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Se meu apartamento falasse…

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Existem peças que são produzidas com números ostentosos, porém não funcionam na prática. No boca a boca a nova direção da Charles Möeller & Claudio Botelho, estreou no Rio de Janeiro no final do ano passado e de cara deixou muita gente desgostosa. Em São Paulo aparentemente não foi diferente, fui conferir o que havia acontecido com os “papas” do teatro musical no Brasil. Apesar da casa relativamente ocupada numa quinta feira, os aplausos no final foram mornos e poucas risadas se ouve. Observação: a peça é uma comédia.

A trama é simples, e nem por isso desinteressante. Chuck (Marcelo Medici) é um funcionário mediano, que leva sua pacata vida de casa para o escritório e sonha em uma promoção no trabalho e com uma das funcionárias do restaurante onde almoça,  Fran (Malu Rodrigues). Mas na sede da companhia de seguros, a maioria dos homens supostamente tem uma amante, e um deles, tem a “brilhante” ideia de pedir emprestado a chave do apartamento de Chuck, que mora a 50 metros do escritório. Chuck que é meio um bobão sentimentaloide, aceita. A noticia se espalha e rapidamente outros funcionários também usam a casa do colega de motel. Em troca, eles elogiam Chuck ao chefe, que fica sonhando com a tal promoção. Os números musicais com os quatro amigos, além das letras desinteressantes, soa non sense. Não havia motel em Nova York em 1960?

É uma comédia de costumes, e muitas deles se baseia na ingenuidade dos personagens e na forma pueril, lúdica e engraçada que os acontecimentos se desenrolam. Mas em Se meu apartamento falasse… muitos momentos soam “forçados” e as letras das canções de Hal David, adaptadas por Claudio Botelho não tem a menor graça. Levando-se em consideração que Marcelo Medici não é um cantor de musicais… a coisa “piora” com o desenrolar da trama. A impressão que se tem, é que música mesmo, se ouve quando são as executadas por Fran:  I’ll Never fall in love again, uma belezura que não foi traduzida, mas mesmo assim comunica e I Say a little prayer for you, adaptada ao português sem perder o encanto que a canção oferta. Mesmo que a coreografia seja praticamente inexistente – não sei o que Alonso Barros, fez dessa vez, porque é a movimentação de forma geral é pobre – o momento é adorável, o melhor da peça.

Fran é amante de Sheldrake (Marcos Pasquim), o chefe da empresa. Assim como todas as outras mulheres, Fran é a típica mulher usada e apaixonada. E os homens garanhões dispostos a sanar o tesão alheio e só. Há um pouco de crítica no texto de Neil Simon, na boca de Fran, mas é pouco, bem pouco. Resultado, os machistas riem… os que tem um mínimo de noção, não. Fran também é o sonho de consumo de Chuck que longe de sonhar em usá-la, aparenta acalentar por ela sentimentos genuínos.

A peça é encabeçada por quatro atores conhecidos, Medici, Marcos Pasquim, Maria Clara Gueiros e Malu Rodrigues, embora seja Medici que conduza toda a trama. A peça de forma geral é apática e arrastada em vários momentos, seja cantados ou falados. Não pude conferir o trabalho de Maria Clara, pois no dia em que fui assistir, ela não fez. O texto de Marge (sua personagem) é direto, curto e engraçado. Chuck e Marge se encontram bêbados num bar é uma paquera atrapalhada com pitadas de ironia e sacanagem é uma delicia de escutar e destoa do todo. Digo isso, porque o trecho é melhor que a peça toda. Sem a famosa comediante, a cena fica descaracterizada, pois a stand in provavelmente imita a composição alheia, o que nem sempre resulta positivamente. O que para mim foi uma frustração, já que ansiava por esse momento, da cena com Maria. Nesse mesmo dia, Fran também não foi interpretada por Malu Rodrigues. Duas baixas no elenco, sem aviso prévio.

A crítica escrita por Dirceu Alves Jr. na Revista Veja ressalta sobre o trabalho de Medici: “Como é bonito ver um artista entregar ao público algo diferente do esperado. (…) Sem forçar a graça…“. Acho completamente o contrário. Medici está repetitivo, se apoiando em trejeitos antigos e cacoetes que ele sabe que funciona e reutiliza. Que ele é um ator talentoso, versátil, interessante e carismático, ninguém questiona. Mas em dado momento Medici parece fazer colsplay do ator Marco Nanini, e é impossível não lembra de “O mistério de Irma Vap“, que ambos interpretaram. Ou seja, vemos o ator forçando a barra para arrancar gargalhadas do público. Medici poderia ter composto seu personagem de forma mais singela e tocante, quem disse que ele tinha que ser um “trapalhão” em cena? Ou seja… quem acompanha a carreira do ator, não é convencido da composição do seu personagem, o que é uma pena.

