Tinta Bruta

FILM-4-Hard-Paint

Filmes gays interessantes, que se propõe a subverter os clichês de tal universo, são uma raridade. Não que não haja tentativas e uma produção ambiciosa por. Mas, é sempre um desafio para os artistas, conseguir driblar os velhos “chavões”. Tinta Bruta de Filipe Matzembacher e Márcio Reolon não deve passar desapercebido na história na cinematografia gay nacional.  Não falo pelos prêmios importantes que recebeu e sim pela forma como os diretores abordaram temas rotineiros para os homossexuais, como – por exemplo – solidão, desamparo, violência e exposição online.

Independente da idade que tenha o público do filme, a comunicação é imediata. Pedro (Shico Menegat) vive só e é acusado de uma agressão. Retraído na vida social, se expõe na internet com o codinome de “Garoto Neon”, ou seja, ganha a vida expondo seu corpo em meio a tintas coloridas para homens que pagam para acessar virtualmente sua intimidade. Pedro é jovem, mas a vida parece não ter saída. E essa nefasta constatação vai tirando a passividade do público que aos poucos vai se aquietando com a realidade do protagonista.

Sua realidade seca e árida, ganha realces quando conhece outro rapaz (Bruno Fernandes) seu possível concorrente. Pedro se aproxima então de seu suposto inimigo e as singularidades dos dois rapaz se fundem. São diferentes em seus propósitos, mas dividem a mesma inquietação. Tem realidades dispares, mas isso não os impedem de tentar se comunicar. Como se fossem os únicos habitantes de uma terra devastada. No caso, a cidade de Porto Alegre, que sofre com o descaso cultural e vê a intolerância ganhar dimensões desproporcionais.

Os garotos que se pintam são contaminados pela violência e pelo afeto na mesma proporção em que se esbarram e tentar sair de seus mundos. Se vêm desamparados e confusos, na mesma medida que são obrigados a continuar tentando sobreviver as intempéries da vida. A solidão vem de brinde para uma juventude que não consegue escapar das mazelas de uma sociedade fóbica e doente. Vitimizados, se refugiam no universo online, como se esse lugar pudesse o salvar deles mesmos, o que raramente acontece.

Essa forma sem pieguice e direta de lidar com o isolamento de Pedro, faz toda a diferença quando nos vemos sobrecarregados de problemas alheios que esbarram em toda uma falta de estrutura emocional e social, e porque não educacional, para lidar com o futuro.

Esmiuçar o filme é revelar o que ele guarda de mais precioso: sua delicadeza. Seja no desconforto impresso no olhar de Menegat ou mesmo na ansiedade esperançosa da presença de Fernandes. Atores tão diferentes, unidos pela alquimia da ficção. Ambos expostos, verossímeis e intensos. Como se pudessem se complementar e por alguns minutos iludissem o público de que essa opção é possível. Sexy sem serem vulgares, talvez seja uma boa forma de traduzir os corpos dos atores na tela grande.

Desamparados ficamos todos. Não porque a realidade é mais impactante do que a ficção, mas porque nos vemos naquela desesperada sensação de um possível sim. Vemos os sonhos dos meninos se desfazerem e junto com eles, morremos um pouco. Tinta Bruta talvez seja o filme nacional com o melhor retrato agridoce dos dependentes da internet. Pessoas incapazes do convívio social, que renegam a si mesmo, por medo ou covardia, uma possibilidade real de contato e que constroem toda a sua subjetividade entre os limites da tela de um computador. Pedro se despe, pela web cam, mas os tais nudes que são trocados diariamente é uma forma triste de mercantilizar o próprio corpo, como se os afetos pudessem entrar nesse balaio de brinde. Não entra. O que se vende diariamente no mundo on line é a ilusão de acesso, de pertencimento, de emponderamento. É deprimente a realidade de quem depende dessa opção para se sentir vivo, incluído.

A cena em que é revelado ao espectador o motivo do isolamento de Pedro é um grande momento onde solidariedade, empatia, sedução e carinho são alinhavadas e todos nós nos sentimos confortados. Todos somos Pedro nesse momento. Somos beijados em nossas questões mais dolorosas e esse efeito imagético do filme é o seu grande momento, eu diria.

O filme ganhou os 4 prêmios importantes no Festival do Rio de 2018 (Melhor filme, roteiro, ator principal e coadjuvante) além de ser eleito o melhor filme no Teddy Award, em Berlim, considerado Oscar de produções com temática gays. No Festival Mix Brasil, foi completamente ignorado na premiação. Uma discrepância para um filme que potencializa a produção nacional com maturidade e delicadeza, sem deixar de ser cruel e verdadeiro.

Vale ressaltar a observação que o filme traz em relação a violência homofóbica. Ela só é legitimada quando é imposta aos homossexuais. Quando esse reagem, temos um problema social. Gays terem suas singularidades achincalhadas diariamente, faz parte do contexto cultural da sociedade em que vivemos. Mas e se reagíssemos a cada tentativa de opressão e fobia, que mundo estaríamos prospectando para o amanhã.

Em Tinta Bruta o amanhã é um oásis. Nos tornamos cúmplice de Pedro no que ele tem de bom e ruim e de precário também. Afinal, todos carregamos uma parte que nos falta, mesmo que seja ela que nos impulsione a crescer…amadurecer. Ao som da maravilhosa “Drone bomb me“, ecoada na voz de Anohni, deixamos o cinema. Assim como Pedro, não sabemos dançar para além dos nossas paredes, mas assim como ele, implodimos sem querer por dentro e o amanhã,  bem… continuamos sem saber.

Rodolfo Lima

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s