Navalha na Carne

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Exaltamos muito os dramaturgos internacionais e suas obras insuperáveis. Para além do legado deixado por Nelson Rodrigues (1912-1980), o dramaturgo Santista Plínio Marcos (1935-1999), tem em Navalha na Carne, um desses exemplos que o teatro nacional irá exaltar para sempre. Seja pelo registro de párias da sociedade, pelo retrato cruel da prostituição feminina, do machismo impregnado no imaginário coletivo e pela retratação de uma  homossexualidade afetada. Veludo e Neusa Sueli são exemplos extremos de indivíduos apaixonados e apaixonantes. Seja pelas suas carências, pela sua forma desmedida de amar, ou pelo retrato triste de suas pobrezas individuais.

Portanto Navalha na Carne é daqueles textos que sabemos o que vai acontecer, mas que nos gera expectativa sempre. Afinal, a peça é uma proposta para composições rebuscadas e intensas e/ou interessantes de seus interpretes. Da parte de quem vós escreve, Veludo tem meu apreço especial. Seja pelo meu interesse na retratação dos homossexuais nas artes cênicas, como pelo jogo cênico que o dramaturgo propõe a esse personagem, que vai da passionalidade ao deboche.

Veludo (Ranieri Gonzalez) é faxineiro na pensão que reside a prostituta Neusa Sueli (Luisa Thiré) e o cafetão Vado (Alex Nader). Ao limpar o quarto do casal, Veludo “afana” o dinheiro do cafetão e seu ato vai fazer com que desnude para o público a realidade submissa e exploratória a que Neusa está submetida. Assim como ela, Veludo também mendiga afeto e atenção, vive de migalhas e com pouco. Veludo usa a grana de Neusa para comprar drogas e um pouco de sexo na vizinhança. Neusa vende seu sexo para manter a ilusão de ter um homem para chamar de seu.

A peça tem dois momentos, o final, no embate entre Neusa e Vado,  e quando se descobre a farsa do sumiço do dinheiro e o embate é entre Veludo e Vado.  Se no caso do casal o que impera é a forma humilhante e depreciativa com que Neusa é julgada pelo companheiro, fazendo com que a cena inevitavelmente caia no teatro dramático. É com Veludo e Vado que a peça oferta momentos de risos e euforia, temperados com sadismo, erotismo e certa vulgaridade. Torcemos por Neusa Sueli, porque somos cúmplices de sua dependência amorosa e torcemos por Veludo, pois a forma sacal como ele é humilhado e reage, nós desperta uma sensação estranha de prazer.

Na montagem carioca, dirigida por Gustavo Wabner, Ranieri consegue fazer dos clichês afetados de sua interpretação, mola propulsora para dar nuances interessantes a seu personagem. Não há erotismo a contento no jogo entre gato e rato de Veludo e Vado. Mas o Veludo que o público presencia consegue ser lascivo e histriônico de uma forma interessante e diferente. Não lembra por exemplo o Veludo de Gero Camilo – na montagem paulista de 2008, dirigida por Pedro Granato –  e ambos se apropriaram do personagem por registros similares.

Luisa Thiré ganha força nos momentos finais, onde consegue adensar a interpretação de sua personagem nos momentos em que o texto propicia esse mergulho. A questão é que até chegar no momento de sua derrocada emocional e cênica, a atriz tem pouca expressividade. Preocupados com a porção “puta velha” da personagem, a montagem – não dá para dizer se é uma opção da direção ou da atriz – deixa em segundo plano a construção emocional da personagem, o que fomentaria com mais propriedade a suposta explosão emocional da personagem.

O resultado da direção de Wabner é correta. O cenário bem cuidado de Sergio Marimba dá certo charme ao acabamento final, ilustrando a contento o ambiente decadente dos personagens de Plínio Marcos.

A montagem tem tom saudosista, pois Luisa é neta de Tônia Carrero (1922-2018), homenageada antes do inicio da peça, que teve a composição de sua Neusa Sueli imortalizada na história do teatro nacional. Se sua avó, que para vencer alguns empecilhos – o fato de ser muito bonita para o papel, por exemplo – se arriscou, Luisa foi comedida e guardou para o final da encenação o que dê melhor sua personagem podia oferecer. É pouco.

Navalha na Carne sobrevive com seu discurso machista. Infelizmente muitas mulheres são submetidas a homens exploratórios, abusivos e violentos. Escrito em 1967, o texto hoje, com a existência da lei do feminicídio, ganha leituras mais problematizadoras, para além do universo da prostituição, da falta de amor e da pobreza financeira. Plínio permanece atual e necessário. O tempo trata de reinventar as possibilidade de leituras de sua obra. O público agradece.

Rodolfo Lima

Obs: a peça segue em cartaz no SESC Bom Retiro, de sexta a domingo, até 30 de setembro de 2018

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