O que restou de você em mim

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          Histórias de amor são marcantes pelas suas especificidades, pelo que a singulariza. Amar e pertencer, amar e perder, amar e ser abandonado, amar e não ser amado… praticamente faz parte do histórico de todos. O que restou de você em mim, solo biográfico de Davi Novaes oferece essa possibilidade de catarse na reduzida platéia (8 pessoas ao todo) e não necessariamente por uma entrega visceral ou uma exposição explícita, das emoções, digo. E sim, porque o público se identifica com essa necessidade de amar e ser amado, com as ilusões que nos movem diariamente e também pela presença carismática do ator. 
 
          A peça tem um quê de biodrama – estética onde o artista parte de um acontecimento real de sua vida e teatraliza os fatos e/ou cria uma performance para expor suas questões – porém sua excessiva teatralidade rouba o que poderia nos contaminar pela sinceridade e naturalidade. Uma das músicas que abre o trabalho é “Someone Like You” de Adele, um hino romântico e certeiro. Ao adentrarmos o quarto de Davi – o personagem/ator, tudo tem uma estética vermelha. Das paredes a capa de livros, posters, copo, tênis, embalagem de chocolate e por ai vai. Qual a relação da cor com a história de Davi, não sabemos. Tirando o clichê que vermelho é supostamente a cor da paixão… Poderia ser do sangue, da raiva, do sexo ou de qualquer outra pulsão latente que desse a Davi uma ambiguidade. Isso não ocorre. 
 
          Davi é revelado a nós como uma pessoa sensível, sonhadora e claro, machucada. Afinal seu solo é sobre isso, sobre o fim de algo que termina na prática, no dia a dia, nas ações. Porém permanece dentro de nós, como que nos a assombrar e nos mover rumo a lugares nebulosos, como o passado, as lembranças… um inferno chamado saudade. O texto escrito por Davi ganha mais força quando ele se atém a revelar detalhes do cotidiano perdido. Quando sua atenção volta a reconstruir momentos que são só dele e por isso mesmo encanta e emociona. Ao oferecer uma analise sobre o que é o amor, o texto soa impostado e pretensioso, embora Davi tenha uma presença cênica acolhedora e carismática. O que cativa é ele ou a história dele? 
 
          O momento mais emblemático do solo é quando narra seu primeiro encontro oficial. Sabemos o título do filme, o cinema, o sabor do chiclete…são essas  particularidades que individualiza o personagem e o enriquece, não o poster do filme Moulin Rouge na parede ou o livro de Virginia Woolf. Quem gostava de Ana Cristina Cesar? Davi ou seu amado? O filme Ela é importante pra quem? Porquê? 
 
          Em O que restou de você em mim a ambientação aprisiona o ator numa estética que não traduz com verossimilhança o universo do quarto do “personagem”. A honestidade do simples e do banal, e de objetos dispostos ao leu e sem uma combinação excessiva teria surtido mais efeito. Um trabalho como esse, mereceria mais momentos onde pudéssemos ouvir a respiração do ator e o sentimento aflorando dentro dele, do que marcações onde o faz pular de um canto para o outro, como se isso potencializasse sua história. Discordo. O que potencializaria isso era seu desnudamento emocional. O olho no olho. A montagem por vezes pede que o ator apenas divida conosco a sua versão da história, como se isso bastasse para o livrar da solidão de ser deixado. Há um momento em que o ator, sentando numa cadeira, apenas respira. Três respiros ofegantes que não nos deixa perceber com clareza se é cansaço, saudade ou dor. No meio do abandono não há com saber e esse “estar perdido”, faz toda a diferença.
          A direção é da dupla Alejandra Sampaio e Virginia Buckowski, atrizes da Velha Companhia, conhecidas por encabeçarem o elenco de montagens sensíveis como “Sínthia” e “Cais ou a indiferença das embarcações”. Davi Novaes cativou o público no musical infantil “O príncipe desencantado”. Ou seja, não é por falta de exemplos de sutileza que a equipe de construção do trabalho carece.
          O Jornal Agora São Paulo trouxe uma nota no dia 23 de novembro com o seguinte trecho: “Sozinho no palco, Novaes interpreta um homem que, para se redimir de algumas histórias do passado, visita lugares que representam antigos namoros.” A falta de objetividade nessa “peça-depoimento” como é citado no release,causa esse tipo de distorção. Se trata de uma experiência pessoal, um namorado, um amor específico e porque não: uma história de amor gay.
          A experiência de adentrar o quarto de Davi é válida, não necessariamente catártica, embora na sessão que eu estive, apenas eu e outro espectador não nos debulhamos em lágrimas. Davi conta sua versão da história, o público se espelha no seu desamor e é fisgado. Mas que o ator e a direção podiam ter se arriscado mais… e fugido de algumas opções fáceis, ah… isso podia.
          Rodolfo Lima
          Obs: a peça faz suas últimas apresentações do ano sexta, sábado e domingo na Zona Franca (Rua Almirante Marques Leão, 378 – Bela Vista. Informações: 98202-4658)
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