Será que vai chover?

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A peça em cartaz na Livraria Cultura da Cinelândia no RJ, teve um diferencial no dia em que assisti ao trabalho. Do público presente, 80% poderia se autodeclarar como negra, enquanto o público supostamente branco era minoria. Assim como no palco, onde dos 5 artistas, só um tem a cor da pele clara. Isto, obviamente é um feito, dado a luta dos artistas negros de se impor diante uma sociedade dominada pela cultura europeia e americana e que relega a segundo plano, outras culturas, no caso aqui, a africana.

É justamente fazendo referência a essa matriz que o trabalho se inicia. Dois artistas tomam o palco e dançam ao som de atabaques e guizos, como que num ritual de iniciação. A intenção é clara, evidenciar o protagonismo negro, em contraste ao embranquecimento das artes. A novela Segundo Sol, é um exemplo recente, pois foi duramente criticada por se passar na Bahia e trazer em seu elenco a predominância de artistas brancos.

A dramaturgia de Licínio Januário usa um triangulo amoroso interacial para transitar em temas contemporâneos que evidenciam as chagas sociais que acomete uns e livra outros, tendo como parâmetro a cor da pele. Sandra, Bruno e Yuri, respectivamente uma atriz, um guia turístico e um ativista social. A vida deles se cruzam por acaso quando um está protestando no lugar que o outro está fazendo seu trabalho, que é entreter turistas. O texto é simples e por vezes piegas. Curiosamente é uma adaptação de “Todo menino é um rei” que concorreu ao prêmio de melhor texto na décima nona edição do Festival de Teatro do Rio.

O intuito de trazer a tona as questões que envolvem a população negra é notória e louvável, já que sim, carecemos de uma produção cultural mais justa e igualitária e que ofereça a mesma chance a todos. O que faz com que seja preterido um artista em função do tom da pele é cultural e nefasto.

Essa cultura é usada como moeda de troca, para entreter e fazer o público pensar sobre. Ao sambar, aproveitar de todo os clichês em torno da população negra, consequentemente dos cariocas e suas míticas residências no alto dos morros, conhecida como favela, a peça oferece mais do mesmo. O texto não se aprofunda nas questões nevrálgicas, está mais para uma singela comédia de costumes, do que um texto com cunho social, de denúncia. O recado está lá, porém colocado com leveza e comicidade.

Toda a encenação parece girar em torno de uma roda de samba. Os músicos Reinaldo Junior e Chico Bruno, acompanham as falas de Januário, como que a florear, intensificar e colocar ritmo na saga do guia turístico, que entre os problemas cotidianos, tem que domar e conquistar de vez o amor de sua amada, que o escolheu, abandonando um namorado de cor de pele clara. O casal protagonista funciona, causa empatia e a plateia reage ao vivenciado em cena. Será que vai chover? comunica seu público, que se vê representado, isso não é pouco, embora o que a direção de Orlando Caldeira e Matheus Marques proponha seja.

A trama tem um leve toque agridoce quando Sandra questiona o namorado de viver apegado as questões raciais do “passado”, cobra uma atitude mais combativa que retire o negro do papel de reclamão e o coloque pra agir. Esse toque é o melhor da peça. Assim como o empoderamento feminino que ganha força com a forte presença da atriz Eli Ferreira. Em dado momento ela evidencia, que precisa se encontrar no meio de tantas referências. É o individual tentando não ser sufocado pelo coletivo. A diferença que à da mulher negra diante do homem, como seu namorado e o tom de sua pele também é um momento emblemático. Na presença de um, suas características se evidenciam, na presença de outro ela é julgada como “os outros” acham melhor.

O Coletivo Preto que ocupa o palco da Livraria Cultura até o dia 25 de julho, sabe que a vida negra e pobre é motivo de espetacularização cultural e artística de muitos. Não temeu uma suposta exclusão, oferece um trabalho singelo e honesto e tornou a experiência agradável. A máxima dita no palco: “Luta pra mim é verbo” coloca o público a pensar sobre como cada um reage as adversidades da vida.

Em épocas de textos inflamados e políticos, abrir uma roda, cantar, dançar e papear, parece ser uma boa saída para fugir da rotina, fazer valer a própria vida e de quebra espelhar os semelhantes. Não é pouco, convenhamos.

Rodolfo Lima

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Dançando no Escuro

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Existem trabalhos que nos marcam para sempre. O filme “Dançando no Escuro” de Lars Von Trier, protagonizado pela cantora Bjork é um desses. Lançando em 2000 o filme se tornou uma referência no cinema, popularizou o talento e a esquisitice da cantora. E foi recheado de fofocas, como os relatos de entrega intensa da cantora e consequentemente suas desavenças com o diretor. Um filme como este, que marca a memória afetiva do seu público, não tem como tarefa fácil qualquer transposição para além do original.  A montagem carioca para a história de Selma Jezková mantém a dramaticidade do filme, mas perde na magia.

