De volta a Reims

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As questões gays continuam sendo um barril de pólvora que não para de fornecer munição para que seja desvelado mais camadas que envolvem a homossexualidade do indivíduo. Por isso nada mais natural que os artistas se inquietem e queiram refletir sobre tais assuntos a partir da própria vivência. Foi o que fez Pedro Vieira, com o texto De volta a Reims, montagem livremente inspirada no texto do filósofo francês Didier Eribon.

Temos então autor e ator ficcionalizando memórias. Ora elas se tensionam, oram elas se distanciam, dado a origem dos profissionais. O que fez o texto de Reni Adriano foi buscar uma proximidade que ajudasse o público a refletir sobre questões emblemáticas que o autor levanta, sem deixar de evitar momentos de empatia entre público e ator. Momentos esse onde a realidade de Pedro toma a frente e se não serve como parâmetro para a realidade francesa, serve para a nossa. Eis o pulo do gato da montagem, que em vez de chafurdar apenas no pensamento de Eribon, escolhe como protagonista a voz do intérprete. Efeito eficiente que faz com que pareça ouvirmos apenas a história de Pedro. Adriano digeri a obra do autor, mas isso não minimiza sua força.

Para além das intersecções entre realidade e ficção e o diálogo com o biodrama, através da prosódia da voz do autor, de fotos, projeções e causos, De volta a Reims traz pensamentos provocantes e seminais sobre a questão gay, para além dos modismos e clichês ao qual estamos acostumados. O filósofo também não está interessando em exemplos de representatividade que mira o superficial. Seu objetivo é o lado obscuro que forma uma sexualidade por vezes difusa, dolorida e mentirosa. Fosse mais arriscada em algumas questões que abordam, a montagem dirigida por Cácia Goulart teria o mesmo efeito que uma lampada estourando na cara do espectador.

Os minutos iniciais nos revela parte do corpo do ator enquanto ouvimos o mesmo atestar que são os insultos que moldam a vida de um gay. É na injúria e difamação que a singularidade homossexual vai sendo forjada sem que percebamos a gravidade disso. Há um leve respaldo na fetichização do corpo gay, que aliado as palavras de Eribon poderia resultar numa encenação desconfortável e densa. Talvez o fato da peça ser dirigido por uma mulher tenha feito a diferença, e retirado a encenação de um lugar mais nebuloso e a margem do que a temática lhe propicia.

É uma peça onde a dramaturgia ganha força seminal e de certa forma engessa o todo. É tudo funcional, da iluminação, ao cenário, as projeções. Pedro não balbucia e o texto sai de sua boca sem o menor esforço. É dono da cena e de sua história e hipnotiza seu público de forma sútil.

Se uma das maiores críticas do autor é a formatação ao qual nós gays estamos sujeitos para “caber” e ser aceito em certos ambientes, Pedro sendo nordestino e de pele retinta deve ter sofrido um bocado para ser aceito nos ambientes em que escolheu viver. Sua realidade vem a nós como conta gotas, mas o que o autor está nos provocando a pensar é que essas mudanças são invasivas e irreversíveis. Porém nada abala a concepção de persona elaborada pelo ator. É como se o ator-personagem não sofresse as agruras que narra. Não dá forma violenta como Eribon aponta.

De volta a Reims é potente e bem executado. Provoca reflexão e inquieta. Sugere que saibamos mais sobre o autor, e quiça busquemos em nós mesmos tais momentos de opressão que timidamente abafamos, mas que nos compõe como pessoas singulares. Pedro também supriu as mais dolorosas? O recorte das histórias escolhidas dão conta de compor o artista que vemos? A possibilidade de olharmos para o ator, duvidando de suas colocações, a partir das inquietações do autor é a afirmação subjetiva de que a peça ajuda o outro a rever conceitos.  Sua força está ai, no subterrâneo do outro.

A “bíblia” de Didier Eribon intitulada “Reflexões sobre a questão gay” publicada em 2008 é um importante estudo para qualquer interessado na causa. Reni segue a risca os eixos que o livro propõe – análise de um experiência vivida, investigação de como uma singularidade se forma, e provoca, ao apontar possíveis causas de como as identidades gays são formadas  – e forjadas – em meio a tantos movimento partidários e apartidários, que roubam do movimento gay uma unidade que englobe a todos que se entendem como homossexuais.

Se pensarmos em peças de conteúdo gay e/ou que traga as questões gays em pauta, De volta a Reims é um potente e importante exemplo, de como as estéticas e o discurso gay são vendidos e reestruturado a partir das questões de um artista. Ou seja, não há como ignorar a importância da iniciativa de Pedro.

Rodolfo Lima

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