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O VI Prêmio Aplauso Brasil – achismos

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O que é?

O Aplauso Brasil é um site criado por Michel Fernandes a cerca de 15 anos, para divulgar teatro, trazendo resenhas opinativas e divulgando a produção teatral da cidade de São Paulo, entre outras abordagens. Michel foi um ator egresso do INDAC – Escola de Atores, que acometido por uma doença degenerativa, se afastou dos palcos e dedica desde então seus anos a manter o site e a divulgar sua grande paixão, o teatro. Seus critérios de avaliação, escolha de conteúdo, de colaboradores e de “seu” prêmio, é questionável. Ou até mesmo duvidosa. Mas, quer queira quer não, ele merece todo o respeito que a classe artística pode ofertar e sua marca está atestada e a gratidão que as pessoas tem por sua figura idem. Não a toa, todos se referiam a ele nos agradecimentos. Corajoso, é sempre tocante se deparar com ele e sua luta, por e para o teatro, que emblematicamente também é sua vida.

O prêmio está na sua 6° edição e mesmo sem apoio financeiro, resiste, persiste. A platéia lotada do Teatro Sergio Cardoso, na noite dessa segunda feira (06 de agosto) é a prova de seu reconhecimento. Há a premiação do Júri Técnico e a do Júri Popular. O primeiro formado por Júlio Cesar Dória, Teca Spera, Nanda Rovere, Kyra Piscitelli e Carlos Calabone. Levando em consideração que os nomes citados não são remunerados para exercer a função e ainda precisam acatar as inúmeras exigências de seu criador. Talvez fazer parte desse “time” não seja tarefa fácil.

Quais os critérios de julgamento desse júri é algo que não se sabe. Supostamente à uma votação interna e no desempate, o próprio Fernandes interfere com o voto de minerva. Há de se levar em consideração a premiação desse ano, bem sabemos que nem tudo pode ser creditado na conta da “justiça” quando se pensa em premiar os “melhores”. Bem sabemos que são escolhas subjetivas e nunca se sabe a contento o bafafá que rola quando as opções são postas na mesa. E sempre terá a turma que discorda. #Rodolfopresente

No programa da premiação, os números: 57 trabalhos indicados em 16 categorias. Com todo o respeito aos vencedores, ai vai meus achismos sobre o que presenciei nas quase quatro horas de premiação, que terminou com um buffet (#bafo) que não deixou ninguém com fome ou sede e uma discotecagem que transformou o espaço numa agradável pista de dança.

O que foi?