A história é “simples”, Selma (Juliane Bodini) trabalha como operária numa fábrica, e guarda todas as suas economias para a operação que o filho precisa fazer nos olhos, para que assim como ela, ele não sofra de uma doença degenerativa que o cegará rapidamente. Selma é sozinha… sua única amiga é Carmen (Carolina Pismel). Além da família Houston que aluga um trailer que mantém no quintal de casa, para Selma. Vítima de uma injustiça, ou das mazelas da vida, que parece zombar de muitos, Selma se vê tolhida de seu sonho maior – que é dar a chance do filho poder enxergar o futuro – e a peça transcorre em torno do seu drama. No primeiro ato, de sua cegueira eminente, que a vai colocando em enrascadas, e no segundo ato em sua derrocada. Não há como ficar indiferente diante do drama da mãe que faz tudo pelo filho. Personagens universais como esses, são sempre certeiros na hora de comover. Com “Dançando no escuro” não é diferente.

Assim como no filme, a peça mantém a ação dramática de forma seca e direta, sem grandes sentimentalismos. Se a os cortes  e a fotografia no cinema que propõe aos espectador uma experiência estética fora do óbvio, no teatro esse recurso também podem ser refeitos, evitando evidenciar as emoções para além do que a cena supõe. A direção de Dani Barros, consegue ser sutil e pontual nos momentos de diálogos. É quando a montagem está totalmente apoiada apenas no que o teatro pode oferecer: bons atores, um texto enxuto, preciso, e claro, uma boa história.

As coreografias de Denise Stutz não funcionam. Revelam-se marcadas demais, e de forma desinteressante. Para Selma, a vida se dividia entre sua rotina e o que ela sonhava: os musicais de Hollywood. Isso quer dizer que esses momentos utópicos, onde a personagem escapa de sua cinzenta realidade, são fundamentais para que entremos na ambiguidade que há na realidade da protagonista. Uma coreografia com a da música “Eu já vi tudo”, é frustrante, pois fica aquém da construção avassaladora do filme. E a peça em muitos momentos recria referências do filme, não o reinventa. A adaptação de uma obra dessas (o referido filme) sofreria essa inevitável comparação. Mas a faço, não para comparar produtos incomparáveis (teatro x cinema), mas porque é necessário dizer que o público de par da referência  do filme, precisa mediar o tempo todo suas memórias com o que está sendo recriado em cena. Uma negociação constante e nem sempre justa. Porém inevitável.

Um bom momento é quando Selma dança com seu ídolo, eis ai um bom acerto da direção que potencializou o tom fantasioso da peça de maneira lúdica e simples. A direção musical de Marcelo Alonso Neves reproduz de forma efetiva os sons (vozes, objetos, “barulhos”, ruídos… uma suposta poluição sonora) que permeiam os arranjos musicais.

Se Dani Barros não conseguiu potencializar a parte fantasiosa da peça, conseguiu ao menos intensificar a parte realista, com um elenco afinado. Suzana Nascimento e Carolina Pismel, potencializam a cena com Juliane Bodini, em momentos singulares da montagem. É tão forte o drama de Selma e tão emotiva a entrega de Juliane, que por vezes parece estarmos num monólogo, onde todos os personagens são antagonistas. E de certa forma o são. Isso não é um demérito. E no caso do trabalho de Juliane, sua força aparece sempre em troca com outro artista.

Não há como ficar indiferente ao trabalho de composição delicado e emotivo da atriz. Arriscaria dizer que ela não “cresceu” mais em cena, justamente pela ausência de momentos que retirassem de suas costas, o peso dramático do trabalho. Isso não joga contra a atriz, que revela um trabalho de forte carga dramática, que bem sabemos, não é acessível para todos.  O público chora com e por Selma/Juliane, mesmo que para fãs da Bjork – como eu – reconheça-se certos maneirismos da cantora, levemente esboçados em cena.

“Dançando no Escuro” é uma história linda e fortemente dramática, que se impõe diante do seu público de forma irreversível. Provavelmente a montagem de Dani Barros não alcance essa magnitude. Mas isso não invalida a honestidade do trabalho e a coragem de se levar tal história para os palcos. Um misto de emoções dançam na mente do espectador, jogando com sua memória emotiva. E isso é um ganho, fazer com que o teatro aconteça também dentro do outro.

O que o Rio de Janeiro pôde conferir em quatro temporadas e sem apoio da Secretária de Cultura local é uma das mais emotivas histórias entre mãe e filho, sacralizada no cinema e que pode oferece no teatro, outra oportunidade de se aproximar de Selma e Gene (Daniel Brasil). Não sabemos o que há para se enxergar além dos nossos sonhos e utopias. O quanto estamos dispostos a pagar e perder. E o que “Dançando no Escuro” de certa forma faz é nos instigar a prosseguir, independente de.

