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Recital da Onça

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Há muito o que dizer sobre Recital da Onça o novo solo da atriz Regina Casé. O principal é que não tem como ficar indiferente. A ela, as suas escolhas, ao trabalho como um todo. Vinte e cinco anos afastadas dos palcos e uma popularidade conquistada com programas como “Esquenta” e “Brasil Legal“, filmes como “Que horas ela volta?” e “Eu,tu,eles“,  lhe garantiu dois dias de lotação no Teatro Guaíra em Curitiba, durante a programação do 28° Festival de Teatro de Curitiba. Observação, o teatro tem 2.000 lugares. 

Regina não precisa de holofotes, toda a atenção é dela e ela maneja o público com facilidade. Tanto nas cenas de platéia como nas do (imenso) palco, a atriz consegue unir a todos em torno de suas piadas e supostas confissões. Aconselha o público a ficar atento a determinados autores da literatura e o público como crianças na escola, a obedecem. Regina é uma mulher do entretenimento e seu solo está mais para um stand up do que para uma peça de teatro com uma dramaturgia que costure começo meio e fim de forma competente.

O argumento da peça mistura realidade e ficção e esse talvez seja um problema na dramaturgia escrita por Hermano Vianna e Regina. O fato da atriz falar na primeira pessoa, pressupõe que se trata de um depoimento pessoal. Porém, é nítido os arranjos que foram sendo feitos para que o público fosse sendo fisgado com piadas, comentários clichês e um auto deboche bem vindo, que funciona, legitimando o “drama” da atriz. Explico: a atriz foi convidada para dar uma palestra em Harvard sobre literatura brasileira, tudo por causa da popularidade conquistada no filme “Que horas ela volta?“, o dilema é seu medo de ficar retida na imigração, os problemas com o racismo americano e as peripécias de uma latina na terra do Tio Sam.

Convenhamos Regina não é qualquer latina. Seus problemas são típico da classe média alta e o dos ricos mesmos, e as piadas funcionam para quem já teve esse “medinho”. Se você é daqueles brasileiros que nunca pegou um avião e não entende nada de inglês, muita piadas não serão para você. Restará então você poder rir quando a atriz fazer piadas com seu próprio corpo e de seus familiares e/ou descendentes. Rir de questões como a cor da pele e biótipo físico, pode ser incorreto, mas ao se colocar na linha de frente do preconceito, é como se atriz parecesse “gente como a gente”. É arriscado esse lugar de espelhamento, mas é onde a atriz melhor navega. Afinal a depender de onde tiver, ela pode ser negra, branca, índia ou nordestina.

Regina não está no extinto programa de humor “TV Pirata” e nem em uma das apresentações do grupo teatral “Asdrúbal trouxe o trombone“, onde as piadas dúbias, provocativas e amorais surtiam efeitos sem o menor ruído, além de serem necessários para o marasmo e a alienação coletiva. Por mais que haja uma problematização de algumas questões, à depender do público que esteja na platéia, algumas piadas podem não funcionar. Ou a atriz vai ser considerada como “a famosa atriz da tv” e o riso e o público que puder pagar tá garantido, ou sua capacidade de se reinventar e entender sua platéia precisará ser revista. O dilema é nítido e claro, a começar pelo autores que a atriz escolheu para expor ao público.

Caso Regina consiga chegar a Harvard, precisa fazer uma palestra de 10 minutos, parecida com aquelas da plataforma TED. Então entre ela falar dela e dos problemas dela, existe a leitura dos autores: Mario de Andrade, Paulo Leminski, Dalton Trevisan, Clarice Lispector e Guimarães Rosa. O primeiro foi incluído em função da estreia da peça em Salvador. O autor narra a impressão que teve ao avistar a baia de todos os santos, impressão essa que a atriz pega emprestada para sim pois seria similar ao encantamento que a mesma sentiu. Leminski e Trevisan entraram na cota em função da peça estar sendo apresentada em Curitiba e os mesmos serem consagrados autores locais. O Recital da Onça é “vendido” como um recital de poesia. O que é questionável já que o espaço dedicado a literatura numa peça de 120 minutos, deve beira a 1/3 desse tempo.

Nada supera os momentos em que a atriz abandona suas piadas e sua persona cômica, para assumir os personagens dos autores Clarice e Guimarães. A delicadeza ganha dimensão impar quando ela narra a história de Aninha, uma das empregadas do universo de Clarice. E as ações teatrais finalmente aparece – dirão alguns – quando a atriz mergulha no conto “Meu tio Iauaretê”, de Rosa. Eis ai o creme de la creme da montagem.

