Isso que é amor

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São inúmeros os artistas da música que tiveram suas letras e sua vida retratada nos palcos teatrais, geralmente em formato musical. Elza Soares, Elis Regina, Tim Maia, Carmem Miranda, Simonal, Cazuza, Renato Russo, Cássia Eller, Lulu Santos, Beth Carvalho, Dona Ivone Lara, Gonzaquinha, Gonzagão, Elizeth Cardoso, Zezé de Camargo e Luciano, entre outros, e agora Luan Santana. O motivo que move essas empreitadas são diversas. O desejo de Luan de ter sua história nos palcos, poderia ter tido um tratamento melhor. Embora o artista seja jovem para ter uma biografia exposta, seu sucesso na música sertaneja e sua carreira vai de vento e polpa, e claro, é um produto rentável.

Isso que é amor, escrito por Rosane Lima, tem direção de Ulysses Cruz e patrocínio do Banco do Brasil. A montagem tem uma pegada teenager, com um elenco jovem e pouco conhecido, que embora cause empatia, tem um desempenho aquém do esperado, muito por causa da dramaturgia, que é frágil e inconsistente e da direção musical que transformou as canções do cantor em peças de jogral – não há praticamente uma música cantada inteira. O que é uma pena. Cruz orquestra tudo, mas não tem muita escapatória para dirigir esse musical que nasceu para entreter de forma simplista, sem o menor intuito de oferecer algo novo aos fãs do cantor e nem cativar novos ouvintes. Ou seja…

Gabriel Lucas (Daniel Haidar) é o alter ego do cantor famoso, um popstar que recheado de fãs vive crises de criatividades e anseia encontrar a voz que escuta em seus sonhos, sua musa inspiradora. Quer ver concretizado o alvo, para que suas canções açucaradas e românticas, tenha porquês.  Ao esbarrar com Leona (Isabel Barros), uma jovem que estuda plantas e namora um boy insensível, o encantamento acontece e a peça gira em torno disso, desse amor ser concretizado ou não. Alguns temas são apontados durante a encenação: a relação conturbada com a produtora/mãe e com o fã clube, além de crises de criatividades e o resultado nefasto das fake news.

Tudo é pueril e mal costurado, não fosse o carisma e jovialidade do elenco, o público estaria diante de umas dessas histórias com e para adolescentes sem a menor profundidade. É como se a montagem ficasse no meio termo e não criasse uma identidade. Não é uma biografia de Santana e nem desgruda dos refrões das músicas do cantor, fazendo com que a dramaturgia pareça em alguns momentos estar apenas a mercê de arranjos, para vermos encaixados frases e/ou situações narradas nas músicas de Luan.

Um bom momento é a versão de “Boate Azul” cantada por Anna Akisue, quando a mesma interpreta uma crooner de boate. Ex-The Voice, Anna não só canta bem como sua Lelê (vice presidenta do fã clube de Gabriel Lucas) é uma grata surpresa, dado a delicadeza com que a homossexualidade da personagem é tratada. Assim como Lelê, Juninho (Robson Lima) também é gay, mas em ambos os casos a sexualidade deles são tratados de forma singela e sem riscos. A cena em que Lelê demonstra sua paixão por Deise (Panela Rossini) é outro bom momento, fazendo com que o palco do Teatro das Artes se encha de poesia com poucos recursos. Arriscaria dizer que é o melhor arranjo entre música/história.

Essa aproximação do universo sertanejo de Luan Sertanejo e seu séquito de fãs femininas enlouquecidas, com a homossexualidade feminina poderia ter sido algo melhor explorado, se fosse o intuito da montagem levantar bandeiras ou aprofundar algum assunto.  O x da questão é que nada é problematizado a contento. Sendo assim, tudo se enfraquece, a performance dos artistas, a execução das músicas, o desenrolar da trama e claro a reação da platéia.

Vale ressaltar que a participação da platéia nos minutos finais da peça é uma bem vinda interação que injeta ânimo em todos e faz com que os desavisados se aproximem um pouco da histeria em torno da figura de Luan Santana. Uma pena que isso ocorra nos minutos finais e a encenação não tenha mais tempo de nos oferecer mais do que distração. Isso que é amor é daqueles trabalhos que margeia o teatro como produto de consumo, se apropriando do gênero musical, uma linguagem do teatro que divide opiniões e que segue sendo plataforma de divulgação para alguns artistas. A famigerada música sertaneja ainda carece de bons exemplos biográficos nos palcos teatrais para quem sabe assim ser ouvida sem menos preconceitos. #aguardemos

Rodolfo Lima

Obs: a peça está em cartaz até 27/10, sextas, sábados e domingos,no Teatro das Artes localizado dentro do Shopping Eldorado.

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