Dois a duas

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A descoberta da sexualidade é um nicho criativo sempre revisitado por artistas de diversas áreas, em especial o cinema e o teatro. Como se trata de um período de conturbações e descobertas, a abordagem de assuntos variados por vezes funciona. Dois a duas, escrito por Maria Fernanda de Barros Batalha, aos 18 anos, é um exemplo dos possíveis senões que a abordagem sofre.

O intuito foi investigar a descoberta da homossexualidade e a juventude contemporânea. Dito isso, é de se esperar que a montagem dirigida por Erica Montanheiro e Mariá Guedes, sofressem com o excesso de informações e possibilidades. Embora bem intencionada e com um resultado simpático, a montagem desperdiça uma oportunidade valiosa de problematizar questões urgentes que resvala num imbróglio que inclui educação/assedio/relações inter geracionais/ negritude/ homossexualidade feminina/sexualidade, para citar o básico do referido trabalho.

Ligia (Jhenifer Santine) e Ana (Bruna Betito) são best friends. Estudam em uma escola particular, porém a primeira é negra e bolsista – sua mãe (Bia Toledo) é funcionária da escola – e a segunda é branca e provavelmente tem pais que bancam a sua educação.  O elenco é completado por: Mário (Lui Seixas) namorado de Ana e Cecilia (Luzia Rosa) a professora por quem Ligia se apaixonara.

Temos poucos exemplos de peças com a temática lésbica. Quando isso é associado a juventude, a porcentagem – em comparação com peça de temática gay masculino – é quase inexistente. Embora o foco da peça seja a descoberta da sexualidade de Ligia, a encenação demora mais da metade do tempo da montagem para entrar propriamente dito na questão em pauta. É uma pena. Quando o assunto surge, ele é tratado de forma ligeira e óbvia. Não há complexidades na abordagem e nem riscos na encenação. Tudo insosso e moroso, como se a platéia não fosse capaz de tensionar um tratamento mais ousado do assunto.

Não se sabe se a peça é para um público teenager e portanto a abordagem é – infelizmente – tatibitati, ou para um público adulto e ai a encenação é basicamente infantiloide. Carecemos de mais. Somos bombardeados diariamente com tanta informação, que o teatro precisa ser arrojado e subverter esse lugar de acomodação que estamos habituados a (con)viver. Trabalhos que ousam abordam e captar um público jovem, são as que mais sofrem, pois é difícil que o trabalho escape de certa banalização.

O tal do contemporâneo na encenação é uma bagunça, do tema aos assuntos abordados. A encenação se utiliza de projeções, público no espaço cênico, música ao vivo. Nada usado de forma limpa e pontual. As projeções é um recurso para facilitar a visualização da cena, mas não deixa de ser uma opção pop. Se o celular fosse algo incorporado na realidade dos personagens, ok. Mas não é o que acontece. O público em possíveis cadeiras de escola é uma ideia boa, porém desperdiçada. E a música ao vivo não tem relevância quando precisa duelar com os hits do momento que vai de Anitta e Ludmila, passa por Cássia Eller, As Bahias e a cozinha mineira, e claro… músicas protestos como a de Linn da Quebrada. A inclusão de “(You make me feellike) A natural woman”, um clássico na voz de Aretha Franklin é uma das “forçação de barra”.

Se a abordagem da homossexualidade feminina não é problematizada, outros temas também não. Como o vício da mãe e filha com o cigarro, o uso de drogas ilícitas e um possível assédio de Mário com Ligia, que valida discursos libertários e feministas com bordões como “esquerdo macho” e “machistas não passaram”. Se o sistema é patriarcal a peça aborda isso de forma rasteira colocando o garoto – o único homem da peça e da ficha técnica – como um infantiloide egoísta, um exemplo masculino de ego frágil.

“Não vou ter coragem de te assumir. Vou fazer com você o que 90% dos  homens fazem com as garotas: iludem” – Cecilia

Dois a duas oferece um balaio de assuntos, mas o resultado da abordagem é pueril. Como se apenas citar fosse o suficiente. A depender do público alvo, pode até funcionar. Mas… o resultado fica aquém. O que é uma pena se levarmos em conta a empatia que os artistas causam em cena. Principalmente Jhenifer (Ligia) e Luzia (Cecilia), respectivamente a aluna que se apaixona pela professora.

Negras e supostamente a margem, aluna e professora se envolvem de forma singela e interessante. A professora tem um histórico de uma paixão lésbica adolescente, reprimida pelo pai, que a fez na vida adulta, ter um casamento heterossexual. Cede a simpatia de Ligia, que tem com a professora a oportunidade de perder a virgindade. Seria bom se a peça adensasse as questões que envolvem essa história.

A aluna tem 17 anos, se envolve com a professora e o suposto amor e admiração que nasce desse contato tem uma abordagem exagerada e rápida. Se Jhenifer Santine funciona em boa parte da encenação, ao citar Clarice Lispector, nos deparamos com a fragilidade da composição da atriz.

A decepção amorosa é encarada como mais uma etapa da vida e isso é bom. O que não é interessante em Dois a duas é a forma como a encenação aborda a sexualidade das personagens principais, seus corpos e o contato entre elas. Reitero, perde se a chance de contar uma história de amor entre mulheres negras de forma provocativa, para além dos clichês da temática. Afinal o que é ser uma “bixa preta”?

A inclusão e associação de “Romeu e Julieta” na dramaturgia, para reiterar o drama dos personagens principais, é mais do mesmo. Um recurso tão batido que chega a ser frustrante. Para citar um exemplo atual, o musical off Broadway, “Na pele” em cartaz no Teatro Augusta, se utiliza do mesmo recurso. Mesmo que a cena seja um dos pontos cômicos da peça, ela contém piadas internas para “a classe teatral” que parece mais um dos temas incluídos e não desmembrado a contento.  A citação das personagens referência a versão cinematográfica protagonizada por Leonardo DiCaprio (1996), mas a música executada – se não me engano – é a de Franco Zeffirelli (1968). Ou seja…

O teatro é a arte da repressão” como atesta Ana. E o que Dois a duas resulta é justamente nisso, um teatro reprimido e com ares de descolado, que peca ao achar que apenas verbalizar temas pungentes do momento basta. Oferece assim um simulacro da realidade que se vê nas escolas, porém não as representa e tão pouco as problematiza. É legitima a opção de oferecer um programa leve, sem que os temas ganhem densidade excessiva, mas há de ser ter cuidado para que tudo não vire uma grande salada de assuntos, como se apenas expor a questão fosse o suficiente.

Em tempos de extrema intolerância, onde alunos estão sendo induzidos a entregarem seus professores. Onde o discurso racial, misógino e homofóbico ganhou relevância e legitimou quem defende tais ideias, colocar a dupla de amigas pixando uma parede para assim terem uma atitude “educativa, política e artística” soa no máximo, risível.

Rodolfo Lima

Obs: a peça fica em cartaz gratuitamente até 18 de novembro de 2018, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, de quinta e sexta 20h, sábados e feriados 18h.

 

 

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