  • Apresentado por Marisa Orth e Leopoldo Pacheco, a noite foi regada de deboche e descontração, muito por conta de Marisa, que não estava no Show do Gongo (evento do Festival Mix Brasil), mas parecia. A vontade, a atriz tirou risos da platéia praticamente em todos os indicados, fazendo a alegria de uns e irritando outros. Verdade seja dita, Marisa – para o bem ou para o mal – alegrou a noite;
  • O prêmio teve três homenageadas oficialmente (mas na verdade foram cinco). Rosamaria Murtinho (que não compareceu), Eva Wilma e Miriam Mehler.  Aplaudidas de pé, foram momentos tocantes e simbólicos para todos. Emocionadas, as atrizes teceram comentários sobre o prêmio, suas carreiras e os presentes. Miriam encerrou sua fala dizendo que faz teatro para viver e não morrer, aumentando assim os aplausos. Foi bonito;
  • No whatsApp um amigo manda uma mensagem: “Prêmio Aplauso Brasil: o único patrocinador ganha o prêmio especial”. Isso porque o ganhador foi Luís Sobral, então Presidente na Fundação para o Desenvolvimento da Educação – FDE, Ex, Diretor Executivo da APAA – Associação Paulista dos Amigos da Arte, organização que gerencia, entre outros espaços culturais na cidade, o Teatro Sergio Cardoso, que abrigou o prêmio e deu o pontapé inicial das comemorações desse ano. Partindo da mesma lógica de raciocínio, o prêmio para “o” produtor foi para Leandro Knopfholz responsável pelo Festival de Teatro de Curitiba – em São Paulo não há produtores a contento? Precisa exportar um? Isso abre margem para citar profissionais de outros estados? E o prêmio “Destaque” foi para o SESC SP, pela realização da Exposição Gianni Ratto 100 anos. Não há toa, Danilo Santos Miranda, o “papa” da instituição foi citado pelo próprio Michel como um dos grandes mantedores do site no ar. Liguem os pontos.
  • Vale ressaltar que o SESC Consolação também concorria com a Exposição do Living Theater. Mas o prêmio não foi em conjunto. Uma dúvida que pairou na minha cabeça foi: o interessante não seria ter premiado a pessoa que mantêm a obra de Ratto preservada, por exemplo? Já que carecemos de respaldo similar de grandes instituições.
  • Miguel Falabella chutou o “pau da barraca” ao ser anunciado como melhor diretor pelo Júri Popular, por O som e a sílaba e Hebe, o musical e ao receber a placa que evidencia o prêmio, desprezou a mesma, dizendo que queria o troféu. #curtoegrosso Foi indelicado e engraçado, e como a verdade é sempre uma faca de dois gumes, dividiu opiniões. Marisa Orth ao anunciar o ganhador escolhido pelo Júri Técnico… soltou um “se fudeu”. Falabella subiu ao palco e pegou a tão esperada estatueta.
  • Pink Star do’Satyros levou o prêmio do júri popular  como melhor espetáculo de grupo e encheu o palco de cores e alegria, pena que a platéia já estava cansada e a trupe + Silvetty Montilla não puderam aproveitar melhor e nos agraciar com suas histórias. Isso não impediu a atriz Márcia Araújo Dailyn de corrigir uma atriz que havia se referida as atrizes travestis com o artigo masculino (o), sendo que o correto é o feminino (a).
  • A votação do júri popular consagrou  2 filhos de francisco, o musical, que levou como melhor espetáculo musical (o do júri técnico foi para o impecável Suassuna – O auto do Reino do Sol), melhor ator coadjuvante (Ubiracy Paraná do Brasil) e melhor ator (Beto Sargentelli). Um sinal de que a votação tem forte apelo popular.
  • Na categoria Melhor Elenco, os números de artistas variavam. Em Suassuna – a auto do reino do sol (10 artistas), Mil Mulheres e uma noite (8), Enquanto as crianças dormem (7),  Fulaninha e Dona Coisa (3), O som e a sílaba e Estranhos.com (2). Levou esse último. Uma questão: como se explica essa definição de elenco, sugerida pelo prêmio?
  • Ouve um bicampeonato, ofertado a Cia. Teatro Epigênia, que levou a primeira vez por Oleanna e dessa vez por Race. Melhor espetáculo de “grupo” numa peça que tinha respectivamente 3 e 4 atores no elenco. O grupo que existe a 18 anos, segundo sua página do facebook, tem suas produções efetuadas no eixo RJ/SP; Numa cidade tão cheia de opções essa “dobradinha” é curiosa. Provavelmente o grupo vai ser lembrado novamente quando sair a lista dos indicados no primeiro semestre de 2018, pois Hollywood, e bem bacana. São três atores em cena. Grupo de novo?
  • Um dos prêmios mais emocionado foi o de Fernando Sampaio, que levou o prêmio de melhor ator por Pagliacci, desbancando figurões como Renato Borghi, Ary Fontora e Caio Blat (que mostrou um trabalho de fôlego em Grande Sertão: Veredas), por exemplo. Sua trajetória como artista circense e palhaço, e claro seu histórico ao lado de Domingos Mountagner (1962 – 2016) no La Mínina, fizeram a diferença.
  • A peça do ano, vem rotulada como “Melhor espetáculo de produção independente”, acho bem confuso esse nome, pois a palavra “independente”, nos remete a trabalhos feito com parcos recursos e/ou próprios.  Não seria melhor a simples alcunha de “melhor peça”? Quiseram enfeitar a categoria deixando ela alternativa e ao mesmo tempo glamourosa e o resultado é uma bagunça, convenhamos. Dos 6 concorrentes, um tinha a batuta do Teatro Vivo (Estranhos.Com),  outro do Teatro Popular do Sesi (A Visita da Velha Senhora) e claro um do “tio” SESC (Grande Sertões: Veredas). #reflitam
  • O prêmio de Melhor Arquitetura Cênica foi para Camila Toledo por Grandes Sertões: Veredas, a estrutura de ferro que tem custado até R$200 reais do público (em apresentações pelo Nordeste) que quer acompanhar a peça sentada nela – não é nada demais, acreditem – bateu a forma interessante como Eric Lenate resolveu o corredor do Teatro Popular do Sesi, em Refluxo. De longe uma das melhores formas de se ocupar aquele espaço. Mesmo Siete Grande Hotel: A sociedade das Portas Fechadas, pelo risco talvez fosse uma aposta mais interessante.  Cenário ou Arquitetura Cênica? Como definir o que.
  • Vamos enfeitar uma categoria e nos enroscar. Acho que essa é uma pauta das categorias dos prêmio Aplauso Brasil. Outro exemplo: na mesma categoria está o teatro infantil e o juvenil, que convenhamos exige formas diferenciadas de abordagem dos artistas.

O que faltou?

A categoria Destaque, trouxe O teatro do contêiner Mungunzá da Cia Mungunzá entre seus indicados, mas assim como o Prêmio Shell (que o trouxe entre seus indicados na categoria Inovação), ignorou o feito da trupe. Queridinhos de artistas e do público em geral, o teatro fincado num espaço inóspito na região da cracolândia e com uma programação intensa e significativa, perdeu o tal prêmio para o  primo “milionário”, o SESC. É de se pensar essa discrepância. Mesmo com possíveis questões estruturais a se resolver, a Mugunzá se tornou um exemplo potente de trabalho de grupo, aliado a uma postura política. E ao montar um espaço com diversos contêiner e com a possibilidade de um palco a olhos vistos da rua, também trouxe questões arquitetônicas. Para alguns ainda não é suficiente.

Denise Assunção (As criadas) não levou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante. Seguindo a mesma lógica que premiou Fernando Sampaio, o prêmio tinha que ter ido para as mãos da atriz. Sua presença na montagem do texto de Jean Genet era arrebatadora, ofuscando sua companheiras de cena (Bete Coelho e Magali Biff). Uma presença tão pontual e certeira como a de Denise, não tem como ser ignorada. mas foi, infelizmente.

Pensando na lista de peças que assisti ano passado, arrisco citar que faltou nas indicações: Andréa Beltrão, por Antígona; Renata Carvalho e a repercussão positiva, crítica e ativa para a presença de artistas trans nas artes cênicas, a partir do sugerido em O Evangelho Segundo Jesus – Rainha do Céu; Ocupação Laura Cardoso, pelo Itáu Cultural Gritos da Cie dos à Deux; o musical 60!Década de Arromba; a produção carioca que passou rapidamente pelo Sesc Santana Rio Diversidade;  o infanto-juvenil que arriscou com um príncipe querendo outro em O Príncipe DesEncantado – O Musical; Ricardo Corrêa deu um salto significativo na sua carreira no polêmico e emblemático assunto de Bug Chaser  e a dramaturgia de André Sant’Anna (Bicho).

