Encantado

A capacidade de fabulação da dança nem sempre é fácil de ser digerida pelo público. Por vezes hermética e rebuscada, é uma linguagem artística que se torna acessível para poucos. Seja pela falta de hábito – infelizmente – do acesso a esses trabalhos, seja pelo valor dos ingressos, ou mesmo pela falta de bagagem cultural. Todos entendem e se contaminam por um corpo dançante. Mas nem todos são capazes de “ler” essa manifestação. Sempre precisa ser lida? Não pode ser apenas sentida? Pode. Deve. A dança é também uma das linguagens mais democráticas, pois não precisa fazer sentido, só precisa ser sentida.

“Encantando” da Companhia de Dança Lia Rodrigues, que estreou em Paris, ano passado, consegue unir com potência e beleza essas duas pontas da dança: a expressão do corpo, sem proselitismo, com a possibilidade de se ler e fabular narrativas e imagens a partir do que se está vendo. Ok, essa última é subjetiva, e todas as expressões artísticas são carregadas dessa potência. Mas, o trabalho em cartaz no Sesc Pinheiros tem por objetivo a recriação de mitos, seres encantados, de personagens “mágicos” e populares que perfazem a história da cultura brasileira. É um acerto de Lia.

Você senta para ver e é automaticamente capturado pelas imagens que vão sendo construídas na sua frente. Corpos nús + panos e as imagens se formam, simples assim, pontual assim, especial assim. A peça com duração de 60 minutos dura o tempo certo para não cansar e nem causar desinteresse. A narrativa vai num crescente nos mostrando o quão a criatividade e versatilidade dos bailarinos é bem vinda e atraente.  Seduz pela beleza das cores, pela diversidade dos corpos, pelas estampas que camuflam e confundem nosso imaginário, de forma lúdica e singela. É a mais bela opção, quando se opta pelo simples, pelo pequeno, pelo aparentemente banal. Lia Rodrigues faz de gestos e estampadas cotidianas um potente material de (re)criação, nos colocando de frente com o que há de mais sagrado em nós: a imaginação. 

É uma pena o trabalho ser visto (apenas) como uma obra “adulta”, muito em função da nudez dos artistas, que não tem a menor importância na cena, é apenas para evidenciar um corpo desprovido de significados que se molda na frente do público a partir de códigos e gestos que são construídos e jogado fora no momento seguinte, potencializado o hibridismo e as potencialidades do quanto podemos ser, virar, ter, imaginar. E se “Encantando” trabalho com panos (140 ao todo) e estampas, o potencial imagético do adulto, do que será capaz de provocar, ativar e estimular nas crianças e adolescentes? Arrisquem-se, não ignorem a capacidade de compreensão dos “pequenos”. “Encantado” é para todos, uma proposta seminal a favor da imaginação.

Inspirado no aclamado romance “Torto Arado” de Itamar Vieira Junior, o livro serviu de base, mas a sensação é que se torna figurante. Todas as imagens podem ser facilmente assimiladas e compreendidas a partir da bagagem do espectador, sem a necessidade de compreender a narrativa do livro. Se o intuito da montagem é trabalhar com o encantamento e nossos medos diante do desconhecido e do assombro do novo, o que se propõe ao público é uma viagem pessoal e encantadora por lugares que podem ser vista pela ótica dos pré-conceitos, mas que na cena de “Encantado”, perde sua força negativa e ganha status de novidade atraente. Atente-se para a instigante trilha sonora do povo indígena Guarani Mbya. Se entregue a essa experiência, você não sairá do teatro o mesmo. 

Rodolfo Lima

Encantado

Companhia de Dança Lia Rodrigues

Sesc Pinheiros

Teatro Paulo Autran

Sexta a domingo, até 10/04

R$40 (inteira) R$20 (meia)

http://www.liarodrigues.com/

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