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Gavião de duas cabeças

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A questão indígena é um ponto inflamado na história do Brasil que segue sem uma resolução que dê conta de preservar a história dos indígenas e satisfazer os desejos e a necessidade do homem e do capitalismo. Fomos educados de forma ingênua sobre tais questões a ponto do tal “Dia do índio” se tornar uma piada. Não se pode falar em celebração quando as singularidade e os direitos de tais povos seguem relegados e de certa forma desvalorizado. O solo Gavião de duas cabeças é um belo exercício de alteridade oferecido por Andreia Duarte, que um dia, sensibilizada pela música produzida por “eles”,se organizou a passar dois meses numa tribo indígena, ficou 5 anos.  A peça traz um recorte da sua história, nos alerta e nos sensibiliza.

Com direção de Juliana Pautilla,o solo se aproxima do gênero do biodrama, que ganha cada vez mais popularidade no universo das artes cênicas, ao trazer o intérprete teatralizando a própria experiência de vida. Sem proselitismo,  Andreia vai da garota sonhadora a mulher militante, sem que isso soe pretensioso ou empostado. Dribla de forma leve as curiosidades sobre a nudez, a sexualidade, as necessidades pessoais, os afetos. Se sabe pouco da vida REAL de Andreia nos seus anos de vivência por lá. Mas a sensação é que sabemos muito.

Mais do que tecer um texto cheio de curiosidades e mimimi, Andreia nos oferece a possibilidade de nos aproximarmos de sua experiência e isso não a inibe de ser debochada, provocativa e política. Andreia e Juliana conseguem equilibrar a crítica ao descaso da sociedade para as causas indígenas, mostrar a disparidade que há entre nós (brancos, não indígenas) e eles, e nos oferecer uma experiência de vida. O “tal lugar de fala”, termo em alta nas artes cênicas, que inibe um indivíduo de falar pelo outro, caso não tenha a mesma vivência, é dado a Andreia, pela sua experiência real e pelo público que se torna cúmplice.

Contemplado pelo edital Programa Cena Aberta Funarte em 2016, a dupla de artista puderam dar vazão as pesquisas pessoais sobre corpo/política e o resultado é um ato emblemático e crítico, que imprime no corpo de Andreia as referências que mudaram a sua percepção de vida. A ingenuidade (bonita) da artista de querer sobreviver a um mundo sem os apelos midiáticos e a coca cola – por exemplo, duelam com a intolerância da representante do agronegócio, uma das personagens em cena. Essa ambiguidade entre relato pessoal e testemunho crítico, e as “janelas” que se abrem para diversas interpretações, faz com que a percepção do trabalho ganhem um grande alcance. A simbologia da indígena que une a plateia através das mãos é o maior exemplo de fragilidade e precariedade, que nós brancos e não indígenas, carregamos diante de um mundo vasto e  indecifrável e por vezes impenetrável.

Andreia transformou sua saudade – que para os indígenas é algo que mata – em protesto. Sua experiência em bandeira e seu canto em um lamento pertinente e tocante. Não há como sair indiferente de Gavião de duas cabeças.

Para os indígenas o Gavião de duas cabeças é aquele que devora o espírito que sobrevive a morte do corpo. O momento que Andreia divide com a plateia a forma como eles reagem a perda do corpo físico é tocante e não deixa de ser um recado para aqueles tão afeitos a matéria. Se matar o espírito é esquecer, esquecer liberta.

Gavião de duas cabeças, encerrou a programação do projeto TEPI – Teatro e os Povos Indígenas: encontros e resistência, idealizado por Andreia e realizado no SESC Pompeia, que em cinco datas trouxeram a questão indígena dialogando com o fazer artístico e sua real representatividade. Projeto esse que merece novas edições.

Rodolfo Lima

 

 

 

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As irmãs siamesas

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O conflito entre irmãos é um clássico das histórias familiares. Além de um suposto revanchismo que existe em irmãos do mesmo sexo, quando se acrescenta a atenção de um dos pais na história, as questões se complexificam e se um dos filhos cuidou dos progenitores doente e o outro não, pronto, tudo armado para um conflito sem fim. E com esse elementos que as irmãs Maria (nara Marques) e Marta (Cinthya Hussey) se enfrentam após o enterro da mãe. O texto de José Rubens Siqueira foi escrito em 1986 e rendeu ao autor o Prêmio APCA de melhor dramaturgia.

