Bibi – uma vida em musical

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O oficio da profissão de ator ganhou talvez seu melhor representante cênico, com o musical “Bibi – uma vida em musical”. Em cenas dois ícones da história do teatro brasileiro: Procópio Ferreira e Bibi Ferreira, pai e filha, que praticamente ajudaram a escrever o teatro nacional no século XX. Bibi não é popular fora dos palcos teatrais, não fez carreira na TV, novelas, não estrelou grandes filmes. É literalmente do século passado. E mesmo que a cena traga muitas divas, o posto de maior atriz paulista ainda parece recair sobre Cacilda Becker. Digo isso não como demérito, mas para reiterar que nomeações de declarações inflamadas como essa, ajudam a criar mitos. Bibi Ferreira é uma dessas artistas difícil de ser apreendida em sua totalidade, dado suas diversas qualidades, afinal… ainda menina, a mãe a “obrigou” a tocar piano, falar outras línguas, a fazer aulas de canto. Ela não foi só a filha de um dos maiores atores do país, foi educada para.

O que chama atenção na dramaturgia de Arthur Xexéo e Luanna Guimarães é o destaque que o texto deu a personalidade aguerrida de Bibi, que não se lembra mais de como é sua vida fora dos palcos. Que tem no camarim, um lugar sagrado e que se conecta com Deus quando entra em cena, na comunhão com o seu público. Essa mitificação da atriz funciona e emociona. Muito pelo talento de Amanda Acosta que monopoliza toda a atenção quando está em cena.

A peça é narrada por três personagens: uma cigana, o apresentador de um circo e a avó da atriz, a única da família que não trabalhou com artes, mas via tudo. Sua dedicação está estampada na sua saia repleta de tickets. A opção de transformar tudo num grande evento circense funciona na maioria das vezes, embora sejam os momentos mais simples e/ou minimalista que alcance com mais veemência seu objetivo, que é nos aproximar de Bibi. Atriz de personalidade forte e temperamento complexo, dedicou sua vida ao teatro e “sacrificou” seus casamentos em função da arte. A semelhança com Hebe Camargo, que também teve que se impor para sobreviver na profissão, em prol de relacionamentos machistas, é inevitável. Ou seja… Bibi Ferreira também militou em prol da liberdade feminina, defendendo-se com a própria vida. “Eu sempre vou escolher o teatro”, afirma Bibi.

A peça não apresenta o lado B da atriz, não mostra suas contradições, falhas, erros ou arrependimentos, foi montada para agradar, entreter e emocionar. Atinge seu objetivo, e leva ao pé da letra o desejo maior de Bibi que se recusava a passar seus dias chorando lamúrias em cena. Mesmo que a peça ressalte que “nunca houve um final feliz na vida de Bibi“. Como bem reitera a peça, ao revelar sua recusa a interpretar Edith Piaf, que se tornou um clássico da atriz, fazendo com que a mesma permanecesse 8 anos em cartaz. Outras peças clássicas do seu repertório estão lá, como: “O homem de la mancha”, “Alô Dolly”, “My fair lady” e claro “Gota d’água”.

Cacilda Becker, Maria Della Costa e Henriette Morineau são lembradas, ao revelar que todas integraram a primeira companhia de teatro de Bibi, que ao ser mandada embora da companhia do pai, teve que andar com as próprias pernas. A peça aponta problemas entre Bibi e Cacilda, mas não se aprofunda e delicadamente aponta uma rixa entre ela e Tonia Carrero ao disputarem um papel. A dramaturgia presta uma delicada homenagem a Tonia, ao evidenciar que a mesma sempre será lembrada como uma das maiores estrelas nacionaise a frase mítica de Cacilda “não me peça de graça a única coisa que eu tenho para vender“. São delicadezas como essa que inflama o público e o impulsiona a reagir.

Outro feito da dramaturgia foi evidenciar as colocações de Procópio Ferreira, que sonhava com a regulamentação da profissão de ator, numa época onde seu oficio não tinha valia diante dos direitos trabalhistas. Sua fala soa como um deboche entristecido e atual já que vivemos uma época cheia de retrocessos, onde corre-se o risco de ver a profissão desregulamentarizada.

A dicotomia teatro e vida na relação de Bibi e Procópio também é utilizado de forma efetiva. O pai quer preservar o ponto (recurso onde uma pessoa escondida dita o texto), Bibi defende que o mínimo que o artista deve fazer é decorar o texto; Ela também se preocupava em fazer teatro as 17h, pois o público tinha uma opção para vencer a dificuldade do transporte público; Se na rotina do pai, poderia haver facilitadores, para Bibi: a arte de representar é a arte do sacrifico.

