Eu de você

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Não há nada que comova mais nos dias de hoje que uma experiência a partir de fatos e sensações reais. Ou quando se pode comprovar/sentir emoções de fatos. Estamos tão saturados de tecnologia e relações efêmeras e digitais que o simples olho no olho por vez causa pequenos abalos internos. De posse dessa possibilidade de encarar e ser encarada, afetar e ser afetada, Denise Fraga sobe sozinha ao palco em seu primeiro monólogo: Eu de você. Na estrutura não há novidades,são histórias reais, que a atriz se utiliza para teatralizar situações e emoções. De cara a primeira referência é o quadro “Retrato Falado” – que foi ao ar no Fantástico, em dois período 2000 a 2001 e 2003 a 2007.

A fórmula: pessoas comum escrevem cartas, a atriz dá vida a elas. É a mesma premissa da peça, livremente inspirada em narrativas reais. Com direção do marido, Luiz Villaça, poderia ser mais do mesmo, mas a atriz dá um salto em sua performance ao se mostrar vigorosa em cena. Denise tem empatia de sobra, uma capacidade de imprimir verossimilhança que se não é um dom, não acho outro termo melhor para nomear essa qualidade que a atriz carrega de sobrepor verdades e intenções no seu corpo mignon.

Foram 34 cartas que serviram de base para a dramaturgia da peça. Na ficha técnica 5 pessoas respondem pela dramaturgia (Denise, Cassia Conti, Fernanda Maia, Villaça e Rafael Gomes), 3 pelo texto final (Gomes, Denise e Villaça) e 3 pela colaboração dramatúrgica (Geraldo Carneiro, Kenia Dias e José Maria). Não deixa de ser uma surpresa a forma como o texto – “construído” por 8 pessoas – decorre sem fissuras e vai envolvendo o público de forma delicada e tocante. A costura dramatúrgica é grande pois além das cartas, junta fragmentos de autores como: Valter Hugo Mãe, Fauzi Arap, Drummond, Clarice Lispector, Bertolt Brecht, Joel Pommerat e Leminski.

A direção coloca a atriz cara a cara com o público numa forma de enfrentamento e por que não, uma forma de apelar para a sensibilização do público. A graça? Funciona. Denise consegue concentrar todo o foco do público em sua voz, corpo e personalidade, oferecendo sutis mudanças em corpo e voz, que faz com que sejamos apresentados, ou suponhamos nos aproximar, dos reais protagonistas das histórias. Sem os colegas de cena, sem elementos que a amparem, além do seu corpo e da cumplicidade do público,  Denise se mostra uma atriz versátil e com fôlego para, sozinha, dar conta de tantas singularidades.

As “minorias” tem destaque – negros e homossexuais (inesquecível a história do homem assaltado pós karaokê) – bem como temas delicados como a morte. Nesse último caso vale perceber como a atriz se joga no desconhecido ao buscar a emoção olho a olho com seu público. O texto é difícil, a proposta arriscada, o resultado da marcação imprevisível. E o que resulta disso é uma performance honesta e direta, que cativa pela possibilidade de vislumbrar o desnudamento emocional de Denise.

Num primeiro momento, o formato lembra o solo de Clarice Niskier “A Alma Imoral“, onde nua e de posse de uma pano, a atriz narra reflexões e pensamentos colhidos do livro de nome homônimo de Nilton Bonder e em cartaz desde 2006. Se Clarice apresenta textos mais complexos e de difícil digestão. Denise apresenta histórias mais palatáveis e não menos simbólicas e com possibilidade de reflexão.

Outra referência possível é o filme “Jogo de Cena” (2007) de Eduardo Coutinho. Onde vemos atrizes famosas ao lado de mulheres comuns tendo suas histórias,emoções e percepções do mundo metamorfoseadas, colocando em xeque os limites da dicotomia realidade x ficção. Em Eu de você, Denise recebe o público – prática comum em suas peças, já faz uns anos – e dialoga como conhecidos e desconhecidos como se todos fizessem parte do seu hall de amizades. A opção pela utilização da projeção de rostos de anônimos, em contrapartida a imagem famosa da atriz, corrobora com o insubstituível documentário de Coutinho. “As canções“(2011), outro filme do cineasta também pode ser associado ao solo da atriz.

O encantamento da atriz pelo cotidiano é inspirador e bem vindo. E se parte da solução para um mundo mais pacifico e harmonioso recai na empatia pelo outro, olhar para o lado, mesmo quando o lago de nossas vaidades e saudades nos obriga a olhar apenas para a frente é uma metáfora poderosa, um grito de alerta da atriz para que sobrevivamos melhor e possamos reverberar mais solidariedade e cumplicidade. O teatro de Denise é de comunhão. Não há como sair ileso do seu jogo cênico e da nossa inevitável necessidade de se conectar com o outro.

Rodolfo Lima

Obs: A peça segue em cartaz no Teatro Vivo até 15 de dezembro de 2019, de sexta a domingo, respectivamente nos seguintes horários: 20h, 21h e 19h.

+informações: @eudevoceoficial @denisefragaoficial

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