Evangelho Segundo Jesus – Rainha do Céu

Nereu Jr Imagens

A edição da 7° Mostra Internacional de Teatro – MITsp trouxe em sua programação uma peça bastante emblemática para o cenário queer nacional. A dramaturga Jo Clifford ficou bastante conhecida no país, depois que Natália Mallo resolveu montar uma versão de seu texto em terras tupiniquins e teve o corpo da atriz Renata Carvalho como a plataforma para catapultar a poesia da dramaturga inglesa. A versão nacional de “Evangelho Segundo Jesus – Rainha do Céu” é uma peça seminal para se entender as questões enfrentadas por indivíduos transexuais, dentro e fora do palco. E se Renata se projetou com a peça, ela também – de tabela – ampliou a transfobia de muitos e de um sistema misógino, patriarcal e machista, alertando para que se mudasse o paradigma de como se entender os corpos trans. Ou seja, é algo para ser pautado sempre. Não há como ignorar a montagem nacional, mesmo que esteticamente ela não apresente nenhuma novidade.

A possibilidade de ver a montagem original é também a possibilidade de ver em perspectiva toda a situação: corpos trans em cena; artistas trans; um texto que ousa na subjetivação das questões religiosas e que longe de buscar o choque ou o embate feroz, busca um apaziguamento entre os gêneros estabelecidos e as diferenças sexuais. Afinal se Jesus é a representatividade de todo ser humano, ele ser exaltado como um homem é uma visão limitadora. É nesse ponto que a peça avança ao mudar o foco do olhar do narrador, branco e heterossexual, detentor em sua maioria de punições e regras.

Sai o “homem” e entre em cena uma mulher, hibrida, que assim como no mito grego do/da hermafrodita tinha em sua força e sua representatividade multiplicada por dois, já que carrega(va) em si o feminino e o masculino. Jo e Renata estão então para essa “divindade”, assim como nós, reles mortais, estamos submetidos a ideologia de gêneros e separados entre “quem pode vestir azul” e “quem pode vestir rosa“.

Diante desse panorama, a oportunidade de ver Jo Clifford se tornou indispensável. Principalmente para quem tem interesse nas questões trans bifurcadas com a arte e/ou com a religião. Pois bem, a figura de Jo não é imperativa por nenhum arrombo. Ela surge em cena com um vestido branco e um all star vermelho com cardaço colorido de forma singela e respeitosa. Sua figura quer antes de tudo ser ouvida, ser respeitada, aceita. A dramaturga associa-se a Jesus para que assim possamos entender que a humanidade tem uma visão deturpada de algumas histórias da bíblia e consequentemente seus ensinamentos. Renata Carvalho ao adentrar a cena já contém em seu olhar a ambiguidade de um corpo que não se sabe querido.

O público se divide em quem senta na mesa de “Jesus” e quem vê da plateia. Para Jo, qualquer um pode vir a ser um dos apóstolos, ou seja, nossas verdades e individualidades podem ser misturadas e validadas independente do nosso gênero ou sexualidade. Essa associação por si só já contém metade do que a encenação defende. Comer do seu corpo, beber do seu sangue são metáforas que perdem forças quando todos dão a mão em volta da mesa e reza. Estava na mesa, mas queria ter visto de fora a reconfiguração dessa potente imagem. Na montagem nacional Jesus permanece em seu pequeno altar/mesa como a nos relembra que sim, a uma diferença, por mais tola que ela seja.

Para alguns a comparação a reducionista e passível de grosserias, mas considero que ela é por vezes potente para se entender os caminhos e a potência de cada artista/ideia/proposta. E se Renata Carvalho avança de forma irreversível sobre seu público de forma irônica e debochada, Jo busca um caminho da evangelização, literalmente. Como se seu corpo cansado e envelhecido pudesse conter toda a sabedoria que é negada a corpos como o de Renata Carvalho. Sim, faz diferença a forma como as atrizes se portam em cena e ver Jo, foi um exercício para buscar na memória a montagem de Mallo para que assim entender o que ficou de todo esse “Evangelho…” – montagem essa (a nacional) que vi 4 vezes (1° ensaio aberto/ SESC Pinheiros/ Mora Mundo/ FESTARA).

Renata expõe seu corpo para ser vilipendiado pelo público. Essa ampliação do entendimento do texto de Jo faz toda a diferença. Lembro que no primeiro ensaio aberto, a presença em cena de Renata também continha essa contenção e certo apagamento de uma individualidade agressiva e/ou deturpada e que fui um dos que levantou a bola de que “nosso Jesus” tinha que mostrar de onde éramos. Renata, uma travesti periférica de Santos. Esse corpo continha um carga que por si só potencializa as palavras encandeadas de Jo. A montagem nacional portanto é um potente complemento a montagem original, também dirigida por uma mulher, no caso Susan Worsfold.

Se a atriz brasileira tem na exposição do seu corpo e na sua acidez implícita muito do componente que faz com que a versão nacional seja comovente e esclarecedora e na encenação inglesa que temos a impressão que nos aproximamos dos nossos semelhantes. Funciona de forma simples e pontual a mesa e todos ao redor. Mesmo que sem apelar para sentimentalismos ou chavões religiosos, por vezes todos os elementos em cena fazem sentido. Poderia eu beber do mesmo corpo que Jo, ser afetado por seu olhar ou desprezado por sua presença. Essa configuração desse corpo próximo a mim, sem estar diretamente em mim, é sempre uma opção interessante, pois a quebra da quarta parede brinca com a ficcionalidade da cena.

É uma pena que a MITsp não bancou a concepção original e conseguiu colocar o trabalho numa igreja para que os símbolos locais pudessem dialogar com o todo. As luzes se acendem e nos lembramos que não estamos numa igreja, isso faz uma diferença. Já que a força da versão inglesa está muito na encenação. Quando vemos Renata na luz fria somos eclipsados por sua figura porque o Evangelho é tudo o que seu corpo poderia representar e não o faz porque a preconceito não deixa. Portanto são visões diferentes e complementares de encarar um belíssimo texto, que tem força independente de sua interlocução.

Na mesa da apresentação do sábado, havia vários corpos trans ao redor da mesa da Jesus de Jo. Havia um emponderamento importante ali, conquistada pela montagem nacional. Não havia como encararmos a versão original sem ler. Naquela noite nenhuma delxs apanhou ou precisou sair correndo com o desespero nas mãos, sem contar com a solidariedade alheia. Foi um momento emblemático e importante, celebrada pela presença de Jo Clifford. #amém

Rodolfo Lima

 

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