Não é um trabalho que escapa dos clichês, como se revela nas “bichas” em cena, reiterando a fauna de tipos no universo teatral e mesmo na imitação de sotaque, como é o casos dos gaúchos que, quase sempre é garantia de riso. Possíveis “barrigas” (momentos de marasmos na montagem) em cena também é bem visível, mas sobre elas a própria atriz vai explicar a importância de sua existência. É uma autocrítica, embora parece quase uma coincidência – levando em consideração que é difícil alguma direção colocar passagens de cenas desnecessárias. Mas as que servem apenas para que o elenco principal troquem – de roupa, por exemplo – existem.

Outro bom momento da montagem é a que cita a função dos críticos e a possível reverberação negativa propagada por eles. Bibi diz: “A crítica é fácil para quem não vai viver dela“. Foi se o tempo que o crítico tinha esse “poder” desmedido de mediar o sucesso de um trabalho. É da boca de Procópio uma possível consequência disso: um teatro vazio parece que a vida foi ontem.

Bibi, assim como Marco Nanini que perdeu tudo com o fogo que destruiu o Teatro Cultura Artística, perdeu toda sua produção uma vez. Assim como qualquer mulher foi traída diversas vezes. Como todos nós, tem uma “família” atípica e sutilmente e carinhosamente a apelidou de “A Casa de Bernarda Alba”, clássico de Federico Garcia Lorca. Amou o pai, mesmo na ausência, amou a mãe, mesmo com a severidade da educação. Não se deixou abater por censores, pela morte do pai ou mesmo a morte do dramaturgo Paulo Pontes, seu derradeiro amor e que merece uma atenção especial na peça e nesse texto.

Vintes anos mais jovem que Bibi, Paulo, então um promissor dramaturgo se envolve com a atriz que já era uma artista reconhecida. Bibi cede e a química artística e física entre eles incendeiam o palco de forma poética, sentimental e dramática, mas sem parecer piegas ou chorosa. É um ganho. Ele alimentou a atriz artisticamente. Aparece como um dos personagem principais de toda sua trajetória. Vitimado por um câncer aos 36 anos, Paulo morreu ao lado de Bibi, como havia prometido, numa das diversas vezes em que se separaram e voltaram. A passionalidade das paixões preencheu a vida da atriz de forma irreversível. Não havia como ela escapar de Piaf, convenhamos.

A relação de Bibi e Paulo está no inicio do segundo ato. É de longe o melhor momento da montagem. Pois tudo é simples e delicado, calcado no trabalho de Amanda Acosta e Guilherme Logullo, que dão vida ao casal entre passos de dança, canções e brigas. Quando entoa os versos de “Bem querer” de Chico Buarque, a platéia é tomada de emoção. Pois em cena se vê uma atriz diante da derradeira derrota para a morte, mas representando/atuando de forma aguerrida e imponente diante de seu algoz, como sempre se mostrou ser. As três cenas entre Paulo e Bibi, quando se conhecem, a briga no camarim e a morte de Paulo, são inesquecíveis.

Independente da qualidade do elenco, e da direção eficiente de Tadeu Aguiar, não posso me furtar de evidenciar a qualidade artística de Amanda Acosta. A atriz de porte franzino e jovial, ganha força e grandeza ao arrebatar o público quando personifica Bibi, seja em trejeitos ou no canto. Amanda como Bibi pleiteia uma vaga no seleto elenco de atrizes estrelares da história do teatro nacional. É merecido. Não à como ficar indiferente a sua presença e seu talento. É um grande momento para a atriz.

Bibi Ferreira fará 96 anos dia 01 de junho. Não está mais atuando. Mas simbolicamente está muito bem representada. É uma grande oportunidade de “vê-la”. Ciente de que existem artistas que não podemos deixar de ver, assisti em 2007 “As Favas com os escrúpulos”, que Bibi interpretou ao lado de Juca de Oliveira e Adriane Galisteu. E assim como aconteceu com Marília Pera e Paulo Autran, sua vivacidade, dicção e postura em cena me chamaram a atenção.

Bibi é uma lenda, talvez Amanda talvez se torne. Não perca a junção delas.

Rodolfo Lima

Obs: a peça está em cartaz de 5° a domingo, até 17 de junho no Teatro Bradesco.

http://www.teatrobradesco.com.br/programacao.php?id=877_BIBI+-+UMA+VIDA+EM+MUSICAL

 

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