Donna Summer Musical

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O teatro se tornou um campo prolifico para biografias de artistas da música. São inúmeros os  exemplos que se acumula e agora em São Paulo temos a opção de conhecer um pouco mais sobre Donna Summer (31/12/48 – 17/02/12) e seu reinado como Rainha da Disco Music. Condensar uma história de vida cheia de altos e baixos não é tarefa fácil e requer escolhas por vezes duvidosa, uma delas é não se aprofundar na história do biografado, já que musicais, são por princípio, entretenimento. O que é uma pena, pois é justamente seu caráter grandioso que poderia proporcionar um adensamento do público na história, já que cenas bem feitas e músicas  bem cantadas são imbatíveis para o público em produções de grandes portes.

O que mais chama a atenção em Donna Summer Musical é o visual charmoso que se dá a produção nacional. A versão original estreou em março de 2018 na Broadway e teve na plateia o diretor Miguel Falabella, que assina a direção local. Se o profissional não mexeu na estrutura musical, foi na parte do cenário e figurinos que sua direção pesou mais. É de longe o grande trunfo da montagem.

O cenário é composto por três estruturas gigantes, revestidas por ACM Espelhado que nos remete a um ambiente de discoteca e é utilizado de forma assertiva e atraente. Essas estruturas se abrem e se fecham e marcam mudanças de cenas e as trocas de figurino (são mais de 150).  Outro chamariz da concepção cênica do espetáculo, a cargo de Zezinho e Turíbio Santos são os globos espelhados sobre a platéia. O resultado desse último é ok, potencializado – bom ressaltar – pela iluminação criada por Caetano Vilela – o efeito de arco iris que em dado momento se cria com a iluminação é belo e conceitual.

Outro fator que ajuda a deixar o musical com uma cara mais “classuda” são os figurinos conceituais de  Theo Cochrane. Se as Donna’s (a protagonista é dividida por três atriz em diferentes fases da cantora: Amanda Souza/Jovem Donna, Jeniffer Nascimento/Disco Donna e Karin Hills/Diva Donna) usam figurinos brilhosos e chamativos, o resto do elenco tem suas roupas com cortes básicos (com poucas exceções) e muitas cores. Particularmente acho que é uma opção charmosa, que dá brilho ao ambiente sem parecer impositivo. Os prêmios nacionais direcionados aos musicais vão ter uma grande dificuldade em ignorar a qualidade oferecida em Donna Summer Musical.

A versão brasileira para o texto concebido por Colman Domingo, Robert Cary&Des McAnuff  ficou a cargo dos atores (de musicais) Bianca Tadini e Luciano Andrey. Não é possível precisar o quão se modificou para as plateias brasileiras. Mas a história de Donna é um pouco a história de muitas mulheres negras. Família pobre, numerosa e religiosa, talentos precoces se virando como podiam, machismo, misoginia, violência sexual e doméstica, abuso de poder, desvalorização financeira em razão do gênero feminino e o grande dilema entre se dividir entre o trabalho e a família. Exemplos tupiniquins foram as biografias de Hebe Camargo e Elis Regina, que em cena também trouxeram tais dilemas, e que assim como Donna, as colocaram como feministas em potencial, lutando pela própria individualidade sem abrir mão de sua profissão.

Vale ressaltar que o musical é também a oportunidade de evidenciar o protagonismo negro na história cultural da música americana. Sua música “Bad Girls” (por exemplo) provavelmente embalou cantoras como Rihanna e Beyoncé (divas do século XXI) que tem diversas músicas dançantes e que também se colocaram e exaltaram comportamentos considerados transgressores e errôneos em corpos femininos. Numa simples associação Rihanna pode facilmente ter herdado em suas letras o lado B de Donna – referência indispensável para (por exemplo) cantoras negras de todas gerações.

O recurso das facetas da protagonista dialogarem, como se as diversas Donna existissem numa mesma mulher dá um tom grandioso para a personagem, exaltando o mito em que ela se tornou. É uma peça para exaltar sua vida e sua arte. Está declarado e posto. Porém se Falabella não oferece grandes cenas dramáticas – as poucas que há parecem destoar do todo – também não o faz em cena cômicas. O que dá um tom sóbrio ao musical. O que é ótimo e dá uma sensação de novidade para o público de musicais.

Obviamente que a atenção recai para  Karin, Jeniffer e Amanda e suas potencias vocais, afinal é um musical e o público quer grandes performances. Se Amanda é a novata da vez e imprime verosimilhança aos dilemas de Donna com sua voz potente e seu ar juvenil e Karin a conhecida atriz e cantora do público, é Jennifer que surpreende com sua  primeira protagonista em musicais. A atriz imprime empatia, desenvolve as coreografias sem perder o fôlego e tem um alcance invejável. Ou seja: nasce uma estrela.

Mesmo que você não conheça ou seja fã da Dance Music, deve se interessar pela trajetória de Donna, já que é uma montagem atraente e bem conduzida. Cria-se uma expectativa para “o grande momento” – em musicais sempre há aquela cena-ápice – e ele não ocorre. Com o tempo de duração aquém do habitual (a peça dura cerca de 100 minutos) a canção ícone “Last Dance” (Oscar de melhor canção em 1978) aparece para encerrar a apresentação. Sim, isso é um spoiler, desculpe!

Donna Summer Musical não nos permite experienciar o fim da vida, da cantora que morreu em função de um câncer do pulmão. De certa forma o musical celebra a vida e os feitos, sem que o público tenha acesso ao fim. É assim que funciona em grandes baladas, e é o cerne do ambiente da Disco Music. Na pista, não existe dor nem fim, só o momento presente e os corpos que se agitam e vibram. Assistimos sentados ao musical, mas seria ótimo se pudêssemos levantar e dançar, e fazer valer a máxima da artista que dizia que no fim de tudo deveríamos estar dançando.

Rodolfo Lima

(Foto: Caio Galucci)

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