A cena teatral em 2017 – meu momentos preferidos!!!

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Em 2017 vi 124 peças em 7 cidades do Brasil. Muito mais do que prezar pela qualidade técnica e inovação dos trabalhos o que me chamou a atenção quando fui olhar essa lista, foram os momentos emotivos que presenciei. Então essa lista é sobre isso, sobre aquele momento que a situação/o momento a ação/feito cênico transpõe nossas defesas e nosso senso crítico e nos emociona, nos fazendo mais humanos, por segundos.

Teve a exposição sobre Laura Cardoso, foi emocionante seus depoimentos em videos; Escrevo sobre peças e muito artistas ignoram meus textos, mas não foi o caso de Paulo Betti (Autobiografia Autorizada), que me enviou recado agradecendo minhas observações e reiterando que estava consciente do tempo excedente do trabalho e que iria reduzi-ló; Quando ousei criticar Sinthia, de Kiko Marques, ele também enviou  mensagem para reiterar que meu olhar  era inédito, já que ninguém havia lido o trabalho pelo recorte que enfatizei. Ou seja… artistas que reconheceram minhas palavras mesmo eu não estando no mainstream na crítica teatral.

Nada mais me emociona do que um ator dando o seu melhor… e foram eles: Caio Blat e toda a epopeia que foi Grandes Sertões: Veredas, um texto de fôlego a ser decorado por um ator corajoso; Lena Roque (Louca de amor, quase surtada) sobrevivendo no palco e dando seu texto, se investigando, achando outras possibilidades em cena, por puro amor, vocação. Mesmo que sem a trilha sonora preterida; Andréa Beltrão e sua Antígona, sua vivacidade, seu poder de retórica, seu talento; Bete Coelho recuperadíssima em As Criadas, poucos artistas vão do trágico para o dramático, com tanta facilidade. Vale ressaltar aqui a montagem de Eles não usam tênis naique, um trabalho tocante surgido num grupo localizado na favela da maré (RJ). Um hibrido de teatralidade, depoimento pessoal e crítica social. A garra do todo, suas questões individuais, seus dramas aparentemente irreversíveis. Um mistura poderosa e potente a modificar o olhar de que os ouve.

Outros momentos:

10) Pink Star

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Gostamos de close e uma boa dublagem. Quando a peça tem temática gay a expectativa é sempre esse momento. Pink Star do Satyros é sobre uma transexual e seus desencontros na vida. No seu casamento uma apresentação rouba todo o momento, pois é engraçada, bem feita e com uma versão incrível de Postmodern Jukebox para My Heart Will Go On. Foi daqueles momentos que esqueci que estava no teatro e quis ir para o palco dançar junto. #veadagememnivelmaxímo

09) O Jornal

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Na peça, tudo funciona, o que já é um feito. Atores, dramaturgia e direção, bem como elementos cênicos em harmonia. Temas delicados como a religião, família, o amor e a sexualidade vem a tona de forma imbricada e irreversível. O drama de Dembe e a relação com a irmã nos minutos finais de O Jornal – The Rolling Stone é delicado, triste e irreversível. Supor o drama de cada um deles e o embate dessas dores transposta na interpretação dos atores… poxa… #docaralho

08) Tom na Fazenda

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Tom na Fazenda pode ter muito méritos, embora tenha me causado estranhamento  – em comparação com a versão cinematográfica – e seja contra o tom “auto ajuda” do final. Mas uma coisa é certa, o clima homoerótico empregado na montagem é um primor. A peça consegue aliar drama, comicidade e erotismo com bom gosto e de forma certeira. #bapho

07) Black Off

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A gente demora para entender o tal lugar de privilégio. Creio que é uma luta diária de conscientização e observação. No meu caso… por ser branco, cisgênero, classe média, barbudo… e por ai vai. Portanto foi certeiro e importante ver Black Off performance da africana Ntando Cele, onde através de um humor ácido, do seu gestual e de sua rebeldia, pude presenciar um relato urgente, necessário e importante. Sobre racismo e negritude no universo artístico. #lacrô

06) Bicho

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Eduardo Speroni é daqueles artistas que na primeira olhada você não dá nada. Tipo mignon, cara de menino…. porém sua performance em Bicho é um espetáculo a parte. Vibrante, emocionante e bem executada. A dramaturgia ajuda a contar a história desse michê e suas comparações com a profissão de prostituto e de artista. É uma pena que os tais prêmios ignorem um trabalho OFF como esse, Eduardo merecia ser olhado com mais atenção. #arrazôbee

