Inhai- Coisa de Viado

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A tentativa de totalidade diante de um assunto é sempre um perigo, pois traz em si a ambição de uma completude, que é praticamente impossível de ser alcançada.  Inhai- Coisa de Viado do Coletivo Inominável tem esse objetivo ao se debruçar sobre o que é ser “viado” na cidade de São Paulo hoje em dia. O termo “viado” que é visto com uma forma depreciativa de se referir aos homossexuais masculinos, ganha na montagem ares de emponderamento ao vermos em cena os artistas Fernando Pivotto, Cayke Scalioni e Alexia Twister/Matheus.

A base de construção para a dramaturgia e a encenação foi os conceitos do teatro documentário, opção estética que parte de fatos reais para ficcionalizar uma história e/ou um assunto. O grupo patina nesse quesito pois se o intuito era enfatizar o que é ser viado hoje em São Paulo, informações e assuntos sobre a homossexualidade no mundo toma o palco e acaba abrindo um grande leque de informações, que a princípio parece dar conta de revisitar como a história trataram os homossexuais masculinos, mas se fragiliza quando – em função do ritmo de informações e da opção da direção de alinhavar momentos dramáticos com cômicos – não se aprofunda com seriedade em nenhum deles. As escolhas de quais fatos citar também é outro “poço sem fundo”. Ao tentar fazer um panorama do mundo, supostamente a partir de uma ótica gay, a dramaturgia cita o atentando ao World Trade Center (11/09/01) e ignora o que aconteceu com a boate Pulse (12/06/16).

A dramaturgia a quatro mãos feita por Pivotto e Cezar Zabell, que assina a direção, tem por intuito celebrar a viadagem nossa de cada dia. O fato é bem vindo e agrada a platéia mais jovem que vê nos atores em cena uma possibilidade de extravasar e festejar. Então do ponto de vista do impacto do trabalho diante de parte do público Inhai – Coisa de Viado assume um papel importante diante da crueldade da intolerância. Inhai… é como a montagem de Meninos Também Amam, que versa sobre a homossexualidade masculina. Diferente deste último, que opta pela nudez de seus atores para atingir o público, a viadagem em cartaz no Teatro do Pequeno Ato ganha pelo clima de descontração e comicidade.

Inhai… ganha força quando vemos os atores narrarem suas histórias de forma direta e perde fôlego na tentativa de apreender uma história imensa que sofre alterações importantes de acordo com a nacionalidade, a raça e a postura pessoal. Como retratar o que aconteceu nos anos 80, 90 e 2000 só seria interessante se o grupo conseguisse criar paralelos poderosos que se aproximassem de uma explicação para o que fazemos e como nos comportamos e como nos tratam na atualidade. É no micro que mora a riqueza, pois ele é cheio de detalhes que oferta ao público um referencial poderoso de espelhamento. Não deixa de ser pretensioso a tentativa de Pivotto e Zabell, pois ao tornar a peça uma sequência de esquetes a celebrar a viadagem do grupo, ignora que esse recorte pode se tornar datado e limitador, já que “deixa de fora” os que não se enquadram no perfil do trio.

Para exemplificar, a figura do ator Cayke Scalioni é um bom exemplo. Identificado como uma “bicha Poc“, Cayke é engraçado e afetado, sem parecer empostado ou fake. Ele é o retrato do emponderamento que os gays ganharam nos últimos anos, fazendo com que a existência das “pintosas” pudessem ser celebrada antes de tudo como um ato de resistência e hibridismo entre os gêneros feminino e masculino que desestabiliza o conservadorismo e provoca. O público mais velho – por exemplo – acompanha a importância desse corpo, e mesmo que ele não seja questionado na peça, o que é uma pena – já que esse debate sobre as gays femininas x as gays heternormativas é muito atual – o recado está dado. O inverso nem sempre ocorre, e é nesse quesito que a peça é frágil, pois como fazer com que gays com 20 e poucos anos como o Cayke tenha uma dimensão do que foi ser gay nos anos 90, quando a bicha li-te-ral-men-te “nem tinha nascido”?

Cayke divide com Matheus (Alexia Twister) os momentos cômicos e fica a cargo de Pivotto o momento “aulinha”. Mesmo que o ator faça piada desse momento, como uma espécie de autocritica, não resolve, pois é os momentos que a peça cai no discurso sem uma teatralidade interessante. Ok, que a peça se baseia na vertente documentário do teatro, mas nem por isso precisa ser encaixada na encenação de forma tão sisuda e direta. Pivotto se expressa de forma clara e direta, mas sim, é o momento educativo da peça.

O programa “Casos de Família” apresentado por Cristina Rocha, no Canal SBT vive trazendo entre o assunto do dia questões relacionadas aos homossexuais. Ele é o exemplo utilizado pelo grupo para teatralizar uma situação: a aceitação dos pais diante a sexualidade dos filhos. Acompanhamos então o programa “Atraques de família” que é justamente uma reprodução (ruim) dos programas cômicos que a montagem cita em cena. Ou seja, não se entende se a montagem quis, ao reproduzir de forma tosca o programa de Cristina, criticar ou endossar o retrato risível que por vezes essas singularidades tem no programa de auditório.

A relação entre homossexualidade e o universo da Drag Queen está impregnado no corpo de Matheus/Alexia. É impossível separar a personagem da individualidade do ator, o que é uma pena, já que seria importante vermos essa mudança. É bonito e simbólico o discurso de Alexia ao enfatizar que a arte Drag não é restrita ao universo masculino, que é uma arte ao alcance de todos. É uma gentileza bem vinda se referir as transformistas como suas “ancestrais” e citar Miss Biá – por exemplo. Mas colocar no mesmo balaio Silvetty Montilla, Jorge Lafond (29/03/52 – 11/01/03) e Rita Von Hunty é um equivoco que joga contra um momento tão emblemático para Alexia em cena. E sim, faltou a apresentação da Drag que vemos. O que a diferencia do Matheus? Tá tudo junto misturado?

O universo dos apps, quais as referências que se tem atualmente – vale ressaltar que os exemplos dado recorta uma época histórica de forma irreversível , casas de acolhimento, candidatos a política LGBT, a taxa de suicídio entre os homossexuais, o fato de não termos exemplos sobre o envelhecimento gay, as doenças desenvolvidas por gays, Shallow Now, o chupa cabra (pra que citar isso?) e questões emblemáticas como: “Como foi que vocês aprenderam a rir dos veados?” e “Como foi que você se tonou homem?” … são exemplos das informações colocadas em cena, com o intuito de entreter e quem sabe, constranger.

De todas as opções ingênuas que existem na abordagem da homossexualidade em Inhai – Coisa de Viado, a melhor sem dúvida é a utilizada no final. Pois coloca em sintonia uma metáfora poderosa defendida em cena de que “unidos viados são invencíveis“, além de deixar uma imagem potente para se enfrentar os tempos obscuros que enfrentamos.

Outra construção interessante feita pelo coletivo são as explicações postas em cena para diferenciar o veado (animal) do viado (homossexual). São associações interessantes e singulares que endossa o real poder do termo pejorativo usado como uma forma de diminuir os homossexuais. Ao se assumirem viados o trio marca uma posição positiva e corajosa diante de tanta tentativa de normatização para nossas singularidades.

Rodolfo Lima

Foto: Giovanni Fernandes

A peça fica em cartaz no Teatro Pequeno Ato (Rua Teodoro Baima, 78) até 28 de setembro de 2019, as sextas e sábados, 21h. Ingressos R$40

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