Pólvora e Poesia

Uma das estrofes da “Banda mais Bonita da Cidade”, amada e odiada na mesma proporção, traz um trocadilho em uma de suas músicas, que parecem antagônicas, mas é um bom exemplo para alguns casos: “Amor horror, te ver partir…” Na encenação de Fernando Guerreiro para o texto de Alcides Nogueira, sobre a paixão entre Arthur Rimbaud e Paul Verlaine, o amor e o horror, estão lado a lado.

É uma encenação vibrante, viril e inquietante. Há controvérsias com relação ao volume do som da guitarra – ao vivo – e as marcações do atores, que fazem de sua peça/palco espaço para metaforizar um amor que “não ousamos” dizer o nome e que nos faz querer – em muitos casos – extravasar de forma violenta. Sim, o amor também é agressivo e explosivo. Parece à paixão em seu imediatismo, e sacal ao proporcionar ao outro o flagelo das emoções alheias.

O interessante na direção de Guerreiro é que tanto a iluminação de Irma Vidal, quanto à direção musical de Juracy Do Amor parece corroborar com os excessos cênicos do diretor. Esses elementos coabitam o mesmo espaço, potencializando as inquietações dos dois homens que não souberam caber em si, diante do outro.

A preparação de Hilda Nascimento e as coreografias de Lucas Tanajura ajudam os atores a compor com propriedade seus personagens, mas não apagam por completo a diferença entre os atores. Enquanto Caio Rodrigo põe densidade e maturidade em seu Verlaine, Talis Castro -embora jovem e bonito – não apreende a contento a enlouquencia do personagem. Parece mais um jovem confuso e infantil, do que um inquietante pensador e questionador do seu tempo e de suas aflições.  

Embora a cena de sexo entre os personagens seja efetuada com precisão, beleza e criatividade, faltam algo que arrebate os atores em cena enquanto dialogam. É ótimo a crueza do sexo entre eles, a secura com que é mostrado e impulsionado na imaginação da platéia. A jovialidade de Castro não dá conta de toda a densidade de Rodrigo. O primeiro não é tão intenso quanto o segundo. O racionalismo de Caio não encontra vibração na atuação de Talis. E isso fragiliza a cena em alguns momentos, as opiniões de Rimbaud cai por terra, onde tudo soa linear demais na boca do ator.

O projeto é uma idealização de Talis Castro e o trabalho foi amadurecendo aos poucos. Mérito da produção como um todo, que teve paciência e soube entender que certos trabalhos levam tempo para serem maturados. Incluído na programação do 4° FIAC – Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia, “Pólvora e Poesia” fiz bonito ao defender a produção local. Não era o trabalho mais ousado, inquietante ou questionador. Não se propunha a subverter conceitos ou renovar a cena teatral. Mas era disparada, a montagem mais emotiva de todas.

Diferente de “O Melhor do Homem” – outra (recente) montagem baiana de um texto clássico da dramaturgia homoerótica, “Pólvora e Poesia” é quente e proporciona cenas provocativas e precisas, sobre o amor de dois homens. Cai fora o esquematismo do primeiro e entre em cena as marcações vibrantes do segundo.

A impressão que Caio e Talis estão beirando os riscos, físicos e cênicos, torna pulsante o que é visto. Porque no fundo, embora o som possa soar alto demais, as (diversas) quedas dos atores questionáveis, o que o público quer, é ver o circo pegar fogo. Que à hora da paixão venha e incendeie subjetivamente a todos.

Rodolfo Lima

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