Bug Chaser – Coração Purpurinado

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Você já pensou que pode ser infectado pelo HIV de propósito? Ou quantas vezes já passou pela sua cabeça ser infectado, para poder assim curtir o sexo sem neuras e aproveitar tudinho o que o corpo alheio oferece? A primeira vez que ouvi falar no tema, foi quando assisti “The Gift” (O presente) dentro da programação do Festival Mix Brasil. Lembro de sair sem rumo da sala de cinema e encontrar um amigo aos prantos do lado de fora. Isso foi em 2003. Corajosamente a Cia. Artera de Teatro (Ricardo Corrêa e Davi Reis) estimulado pela PROAC LGBT se debruçaram sobre o tema. E o resultado disso é um trabalho pungente, que aborda questões delicadas – e necessária – do universo gay e que oferece um questionamento maduro e urgente sobre a questão. Um trabalho importante.

Mark não tem ninguém. É um advogado criminalista bem sucedido, mas marcado por uma infância reprimida, cresce sequelado. Muito em prol de uma sociedade homofóbica, machista, e…heteronormativa. O personagem em questão vence na profissão e se sustenta. Porém não consegue bancar seu passado de forma sadia e produtiva. É justamente esses senões acumulados com o tempo que fazem com que Mark tome o seminal  caminho da infecção voluntária. Uma forma de se sentir vivo e integrado num sistema. É um personagem rico, porém sua retratação soa maniqueísta e tendenciosa. Primeiro porque vemos sua vida exposta de uma forma tão violenta e esvaziada de sentido que parece uma efemeridade pensar que ele possa ser feliz um dia. E segundo porque quem se infecta propositadamente, tem no mínimo uma perturbação interna, algo não resolvido. É sempre assim?

Para complicar o assunto, Ricardo Corrêa, ator e dramaturgo, isola seu personagem numa espécie de cela/laboratório, para uma quarentena, afinal, ele é uma arma ambulante (Uma possibilidade de leitura, porém segundo o ator o período é também o tempo referente a profilaxia – onde o indíviduo exposto ao vírus, toma um coquetel para barra a multiplicação do vírus). Sua “porra” pode ser mais fatal que qualquer outra idiossincrasia que seu corpo produza, embora letal mesmo, seja o câncer, como bem frisa o personagem em dado momento. Esse clima de história-de-ficção-futurista é cabível. Já que infectar o parceiro propositadamente pode render algum período encarcerado. Virou crime, e é sério. Afinal, “a cidade é um circo de horrores, ora luxo, ora esgoto.

Corrêa não deixa dúvida e ao surgir com uma cabeça de rato na primeira cena, reitera que seu personagem pode ser sim associado a um animal vil e pestilento, quiça virulento e repugnante. Seria uma forma de rotular o personagem? É uma questão importante que é celebrada quando vemos o personagem transitando por cinemas pornôs, cheios de homossexuais deprimidos e promiscuos, e garotos de programas sem esperanças. É um visão fatalista e real dos guetos da cidade. Uma realidade camuflada.

Ele gosta de ser assim? Eis ai uma questão que impede que o público se apegue ao personagem, mesmo que o ator tenha um desempenho cênico energizante, potencializado pela direção veloz de Davi Reis e a iluminação criativa de Fran Barros. Marc só revela esse lado “bad” da vida. Fiquei me perguntando: será possível querer conviver com o vírus e tudo bem, ser livre e bem resolvido? Bug Chaser, não oferece essa opção, e esse é o deslize da montagem, não deixar que o público se coloque em seu lugar, ou o julgue. Tudo é dado pelo personagem, ficamos de voyeur a observar ora com cumplicidade, ora com repúdio a realidade do outro, que rezamos, torcemos para estar bem longe de nós. Mas a verdade é uma só, quando se aceita transar com o outro sem preservativo, é feito um pacto, mudo e irreversível. Muitas vezes nem é uma exigência (a camisinha), apenas se aceita. Uma verdade que cala a todos.

O problema que o personagem apresenta é o coração que vai pifar a qualquer momento. Essas 400 gramas recheada de rancor e mágoa que Mark carrega no peito. O vírus mesmo não é a questão, serve para que o personagem consiga concretizar uma possibilidade de aceitação e parceria com Jhony, que se infecta primeiro e “vira purpurina”, antes que possa ser agraciado com alguém que o aceite. Mark é tão desgostoso da vida que um coração não resolveria seu problema, então sua desumanização – reiterada pela sua fala – é um exagero. Que dubiamente poderia soar como que um pedido de socorro, de atenção. Não é clara se a intenção do autor foi essa. A metáfora do problema do coração é uma reverberação bem bonita e trágica, da herança deixada pelos pais.