Rodolfo Lima

Demônios

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Dia 28 de junho é o Dia Internacional do Orgulho LGBTI, um dia para relembrar os constantes preconceitos, assédios e genocídio que uma parte da sociedade sofre e também para celebrar a luta, a resistência e o avanço que tal população adquiriu com o passar dos anos. Afinal, não vivemos na Rússia ou em qualquer outro dos 80 países onde a homossexualidade é crime.  É pelo reconhecimento desse direito, entre outras questões que o Teatro da USP (TUSP) abrigou a nova montagem do Coletivo Teatro da PombaGira. Marcelo D’avilla e Marcelo Denny são os responsáveis por uma visão bem questionável sobre a condição dos que quebram os padrões heteronormativos. Dentro do teatro a dupla de diretores ofereceu uma visão fatalista e deprimente sobre a condição do homossexual masculino. Na sociedade em que vivemos, não há saídas para os homossexuais.

São duas horas de “massacre”. Dito assim parece exagerado, mas vale ressaltar que a montagem não oferece acolhimento para as questões gays. Muito pelo contrário. Frisa muitos dos momentos delicados e complexos para qualquer homossexual, que os dilemas são incontornáveis e deprimentes. Ou seja, não há porque lutar. A guerra está perdida.

Se uma peça de teatro pode se tornar um panfleto a favor de uma causa, um tema ou um assunto, Demônios, parece golear contra. Já que sua visão para as questões, são digamos pertinentes, porém catastróficas. Pesa a mão da direção na visão fatalista sobre as questões gay e essa opção não nos permite entrar em diálogo com o trabalho. Seu recado é “chapado” e sem possibilidades interpretativas. O que o público faz é aceitar, sem poder questionar, se emocionar, ser incluído ou mesmo se deixar afetar. As duas horas de trabalho cansa, parece excessiva e hermética, o que é uma pena, dado a importância da temática.

Híbrido de dança, performance e teatro físico, Demônios é uma reflexão cênica sobre três perigos que rondam o universo homoerótico contemporâneo: a lógica do consumo e descarte do sistema socieconômico, a melancolia e os transtornos psíquicos como sintomas da falência do sujeito, e o neofascismo conservador que avança cada vez mais.  Esses perigos se proliferam e tomam conta dos corpos e dos desejos, como resistir?” Eis a explicação sobre o trabalho, encontrado no programa do trabalho. Vamos por partes.

A lógica do consumo e do descarte é retomada com mais niilismo que no trabalho anterior “Anatomia do Fauno“, também dirigido a quatro mãos, mas que teve a dramaturgia de Alexandre Rabelo. A tal lógica preenche toda a parte vermelha do trabalho. Essa mais similar com o trabalho anterior. Volta a vulgaridade das relações, a falta de afeto e crença no outro, o descaso com o corpo e a redenção a novas mídias. O celular é uma bomba relógio, em função dos aplicativos para sexo e encontros fortuitos, e que permanece dividindo opiniões sobre sua eficacia. Todo o quadro é praticamente um decalque “dos faunos”, com um agravante: não emociona.

Anatomia do Fauno, foi um trabalho emblemático que reuniu mais de 50 artistas em torno dos senões da homossexualidade masculina, percorrida do paraíso ao inferno. Um trabalho de tal abrangência, oferecia diversas brechas para serem questionados, porém não havia como não se ver rendido pela organicidade do trabalho. Tudo era caótico, beirava o improviso, oferecia riscos, mas preservava o mais bonito no teatro, era vivo. Os 15 artistas que entram em cena em Demônios estão esvaziados de sentidos. Essa a maior ausência do trabalho. E a famigerada “pegação” entre os artistas – parte da mítica do trabalho anterior – é posta em cena de forma opaca, mau acabada, triste e diria até mesmo desnecessária. Não há pênis endurecido que salve os artistas de serem meros reprodutores.

Pensando que um continua a pesquisa do outro. Perde-se a individualidade dos artistas, algo questionável nos faunos, mas que para o bem ou para o mal, fazia muito da fama que o trabalho tinha. Em Demônios, muitas das cenas giram em torno de Marcelo D’Avilla, que assumidamente, e sem pudores,  lidera a trupe de artistas. Sua figura é impositiva e cabe a ele conduzir o melhor momento da dialética consumo/descarte. É o seu corpo que está a mercê do outro, abocanhando e sendo engolido pelos outros. Um dos momentos mais emblemáticos  de “Anatomia…“, era quando vestia sua máscara de fauno, e travava um embate emocional com a figura masculina interpretada por Raul Molina. “Curiosamente” é D’Avilla que retrata o embate a dois, também na nova montagem, numa das imagens mais bonitas construídas em Demônios. Embaixo de toda a artificialidade  que encobre os homossexuais, estamos em carne viva. Embriões de nós mesmos a sermos reconstruídos na utopia de uma sociedade mais igualitária e honesta. O problema: esse futuro não existe.

Se vivemos numa época onde não se pode sonhar, o que nos aguarda? Para o Teatro da PombaGira o cu e o AIDS ainda são metáforas importantes para enfatizar a falência dos corpos gays. Rendidos que estão ao julgamento alheio. Junte a essas duas metáforas, porta de entrada do famigerado vírus HIV, temos a imagem de um caixão, presente em praticamente toda a encenação, independente da simbologia das cores. Diante da possibilidade de se ver enterrado vivo, não tem como manter uma postura positiva diante de um fim nefasto. Não deixa de ser a retratação de uma realidade macabra.

