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Inhai- Coisa de Viado

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A tentativa de totalidade diante de um assunto é sempre um perigo, pois traz em si a ambição de uma completude, que é praticamente impossível de ser alcançada.  Inhai- Coisa de Viado do Coletivo Inominável tem esse objetivo ao se debruçar sobre o que é ser “viado” na cidade de São Paulo hoje em dia. O termo “viado” que é visto com uma forma depreciativa de se referir aos homossexuais masculinos, ganha na montagem ares de emponderamento ao vermos em cena os artistas Fernando Pivotto, Cayke Scalioni e Alexia Twister/Matheus.

A base de construção para a dramaturgia e a encenação foi os conceitos do teatro documentário, opção estética que parte de fatos reais para ficcionalizar uma história e/ou um assunto. O grupo patina nesse quesito pois se o intuito era enfatizar o que é ser viado hoje em São Paulo, informações e assuntos sobre a homossexualidade no mundo toma o palco e acaba abrindo um grande leque de informações, que a princípio parece dar conta de revisitar como a história trataram os homossexuais masculinos, mas se fragiliza quando – em função do ritmo de informações e da opção da direção de alinhavar momentos dramáticos com cômicos – não se aprofunda com seriedade em nenhum deles. As escolhas de quais fatos citar também é outro “poço sem fundo”. Ao tentar fazer um panorama do mundo, supostamente a partir de uma ótica gay, a dramaturgia cita o atentando ao World Trade Center (11/09/01) e ignora o que aconteceu com a boate Pulse (12/06/16).

A dramaturgia a quatro mãos feita por Pivotto e Cezar Zabell, que assina a direção, tem por intuito celebrar a viadagem nossa de cada dia. O fato é bem vindo e agrada a platéia mais jovem que vê nos atores em cena uma possibilidade de extravasar e festejar. Então do ponto de vista do impacto do trabalho diante de parte do público Inhai – Coisa de Viado assume um papel importante diante da crueldade da intolerância. Inhai… é como a montagem de Meninos Também Amam, que versa sobre a homossexualidade masculina. Diferente deste último, que opta pela nudez de seus atores para atingir o público, a viadagem em cartaz no Teatro do Pequeno Ato ganha pelo clima de descontração e comicidade.

Inhai… ganha força quando vemos os atores narrarem suas histórias de forma direta e perde fôlego na tentativa de apreender uma história imensa que sofre alterações importantes de acordo com a nacionalidade, a raça e a postura pessoal. Como retratar o que aconteceu nos anos 80, 90 e 2000 só seria interessante se o grupo conseguisse criar paralelos poderosos que se aproximassem de uma explicação para o que fazemos e como nos comportamos e como nos tratam na atualidade. É no micro que mora a riqueza, pois ele é cheio de detalhes que oferta ao público um referencial poderoso de espelhamento. Não deixa de ser pretensioso a tentativa de Pivotto e Zabell, pois ao tornar a peça uma sequência de esquetes a celebrar a viadagem do grupo, ignora que esse recorte pode se tornar datado e limitador, já que “deixa de fora” os que não se enquadram no perfil do trio.

Para exemplificar, a figura do ator Cayke Scalioni é um bom exemplo. Identificado como uma “bicha Poc“, Cayke é engraçado e afetado, sem parecer empostado ou fake. Ele é o retrato do emponderamento que os gays ganharam nos últimos anos, fazendo com que a existência das “pintosas” pudessem ser celebrada antes de tudo como um ato de resistência e hibridismo entre os gêneros feminino e masculino que desestabiliza o conservadorismo e provoca. O público mais velho – por exemplo – acompanha a importância desse corpo, e mesmo que ele não seja questionado na peça, o que é uma pena – já que esse debate sobre as gays femininas x as gays heternormativas é muito atual – o recado está dado. O inverso nem sempre ocorre, e é nesse quesito que a peça é frágil, pois como fazer com que gays com 20 e poucos anos como o Cayke tenha uma dimensão do que foi ser gay nos anos 90, quando a bicha li-te-ral-men-te “nem tinha nascido”?

Cayke divide com Matheus (Alexia Twister) os momentos cômicos e fica a cargo de Pivotto o momento “aulinha”. Mesmo que o ator faça piada desse momento, como uma espécie de autocritica, não resolve, pois é os momentos que a peça cai no discurso sem uma teatralidade interessante. Ok, que a peça se baseia na vertente documentário do teatro, mas nem por isso precisa ser encaixada na encenação de forma tão sisuda e direta. Pivotto se expressa de forma clara e direta, mas sim, é o momento educativo da peça.

O programa “Casos de Família” apresentado por Cristina Rocha, no Canal SBT vive trazendo entre o assunto do dia questões relacionadas aos homossexuais. Ele é o exemplo utilizado pelo grupo para teatralizar uma situação: a aceitação dos pais diante a sexualidade dos filhos. Acompanhamos então o programa “Atraques de família” que é justamente uma reprodução (ruim) dos programas cômicos que a montagem cita em cena. Ou seja, não se entende se a montagem quis, ao reproduzir de forma tosca o programa de Cristina, criticar ou endossar o retrato risível que por vezes essas singularidades tem no programa de auditório.