Vale ressaltar que o texto precisaria de uns reparos, além dos que o diretor afirma ter feito. Termos como “bichona”ou a associação de que uma mulher que transa com quem bem entender e por ventura escolhe interromper uma gravidez indesejada, não é sinônimo de ser uma “puta”. Convenhamos que rotular uma mulher por causa de suas escolhas supostamente libertárias e autônomas, é um desserviço. Ainda mais numa época de tanta intransigência com o outro. Para “piorar”, os figurinos de Kene Heuser, embora sóbrio e funcional traga o vermelho, uma cor com associações voluptuosas, para estampar o figurino da irmã que apesar do despudor de fazer sexo com quem bem entender, nunca conseguiu ter um orgasmo.

A direção é de Sébastien Brottet-Michel, que integra a companhia francesa Théâtre du Soleil. Não por acaso,  o diretor concebeu uma encenação limpa e direta, de forma classuda e rebuscada, onde toda a ação dramática habita o corpo das atrizes. A cenografia de Marisa Rebollo é bonita e delicada e dialoga diretamente com a direção, que tornou um suposto universo brejeiro e cotidiano em espaços para diversas metáforas.

O mausoléu-casa onde o acerto de contas ocorre é o grande achado da montagem, acrescido da bela iluminação de Rodrigo Alves, ajuda a imprimir uma sobreposição da encenação, diante da dramaturgia e até mesmo do trabalho das atrizes.  A qualidade estética do trabalho é complementada com a delicadeza da trilha original composta por Wayne Hussey.

Cinthya por compor uma personagem mais caricatural se sai melhor, já que cabe a ela as maiores nuances dramáticas. Porém, sua interpretação destoa de todo o resto, já que Nara tem uma composição mais limpa e naturalista, que integra melhor a cena concebida por Sébastien. Esse ruído e certa lentidão desmedida no todo, arrasta o ritmo e impede que a peça se torne uma experiência arrebatadora.

As irmãs siamesas portanto oferece esse encontro entre uma estética rebuscada e assertiva, e um texto coloquial e cotidiano, que ganha força pela temática universal e pelo verniz impresso em cena. Além de ser uma oportunidade do público acessar o universo artístico da companhia francesa, deglutida pelo olhar da direção.

Rodolfo Lima

obs:a peça segue em cartaz até 02 de dezembro de 2018,no Teatro Aliança Francesa, sempre as sextas e sábados (20h30) e domingos (19h)

Teatro para quem não gosta

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O teatro não é unanimidade, infelizmente. Deveria, mas permanece ainda sendo uma plataforma importante e pungente de divulgação de discursos, informação, entreter, fazer rir e emocionar. Além, claro… (assim como em todas as áreas) ser um lugar de picaretagem. É zombando desse lugar ambíguo que o teatro ocupa que a dupla de atores Marcelo Médici e Ricardo Rathsam (foto), oferece ao público Teatro para quem não gosta. Um mix de cenas cômicas e críticas, usada para entreter e para os interessados em ouvir para além das piadas, uma crônica agridoce do que se pensa sobre o teatro hoje.

É engraçado para o público mais afeito a esse gênero. Mas não deixa de ser triste, pensar que o teatro pode “acabar nas mãos” de youtubers. Descompromissada, mais arriscando uma linha do tempo, a peça traça paralelos entre do teatro grego até os dias atuais. E dai trocar o teatro por um estádio de futebol, quando se visa o retorno financeiro e ser confundido com um mecenas picareta, é uma triste previsão do futuro. Artistas na plateia, entendem literalmente a crítica do texto e o endossam.