Acho que é isso

🙂

Foto: Felipe Cazuto, publicado originalmente no site blogdoarcanjo.blogosfera.uol.com.br

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Elza

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Existem artistas que viram mito em vida. Elza Soares faz parte desse legado. Sua obra ganhou força descomunal nos últimos anos, e sua voz oriunda de um corpo feminino e negro se transformou numa bandeira em prol das minorias. Mesmo com dificuldade de locomoção e com diversas exigências para se ter a cantora em eventos e shows, ela não para. Como cantou em seu penúltimo disco (Mulher do fim do mundo): “Eu sou e vou até o fim cantar“. Quando essa música invade o teatro o público já está incendiado. É match point, o musical dirigido por Duda Maia já arrebatou os reles mortais da platéia. Afinal, como diria Elza: “Ninguém é artista impunemente

O grande acerto da produção é potencializar o viés militante da cantora. Em cena, 13 mulheres, artistas e musicistas, além de Duda e Andréa Alves, respectivamente diretora e a idealizadora do projeto. Não é pouco, ainda mais se pensarmos numa sociedade que retrocede evidenciando o machismo, a misoginia, que ainda relega a mulher negra – por exemplo – a fetichização carvanalesca e o que é pior, em sub empregos. A questão da negritude, a miséria, a violência doméstica, maternidade fora de época, opressão familiar, a estupidez masculina,  Marielle Franco e outras anônimas…. todas representadas e lembradas com afeto, em suas agressões diárias.

“De onde eu venho não tem água encanada, mas as pessoas tem sede de viver. Não tem farmácia mas as pessoas sonham”

A dramaturgia de Vinícius Calderoni não se atém a contar uma história de forma cronológica. Opta por evidenciar passagens emblemáticas de forma poéticas e simbólicas, como se a simples citação de um fato, desse conta de seu subtexto, e no caso de Elza, dá. O viés aguerrido da cantora e sua personalidade singular está reverenciado sem o menor senão. Para Elza, “puta” não é xingamento e quando a acusaram de destruir o casamento alheio, ela literalmente manda um “tô nem ai“.

As frases de impacto colocadas estrategicamente no roteiro do musical funciona e fisga o espectador. Mas é justo dizer que as opções da direção também não fica atrás. Duda resolve tudo de forma simples e efetiva. Suas atrizes estão em sintonia, as marcações fluem e funcionam e por mais que em alguns momentos não sejam tão interessantes, são incrementadas por corpos soltos e disponíveis a cena. O grande acerto é de longe a junção do amor de Elza e Garrincha, a um trem em trânsito. Ou seja, se no amor nada é certo, na vida da cantora também não o foi. Não a toa a cantora permaneceu cantando músicas sobre o amor como se o sentimento nos embalasse num trem descarrilhado.

Esse amor regado a cachaça, impulsividade e…agressão, é lembrado com muita sutileza na montagem, especialmente ao citar a morte do jogador. Que um dia chegou na casa da cantora com dois kilos de feijão. Entre um saco de comida e uma Billie Holiday, um amor pode começar, reforça a peça. E o público acredita. E se comove.

“Eu sou um oceano negro”

A direção musical de Pedro Luís oferece arranjos novos e interessantes (“Fadas”), coloca brilho e destaque em canções emblemáticas como “Dindi” e claro “Meu Guri” – música mítica na história de Elza – cito essas para não estragar a surpresa de outras músicas presentes. Luiz Melodia é praticamente o único autor citado na peça. Assim como a primeira bailarina negra do Municipal do Rio de Janeiro, Mercedes Batista. São poucas as referências de outros artistas no musical. Obviamente que no musical de uma cantora, a história e as músicas se alinham. Funciona em praticamente todos os momentos. O senão, é a belíssima “Flores Horizontais”, que entrou no repertório de músicas da peça, mas soa deslocada com o contexto em que é citada.

Larissa Luz dá voz e corpo a Elza. A atriz convidada é a responsável por rasgar a voz como a grande homenageada faz, além de trazer toda a irreverência contestadora da cantora. Sua composição é linda, e assim como para Elza, sua voz parece sair sem a menor dificuldade. Larissa já havia feito um excelente trabalho em “Gonzagão, a lenda”, musical da trupe “Barca dos Coração Partidos”. Em cena com Larissa, Janamô, Júlia Dias, Laís Lacôrte, Verônica Bonfim, Khrystal e Késia Estácio,  que dividem a personagem e a cena. Todas compondo um só corpo, com suas possibilidades de cores, formas e epifanias. Poderia ter dado errado, mas dá certo. A pluralidade das cantoras dá as nuances da possibilidade vocal de Elza. Khrystal e Késia, por exemplo oferecem essas nuances em dois momentos bem emblemáticos. A primeira colada no que se entende por MPB e a segunda dialogando com o blues, com o jazz, um gingado que areja a cena e a atualiza.

“Falar estilhaça o silêncio”

A cantora que brincava de ampliar a voz numa lata; que de certa forma foi “salva” por Caetano Veloso numa época ruim de trabalho; que casou aos 13 anos; que sabe que o mundo se divide em quem pisa e quem é pisado; que cantou para matar a saudade e sobreviver a ela; para não morrer de fome; que recusou uma turnê com Louis Armstrong; que sabe que sobreviver é um ato político; que tem a delicadeza de ter a idade da pessoa com quem estiver conversando é uma filha do século XXI.

Não foi a toa que carregou muita lata. Não é a toa, que esse objeto é reverenciado no cenário de Andre Cortez, em luzes que vazam o alumínio e nos ilumina de poesia e esperança e que está, merecidamente, homenageada num espetáculo teatral.

“A carne mais barata do mercado ERA a carne negra, agora não é mais”. 

É a grande lição que o trabalho nos deixa.

#imperdivel

Rodolfo Lima

Obs: em cartaz no Teatro Riachuelo (RJ), de quinta a domingo,  até 30 de setembro de 2018

 

 

Será que vai chover?

