Non Soy Un Maricon

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São Paulo carece de um festival de Artes LGBTQIA (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais/transgêneros, queer, intersexos e assexuais) que dê conta de abranger toda a pluralidade artística produzida em terras tupiniquins. A terra da garoa conta com dois festivais, “Festival Mix Brasil de Cultura e Diversidade” e “Todos os Gêneros – Mostra de Arte e Diversidade”, do Itaú Cultural que dialogam com a questão dos gêneros. Porém, ambas carecem de uma curadoria descente que imprima personalidade e um pensamento claro e objetivo ao todo. Ou seja… é um amontoado de opções na programação, que favorece os equívocos e supostos atropelos. A edição do evento produzido pelo Itaú Cultural começou com o pé esquerdo.

Num ano que a programação parece privilegiar as questões de transexuais, travestis e transgêneros, e difícil entender a escolha de “No soy un maricon” do grupo mineiro Toda Deseo, para abrir o evento. A noite de terça (13/06) foi catastrófica. A proposta do grupo não funcionou na sede de instituto, o público reagiu com frieza e/ou abandonou a sala antes do término.

O programa traz a seguinte informação: A história de quatro travestis em busca de fama é contada no espetáculo do Toda Deseo, grupo de atores mineiros ligados à questão do universo trans. A montagem é em formato de show e, dividida em três partes, discorre sobre direitos humanos, democracia e questões ligadas a minorias transexuais.

As tais travetis, interpretadas pelo atores (David Maurity, Ronny Stevens e Rafael Lucas Bacelar) mais se parecem Drag Queen, eis a verdade. Levando em consideração as frequentes confusões que há no entendimento das questões Ts,  a montagem teatral não se preocupa em esclarecer nada. A peça é composta de quatro cenas-pocket e entre uma e outra apresentação de um Freddie Mercury cover e/ou a participação da platéia numa discotecagem com um mix de músicas chiclete-pop-boate. Obviamente que isso não funcionaria no palco do Itaú Cultural. #ninguémpercebeu

Não sei o que o grupo quis dizer com “em busca da fama”. Sugere uma história a ser contada, um conflito presenciado, uma questão apontada. Não há nada disso. São cenas onde há os elementos de um show de boate. Ou seja, close, dublagens, hit de divas e coreografias. Nada de novo, absolutamente nada. Para piorar as cenas mostradas não se prestam a ter coerência, é um arremedo de referências e influências que juntas, parece mais um “close” dos atores do que um espetáculo de teatro. Cenas que funcionam num show de cabaré, na boate, na festa “dazamigas”, num protesto. Mas no palco, não. #travestinãoébagunça

Uma das cenas merece especial atenção dado o perigo que ela é. O grupo reuniu todos os áudios de videos que viralizaram na internet e que trouxeram travestis em situações vexaminosas. Como por exemplo, Luana Muniz que ficou bem conhecida pelo bordão “travesti não é bagunça”, que dizia enquanto esbofeteava um possível cliente, captados pela lente da câmera de um programa de televisão (Profissão Repórter), e que dividiu opiniões na época de exibição. O grupo escolheu transformar essa junção em uma quadro cômico onde os atores dublam e recheiam a cena de cacoetes e poses bem popular no mundo gay. O resultado? risos, sem o menor senso crítico, a graça pela graça oferecida como fazem as drags caricatas. Ou seja… há uma dubiedade perigosa, pois se pensarmos que muitas delas estão buscando por uma visibilidade para além dos clichês, a cena corre o risco de reforçar todos eles. Não tenho silicones, mas sinto o impacto da cena, parafraseando um dos famigerados videos.

Seja lá quem selecionou a programação desse ano, não ignorou o fato de um coletivo de artistas Trans, estarem lutando por espaço no mercado de trabalho  – no universo das artes cênicas, por exemplo. Na recorte “Circuito SSEX BBOX”, na sexta (16/06) as 15h,  a mesa “As Artes e artistas trans: uma reflexão sobre representatividade” traz partes dessas atrizes questionando justamente “Qual a contribuição em obras que carregam discursos sobre elas?” Infelizmente, creio que nenhuma delas estava presente na platéia de “No soy un maricon”. #alitravestiébagunça

O grupo completa três anos em 2017 e possui um histórico de ações afirmativas e militantes em Belo Horizonte. A peça em questão é o primeiro trabalho do grupo que tem entre outras o “famoso” Campeonato Interdrag de Gaymada. O porquê do espetáculo-festa estar na programação não é compreensível, além de datado e frágil em sua estrutura, não funciona no palco italiano. A pluralidade de expressões artísticas de diversas regiões nacionais é sempre desejada pelo público, mas há de se ter apuro nessas escolhas.

O suposto cunho político do trabalho aparece em dois momentos. Quando eles citam a quantidade de mortes causadas pela transfobia e a militância ingênua da cena final. O trabalho precisa de uma problematização e de rever questões primordiais para a cena queer, para que ganhe força e pertinência. Do jeito que está é primário e pueril. Seria cômico se não fosse triste.

Rodolfo Lima

 

 

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