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Extinção

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O solo novo de Denise Stoklos é explicado da seguinte forma no programa: “Espetáculo solo de … livremente inspirado no livro “Extinção”, de Thomas Bernhard, que apresenta uma obra demolidora das ideias e dos valores conservadores de nossa sociedade, os quais limitam os espaços de exercício de liberdade e de amor”. Resumindo e simplificando é um trabalho onde a atriz questiona sua própria trajetória, convenhamos.

Para além de todo hermetismo que existe no programa para explicar o trabalho, a graça de tudo é justamente esse tentativa da atriz de se desconstruir e rir de si mesma. Para quem não conhece, ou teve pouco acesso a produção da atriz, é uma oportunidade instigante. São 50 anos de carreira, 10 livros publicados, 27 trabalhos – por exemplo. Sua estrada iniciou-se aos 18 anos, em 1968, com sua primeira peça onde assumiu a dramaturgia, direção e produção: “Círculo na lua, lama na rua”. Essa autonomia na criação é base principal do Teatro Essencial, onde o ator tem autonomia em toda as etapas do trabalho.

Estimulada pelo livro de Bernhard, que prevê uma visão radical sobre o futuro das artes e suas formas de produção, a atriz propõe desconstruir toda sua história em cena. Funciona quando vemos a atriz revelar detalhes de sua vida pessoal, como as sete internações que teve por overdose, a atriz faz “graça” dizendo que seus referenciais eram Tim Maia e Raul Seixas. As vezes que a cortina teve que ser fechada antes do tempo, pois ela não tinha a menor noção do que estava fazendo. E o hibridismo que existe em seu trabalho que a classifica ora como uma mímica, ora como uma atriz, sempre reduzindo uma função em prol da outra. É como se em toda sua carreira ela tivesse enfrentado dificuldades nesses rótulos. É uma crítica interessante que bate de frente como essa desenfreada necessidade de se rotular tudo.

Denise ao citar seus trabalhos “500 anos  – um fax de Denise Stoklos para Cristovão Colombro” (1992) e “Des-Medéia” (1994) elabora conexões interessantes com a realidade e atesta a atualidade dos textos. É como se eles não tivessem envelhecido, sua obra permanece latente. Porém suas escolhas não deixam de ser questionadoras quando nos deparamos com o apelo para as suas – inevitáveis e deliciosas – caras e bocas, “Denise Stoklos in Mary Stuart” (1970), a inexistência dos porquês “Elis Regina” (1982) não foi mais encenado, ou mesmo as piadas frouxas, e inexplicáveis para falar do (belíssimo) solo “Louise Bourgeois – Faço, Desfaço, Refaço” (2000), é impossível que dessa artista e deste trabalho o que deve ser referenciado são amenidades.

Mesmo que a atriz deboche de si mesma, de alguns trabalhos e da recepção dos mesmos, algo falta. Sua crítica não é tão assertiva a ponto de problematizar o rumo do próprio trabalho. Não há uma verticalização nas próprias questões a ponto de inflamar questões. Ela ironizar com a carta do público – supostamente alguém da platéia lhe envia uma carta – o fato de ser uma artista que lê o texto, é pouco. O momento que antecede a leitura é “engraçadinho” e se refere a entrega da tal carta, feita por alguém da produção, de forma “espalhafatosa”, momento-escada para a atriz se autocriticar, já que o suposto meliante fez o curso do seu teatro essencial pela internet.

Essas questões não apagam a empatia e o prazer de assistir a atriz em cena. É o tipo de artista obrigatória. Seja pela qualidade corporal e a empatia, seja pela intelectualidade, seja pelo histórico que ostenta – já passou por 33 países, por exemplo. “Extinção” tem uma ficha técnica poderosa com as direções de Marcio Aurelio e Francisco Medeiros, e uma participação simbólica de Antonio Abujamra em vídeo. Mas nada é mais interessante do que ver a suposta “nudez” da atriz, pena que esses momentos são soterrados pela imponência do cenário de J.C. Serroni, da luz de Aline Santini, itens não tão necessários se o foco é as histórias e o corpo da atriz.

Voltando para o texto do programa, a peça supostamente reverbera: “…o comportamento da classe média que aparece no pretenso humor de alguns espetáculos feitos para vender submissão e sujeição ao sistema escravagista das televisões, que acaba por contaminar certa classe artística em busca insaciável de aprovação e patrocinador, bem como de um público para um sucesso cego“. É uma contradição para um trabalho “comprado” pelo SESC realizado em coprodução com o Festival de Teatro de Curitiba. Seria a atriz DE FATO o próprio alvo que crítica?

Rodolfo Lima

Obs: a peça estará de graça em função da Virada Cultural no SESC Consolação, Sáb as 21h e 23h59 e dom, 18h.