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A peça em cartaz na Livraria Cultura da Cinelândia no RJ, teve um diferencial no dia em que assisti ao trabalho. Do público presente, 80% poderia se autodeclarar como negra, enquanto o público supostamente branco era minoria. Assim como no palco, onde dos 5 artistas, só um tem a cor da pele clara. Isto, obviamente é um feito, dado a luta dos artistas negros de se impor diante uma sociedade dominada pela cultura europeia e americana e que relega a segundo plano, outras culturas, no caso aqui, a africana.

É justamente fazendo referência a essa matriz que o trabalho se inicia. Dois artistas tomam o palco e dançam ao som de atabaques e guizos, como que num ritual de iniciação. A intenção é clara, evidenciar o protagonismo negro, em contraste ao embranquecimento das artes. A novela Segundo Sol, é um exemplo recente, pois foi duramente criticada por se passar na Bahia e trazer em seu elenco a predominância de artistas brancos.

A dramaturgia de Licínio Januário usa um triangulo amoroso interacial para transitar em temas contemporâneos que evidenciam as chagas sociais que acomete uns e livra outros, tendo como parâmetro a cor da pele. Sandra, Bruno e Yuri, respectivamente uma atriz, um guia turístico e um ativista social. A vida deles se cruzam por acaso quando um está protestando no lugar que o outro está fazendo seu trabalho, que é entreter turistas. O texto é simples e por vezes piegas. Curiosamente é uma adaptação de “Todo menino é um rei” que concorreu ao prêmio de melhor texto na décima nona edição do Festival de Teatro do Rio.

O intuito de trazer a tona as questões que envolvem a população negra é notória e louvável, já que sim, carecemos de uma produção cultural mais justa e igualitária e que ofereça a mesma chance a todos. O que faz com que seja preterido um artista em função do tom da pele é cultural e nefasto.

Essa cultura é usada como moeda de troca, para entreter e fazer o público pensar sobre. Ao sambar, aproveitar de todo os clichês em torno da população negra, consequentemente dos cariocas e suas míticas residências no alto dos morros, conhecida como favela, a peça oferece mais do mesmo. O texto não se aprofunda nas questões nevrálgicas, está mais para uma singela comédia de costumes, do que um texto com cunho social, de denúncia. O recado está lá, porém colocado com leveza e comicidade.

Toda a encenação parece girar em torno de uma roda de samba. Os músicos Reinaldo Junior e Chico Bruno, acompanham as falas de Januário, como que a florear, intensificar e colocar ritmo na saga do guia turístico, que entre os problemas cotidianos, tem que domar e conquistar de vez o amor de sua amada, que o escolheu, abandonando um namorado de cor de pele clara. O casal protagonista funciona, causa empatia e a plateia reage ao vivenciado em cena. Será que vai chover? comunica seu público, que se vê representado, isso não é pouco, embora o que a direção de Orlando Caldeira e Matheus Marques proponha seja.

A trama tem um leve toque agridoce quando Sandra questiona o namorado de viver apegado as questões raciais do “passado”, cobra uma atitude mais combativa que retire o negro do papel de reclamão e o coloque pra agir. Esse toque é o melhor da peça. Assim como o empoderamento feminino que ganha força com a forte presença da atriz Eli Ferreira. Em dado momento ela evidencia, que precisa se encontrar no meio de tantas referências. É o individual tentando não ser sufocado pelo coletivo. A diferença que à da mulher negra diante do homem, como seu namorado e o tom de sua pele também é um momento emblemático. Na presença de um, suas características se evidenciam, na presença de outro ela é julgada como “os outros” acham melhor.

O Coletivo Preto que ocupa o palco da Livraria Cultura até o dia 25 de julho, sabe que a vida negra e pobre é motivo de espetacularização cultural e artística de muitos. Não temeu uma suposta exclusão, oferece um trabalho singelo e honesto e tornou a experiência agradável. A máxima dita no palco: “Luta pra mim é verbo” coloca o público a pensar sobre como cada um reage as adversidades da vida.

Em épocas de textos inflamados e políticos, abrir uma roda, cantar, dançar e papear, parece ser uma boa saída para fugir da rotina, fazer valer a própria vida e de quebra espelhar os semelhantes. Não é pouco, convenhamos.

Rodolfo Lima

Dançando no Escuro

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Existem trabalhos que nos marcam para sempre. O filme “Dançando no Escuro” de Lars Von Trier, protagonizado pela cantora Bjork é um desses. Lançando em 2000 o filme se tornou uma referência no cinema, popularizou o talento e a esquisitice da cantora. E foi recheado de fofocas, como os relatos de entrega intensa da cantora e consequentemente suas desavenças com o diretor. Um filme como este, que marca a memória afetiva do seu público, não tem como tarefa fácil qualquer transposição para além do original.  A montagem carioca para a história de Selma Jezková mantém a dramaticidade do filme, mas perde na magia.

A história é “simples”, Selma (Juliane Bodini) trabalha como operária numa fábrica, e guarda todas as suas economias para a operação que o filho precisa fazer nos olhos, para que assim como ela, ele não sofra de uma doença degenerativa que o cegará rapidamente. Selma é sozinha… sua única amiga é Carmen (Carolina Pismel). Além da família Houston que aluga um trailer que mantém no quintal de casa, para Selma. Vítima de uma injustiça, ou das mazelas da vida, que parece zombar de muitos, Selma se vê tolhida de seu sonho maior – que é dar a chance do filho poder enxergar o futuro – e a peça transcorre em torno do seu drama. No primeiro ato, de sua cegueira eminente, que a vai colocando em enrascadas, e no segundo ato em sua derrocada. Não há como ficar indiferente diante do drama da mãe que faz tudo pelo filho. Personagens universais como esses, são sempre certeiros na hora de comover. Com “Dançando no escuro” não é diferente.