Esse deslocamento já perseguia o personagem desde criança, primeira lembrança de se sentir imundo – mais um adjetivo para o animal que supõe ser. Um troca troca entre primos se torna uma teorização sobre sua desumanização. Seria ali o inicio de uma caminhada que condenaria Marc a restar sempre com os líquidos alheios em seu corpo? A cena remete a um momento da peça “Luiz Antônio-Gabriela” onde diante do inevitável, a “leitada” (ato de jogar o esperma no outro sem nenhum tipo de proteção) se torna problemática.

Essa situação – experimentar o esperma do outro – é um assunto delicado, que Ricardo frisa com muita contundência: “Ditadura do Látex. Você acha que é fácil ter nascido sobre o estigma desse tempo“. As projeções utilizadas pela encenação, muito mais do que reiterar a violência homofóbica que muitas estão sujeitos – um clichê aceitável – poderia ter atualizado o aumento da doença entre os jovens, que no afã da juventude e numa era pós estigmatização do AIDS, que associava a doença APENAS aos gays, não temem a contaminação. O coquetel segura o baque das consequências e a vida pode seguir seu curso. Ter nascido com certa culpa é um fardo nefasto. E notícias do vírus em 1983, não é justificável.

Pode parecer uma exaltação ao ato, mas na peça é super pertinente quando o personagem reitera com todas letras que os praticantes de Barebacking transam sem camisinha, quando explica o que é cavalgar sem cela. Receber “vitamina” ou mesmo zerar a carga viral e ai… sai transando a vontade sem temor, uma roleta russa interminável. Obviamente que isso acarreta outros riscos para a saúde, mas colocada de forma crua e sem rodeios é o melhor que a peça pode fazer. Pois assim como Marc, para algumas pessoas o amor começa no sexo. E para essas pessoas, há limites quando o sentimento surge? Elas pagam o preço?!?!

O melhor momento da peça é incontestavelmente o momento que Marc supostamente se infecta. Para quem já frequentou qualquer tipo de inferninho – sauna, clube de sexo, dark room, suruba e similares – sabe do que o personagem fala, e se você nunca foi, poderá ter um exemplo do quem vem a ser. Quando o personagem caça o vírus como se isso o aproximasse mais do outro, e declara “eu posso viver contaminado, seja lá o que isso significa” é um “eu te amo” avassalador. Me remeteu a Hilda Hilst: “Te amo, ainda que isso te fulmine ou que um soco na minha cara, me faça menos osso e mais verdade”.

O “bom mocismo” contamina o trabalho e isso enfraquece o todo. Um cara sujeito a todo tipo de doença está lá preocupado com “seu lugar de privilégio”? Palavra da moda. Que importância tem a tragédia de Aleppo, se o personagem é incapaz de olhar para si mesmo com amor? O drama social em que o personagem está imerso é “maior” que seu universo interno. Eles deveriam estar complementares e não subjulgados um pelo outro. Partindo desse pressuposto da universalidade a peça perde a individualidade e não arrebata, oferece um recorte frio e racional de muitas questões inflamadas e urgentes para os homossexuais.

Imagina não ter o que sentir. Isso deve ser libertador“, diz Marc. Pena que ele não nos oferece essa possibilidade, essa epifania, essa abertura de na sua tragédia pessoal eu (re)construa meus senões. Porque eu tenho que me importar com quem me pede algo na rua? Que pieguismo é esse? É como se Marc fosse frágil, mesmo que a presença de Ricardo em cena demonstre o contrário. O melhor que Ricardo oferece é quando arrisca e oferece uma composição – e um texto – crua e sem rodeios. Não é uma (con)sequência de socos. O artista não opta por esse caminho e corre o risco de se exceder.

Eu era o depósito“. Essa imagem é poderosa. É das que o público deve guardar, assim como um dos momentos mais emblemáticos da encenação. “Bug Chaser – coração purpurinado” se rende ao virtuosismo em cena e isso prejudica em alguns momentos. Como se as marcações fosse mais importante do que o que está sendo dito, ledo engano. Uma insegurança de não deixar com que as palavras façam o serviço dela. A peça aborda um tema tão complexo e importante que é impossível sair indiferente. Precisa ser (re)vista, questionada e problematizada. Os artistas envolvidos prestam uma contribuição valiosa a história de peças gays no cenário paulista. Confiram.

 

Rodolfo Lima

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