Diferente de “Eu era tudo pra ela… E ela me deixou“, que também trazia a dupla de atores ocupando o palco do Teatro FAAP, é Rathsam que protagoniza as cenas, vestido de mulher. Sua Julieta (Romeu e Julieta) e sua Margarida (A Dama das Camélias) são impagáveis, no deboche, na acidez e na desconstrução. Ricardo fez escola com o Marcelo, é verdade, mas isso não é problema. Na melhor cena da peça vemos os atores se utilizam do metateatro para se autocriticarem em cena. A opção é bem vinda é dar escopo para a dramaturgia que patina entre boas sacadas e piadas fáceis e nem sempre eficientes.

Os atores se vestem de personagens femininos, mas não deixam de evidenciar as os períodos e as práticas artísticas, onde as mulheres era proibida de estar no palco. Fiquei a pensa até que ponto o humor pode aprofundar uma crítica, sem que caia na necessidade de fazer o público rir com chavões clichês? É possível?

A cena do balcão entre Romeu e Julieta ganham uma releitura provocativa e interessante, ao trazer o casal de protagonista vivido por duas mulheres. É “a” Romeu, e não “o” Romeu (Afinal: o artigo está fora de moda). Julieta fuma maconha e é emponderada, se recusando a acreditar que precisa morrer por outra pessoa (Julieta pode ser feliz sozinha), por um crush adolescente.  O senão da cena é a representação da mulher-lésbica-caminhoneira, como se o fato de ser duas mulheres não bastasse para fazer o público rir. Olha o perigo. Se a comédia é amoral e por muitas vezes criada a partir de piadas vexatórias, o teatro para quem não gosta reforça esse lugar, fazendo com que o público ria dos estereótipos da homossexualidade feminina sem senso crítico.

Outro momento emblemático é a crítica explicita ao encenador Gerald Thomas e a mítica da falta de compreensão de seus trabalhos. É praticamente uma piada interna para os profissionais das artes cênicas, já que pressupõe que se tenha um repertório cênico para entender a piada. Não é a única (Parem de aprovar o Tiago Abravanel – em testes de musicais –  ele já é rico e eu to devendo meu aluguel), porém a mais afiada. O teatro infantil também tem um espaço interessante. Médici surge como uma Ariel (A pequena Sereia) para falar sobre musicais, ecologia, o politicamente correto,e claro…debochar de tudo. A “criança demônia” que em vez de assistir a peça de teatro, interage e atrapalha os atores também é lembrada.

A peça concebida para comemorar os 30 anos de carreira de Marcelo Médici é irregular, mas entretêm e coloca os mais atento para pensar. Borra as fronteiras entre teatro de personagens e comediantes do gênero stand up. Mas sem se ater numa crítica mais contundente. O cenário de Kleber Montanheiro é acessório dispensável já que seria mais interessante para a encenação, que a coxia desaparecesse e víssemos o troca troca de figurinos, para que assim o público pudesse entender a mecânica do que há por trás do faz de conta.

Preservar o riso pela surpresa, parece ser uma escolha dos artistas. Se fosse mais ousada, talvez a montagem desconstruísse essa possibilidade. A inserção do famoso personagem Mico leão dourado  (da peça “Cada um com seus pobrema“) na tragédia de Édipo Rei, é uma sacada certeira, que renova o humor do famoso comediante que Médici se tornou, sem deixar de fazer uma auto crítica.

Teatro para que não gosta é um programa interessante, pois coloca os atores a mercê de boas sacadas e ciladas habituais no formato e na condução das piadas, como se o público não fosse capaz de rir além do convencional. A arte não paga os boletos, mas dá sentido a vida dos artistas.  E o público ao pagar o ingresso, endossa a escolha alheia e o impulsiona. Esse amor que une artistas e plateia é o bônus da peça.

Rodolfo Lima

Quarta-feira sem falta, lá em casa

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Uma amizade só é validada quando é capaz de superar as adversidades, os erros individuais, a magoa, as dores que ficam. Um amigo que se afasta depois do problema estabelecido, não é seu amigo. Pois o que faz fazer sentido uma vida a dois, seja lá qual sentimento e arranjos que nutre essa parceria, é justamente a vontade de querer caminhar a dois, de perdoar,  mesmo que tudo ao redor sugira, não. Existe no âmbito da amizade uma sutil e triste ambuiguidade entre “se afastar” e “se perder”. Algumas amizades são afastadas pelo cotidiano, outras rompidas de forma abrupta. A perda de um amigo é sempre motivo para que revisitemos nossas relações. Quarta-feira sem falta, lá em casa te propõe revisitar esse lugar.