O clima agridoce da montagem não é o problema, mesmo que o visual não atraia, as coreografias sejam simples e os números musicais não empolguem, tudo seria mais ou menos balizado se nos deparássemos com uma boa composição dos personagens, que ofertasse nuances, ousadias e sutilezas. Mas tudo é pueril e déjà vu.  É como se nos deparássemos com uma montagem que pretende alçar grandes voos mas não consegue se manter muito tempo no ar.

Rodolfo Lima

(Foto: Leo Aversa)

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Os iniciados

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Deixemos de lado os filmes pop gay do momento: “Me chame pelo seu nome” e “120 batimentos por minuto” e pensemos sobre “Os Iniciados”, filme do sul africano John Trengove, um dos 9 finalistas para o Oscar 2018, mas acabou de fora da seleção final. Um palpite: ele é bem similar a Moonlight, que arrebatou o prêmio de melhor filme, além das estatuetas de roteiro adaptado e ator coadjuvante no Oscar de 2017.

O vídeo que está circulando na internet referente ao XVIII Prêmio Arte na Escola Cidadã, na categoria Ensino Médio, que premiou os alunos da E.E. Maria do Carmo Viana dos Anjos (Macapá/AP), traz um dos alunos questionando: O que é ser sensível hoje?

Numa época onde as sexualidades e os conceitos de gêneros que marcavam sem variações o que se entende por feminino e masculino estão sendo implodidos e carecendo de novas definições, filme como Moonlight e Os iniciados são importantes pois deslocam nosso olhar, primeiramente da realidade branca e supostamente classista e mediana, para outras formas de abordar o sexo em corpos com outros marcadores sociais. Em ambos os filmes: a violência, a realidade de homens negros, a secura das relações e o estereotipo do macho em pleno conflito de ideias. Ambos ganharam força e relevância justamente numa abordagem diferenciada, para as questões da homossexualidade e suas consequências.

Os heterossexuais xiitas acham que ser homossexual é só dar “close”, dar a bunda, ouvir Pablo Vittar e ser promiscuo. Há muita coisa em jogo quando  sua sexualidade é deslocada do status quo e você tem que o tempo todo ficar mediano essa realidade. Como que a provar para si mesmo que você é capaz de vencer as intempéries, o preconceito e a violência cotidiana que não cansa de privá-lo dos sonhos e da liberdade.

Em Os iniciados não há homens livres. Reclusos entre montanhas para um ritual tradicional de iniciação e circuncisão de jovens sul africanos da etnia Xhosa – algo que ocorre até hoje – o filme orbita entre a realidade de três homens: Xolani (Nakhane Touré), Kwanda (Nisa Jay Ncoyini) e Vija (Bongile Montsai). O primeiro volta ao local do ritual para orientar o processo a que Kwanda – supostamente sensível demais – se submeterá, e rever Vija. Esses homens estarão atrelados um aos outros de forma que a atração e a repulsa disputam atenção, num lugar que só deveria ter espaço para o afeto. Mas esse sentimento, (ainda) não é bem vindo entre homens. Triste pensarmos que vivemos numa época em que a intolerância ficou acirrada, onde a intimidade entre familiares do mesmo sexo, também é visto com vilania.

O que as pessoas que tentam privar a sexualidade alheia não conseguem dimensionar é o quanto pode ser violento e tóxico essa repressão, principalmente se tais homens devem/precisam ou tem que, conviver por um tempo entre eles isolados das regras de boa conduta, reinventando as regras. A carne ainda é um norteador poderoso. Por vezes ignorada, mas sempre latente e pungente. Ignorá-la é uma burrice.

É justamente esse chamado dos corpos que fará com que a realidade do trio se choque causando o trágico final. Trengove oferece momentos belos e importantes do homem entre homens, no meio da aridez da falta de compreensão do que seria esse universo. Ainda coloca em questão conceitos de família, amizade, lealdade e amor.

