O príncipe desencantado

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Peças que abordem as questões de gênero ainda são raridade. Talvez no futuro seja comum pensar a sexualidade para além dos padrões heteronormativos, porém o tema ainda é visto com muitos senões.  O Príncipe desencantado é um bom exemplo dessa herança nefasta da normalização de nossos desejos e da utilização dos nossos corpos. Afinal, no fundo parece que ter um filho “normal” ainda é o desejo da maioria. Mas o que é ser normal? Velha pergunta para uma questão que não deixa de ser inflamada. Já que hoje as supostas minorias conseguem ter voz e gritar aos quatro ventos suas questões e singularidades.

Disse, “nefasta” não por ser ruim, muito pelo contrário. O trabalho escrito, dirigido e produzido por Rodrigo Alfer é um delicado e bem intencionado musical infantil, que se não ousa nas marcações cênicas, tão pouco peca com erros grosseiros. A peça se equilibra num certo “bom mocismo”, o que pode ser um “problema”, já que sim, precisávamos de uma montagem mais transgressiva e que ousasse, por exemplo, no beijo entre os príncipes.

Mas o beijo é desnecessário, dirão alguns. Não o é. Qualquer criança cresce vendo beijos similares em novelas – por exemplo – e caso não seja portador de um celular com wi fi, procurar outros tipos de beijos é bastante dificultoso, já que expressões de carinhos entre pessoas do mesmo sexo, ainda tem hora e lugar certo e é recriminado em muito lugares público. Então levando em consideração essa questão – da falta de afeto – a peça de Alfer, deixa a desejar.

Famílias mais conservadoras que ousarem marcar presença na platéia podem ficar tranquilas com essa possibilidade, mas fiquei me perguntando se era querer demais que o trabalho dos artistas em questão arrombasse essa “porta”. Porque trabalhos infantis sempre tem que ser delicados e metafóricos, quando a realidade – essa mesma que invade o universo infantil – não o é?

O argumento da peça é inusitado e divertido num primeiro momento. Príncipe Vick (Davi Moraes) entediado com a festa organizada pela sua mãe para que ele arrume uma namorada, vai a um Karaokê se distrair e lá conhece Teco ( Cícero de Andrade), outro príncipe. Eles se encantam um pelo outro, mas a peça não mostra com muitos detalhes essas questões. Davi soa mais natural em seu constrangimento diante de uma possibilidade de um igual, enquanto Cicero soa mais farsesco e descompromissado. Um faz graça, o outro um tiquinho de drama. Um questão: que “criança/adolescente se agarra num microfone para cantar “evidências”, “o amor e o poder” ou “lua de cristal”? A intenção é boa, mas tais músicas tem a ver com o universo gay (a memória emotiva) dos adultos na platéia e não das crianças, e quando eles entoam “I Will Survive”, o escorregão é feio.  Isso porque estou levando em consideração que os acordes de Lady Gaga, são produtos da minha imaginação tendenciosa.

Observei dois meninos – três, das duas crianças na platéia no dia em que eu assisti, uma pena – ao meu lado e posso garantir que eles não esboçaram nenhuma reação a peça toda. Diria que o único código atual usado na peça é o tênis de led, mas esses também não fizeram a “cabeça” dos meninos. É interessante o uso de lâmpadas que outrora serviram para agredir homossexuais, bem como a lembrança de que carrinhos de pedreiro não carregam – infelizmente – só material de construção. Porém é importante frisar que talvez as crianças não leiam tais signos. E dai me pergunto, cabe a quem dissecar essa informação?

Se a educação de uma criança se complementa em lugares de sociabilidade, já que a base, quem dá é os país, O príncipe desencantado é um potente material de discussão. Alfer foi ambicioso e acrescenta ao tema já delicado a questão da transexualidade. Ou seja, é bastante assunto para familiares bem intencionados. Já que caberá a eles explicar o que aconteceu com o príncipe e a família dele, e porque a princesa não quer se princesa, já que ela é mais rock and roll. Sim… a peça tem um quê feminista.  E tome assunto. A forma como Vick reage ao retorno do pai é amaciado de uma forma, a ignorar a inteligência do público.

Como se vê, talvez não fosse possível a direção enfatizar a contento todos os temas abordados, mas de certa forma essa ausência denota receios temerosos da equipe de criação. Uma marcação como a do filho dublando a mãe, na primeira música – como uma boa drag queen mirim – é um acerto divertido e leve na marcação, que comunica e não causa mal estar entre os homofóbicos. O riso salvaguarda a ação.

“O menino teresa” e “A princesa e costureira”, são exemplos de peças com conteúdo similar ao do “príncipe…” e que tiveram resultados satisfatórios. No primeiro caso, uma menina gostaria de viver no lugar de um menino, não no corpo em sim, mas nas brincadeiras e nos códigos do universo masculino. E no segundo caso, a princesa em vez do príncipe, se encanta por uma costureira. Peças para crianças, veja bem!!!!

O elenco é uniforme, Marcella Piccin como uma garota transgressora, retira risos saborosas da platéia. A naturalidade com que Davi Novaes lida com as situações não é a mesma que acompanha o elenco como um todo, mais na chave da (boa) caricatura. A direção os deixa refém do manuseio das lâmpadas, o que em dado momento empata a fluência do todo.

Não sei se no universo infantil “tudo acaba em carnaval”. Se ser “bela recata e do lar” é algo que interesse as epifanias mirins, mas comunica os adultos. O tom melodramático que há na cena entre o príncipe e a governanta destoa do clima leve e divertido que caracteriza a montagem e faz parte do seu charme.

A presença da atriz curitibana Maite Schneider é um ganho – ainda mais levando em consideração os debates sobre a presença de transexuais e travestis no universo da arte – e sua personagem daria uma outra boa história. Quem sabe na próxima, né Alfer?

Rodolfo Lima

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