Assim como no filme, a peça mantém a ação dramática de forma seca e direta, sem grandes sentimentalismos. Se a os cortes  e a fotografia no cinema que propõe aos espectador uma experiência estética fora do óbvio, no teatro esse recurso também podem ser refeitos, evitando evidenciar as emoções para além do que a cena supõe. A direção de Dani Barros, consegue ser sutil e pontual nos momentos de diálogos. É quando a montagem está totalmente apoiada apenas no que o teatro pode oferecer: bons atores, um texto enxuto, preciso, e claro, uma boa história.

As coreografias de Denise Stutz não funcionam. Revelam-se marcadas demais, e de forma desinteressante. Para Selma, a vida se dividia entre sua rotina e o que ela sonhava: os musicais de Hollywood. Isso quer dizer que esses momentos utópicos, onde a personagem escapa de sua cinzenta realidade, são fundamentais para que entremos na ambiguidade que há na realidade da protagonista. Uma coreografia com a da música “Eu já vi tudo”, é frustrante, pois fica aquém da construção avassaladora do filme. E a peça em muitos momentos recria referências do filme, não o reinventa. A adaptação de uma obra dessas (o referido filme) sofreria essa inevitável comparação. Mas a faço, não para comparar produtos incomparáveis (teatro x cinema), mas porque é necessário dizer que o público de par da referência  do filme, precisa mediar o tempo todo suas memórias com o que está sendo recriado em cena. Uma negociação constante e nem sempre justa. Porém inevitável.

Um bom momento é quando Selma dança com seu ídolo, eis ai um bom acerto da direção que potencializou o tom fantasioso da peça de maneira lúdica e simples. A direção musical de Marcelo Alonso Neves reproduz de forma efetiva os sons (vozes, objetos, “barulhos”, ruídos… uma suposta poluição sonora) que permeiam os arranjos musicais.

Se Dani Barros não conseguiu potencializar a parte fantasiosa da peça, conseguiu ao menos intensificar a parte realista, com um elenco afinado. Suzana Nascimento e Carolina Pismel, potencializam a cena com Juliane Bodini, em momentos singulares da montagem. É tão forte o drama de Selma e tão emotiva a entrega de Juliane, que por vezes parece estarmos num monólogo, onde todos os personagens são antagonistas. E de certa forma o são. Isso não é um demérito. E no caso do trabalho de Juliane, sua força aparece sempre em troca com outro artista.

Não há como ficar indiferente ao trabalho de composição delicado e emotivo da atriz. Arriscaria dizer que ela não “cresceu” mais em cena, justamente pela ausência de momentos que retirassem de suas costas, o peso dramático do trabalho. Isso não joga contra a atriz, que revela um trabalho de forte carga dramática, que bem sabemos, não é acessível para todos.  O público chora com e por Selma/Juliane, mesmo que para fãs da Bjork – como eu – reconheça-se certos maneirismos da cantora, levemente esboçados em cena.

“Dançando no Escuro” é uma história linda e fortemente dramática, que se impõe diante do seu público de forma irreversível. Provavelmente a montagem de Dani Barros não alcance essa magnitude. Mas isso não invalida a honestidade do trabalho e a coragem de se levar tal história para os palcos. Um misto de emoções dançam na mente do espectador, jogando com sua memória emotiva. E isso é um ganho, fazer com que o teatro aconteça também dentro do outro.

O que o Rio de Janeiro pôde conferir em quatro temporadas e sem apoio da Secretária de Cultura local é uma das mais emotivas histórias entre mãe e filho, sacralizada no cinema e que pode oferece no teatro, outra oportunidade de se aproximar de Selma e Gene (Daniel Brasil). Não sabemos o que há para se enxergar além dos nossos sonhos e utopias. O quanto estamos dispostos a pagar e perder. E o que “Dançando no Escuro” de certa forma faz é nos instigar a prosseguir, independente de.

Rodolfo Lima

Demônios

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Dia 28 de junho é o Dia Internacional do Orgulho LGBTI, um dia para relembrar os constantes preconceitos, assédios e genocídio que uma parte da sociedade sofre e também para celebrar a luta, a resistência e o avanço que tal população adquiriu com o passar dos anos. Afinal, não vivemos na Rússia ou em qualquer outro dos 80 países onde a homossexualidade é crime.  É pelo reconhecimento desse direito, entre outras questões que o Teatro da USP (TUSP) abrigou a nova montagem do Coletivo Teatro da PombaGira. Marcelo D’avilla e Marcelo Denny são os responsáveis por uma visão bem questionável sobre a condição dos que quebram os padrões heteronormativos. Dentro do teatro a dupla de diretores ofereceu uma visão fatalista e deprimente sobre a condição do homossexual masculino. Na sociedade em que vivemos, não há saídas para os homossexuais.

São duas horas de “massacre”. Dito assim parece exagerado, mas vale ressaltar que a montagem não oferece acolhimento para as questões gays. Muito pelo contrário. Frisa muitos dos momentos delicados e complexos para qualquer homossexual, que os dilemas são incontornáveis e deprimentes. Ou seja, não há porque lutar. A guerra está perdida.

Se uma peça de teatro pode se tornar um panfleto a favor de uma causa, um tema ou um assunto, Demônios, parece golear contra. Já que sua visão para as questões, são digamos pertinentes, porém catastróficas. Pesa a mão da direção na visão fatalista sobre as questões gay e essa opção não nos permite entrar em diálogo com o trabalho. Seu recado é “chapado” e sem possibilidades interpretativas. O que o público faz é aceitar, sem poder questionar, se emocionar, ser incluído ou mesmo se deixar afetar. As duas horas de trabalho cansa, parece excessiva e hermética, o que é uma pena, dado a importância da temática.

Híbrido de dança, performance e teatro físico, Demônios é uma reflexão cênica sobre três perigos que rondam o universo homoerótico contemporâneo: a lógica do consumo e descarte do sistema socieconômico, a melancolia e os transtornos psíquicos como sintomas da falência do sujeito, e o neofascismo conservador que avança cada vez mais.  Esses perigos se proliferam e tomam conta dos corpos e dos desejos, como resistir?” Eis a explicação sobre o trabalho, encontrado no programa do trabalho. Vamos por partes.

