Frutas & Trangressão – História para Tangerinas e Cavalas-Marinhos ou Paulestina Livre!!!

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Uma das pautas mais inflamadas da atualidade são as questões sobre gênero. O que define e como deve se portar um homem e uma mulher se tornou assunto vigente e fez com que retrocedêssemos no avanço das liberdades individuais. A potência das individualidades transexuais, luta há anos, numa especie de cissão que há entre o que se denominou macho e fêmea, para poderem se sentir legitimadxs no lugar que desejar, sem que isso dependa da genitália. O país nas mãos de governantes retrógrados e preconceituosos é só uma faceta do massacre que as singularidades não heteronormativas sofrem. A diferença de “ontem” para “hoje” é que agora elxs reagem com visibilidade. Um dos ganhos das redes sociais é a possibilidade de dar voz a todos, inclusive para quem corre a margem da famigerada “família tradicional brasileira“.

“Você late dentro da minha cabeça“, é a metáfora mais poderosa alcançada por Manfrin em seu “solo coletivo”, responsável pela concepção de  “Frutas & Trangressão – História para Tangerinas e Cavalas-Marinhos ou Paulestina Livre!!!” A frase contém de forma simples a agressividade e o desconforto com que a intolerância e a agressividade reverbera no outro. Mais complexo do que trabalhar em cena as questões da transexualidade e suas dissidências, o universo em que Manfrin se debruça é o da não binaridade, de pessoas que se assumem como fluídas e portanto não se encaixam em nenhum estereótipo de gênero, não de forma limitadora e conservadora.

Para falar sobre corpos abjetos e que transitam entre o pré estabelecido,  a artista se coloca em saco de lixo, se joga no chão, se deixar penetrar por objetos, colore o cabelo, se enche de acessórios para tentar preencher o vazio interno de não se sentir pertencente a nada. Esse vácuo da sociedade em que as pessoas que lutam por poderem se expor ao mundo da forma como desejarem, se encontra mais vivo e eficiente do que nunca e não pode ser mais ignorado. Primxs de outrxs apartadxs (negros, mulheres – por exemplo) de uma sociedade  heteronormativa, supostamente branca, machista e patriarcal, indivíduos não binários são como camaleões que agonizam em praça pública. Pois o achincalhe, infelizmente, vem de brinde para sua postura fora da norma.

Diante desse universo caótico de difícil compreensão para quem não trabalha com riscos e experimentações na vida pessoal e íntima, e nem sofre com disforia de gênero toda vez que se olha no espelho – por exemplo – o mise-en-scéne criado pro Manfrin, talvez seja tão caótico quanto o material que perpassa sua mente ou como os “normais” o vêem. Esse caráter bizarro e risível, ganha força quando a encenação borra a obviedade com pitadas da singularidade dos presentes na arena cênica, fazendo que observemos com realce a potencialidade de cada corpo e no que ele contém de especial.

Na peça-teatro-performance-show-gritodealerta-happening a profanação parece ser a escolha inevitável para se fazer entender e devolver – como numa especie de refluxo – toda a indigestão que um mundo imposto por terceiros, fez com as individualidades, e o quanto a obrigatoriedade de alcançar um lugar, uma postura, um formato, é danoso e deixa marcas que o indivíduo carrega indesejadamente.

Desse lugar inóspito onde os não binários vem a público se revelar. Ouve-se diversas vozes. Felizmente o campo das artes – essa babilônia imprescindível para o ser humano – ainda permanece catapultando essa humanidade liberta de códigos cafonas e segregadores, para que numa operação a fórceps, se possa operar com valentia diante da caretice e da estupidez que é querer invadir a subjetividade alheia com as próprias certezas. Manfrin, tentou dois anos ser homem, tentou dois anos ser travesti, se rotula fruta, para que assim possa caminhar com suas tentativas sem ser (mais) violentadx. Quanto de nós não já não se sentiu assim?

Talvez careça ao Coletivo Profanas (todos xs integrantes do coletivo que realizou o trabalho) depois desse manifesto em prol de mais humanidade para seus corpos, trafegar por um lugar onde a questão do feminino e do masculino se torne mais ridículo e déjà vu sem que o grupo precise impor com obviedades as velhas questões clichês. Esse primeiro movimento do Coletivo para “dar a cara a tapa” compõe com força a cartela de trabalhos que ousam se debruçar por campos minados.

E para essxs corpxs, o acabamento artístico e as definições do que é artístico e as supostas definições estéticas para o que é o que é não é legitimo caem por terra, quando o que se deve fazer diante de corpos que agonizam por relevância e respeito, e se debate diante de nossos olhos incrédulos e cansados, talvez incapazes de olhar além do obvio com naturalidade e vigor, é apenas se calar e observar.

É por isso que tangerinas, cavalas marinhos, transexuais e pessoas não binárias são importantes e sempre bem vinda no campo atual das artes. É delxs que vem o ar que respiramos para não desistimos e achar que tudo nos será castrado e cerceado. Compreender dói e é cansativo, pressupõe uma disponibilidade interna de olhar para quem está ao seu lado e ver com mais generosidade o outro.

Frutas & Transgressão…” talvez não renove esteticamente as questões, talvez não se enquadre, talvez não tenha acertado em todas as escolhas cênicas expostas. Mais que importância tem o acerto e como mensurá-lo,  para quem vive sob o signo do erro?

Vá lá lutar com elxs ou pelo menos presenciar – e na melhor das hipóteses, aprender – com o que elxs tem a dizer!!!

Rodolfo Lima

(Foto: Elza Cohen)

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