Há de se ressaltar que esteticamente a encenação é melhor acabada. Os adereços de cena são mais interessantes e oferecem leituras diversas para a cena. Mesmo que se tornem excessivamente exageradas, tem lá sua graça.  O trabalho coreográfico também funciona a contento nas cenas dançadas coletivamente. E tudo… quase tudo que transita entre um corpo dançado e seus adereços, remete ao universo pop da cantora Lady Gaga. Reflexo das referências dos artistas em cena? Qual deles?

Melancólico e com transtornos psíquicos, que gay sobrevive e resiste as intempéries de uma sociedade machista, transfóbica, estúpida e intolerante? A paranoia explicitada em cena é reflexo desse mundo cão sem saída. Se em “Anatomia do Fauno” eramos pego pela emoção e pelas questões que nos representavam, pois postas em cena de forma pueril e didática, comunicavam diretamente seu público. Em Demônios as cenas em sua maioria beiram o hermético, privando o público de ser afetado diretamente em sua percepção, exigindo que o mesmo seja capaz de elaborar questões para as metáforas apresentadas. Esse desafio é produtivo e bem vindo. O problema é o excesso desse recurso, colado com a visão decadente que a montagem nos obriga a engolir, a seco.

A opção de ouvirmos a trilha sonora num fone de ouvido é boa, pois nos coloca por inteiro naquele universo decadente, porém não nos dá a possibilidade de respirarmos. Não há silêncio ou momentos de “alivio” no que se ouve. Somos entulhado de informações auditivas e visuais. O fone – se você não tiver sorte como eu, terá uma leve dor de ouvido depois – abafa os barulhos causado pela contra regragem. Os corpos e o material plástico, dentro e fora da cena, são partes do mesmo universo em decomposição.

O neofascismo citado pelo grupo é praticamente o último nó que nos rouba o restinho de ar, que nos faria continuar. Símbolos nazistas e católicos são exemplos de um regime que tolherá as individualidades, a peça decreta. O corpo de Renato Henrique Teixeira, que se contorce e agoniza na cena final, ao olhar passivo do público, é a metáfora que fica.

Rodolfo Lima

Obs: a peça fica em cartaz até o dia 15 de julho, de quinta a sábado as 21h e domingo as 19h no TUSP, Rua Maria Antônia, 294. Ingressos a R$30 e R$15 reais. A bilheteria abre 1 hora antes.

Balé Ralé

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Balé Ralé” o livro, foi lançado em 2003, é a terceira publicação do autor Marcelino Freire. Autor esse que vem ganhando força no teatro, graças a sua escrita acessível, política, que traduz a realidade de forma aguda e sem meandros, sem deixar de ofertar aos seus leitores momentos poéticos e singulares. Mezzo pernambucano, mezzo paulistano, Freire mescla em sua literatura um olhar crítico para as mazelas do cotidiano e as desigualdades sociais, sem deletar de sua escrita uma poética tipica de suas referências nordestinas. O resultado da sua obra é acolhedor, imagético e potente.

Balé Ralé a peça, estreou durante a “Ocupação Marcelino Freire – Palavra amassada entre os dentes“, que ocupou o SESC Copacabana entre maio e junho de 2017. Com direção de Fabiano de Freitas, a peça não se utiliza apenas de contos encontrados no referido livro. Há ali, textos de “Rasif – mar que arrebenta” – quinto livro do autor, publicado em 2008.

Estão lá reunidos os párias de uma sociedade intolerante, racista, misógina e cheio de fobias. Para os leitores do autor, a crítica ao status quo e ao modus operandi de uma sociedade doente e extremista, é condição sine qua non. Portanto, a “graça” é a forma como seus personagens vão ganhar vida em cena. Dito isso, dizer com propriedade o texto de um autor como Freire é obrigatório. A literatura do autor tem peso, ironia e deboche suficiente para impactar seu ouvinte, pois é colocada de forma inteligente, instigando a reflexão, de forma direta e crua.

Os atores de Balé Ralé não fazem valer a força da palavra do autor. E a encenação de Freitas, estilizou um autor que não carece de “pompa”, a beleza está justamente na “crueza”. Panos coloridos, sobrepostos, supostamente descolados, não acrescentam em nada para o todo. É ilegível essa opção, pois é um efeito ilustrativo pra cena, sem serventia. Quem responde pelo figurino é Luiza Fardin. A encenação não serve ao texto e o texto não combina com a encenação. Há ruídos e o todo “patina”. O ar “descolado” da peça, beira o cafona.