A lógica do consumo e do descarte é retomada com mais niilismo que no trabalho anterior “Anatomia do Fauno“, também dirigido a quatro mãos, mas que teve a dramaturgia de Alexandre Rabelo. A tal lógica preenche toda a parte vermelha do trabalho. Essa mais similar com o trabalho anterior. Volta a vulgaridade das relações, a falta de afeto e crença no outro, o descaso com o corpo e a redenção a novas mídias. O celular é uma bomba relógio, em função dos aplicativos para sexo e encontros fortuitos, e que permanece dividindo opiniões sobre sua eficacia. Todo o quadro é praticamente um decalque “dos faunos”, com um agravante: não emociona.

Anatomia do Fauno, foi um trabalho emblemático que reuniu mais de 50 artistas em torno dos senões da homossexualidade masculina, percorrida do paraíso ao inferno. Um trabalho de tal abrangência, oferecia diversas brechas para serem questionados, porém não havia como não se ver rendido pela organicidade do trabalho. Tudo era caótico, beirava o improviso, oferecia riscos, mas preservava o mais bonito no teatro, era vivo. Os 15 artistas que entram em cena em Demônios estão esvaziados de sentidos. Essa a maior ausência do trabalho. E a famigerada “pegação” entre os artistas – parte da mítica do trabalho anterior – é posta em cena de forma opaca, mau acabada, triste e diria até mesmo desnecessária. Não há pênis endurecido que salve os artistas de serem meros reprodutores.

Pensando que um continua a pesquisa do outro. Perde-se a individualidade dos artistas, algo questionável nos faunos, mas que para o bem ou para o mal, fazia muito da fama que o trabalho tinha. Em Demônios, muitas das cenas giram em torno de Marcelo D’Avilla, que assumidamente, e sem pudores,  lidera a trupe de artistas. Sua figura é impositiva e cabe a ele conduzir o melhor momento da dialética consumo/descarte. É o seu corpo que está a mercê do outro, abocanhando e sendo engolido pelos outros. Um dos momentos mais emblemáticos  de “Anatomia…“, era quando vestia sua máscara de fauno, e travava um embate emocional com a figura masculina interpretada por Raul Molina. “Curiosamente” é D’Avilla que retrata o embate a dois, também na nova montagem, numa das imagens mais bonitas construídas em Demônios. Embaixo de toda a artificialidade  que encobre os homossexuais, estamos em carne viva. Embriões de nós mesmos a sermos reconstruídos na utopia de uma sociedade mais igualitária e honesta. O problema: esse futuro não existe.

Se vivemos numa época onde não se pode sonhar, o que nos aguarda? Para o Teatro da PombaGira o cu e o AIDS ainda são metáforas importantes para enfatizar a falência dos corpos gays. Rendidos que estão ao julgamento alheio. Junte a essas duas metáforas, porta de entrada do famigerado vírus HIV, temos a imagem de um caixão, presente em praticamente toda a encenação, independente da simbologia das cores. Diante da possibilidade de se ver enterrado vivo, não tem como manter uma postura positiva diante de um fim nefasto. Não deixa de ser a retratação de uma realidade macabra.

Há de se ressaltar que esteticamente a encenação é melhor acabada. Os adereços de cena são mais interessantes e oferecem leituras diversas para a cena. Mesmo que se tornem excessivamente exageradas, tem lá sua graça.  O trabalho coreográfico também funciona a contento nas cenas dançadas coletivamente. E tudo… quase tudo que transita entre um corpo dançado e seus adereços, remete ao universo pop da cantora Lady Gaga. Reflexo das referências dos artistas em cena? Qual deles?

Melancólico e com transtornos psíquicos, que gay sobrevive e resiste as intempéries de uma sociedade machista, transfóbica, estúpida e intolerante? A paranoia explicitada em cena é reflexo desse mundo cão sem saída. Se em “Anatomia do Fauno” eramos pego pela emoção e pelas questões que nos representavam, pois postas em cena de forma pueril e didática, comunicavam diretamente seu público. Em Demônios as cenas em sua maioria beiram o hermético, privando o público de ser afetado diretamente em sua percepção, exigindo que o mesmo seja capaz de elaborar questões para as metáforas apresentadas. Esse desafio é produtivo e bem vindo. O problema é o excesso desse recurso, colado com a visão decadente que a montagem nos obriga a engolir, a seco.

A opção de ouvirmos a trilha sonora num fone de ouvido é boa, pois nos coloca por inteiro naquele universo decadente, porém não nos dá a possibilidade de respirarmos. Não há silêncio ou momentos de “alivio” no que se ouve. Somos entulhado de informações auditivas e visuais. O fone – se você não tiver sorte como eu, terá uma leve dor de ouvido depois – abafa os barulhos causado pela contra regragem. Os corpos e o material plástico, dentro e fora da cena, são partes do mesmo universo em decomposição.

O neofascismo citado pelo grupo é praticamente o último nó que nos rouba o restinho de ar, que nos faria continuar. Símbolos nazistas e católicos são exemplos de um regime que tolherá as individualidades, a peça decreta. O corpo de Renato Henrique Teixeira, que se contorce e agoniza na cena final, ao olhar passivo do público, é a metáfora que fica.

Rodolfo Lima

Obs: a peça fica em cartaz até o dia 15 de julho, de quinta a sábado as 21h e domingo as 19h no TUSP, Rua Maria Antônia, 294. Ingressos a R$30 e R$15 reais. A bilheteria abre 1 hora antes.