A relação entre homossexualidade e o universo da Drag Queen está impregnado no corpo de Matheus/Alexia. É impossível separar a personagem da individualidade do ator, o que é uma pena, já que seria importante vermos essa mudança. É bonito e simbólico o discurso de Alexia ao enfatizar que a arte Drag não é restrita ao universo masculino, que é uma arte ao alcance de todos. É uma gentileza bem vinda se referir as transformistas como suas “ancestrais” e citar Miss Biá – por exemplo. Mas colocar no mesmo balaio Silvetty Montilla, Jorge Lafond (29/03/52 – 11/01/03) e Rita Von Hunty é um equivoco que joga contra um momento tão emblemático para Alexia em cena. E sim, faltou a apresentação da Drag que vemos. O que a diferencia do Matheus? Tá tudo junto misturado?

O universo dos apps, quais as referências que se tem atualmente – vale ressaltar que os exemplos dado recorta uma época histórica de forma irreversível , casas de acolhimento, candidatos a política LGBT, a taxa de suicídio entre os homossexuais, o fato de não termos exemplos sobre o envelhecimento gay, as doenças desenvolvidas por gays, Shallow Now, o chupa cabra (pra que citar isso?) e questões emblemáticas como: “Como foi que vocês aprenderam a rir dos veados?” e “Como foi que você se tonou homem?” … são exemplos das informações colocadas em cena, com o intuito de entreter e quem sabe, constranger.

De todas as opções ingênuas que existem na abordagem da homossexualidade em Inhai – Coisa de Viado, a melhor sem dúvida é a utilizada no final. Pois coloca em sintonia uma metáfora poderosa defendida em cena de que “unidos viados são invencíveis“, além de deixar uma imagem potente para se enfrentar os tempos obscuros que enfrentamos.

Outra construção interessante feita pelo coletivo são as explicações postas em cena para diferenciar o veado (animal) do viado (homossexual). São associações interessantes e singulares que endossa o real poder do termo pejorativo usado como uma forma de diminuir os homossexuais. Ao se assumirem viados o trio marca uma posição positiva e corajosa diante de tanta tentativa de normatização para nossas singularidades.

Rodolfo Lima

Foto: Giovanni Fernandes

A peça fica em cartaz no Teatro Pequeno Ato (Rua Teodoro Baima, 78) até 28 de setembro de 2019, as sextas e sábados, 21h. Ingressos R$40

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Un Poyo Rojo

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Em meio a tantos retrocessos na área cultural que envolve cancelamentos de programação, e reformulações de avaliação do que se entende por arte e seus limites, o Itaú Cultural tem em sua programação uma incansável tentativa de subverter a ordem vigente. Nem sempre o resultado é efetivo, mas por vezes pode ser surpreendente. Como é o caso da montagem argentina “Un Poyo Rojo“, misto de dança, acrobacia, teatro e mímica. Concebido em 2008 por Luciano Rosso e Nicolas Poggi, muito mais do que divertir, a dupla propõe uma crítica sutil ao universo masculino traduzido em gestos, signos e situações. É um prato cheio para a ambiguidade, uma qualidade irrevogável e irresistível da arte.

Qualquer informação que se busque sobre o trabalho irá apontar o trabalho físico desenvolvido por Rosso e Poggi, bem como as situações – antes de tudo – engraçadas que os artistas estabelecem entre si. Mas do que a fala, o corpo é o grande propagador de ideias em “Un Poyo Rojo“. É como se nossos corpos, condicionados em gêneros estáticos, pudessem revelar-se muito mais criativo e risível do que se defende.

Indo direto ao ponto, o que essa obra tem de especial é o clima homoerótico estabelecido entre os personagens/artistas. Na apresentação desse sexta-feira (06 de setembro de 2019) o resultado da obra ganhou uma projeção maior, dado a repercussão negativa sobre o cerceamento do prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella num livro vendido na Bienal do Livro – edição está que trazia um beijo entre dois personagens masculinos. Há muitas tentativas de beijo em “Un Poyo Rojo“.

Esse clima de provocação e graça estabelecido pela direção de Hermes Gaido cativa o público e faz com que a suposta concretização entre o afeto entre homens em cena se torne o objetivo final. Em cena, ontem, o beijo foi bem vindo e não visto como prática difamatória ou degradante. Foi antes de tudo romântico. Se a montagem dialoga com o esporte, em alguns momentos gestos do futebol ou mesmo de rinha de galos são esboçados, o mais legal é ver/sentir a platéia agir como verdadeiros torcedores, reagindo as ações e sugestões esboçadas em cena. Na “arquibancada” do Itaú o beijo gay era o gol desejado.

A consciência corporal que Rosso esbanja em cena, chama a atenção e provoca reações instantâneas. É dele também os momentos de improviso, que de certa forma estão ali para alimentar suas aptidões. Se pensarmos de forma mais linear, o momento em que os improvisos ocorrem ao som da rádio local é o momento mais fraco do ponto de vista dramatúrgico. Fazendo com que Poggi fique de “escada” para o parceiro. Nada que diminua o encantamento que o trabalho oferta.

