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Caio em mim

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Existem autores que não podem ser visitados impunimente. Caio Fernando Abreu (1948-1996) é um desses. Não porque ele não deva ser lido, reverenciado, referenciado e mesmo questionado. Muito pelo contrário. Qualquer fã quer é mais que seu autor seja falado e – nesse caso – montado. A pergunta que não quer calar é: mesmo a custo de deturpações? Não sei responder, talvez devesse. Mas quem sou eu para me preocupar com tal questão?

Sou acusado de ter uma visão purista para a obra do Caio, de não aceitar experimentações ou mesmo um “outro” olhar para sua literatura que não a minha. Ou o que julgo ser o correto. A questão que sempre me pega é que esse tal “outro” olhar, na maioria das vezes lê a obra do autor de uma forma muito duvidosa. E ai, não à boa intenção que salve. Pois além da leitura supostamente errônea, há a encenação, que se não melhora, nas maioria das vezes, piora o feito.

Como fã, sempre me coloco a escutar Caio pela boca alheia, e já discordei da leitura de alguns artistas, mas respeitei, pois sua “leitura” era clara, mesmo que eu, nas minhas escolhas, fizesse diferente. O que é muito difícil para suportar é a leitura equivocada com certa pretensão. Pois ai, junta duas características que são complicadas de suportar juntas: a burrice e o equívoco. Suportei com calma as duas horas de peça, que a Escola de Atores Wolf Maya, colocou em seu palco e abriu a público, sob direção de Marco Antônio Pâmio.

Eles foram ousados, mesclam contos, peças de teatro e crônicas, sem nenhuma ordem aparente e sem temer parecer excessivo ou mesmo confuso. Um narrador aparece as vezes para tecer comentários, e o conto “Sargento Garcia”, que sugere costurar as cenas, parece que é abandonado em algum momento. Se ambas as opções, do narrador e do conto, estivesse norteando com pungência a dramaturgia, o resultado poderia ter sido mais coerente. Não foi o caso.

Acompanhei – de intruso, veja bem – o ensaio aberto ocorrido no último dia 08, oferecido para alunos da escola, com direito a bate papo com o diretor no final. Caio faria 70 anos ano que vem, caso estivesse vivo, e manifestações artísticas com e sobre sua obra já começam a despontar, principalmente em Porto Alegre. São Paulo sempre oferece opções, quando se trata da obra do autor. Não sei qual o futuro de “Caio em mim”, mas torço para que fique apenas como exercicio final de um dos módulos da escola. Explico.

São 17 atores em cena, a direção divide de forma bem simples o encadeamento de histórias, textos são apresentados adaptados e/ou fragmentado, o que pode soar confuso para quem não conhece a obra do autor, e um risco para que a conhece. É o que acontece com textos como: “Dama da Noite”, “Os sobreviventes”, “Fotografias”, “Creme de Alface”, “Linda, uma história horrível” – por exemplo. Mesmo crônicas como “Zero Grau de libra”, “Na terra do coração” e “Pequenas Epifanias“,  publicada no jornal “O Estado de São Paulo” na época, carece de melhores cuidados.

É mais fácil aceitar qualquer interpretação errônea, preterida pelo aluno em questão, do que os “benditos” jograis escolares, que mata na maioria das vezes a poética do texto. Com o Caio, que em muito casos carece de tempo, silêncio, introspecção, o crime é certeiro. Uma pena. Firulas corporais para incrementar o que está sendo dito, nas obras do autor também tem efeito duvidoso, pois a maioria dos seus personagens possuem uma movimentação interna, muito maior do que externa. Ou seja, é texto para trabalho de ator que não teme a imersão no assunto e nem o trabalhoso cuidado de tecer suas palavras e ideias de forma pungente e cuidadosa. É comum ver as pessoas “vomitando” o texto, que como disse, para alguns autores, isso soa tão inverrosimel que se não irrita, entristece. Uma frase como “deixar apodrecer a vida como a vida deixou apodrecer o coração….” não se diz impunemente.

Praticamente tudo em “Caio em mim” é dito de forma pueril. Há exemplos que beiram uma comédia popular, que é o que acontece com a personagem da mãe em “Linda, uma história horrível“. Aquela leitura não é apenas mal feita, é equivocada. Caio defendia que o conto era o primeiro na literatura nacional a tratar do tema da AIDS, e narra o encontro do filho já doente, com uma “velha”, sua mãe. Não há a possibilidade de rir, nesse momento, mesmo com a leitura mais “up” que se faça. Acrescente ai o cachorro, metafora da doença manifestada no corpo do filho. Uma familia que tem como sina, ver seus entes morrerem sozinhos, oferece possibilidade de riso ao público.

Falta de tudo por lá, consciência textual, malicia (Sargento Garcia) delicadeza (Harriett), troca-se a melancolia pela agressividade (Os Sobreviventes), a montagem carece de silêncios (Pela passagem de uma grande dor) e tudo é “gritado” e apresentado sem nuances. Não há nada interiorizado, ou que ofereça um peso para a obra do autor. Isso sem falar da chacota, como é o que acontece com a travesti Isadora de “Sargento Garcia“. Ao meu lado um amiga com deficiência visual, sofria para entender o que era exposto, pois não havia o menor trabalho textual, nuances ou intenções que a ajudasse a entrar na história. Atrizes que mal sabiam mexer os quadris e suas saias longas, não a ajudariam em nada, infelizmente.

Corajosos ao encarar textos como “O inimigo Secreto“, “O aborto” e polarizar em dois atores o famigerado “Dama da Noite“, que é uma polêmica quando se tenta definir o gênero e a orientação sexual da personagem. Lembro de uma vez que bem jovem, me meti a querer recitar o poema “Aniversário” de Fernando Pessoa, e fui rechaçado de forma debochada por Elisa Lucinda, que mediava a oficina. Eu não tinha idade para dimensionar aquele texto, concordei. Mas o pior não é ter “a” idade e sim não ter a maturidade para compreender aquela situação. Para LER o texto com cuidado e apuro. Com “Caio em mim”, ocorre o mesmo. Uma professora como Elisa, gritaria com todos? E o Caio?

Porém o mais difícil de engolir se deu quando os atores esbarram nas questões do HIV e da AIDS e levaram a cena, além de “Linda…”, “Primeira Carta para além dos muro” e “A mais justa das saias” num bloco final onde o tema era a doença do autor e consequentemente o final da peça. Essa mescla de ficção e realidade, veio a tona na boca de três atores, que sem a menor conexão, reproduzia suas marcas. Ou seja, nem no mais delicado dos temas para o autor, se vê sensibilidade na abordagem.

