Baderna Planet

Baderna Planet – Foto de Henrique Mello10-min.JPG

A nova montagem do Satyros, grupo curitibano que completa 30 anos tem por objetivo em Baderna Planet discutir questões inflamadas dos tempos atuais, de forma baderneira e caótica. Mas o que se vê é um resultado agridoce de bandeiras levantadas e que esbarram nas questões de gêneros e raça. Com direção de Rodolfo García Vazquez e dramaturgia feita pela dupla Vazquez e Ivam Cabral, a festa poderia ter sido radicalmente elaborada, mas faltou a equipe criadora subverter os assuntos e oferecer ao público uma provocação a contento.

As temáticas são reais e problemáticas: homofobia, transfobia, racismo, misóginia, assédio, machismo  – por exemplo. Tudo junto seria o que formaria a tal baderna se por muitos momentos o público não fosse contemplado com cenas que beiram o confessional e portanto intimista, e que em vez de bagunçar o espectador por dentro o deixa sesnibilizado e protegido na platéia.

É o que acontece quando a abordagem aborda o machismo tóxico e a misoginia. Se a primeira cena tem como intuito pegar o público pelo lado sentimental e emblemático, próprio do depoimento pessoal – quatro atores depõe suas histórias para o público – a segunda “floreia” o assunto ao mostrar uma cena musicada para enfatizar que o discurso da mulher contemporânea está muito além dos velhos clichês. É boa também a referência que se faz as mulheres trans e suas questões, mesmo que a cena seja mas ilustrativa sem um acabamento combativo ou caótico.

O mesmo pode se dizer quando a peça esboça uma cena de capoeira para evidenciar a questão negra e suas referências. O trio tem empatia e força, mas a cena parece solta do todo, que no geral sofre do meio para o fim patinando em volta dos mesmos assuntos, mas sem a novidade e atração que a peça oferta na primera metade, quando a abordagem é a homossexualidade masculina e a possibilidade de se beijar em público. Temas como as fakes news propaladas pela religião – por exemplo – são abordadas no inicio e depois não retomam mais.

A montagem é resultado de um grupo de pesquisa criado para abordar o tema da intolerância e os 21 artistas em cena resulta num misto de artistas já conhecidos pelo público do grupo e novos “caras”. Essa é a verdadeira baderna característica do grupo, misturar diversas singularidades em cena e propor que suas individualidades e experiências contamine a cena, no intuito de assim atingir a um público maior e mais heterogêneo.

Há folêgo no grupo, fato, mesmo que por vezes tenhamos a sensação de que a abordagem do tema pareça um simulacro da realidade. Faltou então que a direção verticalizasse o tema e provocasse seu público de forma mais complexa e caótica, tanto na forma como no contéudo. Os figurinos de Vasquez quando se propõe a não revelar rostos, tons de pele e caracteristicas fisicas se torna uma importante amalgama para reitifica as mazelas que atingi o indivíduo na atualidade, independente de suas origens e caracteristicas fisicas.

O título da peça é uma referência a artista italiana Marietta Baderna, que se refugiou no Brasil aos 20 anos (em 1849) e desenvolveu em terras cariocas sua arte que trazia contestações importantes para uma sociedade machista e escravocrata e claro foi perseguida pelo seu viés ideologico e ovacionada por seus fãs. Porém sua voz é ouvida no inicio do espetáculo e depois é abafada no meio de tantas inquietações. É uma espécie de anti heroina, como a montagem se propõe a lembrar.

Fãs é o que não falta ao Satyros e justiça seja feita, a abordagem do grupo nas questões da homossexualidade masculina já tiveram muitos acertos e o grupo detêm uma dezenas de cenas de peças onde a questão veio a tona. Não há toa, esse tema é o melhor abordado em Baderna Planet. Propicia ao público um misto de ironia, provocação, poesia e improviso, que faz com que o público se inflame e reaja ao proposto pelo grupo. Do beijo ao medo somos inseridos numa abordagem crítica sobre a falta de liberdade afetiva e fisica que segue acometendo gays masculinos e cabeças retrogradas.

O clima de Happening ao qual o público é recebido no inicio da peça, perde força para o melodrama, o que esfria os ânimos, mas não acaba com a relevância das vozes de seus intérpretes e nem com a tentativa de criar uma baderna ainda maior do que já vivemos. Baderna Planet é mais uma das obras construidas pelo grupo que tem por intuito questionar certezas e colocar seu público para fora das caixinhas. É uma luta a se respeitar.

Rodolfo Lima

Obs: a peça permanece em cartaz até 09/11,  de quinta a sábado as 21h

+ informações: http://www.satyros.com.br

(Foto: Henrique Mello)

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