Blackyva dá voz ao emblemático conto “da paz”,  porém não se entende de que lugar elx fala. Pois não se entende sua figura. É uma trans? Uma drag? Um ator montado? Localizados, o público leria o texto de outra forma. Público esse que nem sempre é ganho de forma impositiva. #ficaadica

Samuel Paes de Lima não se impõe nos contos “papai do céu” e “o meu homem-bomba”. Sem se apropriar com personalidade, sua leitura é linear e morna. Leonardo Corejo e Maurício Lima, completam o elenco masculino, esse último dá voz e corpo a “balé”,  o singelo texto do autor, do menino que dança, enquanto é achincalhado pela vizinhança. O resultado é broxante.

Justiça seja feita, a voz a ecoar os textos de Marcelino com potência é de Vilma Mello. A atriz dá voz a “Jéssica” e “darluz”, e o que ela faz com esse último é de “tirar o chapéu”. Diante de uma atriz com tal força, os atores ficam apagados. O momento oferecido por Vilma, provavelmente é uma das melhores transposição de conto para a cena. O momento pode ser conferido no link: https://vimeo.com/261437330

Freire começou a ganhar projeção nacional nos palcos, depois de “Angu de Sangue” (2004) do Coletivo Angu de teatro, chamar a atenção. O grupo pernambucano estruturou parte de sua trajetória em torno da obra do autor, com as montagens de “Rasif – mar que arrebenta” (2008) e  “Ossos” (2016). “Hospital da Gente” (2008) em São Paulo, do Grupo Clariô de Teatro, fez “a parte” sudeste. E juntos capitalizaram a obra do autor, que “vira e mexe” é visitado pelo teatro.

A questão que fica em Balé Ralé é,  porque subjugar um autor como Freire a uma encenação que eclipsaria sua obra, caso tivesse funcionado? A marginalidade kitsch como sugere a direção, não “cola” e o palco do SESC Ipiranga parece grande de mais para a proposta. Talvez se misturados atores e público, o resultado poderia ser outro. A montagem no geral é formal e fria, o oposto da literatura do autor.

Rodolfo Lima

obs: a peça fica em cartaz até 15 de julho no SESC Ipiranga, as sextas e sábados, 21h e domingo as 18h.

F.A.L.A – Fragmentos Autônomos sobre Liberdades Afetivas

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Falar sobre afeto, sexualidade, gênero e raça se tornou uma das urgências do momento e claro que o teatro reflete essa questão de forma plural e diversificada. O Coletivo Negro se debruçou sobre tais temas e o resultado leva o nome de F.A.L.A Fragmentos Autônomos sobre Liberdades Afetivas. Bom dizer que a fala, não se faz presente no trabalho, que percorre o arenoso e dúbio caminho das imagens e das mensagens implícitas. Não é tarefa fácil, mas o grupo se arrisca, o resultado tem um verniz bem acabado, porém o discurso fica refém das escolhas imagéticas.

Em cena Raphael Garcia, Dani Nega, Clodd Dias e Flávio Rodrigues, este último também responsável pela direção. Porém a ficha técnica é extensa e produtiva, já que o acabamento musical a cargo de Felipe Julian e Fernando Alabê, a direção dos vídeos Cibele Appes e Clay Rodrigues, a regravação de Fala (gravado original por “Secos e Molhados”), por Ellen Oléria e a cenografia, são bem executados e funcionam. O ideal seria que a dramaturgia acompanhasse essa “riqueza”. Isso não ocorre, parte das cenas  são construídas a partir de textos de Luh Mazza (Mamãe), Paloma Franca Amorim (Travessia) e Rudinei Borges (Armário).

São três armários utilizados em cena, como uma metáfora óbvia e sempre utilizada sobre uma sexualidade que não está assumida a público, permanece encarcerada e submetida a censura e preconceito das convenções/instituições sociais, que oprime e mata, bem sabemos.  A roupa que se veste é outro momento déjà vu do trabalho.

Sem as palavras, ficamos a mercê das imagens que o grupo vai construindo de forma simbólica (como a do mamão),  literal (como o banho das mulheres), poética (os desenhos projetados), sensorial (a festa) e hermética. Ou seja, o que não está claro, fica subjugado a sensibilidade do público. Quem é mandado embora, não se sabe se é a filha, o filho, a transexual ou o misto de todas essas referências que tal corpo representa. Em alguns momentos a explicação pode ser dispensada, em outros ela seria importante.

Clodd Dias não está rotulada, e cabe ao público fazer suas considerações. Essa opção é  boa, pois a identificamos como mulher e isso para ela é muita coisa. Porém, Clodd não é só uma mulher trans e negra, traz impregnado na pele as marcas da obesidade. Ou seja, uma potente voz a ser ouvida, relegada a imagens que nem sempre dão conta de exprimir toda a repressão que tal corpo sofre. Um bom exemplo desse corpo negro, feminino e obeso pôde ser conferido  – por exemplo – com a performance de Mirella Façanha do elenco de “Isto é um negro?