Mas a surpresa viria no bate papo com o diretor, Pâmio fez um introdução falando sobre o autor, suas questões e explicou que a criação foi colaborativa, que ele incentivou os atores a procurarem o “caio que havia neles” e que não interferio nas escolhas dos textos, pois traduzia as inquietações do seu elenco. Que Caio não era apenas um autor depressivo e que a montagem ressaltava isso.

Observação: todos os textos que eles pegaram para encenar não está entre os mais “solares” do autor. Ou seja, há um desencontro de entendimento ai, não? Também disse que alinhavar os contos, foi “desafiador”, pois não havia feito nada parecido na escola.

Percebia-se.

Eis que o público se manifesta com a seguinte questão: – Vocês entraram em contato com algum soropositivo?

Pâmio responde  – e faça você, que me lê, suas considerações – que não era necessário uma pesquisa sobre o tema, e nem emergir “num lugar stanislavskiano” e que não queria “pesar” a montagem, e nem reproduzir o “calvário de pessoas como Cazuza e Freddie Mercury, e ainda devolveu para platéia, como que a jogar a questão para o público: – alguém aqui é soropositivo?

Ou seja, se ninguém era soropositivo, ninguém validou a provocação da pergunta que obviamente revelava a forma pueril como o tema foi tratado. Seu eu fosse soropositivo, teria feito uma barraco, pensei. Não é o caso.

Antes de me retirar do recinto, pois já havia ouvido tudo o que não queria, ainda ouvi Marco Aurélio – responsável pela preparação corporal dos alunos, dizer que eles queria trabalhar com a poesia e o desassossego.

Não sei se a escola sabe o que é poesia. Nem o que entende de desconforto. Só acho que uma escola deveria ter mais cuidado. Pois é o espaço da experimentação. Mesmo exercicios cênicos abertos ao público, se não revela a escola no todo, sinaliza muito de seus ideais. E o que vi ali na platéia da Escola de Atores Wolf Maya, foi uma enxurrada de equivocos, que além de não fazer jus a literatura do autor, revelou professores que não entendem que “naufragar” num personagem, não significa vivenciar na pele os seus fragelos, e sim abrir a percepção para se entender o que viria a ser esse lugar. Não quero ensinar tais profissionais como fazer, mas convenhamos, que ator que passa verdade em cena sem mergulhar em si mesmo?

Rodolfo Lima

Obs: a peça fez três apresentações dias 11, 12 e 13 de setembro de 2017, cobrando R$15

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Heartstone

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O filme é daqueles onde a sinopse oferece todas as informações para que a experiência de ir ao cinema caia no clichê e descontente. A amizade de dois garotos, um verão, um lugar afastado, desejos reprimidos e carente de entendimento, preconceito.  Para “ajudar”, mais de duas horas de filme. Eis que Heartstone (2016) dirigido pelo islandês Gudmundur Arnar Gudmundsson surpreende e nos cativa pela poesia crua e sem firulas que imprime em seu longa metragem. Não há toa o filme tem no currículo o prêmio de melhor filme com temática LGBT no Festival de Veneza.

Thor (Baldur Einarsson) e Cristian (Blaer Hinriksson) são amigos, do tipo inseparáveis. Isolado em algum lugar da Islândia, onde a aridez do local, as poucas opções de lazer e famílias problemáticas potencializam o afeto que há entre os meninos. Obviamente que nesse ambiente inóspito, embora o filme se passe no verão, há homens machistas, mulheres reprimidas, e garotos e garotas que chacoalham o pré estabelecido e nos revelam que a juventude sempre traz o desejo do novo, de transgressão, por mais torto que seja.

A aridez poética do lugar, explorado sem excessos e que nos enebria, parece tecer contraponto com a sexualidade sendo descoberta no belo elenco, em tomadas contundentes e de bom gosto. O filme revela o óbvio sem temer tensionar as imagens que expõe, sem que a fotografia da película favoreça a percepção do olhar.

Entre brincadeiras de criança, descobertas do próprio corpo e de sentimentos difusos, os meninos vão descobrindo um mundo sufocado pela solidão, pela incompreensão e pela sutileza do vazio de cada um. Uma mãe é solitária e carece ser amada, a outra é reprimida num casamento falido. Thor tem duas irmãs. Enquanto uma é artista e sensível, a outra rebelde e impetuosa. O filme oferece uma gama de personagens complexos.

Se Thor sofre com a ausência do pai e com a suposta vida sexual da mãe, Cristian não se sente acolhido pelo pai que tem e nem pela relação abusiva que os pais parecem ter. Cristian vai ser futuramente filho de pais separados, Thor já é. Fraturados, os meninos se apoiam, mas com uma diferença sutil de sentimentos. É tudo tão delicado no filme de Arnar que somos conduzidos – sem oferecer resistências – pela forma como ele vai desnivelando esse afeto.

Há uma maturidade nas telas, que pouco se vê em filmes com temática gay. As cenas com uma das irmãs de Thor – a artista, em questão – são de um bem vindo bom gosto. Somos surpreendidos pela garota que ouve Bjork, que desenha, que entende o que está subtendido na relação do irmão com o amigo, que oferece um ombro, como que a dizer: está tudo bem ser assim.

A rotina daqueles meninos, parece um microscópio da realidade de qualquer lugar. Identificamos os “lugares” visitados pelos meninos, mesmo que não tenhamos tido experiências parecidas. Os arquétipos estão esboçados a catapultar uma melancolia romântica e esperançosa dentro de nós. Como se através do olhar de Thor e Cristian pudessemos reviver a descoberta do amor, do companheirismo, daquele “melhor amigo”, que um dia sabemos a vida dará conta de afastar.

O desespero de um sentimento que não é reciproco, o medo da violência da incompreessão, a estupidez da intolerancia que explode em agressão, o desejo que aflora no corpo mesmo que não consigamos apreender sua dimensão. Está tudo lá, no desenrolar da história, como que a nos confrontar, revertendo em nostalgia nossas lembranças pessoais e dando voz a uma juventude que cresce numa sociedade repressora e que tem pouco acesso ao diálogo e a compreensão.

Thor não está insento de julgamentos. Esboça sinais de machismo, incompreensão. Sua estatura mignon em contraste com sua expressão facial emblemática e madura, embaralha e potencializa o ar homoerótico presente no filme. É um homem feito em corpo de criança, pensa-se com facilidade.

A cena seminal de Thor e Cristian é de apertar o coração. Dado a crueza da realidade e do peso que o futuro os reserva. Saimos silenciados do cinema, pois a poesia exposta não é capaz de suplantar uma história que pode ter dado errado. Porém, no universo das descobertas juvenis, o que é o errado?