A montagem também potencializa o sex appel de, e entre, Poggi e Rosso.  É um acerto discreto numa obra que poderia ser vendida com o rótulo de arte queer, ou um trabalho gay, já que a sexualidade é subtema do trabalho. O que se vê é justamente uma naturalização desse discurso e uma forma de encará-la de forma leve, engraçada e sadia – sem neuroses embutidas. Seus corpos com signos bem definidos do universo masculino também são gatilho de crítica ao vê-los em cena recortados num contexto de afetação e close, com gestos e referências a divas da música pop e a dança executada em boates e guetos LGBTs.

Vale ressaltar que Rosso, em função de suas dublagens, é bastante conhecido na internet – seus videos ultrapassam 30 milhões de visualizações,além dos quase meio milhão de inscrito em seu canal na plataforma youtube. E sim, o público brasileiro terá uma palhinha desse momento. Em tempos nebulosos “Un poyo Rojo” se torna urgente e especial, primeiro pela temática e segundo pelo tratamento sutil sobre a sexualidade humana. E “a cereja do bolo”, está  disponível de graça nesse final de semana.

É sexy, é engraçado, é curioso e é político. #bingo

Rodolfo Lima

Un Poyo Rojo

Itáu Cultural – Avenida Paulista, 149, Estação Brigadeiro do metrô.

sábado 20h e domingo 19h – Grátis – Ingressos distribuídos uma hora antes.

https://www.itaucultural.org.br/espetaculo-argentino-explora-as-possibilidades-fisicas-e-espirituais-do-homem

 

Phedra, Genet e Thiago Mendonça – O Satyros e o universo LGBT

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Existe três peças em cartaz no espaço do Satyros 1 que versam de forma significativa sobre o universo gay e trans. O mítico grupo curitibano que há decadas resiste no número 214 da Praça Franklin Roosevelt e que tem diversas peças que abordam as singularidades não heteronormativas, segue resistindo. É possível – por exemplo – ver as sextas e sábado, 23h59, “Stonewall 50” com Thiago Mendonça; aos domingos, 19h “Uma canção de amor” com Henrique Mello e Roberto Francisco e as segundas, 21h, “Entrevista com Phedra“, com Raphael Garcia e Márcia Dailyn. Se o primeiro é uma produção independente a ocupar a sala, os dois últimos tem profissionais do grupo como Robson Catalunha, Rodolfo Garcia Vasquez, Ivam Cabral e Gustavo Ferreira dividindo funções nas fichas técnicas.

Uma informação importante e que não deixa de ser uma curiosidade é que o grupo tem fãs. E como todo fã que se preze existem os exageros. E convenhamos que para um público sem muita preocupação em problematizar o trabalho assistido, ver um artista que admira em cena já é o suficiente. Dos três citados acima “Uma canção de amor” não propicia essa histeria e portanto exige mais do público.

Silencioso e de certa forma escuro, o público ao adentrar o espaço cênico é convidado a partilhar a densidade da proposta cênica, onde vemos dois presidiários isolados em suas celas. Livremente inspirado no universo do autor francês Jean Genet (19/12/1910 – 15/04/1986), conhecido pela sua escrita, personalidade e vivência que sempre dialogou com os personagens a margem da sociedade. O próprio Genet um ex-presidiário. O ponto de partida foi o filme “Un chant d’amour“, que na época chamou a atenção pelo seu conteúdo homoerótico.

Divididos em A e B a platéia acompanha então a singularidade de um dos presos. O jovem e o velho, um corpo atraente e o outro desprezado, o desejado e o desejoso. Mundos antagônicos onde não há escape. É mais ousado o lado em que está Henrique Mello, mesmo que não haja nada de muito diferente do que já apresentado no palco dos Satyros – no que tange a nudez – o tom sóbrio e despojado com que o presidiário se limpa é antes de tudo bonito. Se a beleza mora no cotidiano, a rotina desse homem cativa e não é pela excitação do corpo que se revela aos poucos. E sim pela naturalidade da situação.

Se cabe a Francisco retratar o corpo que anseia concretizar desejos impossíveis, esse diálogo com um mundo destituído de atrativos e solitário é o grande temor dos gays. A direção de Gustavo Ferreira e Rodolfo García Vázquez preservaram a força do texto e aliaram imagem e ação de forma sútil e precisa. É um trabalho sem a força de impacto das peças do grupo, mas bem mais interessante, “limpo” e sem parecerem repetitivos. É possível dialogar com o universo de Genet sem nunca ter lido nada sobre ele.

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Hiperbolizado, afetado e com tom confessional é a fórmula usada por Thiago Mendonça para falar sobre sobre a sua (homo)sexualidade, numa espécie de confissão pública. Com direção de Renato Farias, a peça burla tanto com o teatro documentário quanto com o biodrama, ou seja…. utiliza-se de fatos reais (por exemplo) – o atentando a Boate Pulse em 12 de junho de 2016 que vitimou 50 pessoas e feriu outras dezenas, para um retrato franco e direto sobre a própria realidade. O limite entre realidade e ficção é o que sustenta a expectativa, que no caso de “Stonewall 50” é rapidamente revelada, o que faz com que o solo perca força dramática, em prol de um desabafo sincero e cheio de “close”.

Soa forçado o excesso de músicas e referências que o ator utiliza em cena. Como se no âmbito de exaltar o ocorrido no bar americano, a montagem perdesse o tom crítico e prol de uma enxurrada de informações. Questões delicadas como a sexualidade do ator e o preconceito que supostamente foi vítima é esboçado, mas não problematizado. Thiago cativa, seu “grito” é sincero e embala a platéia, que sem pestanejar responde ao ator. A encenação cede ao fetiche da comemoração e por vezes nos esquecemos do tom político já que somos rendidos pela empatia que o ator causa.