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Cabaret Transperipatético

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O teatro tem cada vez mais se tornando um potente veiculo de comunicação de singularidades que fora do ambiente metafóricos dos palcos, tem encontrado bastantes dificuldades para ter suas idiossincrasias conhecidas, respeitadas e compartilhada. O trabalho aguerrido do grupo teatral Satyros, na inclusão de indivíduos que encontram dificuldades de acolhimento, é um dos grandes trunfos do grupo. Sua mais nova empreitada atende por Cabaret Transperipatético, supostamente a primeira peça com o elenco formado apenas com homens e mulheres fora dos padrões heteronormativos.

A “novidade” é um ganho, pois é uma oportunidade desses artistas poetizarem suas questões, mostrarem seus talentos e poderem ter um trabalho, que foge das habituais profissões destinadas a essa população. Ao todo são 8 artistas: Daniela Funez, Fernanda Kawani, Gabriel Lodi, Guttervil, João Henrique Machado, Léo Perisatto, Luhmaza, Sofia Riccardi, sob a direção de Rodolfo Garcia Vazquez e dramaturgia coletiva.

O que se vê em cena são esquetes, cenas intercaladas que mais do que revelar as particularidades de cada um, expõe a fragilidade do todo. Uma das questões que surge é: o tema é latente e esses artistas serem inseridos é um feito. Mas isso basta para o trabalho ser aceito sem concessões?

Não é de praxe na direção de Vazquez um trabalho acabado na composição de atores, e mesmo que nesse Cabaret a maioria dos seus artistas funcionem na proposta, as cenas aparentam mal acabadas e/ou soltas de mais. É o que acontece com a primeira cena. Um concurso/show de boate que tem seus números expostos de forma a abrir margem para se pensar: é um deboche ou eles estão se levando a sério? Se é a última opção, porque não dublam direito? A cena é frouxa. A mesma sensação se tem na – ótima – paródia de “Vai Malandra”. O deboche, ou certa despretensão, nesse caso é ruim. Sem energia a cena fica só no discurso. O texto funciona, mas as ações não.

No programa do espetáculo a explicação: “Um espetáculo manifesto, um grito de liberdade e de representatividade, para falar sobre afeto, espaço social, opressão, transfobia, emponderamento, angústias e sonhos. Onde xs artistas ora interpretam elxs mesmxs, ora interpretam figuras e personagens que conduzem as esquetes do espetáculo”.

O citado acima traduz com fidelidade a proposta da encenação, que ao som da banda norte americana Antony and Johnsons ganha tom melancólico, reforçando a solidão nos corpos expostos em cena. O texto tem questões pontuais, acertadas, reflexivas e provocativas: ”Nos tentamos explicar o mundo, mas e se ele não tiver explicação?”, “Você nunca pensou no homem que construíram em você?”, “A casa sorriso da minha mãe, eu morria um pouco”, “Vocês tem medo de nos desejar. De que os expulsemos do mundo heteronormativo”, “Você acha que consegue parar de nos matar?

E nessa oscilação entre a graça, a educação e a poesia duas cenas merecem destaque. A protagonizada por Daniela Funez e outra por Luhmaza. Daniela se declara “trans facha/sapatão/lésbica do role”, e diante da dificuldade das pessoas não saberem o que fazerem com seu corpo, ela resolve dar uma aula explicativa. A cena é engraçada e revela uma questão importante: quem educa as pessoas a lidar com o corpo que foge dos padrões binários? É um desafio dar vazão ao desejo por esses corpos.

Luhmaza expõe a violência familiar e simbolicamente dança com o pai em cena. A violência paterna não eliminou do imaginário da atriz o afeto pelo e do pai. “Talvez meu pai gostasse de mim, ele só não sabia o que fazer. Talvez o meu pai só não soube me tirar para dançar”. É uma cena tocante, mesmo que as escolhas cênicas não potencializem o drama. É desta mesma cena a frase mais bonita do trabalho: “O teatro tomou conta de mim, como minha família não pode”.

Gabriel Lodi e seus parceiros, João e Léo, numa conversa despretensiosa também revelam o quanto se faz necessário rever os padrões machistas que a sociedade preserva e tem orgulho de ostentar. Afinal, é se você fosse nada do que ensinaram a você? Nesse Cabaret tudo soa muito despretensioso, mas não se engane, existem questões pungentes por todos os cantos.

Os Satyros não esqueceram de sua diva maior Phedra de Córdoba (1938 – 2016) que se faz presente em áudio, e seguem inserindo outras artistas trans nos palcos da cidade. Se o todo carece de acabamento, se a cidade carece de um trabalho que deslize para fora das amarras da militância e do protesto, não deixa de ser um ótima oportunidade visitar uma das sedes do grupo na praça Roosevelt e praticar a alteridade. Todxs agradecem.

Rodolfo Lima

obs: a peça está em cartaz na Estação Satyros, de sexta (21h), sáb e domingo (19h30), até 31 de julho de 2018, ingressos populares a R$20 reais.

http://satyros.com.br/emcartaz/cabaret-transperipatetico/

 

Vidros Arriados

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Peças de conteúdo gays são uma boa opção para atrair um público carente de representatividade. Discutir a relação entre dois homens numa época onde muitos estão reféns de aplicativos e descrentes é outra boa opção. Afinal, os homossexuais permanecem carentes de afeto e visibilidade. Mas quem – independente do gênero – não está?