A alquimia da famosa artista ganha dimensões poéticas. Regina deglute Guimarães e o populariza de uma forma inquestionável. É lindo e potente, teatral e sem o menor artificio além da capacidade de “leitura” da atriz. É nesse momento que o público tem acesso ao talento da atriz. Que esquecemos a apresentadora, a comediante, a mãe do Rock e da Benedita. Que nem nos importamos quem ganhou ao sambar em seu palco. Na boca de cena, de cara limpa e pés no chão, vemos o que de melhor ela pode oferecer pras artes cênicas: seu poder de retórica, de compreensão do texto, de verossimilhança com que narra.

Há uma diferença de clima que se modifica a longo do espetáculo. É como se ele fosse ganhando camadas mais densas, mesmo que isso não signifique chafurdar no drama. A direção de Estevão Ciavatta e Hamilton Vaz Pereira, talvez tenha sido pessoal demais, o que impediu que a atriz fosse desafiada. Perdem todos. Nós como público que temos acesso a outra Regina Casé e ela que alicerçada pelos seus não avança para além do território conhecido.

Tanto tempo de espera podem frustrar os mais exigentes, ou um fã mais atento que vai buscar no teatro justamente o que ela não pode fazer na TV, atenha-se,  isso ela só vai oferecer nos minutos finais da peça, não tem como não lamentar.

Rodolfo Lima

 

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Manifesto Transpofágico

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A voz de Renata Carvalho ecoou de forma irreversível no cenário teatral paulista – e consequentemente no território nacional – a partir da projeção que o trabalho “O Evangelho Segundo Jesus – Rainha do Céu” lhe trouxe, atrelado, claro ao surgimento do MONART (Manifesto Nacional de Artistas Trans) em 2017, carta/plataforma/denúncia sobre o preconceito, o Trans fake (a apropriação de artistas cisgêneros sobre a história e vivência de corpo trans) e a falta de trabalho que artistas trans e travestis viveram e vivem, e que tem na atriz sua maior projeção.

Quem a conhece pessoalmente, ou já teve oportunidade de vê-la falar ao vivo, sabe que as questões e informações que perfaz seu novo trabalho Manifesto Transpofágico não é nova. Inquieta, Renata imbuiu uma batalha para resgatar a história, os caminhos que a levaram até aqui, e os percalços enfrentados por outras artistas trans. Ao se deparar e se apropriar dessas informações, o que a atriz faz é escancarar ao público presente, evidências de muitas histórias que a história “oficial” – não que elas tenha uma – apagou (como Andrea de Mayo – 1950/2000) e exaltou (Roberta Close). Entre o céu e o inferno da visibilidade de um corpo travesti, Renata desnuda o peito.

Com dramaturgia da própria atriz e direção de Luiz Fernando Marques – a encenação de 50 minutos abre margem para diversas questões no universo travesti, mas a ruptura abrupta da narrativa, quando o público se encontra absorto na melodia da voz de Renata é grosseira, e revela que faltou muito a dizer. A história que Renata pretendeu contar ficou incompleta. Ela abre discussões a cerca do assunto da travestilidade, mas não completa o raciocínio. Talvez porque o tema ainda é uma ferida aberta, para ela e para os que se propõem a convivem com o tema. A opção da direção de “jogar” para o público a decisão sobre o corpo da travesti é um recurso cênico rotineiro no currículo do diretor, que soa desleal, porque não é levada ao pé da letra tal opção. Lubi (como é conhecido o diretor) constrangia seu público no inicio de “Desmesura” para resultar num efeito frouxo e que desrespeitava a escolha do público. Assim o é em Manifesto Transpofágico, a direção atiça o público, a atriz diz que não é agradável deixar nos escolher sobre suas próximas ações e o que se vê para encerrar a encenação fica aquém do esperado.

Parece que a atriz se acovarda diante de certa radicalidade na sua história nos palcos paulistanos, mas seria leviano apontar isso, já que em seu solo “Dentro de mim mora outra” que infelizmente a atriz não apresenta mais, havia uma voz de denúncia muito mais potente e sensível e mesmo que a atriz não fosse forçada a literalmente baixar as calcinhas, sua história comovia e desnudava o preconceito que sofreu e que outras mulheres transvestigeneres sofre. Assim como em o “Manifesto…” a atriz abordava a relação com a família, com seu trabalho voluntário, o teatro e claro, outras artistas trans. O primeiro solo é diferente do segundo, e se agora atriz parece ter educado seu discurso e enquadrado dentro de uma forma, é nas histórias contadas no solo passado que Renata avançou em cena. Não tem como eu escrever sobre Manifesto Antropofágico, sem citar o que para mim é o verdadeiro trabalho que a expõe ao público. No catálogo do evento, a atriz revela ter deixado de fazer o solo porque o acha narcisista. Talvez lidar com a realidade que resolveu expor outrora, ainda lhe doa demais.