05) Grazzi Ellas

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Mel Campus é uma travesti bem atuante em Londrina. Sua performance para Grazzi Ellas já havia chegado aos meu ouvidos. Pude conferir o trabalho é e de aplaudir de pé sua entrega. Seja pelo desnudamento físico, como pela capacidade de expor na pele as questões que o texto aborda. Transfobia, medo, sonhos, agressão, saudade… ficção… tudo junto & misturado num trabalho que antes de tudo é um grito de alerta, uma possibilidade de trabalhar a empatia. Mel consegue… mesmo que saia do palco sangrando. #respeitemos

04) Entrevista com Stela do Patrocínio

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Não sou amigo pessoal de Georgette Fadel, mas sou fã. Foi ela que me abriu a primeira porta no universo do teatro, quando permitiu que eu ocupasse um horário num teatro público que coordenava com seu grupo, isso há uns 15 anos atrás. Não pude deixar de ir no último dia de Entrevista com Stella do Patrocínio. Acho um exagero ela ser acusada de black face, culpabilizada por dar voz e corpo a uma poeta negra, num projeto que não morreu, porque ela assumiu o lugar do amigo protagonista (negro) falecido logo após a estreia. Ver a artista se disponibilizando a conversar, permitindo que o público a interrompa e validando a ideia de que a peça era de todos e portanto ela não detinha nenhum poder ser a obra em si, foi FODA, literalmente. Um aula, um momento único. Aprendizado para a vida toda. #inesquecivel

03) 60!Década de Arromba

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Tua mãe te ensina a ouvir a Jovem Guarda, você cresce com essa referência, se apega em alguns artistas. Cria uma nostalgia, acha que algumas músicas traduz o seu universo sentimental. 60!Década de Arromba recupera esse lugar da inocência, “da mãe” no meu caso. Minha mãe ia nesses auditórios ver seus ídolos. Chorou por eles. E eis que quando Wanderleia, a estrela convidada do musical, surge no meio da platéia sozinha e sem proteção, a reação do público de devoção e espanto é emocionante. Você não sabe se olha para o público que reage ou a artista que se disponibiliza. O musical é bem interessante, com acertos, mas nada foi mais emocionante nesse trabalho, do que virar tiete e ver a cantora surge de forma icônica e poderosa, entre seus fãs. #momentomaravilhoso

02) 2 x 2=5: O Homem do Subsolo

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Fui aluno de Cacá Carvalho no primeiro semestre, e pude contar com a generosidade do seu olhar e de sua crítica certeira e pontual de forma impressionante. Cacá, dos atores conhecidos do mundo artístico, foi o primeiro que validou meu trabalho reconhecendo minha entrega, enfatizando que sou daqueles atores que parecem incorporados por uma entidade. Disse isso com muito respeito, me enxergando como um igual. Uma pena que não gravei minha cena final + sua avaliação, como queria rever e aprender mais e mais com suas observações. Como aluno foi chamado para interagir com ele em cena em seu  2 x 2=5: O Homem do Subsolo. Pensa: Teatro Faap, um ator como Cacá Carvalho e “nóis ali” na deixa para entrar em cena e não foder com a peça do coleguinha. Ahhhh…. que delicia de oportunidade. Que experiência incrível. #gratocacágrato por tudo.

01) A noite em claro (Rio Diversidade)

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Com texto de Joaquim Vicente e direção de Cesar Vicente, Thadeu Matos deu corpo e voz para um michê assassino na peça Rio Diversidade. Seria mais um em cena. Mais um prostituto, mais um corpo nu, mais um ator bonitão, mais uma bicha velha enfatizada. Se não fosse o poder para juntar todas essas questões numa cena certeira e pungente, tudo seria diferente. Ao ir desnudando seu ator o texto de Vicente nós encurrala numa armadilha. Somos arrebatados com a pungência do discurso que poderia vitimar qualquer um de nós, homossexuais, sedentos por sexo e um corpo heterotizado. E o que a nudez propõe ali é um ganho impar na cena, pois ela não é ilustrativa. É a condutora da ação, potencializando a narrativa. O que aprendi ali, e o impacto que senti… ao me ver vítima e testemunha daquele desejo escancarado é o tipo de momento irreversível. Como ser diferente depois que o teatro te transforma?

Rodolfo Lima

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