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Essa dualidade entre o tom festivo e registro jornalistico é o local onde se equilibra a montagem de “Entrevista com Phedra“,de Miguel Arcanjo Prado. A exaltação da mítica atriz trans cubana Phedra de Córdoba (1938-2016) é o ponto de partida. Miguel indiretamente se aproxima da vaga deixada pelo jornalista Alberto Guzik (09/06/1944 – 26/06/2010) que também se aproximou do grupo num certo período da carreira, permanecendo lá até seu fim.

O grande problema da montagem é o tom de auto promoção que o autor faz de si mesmo. É como se sua personalidade duelasse com a de Phedra que por vezes fica refém dos comentários do jornalista. Além desse “ping pong” entre os “personagens” soar frágil, há pouco material inédito sobre a vida de Phedra em cena. É uma revisitação rasa ofuscada pelo suposto bom mocismo do jornalista. O diferencial fica no depoimento dado pelo diretor Rodolfo García Vázques, onde vemos problematizado, não sem ironia, a relação complexa de amor e ódio que atriz e diretor desenvolveram em toda sua história.

Se Raphael como o alter ego do dramaturgo está um pouco exagerado, esse tom acima para Márcia está na medida, pois é visível a busca da atriz em compor gestos e expressões de Phedra e em muitos momentos são gestos fidedignos. A direção dupla de Juan Manuel Tellategui e Robson Catalunha alia momentos cômicos com dramático e a passagem de um para o outro, com o claro intuito de nos fazer rir e nos emocionar empata a fluência.

Mesmo com esses senões a peça não depõe contra a homenageada. É uma ode a lendária atriz do grupo que assim como seus colegas de trabalho Ivam Cabral e Rodolfo são nomes obrigatórios para qualquer indivíduo que revisita a história teatral da praça. Ver Phedra fragil e cheia de singularidades, humaniza sua persona e faz o público sentir saudades. De longe o melhor momento é quando Márcia mostra Phedra dublando tudo errado.

Minha lembrança de Phedra, com quem não tive a oportunidade de ter amizade, é de quando visitei seu apartamento em 2009, como público do projeto “X Moradias“. Criado pelo alemão Matthias Lilienthal, a proposta era assistir performances de artistas e cidadãos comuns dentro de suas próprias residências. Lembro que foi marcante me deparar com a simplicidade do apartamento de Phedra. Imagem que duelava com sua postura de diva, seus trejeitos deliciosamente afetados e pomposos. Inesquecível.

Visto em conjunto essa trinca de trabalhos estiga uma visita ao espaço dos Satyros. Resta saber em qual programa apostar. No mundo da poesia crua e sem retorno de homossexuais solitários e abastados, perdido entre desejos e sonhos desfeitos. “Um canção de amor” devolve a Mello o lugar de galã.

Na possibilidade de comemorar a sobrevivência e a liberdade de se assumir quem é. Thiago e seu “Stonewall 50” é a oportunidade de rever sem peso e de forma positiva uma história onde muitos infelizmente tombaram. Dance mais Thiago, demore mais nessa dança a 2.

E se você preferir saber quem foi Phedra ou mesmo relembrar sua emblemática figura “Entrevista com Phedra” pode não lhe surpreender, mas encontrar uma artista (Márcia) entregue a memória de outra (Phedra) é no mínimo comovente.

Montagens sentimentais, necessárias e emblemáticos. Que engrossa a lista de peças LGBT da cidade de São Paulo. Thank you!!!

Rodolfo Lima

Stonewall 50, as sextas e sábados, 23h59, até 10 de agosto, R$40

Uma canção de amor, aos domingos, 19h, até 25 de agosto, R$30

Entrevista com Phedra, as segundas- feiras, 21h, até 02 de setembro, R$40

VII Prêmio Aplauso Brasil

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Durou 3h30 a premiação da 7°edição do Prêmio Aplauso Brasil, realizada na noite de ontem (29/07) no Teatro Sérgio Cardoso com o apoio da APAA – Associação Paulista Amigos da Arte. Sem festa no final e com um tom mais político assumido pela voz dos premiados, o prêmio se torna cada vez mais emblemático com o apoio da classe artística ao seu criador Michel Fernandes.

Num mês onde vimos o Prêmio São Paulo de Incentivo ao Teatro Infantil e Jovem, patrocinado pela Coca Cola/FEMSA, ser cancelado, não deixa de ser um alento a abordagem dada ao teatro brasileiro pelo júri do “Aplauso…” composto por Júlio César Dória, Teca Spera, Nanda Rovere, Carlos Colabone e Kyra Piscitelli. A direção da cerimônia ficou a cargo de Raphael Gama que dado a demanda de conteúdo para abordar, teve que acelerar a programação para que não houvesse uma evasão geral da sala, quando a premiação começou a se aproximar da 00:00 – iniciou um pouco mais de 20h30.