Renata Carvalho é conhecida pela sua personalidade arisca e inflamada ao defender e revelar suas ideias e ideais. Porém surge num tom abaixo do normal – parecido com o “professoral” que apresentou em “Domínio Público”, por exemplo – sugerindo um apaziguamento entre ela e os corpos cisgêneros. Talvez por esse clima estabelecido onde a ouvimos, sem que ela se imponha ao público, seja a maior perda da cena orquestrada por Lubi. O inicio da encenação com o diretor em evidência é outra opção duvidosa, que nem todos “compram”. Afinal, não é necessário que o diretor aponte que o trabalho é dirigido por um corpo cisgênero. Essa é mais uma forma de gerar uma discussão infrutífera sobre quem pode dirigir o quê. Quem escolheu o diretor do novo trabalho de Renata foi seu coração, como ela mesmo diz, e obviamente, as possibilidades estéticas que o artista poderia oferecer. Fim.

Independente do começo e do fim questionável e da ausência de uma atriz vulnerável artisticamente em cena, o corpo da atriz parece outro. Existe nela uma limpeza de gestos que não esconde certo nervosismo ao se ater a uma forma, que demonstra a escolha da direção para que nos concentremos na narrativa. Obviamente que o corpo desnudo da atriz é motivo de curiosidade e atração. Se uma das denúncias da montagem é a objetificação do corpo travesti, a opção de podermos tocar no corpo de Renata é a exaltação dessa objetificação. Ela perde sua identidade quando vira um receptáculo de silicone oferecida para o público. É redundante.

A encenação acerta ao colocar a atriz dentro de um espaço como as que se utilizam as profissionais de um peep show. A intertextualidade de informações de imagens, conteúdo e o corpo da atriz, é potente e arremata o público. É bonito ao mesmo tempo que é triste. É imprescindível certa mitificação. Ao expor os trabalhos das bombadeiras – como eram chamadas as travestis que aplicavam silicone em outras pessoas – relembrar Rogéria e Telma Lipp, o que a dramaturgia faz é uma tentativa de documentar em cena as manifestações trans na cultura nacional. Esse talvez o maior imbróglio da montagem, parece documental, mas não o é. Parte da opção de um testemunho, mas vai perdendo esse tom intimo e pessoal. É pós dramático, mas se apoia numa narrativa quadrada elaborada para provocar. Como biodrama fica aquém, com a atriz resguardada de se revelar mais.

Parto do principio que para um artista, conseguir captar o que provoca seu público é algo inapreensível. Se “Rainha Jesus” criou um mito em torno da atriz, seu “Manifesto…” reforça esse lugar, sem que a conhecemos mais a fundo. É como se envernizada pela retórica Renata optasse por nos devolver a máscara social em que colaram no rosto dela, sem que ela a quisesse. Mesmo que não haja espaço para o humor e o auto deboche, ou mesmo certa radicalidade consigo mesmo, a atriz avança em sua trajetória com um histórico de apresentações e convites para se pronunciar, que cresce a cada dia.

Seu verdadeiro manifesto é esse, ser uma porta voz de um universo incompreensível para muitas mentes. Se a palavra travesti e um corpo travesti são sinônimo de fobias, dentro e fora da cena, Renata se permitiu “sambar” mais um pouco e se apropriar desse espaço que se abriu para ela, sem precedentes na história teatral para uma… atriz transgênera, e/ou travesti.

O que nos resta é acompanhar, aprender e quiça reciclar o conhecimento. Interessante será o dia que a atriz deixar o discurso de lado e simplesmente ser, na frente do seu público. Quando ela retirar de si mesma essa carga de obrigatoriedade que a assombra. É uma faca de dois gumes. Suas horas extras nessa terra – já que a atriz está à alguns anos acima da média de vida de uma travesti – é validada dia a dia. Talvez esse seja o maior legado que a atriz oferta ao seu público, não deixar de agarrar as oportunidades. Não há como ignorá-la, apenas respeitá-la. Quer maior recado em cena do que esse?

