Elza

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Existem artistas que viram mito em vida. Elza Soares faz parte desse legado. Sua obra ganhou força descomunal nos últimos anos, e sua voz oriunda de um corpo feminino e negro se transformou numa bandeira em prol das minorias. Mesmo com dificuldade de locomoção e com diversas exigências para se ter a cantora em eventos e shows, ela não para. Como cantou em seu penúltimo disco (Mulher do fim do mundo): “Eu sou e vou até o fim cantar“. Quando essa música invade o teatro o público já está incendiado. É match point, o musical dirigido por Duda Maia já arrebatou os reles mortais da platéia. Afinal, como diria Elza: “Ninguém é artista impunemente

O grande acerto da produção é potencializar o viés militante da cantora. Em cena, 13 mulheres, artistas e musicistas, além de Duda e Andréa Alves, respectivamente diretora e a idealizadora do projeto. Não é pouco, ainda mais se pensarmos numa sociedade que retrocede evidenciando o machismo, a misoginia, que ainda relega a mulher negra – por exemplo – a fetichização carvanalesca e o que é pior, em sub empregos. A questão da negritude, a miséria, a violência doméstica, maternidade fora de época, opressão familiar, a estupidez masculina,  Marielle Franco e outras anônimas…. todas representadas e lembradas com afeto, em suas agressões diárias.

“De onde eu venho não tem água encanada, mas as pessoas tem sede de viver. Não tem farmácia mas as pessoas sonham”

A dramaturgia de Vinícius Calderoni não se atém a contar uma história de forma cronológica. Opta por evidenciar passagens emblemáticas de forma poéticas e simbólicas, como se a simples citação de um fato, desse conta de seu subtexto, e no caso de Elza, dá. O viés aguerrido da cantora e sua personalidade singular está reverenciado sem o menor senão. Para Elza, “puta” não é xingamento e quando a acusaram de destruir o casamento alheio, ela literalmente manda um “tô nem ai“.

As frases de impacto colocadas estrategicamente no roteiro do musical funciona e fisga o espectador. Mas é justo dizer que as opções da direção também não fica atrás. Duda resolve tudo de forma simples e efetiva. Suas atrizes estão em sintonia, as marcações fluem e funcionam e por mais que em alguns momentos não sejam tão interessantes, são incrementadas por corpos soltos e disponíveis a cena. O grande acerto é de longe a junção do amor de Elza e Garrincha, a um trem em trânsito. Ou seja, se no amor nada é certo, na vida da cantora também não o foi. Não a toa a cantora permaneceu cantando músicas sobre o amor como se o sentimento nos embalasse num trem descarrilhado.

Esse amor regado a cachaça, impulsividade e…agressão, é lembrado com muita sutileza na montagem, especialmente ao citar a morte do jogador. Que um dia chegou na casa da cantora com dois kilos de feijão. Entre um saco de comida e uma Billie Holiday, um amor pode começar, reforça a peça. E o público acredita. E se comove.

“Eu sou um oceano negro”

A direção musical de Pedro Luís oferece arranjos novos e interessantes (“Fadas”), coloca brilho e destaque em canções emblemáticas como “Dindi” e claro “Meu Guri” – música mítica na história de Elza – cito essas para não estragar a surpresa de outras músicas presentes. Luiz Melodia é praticamente o único autor citado na peça. Assim como a primeira bailarina negra do Municipal do Rio de Janeiro, Mercedes Batista. São poucas as referências de outros artistas no musical. Obviamente que no musical de uma cantora, a história e as músicas se alinham. Funciona em praticamente todos os momentos. O senão, é a belíssima “Flores Horizontais”, que entrou no repertório de músicas da peça, mas soa deslocada com o contexto em que é citada.

Larissa Luz dá voz e corpo a Elza. A atriz convidada é a responsável por rasgar a voz como a grande homenageada faz, além de trazer toda a irreverência contestadora da cantora. Sua composição é linda, e assim como para Elza, sua voz parece sair sem a menor dificuldade. Larissa já havia feito um excelente trabalho em “Gonzagão, a lenda”, musical da trupe “Barca dos Coração Partidos”. Em cena com Larissa, Janamô, Júlia Dias, Laís Lacôrte, Verônica Bonfim, Khrystal e Késia Estácio,  que dividem a personagem e a cena. Todas compondo um só corpo, com suas possibilidades de cores, formas e epifanias. Poderia ter dado errado, mas dá certo. A pluralidade das cantoras dá as nuances da possibilidade vocal de Elza. Khrystal e Késia, por exemplo oferecem essas nuances em dois momentos bem emblemáticos. A primeira colada no que se entende por MPB e a segunda dialogando com o blues, com o jazz, um gingado que areja a cena e a atualiza.

“Falar estilhaça o silêncio”

A cantora que brincava de ampliar a voz numa lata; que de certa forma foi “salva” por Caetano Veloso numa época ruim de trabalho; que casou aos 13 anos; que sabe que o mundo se divide em quem pisa e quem é pisado; que cantou para matar a saudade e sobreviver a ela; para não morrer de fome; que recusou uma turnê com Louis Armstrong; que sabe que sobreviver é um ato político; que tem a delicadeza de ter a idade da pessoa com quem estiver conversando é uma filha do século XXI.

Não foi a toa que carregou muita lata. Não é a toa, que esse objeto é reverenciado no cenário de Andre Cortez, em luzes que vazam o alumínio e nos ilumina de poesia e esperança e que está, merecidamente, homenageada num espetáculo teatral.

“A carne mais barata do mercado ERA a carne negra, agora não é mais”. 

É a grande lição que o trabalho nos deixa.

#imperdivel

Rodolfo Lima

Obs: em cartaz no Teatro Riachuelo (RJ), de quinta a domingo,  até 30 de setembro de 2018

 

 

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