Madame Satã

Madame-Satã-Grupo-dos-Dez

Os personagens do universo vivenciado por Madame Satã, seus pares na vida, na luta, na cama e na guerrilha, se misturam com facilidade pelos arredores da Caixa Cultural São Paulo que fica na Praça da Sé, região essa que ainda é insegura e deixa seus passantes desconfiados a qualquer tipo de aproximação. Portanto, o inicio da peça com os personagens na calçada, interagindo com os transeuntes, sambando e batucando é um convite interessante e tem força, caso a encenação aproveitasse com mais propriedade tal possibilidade. Entendemos que é tudo teatro, mas quando a travesti é assassinada, o público reage com espanto. O que choca? O susto, a morte, o inesperado, a transfobia, o racismo? Não sabemos ao certo.

A montagem do Grupo dos Dez, abre com a atriz Jhulia Santos clamando que o público perceba a transfobia diária: “uma travesti morre com três facadas na frente de vocês e vocês não fazem nada? Não vão fazer nada? Eu sou travesti, você não está vendo. Somos invisíveis até que morremos”.

A montagem resvala sobre vários invisíveis e a figura de Madame Satã é um ícone, o norteador. Um “farol” a iluminar os excluídos. Negros, presidiários, travestis, marginais, pixadores, prostitutas e cafetinas ocupam o palco a nos lembrar de todas as nossas fobias e preconceitos diários. É emblemático e pungente o canto de socorro que o elenco entoa. A saber, a direção musical, responsabilidade de Bia Nogueira é a melhor parte do trabalho. Com 17 músicas compostas para o trabalho, a trilha sonora é o “achado” e guia de toda a encenação.

A direção de Rodrigo Jerônimo, com a supervisão de João das Neves é falha e não alcança a mesma poesia que as canções. A coreografia é frouxa – uma música como a que referência “a pomba gira de todos nós” merecia um conjunto de corpos mais atuante – e o palco da Caixa parece exprimir o elenco. Algo impede que eles ganhem força, os corpos parecem tímidos naquele espaço, e isso não é para metaforizar a situação dos párias retratados pela montagem. E sim por uma fragilidade da direção. A saber o elenco das apresentações paulista conta com muitas substituições e isso pode ter atrapalhado a fluência em alguns momentos.

Madame Satã apresenta problemas como encenação, mas cativa. Rapidamente criamos empatia com os personagens, as cantoras, o canto, o universo do candomblé retratado e nossa percepção e recheada de vermelho e preto, as cores dos exús e que simbolicamente – e infelizmente – também metaforiza a morte e o racismo.

Fragmentar personagem é sempre um risco, e fazer isso com o principal praticamente um tiro no pé. Pois ao dar cara as diversas facetas, impede que o público crie empatia pelo todo, e/ou pior, que tenha “seu” personagem preferido. No caso de Madame Satã, os atores (Denilson Tourinho, Evandro Nunes e Rodrigo Santos) que dividem o personagem não vão além do básico e não tem suas particularidades como artista explorada, se tornam ilustrativos. De certa forma a visão da direção não avança e se rende ao apelos da parte musical, mas o correto seria que elas se complementassem e não ficasse uma aquém da outra.

João Francisco dos Santos (Madame Satã) é o estopim para um teatro de protesto. Madame Satã tem um elenco praticamente negro, tendo a cultura afro reverenciada que emociona pois os integrantes trazem na pele as marcas do preconceito que emana.  João Francisco a primeira travesti sambista, nos lembra que quem mata é Deus, o homem só atira. João como muitas crianças, são fruto da miséria e da falta de oportunidade, de uma mãe com o coração fraturado – “aqui até amor de mãe é arruinado” –  sacrificando parte de si, para salvar o todo. Madame Satã é o Robin Hood das minorias.

A homofobia está explicitada de forma clara e objetiva em palavras. Pena que a peça não dá conta de teatralizar os afetos gays do personagem central e seus cúmplices. Há um beijo gay na peça, mas ele é tímido e a depender do seu lugar na platéia, você perde o momento. A montagem carece dessa força de causar impacto, o que é uma pena, pois todos os elementos estão ali. Então é como se víssemos uma força desperdiçada.

Um trabalho como Madame Satã e um elenco como o do Grupo dos Dez, estar num palco privilegiado – como lembra Bia Nogueira, no final da peça – é um feito. Aproveitem que é grátis e prestigiem. As questões sociais e raciais que a peça aborda ainda são um problema latente, agonizando a espera de respostas. E a arte, por minutos nós iguala e nos conforta.

Rodolfo Lima

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