Quarto Camarim

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O universo de travestis, transexuais e transgenêros sempre foi um nicho produtivo. Há tempos é explorado em diversos campos das artes e recentemente o Movimento Nacional de Artistas Trans – MONART, veio a tona requerer o direito de contar suas próprias histórias, ter empregabilidade, chance de mostrarem o que sabem fazer e/ou ser remunerados a contento. Camele Queiroz diretora de Quarto Camarim (2017), junto com Fabricio Ramos esboça logo nos primeiros minutos do filme, estar ciente dessa carência. De porte de uma verba ganha em um edital (Rumos Itaú Cultural), quer que parte do dinheiro vá para sua tia Luma Kalil, famigerada personagem de sua imaginação, que ficou anos no limbo das referências emocionais e que a diretora decide resgatar. O que sairá dali, é o que o filme revela, de forma não linear e atípica.

Com estimulo similar as cineastas Petra Costa (Elena) e Tatiana Issa (Dzi Croquettes) que filmaram para revistar seu passado, Camele segue caminhos tortuosos. Em vez de investigar o objeto em si, se coloca na linha de frente e se mistura com seu alvo. Não é um filme sobre a tia, e sim sobre ela ao se deparar com a tia. Numa das cenas mais emblemáticas e duras do filme – aqui vale um spoiler, para validar minhas colocações – ela revela que quando ouviu a tia dizer que lembrava dela pequena a espia-lá no seu quarto, que na cabeça da diretora criança, parecia um camarim, ouve como resposta da sobrinha, que sua colocação reverberou de forma oca dentro dela, já que ela não fazia a menor ideia do que iria acontecer quando se deparasse com a tia. Se o afeto ia surgir ou se a curiosidade na tia era interesse apenas criativo.

Os motivos que perfazem a trajetória de Luma. Suas escolhas pessoais, a hostilidade de parte da família e da sociedade, a falta de recursos para sobreviver, a saudade de amigas e tempos de glória, a forma de sobreviver, o glamour e o fetiche que supostamente está presente no universo de travestis e artistas da noite e o esforço para se manter com certa passabilidade no universo feminino, está no filme de forma simbólica e sem ser panfletária. Ao fugir dos clichês narrativos para vitimizar sua parente, Camele pôde então oferecer uma possibilidade poética de rever dilemas tão delicados, quanto ter um parente não heteronormativo, excluído e distante da família, sem politicagens oportunistas. É o maior acerto da direção.

Curiosamente coube a Camele a crueldade de deixar de lado suas questões pessoais e os desejos da tia, para dar um corte ao filme que revelasse mais delas do que puderam aceitar ver e ouvir. A cena em que Luma se emociona ao passar a mão no cabelo da sobrinha é a prova do quanto o resgate familiar é pedra fundamental para alicerçar a auto estima de outras Lumas. Em momentos como esse a realidade pesa, é proposital.

No bate papo após a sessão realizada nesta segunda feira (30/04/2018) no CineSesc, a diretora foi questionada pelo fato de ter se ausentado de comentar os motivos que levaram a tia a chegar onde chegou, bem como de expor a opinião de familiares sobre a cabeleireira que ganha a vida numa cidade fria e hostil como São Paulo. Não precisava, com atenção percebesse que todas as questões problemáticas que abastam Luma e suas amigas da família, está na tela, mas de uma forma que exige do público uma interpretação, não está gratuita.  Para citar um exemplo, ao ouvir um dos irmãos de Luma – possivelmente o pai da diretora – o relato dele exalta a facilidade que seria se Luma morresse logo e não causasse mais problemas emocionais aos que se importam com ela. A crítica da direção é velada, pois ao colocar uma música que abafa a fala do depoente, o cala, calando assim toda a transfobia que por ventura ele carrega.

Por essa sutilezas Quarto Camarim é um achado. Por subverter o lugar comum da narrativa. “Sujar” a tela com áudios vazados, imagens escuras, fora de foco, na tentativa de captar o real, o indizível. É o cinema tentando apreender o real. Como se isso fosse possível. A diferença aqui é que em alguns momentos parece conseguir.

A cena que Luma performa “Forever”, de Mariah Carey, é de uma crueza altamente significativa. Existe ali, algumas questões que o filme sustenta: uma magia artística fraturada pelos percalços da vida; a sobrinha tentando acessar sua memória emotiva e assim ganhar a parente de volta, quem sabe uma amiga; simbologias.

O filme ainda não foi lançado oficialmente, mas é daqueles que ficará restrito ao circuito B, a mercê dos ousados que adentrem a sala. Muito por conta da temática, o recorte estético, quiça por Luma Kalil. Quarto Camarim tem que ser visto pois desloca nossa compreensão e refaz nossa sensibilidade para as questões de travestis, transexuais e transgêneros. Oferece uma possibilidade impar de rever as próprias memórias, sem qualquer melindre de falhar. Em muitos momentos o filme é sobre isso, nossas carências cotidianas.

É um filme duro, seco, sensível. Camele não conseguiu que a tia fosse a nenhuma sessão de cinema. Talvez fosse realidade de mais para Luma, que ainda carece de um momento glorioso e espetacularizado, como ansiou ver no filme e se frustrou.

São escolhas. Entende-se a sobrinha, entende-se a tia. Saímos do cinema mais ricos com essa possibilidade de se deparar com a realidade. E curiosos para se deparar com Luma kalil por ai, com seu secador e o desejo de vencer. Um dia, sem querer.

Rodolfo Lima

http://www.quartocamarim.com.br

 

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