É Cristian que revive num peixe no fundo do mar, e nos resta como uma metáfora de sobrevivencia. Sofremos com sua dor muda.  Seu desespero que implode contra si mesmo. Sabemos que o peixe-menino é frágil e delicado, que sua vida é pautada pela solidariedade alheia. Que assim como os humanos, precisará andar em bando para se sentir seguro, pertecente a um mundo onde, caso o afeto falte, sobrará vivências.

As vezes o outro nos salva, muito as vezes…

Rodolfo Lima

Grande Sertão: Veredas

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Existem obras na literatura nacional que exigem muito do seu leitor. Além da disposição, exige a capacidade de fabulação, ou seja…ele narra a ação e o leitor dribla supostas dificuldades na leitura, para emergir no universo proposto pelo autor. Guimarães Rosa é desses autores, exigente. “Grande sertão: veredas” é um dos clássicos nacional, levado a cena por Bia Lessa. Que assim como Rosa, exige do seu público atenção, disponibilidade e conteúdo. Sua encenação não é para iniciantes.

São quase três horas de peça. Sua direção imprime um ritmo interessante ao trabalho e o público se sente refém da obra. Assim como o texto é da obra encenada. O espaço concebido por Camila Toledo nos remete a uma grande gaiola, onde podemos ver a ação por frestas. Nos remete também ao emblemático espaço concebido por Lina Bo Bardi ao Teatro Oficina. Existem aproximações entre “Os Sertões” de Euclides da Cunha, de Zé Celso, com o sertão de Guimarães de Bia, além do espaço cênico – uma associação inevitável, bem como algumas marcações. Assim como o diretor, Bia propõe que adentremos no universo de Guimarães, para retrabalharmos o olhar e a escuta, e por meio do homem rústico, guerreiro e matuto, possamos compreender um pouco da nossa história, de nossas origens. Não é fácil.

Sem ter quem encarasse adaptar a obra literária para o teatro, a direção usa os fragmentos do livro, onde a “costura” dessa dramaturgia soa mais rebuscada e hermética do que o original. Entendemos que Riobaldo (Caio Blat) está a narrar suas memórias, porém a relação com o Diadorim (Luiza Lemmertz) e com seu inimigo Hermógenes (Leon Góes), bem como a relação dos homens do bando, vem a público de forma quase crua e o público “patina” para embarcar na encenação.  Para deixar mais complexa a experiência, a direção de Bia se sobrepõe ao texto, tornando-se  mais presente que a poética do autor. É como se a direção dos atores em cena, nos roubasse a atenção. Corpos virtuosos e entregues, literalmente “suando a camisa” disputam a atenção e a concentração do público.

O adendo de acompanharmos a narrativa com fones de ouvidos é outro desafio imposto pela encenação ao público. Parece desnecessário, mas é uma possibilidade de provocar o sentido da audição. Com eles, adentramos com mais nitidez na ambientação proposta, pois é bonita e bem cuidada a sonoplastia e trilha sonora do espetáculo. Sem os fones, tudo soa mais opaco e “duro”, como é por exemplo os figurinos que endurecem ainda mais a realidade sugerida.

Riobaldo – interpretados por Caio Blat (adulto) e Luisa Arraes (jovem) – é um homem imerso nas questões pessoais, que vai do religioso ao emocional. Aprendemos que a “vida não é dá gente” e o que vemos é um homem refém. O meio social em que vive, as regras locais e o que isso emputa na suas decisões é forte e emblemático. Nos conectamos com esse homem, muito pelo trabalho de composição de Caio Blat. O elenco está entregue e disponivel – mesmo que não soem harmônicos a disponibilidade de entrega de todos – e Caio, no meio de tantas referências, se faz audível, e mesmo quando só observa sua colega de cena narrando o passado de Riobaldo, comunica. Vale ressaltar que a nudez de ambos os atores é um dos melhores momentos da montagem, pois são belas oportunidades de se observar um ator a mercê do personagem. Se Luisa se desapega do pudor, Caio se entrega ao público, como que a desnudar mais o seu Riobaldo.

Mas para além das questões sociais da obra literaria, o crème de la crème dessa história é o sentimento de Riobaldo por Diadorim. No caos do sertão, na fragilidade das relações e no horror das ações humanas, é em Diadorim que Riobaldo encontra alento. Bia Lessa não potencializa esse momentos, infelizmente. E se você na platéia, não está cansado, ou mesmo perdido no meio da história, tem um refresco poético com a literatura de Guimarães que referencia esses sentimentos e para intensificar o afeto dos dois, soa como epifanias para os ouvidos atentos.

“Eu tinha percebido que estava me sabendo?”, Riobaldo se pergunta em dado momento. E a resposta é, não. Somos cúnplices desse homem, pouco nos sabemos. Riobaldo se deixa levar pela “neblina” que o outro o era e o quanto que essa possibilidade de entrega o sustentava. Caio Blat sabe do peso desses momentos. Se vemos em Luiza Lemmertz uma composição alegórica para sua Diadorim, afinal “mulher é gente tão infeliz“,  é a emoção de Blat que equilibra essa relação e nos cativa. Bia Lessa parece não estar preocupada com as questões homoeróticas e andróginas que essa história potencializa. O que é uma pena. Pois se perde a oportunidade de valorizar o sentimento entre as pessoas, para além do gênero. E ainda precisamos que qualquer tipo de arte, reforce isso. Não crie expectativa do momento em que Riobaldo descobre que Diadorim é mulher. Ela não será suprida. Uma pena.

Se você não estar a par do contéudo da história, também ficará difícil entender a função de Diadorim no rumo dos fatos. Ela está ali só para desestabilizar o protagonista? “Afinal, só se pode viver ao lado de alguém se tivermos um pouco de amor”. E o que é o amor? Em dado momento da pensei: seria “Grande Sertão…” o nosso “Brokeback Mountain”? Tá ok, sei que é pedir muito. Mas porque não?

Como eu podia amar um homem?” Riobaldo se indaga. É uma pergunta que ainda permanece como uma ferida aberta numa sociedade que se mostra retrógrada e intolerante. Riobaldo não pode se esconder de si mesmo. Foi tragado pelas sensações e essa leitura do trabalho é de uma beleza impar. Vale ressaltar que os momentos em que a encenação narra sua infância, é um dos melhores. Como se ele crescesse, mas algo de ingênuo permanece a lhe abrir as portas da sensibilidade.

