Cazuza pro dia nascer feliz – o musical

Cazuza-Foto-de-Bruno-Lemos

Existem trabalhos que convidam a uma revisitação. O musical sobre o cantor Cazuza é um desses casos. Primeiro pela personalidade e talento do artista, e segundo por sua importância impar no cenário da música brasileira, quiça cultural do país. Agenor de Miranda Araújo Neto, o famoso Cazuza, morreu dia 07 e julho de 1990 em decorrência das consequências do vírus HIV, aos 32 anos, e marcou profundamente a história da epidemia no Brasil.

O musical dirigido por João Falcão, com textos de Aloísio de Abreu, que voltou em cartaz este ano após sua estreia em 2013 em terras cariocas, continua com fôlego para encher plateias e emocionar. Não é uma tarefa fácil já que hoje em dia muito se avançou no que se pensa e entende sobre ser “tocado”(termo delicado usado para falar sobre soropositivos) pelo vírus. Mesmo com tantas questões emblemáticas na abordagem da doença, o resultado em cartaz no Teatro Procópio Ferreira faz uma bela homenagem ao cantor e não poupa o público ao evidenciar o quanto a doença minuou a energia do artista.

Dividido em dois atos e com quase três horas, o musical exige fôlego e por mais que pareça excessivo, o que nos fica no final é a saudade que o cantor deixou. Suas colocações, suas músicas, seu jeito peculiar de viver e sua poesia. Não é um musical recheado de coreografias, grandes cenários, trocas de figurinos, ou o que se entende por tal gênero teatral. Ao contrário é um trabalho que concentra todas as apostas no protagonista e de como tudo e todos orbitaram a sua volta.

Bebel Gilberto, Frejat e os integrantes do Barão Vermelho, Caetano Veloso e Ney Matogrosso são os artistas retratados em cena, assim como Ezequiel Neves, famigerado produtor de Cazuza responsável por boa parte da carreira do artista. São retratos chapados e sem complexidade, com exceção de Neves que está caracterizado de forma caricata, destoando do toque sutil dado aos outros personagens.

É uma peça de ator, e nesse sentido Osmar Silveira não decepciona. Há empatia e certa semelhança com o artista, o que facilita na hora de embarcarmos na fantasia de estar diante de um ídolo. Silveira sabe fazer bom uso da persona que representa e todos acabam sendo beneficiados. Entre os artistas da primeira montagem, vista por 200 mil pessoas e que passou por 13 cidades brasileiros , está de volta ao palco: Susana Ribeiro (Lucinha Araújo), Marcelo Varzea (João Araujo), Fabiano Medeiros (Ney Matogrosso) e Bruno Narchi (Serginho) e André Dias (Ezequiel Neves).

Outro ponto importante resgatado pela remontagem do musical é a figura ideológica acoplada a imagem do artista. Cazuza é uma espécie de anti herói urbano e burguês que fez do seu corpo e de suas vontades campos de estudos e criatividade. Mesmo que a peça não rasgue a imagem do cantor e o subverta em cena nas questões referente a sexualidade (Cazuza soa como uma bicha deliciosamente afetada. Jamais seria um gay heteronormativo. #amém), há espaço para maneirismos do artista, com uma ou outra trepada. São esses detalhes que humanizam a figura do artista e faz com que transitemos entre o achar engraçado, sexy, louco e inteligente. É um artista que tem sua obra a frente da sua imagem. Um vencedor, sem precedentes.

A citação do episódio em que é ressaltado a capa da Revista Veja, que estampou na primeira página a doença do cantor insinuando que  o mesmo agonizava em público, revela que o lado b da imprensa está entre nós desde do século passado. A doença ocupa todo o segundo ato da peça e torna Cazuza um personagem quixotesco e a imprensa brasileira se tornou mais um dos desafios que teve que enfrentar antes de sucumbir de vez.  Sua luta é triste e linda ao mesmo tempo. O musical nesse sentido – de evidenciar o artista e sua obra – cumpre a função de entretenimento e provocação.

Cazuza ainda é o exemplo de uma figura controversa e fora dos padrões, que pagou o preço de suas escolhas, e que fez do excesso o trampolim para a realização dos seus desejos. Como não se seduzir e reverenciar esse exemplo de alma inquieta e ainda tão necessária para tempos obscuros? São respostas que o musical  não oferta. Saímos do teatro tocados por uma nostalgia incomum, talvez só despertados por artistas insubstituíveis. A montagem de Cazuza por dia nascer feliz – o musical corrobora com essa imagem.

Rodolfo Lima

Obs: a peça segue em cartaz ate 03 de novembro de 2019, no Teatro Procópio Ferreira, sexta (21h) sábado (18h e 21h30) e domingo (18h)

Foto: Bruno Lemos

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