Desmesura

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Raul Torrada (1939 – 1987) é um desconhecido para nós. O famigerado dramaturgo e cartunista argentino, conhecido como Copi, morreu a 30 anos atrás. E foi buscando paralelos entre suas idiossincrasias e a atualidade que o Teatro Kunyn criou Desmesura. O que vemos é o resultado da inspiração que o dramaturgo Ronaldo Serruya estabeleceu com seu objeto de estudo. Depois de ver a peça, você conhecerá Copi? Não. Provavelmente não. Porém será agraciado com um olhar poético e emblemático sobre o mesmo. E isso, no final melancólico, parece bastar.

Para Serruya que além de assinar a dramaturgia, dá corpo e voz a Copi, seu personagem é adjetivado como algo tão grandioso que parece impossível mensurar sua importância. Dai o título da peça. Assumindo esse papel de humilde observador, sua dramaturgia é acertada quando resolve estabelecer um diálogo com a obra de Copi a partir de supostos devaneios, a beira da morte. Ou seja, nada faz parte da realidade, embora pareça ser. Assim como é de praxe, o diálogo da realidade com o que se intitula de vida.

Vemos então Copi com sua avó, Jorge – um amante, policiais e uma travesti, supostamente uma personagem inacabada. O autor morreria em consequência do vírus HIV em 1987, numa época pré AZT. Os personagens em questão dão margem para três caminhos de entendimento sobre Copi. Com sua avó vemos a relação estabelecida com a família e sua infância, com o amante sua visão de mundo sobre amores, corpos e sexo, o policial, sensor do indivíduo e portanto um prudente repressor, e a travesti que simboliza as diversas personagens Ts (travestis e transexuais) que Copi escreveu. É bastante material e vou me ater em dois deles – a questão das travestis e do travestimento e a famigerada doença.

O discurso de Copi, segundo Serruya mostra uma atualidade assustadora. Ainda somos indivíduos buscando uma liberação sexual e uma aceitação do corpo que nos livre das amarras e da culpa, como crianças que sabe que precisa crescer e não consegue – ainda não chegou a hora –  não aprendemos o desapego. Somos perseguidos por estigmas e o cu é um deles. O cenário de Lubi (Luiz Fernando Marques, responsável também pela direção) e Yumi Sakati coloca Copi e o público diante do cu do mundo. Local esse onde caberia de tudo, já que supostamente é um lugar associado para o que não é correto e bem aceito, o que está a margem. Do topo desse altar, sexual e vulgar ao mesmo tempo, Copi reverbera sua visão sobre sexo e a utilização dos corpos, o desapego com os afetos, o reconhecimento de que lealdade é mais importante que fidelidade, e a poética e controversa afirmação de que sexo é vida, já que vivenciar os prazeres do corpo é um dos benefícios de nós, humanos. Ignorando todos os malefícios que fomos obrigados a dissolver com o passa do tempo, refente a utilização plena do corpo e a falta de utilização de preservativos. Copi parece zombar de certa forma, afinal, ainda permanecemos presos. E controversa (outro sinônimo) pois a realidade que Serruya/Copi nos revela é conturbada e afetada, pela mitificação da doença e suas consequências.

Em Desmesura, Copi não é um maldito. Soa mais como um idealista apaixonado. Um bacante deslocado do tempo, que sobreviveu e vive (ainda) a zombar dos vivos e temerosos, ou seja, seu público. A peça é antes de tudo uma ode as potencialidades do corpo independente de qual parte (mente, coração, sexo). E quando o grupo apenas passeia pelo mundo efêmero e lúdico de Copi somos imersos em uma nuvem de melancolia e inquietação. Primeiro porque há um tom de nostalgia em tal retratação e segundo porque o corpo e suas deliberações ainda requerem questionamentos e abordagens esclarecedoras e que viabilize suas potencialidades e não apenas sua aparência binária e excludente. Copi não é um coitado em função da doença. Muito pelo contrário, a peça sugere que a famigerada doença potencializou toda a criatividade do artista. Uma forma bonita e generosa de criar ficção.

