As Criadas

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Vivemos em guerra. Essa constatação é generalizada e irreversível. O mais triste é que os inimigos não estão só fora de nós e sim dentro de nós, deturpando a realidade, gerando rancores, desvalorizando singularidades, potencializando disparidades. Não podemos ter a inocência de temer apenas quem nos governa, quem nos educa, quem nos ama e quem declara querer ficar ao nosso lado independente de. Uma das verdades cruas e violentas do texto de Jean Genet, As Criadas, jogadas na cara do público sem o menor senão é: Quando escravos se amam não é amor.

Partindo desse pressuposto e da dura constatação de que vivemos escravizados em dogmas, esquemas, guetos, turmas e qualquer outra coisa que nos faça ser incluído num sistema cada vez mais ambíguo e  seletivo, não há amor em nenhuma instância. Pois não somos capazes de “amar” para além do que nos enquadra e nos aceita, se é que sabemos com clareza o que é isso. Todos estamos a caça dessa epifania da aceitação e de ser valorizado. Escravos das expectativas.

Num sistema ordinário, onde vence quem pode mais. Onde a potência é medida pelo poder de manipulação, o que nos resta, por vezes é apenas se revoltar. E é isso que Solange (Magali Biff) e Claire (Bete Coelho) compartilham conosco, uma simulação do que poderia ser esse sistema invertido, onde oprimido e opressor, lutam pelo protagonismo. Reféns de padrões estigmatizantes como rico x pobre, branco x preto, feliz x infeliz e por ai vai. Vivemos setorizados. Um desespero.

Nessa loucura que é querer estar no lugar do outro, desfrutando de toda acessibilidade que ilude a alguns com promessas de um dia a dia melhor, Solange e Claire se tornam alegorias bizarras e tristonhas de um sistema cultural, trabalhista e escravagista que parte do pressuposto de que o outro está aquém.

No palco do SESC Santana o que vemos não é apenas o clássico texto de Jean Genet, escrito em 1946, enquanto estava preso. Não vemos apenas uma peça sobre luta de classes: empregados x patrões. Vemos antes de tudo vidas vilipendiadas por um sistema que valoriza antes a capacidade de produção do indivíduo. E se não somos capazes de produzir nada, além do que repetições rotineiras e cotidianas, que se não nos salva do tédio, no permite ter uma vida comum e básica, o que nos restará?

A direção do polonês Radoslaw Rychcik não remontou apenas o texto do famigerado dramaturgo francês. Ele, ao colocar suas personagens sentadas e em poltronas/palanques nos obrigou – nós, o público, reféns delas por mais de uma hora – a mergulhar naquele universo humano cheio de rancor, tédio, resignação e humilhação. Ao invés de preencher a cena com quiproquós cênicos, Rychcik esteriliza a realidade delas e o discurso das personagens – ali só se tem a palavra, como uma arma poderosa e irrevogavel –  ganham sabores agridoces e ácidos, que torna a vida, por aquele período, insustentável. Não há saídas, acredite.

De quebra, ao colocar no topo do sistema “a atriz e cantora negra Denise Assunção” (assim que o diretor se refere a ela no programa do espetáculo) a peça oferece uma leitura do racismo e de toda luta por igualdade que os negros tanto lutam. Assim, a peça é atualizada e problematizada. Ao surgir cantando “O morro não tem vez”, o figurino – por sinal belíssimo de Hanna Maciag –  nos remete a figura de Oxum. Infelizmente não há amor naquele palco e de quebra  – se bobear – nem entre nós. O “morro” tem voz, mas o que se ouve é gritaria. Estamos fadados ao fracasso?

A proposta arriscada da direção só é bem sucedida pois tem a mercê duas atrizes potentes. Magali  e Bete são o que há de melhor na geração delas nos palcos nacionais. Se a primeira tem força em sua dramaticidade madura e convincente, a segunda flerta com o trágico, nos oferecendo um simulacro da realidade que mais do que nos entreter com sua capacidade corporal e vocal, nos inibe com seu poder de persuasão: nos reconhecemos naquela loucura histérica, infelizmente.

A música minimalista – e poderosa – composta pelos irmãos Michael Lis e Piotr Lis, nos enreda de uma forma sufocante e poética. Como se pudesse ir vislumbrando uma realidade bela, mesmo que nas trevas. Esse lugar potencializado pelas câmeras utilizadas em cena, revela que também vivemos num mundo que além de estigmatizar nos revela a todo instante. Registrando uma rotina que não nos traduz poeticamente, mas nos desnuda. Ou seja, não há escapatória.

E quando nos resta apenas cuspir no outro, como se esse ato de repudio e desespero nos salvaguardasse de nós mesmos, vemos que o teatro é capaz de nos ofertar o lado mais cruel da realidade. “As Criadas” do quarterto Radslaw, Bete, Magali e Denise, não é para iniciantes, tudo ali exige do público bagagem e repertório. Ao mesmo tempo que tem uma mensagem direta e certeira. Um feito e tanto. E prepare-se, não há epifanias na referida montagem, não foi dessa vez que o teatro irá te salvar.

Rodolfo Lima

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