Rodolfo Lima

A peça fez parte da programação da 6° Mostra Internacional de Teatro de São Paulo – MITsp

MDLSX

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As questões de gênero estão sendo abordadas com muita frequência nas artes cênicas. Homossexuais, travestis e transexuais são esmiuçados na tentativa de apreender essas singularidades e propiciar ao público uma possibilidade de empatia com todos esses que não se encontram na caixinha da heteronormatividade. O que é muito difícil de encontrar nos trabalhos é a possibilidade de ser olhar poeticamente para a questão, sem que o discurso inflamado, panfletário e mesmo as lamúrias pessoais, tomem o protagonismo da cena. É entendível que tais artistas aproveitem a oportunidade para -por vezes – literalmente gritar suas questões. O que o solo – intitulada MDLSX – protagonizado por Silvia Calderoni propõe é um convite a passear por suas inquietações e singularidades e assim nos oferecer um raro momento de afeto, por ela, por suas questões, pela sua arte.

Silvia não está só. Integrante da Companhia Motus, fundada na Itália em 1991, o solo é dirigido por Enrico Casagrande e Daniela Nicolò e faz parte do “projeto 2011>2068 Animale Politico”, que segundo o catálogo da Mostra “busca refletir sobre as incertezas do futuro próximo”. A androginia é uma das questões.

Para além da questão da obviedade do feminino e do masculino e mesmo que a performer trabalhe com signos bem marcados desses gêneros – como um sutiã, um samba canção, por exemplo – o que se vê é uma tentativa de fuga desses lugares, mas sem adotar um discurso lamurioso ou agressivo. Mesmo que possamos supor suas dores, elas nos convida – na maioria da vezes – a ver a questão de forma leve. É como se ao buscar um humor sutil, nos encaminhasse por um lugar onde se pudesse debochar de tudo aquilo que nos (a) oprime. É uma maturidade que muitos demoram a ter e que Silvia explicita de forma despretensiosa e com muita potência.

O tom é pessoal e intimista, mas nem tudo pertence a história real de Silvia. A obra cênica se baseou no livro Middlesex, de Jeffrey Eugenides, que ganhou o prêmio Pulitzer em 2003, onde o protagonista, na casa dos quarenta anos, chamado Calíope/Cal narra suas agruras ao ser criado como uma garota e mais tarde ter assumido uma identidade masculina. O que o companhia Motus fez foi mesclar a obra literária e a vida de Silvia. É uma feliz aproximação entre realidade e ficção. Eugenides é autor da inesquecível história das cinco irmãs que se suicidam (As virgens Suicidas) , material de seu primeiro livro. E que foi levado para as telas do cinema em 1999 por Sofia Coppola.

De costas, Silvia pode ser qualquer pessoa. Uma projeção revela seu rosto, seu corpo e sua textura. De costas e com os cabelos no rosto, Silvia revela aos poucos sua “monstruosidade”. Sua dança e as luzes que por vezes parecem vazar de seu corpo nos convida a entender que o não binarismo – indivíduos que não se fixam definitivamente nos gêneros feminino e masculino – é uma possibilidade poética de viver, que apesar da dor, pode ofertar uma dualidade inquietante, provocante e estimuladora. MDLSX portanto é uma oportunidade de presenciar esse deslocamento de forma produtiva. Eis o que mais me chamou a atenção, a possibilidade de rir de si mesma e de tabela cativar o outro. Não há como resistir a Silvia e suas epifanias.

Aos friccionar tudo o que nos ensinaram a saber sobre os gêneros, com suas músicas, suas memórias e suas sensações, o que Silvia atiça é uma curiosidade sadia sobre sua vivência e essa possibilidade ambígua de viver. Há dores e sentimentalismo mas isso se pulveriza na potente encenação que além de costurar a vida da performer, ao livro de Eugenides, inclui na encenação citações de estudiosos de gênero como Paul B. Preciado e Judith Butler.  Na cena, a iluminação e os elementos cênicos, parecem compor o quarto da artista e nós como vouyer ficamos a observar sua existência. A proposta talvez seja uma pista de dança, já que Silvia também é DJ e a peça é estruturada pelas músicas. De qualquer forma nunca uma pista de dança pareceu tão pessoal. Quando ela nos encara é como se nascesse de novo e se perpetuasse diante de nós, como um ser mítico, real, fantasioso. Essa possibilidade de leitura a torna irresistível.

Tais momentos não encobre outros bem pungentes em que ela acusa a platéia de serem os verdadeiros algozes de pessoas que não são compostas com marcadores de gênero tão explícitos.  A cantora Valéria Barcellos (ou Valéria Houston) diz a mesma coisa com outras palavras: “a culpa é de vocês mesmos que ficam questionando o gênero e a sexualidade das pessoas. Se vocês entendessem que uma mulher trans é uma mulher é que um homem trans é um homem, não precisaria de tantas siglas“. MDLSX embaralha portanto essas definições e mesmo que o público saia do teatro sem saber ao certo definir o que e quem viu, a experiência e intraduzível.