Não é um filme fácil, assim como não foi Moonlight. Protagonistas negros, sexualidades fraturadas, o desejo de ser amado livremente e acertadamente. Se o ritual Ukwaluka é um tabu, o amor que dá certo entre homens também o é. Nos dois filmes citados no primeiro parágrafo, é justamente a impossibilidade de dar certo no fim, que faz com que se tornem grandes norteadores da sexualidade gay.

Não é mais possível para Xolani abafar seus ideais sobre o amor. Não é fácil para ele conviver com a espera e a ausência, de si e do outro. Esse “modelo” de gay representado por Xolani é um dos mais triste de todos, pois isso inclui muita renuncia, apagamento social e solidão. Tudo isso junto não é maior que a capacidade de amar e proteger que o protagonista carrega.

É um filme triste e duro. Seco e direto. Que em vez de explicar algo, quer que passemos pela experiência de vivenciar algo. Isso é importante pois não tem o apelo estetizante e romanceado do que é belo (Me chame pelo seu nome) e nem o as questões da militância e da maldição do sexo, com o surgimento do vírus do HIV (120 batimentos por minuto). Os iniciados nos remete ao mais primitivo de nós mesmos, que é a capacidade de sentir independente de. E de nossa capacidade de renunciar a quem somos e o que sentimos.

Não sabemos como definir o que é sensível hoje. Talvez seja nossa capacidade de resiliência diante/perante e pelo outro.

Rodolfo Lima

 

Cinemagia – A história das videolocadoras de São Paulo

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Costumo dizer a um amigo que qualquer pessoa pode fazer cinema, essa fala tem um quê crítico, pois não acredito que o ato em si salvaguarda o produto final de questionamentos, porém também consigo reconhecer quando esse ato é movido por paixão e sinceridade e nesse caso, acho que sim, mesmo passível de críticas, sou sugestivo a ver com um olhar generoso o produto final. Cinemagia – a história das videolocadoras de São Paulo é esse caso, onde se mistura uma história pessoal (a do diretor), minhas lembranças e o resultado final. Mais do que pensarmos se o resultado é suficiente para navegar sobre o assunto, a de se reconhecer o feito.

Alan Oliveira movido pela paixão por esse espaço conhecido outrora por locadora, sem apoio financeiro, se aliou a parceiros e resolveu registrar na raça a história desses estabelecimentos, que ironicamente, não existem mais. Ou seja, Alan registrou uma era, eternizando lugares, histórias e profissionais que não interessa ao mainstream cultural.

Não é inovador o formato com que Alan nos narra essas histórias. Cartesianamente vai mostrando espaços e fazedores – substitui aqui o nome do que seria o de proprietários – e suas histórias/vivências. Nesse vai e vem, sutilmente o documentário vai revelando nuances das emoções pessoais que orbitavam uma locadora e fazia com que esse estabelecimento comercial tivesse alma. Sugerir não é verticalizar a questão. E se há algo que falta no registro de quase duas horas, é justamente esse lado de sociabilização que a locadora tinha, como nenhum outro espaço.

Se numa biblioteca ou livraria o diálogo com o outro é algo opcional, na locadora era obrigatório. A exceção era justamente quem se isolava do convívio, como ex funcionário, posso garantir, não interagir numa locadora era o mesmo que não estar ali. Encarar esse estabelecimento como um poderoso lugar de interação cultural é o que falta. A humanização desse lugar supostamente frio e comercial – e sim, era – faz falta para os amantes do local. É o típico produto que merecia uma continuação. Primeiro – o que é o caso – se entende a história, a ascensão e o declínio e depois  – numa suposta sequencia, que não está programada, veja bem – se problematizaria esse espaço.

Passei por três dos espaços referenciados. Blockbuster  (1 ano), Premiere Vídeo (2 anos) e CineMagia (algumas semanas) – não vou levar em consideração o freela que fiz na 2001. Local dos mais curiosos, pois não abarcava somente fãs do cinema, mas pretensos entendedores, que muito jovem, se emponderavam de suas opiniões, para se diferenciar de outros. Era chique ser funcionário da 2001, mas da Blockbuster não. Na tela vi ex chefes e inimigos. Lembrei de diversas histórias e aprendi um pouco mais sobre esses lugares.