Isso fez com que a nova categoria do prêmio “Melhor espetáculo para o público infantil e jovem”, apresentado por Júlio César Dória não fosse problematizada a contento com a extinção da premiação citada acima. Nem que se ouvisse a fala dos jurados e nem mesmo o vídeo sobre o protesto Movimento Art 5°, que está colhendo assinaturas para combater a censura nas artes, em prol da livre expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, tivesse vez e fosse projetado. Assunto de extrema urgência que passou longe do tom amistoso que a premiação prefere validar.

Monah Delacy e Nicette Bruno foram as homenageadas pelo prêmio. Cristiane Torloni e Beth Goulart (um dos filhos de Nicette, presente) – respectivamente – falaram sobre suas mães e não necessariamente sobre a atriz pública. Foram momentos tocantes e emblemáticos. Monah por exemplo tem 90 anos e estava bastante emocionada. É o momento “fofo” do evento, embora os videos com os depoimentos pareçam excessivos.

Outros dois momentos que caracterizam o prêmio é a parte onde se referência os que já morreram e os contemplados pelo voto popular. Ambos alvo de críticas nos corredores. No primeiro caso a inclusão de nome da música. “Ou se coloca todos os artistas que morreram, de todas as áreas, ou só deixa os relacionados as artes cênicas“. Como não citar a morte recente de Ruth de Souza ou a de Antunes Filho? Ao misturar falecidos de 2018 e 2019 e de outras áreas a homenagem soa confusa. E no segundo caso, o estranhamento que causa os espetáculos contemplados pelo voto popular diante dos escolhidos pelo júri técnico.

Os contemplados pelo voto popular é o calcanhar de aquiles da premiação, mas talvez carecesse de uma reformulação, pelo menos no que tange a entrega dos prêmios. Um trabalho como “O desmonte” que levou por ator, dramaturgia, melhor espetáculo de produção independente e iluminação, poderia ter subido ao palco de uma única vez. A unificação de premiados poderia ser uma opção para diminuir o tempo do evento como um todo. Embora polêmico – pela forma como se apura – o voto popular de certa forma democratiza a arte e pulveriza nomes desconhecidos no meio dos “figurões” da noite.

É de praxe nas indicações, sentirmos falta da citação entre os indicados de alguns profissionais e/ou trabalhos. Impossível deixar de sentir a falta de uma indicação para Yara de Novaes como melhor atriz por “Love, Love, Love” – trabalho esse que teve 6 indicações e levou por “melhor elenco”,  “melhor trilha sonora” e “melhor figurino”. Entre as indicações Eric Lenate ter “perdido” para Zé Henrique de Paula por “Um panorama visto da ponte“, é no mínimo questionável. Ambos são profissionais de qualidade, mas “Love Love Love” é pontual e arrebatador e “Um panorama…” correto sem ousadias. A ausência de mais indicações para a montagem carioca “O Jornal“, é outro desfalque. Só foi lembrado e contemplado pelo júri técnico como “melhor iluminação”. É um trabalho impecável, convenhamos.

Eu vou dizer o que? Que eu não merecia? Eu merecia sim – Dedé Santana    (premiado na categoria “destaque” – voto popular, “pelos mais de 80 anos dedicado às artes”)

O tom político teve dois momentos bastante emblemáticos, Naruna Costa ao subir para receber o troféu como melhor direção, pelo voto popular por “Buraquinhos ou o vento é inimigo do picumã” enfatizou a questão racial e atestou “Não temos espaço para ser feliz“. Outros artistas negros contemplados pelo prêmio foram Raphael Garcia (foto) melhor ator por “Navalha na Carne Negra“, Teca Pereira, melhor atriz coadjuvante por “Eles não usam black-tie” e Jô Bilac, melhor dramaturgia por “Insetos“.

Pensando na questão racial como mote não há como se pensar no porquê “Elza” ter sido ignorada pelo júri técnico, mesmo tendo 6 indicações (iluminação, figurino, musical, direção, atriz e melhor elenco). Para além do tom político “Elza” é um trabalho bem executado e de grande relevância. Seria difícil Larissa Luz (indicada a melhor atriz) vencer o favoritismo de Amanda Acosta (melhor atriz por “Bibi, uma vida musical“). Mas como melhor musical (outro prêmio dado a “Bibi, uma vida em musical”) era a opção acertada. Duda Maia como melhor diretora era outra opção justa, embora mais difícil.

Eu não ganhei de ninguém. Só to aqui fazendo essa festa com vocês” – Gilberto Gawronski  (premiado como melhor ator por “A ira de narciso”)

A surpresa da noite foi o merecido reconhecimento dado a Raphael Garcia, interprete do  mítico personagem gay Veludo, do dramaturgo santista Plínio Marcos, na montagem de “Navalha Carne Negra”. Garcia construiu um personagem afiado, sem vitimismo e recheado de nuances. É a alma de uma montagem que tentou colocar o texto do dramaturgo pela perspectiva negra.

Assim como Raphael, Gilberto Gawronski também levou o prêmio por interpretar um personagem gay. Talvez um fato inédito. Os prêmios de melhores atores – protagonista e coadjuvantes – concedidos a interpretes de personagens gays. Impossível não ressaltar esse “detalhe”. Raphael derrotou figurões como Sergio Mamberti e Gilberto os globais Marcos Caruso e Rodrigo Lombardi, e Cacá Carvalho, que dispensa maiores apresentações.

