Certos Rapazes

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O Teatro Augusta está se tornando um local rotineiro de produções de peças com conteúdo gay. A peça da vez é Certos Rapazes – nosso amor a gente inventa que chega a São Paulo com a chancela de ser o melhor espetáculo gay de MG por voto popular. Na página http://www.facebook.com/onossoamoragenteinventa2017/ é divulgado que a peça também foi indicada a prêmios como  melhor qualidade artística e melhor trilha sonora e efeitos. Além da indicação ao Prêmio CENYM de 2017 de teatro nacional na categoria melhor texto original.

Na peça Pedro Henrique (Rafael Braga) e Guilherme (Hugo Caramello) se encontram num site de aplicativos de celular, um “kit puta”. Hornet, Grindr, Scruff e Tinder, são algumas opções para os desejos masculinos vazarem, por vezes na surdina. Afinal, é de praxe que essa opção oferta encontros escusos e efêmeros. Características como essas são levemente citadas com o tom cômico acentuado no inicio. O que torna tudo superficial. Já que não há opções para adensar nas questões de tais encontros. Portanto, os clichês são reforçados para arrancar riso e cativar a platéia, sem o menor pudor de parecerem fúteis.

É realmente difícil montar uma peça gay e não fugir dos clichês. É sempre curioso ver como a montagem vai lidar com questões caras ao universo homoerótico, como nudez, relacionamento entre eles e a postura e retratação de tais singularidades. Guilherme é bem resolvido, bem sucedido, magro, mora na região central de SP e não tem medo de dar pinta, afinal, “seu armário” explodiu. Pedro é morador de Itaquera, trabalha com telemarketing, não tem trejeitos de gays e está no armário, uma família religiosa o impede de ser livre. A união dessas singularidades é o mote da peça.

A direção de Maurício Canguçu é limpa e objetiva, privilegia o jogo entre os atores e impõe ritmo na peça, sem abrir mão de sutilezas para reforçar o tom romântico da história. Isso não impediu da peça de se furtar de clichês, totalmente desnecessários, como a música da Maria Bethânia no final – sim, isso é spoiler. Beyoncé e Britney Spears é aceitável, a cantora nacional, é um erro apelativo e desnecessário. Tiago Iorc um reforço pro novelão.  A forma como os autores Júnior de Sousa e Luís Villefort arrematam o final, já dá conta de garantir a emoção do público.

Sousa e Villefort construem um texto direto e sem firulas, ressaltando o cotidiano do casal e mesmo que as coisas pareçam acontecer rápido demais e o conflitos de Guilherme soarem, por vezes, incoerente, a empatia acontece. Um texto sem o menor acabamento estético ser indicado a um prêmio de melhor texto, é uma curiosidade, mas, se pensarmos em peças de conteúdo gay, há em Certos rapazes… um adendo interessante para o climax da peça. O trabalho é honesto, força para ser engraçado e conta com a simpatia do público – o talo boca a boca.

Há sintonia entre Hugo e Rafael, e mesmo que não exista cenas ardentes, é possível identificar um carinho entre os personagens e isso é bom, pois preserva a energia necessária para que acreditemos no casal. Rafael se sai melhor. O namorado ciumento, heteronormativo e desprovido de oportunidades que torna sua figura mais vulnerável, é crível. Cabe ao Hugo oscilar entre o drama e a comédia, e se ele não dá conta do primeiro, também não funciona na segunda opção. Sua bicha afetada e forçada e sua porção sentimental over. Em Amor e Restos Humanos, montagem de Jean Mendonça, o ator passava mais credibilidade. O curioso é que mesmo com oscilações na sua composição de personagens, ele cativa. O povo reage aos seus comentários, dialoga com ele. E isso é um ganho.

A qualidade artística do trabalho eu diria que está nesse jogo entre os atores, na possibilidade deles de suscitarem empatia, independente da composição física do corpo, que claro, é esteticamente bem acabado e desejado, por boa parte do público gay.

Certos Rapazes diverte, é despretensioso e pode te emocionar, sem o menor pudor de parecer piegas. Isso não é um problema, é só uma observação. Programa para se distrair e deixar o senso crítico do lado de fora. Na platéia, atrás de mim, ouço o seguinte comentário “Quem dera se isso fosse verdade. Não existe“. Uma questão: o que será de nós se não pudermos contar com a possibilidade de sonhar no teatro?

Rodolfo Lima

Obs: a peça segue em cartaz no Teatro Augusta, as quartas e quintas (21h) até 26 de abril.

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