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A Esposa

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O que mais me chamou a atenção em A Esposa (The Wife) não foi a suposta guerra de gêneros que o filme traz como um tema coadjuvante, e sim a infinita necessidade de completude que nós, seres humanos, sentimos. Na ruptura dessa possibilidade, morremos, alguns em vida. Se o filme de Björn Runge não aborda um tema necessariamente inédito, “Collette”  (2018) de Wash Westmoreland resvala no mesmíssimo lugar, uma esposa que serve de ghost writer para o marido. Ou seja, escreve no lugar, e para o marido, que publica seus textos e consequentemente fica com os louros. Ofertando assim um apagamento do feminino, o anulamento de sua individualidade e consequentemente borrando a história de forma machista e misógina. Quantas mulheres não ficam a sombra do marido?

É uma herança nefasta da cultura religiosa, binária e falocêntrica que herdamos e da qual não nos livramos. Alguém cuida da casa, alguém trabalha fora. Alguém coloca roupa na maquina de lavar roupa, alguém lava o carro. Filhos nascem, os afazeres se dividem, basicamente em todas as casas. Homens exercem determinadas funções, mulheres outros. Então… o combinado não sai caro, certo? Era assim, hoje em dia o combinado precisa ser revisto diariamente, pois os desejos, as frustrações e as oportunidades se intercalam de forma visceral e avassaladora, oprimindo pessoas, singularidades, sonhos. Embaralhando as possibilidades.

Joan (Glenn Close) não é exatamente uma mulher inocente. Aceitou o papel de escrever/revisar/criar os textos que eram publicados com o nome do marido, enquanto esse dava conta das crianças – por exemplo. Quando Joe (Jonathan Pryce) é laureado com o prêmio máximo da literatura (Prêmio Nobel), Joan é obrigada a revistar questões abafadas, que pareciam superadas, porém descobre-se que não. São assim os desejos e os impulsos… o não realizado, não há como fugir do retorno da vida.

O filme que deve dar o Oscar a atriz (que já bateu na trave, com 6 indicações e nunca levou) é um belo exemplar de história para se pensar a velha disputa de gênero e os papéis exercido na sociedade. Como se livrar deles é que são elas. O filme não aponta pistas. Estamos refém dessa herança nefasta. E para escapar o ser humano, a mulher no caso, precisa se impor, e ao se impor pagar o preço, contrariar uma sociedade que a diminui – por exemplo. É triste e trágico.

A dualidade que o filme emprega ao expor uma mulher conivente e um marido aparentemente grato a todo o esforço da mulher em permanecer do seu lado, é o ponto nevrálgico do filme. Você ao aceitar a postura de Joe, corrobora com o machismo implícito em sua atitude. Se o filme não é feito para alerta e enaltecer o papel feminino em detrimento de uma visão exploratória de gêneros, resvalar no tom emotivo do filme é uma saída para olhar para ele com empatia.

Digo isso, pois acho que o filme reforça a necessidade da busca por completude, ao mesmo tempo que revela a fragilidade dessa escolha. O outro sempre será nossa ilusão favorita. Não há como fugir. O outro existe na nossa vida para nos guiar e nos inundar. Alguns se afogam, outros sobrevivem. Muitos não tocam a água. Outro nem sabem que essa opção é possível. Joan ao tentar romper esse circulo vicioso – o de acreditar que o outro é um porto seguro – interrompe não só o sonho de uma vida a dois. Mina de forma seminal a possibilidade do agraciamento do acolhimento infinito.

Nunca é tarde para sermos confrontados. Nunca é tarde para nos vermos expostos. Se arrepender, e reverenciar o que acredita ser seu de direito. Mas e quando você aceita esse papel de coadjuvante? Quando você assume um lugar aquém do que a sociedade espera, quando você se envergonha em quem você se tornou.

Joan não quer que o marido a agradeça em público. Não quer que lhe seja jogado na cara o rótulo de mulher sofrida, apagada, submissa, que viveu para o marido e suas necessidades. Joan se apaixonou e aceitou Joe já nessa condição de subalterna, o filme parece indicar. Se a outra entre quatro paredes, tudo bem, em público, jamais. Quem nunca?

A esposa é para se deixar levar. Se contaminar pelos espinhos que o filme vai expondo no decorrer da projeção.  O jeito elegante, contido e por vezes tímido, com que Glenn Close conduz sua personagem é o grande trunfo, já que a personagem é construída de forma misteriosa, como se pudesse conter uma vulcão dentro de uma carcaça envelhecida e amorfa. Ficamos a mercê de sua explosão.