Pra terminar, vale ressaltar a fala exaltada de Raul Barreto que levantou a plateia e quebrou o “bom mocismo” do prêmio. Ao subir no palco para receber o prêmio de melhor espetáculo para o público infantil e jovem, por “O mundo de Hundertwasser“, mandou um “… o Alvim é um talento. Quero que o Alvim se foda“. Fala que arrancou gritos de apoio da plateia. Para quem não sabe, é uma referência ao diretor Roberto Alvim, simpatizante e apoiador das ideias do presidente Jair Bolsonaro. Barreto ofereceu assim o momento mais emblemático da noite. Obrigado Raul.

Outros trabalhos contemplados pelo júri técnico foram: “PI – Panorâmica Insana” (melhor arquitetura cênica”);Lino Vilaventura (“O poço e o pêndulo” e “A cor que caiu do céu” – melhor figurino); Tuna Dwek (“A noite de 16 de janeiro” – melhor atriz coadjuvante,empatada com Teca Pereira); Projeto Teatro Mínimo – SESC Ipiranga (destaque) e “Um panorama visto da ponte” (melhor espetáculo de produção independente)

Pelo júri popular: “As irmãs siamesas” (melhor arquitetura cênica e melhor elenco), “A profissão da Sra. Warren” (melhor figurino e atriz), “O poço e o pêndulo” (melhor trilha sonora), “Amor barato – o Romeu e Julieta dos esgotos” (melhor musical), “Politica da Editora” Jany Canela, melhor atriz coadjuvante), “Tio Ivan” (melhor espetáculo de grupo) e “Telhado de Ninguém” (melhor espetáculo para o público infantil e jovem).

O jornalista não foi convidado pela organização do prêmio, por questões pessoais, mas foi assim mesmo, afinal, o teatro acima de tudo.

Rodolfo Lima

 

 

Inimigos

08_07_2019_ESPETÁCULO INIMIGOS - FOTO JOÃO CORDIOLI (14)

O mundo está dividido. O que se tornou visível com uma força tristemente descomunal, é que sempre esteve, apenas não víamos com tanta veemência. As novas mídias e a forma como nos relacionamos a partir dela, tem grande parte dessa função de nos apartar e nos ilhar em guetos, nos alienado cada vez mais em nichos, que se outrora nos fortalecia, hoje em dia nos aprisiona, pois nos impede de ver além do pressuposto.

Inimigos da Cia.de Feitos vai no cerne da questão das diferenças de forma singela e pontual, num espetáculo infantil indicado para maiores de 3 anos. Oposições simples como gostar de chuva ou não, ganham ares de guerrilha. E é assim que vivemos, intolerantes com a posição alheia. Como se quem não jogasse no nosso time, jogasse obrigatoriamente contra. O que nem sempre é verdade.

No jogo cênico e lúdico que a Cia. elabora o que se vê é uma encenação que de forma simples, antagoniza a opinião individual como a grande vilã a nos colocar em guerra diante do nosso próximo. “A guerra continua”, é uma frase que ganha destaque na encenação de Carlos Canhameiro, para alertar a todos que não é época de abaixarmos a guarda, e sim nos questionar o do porquê de tanta necessidade de embate.

Formas inanimadas, monstros, ora crianças, ora adultos, os atores da Cia. se revezam no papel de “mocinho” e “herói” diante do inevitável confronto com o próximo. A dramaturgia de Canhameiro consegue “mastigar” – sem diminuir ou facilitar o peso que a guerra impõe – simbologias facilmente captadas pelo público infantil, que numa rara exceção é tratada – e provocada – com dignidade, sem que o “tatibitati” do universo infantil contamine o todo. Códigos, desenhos e outras formas de enfatizar algo sem ouso da palavra é o grande trunfo da montagem, que atualiza o formato de comunicação com as crianças, que cada vez mais, decodifica o mundo em imagens.

O que a encenação aponta sem meio termos é que a linha que nos aproxima da possibilidade de sermos algoz e vitima é muito tênue. Para além do certo e o errado, os adultos tem em Inimigos a possibilidade de dialogar com as crianças sobre o impulso humano de ceder e violentar o outro, que sem querer carregamos e nos utilizamos, na ânsia de fazer valer nossas vontades. E “calar” o outro, não importa a que preço.

Tendo como base o livro de nome homônimo do suiço, Davide Cali, com ilustrações de Serge Bloch, a encenação se armou de papelão, tinta e objetos diversos para traduzir para o palco uma linguagem de quadrinhos, que se não é fidedigna, em função da abordagem por outra linguagem, é divertida e poderosa, tanto quanto. Ao nos depararmos com essas figuras de artistas-personagens-humanos, somos projetados ao mais básico de nossas referências, que por segundo nos iguala e nos pluraliza sem nos separar. É um feito a encenação criar com tanta competência e limpeza de ações uma narrativa que por si só seria complexa – a guerra e seus feitores – mas que com criatividade e ousadia se torna produtiva e provocativa. É uma poderosa inversão de valores que faz falta nos palcos nacionais, principalmente em peças não destinadas aos adultos.