A cena em que Silvia (ou sua personagem, como deve ser o correto citar) revela o descobrimento do seu sexo e as possibilidades dele é de uma beleza impar. A dramaturgia da artista em parceria com Daniela conseguiu unir de forma poderosa e inquietante: informação, poesia e metáfora.  A necessidade de procurar essa passagem no livro é inevitável. Silvia se liberta em cena de suas amarras, e mesmo que não consiga ser tornar o homem que desejou a sensação que temos é que ela é livre e vitoriosa. A música do Smashing Pumpkins (Galapagos) é uma das músicas presente na playlist da artista que nos atinge em cheio: “não vou negar a dor, não vou negar a mudança. E devo cair em desgraça aqui com você. Você vai me deixar também?

No termino da apresentação o público deixa a sala, mas a sensação é a de que nos tornamos cúmplice de Silvia. Carregamos ela para fora da cena, dentro de nós.  É como se ela continuasse dançando e nos provocando de forma sensível e irreversível. E não, não seriamos capazes de abandoná-la.

Rodolfo Lima

Obs: As apresentações da peça compôs a programação da 6° Mostra Internacional de Teatro de São Paulo – MITsp

Partir com beleza

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No segundo dia de aula da oficina “Modos criativos de escrever sobre teatro”, ministrado pelo crítico britânico Mark Fischer, a questão sobre o embate da forma e do conteúdo ao analisar uma obra teatral veio a tona para enfatizar que por vezes o tema abordado ganha mais projeção em cena do que o teatro feito a partir da questão. Partir com beleza, do ator marroquino Mohamed El Khatib parece ser um bom exemplo para se questionar o teatro feito a partir de um tema universal: a morte da mãe.

Tudo é muito simples no espaço na Casa do Povo, local escolhido para a apresentação do trabalho.O público adentra o espaço que conta apenas com uma TV e poucos objetos pessoais do ator, como um livro, um celular, a caderneta da mãe e cadeiras para o público sentar.

Mohamed fala de forma direta e sem máscaras com a platéia e vai expondo os percalços enfrentados para o enterro da mãe, os hábitos locais,detalhes da mãe. Tudo com um toque levemente engraçado, como se isso pudesse relativiza o peso da ausência materna. O público reage emocionado – o assunto por si só já contém uma boa carga dramática – mas cenicamente falando o que o ator oferece é pouco inovador, ou que já não esteve disponível ao público em peças como “Mamãe” de Alamo Facó, ou mesmo num dos solos que compõe a montagem de “Ficção”, da Cia. Hiato – por exemplo. O que eu quero dizer é que por mais que seja honesto o depoimento do ator, esteticamente falando é simples. A beleza mora no simples, dirão alguns. Mas ao pensar no teatro certa ousadia e bem vinda. O poder catártico que ela poderia ofertar, se houve um dia, já está sob controle, já que a peça estreou na França em 2014.

Se o estar em cena é uma possibilidade de exorcizar fantasmas, Partir com beleza pode ser a forma como o ator encontrou para enfrentar seu luto.  O diferencial é que o ator apresenta um ou outro elemento que tem força pela suposta veracidade dos fatos, no caso a música que a orquestra executava no velório da mãe. E a fuga de uma abordagem sofrida ao lidar com os fatos.  Tudo soa pessoal e intimista para que assim o público se aproxime do ator e se coloque – inevitavelmente – no lugar dele.O te-a-tro propriamente dito fica em segundo plano, já que o importante é o peso da situação.

A pergunta que ficou no final é: a morte da mãe é uma temática universal. Só sua abordagem basta para que o teatro aconteça?

Rodolfo Lima

Obs: a peça faz parte da programação da MITsp – 6° Mostra Internacional de Teatro de São Paulo,é faz nessa quinta (21/03/19) duas últimas apresentações, as 20h e  22h.

+ informações: https://mitsp.org/2019/

Peça de Casamento

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Talvez o mais difícil numa relação a dois, seja deixar de lado tudo o que nos ensinaram para preencher uma vida a dois a contento. A renúncia é um dos itens – totalmente questionável no mundo contemporâneo. Um casal feliz com uma relação duradora virou um mito e talvez por isso nos “derretemos” todo diante de uma história consistente com anos acumulados. As reverberações culturais de educação sexual e amorosa nos é cara até hoje. E enquanto não se mudar os exemplos/modelos, as expectativas serão as mesmas, ou seja, sempre estaremos a mercê da utopia da pessoa perfeita, que nasceu para nós e que independente dos seus impulsos permanecerá ao nosso lado, independente de.