Balé Ralé

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Balé Ralé” o livro, foi lançado em 2003, é a terceira publicação do autor Marcelino Freire. Autor esse que vem ganhando força no teatro, graças a sua escrita acessível, política, que traduz a realidade de forma aguda e sem meandros, sem deixar de ofertar aos seus leitores momentos poéticos e singulares. Mezzo pernambucano, mezzo paulistano, Freire mescla em sua literatura um olhar crítico para as mazelas do cotidiano e as desigualdades sociais, sem deletar de sua escrita uma poética tipica de suas referências nordestinas. O resultado da sua obra é acolhedor, imagético e potente.

Balé Ralé a peça, estreou durante a “Ocupação Marcelino Freire – Palavra amassada entre os dentes“, que ocupou o SESC Copacabana entre maio e junho de 2017. Com direção de Fabiano de Freitas, a peça não se utiliza apenas de contos encontrados no referido livro. Há ali, textos de “Rasif – mar que arrebenta” – quinto livro do autor, publicado em 2008.

Estão lá reunidos os párias de uma sociedade intolerante, racista, misógina e cheio de fobias. Para os leitores do autor, a crítica ao status quo e ao modus operandi de uma sociedade doente e extremista, é condição sine qua non. Portanto, a “graça” é a forma como seus personagens vão ganhar vida em cena. Dito isso, dizer com propriedade o texto de um autor como Freire é obrigatório. A literatura do autor tem peso, ironia e deboche suficiente para impactar seu ouvinte, pois é colocada de forma inteligente, instigando a reflexão, de forma direta e crua.

Os atores de Balé Ralé não fazem valer a força da palavra do autor. E a encenação de Freitas, estilizou um autor que não carece de “pompa”, a beleza está justamente na “crueza”. Panos coloridos, sobrepostos, supostamente descolados, não acrescentam em nada para o todo. É ilegível essa opção, pois é um efeito ilustrativo pra cena, sem serventia. Quem responde pelo figurino é Luiza Fardin. A encenação não serve ao texto e o texto não combina com a encenação. Há ruídos e o todo “patina”. O ar “descolado” da peça, beira o cafona.

Blackyva dá voz ao emblemático conto “da paz”,  porém não se entende de que lugar elx fala. Pois não se entende sua figura. É uma trans? Uma drag? Um ator montado? Localizados, o público leria o texto de outra forma. Público esse que nem sempre é ganho de forma impositiva. #ficaadica

Samuel Paes de Lima não se impõe nos contos “papai do céu” e “o meu homem-bomba”. Sem se apropriar com personalidade, sua leitura é linear e morna. Leonardo Corejo e Maurício Lima, completam o elenco masculino, esse último dá voz e corpo a “balé”,  o singelo texto do autor, do menino que dança, enquanto é achincalhado pela vizinhança. O resultado é broxante.

Justiça seja feita, a voz a ecoar os textos de Marcelino com potência é de Vilma Mello. A atriz dá voz a “Jéssica” e “darluz”, e o que ela faz com esse último é de “tirar o chapéu”. Diante de uma atriz com tal força, os atores ficam apagados. O momento oferecido por Vilma, provavelmente é uma das melhores transposição de conto para a cena. O momento pode ser conferido no link: https://vimeo.com/261437330

Freire começou a ganhar projeção nacional nos palcos, depois de “Angu de Sangue” (2004) do Coletivo Angu de teatro, chamar a atenção. O grupo pernambucano estruturou parte de sua trajetória em torno da obra do autor, com as montagens de “Rasif – mar que arrebenta” (2008) e  “Ossos” (2016). “Hospital da Gente” (2008) em São Paulo, do Grupo Clariô de Teatro, fez “a parte” sudeste. E juntos capitalizaram a obra do autor, que “vira e mexe” é visitado pelo teatro.

A questão que fica em Balé Ralé é,  porque subjugar um autor como Freire a uma encenação que eclipsaria sua obra, caso tivesse funcionado? A marginalidade kitsch como sugere a direção, não “cola” e o palco do SESC Ipiranga parece grande de mais para a proposta. Talvez se misturados atores e público, o resultado poderia ser outro. A montagem no geral é formal e fria, o oposto da literatura do autor.

Rodolfo Lima

obs: a peça fica em cartaz até 15 de julho no SESC Ipiranga, as sextas e sábados, 21h e domingo as 18h.

F.A.L.A – Fragmentos Autônomos sobre Liberdades Afetivas

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Falar sobre afeto, sexualidade, gênero e raça se tornou uma das urgências do momento e claro que o teatro reflete essa questão de forma plural e diversificada. O Coletivo Negro se debruçou sobre tais temas e o resultado leva o nome de F.A.L.A Fragmentos Autônomos sobre Liberdades Afetivas. Bom dizer que a fala, não se faz presente no trabalho, que percorre o arenoso e dúbio caminho das imagens e das mensagens implícitas. Não é tarefa fácil, mas o grupo se arrisca, o resultado tem um verniz bem acabado, porém o discurso fica refém das escolhas imagéticas.

Em cena Raphael Garcia, Dani Nega, Clodd Dias e Flávio Rodrigues, este último também responsável pela direção. Porém a ficha técnica é extensa e produtiva, já que o acabamento musical a cargo de Felipe Julian e Fernando Alabê, a direção dos vídeos Cibele Appes e Clay Rodrigues, a regravação de Fala (gravado original por “Secos e Molhados”), por Ellen Oléria e a cenografia, são bem executados e funcionam. O ideal seria que a dramaturgia acompanhasse essa “riqueza”. Isso não ocorre, parte das cenas  são construídas a partir de textos de Luh Mazza (Mamãe), Paloma Franca Amorim (Travessia) e Rudinei Borges (Armário).

São três armários utilizados em cena, como uma metáfora óbvia e sempre utilizada sobre uma sexualidade que não está assumida a público, permanece encarcerada e submetida a censura e preconceito das convenções/instituições sociais, que oprime e mata, bem sabemos.  A roupa que se veste é outro momento déjà vu do trabalho.

