Olhares de perfil – O mito Greta Garbo

Mas do que nunca o teatro se tornou um lugar de resistência. Para além das questões de subsídios públicos para a criação de trabalhos teatrais, os artistas têm que enfrentar uma plateia vazia – agora em função das consequências da pandemia do Covid 19. Ando acompanhando o teatro presencial nessa (lenta) retomada e levar o público de volta para a caixa preta vai ser outra batalha para o artista.


Trabalhos como o de Roberto Cordovani que avançaram décadas, enfrentam outra questão, que é a falta de ineditismo. A nova temporada alavancada pelos recursos do PROAC LAB – Lei Aldir Blanc, traz a possibilidade para que as pessoas conheçam o trabalho do ator e vá ganhando confiança para voltar aos palcos.


“Olhares de perfil – O mito Greta Garbo”, faz curta temporada no Teatro Commune e oferta ao público um duplo programa, se aproximar do mito Greta Garbo (1905-1990) e do próprio ator, que tem como premissa levar personagens femininas – real e ficcionais – ao palco. Foi assim como Isadora Duncan, Eva Perón e a protagonista do romance “A Dama das Camélias”. Diante dessas informações é suposto que o ator está “contaminado” pela sensibilidade feminina e seus trejeitos. 


Não é a primeira peça de Cordovani sobre o mito GG. Porém é a primeira vez que sento para assistir sua composição. Mesmo diante dessa dicotomia, faço considerações para o referido trabalho em cartaz atualmente, pois embora sua personificação da mítica atriz passe de três décadas, o ator parece “engessado”.Cordovani, sabe o que faz e o faz com competência. Porém a impressão que se tem é que ele “troca” pouco com os artistas que o acompanham em cena. E isso é evidenciado com a relação estabelecida entre Gustaffson/Greta (Roberto Cordovani) e Jorge (Alan Ferreira), um fotógrafo que é atraído pela ambiguidade do ator/mito em cena. Explico. 


A sinopse parte do pressuposto que Garbo fugindo dos holofotes, poderia estar disfarçado de ator interpretando a si mesma num teatro off Broadway. O jogo cênico sugerido ao público é procurar “adivinhar” se o que vê, é a atriz interpretando um ator qualquer, ou um ator personificando a atriz. Diante dessa ambiguidade, o fascínio do público é exemplificado na personagem do fotógrafo. Se a composição de Ferreira traz um homem bonachão, chucro, talvez seja para criar uma oposição para o rebuscamento e mistério que Cordovani imprimi em cena com sua personagem. Se o fotógrafo parece sedutor a princípio, diante da fragilidade de Gustaffson, o que se vê no decorrer da encenação é justamente o enfraquecimento desse jogo de sedução, diante da frieza com que Cordovani se impõe em cena. Alan para sair da caricatura precisa que seu colega de cena “jogue” mais. Porém quando vimos que Cordovani não abre mão do arquétipo de femme fatale solitária e durona, a encenação perde pela falta de nuances e da impossibilidade de suscitar uma expectativa na platéia.


Vale ressaltar que o texto escrito por Cordovani e Alejandra Guibert tem colocações poéticas e tocantes; a direção do trabalho com o mínimo de recurso cênico resolve tudo com simplicidade e competência;  a trilha sonora e a iluminação cria um ar de melancolia e mistério que potencializa o clima noir da encenação. São pontos positivos do trabalho.


Se a sinopse sugere uma dualidade na interpretação do público, para mim ficou claro que não se trata de Greta em cena, e sim de Gustaffson, um ator interpretando sua diva. O tempo todo o personagem é referenciado no gênero masculino e não é muito claro o por quê a relação sexual do ator com o fotógrafo fracassa. A encenação abre margens para outros diálogos para o espetáculo, creio eu, como o homoerotismo, a ambiguidade presente em indivíduos não binários, a atração de gays por suas divas e de homens atraídos por outros homens vestidos de mulher. 


A presença do Manequim (Ruben Gabira) reforça meu ponto de vista, já que o que vemos é o mito Greta Garbo fora do corpo do ator – Gustaffson no caso – mas permeando o imaginário do artista, como uma assombração, um arquétipo, um vulto, que poderia ter sido criado na mente daquele artista. No embate entre Gustaffson e Jane (Ruben Gabira) vimos um Cordovani menos sisudo/engessado. E embora seja clara a composição do ator para sua diva, fica evidente também que o ator pode estar trabalhando no automático e a composição de sua mulher implacável e enigmática potencializou minha impressão.


“Olhares de perfil…” tem uma atmosfera classuda e Cordovani faz bastante com pouco. Que é um artista inteligente, não se questiona. Vale o ingresso. A poesia está lá, somos provocados a querer saber mais sobre GG e se você (leitor) é como eu, que aprecia um trabalho de composição de personagem, verá um exemplo significativo dessa técnica. Mesmo que fique evidente as diferentes composições dada aos outros personagens da peça. 

Assim como Cordovani nos convida a rever o mito Greta Garbo e provavelmente o próprio o fez durante todos esses anos em que a interpreta, creio que vale a direção rever as escolhas no jogo entre as personagens, para que possamos ser jogados no valão das emoções e da fantasia e assim como Gustaffson, chorar contido, resignado com a dureza da realidade impressa na cena.


E seria de bom tom também a utilização do artigo feminino para se referir “A” travesti ou a “UMA” travesti. Soa indelicado o uso do artigo masculino para se referir a essas individualidades. Se a própria Greta Garbo se ressentiu por não poder levar a cena personagens que fugissem do seu estereótipo, vale ai uma atualização na dramaturgia para as vivências trans. 

Rodolfo Lima

*A peça segue em cartaz todos os sábados (20h) e domingo (19h), até 17/10/2021. Teatro Commune – Rua da Consolação 1218 – Higienópolis (11)3476-0792 – R$60 – Ingressos: http://www.sympla.com.br

**Foto: Marisa Pereirinha

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