Mais do que revelar a fragilidade desse encaixe masculino-feminino, o filme implode nossa ilusão de quem sim, podemos nos construir a partir do outro. No final do filme a sensação é que por mais que juras de amor sejam feitas e por hora, aceitas. Nunca sabemos ao certo o que corre por trás da máscara colorida que se oferta ao outro. É essa crueldade que dói no final do filme. Nos deixando sem escapatória para sonhar.

Rodolfo Lima

 

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O Confeiteiro

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Não sabemos com precisão de onde nasce o afeto. Se dá ausência de algo ou de sua abundância, do esforço individual ou simplesmente acontece, como um fenômeno natural e imprevisível. O Confeiteiro ( The Cakemaker) traz um exemplo do amor que nasce da morte. Como se na finitude de algo, outra ressurgisse no lugar, para que continuemos vivendo e assim dar conta disso que se chama vida. Parece óbvio essa constatação, mas na prática sabemos que nem sempre é com poesia e certa sorte, que as coisas acontecem, e que sim, muitas pessoas morrem em vida, dada a impossibilidade de se reinventar. Como escreveu um dia o autor Caio Fernando Abreu (1948 – 1996): existem pessoas que nascem para serem sós, a vida toda.

Não é o caso de Thomas (Tim Kalkhof) e Anat (Sarah Adler) ambos vitimados pela morte de Oren (Roy Miller), do qual ambos eram amantes. Amante do primeiro e esposo da segunda, Oren ao deixar de existir fisicamente na vida de ambos, catapultou em Thomas a necessidade de conhecê-lo mais e/ou reconstruir a trajetória de sua morte, já que sendo o amante e morando em outro país (Alemanha), soube tardiamente da morte do amado.

Nesse impulso de ir até a cidade natal (Jerusalém) de Oren e sua familia, Thomas procura simbolicamente reconstruir sua perda. O que lhe restou foi uma chave, que dá acesso ao armário do clube, onde o que resta é uma sunga. A peça intima do amado é o que lhe restou. Na ânsia de mais – afinal, como se preenche um vazio a contento? – Thomas vai até o endereço da esposa do amante. Ela, dona de um café. O sútil imbróglio se inicia nesse encontro.

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É o contato dessas singularidades que preenche o filme de Ofir Raul Graizer de poesia e simbolismos. Embora o filme tenha “ares” de filme gay, já que o mote da história é a relação entre dois homens, fico a pensar se tal rótulo dá conta de abranger o que o filme tem de melhor, que são os silêncios dos que vivem a superar uma ausência. O filme tem charme ao colocar a profissão de confeiteiro em evidência – nunca uma mão parece tão sexy numa massa de farinha – mas isso ocorre para ajudar a nos conectar com a história através de outros sentidos. Não podemos provar os doces de Thomas, mas somos cúmplices e invejosos de Anat quando ela é preenchida pelo sabor proposto pelo tal confeiteiro.

Anat e Thomas se aproximam e se envolvem porque Oren morreu. A morte aproxima essas duas pessoas. Então o que supostamente era um filme gay, dá indícios de um filme heterossexual. Ou como diria alguns, de certa gourmetização da sexualidade, como se os gays pudessem ser curados por heterossexuais. É importante evidenciar que Thomas se aproxima e talvez se apaixone pelo universo de Oren, e isso inclui sua família (mulher, filho e mãe), sua casa, suas roupas, o universo que ele deixou. Tem muita beleza nisso, convenhamos,  mesmo que utópica.

Uma das críticas que li do filme é sua tendência a ser um produto calculado para se “vender” o universo homossexual à plateias heterossexuais. Com opções de cenas softs e sem ousadias, para que assim o universo gay descesse guela abaixo dos homofóbicos. E o pior, que os gays masculinos fossem passíveis de serem salvos por uma mulher. O filme não afirma isso com precisão, sugere que a redenção de Thomas é na companhia de Anat, que por sua vez, para supostamente ser feliz, teria que perdoar o amante do marido. Se tirássemos o rótulo de filme gay de O Confeiteiro, sobre o que falaríamos? É o que fiquei a pensar depois da leitura de tal posicionamento crítico.

Mesmo que o filme não se aprofunde na bissexualidade de Oren, podendo assim ser um produto quem sabe provocativo para as questões da sexualidade humana, as opções da direção são interessantes (é o primeiro filme do diretor) e resultam em momentos de epifania e leveza na tela, bem como de intensidade e – por que não – de tristeza. O choro guardado de Oren que explode em apenas um momento do filme é uma cena inesquecível. É um momento difícil na composição de Kalkhof, que em silêncio tem que dá conta de exprimir a dor que seu personagem sente.