Em cena, o marido entra e dispara:  – estou te deixando! Está em jogo na cena, 30 anos. E com esse histórico um mundo pesando sobre a cabeça de ambos. Seja naquele que quer separar, seja naquele que quer lutar para sobreviver. O autor americano Edward Albee (12/03/1928 –  16/09/2016) tem nas relações matrimoniais uma obsessão. Como se pudesse através da metáfora da cama do casal revelar que as frustrações, os desejos reprimidos e a necessidade de liberdade é inescapável. Em vez de fazer do seu texto uma guerra de argumentos no melhor estilo “guerra dos sexos”, Albee coloca seus personagens para zombarem de si mesmos, numa jogo (espelhado) onde aos poucos vai se perdendo a referência de quem disse o que e quando, e portanto quem ostenta “a” verdade.

Cabe nesse duelo de subjetividades de tudo um pouco, mas é na ironia que o autor faz suas personagens se debruçarem. O sarcasmo é tanto que falta afeto. A ausência de material que faça o público torcer para o casal é sentida e acaba contaminando a descrença coletiva. É mais fácil rir deles, do que se compadecer deles. Em outras palavras: é mais fácil rir dos outros, do que nos reconhecer nos outros.

A direção de Guilherme Weber é questionável pois ao retirar essa ambiguidade do casal, chapa a interpretação deles para o espectador. É quase como se a peça não oferecesse surpresas. Eliane Giardini se sai melhor pois soa mais natural e nos cativa, mesmo que  sua composição não ofereça grandes nuances emocionais. Sua presença nos remete diretamente as suas últimas personagens nas novelas globais e não deixa de ser uma pena a atriz “não dá mais em cena” . Diria que parece fácil para Eliane. Faltou burlar com os riscos.

Antonio Gonzalez fica com a responsabilidade de interpretar o marido. Personagem esse que oferece a famigerada agressividade como a primeira arma a se utilizar. Falta sentimento em ambos personagens, mas é com o marido que sobra uma certa despretensão. Isso é do masculino? O tom filosofal de seus argumentos soa empostado na D.R (discussão de relacionamento) que parece infinita, mas dura 60 minutos. A nudez permanece sendo um calcanhar de aquiles para o público, e nesse sentido a provocação é boa.  Mas pra que a nudez em cena, se não vemos o mesmo no personagem? Parece um refúgio. Caso não conste no original, desnecessário.

O cenário minimalista e afetado de Daniela Thomas e Camila Schmidt funciona, pois faz com que o publico se concentre no diálogo e nas trocas de farpas sem esquecer que tudo não passa de aparências. Aparência essa deturpada pela reprodução nos espelhos. Portanto nada é verdade embora queiram nos fazer acredita que é. O recurso da estética do Camp é funcional ao estilizar as relações, como se os mesmos fossem um pastiche da realidade. Na fantasia de que aquele casal não exista num plano fora da realidade, o público se esquece ou se cala diante da dura realidade de que tudo é encenação, até os mais profundos sonhos de um casamento arrebatador e do “insubstituível”: e foram felizes para sempre.

Escrita em 1987, essa é a segunda montagem do texto, a primeira ficou sob a direção de Pedro Brício em 2012 no Rio de Janeiro, que trazia a atriz Guida Vianna no papel que hoje é defendido por Eliane. O livro que a personagem feminina alega escrever com as performances e reminiscências do marido na cama e ao redor dela é um elemento pop e crível que dialoga com a necessidade da atualidade de registrar tudo. Foram 3.000 trepadas em 30 anos, argumenta ela. E ao revelar seus escritos, o ato não deixa de ser uma forma de tentar resgatar um pouco da efemeridade que existe nas relações. A tentativa inútil que o casal empreende em busca do brilho de encantamento que se apagou é o mais triste e pungente que a peça pode oferecer. É tão real e doído que não há como sair rindo do teatro.

Bingo!

Rodolfo Lima

Obs: a peça fica em cartaz até 17 de março de 2019, no Sesc Santana, de sexta e sábado às 21h e domingo às 18h.