Em momentos em que o homem está a frente de todo seu contexto social, a literatura de Guimarães se faz presente e emociona. “Sem saber como chamar, eu exclamei doendo: meu amor“. Esse amor estraçalhado, primeiro pela incompreensão, depois pelas circunstancias e por último pela saudade, é o que resta no final. Atente-se a essa relação, (mesmo que não saibamos o que Diadorim pensa) é uma forma de você se apegar ao trabalho em si e suportar uma encenação cheia de altos e baixos, que cansa, exige disponibilidade minuto a minuto, e transforma a todos – assim como os atores – em homem, bicho, planta.

Rodolfo Lima

Obs: A peça fica em cartaz até 22 de outubro de 2017, no Sesc Consolação (Vila Buarque/SP)

Virilhas

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A peça abre com a música de Johnny Hooker, “Segunda Chance”. Emblemática, ela introduz com força os dois atores (Thiago Schreiter e Neto Mahnic) nus em cena, mas é rompida abruptamente enquanto os atores caminham entre panos brancos pendurados no cenário que tematiza um quarto. Esse rompimento seco permeia a peça toda que carece de sutilezas criveis e um tempo para que o público absorva o desejo entre eles, para só depois então, rasgá-lo. Entendemos rápido que Thiago (os personagens tem os nomes dos atores) exige que Neto volte atrás e o reconsidere na sua vida. “Dê ao nosso amor, uma segunda chance”, diz a música. O recado é validado nas primeiras falas de Thiago, o apaixonado inconformado em questão.

Falar sobre o amor é um imbróglio dos grandes. Isso porque vivemos tempos cruéis e pueris onde a quantidade conta mais que a qualidade, embora a maioria sofra calada com a falta de conteúdo dessas famigeradas trepadas e encontros – facilitadas com os diversos aplicativos que te possibilitada “caçar” um corpo para usar, a partir da tecla do celular. Falar de amor gay, parece que é pior no teatro, pois a situação vem recheada de clichês e se torna difícil a imersão no drama alheio. No caso do texto de Alexandre Ribondi isso é evidenciado pois seus personagens são maniqueístas e soam piegas.

Não é desprezível a postura dos personagens, veja bem. É coerente quando Neto se defende quando é acusado de ter abandonado Thiago, porque “esqueceu”. Revelando que a partir do cotidiano, “de repente” – no banho, por exemplo – ele se desvinculou do outro. A realidade de Thiago é mais complexa, pois ele se sente refém do corpo alheio, aprisionado pela própria paixão. Essa dicotomia entre o desapego e o apego permeia os 60 minutos da história.

A questão é não ter dualidade nem no discurso e nem na encenação. Não adianta polarizar o debate e dar um tom “moderninho” pois hoje-todo-mundo-trepa-com-todo-mundo-de-forma-desapegada se não encontramos conteúdo nesse discurso. Embaralhar palavras, não resolve, principalmente quando o argumento que deveria sustentá-las é frágil. Digo isso pois a história é incoerente, explico:

A mãe de Thiago ficou casada quatro anos com o pai de Neto (ou vice versa). Eles  – os filhos – tiveram uma relação de 14 meses e estão a 12 meses e 9 dias (segundo Thiago) separados. Porém a cena é forçada para que Thiago parece uma bicha insana e inconformada, pois cobra e exige explicações para tal afastamento, enquanto Neto – pra enfatizar os tais “amores líquidos” – não se importou e nem se importa com toda a história que os dois compartilharam. O resultado disso: risos na platéia. Pois o que era para ser um drama romântico tem momentos risíveis, onde deveríamos ser cúmplices de Thiago, por exemplo, nos tornamos o algoz, a julgá-lo.

Thiago, o ator, fica mais exposto, pois seu personagem conduz a história e as ações. Se prejudica pois seus “olhos esbugalhados” serve para enfatizar todos seu “drama”. Em contrapartida a passividade de Neto, que não potencializa as questões que recaem sobre seu ombro. Ou seja… parece dois monólogos, ruim. Diferente de Thiago, Neto supõe “interiorizar” seu personagem e o que vemos, principalmente no final, é um “banana de pijama”, que para piorar se desculpa, temeroso com a violência alheia.

A direção de Rafael Salmona é sofrível pois “marca” seus atores de forma a não ajudá-los a forjar sentir os dramas em questão. Para piorar a única cena de amor/sexo entre os personagens é realizada no escuro. Nada mais cafona e demodê do que isso. Parece que estamos numa sala de teatro no final do século XX onde a nudez é realmente tabu, quiça uma simulação sexual. Quando você se depara com esse momento, pensa que R$60 para presenciar isso, é muita coisa nos dias de hoje.

Poxa Rodolfo, você queria algo explicito? Você pode se perguntar. Responderia que não, apenas gostaria de ter sido tratado como adulto e provocado como público e inspirado como artista, que veria em seus colegas de profissão uma possibilidade de (re)leitura das questões sexuais e amorosas encenadas no palco desnudo de atrativo visual. A cena de sexo entra para tentar intuir a intensidade da atração sexual entre eles, mas é um erro banal da direção, que aliada com o cenário pobre (a imagem que abre o post é usada para divulgar a peça e meramente ilustrativa), deixa tudo mais tacanho.

Do meu lado, o público reage, um reclama e o outro responde: – ué, é a privacidade deles.

Então não se pode balizar a peça pelas minhas colocações, já que tem quem concorde, mas reitero a pobreza dessa opção cênica que só reforça que não, não pode ser normal vermos uma bela cena afetiva e intensa entre dois homens.

A ideia de cárcere privado é usada para validar a situação, já que Thiago tranca Neto em seu apartamento e o torna refém, assim como ele se sente sendo obrigado a conviver com a saudade que o arrebata. Neto é cruel, é frio, desapegado e não está preocupado com os sentimentos do ex-meio-irmão. “Quero tudo o que tem no seu peito“, diz Thiago, o que é um absurdo para Neto. Por essas e outras é incoerene a opção de colocar Neto cantando “Condinome Beijar Flor”, simplesmente porque o personagem foge de toda essa intesidade que a música sugere. “Eu não vou passar a sentir algo por você que nunca senti. Não tem importância“, vomita Neto. Pablo Diego Garcia, “assina” a trilha. Não entendeu o personagem.

Eles não serão amigos. O público não será imerso numa relação profunda e consistente. E a cama, que pode ser usada como uma arena, a potencializar essa relação fraturada sugerida, serve apenas como um móvel. Assim como é o corpo do outro, na maioria das vezes: um objeto.

Eu não posso deixar você ir embora, porque eu te amo“, “Qual a diferença entre estar louca e apaixonado? As pessoas não sabem” Para questões tão dramáticas e triste que restam na boca de quem sobra, o público reverbera um: – Bicha, melhore!!! 

Algo saiu errado, convenhamos.