Escrito por Mario Brasini (1921-1997) em 1976, traz a cena uma comédia de costumes, onde o tema da amizade norteia as personagens Alcina (Eva Wilma) e Laura (Suely Franco). Nossos conceitos sobre amizade são levemente revirado quando nos deparamos com as amigas em questão. Nossos senões se tornam antagonistas e disputam a atenção. Eu, por exemplo, vivi uma situação similar. Não perdoei.

A direção de Alexandre Reinecke torna tudo leve evidenciando o trabalho das atrizes. Ambas octogenárias (Eva, com 84 anos e Suely com 79 anos) e com um vasto histórico no teatro nacional.  Se a peça soa ingênua e despretensiosa e o tema importante, é a presença das atrizes que ajuda o trabalho a alçar outros voos. Reinecke foi o responsável por outra montagem consagrada do texto, em 2002, que trazia a cena as atrizes Beatriz Segall (25/07/26 – 05/09/18) e Miriam Pires (20/04/27 – 07/07/04).

Observar Eva e Suely é prazeroso e um convite a reverenciar o trabalho que as mesmas oferece. Se Suely é mais farsesca e se apoia em máscaras e trejeitos no corpo para evidenciar o descontentamento da personagem, Eva tem uma composição mais natural e cotidiana. As duas tem força cênica e se completam, principalmente quando uma “tropeça” no texto. A sensação que se tem é que mais do que amigas na ficção, parecem amigas na vida real, é o que eu chamaria de química, cumplicidade, quando o público pode confundir o trabalho dos atores com os personagens.

Temas como a solidão e certo deslocamento diante das novas gerações, permeiam os subtextos da peça, que é potencializada por questões latentes da terceira idade. Talvez seja a idade das personagens que faz com que a relação delas ganhem relevância diante das próprias falhas. Na solidão da velhice, poucas coisas restam para se apegar. Não deixa de ter um gosto agridoce essa realidade.

O cenário evita evidenciar o realismo da cena, mas é na humanidade que as atrizes imprimem em suas personagens, e no tom dramático, que o trabalho ganha força. A idade das mesmas é fator indissociável, já que as fazem terem uma noção exata das perdas e da necessidade de se preservar o pouco que se tem.

Assistir a peça nas primeiras fileiras imprime um tom intimista que favorece ainda mais a empatia com as personagens e o drama vivido por elas. Eva e Suely são atrizes com um repertórios importantes e para um artista – no caso eu – não há nada mais prazeroso do que poder saborear os detalhes que compõem o trabalho de outros profissionais do gênero.

Eva e Suely se esforçam, dão tudo o que lhes é permitido em cena. Laura e Alcina se expõe, reviram o passado e as consequência de suas ações. O público fica de cúmplice das quatro, e emerge junto, sem sair indiferente nesse grande pedido de desculpas.

Rodolfo Lima

Obs: A peça fica em cartaz até dia 25 de novembro de 2018, de sexta a domingo, no Teatro Porto Seguro.

Daqui ninguém me tira

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Sabe aquele ditado: “de boas intenções o inferno está cheio?”, poderia ser usado para Daqui ninguém me tira, a comédia dramática escrita por Noemi Marinho e dirigida por Neyde Veneziano, uma referência no Brasil, do teatro de revista. Em cena, Veludo (Ataíde Arcoverde) é uma espécie de camareiro aposentado, que passa os dias entre roupas e objetos das vedetes do passado. Herculano (Giovani Tozi) está imbuído em convencer Veludo a desistir do imóvel. Esse encontro não é sem afeto. Está em jogo, as memórias do camareiro e a amizade entre eles. Todas as contradições em cena está entre esses dois pólos.