Vidros Arriados, escrito por Antonio Ranieri e dirigido por Márcio Macena é a mais nova possibilidade de escolha para o público LGBT. Junte-se a ele peças como “Sabe quem dançou” (Teatro do Ator); “Certos Rapazes” (Teatro Ruth Escobar) e “Bruta Flor” que volta em cartaz (Teatro União Cultural). Todas elas tem como mote as relações emocionais entre seus personagens.

Luiz (Antonio Ranieri) e Marcio (Rogerio Mendes) trabalham no mesmo prédio e se esbarram no elevador. O primeiro é um gay assumido, o segundo o típico bofe heterossexual que os homossexuais almejam. Marcio, casado com mulher, um dia entediado resolve se deixar levar pela sutis investidas de Luiz. Eles se esbarram no elevador, no estacionamento, quase no cinema… se olham, mas cada qual no seu quadrado, ou no caso, no carro.

A cena da primeira transa deles é um bom exemplo para explicar a proposta da direção e da dramaturgia que optou ressaltar o lado poéticos dos encontros homoeróticos. Se furtando de corpos desnudos, trilha sonora com as divas pop, e até mesmo piadas exageradas, apenas com o intuito de fazer chacota com as próprias mazelas. A cena não é executada com precisão, mas se entende a escolha da equipe. Ou seja… o que temos é opções simbólicas, beirando o clichê e que não avançam para além do óbvio. Isso é um problema.

A dramaturgia de Ranieri começa singela e pontual, traçando os perfis dos personagens com clareza. Ranieri tem empatia com o público e conquista seu público rapidamente. Mas o resultado é um casal desnivelado, pois Rogério Mendes não oscila com eficiência em sua composição, o que torna tudo meio que previsível e brochante. O texto descamba para a incoerência do meio para o fim. No intuito de criar um conflito que sustente a peça, as idas e voltas do casal não é crível. Passam-se anos de um encontro para outro e convenhamos, os dramas e as justificativas para que esses senões ocorram não faz sentido.

Se uma pessoa volta na sua vida depois de 1 ano, de ter ficado na UTI, de ter mudado de cidade, de ter procurado se entender e etc… e como você é a “bee” descolada e antenada, bem resolvida e etc…. o que você faz? Se você descamba para conhecer todos os inferninhos da cidade, boates, michês baratos e etc…. e está cansado das relações avulsas, ouvir um eu te amo – assim, do jeito que for – não deixa de ser um alento, convenhamos.

Luiz e Marcio são arquétipos bem conhecidos da comunidade gay. Assim com a rotina de aplicativos, academia, vinhos, comédias românticas, solidão e a expectativa de. Um dia quem sabe dar certo com outra pessoa.

É uma produção bem cuidada. A iluminação de Cesar Pivetti e Vânia Jaconis é charmosa e ajuda a compor a cena de forma atraente e a trilha sonora de Pietro Leal é o reforço bem vindo no lugar poético que a peça pretende se estabelecer. Ambos são prejudicados, digamos, com a pobreza das coreografias, a falta de uma presença cênica mais pontual de Rogério e das redundâncias da dramaturgia.

O público ri, mas é pouco. Com a demanda de peças deste “tipo”, e aqui, ouso enquadrar Vidros Arredios num segmento especifico, precisamos, como artistas, procurar caminhos que possibilitem ao público ser surpreendido. Para complicar, o final da peça tem um cunho social e de auto ajuda, do tipo: só queremos ser aceitos e amar e blá blá blá. É um tiro no pé.

Bibi Ferreira dizia que não fazia peça seguindo seus desejos pessoais, e sim para sanar a necessidade do público. Obviamente que compartilho dos desejos de Ranieri de explicitar em imagens e sons suas idiossincrasias. De lutar com sua arte por um mundo mais igualitário e sem fobias, privilegiando a empatia e o amor. Mas a pergunta que fica é: pra quem e por quê?

Rodolfo Lima

obs: a peça fica em cartaz até 28 de junho, as quartas e quintas, no Espaço dos Parlapatões.

Crédito foto: Caio Oviedo

Eu sei exatamente como você se sente

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É quando você ouve o choro do público invadindo a encenação que você tem certeza de que o problema exposto em cena comunica e agride. Ou seja, permanecemos tendo um problema, geralmente aquele que a peça cutuca. No caso de “Eu sei exatamente como você se sente”, novo trabalho do Núcleo Experimental, liderado por Zé Henrique de Paula, o tema é a aceitação da homossexualidade, suas questões, tabus e consequências de uma vida que foge dos padrões heteronormativos e consequentemente tem especificidades singulares que permanece assustando a maioria.

