PLURAL, Festival da Diversidade – Impressões

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Araçatuba recebeu de 15 a 20 de agosto, graças ao impulso dado pelo PROACSP, o Plural – Festival da Diversidade, que está sendo considerado o maior festival da diversidade sexual do interior paulista. Concebido e produzido por Fernando Fado,  o festival juntou mais de 40 atrações na programação, das quais pude acompanhar 24 (sem contar três trabalhos que eu já tinha visto em outras oportunidades). Foi uma maratona e para os araçatubenses uma enxurrada de possibilidades artísticas para rever a sexualidade e suas diversidades. Apresentações teatrais, performances, curtas metragens, shows, discotecagem e exposição; perfazem o que é para os paulistanos o Festival MixBrasil de Cultura da Diversidade, que entra na programação paulista sempre no segundo semestre.  Assim como seu “irmão mais velho”, o Plural terá que se adaptar e se reinventar nas próximas edições. A proposta é que o evento seja Bienal. Ou seja, sua próxima edição está prometida para 2019.

Uma das primeiras questões a se levantar é o acumulo de atividades na parte da noite. Já que alguns horários se chocavam. Isso fez com que o público se dividisse e corresse de um lugar para outro.  A levar em conta outras atividades culturais da cidade, que revela a disponibilidade maior do público na parte da noite, não se pode ignorar parte dele que poderia comparecer a tarde nas atividades. Um festival que propõe criar demanda e educar culturalmente o público, precisa pensar nele de forma geral, e isso supõe ficar atento a problemas para que os menores de idades se desloquem com mais facilidade de dia, e turistas que podem comparecer na cidade em função do festival. E claro, sanar a dificuldade de locomoção da cidade, que não favorece quem não tem transporte particular. Araçatuba é um lugar com transporte público escasso, e táxis que não se utilizam de taxímetro para taxar os valores das corridas.  Aliar uma curadoria artística instigante com a consciência do poder educacional de tal ação, criando conexões com os aparelhos culturais público e privado da cidade, é um desafio constante de qualquer festival grandioso.

A imagem que abre esse texto é da Intervenção de Leonardo Vinicius Fabiano, intitulada “Desgustação” (Maringá/PR) que abriu as atividades no primeiro dia. Apresentada na Rodoviária de Araçatuba, revela a necessidade de ações que interfiram na rotina dos araçatubenses. A programação trazia 4 propostas, em lugares chaves da cidade como a rodoviária, o terminal de ônibus, o calçadão, o teatro municipal e dentro do shopping. A proposta de Leonardo era que o público engolisse ou “vomitasse” com ele palavras de repulsa e intolerância que a população LGBT suporta diariamente. Foi um desafio, já que o resultado de sua ação dependia diretamente da colaboração do público que podia comer junto com ele, ler os textos disponíveis em voz alta ou mesmo levar consigo tanta intolerância. “Alguma mensagem ele quer passar, só não sei qual. O cabelo colorido e a gelatina me remeteu a diversidade, o pessoal usa muito“, me conta a assistente de vendas Rosneide de Fatima, de 35 anos, de passagem pelo rodoviária. Já para Gabriel Gasparini, de 19 anos, estagiário da Prefeitura local, a leitura foi outra: “Estou achando meio triste porque o pessoal passa e não interage. Não sei se por que não olha, não entende. Mas só o fato da pessoa não parar para olhar demonstra ignorância. A busca pela compreensão não é influenciado. Somos  empurrados contra. E quando isso ocorre é criado uma hostilidade”.

Outro ator que dependeu da “generosidade” do público foi Heitor Gomes e sua performance intitulada “Temporada de Caça“. Diferente de Leonardo, que tinha esboçado com clareza o que deveria ser feito, Heitor se disponibilizou ao público durante quatro horas diante de uma série de objetos que poderiam ser utilizados para interagir com ele, que não reagiria. Gomes arriscou, havia entre os itens, martelo, faca e uma lâmpada florescente – que foi usada por homofóbicos num ataque na avenida paulista e virou símbolo da luta por respeito. Se uma das questões referente ao trabalho de Leonardo foi sua passividade diante a interação do público, de Heitor foi ser vítima de ações que o ridicularizavam ainda mais. Entre batons e correntes de ferro, faltou para o público objetos que o provocaria de forma a desafiar o performer,  e desestabiliza-lo, independente da questão de gênero. Vale observar que nas duas apresentações não havia nenhum indicativo da programação do Festival e/ou alguém que informasse os curiosos do que estava ocorrendo. Uma questão a ser observada: contextualizar ou não o público?