A dramaturgia é simples. Para convencer Herculano do quanto é importante preservar o espaço e os objetos que contém, Veludo vai trocando de roupa e dublando, e didaticamente contando ao público a história de grandes vedetes do passado, que supostamente estão esquecidas. Frutos de uma época onde a sensualidade e partes do corpo eram exaltadas de forma audaciosa para o momento presente e que se tornaram pueris ao se comparar com as formas de como o corpo é utilizado em cena hoje em dia. Caiu o viés arrojado e tomou conta a possibilidade de transgressão. Tudo isso é sugerido, não explicitado. Infelizmente.

Ataíde Arcoverde é engraçado, e seu biotipo funciona na comédia, mas o esquematismo de sua interpretação e a marcação grosseira de troca de roupas, torna gélido seu amor por suas musas. Se pensarmos que tais vedetes eram as divas do passado, os momentos que a montagem exalta a presença delas, com o ator cantando e dançando, se tornam chochos e apáticos. E por mais que os figurinos e cenário de Fábio Namatame cumpra a função de lembrar do glamour da época, o personagem Veludo não dá conta.

O suposto atrito criado entre Veludo e Herculano, quando o primeiro pensa em aniquilar o segundo, é constrangedor. Por mais que se quisesse referenciar um fazer teatro mais ingênuo, o exibido em cena é risível. O que vemos é um arranjo frágil de um texto que se torna um panfleto nostálgico dos tempos de outrora.

Veludo não é um personagem gay assumido, sua sexualidade não é pautada, mas seus trejeitos e bordões sugerem que sim, Veludo portanto, dialoga com o universo gay, extraindo de sua composição afetada e histriônica o riso fácil e óbvio. A questão: Teria como ser diferente? Já que a peça exalta mulheres em volta de luxo, glamour e sedução.

A montagem tem sabor agridoce, é bem cuidada esteticamente, mas não alça voo. O texto traz um quiproquó frouxo, que fica refém da retratação histórica da qual se propõe. Neyde não agrega nada de arrojado e/ou provocativo e tudo se torna mais do mesmo. Ataíde ganha fôlego quando vai improvisar com o público. Mas é pouco. Daqui ninguém me tira se torna um simulacro de tudo aquilo que pretende homenagear.

Rodolfo Lima

obs: a peça segue em cartaz no Teatro Porto Seguro, toda quarta e quinta-feira, até 11 de outubro de 2018

Navalha na Carne

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Exaltamos muito os dramaturgos internacionais e suas obras insuperáveis. Para além do legado deixado por Nelson Rodrigues (1912-1980), o dramaturgo Santista Plínio Marcos (1935-1999), tem em Navalha na Carne, um desses exemplos que o teatro nacional irá exaltar para sempre. Seja pelo registro de párias da sociedade, pelo retrato cruel da prostituição feminina, do machismo impregnado no imaginário coletivo e pela retratação de uma  homossexualidade afetada. Veludo e Neusa Sueli são exemplos extremos de indivíduos apaixonados e apaixonantes. Seja pelas suas carências, pela sua forma desmedida de amar, ou pelo retrato triste de suas pobrezas individuais.

Portanto Navalha na Carne é daqueles textos que sabemos o que vai acontecer, mas que nos gera expectativa sempre. Afinal, a peça é uma proposta para composições rebuscadas e intensas e/ou interessantes de seus interpretes. Da parte de quem vós escreve, Veludo tem meu apreço especial. Seja pelo meu interesse na retratação dos homossexuais nas artes cênicas, como pelo jogo cênico que o dramaturgo propõe a esse personagem, que vai da passionalidade ao deboche.

Veludo (Ranieri Gonzalez) é faxineiro na pensão que reside a prostituta Neusa Sueli (Luisa Thiré) e o cafetão Vado (Alex Nader). Ao limpar o quarto do casal, Veludo “afana” o dinheiro do cafetão e seu ato vai fazer com que desnude para o público a realidade submissa e exploratória a que Neusa está submetida. Assim como ela, Veludo também mendiga afeto e atenção, vive de migalhas e com pouco. Veludo usa a grana de Neusa para comprar drogas e um pouco de sexo na vizinhança. Neusa vende seu sexo para manter a ilusão de ter um homem para chamar de seu.