O tema e as questões não são novidade para o diretor e “sua turma”. É do Núcleo trabalhos emblemáticos como “Lembro todo dia de você” e “Ou você poderia me beijar”, que trouxeram a cena, questões como a solidão, o envelhecimento, problemas da juventude e a soropositividade. Temas estes presente no texto do inglês Neil Bartlett. Dessa vez são cinco textos, divididos entre quatro atores encaixotados. Uma analogia ao “estar no armário”, local esse que supostamente manter o homossexual protegido das mazelas do preconceito e da hostilidade. Numa sociedade que permanece lidando mal com a diversidade sexual, ser rechaçado é uma rotina para os gays.

“Onde está o amor?”, “É para isso que servem os amigos”, “O que você vai fazer?”, “Improvável” e “O meu amor é forte assim”, é compartilhado por Fabio Redkowicz, Paulo Olyva, Pedro Silveira e Zé Henrique, acompanhados dos músicos Rafa Miranda e Felipe Parisi. Zé assina a direção, com o apoio de Inês Aranha, o resultado é desafiador e questionável.

A proposta minimalista funciona. Monólogos intercalados, interpretações comedidas, trilha ao vivo cadenciando o clima dramático e obviamente potencializando o tom melodramático. O público é questionado sobre sua postura diante da violência e sobre qual atitude tomar diante do preconceito latente. Passado um início estimulante onde humor, deboche e despretensão é “jogado” para o público, o que é compartilhado depois são silêncios e sofrimentos. Um risco.

Numa época onde se procura “pintar” uma postura mais positiva das questões que assustam os homossexuais – “Lembro todo dia de você”, é o exemplo do grupo – a encenação vai no caminho ao contrário e não teme parece sofrida demais e portanto redundante com a cartilha do politicamente correto. O principal obstáculo é o texto e a condução dos atores por eles.

Fabio e Pedro são dois opostos que se complementam e revelam possíveis buracos nas escolhas interpretativas. Se Pedro é levemente afetado e consegue dominar a narrativa de forma atraente e produtiva, Fabio é naturalista e sua composição é quase imperceptível. Sua naturalidade ao abordar “É para isso que serve os amigos” é tocante e eficiente. Sem mimimi ou autopidedade o ator alterna uma leve ironia ao drama que seu personagem ostenta. Seu momento é tão emblemático e tocante na encenação, que após seu “grand finale”, a peça patina e a direção oscila, não se sabe se afunda no drama, ou se relativiza tudo, tornando a realidade daqueles personagens mais leves.

É um problema na proposta de encenação, ou uma armadilha na ordem dos textos, que inevitavelmente compromete o todo. O texto de Zé Henrique, sobre um homem mais velho diante da possibilidade de uma paquera com um homem mais jovem, é belo e difícil. Requer que o público construa de forma imagética a dura realidade daquele homem que se vê completamente deslocado, apartado de amor, companhia, quiça qualidades que o faça ser paquerado na rua. Zé não imprime naturalidade como Fábio e nem tem a fresca afetação de Pedro. Sua composição se aproxima da de Paulo e ambos carecem de mais verossimilhança, para que o público não se perca durante e se afaste da narrativa durante seus solos.

“Eu sei exatamente como você se sente” é mais arriscado que os outros trabalhos de conteúdo gay do Núcleo. Bartlett é um sexagenário artista que tem em seu histórico uma longa carreira de manifestações artísticas onde as questões queer são prioridades.  Numa entrevista de 2016, para o The Guardian, o autor reitera a questão de gênero como uma jornada e não um destino e provoca ao afirmar que a questão não é a categoria a qual você se encaixa, mas como você é valente diante dos empecilhos.

O Núcleo experimental arrisca no texto e no formato, mas se acanha na ousadia e provocação. Esse “bom mocismo” pode potencializar de forma chorosa o apelo para que se perceba com mais empatia as questões gays. É um dilema, ceder aos apelos ou trilhar o caminho arenoso da contramão.

Rodolfo Lima

Obs: o trabalho fica em cartaz até 30 de maio de 2018, sempre as terças e quartas-feiras, 21h

Teatro Núcleo Experimental – Rua Barra Funda, 637 – (11)3259-0898

 

Bibi – uma vida em musical

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O oficio da profissão de ator ganhou talvez seu melhor representante cênico, com o musical “Bibi – uma vida em musical”. Em cenas dois ícones da história do teatro brasileiro: Procópio Ferreira e Bibi Ferreira, pai e filha, que praticamente ajudaram a escrever o teatro nacional no século XX. Bibi não é popular fora dos palcos teatrais, não fez carreira na TV, novelas, não estrelou grandes filmes. É literalmente do século passado. E mesmo que a cena traga muitas divas, o posto de maior atriz paulista ainda parece recair sobre Cacilda Becker. Digo isso não como demérito, mas para reiterar que nomeações de declarações inflamadas como essa, ajudam a criar mitos. Bibi Ferreira é uma dessas artistas difícil de ser apreendida em sua totalidade, dado suas diversas qualidades, afinal… ainda menina, a mãe a “obrigou” a tocar piano, falar outras línguas, a fazer aulas de canto. Ela não foi só a filha de um dos maiores atores do país, foi educada para.

