Naked Boys Singing!

Naked Boys Singing! estreou dia 16 de outubro em São Paulo e logo depois teve seus ingressos esgotados. A temporada vai até 19 de dezembro de 2021 no Teatro Sergio Cardoso. Não se pode dizer que isso seja febre de teatro presencial, pois nem todas as salas em São Paulo estão com sua plateia lotada. 11 homens nus foi o impulso para que o público se manifestasse de forma tão pontual. O falocentrismo é notório e inquestionável, e a dramaturgia ressalta isso. Logo na primeira canção os atores afirmam que a plateia pode olhar a vontade, sem se sentirem constrangidos. Enquanto os mesmos balançam seus membros, os distraídos são fisgados. 


O jogo cênico é simples, cenas curtas sobrepostas, enquanto os atores desfilam nus em tom cômico e debochado. A plateia lotada parece “ganha”. Aplaude e reage com facilidade, mesmo quando o desempenho não é a contento – se o parâmetro for as performances de atores em musicais. A direção de Rodrigo Afner cometeu o deslize de trabalhar só no registro dos arquétipos e tudo se dilui, pois parece pueril e esquecível. Se o intuito era entreter e misturar riso com malícia, essa última faltou – já que em em nenhum momento a peça propõe um risco ao adensar as relações e/ou marcações – tornando as mais ousadas, o que é uma pena. A mistura de riso, risco, tensão e provocação teria sido mais potente, mas tudo vira um pastiche fetichento para satisfazer a plateia sedenta por: pau, literalmente.


Se o desejo era exaltar a poesia dos corpos masculinos nus, faltou um pouco de tato de entender que em alguns momentos seria mais interessante baixar o tom cômico e deixar que o enredo das cenas conduzisse o desfecho, que não precisaria ser engraçado. Que é o que acontece com a cena do casal interpretado por Rairo e André Lau. Um beijo (pra valer, o que não é o caso aqui) pode ser bem mais impactante e sedutor do que um corpo nu – por exemplo.


Idealizado pelo americano Robert Schrock, a peça estreou na Broadway em 1998. Trata-se de uma sequência de 15 esquetes no estilo vaudeville. Afner teve a liberdade para adaptações e duas de suas escolhas soa duvidosa: a citação ao deputado federal (nem vou me ater a dizer sobre suas opiniões e colocações) Alexandre Frota, que como ator posou para a GMagazine. Tantos atores/celebridades já fizeram isso, que citar Frota soa no mínimo de mau gosto; Um solo inteiro dedicado ao fetiche em homens rústicos como os personagens interpretados por Amácio Mazzaropi (09/04/12 – 13/06/81). Foi o tipo de escolha bem duvidosa pois ele não seria referência nem para os homens gays e nem para as mulheres. E numa adaptação mais pertinente, há outros “modelos” de homens rústicos que poderiam ter dado conta dessa metáfora.


Cenas em vestiário masculino,  homens circuncisados, homens que oferecem seus trabalhos domésticos nus, homens sofrendo por amor, a masturbação masculina e claro… a lendária cena (gay) de homens nus dentro da sauna. O espetáculo não é assumidamente gay, mas os clichês estão todos lá. Inclusive com a inserção de cenas onde o diretor exalta o feminino e uma identidade não binária – por exemplo. Cenas coletivas, como a da masturbação, são mais interessantes pois preenche o palco e não mostra tanto a fragilidade cênica de alguns atores.


São Paulo já teve uma adaptação dessa peça em 2003, que estreou no Teatro Augusta (infelizmente, fechado) pela direção de Zé Henrique de Paula, Se não me falha a memória, uma encenação mais viril – por exemplo. Encenado graças ao PROAC LGBT, “Naked Boys Singing!”deve voltar a cena em 2022, afinal, a depender da reação do público a essa primeira temporada, a procura é grande. Afner já levou a cena a questão da homossexualidade com sensibilidade ao dirigir “O Príncipe desencantado – O Musical” (2017), pena que nessa nova direção, não oferece ao público nada além do que uma celebração festiva e vazia da homossexualidade masculina.

Rodolfo Lima

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