Eu sei exatamente como você se sente

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É quando você ouve o choro do público invadindo a encenação que você tem certeza de que o problema exposto em cena comunica e agride. Ou seja, permanecemos tendo um problema, geralmente aquele que a peça cutuca. No caso de “Eu sei exatamente como você se sente”, novo trabalho do Núcleo Experimental, liderado por Zé Henrique de Paula, o tema é a aceitação da homossexualidade, suas questões, tabus e consequências de uma vida que foge dos padrões heteronormativos e consequentemente tem especificidades singulares que permanece assustando a maioria.

O tema e as questões não são novidade para o diretor e “sua turma”. É do Núcleo trabalhos emblemáticos como “Lembro todo dia de você” e “Ou você poderia me beijar”, que trouxeram a cena, questões como a solidão, o envelhecimento, problemas da juventude e a soropositividade. Temas estes presente no texto do inglês Neil Bartlett. Dessa vez são cinco textos, divididos entre quatro atores encaixotados. Uma analogia ao “estar no armário”, local esse que supostamente manter o homossexual protegido das mazelas do preconceito e da hostilidade. Numa sociedade que permanece lidando mal com a diversidade sexual, ser rechaçado é uma rotina para os gays.

“Onde está o amor?”, “É para isso que servem os amigos”, “O que você vai fazer?”, “Improvável” e “O meu amor é forte assim”, é compartilhado por Fabio Redkowicz, Paulo Olyva, Pedro Silveira e Zé Henrique, acompanhados dos músicos Rafa Miranda e Felipe Parisi. Zé assina a direção, com o apoio de Inês Aranha, o resultado é desafiador e questionável.

A proposta minimalista funciona. Monólogos intercalados, interpretações comedidas, trilha ao vivo cadenciando o clima dramático e obviamente potencializando o tom melodramático. O público é questionado sobre sua postura diante da violência e sobre qual atitude tomar diante do preconceito latente. Passado um início estimulante onde humor, deboche e despretensão é “jogado” para o público, o que é compartilhado depois são silêncios e sofrimentos. Um risco.

Numa época onde se procura “pintar” uma postura mais positiva das questões que assustam os homossexuais – “Lembro todo dia de você”, é o exemplo do grupo – a encenação vai no caminho ao contrário e não teme parece sofrida demais e portanto redundante com a cartilha do politicamente correto. O principal obstáculo é o texto e a condução dos atores por eles.

Fabio e Pedro são dois opostos que se complementam e revelam possíveis buracos nas escolhas interpretativas. Se Pedro é levemente afetado e consegue dominar a narrativa de forma atraente e produtiva, Fabio é naturalista e sua composição é quase imperceptível. Sua naturalidade ao abordar “É para isso que serve os amigos” é tocante e eficiente. Sem mimimi ou autopidedade o ator alterna uma leve ironia ao drama que seu personagem ostenta. Seu momento é tão emblemático e tocante na encenação, que após seu “grand finale”, a peça patina e a direção oscila, não se sabe se afunda no drama, ou se relativiza tudo, tornando a realidade daqueles personagens mais leves.

É um problema na proposta de encenação, ou uma armadilha na ordem dos textos, que inevitavelmente compromete o todo. O texto de Zé Henrique, sobre um homem mais velho diante da possibilidade de uma paquera com um homem mais jovem, é belo e difícil. Requer que o público construa de forma imagética a dura realidade daquele homem que se vê completamente deslocado, apartado de amor, companhia, quiça qualidades que o faça ser paquerado na rua. Zé não imprime naturalidade como Fábio e nem tem a fresca afetação de Pedro. Sua composição se aproxima da de Paulo e ambos carecem de mais verossimilhança, para que o público não se perca durante e se afaste da narrativa durante seus solos.

“Eu sei exatamente como você se sente” é mais arriscado que os outros trabalhos de conteúdo gay do Núcleo. Bartlett é um sexagenário artista que tem em seu histórico uma longa carreira de manifestações artísticas onde as questões queer são prioridades.  Numa entrevista de 2016, para o The Guardian, o autor reitera a questão de gênero como uma jornada e não um destino e provoca ao afirmar que a questão não é a categoria a qual você se encaixa, mas como você é valente diante dos empecilhos.

O Núcleo experimental arrisca no texto e no formato, mas se acanha na ousadia e provocação. Esse “bom mocismo” pode potencializar de forma chorosa o apelo para que se perceba com mais empatia as questões gays. É um dilema, ceder aos apelos ou trilhar o caminho arenoso da contramão.

Rodolfo Lima

Obs: o trabalho fica em cartaz até 30 de maio de 2018, sempre as terças e quartas-feiras, 21h

Teatro Núcleo Experimental – Rua Barra Funda, 637 – (11)3259-0898

 

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