Heitor também foi responsável  – junto com Rodrigo Santiago – por “Via Crucis“, performance onde os atores andavam de mãos dadas pelas ruas e lugares públicos da região central de Araçatuba. Meu primeiro pensamento foi: que lugar é esse que carece de dois homens andando de mãos dadas para chocar? Problemática, a ideia foi acompanhada por mim por cerca de 30 minutos. Os atores em questão não interagiam entre si de forma mais pontual a provocar reações do público e o fato de termos que ficar seguindo os mesmos, sem sermos vistos como público, também dificultava a leitura. Se pensarmos que temos casos de homofobia entre familiares – por exemplo – que trocam carinhos em público e são visto como amantes, os artistas em questão precisavam ser mais arrojados em suas ações a dois, para que o público fosse retirado do seu lugar comum e obrigado vê-los/agir. Morosa, ingênua e cansativa, a atividade foi a bola fora da programação.

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As cores do logo do festival, são referentes as mesmas que estão na bandeira da luta contra a transfobia. Não por acaso, a programação prestigiou esses indivíduos de forma ousada e inovadora. Magô Tonhon, Helena Vieira, Jaqueline Gomes de Jesus, Renata Carvalho, Leonarda Glück, Assucena Assucena e Raquel Acerbi, são mulheres trans e travestis que puderam dividir com o público sua arte, suas experiências poéticas e acadêmicas. Leonarda em “No documento é homem mas aparenta ser mulher” revela ao público o desconforto de sempre ser vista como uma estranha. O público ouve a atriz cantar, revelar suas carências e dúvidas, e ao se desnudar para “nós”, oferece a possibilidade de nos afetar, o grito é singelo, mas somos tocados em ver a luta do outro em sem debater com o próprio corpo.

Outra combatente dos palcos da cidade, foi Renata Carvalho e seu “O Evangelho Segundo Jesus – Rainha do Céu” que peregrina pelos palcos nacionais e levantou a ira dos religiosos da cidade que tentaram – pacificamente, através de uma nota de repúdio – impedir a apresentação da peça. O texto da britânica Jo Clifford emociona e proporciona uma releitura dos escritos na bíblia de forma atual e pertinente, porém, pondo em xeque a forma como se lê e se atua, a partir de tais escritos. O tom cômico que a protagonista esboça, ajuda a cativar o público e dividiu opiniões. É uma opção arriscada, porém certeira.

A intolerância também recaiu sobre “Amém” espetáculo local, que traz a cena Clarinha (Laerte Junior), personagem indefinido que também “passeia” sobre questões religiosas, porém de forma confusa e desordenada. As inúmeras referências da peça – de Lady Gaga (cantora) a Harvey Milk (militante americano) – descaracterizam o discurso, parecendo mais como um arremedo de cenas soltas. A dramaturgia fraca junto com a frágil composição cênica de Laerte, deixa o resultado com gosto duvidoso. Itens do cenário e projeções em excesso também podem servir de muleta e roubar a atenção do que realmente importa: a mensagem EFETIVA que se quer passar. Exemplos do cenário: o liquidificador, os pratos dispostos pela platéia e cenário, e a banheira de leite com bolas de isopor.

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As ações formativas que teve curadoria da pesquisadora Magô Tonhon propôs junto com a participação da escritora e transfeminista Helena Vieira e da professora de psicologia do Instituto Federal do Rio de Janeiro, Jaqueline Gomes de Jesus uma rica discussão sobre as questões que aparta cisgêneros e transgêneros e os percalços que ficam mal resolvidos no trânsito dessa luta. São inúmeros. E também são grandes o desafio da curadoria em pensar uma forma mais ativa de fazer com que tal oportunidade de escuta e reflexão, seja apreciada por um número maior de pessoas e de forma mais produtiva. Se Magô pode abrir caminhos com sua simpatia e bom humor, coube a Helena falas mais diretas e ríspidas para que se pudesse entender a dimensão da luta de mulheres trans – por exemplo. Jaqueline clareou didaticamente nossas impressões de forma delicada e pontual. Pena que poucos se disponibilizaram a ouvi-las.

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“Orientação afetivo sexual é igual a bussola, sempre para o norte, sempre para onde seu coração mandar” – Magô Tonhon

Helena enfatizou o fato da sociedade achar que ela não é digna de ser amada, e que o homem que decide ter um relacionamento com ela é o “corajoso”. Se as emoções não estão alheias as questões da política, é preciso reciclar o olhar para as questões de travestis, transexuais e mulheres trans. “Informação é pressuposto de participação. A cultura é importante pois é uma via de acesso do conhecimento e problematização“. Sobre a passividade e a preguiça, e porque não o desinteresse alheio, a escritora dispara: “Conservadorismo é manter as coisas como são, pois me sinto tranquilo e confortável. No futuro todos nós podemos ser um conservador“.