Rodolfo Lima

Serviço:

Virilha

Teatro Augusta

sexta a domingo, até 01/10

R$60

Cabaré Show Drag

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Zecarlos Gomes foi apresentado ao reduto LGBT paulistana quando seu “Drag Queen Curso” ganhou visibilidade. O Ator e produtor é o responsável pelo primeiro curso – assim é divulgado, mas pode haver controvérsias, claro – para formação de drag queens do país. A promessa é ajudar os interessados a compor uma personagem, dar dicas de maquiagem e noções corporais, bem como contextualizar os interessados, sobre as origens das drags, orientação sexual e identidade de gênero. É muita coisa, convenhamos.

Oito desses alunos encabeçam o elenco da peça que está em cartaz no Teatro Alfredo Mesquista, até 10 de setembro, conta com participações convidadas (dias 01,02 e 03/09 Divina Raio Laser; dias 08,09 e 10/09 Alexia Twister e Ikaro Kadoshi) e que provavelmente ajudarão a aumentar o close e o emaranhado de referências do universo drag. Afinal, quem explica esse conceito? Não é a peça, infelizmente.

Em vez deu explicar o que é uma drag, preferi reproduzir a explicação dada por Lorelay Fox – uma das convidadas que já participaram da peça – num vídeo conhecido, onde ela explica o que é uma drag, atenha-se: “Drag não é uma expressão de gênero, é uma expressão puramente artística. Pode ser feito por mulheres, homens, heteros, gays. Uma mulher que se transforma num personagem masculino. Um homem que se transforma num personagem feminino. Pode ser o que você quiser querida,  porque é tudo palhaçada. (…) Você não precisa nem ser um personagem humana, afinal você é um ator, você se transforma no que você quiser querida, o azar é teu. Essa é a grande diferença das drags queens pros transgênero. A drag queen não passa de um ator. A gente não vivi o personagem no dia a dia. A gente é feito de espuma, de cosméticos. A gente é feita de plástico. ‘Cê taca’ água nisso querida, desmancha, derrete, evapora. A gente é personagem (…)

Partindo desse pressuposto é bom que se diga que as duas mulheres no elenco (Veridiana Benassi e Jacqueline Follet) não performam e passam longe do que é ser uma drag queen, ou o que seria o correlato: uma drag king. Em vez disso, vemos uma atriz desabafar sobre as questões da mulher, para lembrarmos que “machistas não passaram”. Qual a relação disso com o universo da drag queen? Não se explica. A confusão aumenta e o que poderia ser um trabalho sério e contundente a propor uma reflexão sobre uma profissão tão complexa, ganha um retrato frouxo e insuficiente. E convenhamos, não há montação que vença a falta de conteúdo.

É um feito a temática sair dos palcos de boates, “inferninhos” e guetos, para ocupar um teatro público. Vejam o trabalho, independente das minhas colocações, que a priori é uma tentativa de problematizar o que está em cena. É um trabalho cheio de altos e baixos, e a minha questão é:  porquê?

O nome do trabalho já é confuso, pois junta três “lugares” bem específicos: um cabaré, um show e uma drag. Como interseccionar esses universos de forma potente? O roteiro do trabalho une de forma frágil, esquetes cômicas, dublagens, canto e os famosos cacos e bordões do universo queer, para arrancar riso da platéia. Para contrapor essa “graça”, expõe cenas com conteúdo dramático, debochados pelas próprias integrantes da cena. É uma auto critica que não funciona, pois não emociona a contento. Para complicar o papel de direção de Zecarlos o elenco é irregular. Expondo, por exemplo, a diversidade do universo drag e ressaltando as caricatas – a clássica palhaça que faz joça de si mesma.

Pedro Machitte (Mercedez Vulcão) fica no meio termo, do que considero um elenco desproporcional. Além das mulheres citadas, pesa “contra”, as presença de Gabriel Leto (Athena Leto); Leo Braz (Leonora); e Ryck Souza (Abapurana). Se Leto, a caricata em questão, se preocupa com um figurino simples, maquiagem over e falas cheias de piadas – por vezes, sem graça, veja bem – Souza arranca risos do público com um elemento inusitado (uma manga), que vira uma muleta, onde o ator se apoia a peça toda; Braz tenta dar contéudo a sua “drag” citando Caio Fernando Abreu é o mítico conto “Dama da Noite”. Com o intuito de dar profundidade e humanizar sua personagem, afirma: sou positiva. Além disso, ela cheira muito padê (cocaina). Ela pode ser lida como uma faceta do universo drag? Olha o risco! Além claro de “vomitar” o texto do autor gaucho. Sua composição beira o travestimento e não há nada ali que nos lembre de uma drag. Bom, a peça é sobre a vida pessoal dos atores? Me pus a pensar… Qual a relação de Braz com o universo drag? Parafraseando Lorelay, o “azar é seu querida“, tem que ter.

Se problematiza pouco em cena, e também se informa pouco. Então vira uma grande confusão e da platéia do teatro somos projetados para qualquer lugar onde atores e não atores vestem perucas, vestidos, maqueiam o rosto e fazem graça. O teatro perde seu poder politico de levantar questões e vira um “circo”. Sem desmerecer tudo o que é elaborado sob uma lona, obviamente.

Machitte compõe de forma frágil sua personagem e não sabemos se é para rir dela ou com ela. E também não é claro onde ele quer nos levar com ela. O único “ator formado pela UNICAMP” faz ponte para seus emblemáticos colegas de elenco: Renato Lima (Jehnny) e Beto Souza (Thelores). Ambos muito bem em cena.

Lima canta e sua Jehnny soa como uma persona, ela nos dá a sensação de poder ser no dia a dia, tudo aquilo que revela ser em cena, embora em dado momento avise: Sou uma bicha transviada. Como esclarecer esse conceito caro Lima? Essas denominações “moderninhas” e que em muitos casos pioram o entendimento de uma forma geral, polui um trabalho como o Cabaré Show Drag, onde, na teoria, é a arte drag que deveria estar em questão. Mas Lima incita o público a achincalhá-lo com palavras depreciativas, para nos afirmar: Não voltarei um passo atrás da minha bichisse.

A famigerada batalha entre elas (as drags) é esboçada na cena em que Lima, Souza e Machitte dividem o palco. Porém, a direção não potencializa o que poderia ser o melhor do “show”, o embate entre dois atores que possuem as melhores composições de drag, do seu elenco. Em vez disso, de criar um momento emblemático – vide os Lip Sync nos finais dos episódios de Rupaul’s Drag Race – se perde, e opta por uma escolha que no mínimo revela falta de contéudo. Uma pena.

Uma drag como Thelore, jamais “deitaria” para Jehnny, convenhamos!!!

