Matadouro

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Em cartaz na Casa da Luz, o solo Matadouro de Órion Lalli propõe uma imersão nas questões sexuais enfrentadas por seu corpo e de tabela por corpos que estão do lado contrário da heterossexualidade e da cisgeneridade. Órion junto com a perfomance, oferta nos comôdos da Casa a exposição “Em.Coitros – Encontros Homoeróticos de um Corpo Soropositivo“, em conjunto as ações se tornam um indigesto mergulho na homossexualidade masculina. Há uma tentativa de poetizar as questões, mas a realidade cruel que tais corpos estão submetidos engole a possibilidade de poesia. Lalli de certa forma sabe, e debocha disso, como um sádico.

Se ao chegarmos ao espaço somos convidados a emergir em imagens de corpos nus, frascos de remédios, e resquicios de memória do corpo do artista, que na condição de soropositivo, procura questionar a relação do mesmo com o mundo que o cerca, ao adentrarmos o espaço cênico o que se propõe ao público e um convivio com a violência homofóbica e a intolerância que agredi fisica e emocionalmente os gays. Não é possível adentrar a sala da perfomance, sem as informações da antesala do espaço. Existe a intencionalidade do diálogo entre a violência que o ator expressa no seu “matadouro” e a que seu corpo sofreu ao ser adquirir o vírus HIV, ou pior, ao ser supostamente desprezado e vilipediado por tal situação? Aparentemente não.

Uma questão: tem como se deparar com a corpo do artista sem as informações que temos acesso antes da perfomance em si?

A questão da soropositividade não vem a tona em cena, Órion trava na frente do público uma luta inquietante com seus anseios, num misto de provocação e sentimentos difusos, que variam da dor para a solidão, imputando mais informações em seu corpo – já inscrito de signos, em virtude das tatuagens – que se debate em busca de uma saída. Um escape para o caos.

Um suposto problema é o fato do artista não constrói uma comunicação afetuosa com seu público, tudo é imposto como que a dizer: “engulam”. O reflexo disso é que a interação fisica com a platéia fica aquém do esperando, pois esse caminho de acesso ao outro não foi estabelecido a contento. Beijar, abraçar ou mesmo se jogar em cena carece uma cumplicidade que não é visto em cena. Mesmo que o artista se mostre receptivo ao seu público na chegada do mesmo.

Em Matadouro cenas são sobrepostas e patinam no lugar comum pois ao revelar imagens e situações de homofobia Brasil a fora, as informações acabam servindo de subtexto para o desconforto que Órion oferta. Essa comunicação por hora velada entre os sentimentos do artista, e hora explicita, pelas informações reais de agressões e assassinatos, preenchem toda a encenação. Essa inconstância de cenas, um misto de cenas improvisadas e pré organizadas fragiliza a peça como um todo e depõe contra a força que o artista leva para a cena.

Há espanto no seu olhar, saudades no seu corpo, aflição nas suas questões. Decupar isso para a cena sem o resultado paracer tão “solto” se torna um problema ao se pensar numa dramaturgia para Matadouro. O fato de ser um trabalho em processo que se faz na frente do público de acordo com a disponibilidade do mesmo, seria uma opção se a proposta fosse toda embasada nessa escolha, não o é. E essa brecha no acabamento enfraquece o resultado.

É como se o hibridismo de linguagens sugerida pelo artista (teatro, dança, artes visuais, performance) tivesse resultado numa mistura difusa de referências. Digo isso, pois a força de toda a provocação que o artista se propõe a instigar esta em seu próprio corpo. Como se fosse um bacante desgarrado e carente, que com sua dança, suplica empatia.

Finalizar a performance ao som da música “My Way” é uma opção agridoce para um artista que apesar do caos que o preenche, dentro e fora do seu corpo o que vemos e vida pulsando a espera de acolhimento, reconhecimento e validação. Uma busca insana a que muitos gays estão submetidos. É uma performance assumidamente gay e para o emponderamento do mesmo. Uma pena que o artista não tenha conseguido – dessa vez – fazer com que o público mergulhasse junto com ele e nele. Desnudando assim um desespero coletivo, mas que parece abafado dentro de cada um de nós.

Rodolfo Lima

Serviço:

Casa da Luz

Rua Mauá, 512 – Luz

Dia 22/10 – 20h – Contribuição voluntária no final da apresentação

#últimapresentação

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