Dogville

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Em tempos de polarização, uma peça com a temática de Dogville soa pertinente e atual. De forma didática o texto de Lars Von Trier, que veio a público em 2003 com o lançamento do filme de nome homônimo, disseca uma sociedade frágil, que se empondera diante do fracasso alheio. Não é uma peça digerível e nem agradável. A temática é incômoda e a encenação que ultrapassa duas horas, do meio por fim “pesa”. Seja pela sisudez com que é tratado o tema. Seja pelo ritmo (questionável) estabelecido na encenação pela direção de Zé Henrique de Paula.

Grace (Mel Lisboa) chega como uma foragida na cidade chamada Dogville. Acolhida pelos moradores e para que não gere suspeitas sobre sua origem e os motivos de permanecer ali, presta pequenos serviços aos outros, como forma de “paga” e/ou de cativar e calar suas curiosidades. O recado é simples e claro…se “vem a nós e ao vosso reino” bem. Enquanto o outro é útil para nós, está tudo ok. Começou a dar problemas… o fácil é “nos afastar de todo mal“. Ou seja, o ser humano é utilitário, primeira constatação.

A permanência de Grace vai azedar e os homens do local vão se manifestar usando do corpo da mulher como repositório de suas taras e neuras. É como se o ser humano fosse um objeto que nós serve apenas para que aliviemos nossas tensões ou nós seja útil. Numa época onde os crimes cometido contra a mulher tem números alarmantes, a cena dos abusos, poderia causar uma revoltar, mas não. As escolhas da direção para ilustrar o momento é monótono. Não sabemos se para diminuir o peso da situação, ou se foi um deslize da direção, que poderia potencializar e horrorizar o público e o que faz é pasteurizar a situação, tirando dela toda a sua possível teatralidade. O público assisti impávido – ou cansado – a explanação disso. “Antes ela do que eu“, é a lei do cão da nossa sociedade. Segunda constatação, somos objetificados diariamente e está tudo bem. Identificamos e aceitamos.

O texto de Trier é potente por revelar uma sociedade sem a menor empatia com o próximo. Uma sociedade doente, convenhamos. A produção em cartaz Teatro Porto Seguro é luxuosa e embora a direção de Zé Henrique organize os personagens e ações de forma eficiente em cena, a tensão que ocorre nos minutos finais do filme, não está impressa na versão teatral. É curioso percebe que se o diretor dinamarquês “bebeu” do teatro, a versão teatral se apoia no audiovisual para potencializar a encenação. E justiça seja feita, o trabalho feito por Laerte Késsimos (Direção Audiovisual) é atraente e funcional, elevando o nível da encenação. Vide a primeira cena em que os policiais aparecem colocando cartazes de Grace pela cidade.

Outro recurso audiovisual que funciona com muita propriedade é a utilização de câmeras que filmam full time os atores e os distorcem para que vejamos o ser humano de forma desfocada. Uma imagem que ganha metáforas poderosas pois é como se ilustrasse as máscaras/camadas sociais que trazemos impresso no corpo. É bonito e triste esse recurso. O que não deixa de ser curioso e o fato de que, assim como a película atraiu as pessoas pelo seu tom teatral, a encenação atrai pelo diálogo com o cinema.

Os figurinos de João Pimenta em tons sóbrios e sombrios, ajudam a dar um ar moribundo aos personagens de Dogville. Não são personagens da cracolândia – uma referência aos moradores vizinhos ao teatro – mas sem pensarmos na aparência dos personagens, uma aproximação é possível. É a ausência de cores vivas e vibrantes que uma das causadoras do clima de tensão da peça. Dogville se passa nos anos 30, e é como se nós, com o atual sistema politico e suas mentalidades retrogradas tivessem regredidos a uma década atrás.

Mesmo que o elenco tenha de forma geral um desempenho satisfatório, vale ressaltar que a protagonista interpretada por Mel Lisboa é composta sem novidades; Eric Lenate imprime uma voz forçosamente teatral e que destoa dos demais; Thalles Cabral é de novo escalado para o papel do garoto problemático e é refém de maneirismos comum ao interprete desses personagens e Fabio Assunção a “estrela” da encenação, não tem o protagonismo esperado, o papel masculino de maior destaque ficou a cargo de Rodrigo Caetano, que acerta o tom e cria empatia com o público.

A rejeição que supostamente Grace oferta a Chuck (Fabio Assunção) não é posta em cena de forma clara, bem como a virada que a protagonista dá, passando de mocinha a vilã em segundos. Nesses dois quesitos o filme é mais eficiente. Embora a peça tenha seu charme, mesmo não sendo arrebatadora, é curioso acompanhar as escolhas artísticas. É como se filme e teatro pudessem se complementar.

O problema que permanece em ambos? Talvez continuar torcendo por Grace.