Digo isso, pois se Cabaré Drag Show tem um talento. Se as aulas de Zecarlos ajudaram a revelar alguém, esse é Beto Souza (Thelores). Tudo com ele funciona. Da maquiagem, ao figurino, a dublagem e ao canto. O público enxerga a personagem. Portanto soa incoerente quando elx “perde” a cena para Lima, no momento em questão. “Meu amooooooooooooooooooooooor“, deu vontade de gritar para Thelores (na foto), REAGE!!! Mas a cena acaba de forma broxante. A platéia não se manifesta.

Parece cruel da minha parte ressaltar com tanta enfase um dos atores. Mas essa minha postura é típica do público de drags de boates, de programas, que antes de fazer graça, ou drama, duelam entre si, zombando de si mesma e do momento. Minha frustração na platéia foi a mesma sentida por diversas vezes, de pé numa pista de dança. Se Cabaré Show Drag não esclarece a profissão, poderia ao menos ter nos brindado com momentos dignos de show de boate.

Não, “não temos noção do que é ser uma drag sendo pobre“. Não, muitos de nós na platéia não sabemos o que é ser “nordestino e veado“, “não ser homem e nem mulher“, acordar “menino, querendo acordar menina” ou o que é o “INDAC“. E muito ali nem saberão explicar o que é ser uma drag queen. Uma pena que Cabaré Show Drag pareça mais com aquelas comédias depreciativas e recheadas de piadas prontas a entreter. Zecarlos prometia mais.

Rodolfo Lima

 

Serviço:

Cabaré Drag Show

Teatro Alfredo Mesquista

Avenida Santos Dumont, 1.770 – Santana

de 18/08 a 10/09/2017

sexta e sábado 21h, domingo 19h

R$20,00

PLURAL, Festival da Diversidade – Impressões

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Araçatuba recebeu de 15 a 20 de agosto, graças ao impulso dado pelo PROACSP, o Plural – Festival da Diversidade, que está sendo considerado o maior festival da diversidade sexual do interior paulista. Concebido e produzido por Fernando Fado,  o festival juntou mais de 40 atrações na programação, das quais pude acompanhar 24 (sem contar três trabalhos que eu já tinha visto em outras oportunidades). Foi uma maratona e para os araçatubenses uma enxurrada de possibilidades artísticas para rever a sexualidade e suas diversidades. Apresentações teatrais, performances, curtas metragens, shows, discotecagem e exposição; perfazem o que é para os paulistanos o Festival MixBrasil de Cultura da Diversidade, que entra na programação paulista sempre no segundo semestre.  Assim como seu “irmão mais velho”, o Plural terá que se adaptar e se reinventar nas próximas edições. A proposta é que o evento seja Bienal. Ou seja, sua próxima edição está prometida para 2019.

Uma das primeiras questões a se levantar é o acumulo de atividades na parte da noite. Já que alguns horários se chocavam. Isso fez com que o público se dividisse e corresse de um lugar para outro.  A levar em conta outras atividades culturais da cidade, que revela a disponibilidade maior do público na parte da noite, não se pode ignorar parte dele que poderia comparecer a tarde nas atividades. Um festival que propõe criar demanda e educar culturalmente o público, precisa pensar nele de forma geral, e isso supõe ficar atento a problemas para que os menores de idades se desloquem com mais facilidade de dia, e turistas que podem comparecer na cidade em função do festival. E claro, sanar a dificuldade de locomoção da cidade, que não favorece quem não tem transporte particular. Araçatuba é um lugar com transporte público escasso, e táxis que não se utilizam de taxímetro para taxar os valores das corridas.  Aliar uma curadoria artística instigante com a consciência do poder educacional de tal ação, criando conexões com os aparelhos culturais público e privado da cidade, é um desafio constante de qualquer festival grandioso.

A imagem que abre esse texto é da Intervenção de Leonardo Vinicius Fabiano, intitulada “Desgustação” (Maringá/PR) que abriu as atividades no primeiro dia. Apresentada na Rodoviária de Araçatuba, revela a necessidade de ações que interfiram na rotina dos araçatubenses. A programação trazia 4 propostas, em lugares chaves da cidade como a rodoviária, o terminal de ônibus, o calçadão, o teatro municipal e dentro do shopping. A proposta de Leonardo era que o público engolisse ou “vomitasse” com ele palavras de repulsa e intolerância que a população LGBT suporta diariamente. Foi um desafio, já que o resultado de sua ação dependia diretamente da colaboração do público que podia comer junto com ele, ler os textos disponíveis em voz alta ou mesmo levar consigo tanta intolerância. “Alguma mensagem ele quer passar, só não sei qual. O cabelo colorido e a gelatina me remeteu a diversidade, o pessoal usa muito“, me conta a assistente de vendas Rosneide de Fatima, de 35 anos, de passagem pelo rodoviária. Já para Gabriel Gasparini, de 19 anos, estagiário da Prefeitura local, a leitura foi outra: “Estou achando meio triste porque o pessoal passa e não interage. Não sei se por que não olha, não entende. Mas só o fato da pessoa não parar para olhar demonstra ignorância. A busca pela compreensão não é influenciado. Somos  empurrados contra. E quando isso ocorre é criado uma hostilidade”.

Outro ator que dependeu da “generosidade” do público foi Heitor Gomes e sua performance intitulada “Temporada de Caça“. Diferente de Leonardo, que tinha esboçado com clareza o que deveria ser feito, Heitor se disponibilizou ao público durante quatro horas diante de uma série de objetos que poderiam ser utilizados para interagir com ele, que não reagiria. Gomes arriscou, havia entre os itens, martelo, faca e uma lâmpada florescente – que foi usada por homofóbicos num ataque na avenida paulista e virou símbolo da luta por respeito. Se uma das questões referente ao trabalho de Leonardo foi sua passividade diante a interação do público, de Heitor foi ser vítima de ações que o ridicularizavam ainda mais. Entre batons e correntes de ferro, faltou para o público objetos que o provocaria de forma a desafiar o performer,  e desestabiliza-lo, independente da questão de gênero. Vale observar que nas duas apresentações não havia nenhum indicativo da programação do Festival e/ou alguém que informasse os curiosos do que estava ocorrendo. Uma questão a ser observada: contextualizar ou não o público?