A fala mansa e tímida de Jaqueline não foi o bastante para conter a pertinência de sua fala: “Não é só os trans que modificam o corpo. Todos fazem isso. Pois tem haver com a auto estima. Pois ninguém quer se ver da forma como é, como acorda. Ignoramos que a primeira roupa é o nosso corpo“. E nos alerta: “Transexuais não é o termo ideal para se referir a outras igual a mim (mulheres trans), pois a questão não é sexual e identitário, é de gênero“.

A expectativa de todos: produção e público, era pela programação de shows no final de semana. As dobradinhas “Jaloo e As Bahias e a Cozinha Mineira” e “Tássia Reis e Karol Conka“, seriam apresentados gratuitamente numa das praças da cidade. O que potencializaria o discurso e a arte dos artistas.  Em função da semana chuvosa, a produção deslocou os shows para a boate Loft Club. Entre um show e outro Leandro Pardi, musicava seu “Pardiero” num trecho da rua em frente a boate, fechada para abrigar o público. Se o evento como um todo perdeu a capacidade de atingir um público maior e diverso, a inclusão da famigerada boate local é um ganho, que não pode ser ignorado nas próximas edições do PLURAL. Teria sido – um palpite – o local mais apropriado para o show de Linn da Quebrada.

Vale ressaltar que os shows de abertura, que contaram com a participação de Ekena e o trio de cantores do “Não recomendados” encheram de poesia e militância o palco do Teatro Municipal Castro Alves, que tinham na platéia um misto de políticos, parceiros culturais, artistas e público em geral. Se Ekena avisou: “Eu tenho pressa eu quero ir pra rua. Quero ganhar a luta que eu travei. Eu quero andar pelo mundo afora. Vestida de brilho e flor. Mulher, a culpa que teu corpo carrega não é tua. Divide o fardo comigo dessa vez. Que eu quero fazer poesia pelo corpo. E afrontar as leis que o homem criou…” É de Caio Prado  – integrante do trio em questão – um dos refrões mais pertinentes para traduzir a homofobia e transfobia que mata diariamente. Atenha-se:

Pervetido, mal amado, menino malvado, muito cuidado! Má influência, péssima aparência, Menino indecente, viado. A placa de censura no meu rosto diz: não recomendado a sociedade. A tarja de conforto no meu corpo diz: não recomendado a sociedade.

Se Jaloo e Tássia Reis abrilhantaram o palco com o charme de suas músicas, e puderam contar com o carinho de fãs calorosos e conquistar novos admiradores, foi a qualidade artística de “As Bahias…” e a militância de Karol Conka  que “botaram pra fuder”. Raquel Virgínia e Assucena Assucena fizeram um show vigoroso aliando um repertório emotivo e arriscado – que marca o gosto das cantoras – e mesmo sem poder contar com a platéia lotada como a de Karol, se divertiram e brindaram aos presentes com um show potente e agradável.

A fama de antipática de Karol Conka cai por terra quando você a vê em cena. Suas letras de cunho feminista e libertário tem fãs histéricos e a cantora automaticamente é projetada simbolicamente a traduzir a voz de mulheres empoderadas que se sabem donas de si mesmas e que lutam por respeito e reconhecimento. “Não queremos ser melhores que os caras. Como algumas feministas equivocadas dizem. Queremos ser tratadas de forma igual“. Os fãs de Karol foram para a fila debaixo de chuva as 13h – os ingressos seriam distribuídos só as 18h – e surpreendeu a todos. Para o público que não conseguiu entrar – a capacidade era 400 pessoas – a produção disponibilizou um telão do lado de fora, que possibilitava acompanhar o show full time.

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A rapidez e eficiência da produção, aliada ao apoio da boate, em permitir que os shows acontecessem no espaço, respeitando a proibição de venda de bebida alcoólica – por exemplo –  e as filas que se formaram para ver as peças de teatro, foram o ponto alto do festival, mostrando que se o público tem pouca disponibilidade para se informar teoricamente (como nas ações formativas) e se arriscar a participar (como nas performances), eles estão atentos e afoitos por mais epifanias nos palcos da cidade.

Numa das ações formativas onde o tema era os privilégios que nos diferenciam. Compactuo com Helena Vieira que a palavra é problemática para nos conscientizar que todos deveriam ter DIREITOS iguais, independente da classe social, gênero, raça ou opção sexual. Mas fiz valer um dos meus privilégios ao dar meu convite para o show de Karol, para uma adolescente que em prantos lamentava não ter conseguido, mas mesmo assim, insistia na fila. Mesmo que a produção não tivesse permitido o meu acesso, eu teria ficado satisfeito. Com certeza aquela garotinha precisava mais do show do que eu.

Rodolfo Lima

 

*Observação

Nas fotos acima, de cima para baixo: Leonardo Vinicius Fabiano, Magô Tonhôn e Leonarda Glück

*Abaixo a programação geral

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