Para mim – é agora numa opinião bem pessoal mesmo – esses lugares me trouxeram exemplos de aceitação, civilidade, diversão, caretice, mau caratismo, competitividade e muita interação. Na Premiere, como indicador de filmes, pude experimentar e exercitar meu poder de argumentação, minha empatia pelas pessoas, e entender que o meu jeito de ser era um diferencial. Independente da minha voz, do meu cabelo, da minha vivência. Ali aprendi que eu era valorizado em detalhes ignorados fora daquele espaço. Era extremamente prazeroso ver os clientes esperando para ser atendido por mim. Buscando a minha opinião para servir de norte em suas escolhas. Numa época em que eu me achava deslocado do mundo e a procura de função. Foi ali que fui “pescado” para um programa de TV, que pude entender que sim, a minha opinião tinha força e conteúdo e que apesar da minha pouca bagagem cultural – sempre achei que foi pouca, embora as pessoas não vissem dessa forma – eu poderia sim ser um influenciador. Fui fazer jornalismo alguns anos depois e nunca mais deixei de resenhar sobre filmes. A Premiere foi desse lugares que você entra para trabalhar e sai retrabalhado por dentro.

Na Blockbuster pude entender como as relações  pessoais sobrevivem ao capitalismo. Como remamos com força contra essa mecanização que nos inviabiliza, em prol de algo que nos aqueça e nos dê força e coragem para continuar naquela rotina desgastante de uma locadora. Horas de pé, sempre sendo que ser gentil, que ter opinião, trabalhando de final de semana, aos feriados, passando vontades. Foi na Blockbuster que fui defendido pela primeira vez, em função da minha sexualidade. Vi ali, alguém me defender e lutar por mim, como ninguém havia feito. Vi o amor nascer ali, de uma forma delicada e potente, pois estava alicerçada em cumplicidade, afeto e empatia. Eu não era o outro, mas ele me entendia, precisava me proteger, os corpos orbitavam um terreno perigoso de atração, o que é sempre perigoso no mundo masculino. Mesmo que sem saber o porquê e aonde podia dar nos olhávamos e nos confortavam. Meu Deus, como foi importante viver isso. Tê-lo como um apoio, um refugio, um espelho onde eu me procurava. Como foi importante poder olhar para aquele cara  (não vou citar o nome para preservá-lo) e saber que por mais que eu visse ele de forma confusa  – um misto de pai/irmão/homem/amigo/protetor – me foi crucial encontrar com ele. Foi uma das experiências mais intensas que vivi com um colega de trabalho do sexo masculino.

Esse “arrasta quarteirão” que significou uma locadora na vida de pessoas como eu,  foi o que fez falta, para que entendêssemos sua função social, que hoje em dia, é impossível. Tive amigas irmãs nesses lugares, que a vida deu e levou embora. Tive a certeza de que eu podia ser eu mesmo. Teve desconhecidos que estenderam a mão para mim e me disseram sim, mesmo sem verbalizar isso, que independente da minha sexualidade e dos meus trejeitos, me entendia como um igual. Os clientes – com exceção dos toscos, mesmo – nunca me tornaram inferiores a eles. Encaravam a diferença de frente, respeitando o que não lhes cabia. Ali eu tive forças para começar a ser quem eu sou, sem precedentes.

Cinemagia (o documentário) é correto, embora me falte argumentos para supor se todas as informações apresentadas são coerente e relevantes para expor uma história tão cheia de possibilidades de leituras.

As pessoas brigavam para alugar uma fita de vídeo. Havia disputa, gritaria, provocação. Nós – os funcionários, como retrata alguns depoimentos – absorvíamos sem filtro a realidade do outro, como se fizéssemos parte da família deles. Integrados numa realidade pautada no ficcional, mas que dizia muito sobre nós mesmos. As pessoas se revelavam através de suas escolhas cinematográficas, de seus ídolos, de seus sonhos, de suas fragilidades.

Saudades daquela chatice de ficar em pé horas. De ter que parecer inteligente quando se queria ser omisso. De colocar o sorriso da frente das lágrimas, do mau humor, da tristeza.  Saudades de alguns parceiros de trabalho (Edileuza, Wilson…) e de tudo que vivi com eles.

Quando se vê um filme que conta parte de sua história, como se manter indiferente?