Acabamos sendo vitimas das tais nomenclaturas que dividem o ser humano através de sua sexualidade e gênero. Como se os sentimentos e os desejos não pudessem ser fluídos e navegarem sem rumo por ai. É difícil aceitar que os são. E se o filme não dá conta de verticalizar essas questões de forma audaciosa – como é comum em alguns exemplos europeus e americanos – o resultado é uma bela forma de rever as questões sexuais de forma menos inflamada e mais suave. Como se a ficção pudesse nos induzir a crer que o mundo – e nossas questões – pudessem ser fáceis de serem digerido. Não o é.

Muitos de nós não seremos nunca brindados com a possibilidade de rir como Anat, mas é isso que faz com que o filme se torne emblemático e poético. No fim, é o resquício de esperança de Anat que carregamos para fora do cinema. Não é assim que deveria ser na vida também? Um nova possibilidade sobrevivendo para além das perdas irremediáveis?

Rodolfo Lima

Obs: o filme é o candidato de Israel a uma vaga ao Oscar na categoria de filme estrangeiro. #natorcida

 

O frenético, Dancin Days

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É bom quando somos lembrados que teatro é – entre outras coisas – pura diversão. Sem o menor comprometimento político e/ou com a verdade. O frenético, Dancin Days é um bom exemplo dessa fatia do mercado das artes cênicas. O musical carioca está em sua segunda temporada e se torna uma boa opção para a distração. Isso não quer dizer que ele esteja isento de críticas e/ou de erros e acertos. Mas é o típico trabalho que de inicio você só pensa em aproveitar o momento, mesmo que nem tudo seja desenvolvido a contento.

Dividido em dois atos e escrito por Nelson Motta e Patrícia Andrade, a peça pretende resgatar o clima vivido pela boate Frenetic Dancing Days, idealizado por Motta e seus amigos (Leonardo Netto, Dom Pepe, Scarlett Moon e Djalma – como consta na página do Shopping Village Mall) em 05 de agosto de 1976, num espaço ocioso dentro de um shopping, na ocasião, o da Gávea. Sua duração seria de 4 meses, mas isso não impediu que a boate, seus personagens, suas lembranças e seus frequentadores não entrasse para a memória cultural do país. Ok, isso pode ter se dado mais no eixo RJ/SP e provavelmente por causa da novela de Gilberto Braga, com nome homônimo e consequentemente com a projeção do grupo As Frenéticas. A boate é uma especie de marco da entrada da era da discoteca no país.

Motta é um autor que vem se expandindo em musicais e responde pela dramaturgia de “Elis, a musical“, “S’imbora o musical – a história de Wilson Simonal” e o acertado “Tim Maia – Vale tudo“. Como ele é parte integrante da história que conta, era de se esperar que ele peneirasse as informações e embaralhasse verdade e ficção, como que a polparmos de saber do lado B da boate e seus bastidores. Tem se a sensação de que a peça é “chapa branca” e isso claro, joga contra o resultado final. Tem se a sensação de algo pueril, conforme a peça vai se encaminhando para o fim.

Essa escolha do autor empobrece a peça principalmente no segundo ato, que nada acrescenta de informação e ainda transforma a si mesmo e seus amigos como anti heróis visionários que antes mesmo do politicamente correto já combatiam as minorias e levantam bandeiras a favor de mulheres, negros e homossexuais, por exemplo. A parte didática da peça é totalmente dispensável. Não serve para entreter e nem provoca uma reflexão aprofundada sobre os referidos assuntos. É ótimo saber que a mais de 30 anos atrás tínhamos pessoas como eles, mas a forma como esses louros são jogados é que são elas.

Se o autor se eximiu de tocar em assuntos e/ou situações mais sérias ou delicadas, a direção de Deborah Colker faz dessa ausência uma oportunidade de evidenciar questões latentes na sociedade atual e que – na ausência de uma dramaturgia que dê conta – ganham graça e brilho com a sua releitura. Como é o caso da homossexualidade masculina e a histórica música Y.M.C.A. e seus personagens machões, eternizados pelo grupo Village People. A cabeça enorme de um cervo (cenografia e direção de arte são de Gringo Cardia) adentra o espaço e os bailarinos – diferente da ostentação dos arquétipos mofados do masculino – “dão close” e uma boa “pinta” com figurinos coloridos, exóticos, corpos desconstruídos e porque não fora dos padrões. É o melhor exemplo da utilização de um clichê e sua (feliz) subversão.

