Gavião de duas cabeças

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A questão indígena é um ponto inflamado na história do Brasil que segue sem uma resolução que dê conta de preservar a história dos indígenas e satisfazer os desejos e a necessidade do homem e do capitalismo. Fomos educados de forma ingênua sobre tais questões a ponto do tal “Dia do índio” se tornar uma piada. Não se pode falar em celebração quando as singularidade e os direitos de tais povos seguem relegados e de certa forma desvalorizado. O solo Gavião de duas cabeças é um belo exercício de alteridade oferecido por Andreia Duarte, que um dia, sensibilizada pela música produzida por “eles”,se organizou a passar dois meses numa tribo indígena, ficou 5 anos.  A peça traz um recorte da sua história, nos alerta e nos sensibiliza.

Com direção de Juliana Pautilla,o solo se aproxima do gênero do biodrama, que ganha cada vez mais popularidade no universo das artes cênicas, ao trazer o intérprete teatralizando a própria experiência de vida. Sem proselitismo,  Andreia vai da garota sonhadora a mulher militante, sem que isso soe pretensioso ou empostado. Dribla de forma leve as curiosidades sobre a nudez, a sexualidade, as necessidades pessoais, os afetos. Se sabe pouco da vida REAL de Andreia nos seus anos de vivência por lá. Mas a sensação é que sabemos muito.

Mais do que tecer um texto cheio de curiosidades e mimimi, Andreia nos oferece a possibilidade de nos aproximarmos de sua experiência e isso não a inibe de ser debochada, provocativa e política. Andreia e Juliana conseguem equilibrar a crítica ao descaso da sociedade para as causas indígenas, mostrar a disparidade que há entre nós (brancos, não indígenas) e eles, e nos oferecer uma experiência de vida. O “tal lugar de fala”, termo em alta nas artes cênicas, que inibe um indivíduo de falar pelo outro, caso não tenha a mesma vivência, é dado a Andreia, pela sua experiência real e pelo público que se torna cúmplice.

Contemplado pelo edital Programa Cena Aberta Funarte em 2016, a dupla de artista puderam dar vazão as pesquisas pessoais sobre corpo/política e o resultado é um ato emblemático e crítico, que imprime no corpo de Andreia as referências que mudaram a sua percepção de vida. A ingenuidade (bonita) da artista de querer sobreviver a um mundo sem os apelos midiáticos e a coca cola – por exemplo, duelam com a intolerância da representante do agronegócio, uma das personagens em cena. Essa ambiguidade entre relato pessoal e testemunho crítico, e as “janelas” que se abrem para diversas interpretações, faz com que a percepção do trabalho ganhem um grande alcance. A simbologia da indígena que une a plateia através das mãos é o maior exemplo de fragilidade e precariedade, que nós brancos e não indígenas, carregamos diante de um mundo vasto e  indecifrável e por vezes impenetrável.

Andreia transformou sua saudade – que para os indígenas é algo que mata – em protesto. Sua experiência em bandeira e seu canto em um lamento pertinente e tocante. Não há como sair indiferente de Gavião de duas cabeças.

Para os indígenas o Gavião de duas cabeças é aquele que devora o espírito que sobrevive a morte do corpo. O momento que Andreia divide com a plateia a forma como eles reagem a perda do corpo físico é tocante e não deixa de ser um recado para aqueles tão afeitos a matéria. Se matar o espírito é esquecer, esquecer liberta.

Gavião de duas cabeças, encerrou a programação do projeto TEPI – Teatro e os Povos Indígenas: encontros e resistência, idealizado por Andreia e realizado no SESC Pompeia, que em cinco datas trouxeram a questão indígena dialogando com o fazer artístico e sua real representatividade. Projeto esse que merece novas edições.

Rodolfo Lima

 

 

 

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