A trilha original executada ao vivo por Paula Mirhan e Rui Barossi é tão interessante e bonita que sua diluição na encenação é feita sem ruídos e/ou atropelos. Um belo exemplo onde uma trilha ao vivo potencializa a cena, sem que uma se sobreponha a outra. A Cia. Feitos comemora 10 anos e não à toa Inimigos permanece um belo cartão de visitas. Montagem concebida em 2017 graças ao prêmio estímulo PROAC  permanece atual e pungente. A resistência do trabalho não deixa de ser uma forma de nos alerta para o comodismo nosso de cada dia que prefere apontar o dedo para o outro, em vez de rever os próprios valores.

A peça debruça sua crítica nas convenções impressas em papeis, jornais e… manuais. O  imaginário coletivo, por vezes convertido na sua porção mordaz que se denomina opinião pública já deixou legados de intolerância e desumanização. Livros e jornais vez ou outra ganham características de bomba, permanecem conduzindo pensamentos reducionistas e implodindo singularidades. A peça se inicia e termina com essa provocação, e se parece redundante como recurso dramatúrgico, ganha força como discurso, e porque não como uma necessidade de atenção a ambiguidade do que está escrito e imposto como verdadeiro e justo.

Pegando carona em Canhameiro que parafraseia Renato Russo, fico com a estrofe da música “Soldados”: nos defendemos tanto tanto sem saber, porque lutar.

Rodolfo Lima

Foto: João Cordioli

Obs: o Jornalista viajou ao Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto – FIT, a convite da organização

Obs 2: a peça fará 4 apresentações aos sábados, no SESC Consolação, de 13/07 a 03/08, às 11h. Grátis para menores de 12 anos.

 

Medeia Negra

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Não há nada mais interessante no teatro do que um artista entregue. Solos são uma possibilidade potente de apreciar as potencialidades individuais. É uma faca de dois gumes e antes de mais nada, um ato de coragem. É como se a necessidade de falar e ser ouvido deixasse submerso qualquer questão aquém do que o tal “lugar de fala”. Que no caso de mulheres e da população LGBTQI+ se tornou uma urgência latente.

A atriz baiana Márcia Limma integrou a programação de 50 anos do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto – FIT e trouxe um discurso forte e de emponderamento para as mulheres que compartilharam com ela, seu olhar para uma das mais clássicas personagens femininas do teatro: Medeia. A mulher que traída por Jasão, se vinga matando os próprios filhos. Esse arquétipo da mulher que se levanta e diante do opressor reage de forma trágica é um potente calabouço criativo.

Márcia não só dá nome as suas origens – mulher, negra, lésbica, mãe e candomblecista – como conclama as mulheres na plateia a fazerem o mesmo. Diante de sua Medeia Negra, um misto de animal e entidade, o público a ouve e se comove. A dramaturgia, escrita em dupla por Márcio Marciano (Coletivo de Teatro Alfenim,PB) e Daniel Arcades (Grupo NATA -Núcleo Afrobrasileiro de Teatro de Alagoinhas, BA) no afã de abranger muitos dos dilemas impostos pelos corpos femininos, se torna impostado e por vezes se distância dos dramas mais básicos da personagem de Eurípedes, escrita em 431 a.C. Mesmo levando em consideração que a personagem serviu de mote para questões mais profundas em torno da mulher, certo proselitismo está presente.

A Medeia de Márcia está para além de questões maniqueístas, que reduzem uma questão ou um ser humano a rótulo poucos esclarecedores como bom ou mal. Não há ódio em sua fala, embora seu corpo carregue as marcas do apagamento, o racismo e as dores de ser mulher. A atriz quer falar por todas, atingir o máximo de mulheres que puder. Não à toa,  a disposição da plateia que divide homens e mulheres, tem nessa última muito mais espaço do que o destinado ao universo patriarcal.

A direção sob responsabilidade da mítica atriz do grupo gaúcho Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveis, RS, Tânia Farias, potencializou a possibilidade de entrega de Márcia. Já que uma composição catártica de suas personagens é marca registrada de Tânia. Parece a escolha acertada. Tânia guia Márcia por caminhos onde a atriz explora corpo e voz, nos emociona e nos provoca, canta e narra sua dor, como que se a dividindo conosco pudesse dignificar outras Medeias.

Não há nada mais interessante no teatro do que uma artista que consegue ampliar sua voz. Medeia Negra é portanto a possibilidade de Márcia da busca por dialogo e acolhimento. Seu corpo age como uma faca sem corte, quando se aproxima de outras mulheres. A sororidade é substância básica presente na apresentação. Amparada pelos seus orixás, temos uma atriz dona si mesmo, e quanto a essa verdade que pulsa em cada gota que brota do corpo da atriz, nada podemos fazer a não ser se curvar e respeitar. Que no caso de tantas notícias de feminicídio e racismo que ainda imperam na sociedade brasileira, o solo é um pungente exemplo do quanto a questão do feminino e de cor de pele precisa ser revista e repensada.

Além de Medeia Negra, a edição do Festival, incluiu em sua programação “Violento” e “Buraquinhos“, trabalhos nacionais que verticalizam a questão negra em cena, além das performances da atriz transgênera, natural de Gana (África), Vana-Bene Fiatsi, além do musical “Elza“,sobre vida e obra de Elza Soares.