Rodolfo Lima

Obs: a peça fica em cartaz no Teatro Porto Seguro (  http://www.teatroportoseguro.com.br ) até 31 de março, sexta e sábado as 21h e domingo as 19h

A Ponte

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A finitude da mãe, consequentemente sua morte e o que resta aos vivos foi tema de diversas encenação. Desde a abordagem cômica do texto de Miguel Falabella (A Partilha), ao drama (A Memória da Água) escrito por Shelagh Stephenson, são vários os exemplos onde a doença e a morte da mãe impulsiona o clímax da peça. É nesse lugar hibrido de dor e mistério que a morte oferta, que se encontram as irmãs Thereza (Bel Kowarick), Agnes (Debora Lamm) e Louise (Maria Flor).

No texto escrito pelo canadense Daniel Maclvor, responsável pelos inesquecíveis “In on It” e “A Primeira Vista“, a poesia e o cotidiano são potentes elementos de construção da tragédia pessoal do indivíduo. Na montagem dirigida por Adriano Guimarães o drama das irmãs ganha uma encenação formal e estilizada, que por mais que negasse o trabalho de composição de personagens em prol da encenação, é justamente no corpo e na subjetividade das irmãs que o melhor da montagem reside.

Thereza é freira e tem um temperamento sóbrio, Louise soa alienada com seu vício em séries – uma visão bem óbvia do alienamento humano – e por vezes infantilizada na interpretação de Maria Flor, cabe a Debora Lamm transitar entre os extremos indo do clichê da irmã histérica e grosseira a uma mulher machucada pelo fracasso da vida e das ações do passado. Mesmo que pareçam desencontradas em cena, a dramaturgia favorece o bom embate, ofertando momentos engraçados e tocantes. A tradução de Bárbara Duvivier aproximou o texto de Maclvor da realidade brasileira com um linguajar direto e funcional. O trabalho de Debora – a atriz cômica do trio – ganha força quando o drama de sua personagem é maior do que tudo ao seu redor. A revelação do porquê de sua mágoa é a mola propulsora da peça. Seu drama é tão emblemático que as irmãs se tornam coadjuvantes.

Com um cenário cheio de itens vermelhos, a encenação não oferece leituras abstratas para a peça e o que parece esteticamente interessante e bonito num primeiro momento, perde força e sobra do meio para o fim. Se tornando chapado, mais do mesmo e sem servir para alimentar ou impulsionar o desenrolar da trama.

A famigerada ponte e o que dela vem de simbolismos fica aquém no resultado final. Em vez de teatralizar a situação, somos informados através de uma legenda do que ocorre. E se os bilhetes deixados pela mãe tem força poética, uma melhor utilização na cena faz falta. Para “piorar” a mesa usada em cena no palco do CCBB SP em função da platéia abaixo do palco, parece mais um obstáculo do que um item útil do cenário.

Temas recorrentes a escrita do dramaturgo como emoções difusas, renúncia e a perspectiva do outro voltam a tona e cativa o público. Em A ponte, o perdão ganha destaque, mas não é problematizado a contento. Parece haver duas peças, uma antes da morte e outra depois da morte da mãe. Como se a morte abrisse a possibilidade de renascimento, de reconstrução. Mesmo que Agnes ganhe realces ácidos e debochado e com ela que o público se identifica e fica. De certa forma a dramaturgia se retroalimenta do drama principal da peça,  pois o protagonismo da mãe muda de rosto, bem como as reverberações da atitude dessa mãe no dia a dia da filha.

Se tanto em In on It como em A Primeira Vista viver o momento presente é mais importante do que camuflar toda uma expectativa, em A Ponte essa necessidade está atrelada a mágoa e ao rancor. Qual a função do perdão? As filhas ao rever a mãe após sua morte constroem imagens poderosas e tocantes sobre uma mulher que renúncia muita coisa para sobreviver apesar de. E assim são Thereza e Agnes. E assim são algumas mulheres da platéia. Assim somos todos nós.

O espelhamento serve para causar empatia e fisgar o público, mesmo que diante de tantos sentimentos delicados a peça não surpreenda o público, nem na encenação e nem no desfecho final. Se Debora tem bons momentos em cena, imprimindo verossimilhança e complexidade, e a personagem de Bel sirva como uma personagem para atar as pontas, tudo soa frágil, mesmo que a dramaturgia de Daniel permaneça nos ofertando momentos de reflexão filosóficas e críticas pontuais aos estereótipos de gênero, o resultado final não alcança o arrebatamento costumas das peças do autor.

Rodolfo Lima