculino (o), sendo que o correto é o feminino (a).
  • A votação do júri popular consagrou  2 filhos de francisco, o musical, que levou como melhor espetáculo musical (o do júri técnico foi para o impecável Suassuna – O auto do Reino do Sol), melhor ator coadjuvante (Ubiracy Paraná do Brasil) e melhor ator (Beto Sargentelli). Um sinal de que a votação tem forte apelo popular.
  • Na categoria Melhor Elenco, os números de artistas variavam. Em Suassuna – a auto do reino do sol (10 artistas), Mil Mulheres e uma noite (8), Enquanto as crianças dormem (7),  Fulaninha e Dona Coisa (3), O som e a sílaba e Estranhos.com (2). Levou esse último. Uma questão: como se explica essa definição de elenco, sugerida pelo prêmio?
  • Ouve um bicampeonato, ofertado a Cia. Teatro Epigênia, que levou a primeira vez por Oleanna e dessa vez por Race. Melhor espetáculo de “grupo” numa peça que tinha respectivamente 3 e 4 atores no elenco. O grupo que existe a 18 anos, segundo sua página do facebook, tem suas produções efetuadas no eixo RJ/SP; Numa cidade tão cheia de opções essa “dobradinha” é curiosa. Provavelmente o grupo vai ser lembrado novamente quando sair a lista dos indicados no primeiro semestre de 2018, pois Hollywood, e bem bacana. São três atores em cena. Grupo de novo?
  • Um dos prêmios mais emocionado foi o de Fernando Sampaio, que levou o prêmio de melhor ator por Pagliacci, desbancando figurões como Renato Borghi, Ary Fontora e Caio Blat (que mostrou um trabalho de fôlego em Grande Sertão: Veredas), por exemplo. Sua trajetória como artista circense e palhaço, e claro seu histórico ao lado de Domingos Mountagner (1962 – 2016) no La Mínina, fizeram a diferença.
  • A peça do ano, vem rotulada como “Melhor espetáculo de produção independente”, acho bem confuso esse nome, pois a palavra “independente”, nos remete a trabalhos feito com parcos recursos e/ou próprios.  Não seria melhor a simples alcunha de “melhor peça”? Quiseram enfeitar a categoria deixando ela alternativa e ao mesmo tempo glamourosa e o resultado é uma bagunça, convenhamos. Dos 6 concorrentes, um tinha a batuta do Teatro Vivo (Estranhos.Com),  outro do Teatro Popular do Sesi (A Visita da Velha Senhora) e claro um do “tio” SESC (Grande Sertões: Veredas). #reflitam
  • O prêmio de Melhor Arquitetura Cênica foi para Camila Toledo por Grandes Sertões: Veredas, a estrutura de ferro que tem custado até R$200 reais do público (em apresentações pelo Nordeste) que quer acompanhar a peça sentada nela – não é nada demais, acreditem – bateu a forma interessante como Eric Lenate resolveu o corredor do Teatro Popular do Sesi, em Refluxo. De longe uma das melhores formas de se ocupar aquele espaço. Mesmo Siete Grande Hotel: A sociedade das Portas Fechadas, pelo risco talvez fosse uma aposta mais interessante.  Cenário ou Arquitetura Cênica? Como definir o que.
  • Vamos enfeitar uma categoria e nos enroscar. Acho que essa é uma pauta das categorias dos prêmio Aplauso Brasil. Outro exemplo: na mesma categoria está o teatro infantil e o juvenil, que convenhamos exige formas diferenciadas de abordagem dos artistas.

O que faltou?

A categoria Destaque, trouxe O teatro do contêiner Mungunzá da Cia Mungunzá entre seus indicados, mas assim como o Prêmio Shell (que o trouxe entre seus indicados na categoria Inovação), ignorou o feito da trupe. Queridinhos de artistas e do público em geral, o teatro fincado num espaço inóspito na região da cracolândia e com uma programação intensa e significativa, perdeu o tal prêmio para o  primo “milionário”, o SESC. É de se pensar essa discrepância. Mesmo com possíveis questões estruturais a se resolver, a Mugunzá se tornou um exemplo potente de trabalho de grupo, aliado a uma postura política. E ao montar um espaço com diversos contêiner e com a possibilidade de um palco a olhos vistos da rua, também trouxe questões arquitetônicas. Para alguns ainda não é suficiente.

Denise Assunção (As criadas) não levou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante. Seguindo a mesma lógica que premiou Fernando Sampaio, o prêmio tinha que ter ido para as mãos da atriz. Sua presença na montagem do texto de Jean Genet era arrebatadora, ofuscando sua companheiras de cena (Bete Coelho e Magali Biff). Uma presença tão pontual e certeira como a de Denise, não tem como ser ignorada. mas foi, infelizmente.

Pensando na lista de peças que assisti ano passado, arrisco citar que faltou nas indicações: Andréa Beltrão, por Antígona; Renata Carvalho e a repercussão positiva, crítica e ativa para a presença de artistas trans nas artes cênicas, a partir do sugerido em O Evangelho Segundo Jesus – Rainha do Céu; Ocupação Laura Cardoso, pelo Itáu Cultural Gritos da Cie dos à Deux; o musical 60!Década de Arromba; a produção carioca que passou rapidamente pelo Sesc Santana Rio Diversidade;  o infanto-juvenil que arriscou com um príncipe querendo outro em O Príncipe DesEncantado – O Musical; Ricardo Corrêa deu um salto significativo na sua carreira no polêmico e emblemático assunto de Bug Chaser  e a dramaturgia de André Sant’Anna (Bicho).

Acho que é isso

🙂

Foto: Felipe Cazuto, publicado originalmente no site blogdoarcanjo.blogosfera.uol.com.br