O frenético, Dancin Days

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É bom quando somos lembrados que teatro é – entre outras coisas – pura diversão. Sem o menor comprometimento político e/ou com a verdade. O frenético, Dancin Days é um bom exemplo dessa fatia do mercado das artes cênicas. O musical carioca está em sua segunda temporada e se torna uma boa opção para a distração. Isso não quer dizer que ele esteja isento de críticas e/ou de erros e acertos. Mas é o típico trabalho que de inicio você só pensa em aproveitar o momento, mesmo que nem tudo seja desenvolvido a contento.

Dividido em dois atos e escrito por Nelson Motta e Patrícia Andrade, a peça pretende resgatar o clima vivido pela boate Frenetic Dancing Days, idealizado por Motta e seus amigos (Leonardo Netto, Dom Pepe, Scarlett Moon e Djalma – como consta na página do Shopping Village Mall) em 05 de agosto de 1976, num espaço ocioso dentro de um shopping, na ocasião, o da Gávea. Sua duração seria de 4 meses, mas isso não impediu que a boate, seus personagens, suas lembranças e seus frequentadores não entrasse para a memória cultural do país. Ok, isso pode ter se dado mais no eixo RJ/SP e provavelmente por causa da novela de Gilberto Braga, com nome homônimo e consequentemente com a projeção do grupo As Frenéticas. A boate é uma especie de marco da entrada da era da discoteca no país.

Motta é um autor que vem se expandindo em musicais e responde pela dramaturgia de “Elis, a musical“, “S’imbora o musical – a história de Wilson Simonal” e o acertado “Tim Maia – Vale tudo“. Como ele é parte integrante da história que conta, era de se esperar que ele peneirasse as informações e embaralhasse verdade e ficção, como que a polparmos de saber do lado B da boate e seus bastidores. Tem se a sensação de que a peça é “chapa branca” e isso claro, joga contra o resultado final. Tem se a sensação de algo pueril, conforme a peça vai se encaminhando para o fim.

Essa escolha do autor empobrece a peça principalmente no segundo ato, que nada acrescenta de informação e ainda transforma a si mesmo e seus amigos como anti heróis visionários que antes mesmo do politicamente correto já combatiam as minorias e levantam bandeiras a favor de mulheres, negros e homossexuais, por exemplo. A parte didática da peça é totalmente dispensável. Não serve para entreter e nem provoca uma reflexão aprofundada sobre os referidos assuntos. É ótimo saber que a mais de 30 anos atrás tínhamos pessoas como eles, mas a forma como esses louros são jogados é que são elas.

Se o autor se eximiu de tocar em assuntos e/ou situações mais sérias ou delicadas, a direção de Deborah Colker faz dessa ausência uma oportunidade de evidenciar questões latentes na sociedade atual e que – na ausência de uma dramaturgia que dê conta – ganham graça e brilho com a sua releitura. Como é o caso da homossexualidade masculina e a histórica música Y.M.C.A. e seus personagens machões, eternizados pelo grupo Village People. A cabeça enorme de um cervo (cenografia e direção de arte são de Gringo Cardia) adentra o espaço e os bailarinos – diferente da ostentação dos arquétipos mofados do masculino – “dão close” e uma boa “pinta” com figurinos coloridos, exóticos, corpos desconstruídos e porque não fora dos padrões. É o melhor exemplo da utilização de um clichê e sua (feliz) subversão.

Os figurinos de Fernando Cozendey são uma interessante diversão a parte. Uma exacerbação de cores e misturas que ajuda colorir todo a história. E alguns deles, ótimos, diga se de passagem. Mas é uma opção perigosa já que reproduz culturalmente a época de forma indireta.

A inserção da música do grupo norte-americano alerta os mais atentos para a dissonância que pode haver entre as músicas escolhidas para ocupar a pista da boate da Gávea. A referida música (Y.M.C.A) é de um disco que o grupo lançou em 1978, dois anos depois da boate abrir e causar furor em terras cariocas. Uma pergunta que me rondava era: quais as músicas que realmente tocavam na pista dessa boate?

O melhor momento da peça – ou o certo seria dizer, o meu preferido – fica por conta da execução da música “Can’t Take my eyes off you” de Frank Valli, que fez sucesso em 1967 e serve para ilustrar a ida de Nelson Motta  a Nova York para xeretar as tendências musicais da época e poder assim revelar um som atualizado das tendências mundiais, na boate carioca. Motta relata uma viagem de alucinógeno e com ela o encantamento que sentia pela mulher de seu mecenas, que ele, em função dos efeitos da droga, jurava que também estava em NY e portanto se vislumbrava com a mulher desejada. Essa mistura de realidade, ficção, ilusão, glamour, e porque não, toques de desilusão, dão o tom do que pode ter sido aqueles tempos. Em cena Bruno Fraga e a estonteante Natasha Jascalevich – impossível tirar os olhos dela.

Outra questão emblemática na peça e talvez a que melhor deu conta de narrar um fato histórico, porque independente da verdade dos fatos, se utilizou de humor e deboche, foi a referência ao grupo As Frenéticas, que segundo a peça, tinha esse nome, pois todas foram garçonetes da famigerada boate, que entre servir um cliente e outro faziam performances no meio da noite.

Uma suposta despretensão nas coreografias tornou a peça leve e divertida, sem a caretice que é de praxe em histórias clássicas dos musicais. O corpo de baile também dá um arejada com a inserção do quarteto: Eddy Soares, Elio Barbe, Rômulo Vlad e Andrey Fellipy, um grande acerto da direção.

O Frenético Dancin Days diverte e empolga, entretêm e mesmo que sua dramaturgia não seja o melhor texto escrito por Nelson Motta, não deixa de ser uma possibilidade de lutar – indiretamente – contra a caretice e o conservadorismo que assola o país. Embora, é bom que se diga que de transgressor o musical não tem nada. Talvez a maior contradição de um trabalho que tem por intuito referenciar um ícone da contracultura carioca.

Rodolfo Lima

Obs: a peça está em cartaz no Teatro Bradesco (RJ), de sexta a domingo, até 24 de fevereiro de 2019.

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