Sem as palavras, ficamos a mercê das imagens que o grupo vai construindo de forma simbólica (como a do mamão),  literal (como o banho das mulheres), poética (os desenhos projetados), sensorial (a festa) e hermética. Ou seja, o que não está claro, fica subjugado a sensibilidade do público. Quem é mandado embora, não se sabe se é a filha, o filho, a transexual ou o misto de todas essas referências que tal corpo representa. Em alguns momentos a explicação pode ser dispensada, em outros ela seria importante.

Clodd Dias não está rotulada, e cabe ao público fazer suas considerações. Essa opção é  boa, pois a identificamos como mulher e isso para ela é muita coisa. Porém, Clodd não é só uma mulher trans e negra, traz impregnado na pele as marcas da obesidade. Ou seja, uma potente voz a ser ouvida, relegada a imagens que nem sempre dão conta de exprimir toda a repressão que tal corpo sofre. Um bom exemplo desse corpo negro, feminino e obeso pôde ser conferido  – por exemplo – com a performance de Mirella Façanha do elenco de “Isto é um negro?

As mulheres lésbicas estão representadas no corpo de Dani Nega. Peças de conteúdo lésbico não é muito comum, que versam sobre mulheres negras que amam outras, praticamente impossível. Esse “lugar” foi suprido temporariamente com a temporada de “L, o musical“. É pouco. As imagens que dão conta do amor feminino são bonitas, mas é o primeiro exemplo que o público tem de uma opção explicativa. Na impossibilidade de realizar a cena ao vivo e a cores – o que seria, convenhamos um grande avanço – projeta-se o momento. De forma singela, pontual e rápida, afinal, não é do feminino a exacerbação da sexualidade. Tal cena se basta? É uma questão.

As tais “liberdades afetivas” não recaem só sobre os percalços do amor e do sexo, estão também nas relações familiares, mas é no embate com o corpo do outro que a peça se resvala. A codireção de Aysha Nascimento provavelmente tornou tudo mais sutil e delicado, e o melhor exemplo disso é na relação homossexual masculina que divide a cena com as artistas femininas.

Vale ressaltar que a história narrado pelos personagens de Garcia e Rodrigues é a mais legível  (ou tenho a impressão disso, porque sou do sexo masculino e gay?) e a que melhor se utiliza dos recursos de projeção e de trilha sonora. O momento em que o casal é revelado ao público, vemos que eles estão em diferentes plataformas da estação do metrô Liberdade (uma ironia, claro), entre um casal heterossexual que se “amassa” no banco enquanto os meninos, sob um aviso de “câmeras de Segurança”, tentam se comunicar corporalmente. É uma imagem belíssima, que uni teatro e cinema,  de forma eficiente.  Está tudo ali, explicitado de forma pontual e metafórica, sem que se torne óbvio os recursos – que já podem ser considerados excessivos nessa altura da encenação.

Não se sabe se os homens não cedem aos carinhos em espaço público porque (primeiro) são negros, ou porque (segundo) são gays, ou vice e versa, ou tudo junto misturado. Um bom momento interdisciplinar onde os discursos se completam e se atritam, causando mais ruídos. Garcia é mais “afrontoso” e seu personagem é cheio de trejeitos, o que é veementemente censurado por Rodrigues, a “bee” no armário. É na história deles que vamos ver a violência opressora da polícia. Os tais armários do cenário ganham a simbologia de um lugar de passagem para se arejar conceitos e ideias mofadas, libertando seu morador, e embora poética, a execução da cena, não deixa de ser pueril e excessiva.  A mensagem é captada em segundos, mas a cena é estendida, como se fossemos crianças convidadas a entrar e sair de tal armário. Não deixa de ser ingênua. A história vai se desenvolvendo e você pensa: ok, que horas eles se agarram?  Isso ocorre de forma singela e romântica, num momento que, obviamente a fala não se faz necessária, e sim as atitudes. Mas é pouco, é necessário falar.

Homens negros e gays se “pegando” nos palcos do teatro paulista é praticamente uma raridade. E o Coletivo Negro decidiu não avançar nesse lugar. Ao optar por uma encenação sensível e simbólica, o grupo deixa de nos provocar ao nos por de “cara” com os fatos, nu e cru. O recurso da música de Linn da Quebrada (Enviadescer) é a “roubada” final da montagem que chama de forma indireta outra “mana” negra para integrar sua ostentosa ficha técnica. O problema é que não dá para usar as músicas da cantora impunemente. São fortes, emblemáticas e insubstituíveis, ou seja, nos rouba da encenação. Mesmo que ela entre nos últimos minutos fiquei me questionando se sua execução ofuscava todo o resto. Ok, nem todos conhecem a repertório de Linn da Quebrada. Isso pode ser utilizado com argumento plausível, mas não impede de ser questionada.

Além das peças já citadas, o amor gay com protagonistas negros apareceu poucas vezes nos palcos da cidade de São Paulo. A montagem carioca “O Jornal“, as encenações a cerca do mítico boêmio carioca Madame Satã ( “Madame Satã”, dos mineiros Grupo dos Dez, ou “Cartas a Madame Satã ou me desespero sem noticias suas“, da Cia os Crespos), ou possivelmente em fragmentos de trabalhos como “Cabaré da Raça” e “Grajaú conta Dandaras, Grajaú conta zumbis“.  Ou seja, parcos exemplos.

No final de F.A.L.A tem se a sensação de que o grupo avançou pouco no discurso das narrativas negras LGBTQI+. As escolhas da encenação de certa forma calaram seus artistas e deixou o público construir sua própria narrativa. O que é ser negro, periférico, gay (masculino, por exemplo, que é a parte que “me cabe”, não levando em conta que sou branco) e afeminado na periferia, é algo que o grupo deixando de problematizar, não revela.

Rodolfo Lima

(Crédito foto: Sergio Fernandes)