As mulheres lésbicas estão representadas no corpo de Dani Nega. Peças de conteúdo lésbico não é muito comum, que versam sobre mulheres negras que amam outras, praticamente impossível. Esse “lugar” foi suprido temporariamente com a temporada de “L, o musical“. É pouco. As imagens que dão conta do amor feminino são bonitas, mas é o primeiro exemplo que o público tem de uma opção explicativa. Na impossibilidade de realizar a cena ao vivo e a cores – o que seria, convenhamos um grande avanço – projeta-se o momento. De forma singela, pontual e rápida, afinal, não é do feminino a exacerbação da sexualidade. Tal cena se basta? É uma questão.

As tais “liberdades afetivas” não recaem só sobre os percalços do amor e do sexo, estão também nas relações familiares, mas é no embate com o corpo do outro que a peça se resvala. A codireção de Aysha Nascimento provavelmente tornou tudo mais sutil e delicado, e o melhor exemplo disso é na relação homossexual masculina que divide a cena com as artistas femininas.

Vale ressaltar que a história narrado pelos personagens de Garcia e Rodrigues é a mais legível  (ou tenho a impressão disso, porque sou do sexo masculino e gay?) e a que melhor se utiliza dos recursos de projeção e de trilha sonora. O momento em que o casal é revelado ao público, vemos que eles estão em diferentes plataformas da estação do metrô Liberdade (uma ironia, claro), entre um casal heterossexual que se “amassa” no banco enquanto os meninos, sob um aviso de “câmeras de Segurança”, tentam se comunicar corporalmente. É uma imagem belíssima, que uni teatro e cinema,  de forma eficiente.  Está tudo ali, explicitado de forma pontual e metafórica, sem que se torne óbvio os recursos – que já podem ser considerados excessivos nessa altura da encenação.

Não se sabe se os homens não cedem aos carinhos em espaço público porque (primeiro) são negros, ou porque (segundo) são gays, ou vice e versa, ou tudo junto misturado. Um bom momento interdisciplinar onde os discursos se completam e se atritam, causando mais ruídos. Garcia é mais “afrontoso” e seu personagem é cheio de trejeitos, o que é veementemente censurado por Rodrigues, a “bee” no armário. É na história deles que vamos ver a violência opressora da polícia. Os tais armários do cenário ganham a simbologia de um lugar de passagem para se arejar conceitos e ideias mofadas, libertando seu morador, e embora poética, a execução da cena, não deixa de ser pueril e excessiva.  A mensagem é captada em segundos, mas a cena é estendida, como se fossemos crianças convidadas a entrar e sair de tal armário. Não deixa de ser ingênua. A história vai se desenvolvendo e você pensa: ok, que horas eles se agarram?  Isso ocorre de forma singela e romântica, num momento que, obviamente a fala não se faz necessária, e sim as atitudes. Mas é pouco, é necessário falar.

Homens negros e gays se “pegando” nos palcos do teatro paulista é praticamente uma raridade. E o Coletivo Negro decidiu não avançar nesse lugar. Ao optar por uma encenação sensível e simbólica, o grupo deixa de nos provocar ao nos por de “cara” com os fatos, nu e cru. O recurso da música de Linn da Quebrada (Enviadescer) é a “roubada” final da montagem que chama de forma indireta outra “mana” negra para integrar sua ostentosa ficha técnica. O problema é que não dá para usar as músicas da cantora impunemente. São fortes, emblemáticas e insubstituíveis, ou seja, nos rouba da encenação. Mesmo que ela entre nos últimos minutos fiquei me questionando se sua execução ofuscava todo o resto. Ok, nem todos conhecem a repertório de Linn da Quebrada. Isso pode ser utilizado com argumento plausível, mas não impede de ser questionada.

Além das peças já citadas, o amor gay com protagonistas negros apareceu poucas vezes nos palcos da cidade de São Paulo. A montagem carioca “O Jornal“, as encenações a cerca do mítico boêmio carioca Madame Satã ( “Madame Satã”, dos mineiros Grupo dos Dez, ou “Cartas a Madame Satã ou me desespero sem noticias suas“, da Cia os Crespos), ou possivelmente em fragmentos de trabalhos como “Cabaré da Raça” e “Grajaú conta Dandaras, Grajaú conta zumbis“.  Ou seja, parcos exemplos.

No final de F.A.L.A tem se a sensação de que o grupo avançou pouco no discurso das narrativas negras LGBTQI+. As escolhas da encenação de certa forma calaram seus artistas e deixou o público construir sua própria narrativa. O que é ser negro, periférico, gay (masculino, por exemplo, que é a parte que “me cabe”, não levando em conta que sou branco) e afeminado na periferia, é algo que o grupo deixando de problematizar, não revela.

Rodolfo Lima

(Crédito foto: Sergio Fernandes)

Pi – Panorâmica insana

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São 8 mil peças de roupas espalhadas pelo espaço. Cenário de um mundo em frangalhos assim como o entorno, as personas em cena, o público na platéia.  Não há nada de pé no Teatro Novo, mesmo que tenhamos a vã ilusão de que sim, estamos alheios a tudo aquilo. Não estamos. Pi – Panorâmica Insana, tem concepção e direção de Bia Lessa e coloca em cena quatro atores, que se dividem em dezenas de personagens.