Os figurinos de Fernando Cozendey são uma interessante diversão a parte. Uma exacerbação de cores e misturas que ajuda colorir todo a história. E alguns deles, ótimos, diga se de passagem. Mas é uma opção perigosa já que reproduz culturalmente a época de forma indireta.

A inserção da música do grupo norte-americano alerta os mais atentos para a dissonância que pode haver entre as músicas escolhidas para ocupar a pista da boate da Gávea. A referida música (Y.M.C.A) é de um disco que o grupo lançou em 1978, dois anos depois da boate abrir e causar furor em terras cariocas. Uma pergunta que me rondava era: quais as músicas que realmente tocavam na pista dessa boate?

O melhor momento da peça – ou o certo seria dizer, o meu preferido – fica por conta da execução da música “Can’t Take my eyes off you” de Frank Valli, que fez sucesso em 1967 e serve para ilustrar a ida de Nelson Motta  a Nova York para xeretar as tendências musicais da época e poder assim revelar um som atualizado das tendências mundiais, na boate carioca. Motta relata uma viagem de alucinógeno e com ela o encantamento que sentia pela mulher de seu mecenas, que ele, em função dos efeitos da droga, jurava que também estava em NY e portanto se vislumbrava com a mulher desejada. Essa mistura de realidade, ficção, ilusão, glamour, e porque não, toques de desilusão, dão o tom do que pode ter sido aqueles tempos. Em cena Bruno Fraga e a estonteante Natasha Jascalevich – impossível tirar os olhos dela.

Outra questão emblemática na peça e talvez a que melhor deu conta de narrar um fato histórico, porque independente da verdade dos fatos, se utilizou de humor e deboche, foi a referência ao grupo As Frenéticas, que segundo a peça, tinha esse nome, pois todas foram garçonetes da famigerada boate, que entre servir um cliente e outro faziam performances no meio da noite.

Uma suposta despretensão nas coreografias tornou a peça leve e divertida, sem a caretice que é de praxe em histórias clássicas dos musicais. O corpo de baile também dá um arejada com a inserção do quarteto: Eddy Soares, Elio Barbe, Rômulo Vlad e Andrey Fellipy, um grande acerto da direção.

O Frenético Dancin Days diverte e empolga, entretêm e mesmo que sua dramaturgia não seja o melhor texto escrito por Nelson Motta, não deixa de ser uma possibilidade de lutar – indiretamente – contra a caretice e o conservadorismo que assola o país. Embora, é bom que se diga que de transgressor o musical não tem nada. Talvez a maior contradição de um trabalho que tem por intuito referenciar um ícone da contracultura carioca.

Rodolfo Lima

Obs: a peça está em cartaz no Teatro Bradesco (RJ), de sexta a domingo, até 24 de fevereiro de 2019.

Meus momentos preferidos na cena teatral em 2018

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Este ano vi 144 peças de teatro, em 4 estados nacionais.
A lista abaixo é para aqueles trabalhos que me tocaram de alguma forma. Eis os motivos!!!

ARVORES ABATIDAS – O drama do artista que não dá certo, que fracassa, que fraqueja, que envelhece, que adoece, que deprime, que não tem emprego, oportunidade, sucesso. Tudo isso junto e misturado nesse drama polonês com mais de 4 horas de duração e que inquietou e provocou a platéia do Sesc Pinheiros. A possibilidade de conhecer o trabalho delicado da direção de Krystian Lupa foi outro achado. Aliou poesia e morte de forma tocante e exigente. #trazeledenovoMITsp

CÉREBRO CORAÇÃO – Essa peça é um misto de uma atriz excelente, um texto provocativo, um cenário instigante e uma direção que não se rendeu ao popular, ou seja… o pacote completo. Sou fã de Mariana Lima, desde de “Apocalipse 1,11”, isso há quase duas décadas. “Seu” cérebro/coração se tornou um tocante e sensível questionamento sobre os caminhos dos desejos, dos sentimentos, o duelo da razão e emoção, e da necessidade e capacidade de se renovar como artista. Mariana soa tão honesta em cena, que o público apenas órbita em sua volta #soufãconfesso
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https://ilusoesnasalaescura.wordpress.com/…/01/cerebrocora…/

ENCONTRO 32 ANOS DEPOIS – NÓS DO MORRO – Subir um trecho do Morro do Vidigal (RJ) e poder acessar um pouco do trabalho dessa galera jovem foi um experiência agradável e inspiradora. É aquele teatro feito com pouco recurso e com muito amor, muita vontade de acertar. Inspirador e criativo.