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(Na foto: Italo, Laura, eu e Edileusa, num dos fechamentos da loja Premiere Vídeo, na extinta unidade da Heitor Penteado)

Rodolfo Lima

Sobre Renata Carvalho e o Movimento Nacional de Artistas Trans

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Aprendi recentemente que o afeto não é suficiente para sustentar uma opinião. Fui acusado de opressor e isso me colocou a pensar – mais – sobre o assunto que o Coletitvo T, encabeçado pela atriz Renata Carvalho, colocou em pauta de maneira irreversível no ambiente teatral. Algo denominado TRANS FAKE que simplificando é a ausência de atores e atriz travestis e transexuais em prol de atores cisgêneros (que tem sua expressão de gênero compatível com seu sexo biológico) para interpretarem personagens com tal singularidade. Assim como o movimento do black face, talvez cabe ai uma reparação histórica, já que entre as reivindicações está o fato delas deixarem de ser apenas objeto de estudo para artistas interessados nesse universo, para ocuparem o posto de protagonismo da ação. Seja ela peça de teatro, novela, filme, videoclipe, dança e por ai ai. Uma amigo relembra que a associação black/trans com o fake seria um erro, já que os negros eram proibidos de intepretarem, e as travestis não. Bom, elas se sentem vilipendiadas e excluídas. É um assunto polêmico, delicado, complexo e cheio de nuances. Eu, como ator, parto do principal que o artista pode tudo, e isso me deixa tendenciosamente do lado de profissionais como Silvero Pereira e Luis Lobianco. Antes de falar sobre as peças deles, quero falar sobre  a acusação de ser um opressor e reiterar que a afetividade não me salvou. Quem me acusou foi a amiga que suponho ter, a própria Renata.

Se pensarmos numa retrospectiva afetiva sobre personagens travestis no teatral, qual suas referências? Me peguei a pensar. Queria achar o cerne da questão. Onde germinava essa minha tendência a favorecer os atores cis, em prol da artistas travestis? Queria apoia-lás 100% mas não consigo. Sou transfóbico? Que “lugar” é esse que elas reiteram que eu ocupo que me dá o direito de dizer que elas estão equivocadas? Não há sossego para quem se põe a pensar nisso. Amigos vem até mim para dialogar sobre a questão e percebo que é um assunto que inquieta a todos, mesmo que muitos não queiram se envolver e/ou se aprofundar no assunto. Mas eu quis, quero, vou querer.

Minha memória volta pra 2006 depois de ver as peças “O Anjo do Pavilhão Cinco” e “Abre as Asas sobre Nós”, produção do ator André Fusko, que ocupou os espaços Satryos e Parlapatões e que com equipes diferentes trazia duas versões para a realidade da travesti Barbara e a transexual Galega. A primeira foi interpretada por Ivam Cabral e Emerson Rosini e a segunda por Rodrigo Gaion, Walter Baltazhar e Maria Gandara. Todos cisgêneros. O que me chamou a  atenção na época nessas peças não foi a questão pautada hoje pelo Movimento Trans: Onde estão as artistas Travestis e Transegeneres!!! E sim a violência da realidade delas, as complexidades da diferença entre travestilidade e transexualidade e claro…a qualidade do trabalho… dos a.to.res. Fã dessa dobradinha, o “Projeto Bárbara ao Quadrado” foi tema do trabalho de Iniciação Cientifica na Universidade. Ivam Cabral por exemplo deu corpo a outra personagem que adorei na época que protagonizava a peça “Transex” (2004), do grupo Os Satyros. Na época mesmo tendo no elenco Phedra de Córdoba (1938-2016) e Savanah Meirelles, o papel da transexual protagonista foi para um ator cisgenero, algo impensado hoje em dia. Pirei nos closes, na afetação, no colorido, na composição do Ivam e tudo aquilo que o universo gay valoriza. Você se incomodou com o fato “delas” não ocuparem o lugar “delas”? Nem eu… nem percebi. É essa conscientização, que não fomos educados a ter, que elas reivindicam.

Pensando ainda na questão afetiva e referencial… lembro de Olair Coan (1959 – 2007) em “Pobre Super Homem” (2000) e do meu entusiasmo para ir ver  Rogéria em ” 7 – o musical” (2007), da presença mítica de Maite Schneider pelo Festival de Teatro de Curitiba. Assumo, Phedra nunca me foi referencial, mesmo se eternizando como musa absoluta dos’Satyros. Não sei onde estava as outras atrizes travestis, nem sabia da existência delas, eis a verdade. A ignorância é minha. Mas reflete a maioria. O imbróglio começa ai, na falta de referencial. O filme de Leandra Leal “Divinas Divas” veio para enfatizar que elas existiam a décadas, faziam muito mais teatro que imaginávamos e do que os livros deram conta de pautar. Cansadas desse inviabilização, Renata lidera a luta contra esse fato. Creio que demorá anos para que se repare essas questão. E o questionamento delas põe por terra meu desejo de interpretar a travesti da peça “Avental todo sujo de ovo”. Teria que achar uma contra partida boa para que eu me emponderasse desse personagem.  Bancar a produção não é um argumento válido, para elas.