Tais personagens tem nomes e RG, mas isso é o que menos importa, levando se em consideração a probabilidade de identificação com esse semelhante. E na primeira cena, já vimos que o caminho é sem volta. Somos aproximados de tipos, formatos, nomes, frases, sotaques, trejeitos…que nos universaliza e não nos deixa só. Mas todos estamos, veja bem. A identificação sutilmente ocorre. Seria cômico se não fosse trágico. É mais fácil rirmos do outro do que de nós mesmos.

Textos de Jô Bilac, Júlia Spadaccini, André Sant’anna, bem como fragmentos de Paul Auster e Franz Kafka são amarrados em cena de forma aleatória, como que a fazer um paralelo para aquele mar de roupas espalhadas no espaço que dialoga diretamente com a encenação de Bia. Se faz necessário afirmar: vejam a peça nesse local. Em qualquer opção convencional de palco italiano e platéia confortável em São Paulo, a cena se reconfigurará. E não, o teatro nem sempre é o lugar do conforto e o que PI está tentando fazer é justamente nos deslocar de qualquer lugar para longe do nosso “mundinho confortável”. Não é tarefa fácil. Artistas e público ruminam o que ouvem e emanam, sejam em palavras e/ou pensamentos e o que sobra é literalmente um grande buraco. Não se sabe se na existência, na alma, na subjetividade, na utopia.

Cético, o trabalho não nos deixa pistas de escapatória. Questiona-se a religião , o amor e a educação de forma dura e irreversível. Convenhamos, vivemos um período de pouca empatia pelo outro. É  essa percepção que a encenação quer nos despertar. Nomes de vítimas são elencados em torno de estranhos. Mas a questão é: estranho para quem? A travesti cearense Dandara, é lembrada, bem como a moradora de rua carioca Fernanda. Não posso dizer que o espectador do meu lado absorveu tais referências. Ou seja… Pi tem munição para todo mundo, provavelmente.

Nesse mundo devastado, Deus é argumento de gente preguiçosa, o amor não existe, todo mundo compete entre si, ninguém explica o que é a alma e uma bala perdida na cabeça de uma criança é útil. Reflita. A imagem do homem sangrando e dizendo que ama seu semelhante é achincalhada, e ninguém é capaz de mensurar o que acontece quando você toma um tiro no peito.

A miséria é antagonista. Seja a da alma, do corpo, dos sonhos, da imaginação. A herança que assimilamos e trazemos imprimidas no nosso histórico também é questionada e culpabilizada. E dentro desse escopo entra todos os tipos de fobias e o universo de chagas que acometem o nosso corpo físico e nossa alma. Afinal dormir e acordar é o retrato de uma vida miserável. Você ouve e se atemoriza. Será você um desses? Os 23 x 20m do espaço não nos oprime, nos acolhe, afinal, estamos todos a mercê do inevitável,  vulneráveis a. Quais são as probabilidade da gente ser feliz?

Um mundo a ser conquistado. Um lugar de anônimos a terem suas idiossincrasias ressaltadas. O mundo do outro sempre como antagonista de nossa realidade. Os atores são o retrato da condescendência, numa realidade onde nos atritamos com o outro e nem sempre temos consciência da aniquilação ofertada pelo caos coletivo. Nos apagamos. Aceitamos. As vezes é bom, afinal estamos morrendo a cada instante, seja de depressão, câncer, drogas, homicídio, feminicídio, transfobia, de AIDS, no trânsito, abortando, de paixão e etc…

A hipocrisia de quem veste camiseta branca pela paz também é reiterada. Como se a paz existisse. Em dado momento, com as atrizes ajoelhadas, prestes a serem executadas, pensamos que aqueles que defendem que o ser humano não deu muito certo, devem estar certos.  O bando de doidos que por vezes somos, tem a capacidade de cultuar e servir a Deus (“ou isso que chamamos de Deus” – Caio Fernando Abreu), mas o mesmo com o seu semelhante é praticamente impossível. Futebol não tem Deus, mas tem codinome (Neymar), já que estamos em plena Copa do Mundo. É triste.

O amor, tão almejado, deveria ser destinado só a quem amamos. Mas, somos animais insanos a fazer sexo com qualquer bunda dura por ai. Pi – Panorâmica Insana é angustiante e triste. Nos desnuda um mundo sem piedade e nos vemos refém das improbabilidades da vida.

O tom dramático é dado com muita potência por Claudia Abreu e Leandra Leal.  Atrizes do mainstream televisivo que desapegadas de ego, compartilham com seu público a forma que acharam de se desnudarem de si mesmas. Claudia se destaca e volta aos palcos quase duas décadas depois. A atriz segura o drama e o deboche com propriedade e jovialidade, e a peça ganha fôlego com sua presença vibrante. Do elenco masculino, cabe a Rodrigo Pandolfo um bom momento, já que Luiz Henrique Nogueira praticamente não tem texto.