Premiado com o PROAC-SP, o grupo realizou três ações formativas. Duas oficinas e uma palestra. É justamente de uma das oficinas que surge o material que vai nutrir o momento mais politico do trabalho. Embora o tom da cena destoe do restante, mas não sem fazer conexões poderosas, o embate entre a travesti e o escritor, criador e criatura, ator cis e ator travestido revela mais do processo do grupo do que das questões de Copi diante da travestilidade. Não sabemos ao certo o que o escritor pensava sobre os homens descontentes e deslocados em sua condição masculina, que modifica e luta por uma expressão de gênero e por uma identidade que a/o represente, no caso, a feminina. Explico melhor material que alimentou tal cena:

Durante a oficina “O ator travesti”, ministrada por Fabiano de Freitas (Responsável pela montagem carioca de “O homossexual e a dificuldade de se expressar”, também do referido autor) ocorreu um embate feroz e emblemático entre uma transexual, uma travesti e um ator cisgênero (ou seja, independente de sua orientação sexual, “lemos” o mesmo como uma pessoa do sexo masculino). O ator em questão abordava a questão da travestilidade como material de criação, mesmo para indivíduos que não viviam tal drama na pele. Foi achincalhado aos berros pela dupla de “T”s que ofendidas fizeram da oficina, plataforma de embate. As transexuais o viram como um vilão a furtar uma oportunidade. Uma das tantas que a sociedade lhe rouba. É um assunto delicado e complexo que foi posto aos berros entre as partes, quase como que na peça. Digo quase, pois o Teatro Kunyn não fez jus  – nem sei se era o caso, veja bem – a realidade quando retratou o embate onde a personagem travesti questiona seu autor/ator e reclama do corpo e da falta de representatividade. Ou seja, em vez de empregar – por exemplo – uma travesti para a referida cena. Serruya sabiamente uso da metalinguagem e colocou o processo sobre o processo e deixou a ferida em aberto. Luiz Gustavo Jahjah, que faz a personagem em questão, intima que alguém da platéia assuma o seu lugar de fala, para que assim seja representada a minoria em questão.

É um blefe que funciona. Caso houvesse uma “T” na platéia, o trabalho teria que seguir outro rumo e a cena teria uma conotação diferente. Esse diálogo com a platéia é um risco, mas uma possibilidade impar de deslocar os artistas em cena para um suposto improviso. Uma pena que isso não aconteceu no dia que assisti. Mesmo assim, esse momento ainda é bem melhor que o inicio, onde os artistas pedem – de forma sacal – que julguemos os atores. O problema é que a opinião do público vale pouco, já que o personagem Copi já tem corpo e voz estabelecido, e o público é exposto a um constrangimento desnecessário. Porém é nesse desconforto que a força da opção cênica surge de forma pungente. Embora, possa ser questionado que no (sub)mundo sexual gay a doença importa pouco, quando se age por impulso e guiado pelo tesão. O público se espanta e revela ingenuidade.

A interação com o público é uma marca do grupo que a usou em todas suas produções. Em Desmesura essa opção não é excessiva, mas o formato pode ser questionado, assim como no inicio de “Orgia” e na intenção destemperada de emocionar como havia em “Dizer e não pedir segredo”.

É uma pena que o grupo abra mão de apenas vivenciar o(s) drama(s) em questão em detrimento de uma encenação desconstruída, que assim parece, mas soa dejá vù. Desmesura é triste e inquietante. No campo do discurso é o melhor trabalho do grupo e para quem conhece Ronaldo Serruya uma cópia dos seus pensamentos e da forma conciliadora com que reage diante dos conflitos. O desnudamento de Serruya é pouco, caso ele tivesse optando em nos apresentar um Copi vivo e pulsante, o resultado seria outro. Em vez de se desmascarar para que víssemos seu corpo/copi ruindo em cena, o ator e a direção oferta mais do mesmo do grupo e extrai pouco dos atores. A ironia é que no caso do autor em questão, que tinha como uma característica forte a autoficção, faz sentido um trabalho que revela as camadas de possíveis  leituras e não se atém a uma tentativa de retratar com fidelidade a realidade. A farsa ainda é a arma do grupo.

Desmesura, Copi, e o quarteto de artistas do Teatro Kunyn merecem ser conhecidos. Há muito que dialogar com e sobre os envolvidos. Em Desmesura há um deslocamento interessante do grupo, e o fato da montagem dar voz para um de seus integrantes é um ponto positivo. As máscaras não caíram, mas foram embaralhadas diante do público que os acompanha.

Rodolfo Lima

 

 

 

 

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