O som e a sílaba

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Você sabe qual a condição do cantor lírico no Brasil?” essa é uma das questões que vem a tona na montagem de “O som e a sílaba”, que parte de um pressuposto clássico: o encontro entre mentor e pupilo. No caso Sarah (Alessandra Maestrini) e Leonor (Mirna Rubim), a primeira uma jovem “diferente”, talentosa e sedenta de oportunidades e novidades, a segunda uma profissional famosa com um longo histórico emocional e artístico. É o embate entre essas singularidades – temperada com as questões sobre arte e vocação – a cereja do bolo da montagem.

Com texto e direção de Miguel Falabella, a montagem traz momentos delicados e sutis que fazem toda a diferença. Pois o público se encanta com Sarah/Alessandra e junto com ela vai vencendo a rigidez oferecida pela personagem de Leonor/Mirna. Digo isso, pois a realidade foi ficcionalizada no palco já que Mirna é professora de Alessandra, que estuda canto lírico desde a juventude.

O autismo (Síndrome de Asperger) de Sarah faz com que a realidade nos seja relatada por outros ângulos. A composição de Alessandra é bem delineada e causa empatia, e a experiência da atriz é um trunfo, pois, a vontade, a atriz brilha em cena. Mirna soa mais sisuda e automática nas marcações propostas peça direção. Porém, ambas são cantoras talentosas, e em cena  são verossímeis, cúmplice. Para quem não tem o hábito de frequentar óperas, a projeção vocal das artistas impressiona. O que levou a produção inserir um áudio da direção afirmando que as atrizes não dublam, cantam de verdade.

A dramaturgia é tocante ao tratar da doença da protagonista, revela com propriedade e clareza as questões que envolvem o diagnóstico. O mais bonito da montagem é envolver a questão clínica com as questões do universo artístico de um grande intérprete. Leonor quer que Sarah preencha os silêncios com as questões das personagens que canta, em especial, uma Julieta. Essa observação é a mais importante feita pela professora que ensina a importância do silêncio e as metáforas poderosa desse lugar assustador para alguns. É tocante e emblemática a visita de Sarah a uma feira de rua e a poesia que à na revelação desse momento.

Contidas, as piadas do texto, são digeridas entre momentos poéticos e dramáticos. Falabella, conhecido por diversas produções cômicas, enfatiza as habilidades de Sarah ressaltando suas qualidades como cantora lírica. A doença então é colocada em cena, como uma característica atípica da personagem e não como algo limitador e excludente. Dona de si, a personagem só quer uma oportunidade de poder dar vazão ao que considera importante. “Não estou pedindo que você me ame. Apenas que me estenda a mão“.

No final, sabemos que muitas pessoas precisam dessa “mão amiga” – uma mão lava a outra em muitos aspectos, bem sabemos – de alguém que acredite em nós e nos ajude a se estruturar. É essa simbologia a potencia da montagem, que do cenário (Zezinho Santos e Turíbio Santos) aos figurinos (Ligia Rocha e Marco Pacheco) esboça cuidado e bom gosto.

Sarah perdeu o pai, quando criança – “Triste lembrar de tantas músicas e não lembrar da risada do meu pai” – sempre foi vista pela mãe como estranha, mora com o irmão e a cunhada, que claro… vê nela um estorvo. É quando Sarah canta “On Mio Babbino Caro” que a emoção preenche o palco, e todos nós, assim como a personagem, precisamos ser perdoados.

Sarah aprende a organizar suas questões  – do seu modo, claro – e seu talento; Leonor se abre a aluna e é renovada com a sede de vida e talento da aluna; O público é agraciado com as questões sobre arte e vida. A entrega do artista e a forma como tudo se mistura de forma produtiva e ambígua.

Tudo em “O som a sílaba” é uma surpresa. Do equilíbrio entre momentos cômicos e dramáticos; o talento das artistas; a personalidade da autista que mescla estranheza com beleza; o teatro e a ópera mescladas de forma certeira e produtiva; além da emoção e a empatia que o público recebe.

Não percam a montagem. A peça oferece momentos de empatia importante nos dias de hoje. A alteridade, questionada por alguns, é celebrada de forma poderosa e tocante.

Rodolfo Lima

Obs: a peça segue em cartaz no teatro Porto Seguro até 26 de novembro

https://www.teatroportoseguro.com.br/programacao/pecas/o-som-e-a-silaba.html

 

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