A peça tem dois momentos, o final, no embate entre Neusa e Vado,  e quando se descobre a farsa do sumiço do dinheiro e o embate é entre Veludo e Vado.  Se no caso do casal o que impera é a forma humilhante e depreciativa com que Neusa é julgada pelo companheiro, fazendo com que a cena inevitavelmente caia no teatro dramático. É com Veludo e Vado que a peça oferta momentos de risos e euforia, temperados com sadismo, erotismo e certa vulgaridade. Torcemos por Neusa Sueli, porque somos cúmplices de sua dependência amorosa e torcemos por Veludo, pois a forma sacal como ele é humilhado e reage, nós desperta uma sensação estranha de prazer.

Na montagem carioca, dirigida por Gustavo Wabner, Ranieri consegue fazer dos clichês afetados de sua interpretação, mola propulsora para dar nuances interessantes a seu personagem. Não há erotismo a contento no jogo entre gato e rato de Veludo e Vado. Mas o Veludo que o público presencia consegue ser lascivo e histriônico de uma forma interessante e diferente. Não lembra por exemplo o Veludo de Gero Camilo – na montagem paulista de 2008, dirigida por Pedro Granato –  e ambos se apropriaram do personagem por registros similares.

Luisa Thiré ganha força nos momentos finais, onde consegue adensar a interpretação de sua personagem nos momentos em que o texto propicia esse mergulho. A questão é que até chegar no momento de sua derrocada emocional e cênica, a atriz tem pouca expressividade. Preocupados com a porção “puta velha” da personagem, a montagem – não dá para dizer se é uma opção da direção ou da atriz – deixa em segundo plano a construção emocional da personagem, o que fomentaria com mais propriedade a suposta explosão emocional da personagem.

O resultado da direção de Wabner é correta. O cenário bem cuidado de Sergio Marimba dá certo charme ao acabamento final, ilustrando a contento o ambiente decadente dos personagens de Plínio Marcos.

A montagem tem tom saudosista, pois Luisa é neta de Tônia Carrero (1922-2018), homenageada antes do inicio da peça, que teve a composição de sua Neusa Sueli imortalizada na história do teatro nacional. Se sua avó, que para vencer alguns empecilhos – o fato de ser muito bonita para o papel, por exemplo – se arriscou, Luisa foi comedida e guardou para o final da encenação o que dê melhor sua personagem podia oferecer. É pouco.

Navalha na Carne sobrevive com seu discurso machista. Infelizmente muitas mulheres são submetidas a homens exploratórios, abusivos e violentos. Escrito em 1967, o texto hoje, com a existência da lei do feminicídio, ganha leituras mais problematizadoras, para além do universo da prostituição, da falta de amor e da pobreza financeira. Plínio permanece atual e necessário. O tempo trata de reinventar as possibilidade de leituras de sua obra. O público agradece.

Rodolfo Lima

Obs: a peça segue em cartaz no SESC Bom Retiro, de sexta a domingo, até 30 de setembro de 2018

Josephine Baker – a Vênus Negra

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Um dos grandes méritos de Josephine Baker – a Vênus Negra é trazer a cena as questões raciais, sem ser panfletário ou didático. O que temos em 90 minutos é um misto de diversão, informação e empatia pela história de Josephine, e graças – outro mérito – a presença luminosa de Aline Deluna, em seu solo, que demorou 3 anos para ser concebido. Completando a ficha técnica, Walter Daguerre assina o texto e Otavio Muller a direção. Pelo que se vê em cena, foi um encontro muito feliz, diga-se de passagem.

Digo isso, pois Aline canta, dança, faz graça e é capaz de emocionar seu público, e essa versatilidade joga a favor da personagem retratada e consequentemente influencia no desenrolar da história. A última direção de Muller havia sido na comédia “A vida sexual da mulher feia”, adaptação recheada de clichês, do bem humorado livro de Claudia Tajes. Muller se superou,  quebrou as convenções dos musicais que estamos acostumados a ver em terras tupiniquins, e fez dos músicos Dany Roland, Christiano Sauer e Jonathan Ferr antagonista e apoio importante para que a atriz pudesse avançar em cena com sua emblemática personagem.