GAVIÃO DE DUAS CABEÇAS – Nessa peça o que se entende pelo tal “lugar de fala” , o “biodrama”, quiça o “teatro documentário” e a dança-teatro são reconfigurados nesse solo de Andreia Duarte e, que depois de viver por anos numa tribo indígena mistura memórias, cultura e denúncia social para falar de forma direta sobre a questão indígena, sem se furtar de ser politica e emotiva. Um belo exemplo de solo!!!
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https://ilusoesnasalaescura.wordpress.com/…/gaviao-de-duas…/

JOSEPHINE BAKER, A VÊNUS NEGRA – O que mais admiro no teatro é um artista entregue. Se acrescido a essa entrega tiver a força aguerrida de produzir tudo…#matchpoint. Ganha todo meu respeito. É o que acontece com Aline Deluna, que dá vida a personalidade marcante e irreverente da cantora Josephine Baker. Aline é talentosa, causa empatia, tem versatilidade e conseguir criar um trabalho que além de reverenciar sua “musa”, ainda serve de trampolim para projetar todo seu talento. Essa luz interior sempre me emociona. #arrazôgata
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ISTO É UM NEGRO? – Para mim uma das melhores qualidades num trabalho artístico é sua possibilidade crítica de debochar das próprias questões. A cena final de “Isto é um negro?” é o exemplo que fica de um trabalho com poucos recursos cênicos, com duas atrizes interessantes e que resultou numa grande provocação sem proselitismo.
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LOBO – São muitos homens nus em cena, se debatendo e se chocando de forma intensa, sem que isso resvale numa conotação (homo)sexual na primeira cena da performance. É possível ver todos esses homens e não associar a sua sexualidade. Ver que é possível a tensão masculina vier a tona, sem que isso vire uma grande pegação de homens em cena – vide o que é feito pelo Teatro da Pomba Gira – é o grande feito de Carolina Bianchi. A possibilidade que teve de ter tantos artistas a sua disposição é outro feito, #respeiteamoça

LOVE LOVE LOVE – Teatro é texto, é a palavra, e o que dela podemos potencializar em cena com nossos corpos. O texto de Mike Bartlett é um soco no estomago. O público acompanha o passar do tempo de uma família e com ela, toda a degradação de sonhos, emoções e expectativas. Não tem como sair indiferente do teatro. Para complementar Yara de Novaes ofereceu uma mãe inesquecível. #peçaobrigatória!!
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https://ilusoesnasalaescura.wordpress.com/…/03/love-love-l…/

OFÉLIA – A TRAVESTI GORDA – O que me chamou a atenção na performance de Magô Tonhon (foto), não foi sua capacidade de entreter e fazer rir, e sim sua capacidade de se desnudar e de debochar diante de questões tão delicadas para si mesma, como a travestilidade e a gordofobia. Para ser artista é preciso ter coragem antes de tudo, de arriscar e vencer os próprios limites, de não ter medo de ser ridícula e nem piegas. Magô não é atriz, ou pelo menos, ainda não. Mas… tenho grande empatia por quem se joga sem rede de proteção. #voltaofélia

TRIPAS – A radicalidade nas artes é sempre algo ambicionado. No teatro há muitos pretensos artistas que requentam escolhas de outros artistas e em vez de inovarem, oferecem um pastiche. Pedro Kosovski escreveu e dirigiu uma peça para falar sobre a doença do pai (Ricardo Kosovski) e todos os questionamentos que dela surgiram. Incluindo questionamentos sobre o amor, a paternidade e a (homo)sexualidade. O beijo na boca – e de língua – de pai e filho no final da peça é daquelas opções cênicas que nos tira da cadeira de forma irreversível. #arrazaramnacoragem

Rodolfo Lima

Crédito foto: Márcia Zanelatto

O que restou de você em mim

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          Histórias de amor são marcantes pelas suas especificidades, pelo que a singulariza. Amar e pertencer, amar e perder, amar e ser abandonado, amar e não ser amado… praticamente faz parte do histórico de todos. O que restou de você em mim, solo biográfico de Davi Novaes oferece essa possibilidade de catarse na reduzida platéia (8 pessoas ao todo) e não necessariamente por uma entrega visceral ou uma exposição explícita, das emoções, digo. E sim, porque o público se identifica com essa necessidade de amar e ser amado, com as ilusões que nos movem diariamente e também pela presença carismática do ator. 
 