O que chama atenção na dramaturgia de Arthur Xexéo e Luanna Guimarães é o destaque que o texto deu a personalidade aguerrida de Bibi, que não se lembra mais de como é sua vida fora dos palcos. Que tem no camarim, um lugar sagrado e que se conecta com Deus quando entra em cena, na comunhão com o seu público. Essa mitificação da atriz funciona e emociona. Muito pelo talento de Amanda Acosta que monopoliza toda a atenção quando está em cena.

A peça é narrada por três personagens: uma cigana, o apresentador de um circo e a avó da atriz, a única da família que não trabalhou com artes, mas via tudo. Sua dedicação está estampada na sua saia repleta de tickets. A opção de transformar tudo num grande evento circense funciona na maioria das vezes, embora sejam os momentos mais simples e/ou minimalista que alcance com mais veemência seu objetivo, que é nos aproximar de Bibi. Atriz de personalidade forte e temperamento complexo, dedicou sua vida ao teatro e “sacrificou” seus casamentos em função da arte. A semelhança com Hebe Camargo, que também teve que se impor para sobreviver na profissão, em prol de relacionamentos machistas, é inevitável. Ou seja… Bibi Ferreira também militou em prol da liberdade feminina, defendendo-se com a própria vida. “Eu sempre vou escolher o teatro”, afirma Bibi.

A peça não apresenta o lado B da atriz, não mostra suas contradições, falhas, erros ou arrependimentos, foi montada para agradar, entreter e emocionar. Atinge seu objetivo, e leva ao pé da letra o desejo maior de Bibi que se recusava a passar seus dias chorando lamúrias em cena. Mesmo que a peça ressalte que “nunca houve um final feliz na vida de Bibi“. Como bem reitera a peça, ao revelar sua recusa a interpretar Edith Piaf, que se tornou um clássico da atriz, fazendo com que a mesma permanecesse 8 anos em cartaz. Outras peças clássicas do seu repertório estão lá, como: “O homem de la mancha”, “Alô Dolly”, “My fair lady” e claro “Gota d’água”.

Cacilda Becker, Maria Della Costa e Henriette Morineau são lembradas, ao revelar que todas integraram a primeira companhia de teatro de Bibi, que ao ser mandada embora da companhia do pai, teve que andar com as próprias pernas. A peça aponta problemas entre Bibi e Cacilda, mas não se aprofunda e delicadamente aponta uma rixa entre ela e Tonia Carrero ao disputarem um papel. A dramaturgia presta uma delicada homenagem a Tonia, ao evidenciar que a mesma sempre será lembrada como uma das maiores estrelas nacionaise a frase mítica de Cacilda “não me peça de graça a única coisa que eu tenho para vender“. São delicadezas como essa que inflama o público e o impulsiona a reagir.

Outro feito da dramaturgia foi evidenciar as colocações de Procópio Ferreira, que sonhava com a regulamentação da profissão de ator, numa época onde seu oficio não tinha valia diante dos direitos trabalhistas. Sua fala soa como um deboche entristecido e atual já que vivemos uma época cheia de retrocessos, onde corre-se o risco de ver a profissão desregulamentarizada.

A dicotomia teatro e vida na relação de Bibi e Procópio também é utilizado de forma efetiva. O pai quer preservar o ponto (recurso onde uma pessoa escondida dita o texto), Bibi defende que o mínimo que o artista deve fazer é decorar o texto; Ela também se preocupava em fazer teatro as 17h, pois o público tinha uma opção para vencer a dificuldade do transporte público; Se na rotina do pai, poderia haver facilitadores, para Bibi: a arte de representar é a arte do sacrifico.

Não é um trabalho que escapa dos clichês, como se revela nas “bichas” em cena, reiterando a fauna de tipos no universo teatral e mesmo na imitação de sotaque, como é o casos dos gaúchos que, quase sempre é garantia de riso. Possíveis “barrigas” (momentos de marasmos na montagem) em cena também é bem visível, mas sobre elas a própria atriz vai explicar a importância de sua existência. É uma autocrítica, embora parece quase uma coincidência – levando em consideração que é difícil alguma direção colocar passagens de cenas desnecessárias. Mas as que servem apenas para que o elenco principal troquem – de roupa, por exemplo – existem.

Outro bom momento da montagem é a que cita a função dos críticos e a possível reverberação negativa propagada por eles. Bibi diz: “A crítica é fácil para quem não vai viver dela“. Foi se o tempo que o crítico tinha esse “poder” desmedido de mediar o sucesso de um trabalho. É da boca de Procópio uma possível consequência disso: um teatro vazio parece que a vida foi ontem.