Heitor também foi responsável  – junto com Rodrigo Santiago – por “Via Crucis“, performance onde os atores andavam de mãos dadas pelas ruas e lugares públicos da região central de Araçatuba. Meu primeiro pensamento foi: que lugar é esse que carece de dois homens andando de mãos dadas para chocar? Problemática, a ideia foi acompanhada por mim por cerca de 30 minutos. Os atores em questão não interagiam entre si de forma mais pontual a provocar reações do público e o fato de termos que ficar seguindo os mesmos, sem sermos vistos como público, também dificultava a leitura. Se pensarmos que temos casos de homofobia entre familiares – por exemplo – que trocam carinhos em público e são visto como amantes, os artistas em questão precisavam ser mais arrojados em suas ações a dois, para que o público fosse retirado do seu lugar comum e obrigado vê-los/agir. Morosa, ingênua e cansativa, a atividade foi a bola fora da programação.

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As cores do logo do festival, são referentes as mesmas que estão na bandeira da luta contra a transfobia. Não por acaso, a programação prestigiou esses indivíduos de forma ousada e inovadora. Magô Tonhon, Helena Vieira, Jaqueline Gomes de Jesus, Renata Carvalho, Leonarda Glück, Assucena Assucena e Raquel Acerbi, são mulheres trans e travestis que puderam dividir com o público sua arte, suas experiências poéticas e acadêmicas. Leonarda em “No documento é homem mas aparenta ser mulher” revela ao público o desconforto de sempre ser vista como uma estranha. O público ouve a atriz cantar, revelar suas carências e dúvidas, e ao se desnudar para “nós”, oferece a possibilidade de nos afetar, o grito é singelo, mas somos tocados em ver a luta do outro em sem debater com o próprio corpo.

Outra combatente dos palcos da cidade, foi Renata Carvalho e seu “O Evangelho Segundo Jesus – Rainha do Céu” que peregrina pelos palcos nacionais e levantou a ira dos religiosos da cidade que tentaram – pacificamente, através de uma nota de repúdio – impedir a apresentação da peça. O texto da britânica Jo Clifford emociona e proporciona uma releitura dos escritos na bíblia de forma atual e pertinente, porém, pondo em xeque a forma como se lê e se atua, a partir de tais escritos. O tom cômico que a protagonista esboça, ajuda a cativar o público e dividiu opiniões. É uma opção arriscada, porém certeira.

A intolerância também recaiu sobre “Amém” espetáculo local, que traz a cena Clarinha (Laerte Junior), personagem indefinido que também “passeia” sobre questões religiosas, porém de forma confusa e desordenada. As inúmeras referências da peça – de Lady Gaga (cantora) a Harvey Milk (militante americano) – descaracterizam o discurso, parecendo mais como um arremedo de cenas soltas. A dramaturgia fraca junto com a frágil composição cênica de Laerte, deixa o resultado com gosto duvidoso. Itens do cenário e projeções em excesso também podem servir de muleta e roubar a atenção do que realmente importa: a mensagem EFETIVA que se quer passar. Exemplos do cenário: o liquidificador, os pratos dispostos pela platéia e cenário, e a banheira de leite com bolas de isopor.

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As ações formativas que teve curadoria da pesquisadora Magô Tonhon propôs junto com a participação da escritora e transfeminista Helena Vieira e da professora de psicologia do Instituto Federal do Rio de Janeiro, Jaqueline Gomes de Jesus uma rica discussão sobre as questões que aparta cisgêneros e transgêneros e os percalços que ficam mal resolvidos no trânsito dessa luta. São inúmeros. E também são grandes o desafio da curadoria em pensar uma forma mais ativa de fazer com que tal oportunidade de escuta e reflexão, seja apreciada por um número maior de pessoas e de forma mais produtiva. Se Magô pode abrir caminhos com sua simpatia e bom humor, coube a Helena falas mais diretas e ríspidas para que se pudesse entender a dimensão da luta de mulheres trans – por exemplo. Jaqueline clareou didaticamente nossas impressões de forma delicada e pontual. Pena que poucos se disponibilizaram a ouvi-las.

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“Orientação afetivo sexual é igual a bussola, sempre para o norte, sempre para onde seu coração mandar” – Magô Tonhon

Helena enfatizou o fato da sociedade achar que ela não é digna de ser amada, e que o homem que decide ter um relacionamento com ela é o “corajoso”. Se as emoções não estão alheias as questões da política, é preciso reciclar o olhar para as questões de travestis, transexuais e mulheres trans. “Informação é pressuposto de participação. A cultura é importante pois é uma via de acesso do conhecimento e problematização“. Sobre a passividade e a preguiça, e porque não o desinteresse alheio, a escritora dispara: “Conservadorismo é manter as coisas como são, pois me sinto tranquilo e confortável. No futuro todos nós podemos ser um conservador“.

A fala mansa e tímida de Jaqueline não foi o bastante para conter a pertinência de sua fala: “Não é só os trans que modificam o corpo. Todos fazem isso. Pois tem haver com a auto estima. Pois ninguém quer se ver da forma como é, como acorda. Ignoramos que a primeira roupa é o nosso corpo“. E nos alerta: “Transexuais não é o termo ideal para se referir a outras igual a mim (mulheres trans), pois a questão não é sexual e identitário, é de gênero“.

A expectativa de todos: produção e público, era pela programação de shows no final de semana. As dobradinhas “Jaloo e As Bahias e a Cozinha Mineira” e “Tássia Reis e Karol Conka“, seriam apresentados gratuitamente numa das praças da cidade. O que potencializaria o discurso e a arte dos artistas.  Em função da semana chuvosa, a produção deslocou os shows para a boate Loft Club. Entre um show e outro Leandro Pardi, musicava seu “Pardiero” num trecho da rua em frente a boate, fechada para abrigar o público. Se o evento como um todo perdeu a capacidade de atingir um público maior e diverso, a inclusão da famigerada boate local é um ganho, que não pode ser ignorado nas próximas edições do PLURAL. Teria sido – um palpite – o local mais apropriado para o show de Linn da Quebrada.

Vale ressaltar que os shows de abertura, que contaram com a participação de Ekena e o trio de cantores do “Não recomendados” encheram de poesia e militância o palco do Teatro Municipal Castro Alves, que tinham na platéia um misto de políticos, parceiros culturais, artistas e público em geral. Se Ekena avisou: “Eu tenho pressa eu quero ir pra rua. Quero ganhar a luta que eu travei. Eu quero andar pelo mundo afora. Vestida de brilho e flor. Mulher, a culpa que teu corpo carrega não é tua. Divide o fardo comigo dessa vez. Que eu quero fazer poesia pelo corpo. E afrontar as leis que o homem criou…” É de Caio Prado  – integrante do trio em questão – um dos refrões mais pertinentes para traduzir a homofobia e transfobia que mata diariamente. Atenha-se:

Pervetido, mal amado, menino malvado, muito cuidado! Má influência, péssima aparência, Menino indecente, viado. A placa de censura no meu rosto diz: não recomendado a sociedade. A tarja de conforto no meu corpo diz: não recomendado a sociedade.