          A peça tem um quê de biodrama – estética onde o artista parte de um acontecimento real de sua vida e teatraliza os fatos e/ou cria uma performance para expor suas questões – porém sua excessiva teatralidade rouba o que poderia nos contaminar pela sinceridade e naturalidade. Uma das músicas que abre o trabalho é “Someone Like You” de Adele, um hino romântico e certeiro. Ao adentrarmos o quarto de Davi – o personagem/ator, tudo tem uma estética vermelha. Das paredes a capa de livros, posters, copo, tênis, embalagem de chocolate e por ai vai. Qual a relação da cor com a história de Davi, não sabemos. Tirando o clichê que vermelho é supostamente a cor da paixão… Poderia ser do sangue, da raiva, do sexo ou de qualquer outra pulsão latente que desse a Davi uma ambiguidade. Isso não ocorre. 
 
          Davi é revelado a nós como uma pessoa sensível, sonhadora e claro, machucada. Afinal seu solo é sobre isso, sobre o fim de algo que termina na prática, no dia a dia, nas ações. Porém permanece dentro de nós, como que nos a assombrar e nos mover rumo a lugares nebulosos, como o passado, as lembranças… um inferno chamado saudade. O texto escrito por Davi ganha mais força quando ele se atém a revelar detalhes do cotidiano perdido. Quando sua atenção volta a reconstruir momentos que são só dele e por isso mesmo encanta e emociona. Ao oferecer uma analise sobre o que é o amor, o texto soa impostado e pretensioso, embora Davi tenha uma presença cênica acolhedora e carismática. O que cativa é ele ou a história dele? 
 
          O momento mais emblemático do solo é quando narra seu primeiro encontro oficial. Sabemos o título do filme, o cinema, o sabor do chiclete…são essas  particularidades que individualiza o personagem e o enriquece, não o poster do filme Moulin Rouge na parede ou o livro de Virginia Woolf. Quem gostava de Ana Cristina Cesar? Davi ou seu amado? O filme Ela é importante pra quem? Porquê? 
 
          Em O que restou de você em mim a ambientação aprisiona o ator numa estética que não traduz com verossimilhança o universo do quarto do “personagem”. A honestidade do simples e do banal, e de objetos dispostos ao leu e sem uma combinação excessiva teria surtido mais efeito. Um trabalho como esse, mereceria mais momentos onde pudéssemos ouvir a respiração do ator e o sentimento aflorando dentro dele, do que marcações onde o faz pular de um canto para o outro, como se isso potencializasse sua história. Discordo. O que potencializaria isso era seu desnudamento emocional. O olho no olho. A montagem por vezes pede que o ator apenas divida conosco a sua versão da história, como se isso bastasse para o livrar da solidão de ser deixado. Há um momento em que o ator, sentando numa cadeira, apenas respira. Três respiros ofegantes que não nos deixa perceber com clareza se é cansaço, saudade ou dor. No meio do abandono não há com saber e esse “estar perdido”, faz toda a diferença.
          A direção é da dupla Alejandra Sampaio e Virginia Buckowski, atrizes da Velha Companhia, conhecidas por encabeçarem o elenco de montagens sensíveis como “Sínthia” e “Cais ou a indiferença das embarcações”. Davi Novaes cativou o público no musical infantil “O príncipe desencantado”. Ou seja, não é por falta de exemplos de sutileza que a equipe de construção do trabalho carece.
          O Jornal Agora São Paulo trouxe uma nota no dia 23 de novembro com o seguinte trecho: “Sozinho no palco, Novaes interpreta um homem que, para se redimir de algumas histórias do passado, visita lugares que representam antigos namoros.” A falta de objetividade nessa “peça-depoimento” como é citado no release,causa esse tipo de distorção. Se trata de uma experiência pessoal, um namorado, um amor específico e porque não: uma história de amor gay.
          A experiência de adentrar o quarto de Davi é válida, não necessariamente catártica, embora na sessão que eu estive, apenas eu e outro espectador não nos debulhamos em lágrimas. Davi conta sua versão da história, o público se espelha no seu desamor e é fisgado. Mas que o ator e a direção podiam ter se arriscado mais… e fugido de algumas opções fáceis, ah… isso podia.
          Rodolfo Lima
          Obs: a peça faz suas últimas apresentações do ano sexta, sábado e domingo na Zona Franca (Rua Almirante Marques Leão, 378 – Bela Vista. Informações: 98202-4658)

Tinta Bruta

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Filmes gays interessantes, que se propõe a subverter os clichês de tal universo, são uma raridade. Não que não haja tentativas e uma produção ambiciosa por. Mas, é sempre um desafio para os artistas, conseguir driblar os velhos “chavões”. Tinta Bruta de Filipe Matzembacher e Márcio Reolon não deve passar desapercebido na história na cinematografia gay nacional.  Não falo pelos prêmios importantes que recebeu e sim pela forma como os diretores abordaram temas rotineiros para os homossexuais, como – por exemplo – solidão, desamparo, violência e exposição online.

