História Natural do Amor

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As narrações sobre as relações amorosas de homossexuais masculinos são frequentemente esboçadas no teatro e no cinema de forma fraturada e aquém ao idealizado. Isso é sempre uma questão em aberta, quase condição sine qua non para quem ousa se apegar a ideologia amorosa. Em História Natural do Amor de Guilherme Zanela ele enfatiza três vezes ao logo da encenação: “aqui não é Brokeback Mountain“. Referência explicita ao filme de Ang Lee lançado em 2005 e que se tornou um dos principais filmes do cinema queer, que entre outras questões, tem como fetiche a relação amorosa e sexual de dois homens cisgêneros, tudo sobre o arquetipo/fetiche dos cowboys.

O que Guilherme quer enfatizar é que não haverá relatos de afeto em seu discurso, não como estamos acostumados a idealizá-los, muito pelo contrário, suas experiências fisicas com outro homem vem alicerçadas por drogas, violência, prostituição, comércio. Ou seja, haja o que houver Guilherme parece ser uma alma com a sensibilidade esburacada. Não é triste, porque o tom que o ator impõe é sisudo e por vezes antipático. Se não há saída para as questões esboçadas por Zanela, o bom séria que ele se soltasse e se divertisse, afinal, ao sentarmos na platéia para ouvi-lo falar, já nos tornamos seu cúmplice, não há o que ele temer.

O texto de Javier Saez e Sejo Carrascosa “Pelo Cu: Políticas Anais” é a plataforma de argumentos de Guilherme que em vez do coração, foca no cu para tecer assim um desconfiado caminho para se acessar os afetos. Não vemos seu coração, mas seu cu. Mesmo que em algum momento ele peça permissão para beijar alguém da platéia, o que se vê é um ato mecânico para enfatizar que o cu nada mais é que a outra extremidade da boca, orificios que Zanela defende com a mesma frieza.

Essa falta de personalização em seu discurso torna pretensioso o resultado. Para os estudiosos do gênero que tem acesso ao texto usado como base para o solo, o resultado não tem um efeito surpresa e nem de choque que por vezes ele pretende. É o trabalho de formação do curso técnico para atores da Escola de Artes Dramáticas – EAD/USP, mas já que a ideia era “rasgar o cu” em cena, que o fizesse sem tanto melindres e porque não de forma a enaltecer essa dádiva que é “ir tomar no cu“. Esse é o desejo dele, mas seu discurso oferece uma visão crítica e agridoce do ato. Onde mora a parte boa disso?

Há associações que parecem exageradas, como a da crucificação de Jesus, afirmações frouxas “o amor é de esquerda”, e? Referências frágeis, como a dança típica do seu lugar de nascença. E lugares emblemáticos citado por Zanela, como que a debochar – como é o caso das saunas gays, famigerado lugar que acaba sendo o recurso de muitos gays para satisfazer o corpo e/ou procurar afeto. Mas Guilherme não chafurda nessa vivência, expõe o corpo – padrão, convenhamos: liso, branco, magro, jovem – expõe suas referências – excessivas e comum a muitos , e parece expor seu passado. Mas falta a Guilherme a vulnerabilidade, o risco, o que o individualize. As escolhas cênicas são tão esquemáticas que isso de certa forma depõe de forma duvidosa para o todo.

A direção de José Fernando Peixoto de Azevedo, que em sala de ensaio, estimulava o artista a esgarçar seus limites, colabora para esse tom de panfleto onde a encenação se encerra. O trabalho com cunho confessional como o que se propõe Guilherme merecia que essas questões nascidas sala de ensaio permeasse a cena diante do público, para que pudessemos ver o lado humano e falho – e sempre bonito e atraente, porque nos iguala – do artista e não um artista supostamente protegido e mecânico.

Entre as escolhas de marcação cênica a grande sacada é justamente ao do filme críticado, ilustrado neste post com uma imagem. É o único momento que podemos vislumbrar fagulhas de afeto, tesão e emoção, em contraponto a frieza e o tom zangado com que Guilherme se apresenta. Ali não é “Brokeback Mountain“, uma pena, mesmo que por segundos é nos ofertada a ilusão de reviver a cena e almejar o fetiche, existe alguém que não o deseje?

Não temos a possibilidade de se afeiçoar ao corpo de Guilherme – ele está nu, mas seu corpo não está a serviço do volúpia do desejo – suas referências carecem de significados que as dignifiquem e façam sentido para além do óbvio e o que nos resta são unir as peças que o ator joga ao público com sarcasmo e pessimismo. Mesmo que seja um trabalho necessário e significativo, não é uma encenação fácil e Guilherme soa como um cubo de gelo, que não sofre alterações diante da troca com seu público.

Rodolfo Lima

*as próximas apresentações da peça em SP são:

19 e 20/10 – Teatro Laboratório da ECA-USP

23 a 31/10 – SP Escola de Teatro

 

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