Bibi, assim como Marco Nanini que perdeu tudo com o fogo que destruiu o Teatro Cultura Artística, perdeu toda sua produção uma vez. Assim como qualquer mulher foi traída diversas vezes. Como todos nós, tem uma “família” atípica e sutilmente e carinhosamente a apelidou de “A Casa de Bernarda Alba”, clássico de Federico Garcia Lorca. Amou o pai, mesmo na ausência, amou a mãe, mesmo com a severidade da educação. Não se deixou abater por censores, pela morte do pai ou mesmo a morte do dramaturgo Paulo Pontes, seu derradeiro amor e que merece uma atenção especial na peça e nesse texto.

Vintes anos mais jovem que Bibi, Paulo, então um promissor dramaturgo se envolve com a atriz que já era uma artista reconhecida. Bibi cede e a química artística e física entre eles incendeiam o palco de forma poética, sentimental e dramática, mas sem parecer piegas ou chorosa. É um ganho. Ele alimentou a atriz artisticamente. Aparece como um dos personagem principais de toda sua trajetória. Vitimado por um câncer aos 36 anos, Paulo morreu ao lado de Bibi, como havia prometido, numa das diversas vezes em que se separaram e voltaram. A passionalidade das paixões preencheu a vida da atriz de forma irreversível. Não havia como ela escapar de Piaf, convenhamos.

A relação de Bibi e Paulo está no inicio do segundo ato. É de longe o melhor momento da montagem. Pois tudo é simples e delicado, calcado no trabalho de Amanda Acosta e Guilherme Logullo, que dão vida ao casal entre passos de dança, canções e brigas. Quando entoa os versos de “Bem querer” de Chico Buarque, a platéia é tomada de emoção. Pois em cena se vê uma atriz diante da derradeira derrota para a morte, mas representando/atuando de forma aguerrida e imponente diante de seu algoz, como sempre se mostrou ser. As três cenas entre Paulo e Bibi, quando se conhecem, a briga no camarim e a morte de Paulo, são inesquecíveis.

Independente da qualidade do elenco, e da direção eficiente de Tadeu Aguiar, não posso me furtar de evidenciar a qualidade artística de Amanda Acosta. A atriz de porte franzino e jovial, ganha força e grandeza ao arrebatar o público quando personifica Bibi, seja em trejeitos ou no canto. Amanda como Bibi pleiteia uma vaga no seleto elenco de atrizes estrelares da história do teatro nacional. É merecido. Não à como ficar indiferente a sua presença e seu talento. É um grande momento para a atriz.

Bibi Ferreira fará 96 anos dia 01 de junho. Não está mais atuando. Mas simbolicamente está muito bem representada. É uma grande oportunidade de “vê-la”. Ciente de que existem artistas que não podemos deixar de ver, assisti em 2007 “As Favas com os escrúpulos”, que Bibi interpretou ao lado de Juca de Oliveira e Adriane Galisteu. E assim como aconteceu com Marília Pera e Paulo Autran, sua vivacidade, dicção e postura em cena me chamaram a atenção.

Bibi é uma lenda, talvez Amanda talvez se torne. Não perca a junção delas.

Rodolfo Lima

Obs: a peça está em cartaz de 5° a domingo, até 17 de junho no Teatro Bradesco.

http://www.teatrobradesco.com.br/programacao.php?id=877_BIBI+-+UMA+VIDA+EM+MUSICAL

 

Quarto Camarim

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O universo de travestis, transexuais e transgenêros sempre foi um nicho produtivo. Há tempos é explorado em diversos campos das artes e recentemente o Movimento Nacional de Artistas Trans – MONART, veio a tona requerer o direito de contar suas próprias histórias, ter empregabilidade, chance de mostrarem o que sabem fazer e/ou ser remunerados a contento. Camele Queiroz diretora de Quarto Camarim (2017), junto com Fabricio Ramos esboça logo nos primeiros minutos do filme, estar ciente dessa carência. De porte de uma verba ganha em um edital (Rumos Itaú Cultural), quer que parte do dinheiro vá para sua tia Luma Kalil, famigerada personagem de sua imaginação, que ficou anos no limbo das referências emocionais e que a diretora decide resgatar. O que sairá dali, é o que o filme revela, de forma não linear e atípica.

Com estimulo similar as cineastas Petra Costa (Elena) e Tatiana Issa (Dzi Croquettes) que filmaram para revistar seu passado, Camele segue caminhos tortuosos. Em vez de investigar o objeto em si, se coloca na linha de frente e se mistura com seu alvo. Não é um filme sobre a tia, e sim sobre ela ao se deparar com a tia. Numa das cenas mais emblemáticas e duras do filme – aqui vale um spoiler, para validar minhas colocações – ela revela que quando ouviu a tia dizer que lembrava dela pequena a espia-lá no seu quarto, que na cabeça da diretora criança, parecia um camarim, ouve como resposta da sobrinha, que sua colocação reverberou de forma oca dentro dela, já que ela não fazia a menor ideia do que iria acontecer quando se deparasse com a tia. Se o afeto ia surgir ou se a curiosidade na tia era interesse apenas criativo.

