O Confeiteiro

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Não sabemos com precisão de onde nasce o afeto. Se dá ausência de algo ou de sua abundância, do esforço individual ou simplesmente acontece, como um fenômeno natural e imprevisível. O Confeiteiro ( The Cakemaker) traz um exemplo do amor que nasce da morte. Como se na finitude de algo, outra ressurgisse no lugar, para que continuemos vivendo e assim dar conta disso que se chama vida. Parece óbvio essa constatação, mas na prática sabemos que nem sempre é com poesia e certa sorte, que as coisas acontecem, e que sim, muitas pessoas morrem em vida, dada a impossibilidade de se reinventar. Como escreveu um dia o autor Caio Fernando Abreu (1948 – 1996): existem pessoas que nascem para serem sós, a vida toda.

Não é o caso de Thomas (Tim Kalkhof) e Anat (Sarah Adler) ambos vitimados pela morte de Oren (Roy Miller), do qual ambos eram amantes. Amante do primeiro e esposo da segunda, Oren ao deixar de existir fisicamente na vida de ambos, catapultou em Thomas a necessidade de conhecê-lo mais e/ou reconstruir a trajetória de sua morte, já que sendo o amante e morando em outro país (Alemanha), soube tardiamente da morte do amado.

Nesse impulso de ir até a cidade natal (Jerusalém) de Oren e sua familia, Thomas procura simbolicamente reconstruir sua perda. O que lhe restou foi uma chave, que dá acesso ao armário do clube, onde o que resta é uma sunga. A peça intima do amado é o que lhe restou. Na ânsia de mais – afinal, como se preenche um vazio a contento? – Thomas vai até o endereço da esposa do amante. Ela, dona de um café. O sútil imbróglio se inicia nesse encontro.

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É o contato dessas singularidades que preenche o filme de Ofir Raul Graizer de poesia e simbolismos. Embora o filme tenha “ares” de filme gay, já que o mote da história é a relação entre dois homens, fico a pensar se tal rótulo dá conta de abranger o que o filme tem de melhor, que são os silêncios dos que vivem a superar uma ausência. O filme tem charme ao colocar a profissão de confeiteiro em evidência – nunca uma mão parece tão sexy numa massa de farinha – mas isso ocorre para ajudar a nos conectar com a história através de outros sentidos. Não podemos provar os doces de Thomas, mas somos cúmplices e invejosos de Anat quando ela é preenchida pelo sabor proposto pelo tal confeiteiro.

Anat e Thomas se aproximam e se envolvem porque Oren morreu. A morte aproxima essas duas pessoas. Então o que supostamente era um filme gay, dá indícios de um filme heterossexual. Ou como diria alguns, de certa gourmetização da sexualidade, como se os gays pudessem ser curados por heterossexuais. É importante evidenciar que Thomas se aproxima e talvez se apaixone pelo universo de Oren, e isso inclui sua família (mulher, filho e mãe), sua casa, suas roupas, o universo que ele deixou. Tem muita beleza nisso, convenhamos,  mesmo que utópica.

Uma das críticas que li do filme é sua tendência a ser um produto calculado para se “vender” o universo homossexual à plateias heterossexuais. Com opções de cenas softs e sem ousadias, para que assim o universo gay descesse guela abaixo dos homofóbicos. E o pior, que os gays masculinos fossem passíveis de serem salvos por uma mulher. O filme não afirma isso com precisão, sugere que a redenção de Thomas é na companhia de Anat, que por sua vez, para supostamente ser feliz, teria que perdoar o amante do marido. Se tirássemos o rótulo de filme gay de O Confeiteiro, sobre o que falaríamos? É o que fiquei a pensar depois da leitura de tal posicionamento crítico.

Mesmo que o filme não se aprofunde na bissexualidade de Oren, podendo assim ser um produto quem sabe provocativo para as questões da sexualidade humana, as opções da direção são interessantes (é o primeiro filme do diretor) e resultam em momentos de epifania e leveza na tela, bem como de intensidade e – por que não – de tristeza. O choro guardado de Oren que explode em apenas um momento do filme é uma cena inesquecível. É um momento difícil na composição de Kalkhof, que em silêncio tem que dá conta de exprimir a dor que seu personagem sente.

Acabamos sendo vitimas das tais nomenclaturas que dividem o ser humano através de sua sexualidade e gênero. Como se os sentimentos e os desejos não pudessem ser fluídos e navegarem sem rumo por ai. É difícil aceitar que os são. E se o filme não dá conta de verticalizar essas questões de forma audaciosa – como é comum em alguns exemplos europeus e americanos – o resultado é uma bela forma de rever as questões sexuais de forma menos inflamada e mais suave. Como se a ficção pudesse nos induzir a crer que o mundo – e nossas questões – pudessem ser fáceis de serem digerido. Não o é.

Muitos de nós não seremos nunca brindados com a possibilidade de rir como Anat, mas é isso que faz com que o filme se torne emblemático e poético. No fim, é o resquício de esperança de Anat que carregamos para fora do cinema. Não é assim que deveria ser na vida também? Um nova possibilidade sobrevivendo para além das perdas irremediáveis?

Rodolfo Lima

Obs: o filme é o candidato de Israel a uma vaga ao Oscar na categoria de filme estrangeiro. #natorcida

 

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