Grazzi Ellas

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A causa trans (abreviação para as singularidades de travestis e transexuais) está com cadeira cativa nas artes cênicas (pensemos no palco de teatro, em festivais, mostras e silimares e etc, não em boates – por exemplo), lugar que sempre frequentou, porém sem tanto protagonismo. O jogo está virando. Se como objeto de cena e de estudos fomentou famigerados resultados, é quando elas se colocam na linha de frente e voltam os olhos para si mesmas que a teatralidade (o certo aqui seria performatividade, mas vou trabalhar com o primeiro conceito, pois me é mais familiar) se reveste de outras máscaras, bem complexas, convenhamos. Como se potencializando suas memórias pudessem fazer valer sua existência. Faz, é inevitável e bem vindo.

Infelizmente a realidade de travestis e transexuais no Brasil está colado com uma realidade vexatória, apartada, de exclusão e repúdio, ao mesmo tempo que causa atração (tudo pontuado com muita delicadeza e suavidade, quase sem querer) e curiosidade. É uma cultura nacional bizarra e tacanha, calcada na hipocrisia.

Se em Julho, durante a edição do PLURAL – Festival da Diversidade de Araçatuba, a cidade conheceu Renata Carvalho, protagonista de “O Evangelho Segundo Jesus – Rainha do Céu”, agora durante o FESTARA – Festival de Teatro de Araçatuba é a vez de Melissa Campus, da Cia. Divina Decadência. Mulher transexual, moradora de Londrina (PR), que sob a direção de Luan Almeida Sales (com orientação de Aguinaldo Moreira de Souza), protagoniza Grazzi Ellas.

A Grazzi em questão é uma das vítimas da transfobia – cegueira que extermina rotineiramente e coloca o Brasil no topo do ranking da intolerância. Os tempos são obscuros e de pouco diálogo, mas Melissa e Luan pretendem que a memória das que se foram não se apaguem. E é isso que Melissa faz, contar a história de muitas Grazzis, na própria pele.

Não é possível montar um espetáculo sem que se fale um pouco de sim mesmos, dos próprios horrores, fantasmas e desejos (Ariane Mnouchkine). É sobre os horrores que Melissa se debruça, e nos leva juntos. Num arrebatamento que nos choca pela crueza da situação. “Vida real, baby“, ela poderia dizer no final. Mas é educada e nos salva desse constrangimento. Cada qual que se vire com seus próprios pré-conceitos.

O trabalho é resultado da conclusão de gradução de Luan. A violência ao corpo trans e uma protagonista disposta a entrega é o que a direção tem nas mãos. O hibridismo entre entre teatro e performance contamina o resultado final e pode confundir a percepção do todo. Do ponto de vista teatral, a mise en scène é criado sem grandes aparatos ou novidades. Uma cadeira, velas, águas, flores, terra… o público ao redor. Cabe ao expectador conectar esses signos. Do ponto de vista da performance é quando vemos a carne de Melissa avermelhar que a ação se potencializa. O jogo proposto entre atriz e direção é aberto, o que possibilita rearranjos na hora da cena. Quantas camadas Melissa revelará hoje? Assim como “fazer pista” (se prostituir), ir para o centro da roda diante de uma platéia (oficial), também é um mergulho no escuro.

Talvez seja desonesto ignorar o “teatrinho” engraçado e leve que Melissa encena com alguém da platéia, que do ponto de vista da dramaturgia é uma ponta solta e sem muita conexão com o todo – não alcancei, confesso – mas que funciona para ganhar a atenção do público. Que diante da agressividade e da gravidade da situação da peça como um todo, nos emudece. Ver Melissa toda suja se debatendo pela sua vida é uma imagem inesquecível.

Diante do desnudamento da atriz – e não digo só físico, mas da necessidade, da coragem e da militância, a dramaturgia inicial desaparece. É frágil a primeira metade da peça, embora a presença de Melissa se imponha com propriedade em seu terrero-palco-rua-cova. O discurso entre 1° e 3° pessoa, pode confundir. Carecia de uma “limpeza”. Na “confusão”, a encenação perde força, pois tudo está no corpo alterado e vilipendiado que nos rouba a atenção.

Esse misto de boneca-Eva-Cicciolina-Melissa-Grazzi vai sendo destroçado a cada fio de cabelo que a atriz perde. E sim, é uma performance para se ver de perto. O olho no olho com a platéia é como um pedido de aceitação, não de desculpas, mas de permanência. Não no sentido católico e culposo e sim no que tange reconhecer o outro como ser humano, igual a si mesmo.

Nascida em 1976, Melissa já passou da média de mortalidade de outras como ela. Sobrevivente todos somos, mas são pessoas como ela que carrega o rótulo no peito. Melissa faz parte de uma “leva” de atrizes trans que estão ganhando força no cenário das artes cênicas, que conta com nomes (recentes, veja bem) como Renata Carvalho, Wallace Ruy, Leona Jhovs, Glamour Garcia (SP), Dandara Vital (RJ), Maite Schneider e Leonarda Glück (PR) e Verónika Valenttino (CE). Mas a história é sacal e invisibiliza. Leonarda e Maite tem uma longa trajetória no cenário curitibano, por exemplo. Assim como as ações de Melissa. Mas quem “aqui”sabe disso?

Grazzi Ellas é potente e honesto. A crueza da cena faz falta no cenário teatral onde tudo é imagem, poses e pretensões. É tocante a forma como as pessoas se disponibilizam a tocar a atriz no final. Lembrei-me na hora de sua irmã-jesus-Renata e do sentimento de solidariedade e compaixão que inunda o espaço cênico. Aquele momento que constatamos que a arte salva (só por hoje) e pode transformar.

#obrigatório

Rodolfo Lima

Crédito da foto: João TK

A peça integrou a programação do FESTARA 2017 (Festival de Teatro de Araçatuba), com apresentações dias 28 e 29/11 as 22h30.

 

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4 Respostas para “Grazzi Ellas

  1. Muito obrigada querido por cada segundo, cada palavra e pelos monentos maravilhosos juntos!!! Meu guardiao da Terra (desta noite magica) desejo que todas as forças do universo te abençoe querido. Nos tornamos um corpo só, que resiste para viver intensamente. ❤❤❤
    Aguardo nosso reencontro. Axéėė Evoėėé🌹🌹🌹🌹🌹

  2. mario sergio fragoso de almeida mario fragoso

    Cara, que foto… Preciso ver a Mel…

  3. mario sergio fragoso de almeida mario fragoso

    Mais uma coisa… o teatro sem saída…

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