Os motivos que perfazem a trajetória de Luma. Suas escolhas pessoais, a hostilidade de parte da família e da sociedade, a falta de recursos para sobreviver, a saudade de amigas e tempos de glória, a forma de sobreviver, o glamour e o fetiche que supostamente está presente no universo de travestis e artistas da noite e o esforço para se manter com certa passabilidade no universo feminino, está no filme de forma simbólica e sem ser panfletária. Ao fugir dos clichês narrativos para vitimizar sua parente, Camele pôde então oferecer uma possibilidade poética de rever dilemas tão delicados, quanto ter um parente não heteronormativo, excluído e distante da família, sem politicagens oportunistas. É o maior acerto da direção.

Curiosamente coube a Camele a crueldade de deixar de lado suas questões pessoais e os desejos da tia, para dar um corte ao filme que revelasse mais delas do que puderam aceitar ver e ouvir. A cena em que Luma se emociona ao passar a mão no cabelo da sobrinha é a prova do quanto o resgate familiar é pedra fundamental para alicerçar a auto estima de outras Lumas. Em momentos como esse a realidade pesa, é proposital.

No bate papo após a sessão realizada nesta segunda feira (30/04/2018) no CineSesc, a diretora foi questionada pelo fato de ter se ausentado de comentar os motivos que levaram a tia a chegar onde chegou, bem como de expor a opinião de familiares sobre a cabeleireira que ganha a vida numa cidade fria e hostil como São Paulo. Não precisava, com atenção percebesse que todas as questões problemáticas que abastam Luma e suas amigas da família, está na tela, mas de uma forma que exige do público uma interpretação, não está gratuita.  Para citar um exemplo, ao ouvir um dos irmãos de Luma – possivelmente o pai da diretora – o relato dele exalta a facilidade que seria se Luma morresse logo e não causasse mais problemas emocionais aos que se importam com ela. A crítica da direção é velada, pois ao colocar uma música que abafa a fala do depoente, o cala, calando assim toda a transfobia que por ventura ele carrega.

Por essa sutilezas Quarto Camarim é um achado. Por subverter o lugar comum da narrativa. “Sujar” a tela com áudios vazados, imagens escuras, fora de foco, na tentativa de captar o real, o indizível. É o cinema tentando apreender o real. Como se isso fosse possível. A diferença aqui é que em alguns momentos parece conseguir.

A cena que Luma performa “Forever”, de Mariah Carey, é de uma crueza altamente significativa. Existe ali, algumas questões que o filme sustenta: uma magia artística fraturada pelos percalços da vida; a sobrinha tentando acessar sua memória emotiva e assim ganhar a parente de volta, quem sabe uma amiga; simbologias.

O filme ainda não foi lançado oficialmente, mas é daqueles que ficará restrito ao circuito B, a mercê dos ousados que adentrem a sala. Muito por conta da temática, o recorte estético, quiça por Luma Kalil. Quarto Camarim tem que ser visto pois desloca nossa compreensão e refaz nossa sensibilidade para as questões de travestis, transexuais e transgêneros. Oferece uma possibilidade impar de rever as próprias memórias, sem qualquer melindre de falhar. Em muitos momentos o filme é sobre isso, nossas carências cotidianas.

É um filme duro, seco, sensível. Camele não conseguiu que a tia fosse a nenhuma sessão de cinema. Talvez fosse realidade de mais para Luma, que ainda carece de um momento glorioso e espetacularizado, como ansiou ver no filme e se frustrou.

São escolhas. Entende-se a sobrinha, entende-se a tia. Saímos do cinema mais ricos com essa possibilidade de se deparar com a realidade. E curiosos para se deparar com Luma kalil por ai, com seu secador e o desejo de vencer. Um dia, sem querer.

Rodolfo Lima

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Um jeito de corpo

A apresentação do Balé da Cidade de São Paulo

Caetano Veloso é praticamente uma unanimidade. É a aposta da próxima Virada Cultura, que ocorre nos dias 19 e 20 de maio, para parar a avenida consolação, ao acompanhar o carnaval fora de hora provavelmente proposto pelo bloco Tarado ni Você, que é conhecido por arrastar multidões apenas com canções de Caetano. Ou seja, ídolo e fãs se encontraram em cima e em baixo do trio. O que o Balé da Cidade de São Paulo, com a estreia de “Um jeito de corpo” propõe, é fugir da obviedade ao se pensar no artista natural de Santo Amaro da Purificação, Bahia. O resultado é instigante, conceitual e incomoda.

