Limonada

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O teatro é uma arte complexa, por mais que pareça simples e automática. Não é. Tolos os que se enveredam pelos encantos dúbios do palco e não percebem o terreno que estão pisando e nem se questionam o que estão oferecendo a essa arte tão efêmera e subjetiva. João Hannuch parece fazer parte desse grupo de entusiastas da arte cênica, que se joga em cena, sem a menor noção do que está fazendo. É uma pena. E basta os primeiros minutos de sua “Limonada” ficar disponível ao público, para que esse perceba como pode azedar uma boa intenção.

Na história, escrita e protagonizada por João, ele é um aniversariante – não sabemos sua idade, mas ele se veste como uma criança confusa – que recebe cinco ex namorados na sua festa, comemoração essa forjada pelo próprio. Portanto seu espanto em receber os ex, não faz sentido. Começa ai a fragilidade da dramaturgia, que além de não se sustentar, acaba apelando para os clichês do universo gay e o mau gosto, com piadas do tipo: “deixa eu tirar o lacre do seu yakult“. Que bicha é essa, você se pergunta.

João não quer apenas ser engraçado. Quer ser complexo e fazer um retrato cênico das relações contemporâneas, olhando para o passado. Isso não é o problema, a questão é o formato desengonçado que o todo é exposto. Para piorar é agraciado com cinco “fanfarronas” que interagem momento a momento, como se o excesso pudesse suprir as falhas. É ao contrário, são eles que revelam a fragilidade do todo, e os erros não superados. Na reestreia no dia 09, no Espaço do Parlapatões, os erros da iluminação foram um personagem a parte. João por vezes precisou procurar o foco para ser iluminado. Mas me pergunto caro João, porque você não se iluminou por dentro e nos brindou com um personagem vivo e presente e não uma caricatura banal que não tem a menor personalidade.

São 10 atores que preenchem a cena, cinco atrizes, as concubinas deslocadas de uma festa sem eira e nem beira e cinco atores que dão conta dos referidos namorados. Um festival “bizarro” de equívocos e descuidos, que são postos sem a menor criatividade em cena. Para piorar, alguns atores falam baixo, a dicção por vezes é incompressível. Não há química entre João e seus parceiros de cena, e se a intenção foi trazer um panorama de tipos para abrilhantar a festa, os escolhidos é a prova de como uma festa por fracassar.

Lheo Shiroma não domina o corpo e crê que fazer micagens e arrancar risos dos amigos da platéia bastam. Daniel Paulo carecia de uma direção que o ajudasse a construir o personagem com a personalidade dúbia – ele não tem esse profissional ao seu lado. Fernando Castro tem que dar conta do pior deles, pois é um arremedo estereotipado de “príncipe encantado”. Jhones Pereira é o “palhaço” da turma, veste uma camiseta escrita “blasé” e dialoga com um fantoche. A tragédia além do erro do texto é o ator se achar mais engraçado do que realmente é. Será que o grupo sabe o que significa ser blasé? É um erro tosco. Victor Damaso é o que melhor lida com a precariedade do todo. Sem o menor pudor, debocha da situação e aproveita a pieguice do seu personagem “fake” e preenche o palco de “viadagens”, porém torna inverosímel o tal romance.

Seria mais honesto que João assumisse a primeira pessoa, caso essa tenha sido sua intenção original, e tornado pungente um discurso que o revelaria de forma mais honesta e coerente. É constrangedor a cena que finge ser fotógrafo e assedia de forma jocosa o “modelo” da foto. É assim que João quer que as pessoas o vejam?

No release da peça, lê-se que Beto (João Hannuch) está fazendo 30 anos  – o que corrobora com a percepção de que seu personagem é infantiloide e não cresceu – e que ao receber seus ex namorados uma viagem ocorre em sua memória, tentando reconciliá-lo com seus sentimentos. Inspirado em seus próprios relacionamentos fracassados, pretende mostra como podemos ser mudado pelas relações que encontramos pelo caminho. Não João, seu público não entende bulhufas do que você quer dizer e/ou aprendeu. Porque antes de você tornar suas memórias em festa, reverência-las, as transformou num circo bizarro e piegas.

E para os que se aventurarem a assistir essa peça e não entenderem o conceito, divido aqui um trecho da informação que consta no release. E se acharem que tal informação traduz o todo, por favor me informem. Não consegui identificá-los em cena. #grato

“A encenação de LIMONADA parte de um conceito cartunesco e minimalista. A cenografia traz diver­sos cubos, que serão montados em diferentes configurações, fazendo alusão a brinquedos infantis e ao universo colorido no qual vive o protagonista (…) Já a trilha sonora mistura músicas dos anos 40, 50 e 60 colaborando para a imersão do públi­co neste universo lúdico e de HQ”.

Rodolfo Lima

 

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