A sonorização da encenação é um trabalho a parte e ao fundir ruídos, vozes dos atores, eco, nos desloca para um lugar não real, mesmo que a imagem esteja nos mostrando o contrário. Pi – Panorâmica Insana abre diversas possibilidades de leituras e vivências, parece simples, sua encenação se torna complexa ao mesclar teatro e possíveis improviso, mas nada apaga seu grande mérito, o do desnudamento coletivo, mesmo que nenhuma peça de roupa usada pelos atores seja retirada/abandonada literalmente.

Rodolfo Lima

(Crédito foto: João Caldas)

[H3O]mens

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Com a crise do masculino escancarada pelas questões de gênero e a quebra da noção do evidente binarismo (homem/mulher) muito se tem a questionar sobre o que vem a ser um homem e do que ele é “feito”. Se o feminino se emponderou nos últimos anos, o masculino perdeu força e se descaracterizou. O velho formato do macho é questionável em qualquer roda de conversa onde se entenda o outro com suas individualidades, sem que seja nivelado pelo seu sexo anatômico.

[H30]mens vem questionar o que vem a ser um homem em atrito com as questões que envolvem seu “papel” na sociedade. Rafael Ravi, Rafael Bougleux e André D.O., formam o trio de atores da Cia.4 pra Nada. O referido trabalho tem a direção de Carlos Canhameiro e coreografias de três mulheres: Morena Nascimento, Maristela Estrela e Andreia Yonashiro. Segundo Canhameiro no blog de Miguel Arcanjo Prado, o trabalho é uma “investigação particular do que é ser homem, do homem diante de outro homem, e dançando para outro homem…“.

A questão principal que resulta desse trabalho é: e o afeto, onde se esconde no mundo masculino?

O trabalho – misto de teatro, dança, performance – comunica melhor quando põe seus artistas a dialogarem entre si. Um tapa no peito é uma briga, um comprimento, uma forma de intimidar ou de acarinhar de forma desajeitada? Não se sabe. Questiona-se o corpo do outro no que ele tem de particular. Seja uma barriga saliente ou o pau. Ambos locais no homem que são emblemáticos.

Se o trabalho potencializa as características de um tipo “macho”, um homem mais sensível não tem vez. Ou seja, o trabalho não reverbera homens heterossexuais que possam ser sentimentais e carinhosos. A proximidade de dois homens nus e supostamente heterossexuais podem ser vistos “pele a pele” sem que isso coloque em sexo a orientação sexual desses homens? A brincadeira com o sabonete que cai no chão durante o banho, por exemplo, é o momento explicito em que a peça resvala em questões do universo gay masculino. É pouco se levarmos em consideração que entende-se que as relações homoeróticas são problemáticas e problematizadoras para a maioria dos homens.

“Bromance” é uma expressão inglesa usada para classificar homens que são íntimos de outros homens, na “camaradagem” sem que sua masculinidade seja posta em prova. Essa “brincadeira” com o gênero masculino a dois, também não é esboçada. Não se ri das relações expostas, porém não se comove com elas.  O público fica num entre lugar sem que o trabalho aponte com veemência onde sua crítica deva recair. Não há singularidades expostas e nem forjadas que exponha os artistas, os individualizando. Se uma das perguntas durante o processo de criação foi como reagir diante de outro corpo masculino junto ao meu. A resposta é difusa, é o resultado é virtuoso e por vezes vago.

A falta de precisão e linearidade nos gestos em conjunto ora funciona pois personaliza o corpo do outro e por vezes revela possíveis problemas de harmonia entre o todo. Se a falta de acessórios para ornar os corpos se faz presente, o homem reduzido ao falo é intensificado. Nus, os bailarinos criam uma dualidade boa para o público, que é a questão do para onde olhar e como. Mas é quando eles conduzem o olhar do público para seus falos que percebe-se com mais clareza que tudo se reduz a isso mesmo. O homem é um pau e ele permanece tendo uma importância seminal. A cena pode ser vista pelo viés da ironia, a questão é que não há um contraponto a tudo que é externo e físico. Ou seja… o homem é um protótipo com formato x, sem nuances e/ou camadas a serem reveladas.

Sem as singularidades o trabalho vira um simulacro das relações masculinas. Interessante corporalmente, porém indiferente em muitos momentos. O virtuosismo dos corpos de Ravi e Doriana, por exemplo, já puderam ser conferido em “Ofélia/Hamlet Rock/Machine“, grupo de teatro em que os artistas estão associados e que também é dirigido por Canhameiro.

Fiquei a pensar também como se questiona o masculino sem que se atenha as questões da sexualidade desse homem. Se os artistas estão pelados é esperado que tais assuntos permeiem a montagem. Tabus como a paternidade, também é outro tema emblemático para o homem, bem como seu diálogo com os afazeres associados ao universo feminino, como as funções de uma casa.

[H30]mens não te oferece respostas, porém também não elabora as perguntas com precisão. Diverte e entretêm, sem que saibamos ao certo como direcionar nossas questões.

Rodolfo Lima