Um acerto da direção de Morena Nascimento, que integra a Pina Bausch Tanztheater Wuppertal e não a toa presta uma singela homenagem a sua mestra. O que Morena fez foi direcionar os bailarinos a lugares incomum da obra de Caetano, anulando de certa forma, toda a folclorização que há em sua obra, mas sem abrir mão do político e do poético – presentes por exemplo nos figurinos coloridos de Isadora Gallas e na direção musical de Cacá Machado.
O risco é sempre bem vindo, assim como a tentativa da fuga da obviedade. Morena não teme e de certa forma abre espaço para as singularidades dos artistas em cena, ou seja… se todos perfazem o “guarda-chuva” do rótulo “neguinho”, que toma a sala na voz de Gal Costa, que todos esses indivíduos ganhem representatividade. O que afinal define a vida de neguinho? Seu olhar – na miríade de opções que existem em cima do palco – pode recair nos bailarinos com signos do vestuário feminino, que automaticamente nos remete a quebra de paradigmas em relação aos gêneros, propondo então um olhar mais plural e livre para o ser humano. Caetano também o faz, e nesse sentido a obra esta em concordância com quem o inspirou.
Se os caminhos escolhidos pela direção são tortuosos e dividiu a opinião do público, o que dizer de sua versão para “Sampa”, uma das mais importantes canções do compositor, trazida a cena de forma sombria e desglamourizada. A Sampa do Balé está mais ligada a violência, hostilidade, tensão e solidão que você encontra entre os passantes em qualquer noite paulistana. É uma versão necessária e atual e revela que os artistas estão conectados com seu tempo. Sai a glamourização – e gourmetização – em torno de Caetano e entra um olhar cru e apático.
A metáfora da palavra neguinho, ganha destaque também na sua versão feminina, “Eu sou neguinha”. Outra possibilidade de reinterpretação da obra do artista que ganha destaque na montagem, ao colocar em cena um bailarina branca – e não a bailarina negra da companhia – a rebolar com vontade seu quadril para deleite do público. Há referências do funk, da objetificação da mulher, do medo da sexualidade feminina e sim o questionamento do tom de pele, do tal lugar de fala e as apropriações culturais. Tudo junto misturado se tornando uma potente arma intertextual, para sugerir que enquanto o mundo está se acabando no terreno ao lado, para alguns a preocupação pode ser o que cada está fazendo com o próprio rabo. Eu era o enigma, a interrogação. #bingo
A montagem que comemora os 50 anos da existência da companhia de dança, se apresenta de forma ostentosa e com coreografias menos acabadas. Isso causa estranhamento, pois em vez da fluência e graça dos gestos e dos corpos, existe ruptura. As ideias, e os corpos, aparecem fraturados, criando uma oposição a outras companhias imbuídas em corpos dançantes e obsessivamente marcados. Os cerca de 30 bailarinos em cena, em muitos momentos são alegorias que reiteram que qualquer corpo pode ser dançante. E se a preocupação de Morena navegou por ai, não há demérito nessa desconstrução do mito do bailarino. “Um jeito de corpo” se torna de todos, independente de.
Creio que a possibilidade de deslocamento da bagagem que o público tem do cantor é o achado da montagem. É como se a obra então nos atravessasse pelo estranhamento e não necessariamente pelo prazer da estética, como é de praxe em obra de grandes companhias de dança. Reitera clichês, reforça estereótipos e de certa forma nos apresenta uma visão emblemática e problemática do brasileiro. Para mim a crítica está justamente nesse lugar de evidenciar o lugar comum, potencializado com o olhar incomum para a obra de Caetano Veloso.
“Me diz que sou ridículo/ Nos teus olhos sou mau visto/ Diz até tenho má indole/ Mas no fundo tu me achas bonito lindo/ Lindo Ile Aiyê/ Negro sempre é vilão/Até meu bem/ Provar que não, que não”.
Que outra obra do Caetano é revista pelo viés da negritude? Morena oferece esse fragmento de leitura e não apenas com a inserção de “Neguinho” e “Eu sou neguinha”. A inclusão de “Ilê de luz” numa poderosa inversão na negritude oprimindo a branquitude, amplia as leituras para a obra do cantor, que declarou que Morena trouxe a cena músicas que nem ele lembrava mais, como é o caso de “Vento”, na voz de Gal Costa. Outro temas inflamados que supostamente aparecem em cena seria a homofobia, o assédio sexual as mulheres e claro, resquícios de um estado opressor e ditatorial. O corpo, independente do gênero e da orientação sexual permanece uma potente bomba relógio.
“Um jeito de corpo” portanto se torna inquietante e foge do óbvio pois instiga a platéia a rever, e reler, a obra do músico de forma não linear. O suposto tom publicitário que tem na chamada ao anunciar que a companhia dança as músicas do cantor, caem por terra quando nos deparamos com a obra proposta por Morena. Reféns na cadeira, do misto de magnetismo e estranhamento que o trabalho causa, o público pode escolher trilhar ou rejeitar o tortuoso caminho que essa obra sugere. Questões reinventadas para traduzir o caos de nossos desencontros pessoais e sociais.
É para ser visto e revisto sem preguiça.
Rodolfo Lima
Foto: Bruna Guerra (#glamurama)