Independente da idade que tenha o público do filme, a comunicação é imediata. Pedro (Shico Menegat) vive só e é acusado de uma agressão. Retraído na vida social, se expõe na internet com o codinome de “Garoto Neon”, ou seja, ganha a vida expondo seu corpo em meio a tintas coloridas para homens que pagam para acessar virtualmente sua intimidade. Pedro é jovem, mas a vida parece não ter saída. E essa nefasta constatação vai tirando a passividade do público que aos poucos vai se aquietando com a realidade do protagonista.

Sua realidade seca e árida, ganha realces quando conhece outro rapaz (Bruno Fernandes) seu possível concorrente. Pedro se aproxima então de seu suposto inimigo e as singularidades dos dois rapaz se fundem. São diferentes em seus propósitos, mas dividem a mesma inquietação. Tem realidades dispares, mas isso não os impedem de tentar se comunicar. Como se fossem os únicos habitantes de uma terra devastada. No caso, a cidade de Porto Alegre, que sofre com o descaso cultural e vê a intolerância ganhar dimensões desproporcionais.

Os garotos que se pintam são contaminados pela violência e pelo afeto na mesma proporção em que se esbarram e tentar sair de seus mundos. Se vêm desamparados e confusos, na mesma medida que são obrigados a continuar tentando sobreviver as intempéries da vida. A solidão vem de brinde para uma juventude que não consegue escapar das mazelas de uma sociedade fóbica e doente. Vitimizados, se refugiam no universo online, como se esse lugar pudesse o salvar deles mesmos, o que raramente acontece.

Essa forma sem pieguice e direta de lidar com o isolamento de Pedro, faz toda a diferença quando nos vemos sobrecarregados de problemas alheios que esbarram em toda uma falta de estrutura emocional e social, e porque não educacional, para lidar com o futuro.

Esmiuçar o filme é revelar o que ele guarda de mais precioso: sua delicadeza. Seja no desconforto impresso no olhar de Menegat ou mesmo na ansiedade esperançosa da presença de Fernandes. Atores tão diferentes, unidos pela alquimia da ficção. Ambos expostos, verossímeis e intensos. Como se pudessem se complementar e por alguns minutos iludissem o público de que essa opção é possível. Sexy sem serem vulgares, talvez seja uma boa forma de traduzir os corpos dos atores na tela grande.

Desamparados ficamos todos. Não porque a realidade é mais impactante do que a ficção, mas porque nos vemos naquela desesperada sensação de um possível sim. Vemos os sonhos dos meninos se desfazerem e junto com eles, morremos um pouco. Tinta Bruta talvez seja o filme nacional com o melhor retrato agridoce dos dependentes da internet. Pessoas incapazes do convívio social, que renegam a si mesmo, por medo ou covardia, uma possibilidade real de contato e que constroem toda a sua subjetividade entre os limites da tela de um computador. Pedro se despe, pela web cam, mas os tais nudes que são trocados diariamente é uma forma triste de mercantilizar o próprio corpo, como se os afetos pudessem entrar nesse balaio de brinde. Não entra. O que se vende diariamente no mundo on line é a ilusão de acesso, de pertencimento, de emponderamento. É deprimente a realidade de quem depende dessa opção para se sentir vivo, incluído.

A cena em que é revelado ao espectador o motivo do isolamento de Pedro é um grande momento onde solidariedade, empatia, sedução e carinho são alinhavadas e todos nós nos sentimos confortados. Todos somos Pedro nesse momento. Somos beijados em nossas questões mais dolorosas e esse efeito imagético do filme é o seu grande momento, eu diria.

O filme ganhou os 4 prêmios importantes no Festival do Rio de 2018 (Melhor filme, roteiro, ator principal e coadjuvante) além de ser eleito o melhor filme no Teddy Award, em Berlim, considerado Oscar de produções com temática gays. No Festival Mix Brasil, foi completamente ignorado na premiação. Uma discrepância para um filme que potencializa a produção nacional com maturidade e delicadeza, sem deixar de ser cruel e verdadeiro.

Vale ressaltar a observação que o filme traz em relação a violência homofóbica. Ela só é legitimada quando é imposta aos homossexuais. Quando esse reagem, temos um problema social. Gays terem suas singularidades achincalhadas diariamente, faz parte do contexto cultural da sociedade em que vivemos. Mas e se reagíssemos a cada tentativa de opressão e fobia, que mundo estaríamos prospectando para o amanhã.

