A Esposa

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O que mais me chamou a atenção em A Esposa (The Wife) não foi a suposta guerra de gêneros que o filme traz como um tema coadjuvante, e sim a infinita necessidade de completude que nós, seres humanos, sentimos. Na ruptura dessa possibilidade, morremos, alguns em vida. Se o filme de Björn Runge não aborda um tema necessariamente inédito, “Collette”  (2018) de Wash Westmoreland resvala no mesmíssimo lugar, uma esposa que serve de ghost writer para o marido. Ou seja, escreve no lugar, e para o marido, que publica seus textos e consequentemente fica com os louros. Ofertando assim um apagamento do feminino, o anulamento de sua individualidade e consequentemente borrando a história de forma machista e misógina. Quantas mulheres não ficam a sombra do marido?

É uma herança nefasta da cultura religiosa, binária e falocêntrica que herdamos e da qual não nos livramos. Alguém cuida da casa, alguém trabalha fora. Alguém coloca roupa na maquina de lavar roupa, alguém lava o carro. Filhos nascem, os afazeres se dividem, basicamente em todas as casas. Homens exercem determinadas funções, mulheres outros. Então… o combinado não sai caro, certo? Era assim, hoje em dia o combinado precisa ser revisto diariamente, pois os desejos, as frustrações e as oportunidades se intercalam de forma visceral e avassaladora, oprimindo pessoas, singularidades, sonhos. Embaralhando as possibilidades.

Joan (Glenn Close) não é exatamente uma mulher inocente. Aceitou o papel de escrever/revisar/criar os textos que eram publicados com o nome do marido, enquanto esse dava conta das crianças – por exemplo. Quando Joe (Jonathan Pryce) é laureado com o prêmio máximo da literatura (Prêmio Nobel), Joan é obrigada a revistar questões abafadas, que pareciam superadas, porém descobre-se que não. São assim os desejos e os impulsos… o não realizado, não há como fugir do retorno da vida.

O filme que deve dar o Oscar a atriz (que já bateu na trave, com 6 indicações e nunca levou) é um belo exemplar de história para se pensar a velha disputa de gênero e os papéis exercido na sociedade. Como se livrar deles é que são elas. O filme não aponta pistas. Estamos refém dessa herança nefasta. E para escapar o ser humano, a mulher no caso, precisa se impor, e ao se impor pagar o preço, contrariar uma sociedade que a diminui – por exemplo. É triste e trágico.

A dualidade que o filme emprega ao expor uma mulher conivente e um marido aparentemente grato a todo o esforço da mulher em permanecer do seu lado, é o ponto nevrálgico do filme. Você ao aceitar a postura de Joe, corrobora com o machismo implícito em sua atitude. Se o filme não é feito para alerta e enaltecer o papel feminino em detrimento de uma visão exploratória de gêneros, resvalar no tom emotivo do filme é uma saída para olhar para ele com empatia.

Digo isso, pois acho que o filme reforça a necessidade da busca por completude, ao mesmo tempo que revela a fragilidade dessa escolha. O outro sempre será nossa ilusão favorita. Não há como fugir. O outro existe na nossa vida para nos guiar e nos inundar. Alguns se afogam, outros sobrevivem. Muitos não tocam a água. Outro nem sabem que essa opção é possível. Joan ao tentar romper esse circulo vicioso – o de acreditar que o outro é um porto seguro – interrompe não só o sonho de uma vida a dois. Mina de forma seminal a possibilidade do agraciamento do acolhimento infinito.

Nunca é tarde para sermos confrontados. Nunca é tarde para nos vermos expostos. Se arrepender, e reverenciar o que acredita ser seu de direito. Mas e quando você aceita esse papel de coadjuvante? Quando você assume um lugar aquém do que a sociedade espera, quando você se envergonha em quem você se tornou.

Joan não quer que o marido a agradeça em público. Não quer que lhe seja jogado na cara o rótulo de mulher sofrida, apagada, submissa, que viveu para o marido e suas necessidades. Joan se apaixonou e aceitou Joe já nessa condição de subalterna, o filme parece indicar. Se a outra entre quatro paredes, tudo bem, em público, jamais. Quem nunca?

A esposa é para se deixar levar. Se contaminar pelos espinhos que o filme vai expondo no decorrer da projeção.  O jeito elegante, contido e por vezes tímido, com que Glenn Close conduz sua personagem é o grande trunfo, já que a personagem é construída de forma misteriosa, como se pudesse conter uma vulcão dentro de uma carcaça envelhecida e amorfa. Ficamos a mercê de sua explosão.

Mais do que revelar a fragilidade desse encaixe masculino-feminino, o filme implode nossa ilusão de quem sim, podemos nos construir a partir do outro. No final do filme a sensação é que por mais que juras de amor sejam feitas e por hora, aceitas. Nunca sabemos ao certo o que corre por trás da máscara colorida que se oferta ao outro. É essa crueldade que dói no final do filme. Nos deixando sem escapatória para sonhar.

Rodolfo Lima

 

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