No segundo e último dia de apresentação, só havia 3 mulheres negras numa plateia de mais de 100 pessoas. Compartilhar o olhar de Márcia na busca por suas semelhantes, foi emblemático e pontual. É como se na busca ela atestasse para nós, como parte da população negra ainda permanece a margem. E o melhor, nada é imposto na presença de Márcia. Seu corpo-político nos convida a pensar. E se o racismo é relacional, pois depende do ângulo que você o observa. Talvez naquele momento em que a atriz chora no colo de outra mulher negra, alguém do público entenda que o que o diferencia da atriz é apenas uma questão de perspectiva.

Rodolfo Lima

Crédito foto: Ricardo Boni

Obs: O jornalista viajou a São José do Rio Preto a convite do Festival

Por favor cierra la puerta, gracias

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A solidão é tema caro e universal. É a partir dessa premissa, de corpos a margem de suas emoções que a encenação do grupo mexicano Vaca 35 se debruça. Sete atores revelam suas inquietações numa especie de confissão pública, ora para os amigos – com os quais estão reunidos, de forma despretensiosa – ora para o público que assiste da plateia esse desague de frustrações.

Inserido dentro da programação do 50° Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto – FIT, o público fez da sede da Cia Cênica, morada de suas personas. Somos paulatinamente convidados a ser cúmplice das histórias de afetos fraturados que restam na memória e que nunca sabemos bem o que fazer com o que sobra. Não se é claro a relação entre os amigos, a não ser quando se tensiona as opiniões. Metade das personagens se revelam homossexuais, porém isso não é motivo para os diferenciar dos demais. O mesmo ocorre com o fato das questões femininas em cena, diante do machismo-nosso-de-cada-dia.

Se a ideia do grupo é criar alguma espécie de intimidade com o público, os mesmos dispostos em arquibancadas e, portanto, distante da cena em si, é um impedimento para que a cumplicidade flua naturalmente. Ficamos como voyeur e essa posição nos dá liberdade para “comprar” ou não o que está sendo exposto. Se a intenção do grupo era fazer com que estivéssemos inseridos na cena e não a parte dela, a opção oferecida pela organização do FIT para o grupo, não faz jus a totalidade da concepção.

Com direção de Damián Cervantes a partir de uma dramaturgia coletiva, Por favor cierra las puerta, gracias ganha força quando as questões individuais são enfatizadas. Pois é a chance da montagem nos emergir numa história pessoal e dela extrair uma metáfora poderosa para as nossas próprias lembranças. O grupo falha nessa tentativa pois estórias (sem H mesmo) são esboçadas e nem sempre problematizadas a contento. O que vaio deixando buracos na dramaturgia. Não que toda história careça de um desenvolvimento aprofundado. Mas como tocar o outro esboçando apenas fragmentos de uma dor?

O tal coletivo de amigos vai bebendo e desabafando e buscando apoio entre eles, quase como um mostruário de dores para o público. Sentimentos esses que nos aparta de nossos semelhantes e consequentemente nos rouba a coletividade e a tolerância. Se a direção de Cervantes é duvidosa nas cenas individuais e ingenua para esboçar o desejo de todos “irem embora”, ganha força em certo momento onde supostamente estafados de suas dores e incompreensão, coloca seus atores para pulsar na frequência máxima. Seria um bom final. Afinal, temos por vezes a sensação de não apreender nossas questões de forma racional e sensata.

Não somos convidados a beber com eles – a bebida na fila é um recurso pífio, já que depois o público fica 90 minutos a parte da “festa”. A dança coletiva aparece como um recurso apelativo de sensibilização do público, como se fosse o arremate final para fisgá-lo. Acrescido da distribuição de comida… Bingo! Tem se a sensação de que a troca ocorreu. Será?

A cidade mexicana de Juaréz, fica na fronteira com os EUA, mas não há nos depoimentos nenhum cunho político ou sugestão de uma visão politizada para tais moradores. Simbolicamente as fronteiras estão dentro de cada um que se mostra tolerante ou não a dor do outro. É singelo e frágil, convenhamos. A intenção do Grupo Vaca 35 Teatro é bem-quista, porém pouco inovadora, já que o grupo não avança para além do previsto. É por exemplo, o mesmo recurso usado no final de “Nós”, do Grupo Galpão, com a mesma pretensão do Grupo Kunyn, de sempre propor uma intimidade – mesmo que forçada – como base de uma suposta catarse coletiva. Como se isso nos igualasse e nos colocassem todos para admirar o mesmo horizonte.

Numa das histórias, um homossexual narra seu desejo de poder ter prazer e ganhar algum dinheiro. Sem perfil físico – e supostamente nem idade para tal – debocha de si mesmo dizendo que “agora” ele é aquele que anda a procura desse homossexual que “goza e ganha para isso” é uma inquietação potente posta em cena e talvez não desenvolvida a contento. O ator sai do foco…tira a roupa… se expõe apenas com sua cueca jockstrap e “morre” nas sombras. É uma visão cruel e agridoce da realidade de corpos gays masculinos e que provavelmente poucos se atenham.

Então ficamos assim, entre querer que a porta se abra, para que possamos ir embora e que se feche para que possamos ouvir com mais atenção o que está sendo narrado, sem que a contento, façamos parte daquela reunião de amigos-inimigos-íntimos.

Rodolfo Lima

Crédito foto: Milena Aurea

Obs: o jornalista viajou a cidade de São José do Rio Preto a convite da organização do Festival.