Se Jaloo e Tássia Reis abrilhantaram o palco com o charme de suas músicas, e puderam contar com o carinho de fãs calorosos e conquistar novos admiradores, foi a qualidade artística de “As Bahias…” e a militância de Karol Conka  que “botaram pra fuder”. Raquel Virgínia e Assucena Assucena fizeram um show vigoroso aliando um repertório emotivo e arriscado – que marca o gosto das cantoras – e mesmo sem poder contar com a platéia lotada como a de Karol, se divertiram e brindaram aos presentes com um show potente e agradável.

A fama de antipática de Karol Conka cai por terra quando você a vê em cena. Suas letras de cunho feminista e libertário tem fãs histéricos e a cantora automaticamente é projetada simbolicamente a traduzir a voz de mulheres empoderadas que se sabem donas de si mesmas e que lutam por respeito e reconhecimento. “Não queremos ser melhores que os caras. Como algumas feministas equivocadas dizem. Queremos ser tratadas de forma igual“. Os fãs de Karol foram para a fila debaixo de chuva as 13h – os ingressos seriam distribuídos só as 18h – e surpreendeu a todos. Para o público que não conseguiu entrar – a capacidade era 400 pessoas – a produção disponibilizou um telão do lado de fora, que possibilitava acompanhar o show full time.

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A rapidez e eficiência da produção, aliada ao apoio da boate, em permitir que os shows acontecessem no espaço, respeitando a proibição de venda de bebida alcoólica – por exemplo –  e as filas que se formaram para ver as peças de teatro, foram o ponto alto do festival, mostrando que se o público tem pouca disponibilidade para se informar teoricamente (como nas ações formativas) e se arriscar a participar (como nas performances), eles estão atentos e afoitos por mais epifanias nos palcos da cidade.

Numa das ações formativas onde o tema era os privilégios que nos diferenciam. Compactuo com Helena Vieira que a palavra é problemática para nos conscientizar que todos deveriam ter DIREITOS iguais, independente da classe social, gênero, raça ou opção sexual. Mas fiz valer um dos meus privilégios ao dar meu convite para o show de Karol, para uma adolescente que em prantos lamentava não ter conseguido, mas mesmo assim, insistia na fila. Mesmo que a produção não tivesse permitido o meu acesso, eu teria ficado satisfeito. Com certeza aquela garotinha precisava mais do show do que eu.

Rodolfo Lima

 

*Observação

Nas fotos acima, de cima para baixo: Leonardo Vinicius Fabiano, Magô Tonhôn e Leonarda Glück

*Abaixo a programação geral

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Autobiografia Autorizada

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Falar da própria história ganhou um nome pomposo a partir de 2002 quando a diretora e performer argentina Vivi Tellas cunhou o termo biodrama, que simplificando, nada mais é do que narrar a fatos reais sobre si mesmo, ficcionalmente, para uma platéia.  Aliar ficção e memória é de praxe, e o trabalho ganha cunho biográficos. Ao reler um caderno de anotações, que mapeava 10 anos de sua vida (1982-1992) Paulo Betti achou que daria uma peça de teatro com o intuito de “provocar emoção, riso, entretenimento e entendimento” – como especifica no programa do espetáculo. O resultado leva o nome de “Autobiografia Autorizada”.

Claro, que é um olhar “chapa branca” sobre si mesmo. Não há conflito nem dubiedades quanto a suas intenções ou escolhas. Ele também não teve/tem problemas com nenhum personagem do seu passado, citado em cena. Vemos o personagem Paulo se revelando, mas sem nunca ficar desnudo efetivamente. E digo isso, não no sentido da nudez explicita, mas sim da que o fragilizaria em cena e nos poria cúmplice de um dos atores  – com um currículo considerável – mais respeitável da teledramaturgia brasileira.

Esse ar de respeitabilidade persegue o indivíduo em cima do palco o tempo todo. Por mais que Paulo tente quebrar esse “lugar”, na estréia a reação do público era de benevolência e acolhimento. Como se o ator estivesse entre amigos. É notório que é esse o clima que pretende estabelecer. A encenação a quatro mais, assinada com por ele e Rafael Ponzi, deixa o ator mais confortável ainda.

Paulo Betti tem presença cênica, domina o texto, tem projeção e consegue nos pegar pela mão e fazer mergulhar no seu universo emocional e com ele, todos nós voltamos a Sorocaba, sua terra natal. É um longo e pontual trabalho para revelar sua infância e adolescência, e parte de sua juventude. São duas horas de peça e o período citado anteriormente abocanha uns 80% do tempo. Paulo cita levemente sua passagem pela EAD (Escola de Artes Dramáticas, da Universidade de São Paulo) e só a peça só não termina ai – o que seria o “correto”, já que o formato com que a dramaturgia conduz a vida do protagonista, as escolhas para falar de sua passagem pelo cinema, pela TV e pelos palcos, acaba sendo truncada e inferior ao inicio de sua história.

Paulo, se desculpa, dizendo que a peça já vai acabar, mas antes ele vai passar umas fotos, para suprir boa parte da sua história. O público aceita, pois já está cativado pelo ator e sua prosódia. Suas piadas e seus familiares. Não deve haver ninguém na platéia que não se sinta tocado pelo ator em algum momento. Porém seria instigante que a peça tivesse uma segunda parte. Seria interessante ver o ator repassar momentos de sua trajetória justamente quando se deparou com personagens e colegas de profissões tão emblemáticos e marcantes. Exemplifico com a “Crô”, de Agnaldo Silva e José Wilker (1944 – 2014) um de seus estimados colegas de profissão, com o qual o ator nos presenteia com uma impagável colocação sobre sexo anal.

O destaque fica para a forma como Betti se permite rever a morte da mãe e a figura do pai. Se no primeiro caso a peça tende para o melodrama – a questão aqui não é o gênero em si, mas como ele é utilizado – e não permite que nos emocionemos (ator e público) de forma a estragar a diversão. No segundo também não somos atingidos pela frustração do ator de ter um pai esquizofrênico e ausente. São momentos que, embora não verticalizados, são poetizados e delicadamente divididos conosco.  Outro destaque fica por conta da citação do ator Chiquinho Brandão (1952 – 1991), que deixa o público carente por saber mais.

Porém, embora eu tenha apontado alguns senões, não duvide, a capacidade de fabulação de Paulo Betti é irretocável. O ator causa empatia no primeiro momento e tem o respeito de seu público, que ri e se emociona. No meio de um dos bairros ícones da pauliceia desvairada, o ator consegue nos transportar para seu passado de forma singela e nostálgica. É uma viagem agradável, acredite.

Rodolfo Lima