Em Tinta Bruta o amanhã é um oásis. Nos tornamos cúmplice de Pedro no que ele tem de bom e ruim e de precário também. Afinal, todos carregamos uma parte que nos falta, mesmo que seja ela que nos impulsione a crescer…amadurecer. Ao som da maravilhosa “Drone bomb me“, ecoada na voz de Anohni, deixamos o cinema. Assim como Pedro, não sabemos dançar para além dos nossas paredes, mas assim como ele, implodimos sem querer por dentro e o amanhã,  bem… continuamos sem saber.

Rodolfo Lima

Trajetória Sexual

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Numa época onde a diversidade sexual corre o risco de ser tolhida e reprimida, Álamo Facó vem a cena e se desnuda para falar sobre sua suposta Trajetória Sexual. O solo que encerrou temporada ontem no SESC Ipiranga, fecha a Trilogia da Perda, combo de solos do ator que inclui: Talvez (2008) e Mamãe (2015). Todos eles buscam um diálogo direto com a plateia, uma “estética documental” – como o autor cita no programa distribuído antes do inicio –  resultando num misto de teatro e performance.

O tom confessional imprimido pelo ator à montagem causa empatia. A auto ficção é uma forma bastante em voga que os artistas encontraram para teatralizarem suas inquietações e assim se expor e teatralizar seus fantasmas, com a “vantagem” de poder mentir descaradamente, afinal ao contar um fato/história já estamos reinventando algo.  Por mais bem intencionado que sejamos, nunca seremos capazes de narrar de forma fidedigna um acontecimento. O ator sabe disso e em dado momento zomba de si mesmo quando enfatiza que provavelmente seu desempenho no sexo oral numa mulher, se fosse narrado por ela, teria outra narrativa.

O trabalho é dirigido por Facó,  Renato Linhares e Gunnar Borges, mas tudo é bem simples e direto, não há complexidades para tantas mentes pensantes. Com o palco vazio, apenas com um tapete, o ator de cara limpa e peito aberto narra o que seria suas aventuras amorosas. A entrega e o despojamento de Facó e bem vinda, numa pesa que fala justamente sobre sexo. Nada mais honesto que seu corpo fosse posto na arena de forma  natural. Porém, nem tudo o que conta atravessou seu corpo, mas do inicio para o meio do trabalho, a encenação faz parecer que sim. Quando o ator abre margem para a participação do público é um sinal de que o que ele diz pode pertencer a todos. Será?

Todos tem suas questões com a sexualidade e suas possibilidades. A variedade que há nessa potência recheada de desejo e impulso “é que são elas“. Nem todos tem a tal desenvoltura do ator em experimentar de forma tão “descolada” e “bonita” esse lugar, convenhamos. Sexo anal, com mulheres transexuais e a prática do fist-fucking é exposto em cena sem o menor conflito. Como se a realidade do ator sempre fosse se permitir de forma fluída e generosa com o(s) outro(s), o que de fato não é crível. E a lembrança de uma juventude conflituosa parece distante para um adulto tão disponível.

É divertido e leve as histórias narrada pelo ator. Ouvimos e nos tornamos cúmplices de suas aventuras e no melhor estilo machadiano “também gozamos pelos lábios alheios“. Porém o tom de cumplicidade que é estabelecido entre público e artista é rompido quando o solo perde o tom testemunhal e parte para o discurso panfletário. A amarração que é dado ao trabalho no terço final, reitera esse lugar, perde se o diálogo descompromissado e entra em cena o discurso pronto que serve para educar a platéia e não fornecer a ela uma experiência potente e transformadora. O inicio supõe esse lugar, o final atesta que ele não foi trilhado até o fim.

A cena de violência homofóbica na escola, como lidar com um corpo trans, a indicação para ler Djamila Ribeiro e o exemplo de criação de crianças sem encarcerá-las num nome que defina seu gênero, são as pistas deixadas pela encenação para um suposto futuro ideal.

Quando o teatro me impõe caminhos e inibe que eu, com as minhas questões pessoais recrie as minhas escolhas, eu desconfio, me afasto, me desconecto. Num solo tão direto quanto o de Facó essa opção é um risco que ilude os desatentos. Mesmo que a platéia se deixe levar pelo discurso em vários momentos, a imposição é sempre um risco. Um pretensão desnecessária.

Rodolfo Lima

(Crédito foto: João Penoni)