Sínthia

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A complexidade é um dos adjetivos mais interessantes que se pode ofertar a uma obra. Isso pressupõe que há diversas camadas a serem lidas/interpretadas. E isso no teatro é uma raridade, um feito ousado e inteligente que tem que ser reverenciado. “Sínthia” da Velha Companhia é uma dessas peças. Porém, com tantas questões postas em cena, o risco da escorregadela pode ser maior. E arrisco dizer que no que tange a transgeneridade e a sexualidade do personagem Vicente (Kiko Marques, ator, autor e diretor) temos um exemplo um pouco nebuloso.

Na trama, Cida (Denise Weinberg) é mãe de quatro filhos. Personagem essa que abdicou cedo do sonho profissional e viveu “condenada” a cuidar dos filhos. Teve suas singularidades abafadas. Possíveis desejos suprimidos e a felicidade de ter uma menina perdida. Há muito senões nela. E para complementar, uma doença ameaça colocar tudo o que restou em risco. Mas o que restará, é uma questão que o público carrega a peça toda.

Henrique Schafer dá vida ao marido. O “poeta”, que nada mais é do que um torturador dos anos 60, e que paga com a própria sanidade as escolhas da profissão. Se a mulher sofre por não se expressar para além dos afazeres domésticos, o marido complementa sua rotina com os dilemas que omite, e nessa omissão potencializa o abismo entre eles.

O trabalho é de fôlego, são três horas de uma encenação em boa parte do tempo inspirada e interessante, que alterna drama e comicidade de forma leve e cotidiana, o que aumenta a identificação do público. A peça ocorre em três tempos/período histórico, o que poderia confundir, se a direção de Marques fosse frágil. Não o é. Aliado com o trabalho dos atores – das atrizes, em especial Alejandra Sampaio – “Sínthia” é uma potente encenação teatral.

O que vemos naquela família é o desmantelamento das emoções, embora aparentemente a união entre eles seja o que os fortaleça. Porém, num mundo de ausências, silêncios e emoções abafadas, há muito o que se pesar/dizer. E é isso que os personagens “vomitam” em cena: suas questões mau resolvidas e/ou ainda não extravasadas a contento.

No prospecto do trabalho o grupo assume três temas na encenação: o feminino, a ditadura e a transgeneridade. Vou me ater a essa última e não a toa, ela carrega as outras duas, de forma indissociável.

A sexualidade de Vicente é colocada em cena pela primeira vez quando ele assume a falta de traquejo na iniciação sexual. E/ou quando assume que, depois de ter usado drogas, se vê/se imagina sem o pênis. Ao relatar para mãe, o fato, ouve da mesma: filho veado eu capo. Bom, a mãe é tão castradora e militar como o pai. Isso é herança: o autoritarismo. E isso veremos mais no final, quando os irmãos de Vicente narram o feito seminal.

Pois bem, Vicente é musicista, sensível, e a composição de Marques é formal e opaca, como que a esconder algo. Mas não sabemos bem ao certo do que se trata, ou se é apenas a personalidade introspectiva do personagem. Ele casa, tem filhas e em dado momento da vida é devastado pelo suicídio de um aluno, um pupilo, que o então professor, apadrinha. “Amigo” (Valmir Sant’anna) esse, a princípio, abastado de qualquer possibilidade de melhoria de vida. O embate entre eles é artístico e com questões sociais os diferenciando. Poderia haver ali uma camada sexual que os envolvessem numa áurea sexual? Sim. Mas a direção não escolhe esse caminho. Os momentos de diálogo entre os dois são carentes de desejo e empatia. Isso não evita que a mulher (Virgínia Buckowski) de Vicente desconfie da relação dos dois. Se não fosse a personagem apontar, tal possibilidade passaria batido.

Vicente desconcertado e infeliz resolve numa noite de natal, depois de passar três dias sumido, voltar para casa da mãe vestido de …”Sínthia”, a tal filha que a mãe não teve. E que deveria ter vindo na vez de Vicente. Ou seja, ou o personagem sente culpa, ou uma insatisfação interna com o próprio corpo. Nenhuma das duas questões é esboçada a contento na encenação. Os supostos 40 minutos do segundo ato, que se debruça sobre o tema, é pouco diante dos 120 minutos para se contar a saga familiar, e que perfaz o primeiro ato.

É comum no universo gay, o filho que supostamente é solteiro, cuidar da mãe no final, ainda mais se a mesma adoece. O clichê é legitimo e inquestionável. Mas usar roupas femininas não o faz melhor que os irmãos – que demonstram afeto e preocupação pela mãe – e sua infelicidade é usada para justificar suas ações. Ou seja, qual o papel real da mãe nessa história?Mãe essa que continua o chamado de filhO.

É uma pena que um trabalho tão sério, bonito e bem encenado, patine tanto nas questões de gênero. Para engrossar o caldo: a homofobia internalizada dos irmãos – usada claro, para enfatizar que todos naquela casa carregam o DNA do familiar militar. Soa forçado. Uma déjà vu desnecessário.

A peça tem base em memórias reais do diretor, que assim como seu protagonista foi esperado como menina e teve que viver com a frustração da mãe, vivendo num mundo estritamente masculino. Os dois anos de pesquisa do grupo não exímio a dramaturgia de “forçar” a sexualidade do protagonista, num mundo rígido e solitário, porém vivo e emotivo.

O drama final, com a mãe variando em função da doença avassaladora é verossímil e real. Se eu não tivesse vivido na pele tal realidade… Mas vale lembrar que a saúde da mãe é posta em cena em outros momentos. O público cria essa possibilidade junto com a personagem e os filhos. Mas quanto a transexualidade de Vicente… realmente isso não ocorre. Causando uma confusão nessa transição. Abafada por causa do potencial dramático da cena, em função do fim da mãe.

Se for possível alguém reler o trabalho, pelo viés das questões de Vicente, como se daria essas colocações? Vicente é travesti ou transexual? Gay ou apenas um homem em depressão? Questões que o trabalho sugere, mas não responde a contento.

Rodolfo Lima

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