Tom na Fazenda

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Peça com conteúdo gay são sempre uma caixinha de surpresa. A graça é quando ela se revela uma verdadeira caixa de pandora. “Tom na fazenda” do canadense Michel Marc Bouchard tem sua primeira montagem brasileira, graças ao desejo de Armando Babaioff que além de idealizar o projeto, traduz o texto e dá vida ao protagonista. A peça estreou no final de março no Oi Futuro no Flamengo (RJ) e tem força, fôlego e qualidade para uma trajetória longa e emblemática. Todo o esforço deve valer a pena, creia.

A sinopse é simples, Tom vai para o velório do namorado e ao se deparar com a família dele, a mãe  (Kelzy Ecard) e o irmão (Gustavo Vaz), percebe que a primeira não sabia da sexualidade do filho e o segundo sabia e recriminava. A simplicidade do argumento ganha camadas interpretativas poderosas e complexas, alcançadas – provavelmente – graças a direção provocativa de Rodrigo Portella. O texto foi encenado pela primeira vez no Canadá em 2011 e filmado pelo cineasta Xavier Dolan em 2013.

Tom (Armando Babaioff) ao se deparar com a realidade rústica da família do namorado não tem coragem de desnudar a verdade. Diante dessa impossibilidade se vê atrelado num mar de mentiras e omissões que o engendra a se comprometer de forma irreversível com a realidade dos familiares que lhe foram forjados. E claro que o grande embate não poderia ser menos intenso, já que se dá entre Tom e o cunhado homofóbico e machista. Portella potencializou esse contraste e transpassa a percepção do público com cenas homoeróticas, arraigadas de sensualidade, violência e sentimentos. A forma como essas camadas vão sendo compartilhadas com o público é o “crème de la crème” da montagem.

Há virilidade e sutilezas, que alternadas fazem toda a diferença, e brindam o público com a possibilidade de interpretar as nuances de forma a potencializar suas idiossincrasias. É perceptível a agressividade do preconceito e como a coragem de alguém que ousa enfrentar essa potência destruidora, pode causar abalos significativos. Tom simplesmente “atravessa” Francis (Gustavo Vaz) com seu jeito desajeitado de lidar com  a situação. O manuseio de códigos do universo masculino é uma arma tão poderosa, pois nos coloca como reféns, assim como está Tom, e não sabemos ao certo se gostamos ou somos contra. Tão arraigados está em nós uma construção machista da realidade e nossa vocação para a aceitação.

O jogo corporal dos personagens é colorida de forma erótica. Um caso raro de se vê nos palcos teatrais. Erotizado, e não com cores sensíveis a nos remeter ao universo feminino,e sim a nos relembrar que no controverso universo machista há lugar para delicadezas, mesmo que rústicas. E aqui, a contradição faz sentido, pois Portella quer nos fazer crer que a monstruosidade de Francis, pode ser revertida, ou apaziguada. No fundo é isso que desejamos, que o outro se acalme internamente. E é isso que Tom faz com Francis, de forma sensível e potente. Seja na brutalidade das cenas ou no deslocamento interno do(s) personagen(s).

O palco é desnudado, temos apenas baldes, uma lona e uma porção de barro a nos borrar a percepção do que temos. E corajosa essa opção de não oferecer nada além do trabalho dos atores, porém o quarteto dá conta. Babaioff imprime um tom melodramático em seu personagem, que resulta numa composição bonita e intensa. Falta nuances, talvez. Mas seu recorte apaixonado, confuso e emotivo é uma opção interessante. Tocante. Kelzy – que recentemente esteve na cidade com “Rio Diversidade” – compõe uma mãe sensível e plausível. Vemos sua construção e como a atriz é capaz de extrair força e verosimilhança em cenas como a do macarrão e do cemitério. Vaz é o típico macho-cafajeste-alfa, e a percepção que você tem desse personagem, revela muito sobre você (público), creia. Pois é no embate de sensações que Francis provoca que mora todos os senões.

A dramaturgia no final deixa o climax em suspenso, o que não deixa de ser frustrante, já que Portella constrõe cenas muito interessantes no decorrer das duas horas de peça. Numa época permeada de intransigências, com discursos mais preocupados em reduzir o ser humano, em vez de potencializar suas singularidades, um texto como esse não deixa de ser uma forte bandeira contra toda a intolerância vigente. É como se o lixo viesse a tona em cena, mesmo que não queiramos nos deparar com essa parte mórbida da nossa realidade.

Aqui não vale uma comparação com o filme, mas é necessário ressaltar que são produtos (teatro e cinema) que partem do mesmo argumento, porém nos revela detalhes bem dispares. O que não deixa de ser curioso, pois até que ponto – assim como o cineasta – o ator teve uma liberdade poética para recriar a história. O final de ambos são completamente diferentes. Como será o original?

Na iniciação cientifica e no mestrado analisei peças gays e sempre me questionei se seria possível balizar o grau de contaminação do resultado final de uma peça, a partir da singularidade e sexualidade dos artistas envolvidos, e do quanto eles imprimiam seus olhar no produto final. O trio Vaz, Babaioff e Portella oferecem um combo de masculinidade, sensibilidade, virilidade e erotismo,  raro de se ver.

“Tom na fazenda” é sensual e cativante sem deixar de ser estúpido e cruel. Me pergunto, que outra obra conseguiu tal efeito e não acho a resposta.

Rodolfo Lima

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