Se meu apartamento falasse…

1LeoAversa

Existem peças que são produzidas com números ostentosos, porém não funcionam na prática. No boca a boca a nova direção da Charles Möeller & Claudio Botelho, estreou no Rio de Janeiro no final do ano passado e de cara deixou muita gente desgostosa. Em São Paulo aparentemente não foi diferente, fui conferir o que havia acontecido com os “papas” do teatro musical no Brasil. Apesar da casa relativamente ocupada numa quinta feira, os aplausos no final foram mornos e poucas risadas se ouve. Observação: a peça é uma comédia.

A trama é simples, e nem por isso desinteressante. Chuck (Marcelo Medici) é um funcionário mediano, que leva sua pacata vida de casa para o escritório e sonha em uma promoção no trabalho e com uma das funcionárias do restaurante onde almoça,  Fran (Malu Rodrigues). Mas na sede da companhia de seguros, a maioria dos homens supostamente tem uma amante, e um deles, tem a “brilhante” ideia de pedir emprestado a chave do apartamento de Chuck, que mora a 50 metros do escritório. Chuck que é meio um bobão sentimentaloide, aceita. A noticia se espalha e rapidamente outros funcionários também usam a casa do colega de motel. Em troca, eles elogiam Chuck ao chefe, que fica sonhando com a tal promoção. Os números musicais com os quatro amigos, além das letras desinteressantes, soa non sense. Não havia motel em Nova York em 1960?

É uma comédia de costumes, e muitas deles se baseia na ingenuidade dos personagens e na forma pueril, lúdica e engraçada que os acontecimentos se desenrolam. Mas em Se meu apartamento falasse… muitos momentos soam “forçados” e as letras das canções de Hal David, adaptadas por Claudio Botelho não tem a menor graça. Levando-se em consideração que Marcelo Medici não é um cantor de musicais… a coisa “piora” com o desenrolar da trama. A impressão que se tem, é que música mesmo, se ouve quando são as executadas por Fran:  I’ll Never fall in love again, uma belezura que não foi traduzida, mas mesmo assim comunica e I Say a little prayer for you, adaptada ao português sem perder o encanto que a canção oferta. Mesmo que a coreografia seja praticamente inexistente – não sei o que Alonso Barros, fez dessa vez, porque é a movimentação de forma geral é pobre – o momento é adorável, o melhor da peça.

Fran é amante de Sheldrake (Marcos Pasquim), o chefe da empresa. Assim como todas as outras mulheres, Fran é a típica mulher usada e apaixonada. E os homens garanhões dispostos a sanar o tesão alheio e só. Há um pouco de crítica no texto de Neil Simon, na boca de Fran, mas é pouco, bem pouco. Resultado, os machistas riem… os que tem um mínimo de noção, não. Fran também é o sonho de consumo de Chuck que longe de sonhar em usá-la, aparenta acalentar por ela sentimentos genuínos.

A peça é encabeçada por quatro atores conhecidos, Medici, Marcos Pasquim, Maria Clara Gueiros e Malu Rodrigues, embora seja Medici que conduza toda a trama. A peça de forma geral é apática e arrastada em vários momentos, seja cantados ou falados. Não pude conferir o trabalho de Maria Clara, pois no dia em que fui assistir, ela não fez. O texto de Marge (sua personagem) é direto, curto e engraçado. Chuck e Marge se encontram bêbados num bar é uma paquera atrapalhada com pitadas de ironia e sacanagem é uma delicia de escutar e destoa do todo. Digo isso, porque o trecho é melhor que a peça toda. Sem a famosa comediante, a cena fica descaracterizada, pois a stand in provavelmente imita a composição alheia, o que nem sempre resulta positivamente. O que para mim foi uma frustração, já que ansiava por esse momento, da cena com Maria. Nesse mesmo dia, Fran também não foi interpretada por Malu Rodrigues. Duas baixas no elenco, sem aviso prévio.

A crítica escrita por Dirceu Alves Jr. na Revista Veja ressalta sobre o trabalho de Medici: “Como é bonito ver um artista entregar ao público algo diferente do esperado. (…) Sem forçar a graça…“. Acho completamente o contrário. Medici está repetitivo, se apoiando em trejeitos antigos e cacoetes que ele sabe que funciona e reutiliza. Que ele é um ator talentoso, versátil, interessante e carismático, ninguém questiona. Mas em dado momento Medici parece fazer colsplay do ator Marco Nanini, e é impossível não lembra de “O mistério de Irma Vap“, que ambos interpretaram. Ou seja, vemos o ator forçando a barra para arrancar gargalhadas do público. Medici poderia ter composto seu personagem de forma mais singela e tocante, quem disse que ele tinha que ser um “trapalhão” em cena? Ou seja… quem acompanha a carreira do ator, não é convencido da composição do seu personagem, o que é uma pena.

O clima agridoce da montagem não é o problema, mesmo que o visual não atraia, as coreografias sejam simples e os números musicais não empolguem, tudo seria mais ou menos balizado se nos deparássemos com uma boa composição dos personagens, que ofertasse nuances, ousadias e sutilezas. Mas tudo é pueril e déjà vu.  É como se nos deparássemos com uma montagem que pretende alçar grandes voos mas não consegue se manter muito tempo no ar.

Rodolfo Lima

(Foto: Leo Aversa)

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