Na pobreza, Josephine foi encontrada morta em 1975 rodeada dos jornais que destacaram sua vida, obra e talento. Depois de 5 casamentos se convenceu de que o amor não era pra ela. Não há toa, uma das canções incluídas  no roteiro musical é “Love is a Losing Game” (o amor é um jogo de azar) de Amy Winehouse, num dos momentos mais tocantes da montagem. Que mesmo com tantos assuntos importantes – adoção, racismo, nudez, guerra, miséria, doença – torna tudo leve, sem deixar de ser pontual e emblemático. Se a artista teve dificuldade em encontrar o tal amor dá forma como supunha, não se sabe ao certo. Um das frases dita na peça, reitera o pensamento dela sobre: Sexo pra mim sempre foi assim, sexo de um lado, amor de outro. Uma coisa é entregar o corpo, outra a confiança.

Considerada a primeira grande estrela negra das artes cênicas e a primeira a protagonizar um filme, Josephine foi também uma ferrenha ativista e mesmo em momentos nebulosos não arrefeceu na luta pelos seus semelhantes. O que a direção de Muller fez foi aliar as informações do texto com números musicais, onde Aline pôde mostrar a dimensão artística de sua personagem. Baker também ficou conhecida pela nudez que levava aos palcos. No palco do SESC 24 de maio, a nudez foi naturalizada de forma delicada, o que potencializava a figura da americana.

Assim como ela, Aline também cresceu sendo vista como uma figura atípica e estranha. Talvez Aline viu em Josephine a possibilidade de extravasar suas angústias e a mescla de desabafo, militância, feminismo e criatividade que desse conta de suas inquietações. É como se uma servisse a outra e se camuflassem a olhos nus do público. E tudo isso é feito com o menor recurso cênico possível, apenas com uma toca/peruca e algumas trocas de figurino , feitas no palco, para reverenciar a função de camareira – uma de suas profissões ao longo da vida.

O que Josephine Baker – a Vênus Negra propõe é um programa leve e despretensioso que envolve a todos sem que se perceba. Essa possibilidade mágica de encantar do teatro, torna a montagem impactante e tocante.  Josephine não queria ser reconhecida como uma artista negra, e sim como uma artista. Foi tratada como escrava e vista com desconfiança por muitos anos. Fez da fetichização de sua cor e de suas características e singularidades mola propulsora para se aventurar em lugares como o território francês, que a acolheu de forma irreversível e respeitosa, o que fez com que a mesma se tornasse uma cidadã francesa e deixasse para trás todo o passado racista que os americanos não a deixavam esquecer nenhum dia.

Talvez por dores como essa e por uma doença que lhe roubou a possibilidade de ser mãe, Josephine criou sua tribo do arco iris e adotou 12 crianças, de nacionalidades diferentes, pois o desejo dela era criar uma família diversificada e que se respeitassem. Exemplo esse que a cantora também passou a exigir pelos palcos por onde passava, que deveria dar os mesmos direitos de acesso aos seus shows a brancos e negros. Inclusive reiterando a importância de profissionais negros na produção de seus trabalhos. Curiosamente – e infelizmente – na platéia (lotada) de 210 lugares do SESC, nem 5% estava ocupada por negros.

Josephine Baker – a Vênus Negra teve uma passagem rápida pela cidade de São Paulo, o que é uma pena. Sua encenação areja temas como a questão racial e gêneros teatrais com o musical, traz uma atriz versátil e divertida, com uma composição desajeitadamente pensada, que com sua personagem mais do que nos “colocar no lugar do outro” – no seu caso, de mulher e negra e artista – nos cativa com os altos e baixos de sua vida. Josephine foi uma mulher atípica, mas parece “gente como a gente”.

Atualizações com exemplos recentes, improvisos e o virtuosismo da atriz ressaltaram o leve cunho social da peça, sem deixar de entreter e radiografar sua biografada. A nudez da artista – outro tabu nos palcos – a libertou, lhe trouxe autonomia e a emponderou. E estamos falando de quase 1 século atrás. Em épocas de retrocessos onde o país está prestes a eleger um candidato com discurso racista – assim como o fez os EUA – a Vênus Negra se torna uma epifania necessária e urgente.

Rodolfo Lima