Trajetória Sexual

10.2018-Teatro-Trilogia-da-Perda-Trajetoria-Sexual-Fotografia-Joao-Penoni-1

Numa época onde a diversidade sexual corre o risco de ser tolhida e reprimida, Álamo Facó vem a cena e se desnuda para falar sobre sua suposta Trajetória Sexual. O solo que encerrou temporada ontem no SESC Ipiranga, fecha a Trilogia da Perda, combo de solos do ator que inclui: Talvez (2008) e Mamãe (2015). Todos eles buscam um diálogo direto com a plateia, uma “estética documental” – como o autor cita no programa distribuído antes do inicio –  resultando num misto de teatro e performance.

O tom confessional imprimido pelo ator à montagem causa empatia. A auto ficção é uma forma bastante em voga que os artistas encontraram para teatralizarem suas inquietações e assim se expor e teatralizar seus fantasmas, com a “vantagem” de poder mentir descaradamente, afinal ao contar um fato/história já estamos reinventando algo.  Por mais bem intencionado que sejamos, nunca seremos capazes de narrar de forma fidedigna um acontecimento. O ator sabe disso e em dado momento zomba de si mesmo quando enfatiza que provavelmente seu desempenho no sexo oral numa mulher, se fosse narrado por ela, teria outra narrativa.

O trabalho é dirigido por Facó,  Renato Linhares e Gunnar Borges, mas tudo é bem simples e direto, não há complexidades para tantas mentes pensantes. Com o palco vazio, apenas com um tapete, o ator de cara limpa e peito aberto narra o que seria suas aventuras amorosas. A entrega e o despojamento de Facó e bem vinda, numa pesa que fala justamente sobre sexo. Nada mais honesto que seu corpo fosse posto na arena de forma  natural. Porém, nem tudo o que conta atravessou seu corpo, mas do inicio para o meio do trabalho, a encenação faz parecer que sim. Quando o ator abre margem para a participação do público é um sinal de que o que ele diz pode pertencer a todos. Será?

Todos tem suas questões com a sexualidade e suas possibilidades. A variedade que há nessa potência recheada de desejo e impulso “é que são elas“. Nem todos tem a tal desenvoltura do ator em experimentar de forma tão “descolada” e “bonita” esse lugar, convenhamos. Sexo anal, com mulheres transexuais e a prática do fist-fucking é exposto em cena sem o menor conflito. Como se a realidade do ator sempre fosse se permitir de forma fluída e generosa com o(s) outro(s), o que de fato não é crível. E a lembrança de uma juventude conflituosa parece distante para um adulto tão disponível.

É divertido e leve as histórias narrada pelo ator. Ouvimos e nos tornamos cúmplices de suas aventuras e no melhor estilo machadiano “também gozamos pelos lábios alheios“. Porém o tom de cumplicidade que é estabelecido entre público e artista é rompido quando o solo perde o tom testemunhal e parte para o discurso panfletário. A amarração que é dado ao trabalho no terço final, reitera esse lugar, perde se o diálogo descompromissado e entra em cena o discurso pronto que serve para educar a platéia e não fornecer a ela uma experiência potente e transformadora. O inicio supõe esse lugar, o final atesta que ele não foi trilhado até o fim.

A cena de violência homofóbica na escola, como lidar com um corpo trans, a indicação para ler Djamila Ribeiro e o exemplo de criação de crianças sem encarcerá-las num nome que defina seu gênero, são as pistas deixadas pela encenação para um suposto futuro ideal.

Quando o teatro me impõe caminhos e inibe que eu, com as minhas questões pessoais recrie as minhas escolhas, eu desconfio, me afasto, me desconecto. Num solo tão direto quanto o de Facó essa opção é um risco que ilude os desatentos. Mesmo que a platéia se deixe levar pelo discurso em vários momentos, a imposição é sempre um risco. Um pretensão desnecessária.

Rodolfo Lima

(Crédito foto: João Penoni)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s