Um jeito de corpo

A apresentação do Balé da Cidade de São Paulo

Caetano Veloso é praticamente uma unanimidade. É a aposta da próxima Virada Cultura, que ocorre nos dias 19 e 20 de maio, para parar a avenida consolação, ao acompanhar o carnaval fora de hora provavelmente proposto pelo bloco Tarado ni Você, que é conhecido por arrastar multidões apenas com canções de Caetano. Ou seja, ídolo e fãs se encontraram em cima e em baixo do trio. O que o Balé da Cidade de São Paulo, com a estreia de “Um jeito de corpo” propõe, é fugir da obviedade ao se pensar no artista natural de Santo Amaro da Purificação, Bahia. O resultado é instigante, conceitual e incomoda.

Um acerto da direção de Morena Nascimento, que integra a Pina Bausch Tanztheater Wuppertal e não a toa presta uma singela homenagem a sua mestra. O que Morena fez foi direcionar os bailarinos a lugares incomum da obra de Caetano, anulando de certa forma, toda a folclorização que há em sua obra, mas sem abrir mão do político e do poético – presentes por exemplo nos figurinos coloridos de Isadora Gallas e na direção musical de Cacá Machado.
O risco é sempre bem vindo, assim como a tentativa da fuga da obviedade. Morena não teme e de certa forma abre espaço para as singularidades dos artistas em cena, ou seja… se todos perfazem o “guarda-chuva” do rótulo “neguinho”, que toma a sala na voz de Gal Costa, que todos esses indivíduos ganhem representatividade. O que afinal define a vida de neguinho? Seu olhar – na miríade de opções que existem em cima do palco – pode recair nos bailarinos com signos do vestuário feminino, que automaticamente nos remete a quebra de paradigmas em relação aos gêneros, propondo então um olhar mais plural e livre para o ser humano. Caetano também o faz, e nesse sentido a obra esta em concordância com quem o inspirou.
Se os caminhos escolhidos pela direção são tortuosos e dividiu a opinião do público, o que dizer de sua versão para “Sampa”, uma das mais importantes canções do compositor, trazida a cena de forma sombria e desglamourizada. A Sampa do Balé está mais ligada a violência, hostilidade, tensão e solidão que você encontra entre os passantes em qualquer noite paulistana. É uma versão necessária e atual e revela que os artistas estão conectados com seu tempo. Sai a glamourização – e gourmetização – em torno de Caetano e entra um olhar cru e apático.
A metáfora da palavra neguinho, ganha destaque também na sua versão feminina, “Eu sou neguinha”. Outra possibilidade de reinterpretação da obra do artista que ganha destaque na montagem, ao colocar em cena um bailarina branca – e não a bailarina negra da companhia – a rebolar com vontade seu quadril para deleite do público. Há referências do funk, da objetificação da mulher, do medo da sexualidade feminina e sim o questionamento do tom de pele, do tal lugar de fala e as apropriações culturais. Tudo junto misturado se tornando uma potente arma intertextual, para sugerir que enquanto o mundo está se acabando no terreno ao lado, para alguns a preocupação pode ser o que cada está fazendo com o próprio rabo. Eu era o enigma, a interrogação. #bingo
A montagem que comemora os 50 anos da existência da companhia de dança, se apresenta de forma ostentosa e com coreografias menos acabadas. Isso causa estranhamento, pois em vez da fluência e graça dos gestos e dos corpos, existe ruptura. As ideias, e os corpos, aparecem fraturados, criando uma oposição a outras companhias imbuídas em corpos dançantes e obsessivamente marcados. Os cerca de 30 bailarinos em cena, em muitos momentos são alegorias que reiteram que qualquer corpo pode ser dançante. E se a preocupação de Morena navegou por ai, não há demérito nessa desconstrução do mito do bailarino. “Um jeito de corpo” se torna de todos, independente de.
Creio que a possibilidade de deslocamento da bagagem que o público tem do cantor é o achado da montagem. É como se a obra então nos atravessasse pelo estranhamento e não necessariamente pelo prazer da estética, como é de praxe em obra de grandes companhias de dança. Reitera clichês, reforça estereótipos e de certa forma nos apresenta uma visão emblemática e problemática do brasileiro. Para mim a crítica está justamente nesse lugar de evidenciar o lugar comum, potencializado com o olhar incomum para a obra de Caetano Veloso.
“Me diz que sou ridículo/ Nos teus olhos sou mau visto/ Diz até tenho má indole/ Mas no fundo tu me achas bonito lindo/ Lindo Ile Aiyê/ Negro sempre é vilão/Até meu bem/ Provar que não, que não”.
Que outra obra do Caetano é revista pelo viés da negritude? Morena oferece esse fragmento de leitura e não apenas com a inserção de “Neguinho” e “Eu sou neguinha”. A inclusão de “Ilê de luz” numa poderosa inversão na negritude oprimindo a branquitude, amplia as leituras para a obra do cantor, que declarou que Morena trouxe a cena músicas que nem ele lembrava mais, como é o caso de “Vento”, na voz de Gal Costa. Outro temas inflamados que supostamente aparecem em cena seria a homofobia, o assédio sexual as mulheres e claro, resquícios de um estado opressor e ditatorial. O corpo, independente do gênero e da orientação sexual permanece uma potente bomba relógio.
“Um jeito de corpo” portanto se torna inquietante e foge do óbvio pois instiga a platéia a rever, e reler, a obra do músico de forma não linear. O suposto tom publicitário que tem na chamada ao anunciar que a companhia dança as músicas do cantor, caem por terra quando nos deparamos com a obra proposta por Morena. Reféns na cadeira, do misto de magnetismo e estranhamento que o trabalho causa, o público pode escolher trilhar ou rejeitar o tortuoso caminho que essa obra sugere. Questões reinventadas para traduzir o caos de nossos desencontros pessoais e sociais.
É para ser visto e revisto sem preguiça.
Rodolfo Lima
Foto: Bruna Guerra (#glamurama)

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