Trans-Ohno

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Eu quero ser a bagunça. Quero que as pessoas me olhem e se sintam incomodadas, como eu me sinto quando me olho no espelho.” Eis a frase que – para mim – sintetiza o que significa a montagem do Coletivo Artístico As Travestidas, “Trans-Ohno”, que se ancora na dança butoh para ampliar as singularidades e questões do universo trans, local esse que o coletivo estabeleceu a base do seu trabalho desde de 2002, com o solo de Silvero Pereira “Uma flor de dama”.

Se o corpo da travesti é sempre associado a marginalidade, a prostituição, ao grotesco e a fetichização, a montagem em questão imprime metáforas e delicadeza a um universo tão carente de simbolismos poéticos. Diego Salvador e Rodrigo Ferrera funcionam como antíteses de um corpo imberbe em contradições e que de posse de suas singularidades ousa expressar-se a contento. O que se vê nos 60 minutos são imagens que obriga o espectador a sair do seu lugar confortável e buscar similaridades. Entre os atores, entre a cultura oriental e a ocidental, entre os personagens em cena, entre o que ele sabe e supôs saber do universo trans.

A reverência do corpo no butoh não aprisiona o indivíduo em gavetas, muito pelo contrário, o liberta e o exalta. Enquanto Salvador empresta seu corpo para esse hibridismo dolorido que é o ser humano, Ferrera assume a dubiedade na fala e constrói de forma direta e objetiva, um corpo desraizado de certezas. “Dizem que se conhece um homem pelos sapatos que calça“, ao dizer isso ele nos mostra seus saltos alto vermelho, ou seja, que homem é esse?

É justamente isso que a atualidade está tentando responder e não consegue. Qual o conceito de masculinidade? Como se definir o que é ser homem? Quais os códigos que perfazem esse gênero? Quando salvador dança temos a certeza que não sabemos. Quando a mulher-barbada-de-Rodrigo canta “eu sei que eu sou bonita e gostosa e sei que você me olha e me quer. Cuidado garoto eu sou perigosa”, não se duvida. Não porque ele aparenta ser perigoso e sim porque o que não se entende, é visto com ressalvas. Assim como o são a/os travestis e transexuais.  “Trans- Ohno” é portanto um trabalho que se ancora numa arte japonesa que requer disponibilidade do público, causa estranheza e transporta os mesmos para outro tempo. Talvez o tempo das incertezas. E isso é desconfortável.

O Coletivo Artístico As Travestidas sob direção de Tomaz de Aquino e dramaturgia de Ana Cristina Cola, atriz pesquisadora do grupo campinense Lume, parece avançar e revela um produto maduro e pungente, sem abrir mão do que adora fazer: o show, a dublagem, a famigerada montação. A sensação que se tem é que os atores estão desnudos, mesmo que a nudez não existe. O que vemos é personagens fraturados em cena e que abrem brechas para que o público a preencha como e quando puder. Ninguém fica alheio a um quadril de espuma. O trabalho de se construir é doloroso e insano e isso vemos de forma implícita nos corpos de Diego e Rodrigo. Esse hibridismo entre realidade e ficção, que é marca do coletivo faz toda a diferença nas cenas que constrói.

Yasmin Shirran e Mulher Barbada, identidade (desejada?) de Diego e Alter ego de Rodrigo se rendem e rompem com o decreto do feminino para as mulheres e para os gays e bagunçam a percepção que carregamos dessas “certezas” que se fragiliza mais e mais. O final da peça ao som de Antony And The Johnsons, que tem em sua vocalista uma mulher trans, torna tudo melancólico e mais frágil, assim como nossa sexualidade e nossos desejos e o que supomos saber dos outros. Não sabemos quando seremos capazes de virar do avesso nosso mundo. Mas em “Trans-Ohno” há um abalo imperceptivel, sísmico. Como se tudo ali cortasse sutilmente a gente, sem que percebamos. Um feito considerável.

Rodolfo Lima

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