O importante, creio, que é a empatia pela questão. Acho que muitos tem, porém com ressalvas. E são essas ressalvas que fazem com que a amiga me acuse tão severamente. Entendo sua postura. Não sei mensurar o grau de legitimidade de seu protesto, escuto e reflito. Diante do imbróglio, peças como “Luiz Antonio Gabriela”, “BRTrans” e “Gisberta” são o alvo de questionamentos das artistas. A questão não é impedir que o outro o faça, sim elas não gostam, mas o pior para elas é serem subestimadas. E como combater esse descaso?

Nesse sentido apoio o barulho em torno de “Gisberta”, Lobianco estreou a peça quando o Movimento estava dando seus primeiros passos. E foi alvo de desconforto de cara. E o que o ator fez para sanar essas questões? Na contestação, elas pedem a inserção no mercado de trabalho. Se eu fosse amigo de Lobianco teria dito: “bee, contrata uma para te maquiar, outra para distribuir os programas e elas estarão parcialmente satisfeitas e te darão uma trégua”. Mas ele defender que lutou com os amigos – todos Cis – e que conta com o apoio da família da Gisberta – todos cis – não pode ser aceito como resposta válida. Se o Brasil é o pais que mais mata a população T e elas estão gritando por visibilidade, empregabilidade e oportunidades, como se portar diante desse pedido de socorro? Coloco minha peruca, me maqueio e subo no palco?

O caso do Lobianco é um caso diferente do trabalho de Silvero Pereira que está anterior a todo esse debate. É inegável a qualidade da performance do ator em cena. Seu BRTrans o tornou nacionalmente conhecido, fez com que o mesmo circulasse por todos os principais festivais do país e o alçou a ator de telenovela.  No caso dele, temos duas questões, a peça e a personagem: Gisele Almodovar, alter ego do ator, que se se identifica com um gênero fluido, ou seja, transita entre o feminino e o masculino sem se ater a nenhum deles definitivamente. O histórico do artista com as travestis o gabaritaria a ocupar o lugar que ele ocupa, afinal ele é um ator e lutou pelo reconhecimento. O ônus e o bônus disso, não sei se me cabe julgar. Mas para elas uma das questões é ele lucrar em cima dessa “montação”.

Assim como “BRTrans”, “Luiz Antonio Gabriela” – considerado por algumas delas, transfóbico – modificou o paradigma da opinião do público sobre as questões da travestilidade. Ou seja, são um marco, o teatro e as atrizes do Movimento devem a esses dois trabalhos uma reverência. Pois de lá para cá, tudo o que se faz sobre travesti – onde as mesmas não são interpretadas por atrizes T – parece orbitar em volta dessas referências, convenhamos. Como acusar o ator Marcos Felipe, diante de uma composição tão delicada para sua Gabriela? Não consigo. Como invalidar o lugar do Silvero? Não consigo. Como dizer que Carol Duarte deveria ter recusado o papel na novela em prol de uma atriz trans? Não consigo. Não consigo apoiar minha amiga integralmente.

A matéria de Gustavo Fioratti na Folha de São Paulo, de ontem (12/01) traz na manchete “Ativistas atacam ator que faz trans em peça”. O certo não seria anunciar que elxs reivindicam esse lugar? Material inútil, não problematiza a questão e fazer alarde em cima do ponto nevrálgico: quem ataca quem? Atacar é um verbo que por si só, já traz um simbolismo de desrespeito pelo outro. Mas nesse caso, quem tá desrespeitando quem? As cinco travestis que entraram para ver a peça na estreia em BH e deixaram para se manifestar legitimamente no final, com cartaz, nudez e a fala, ou o ator, que dizem – saiu escoltado por seguranças pelos fundos do teatro? Olha o B.O.

Renata Carvalho não é só a atriz de “O Evangelho Segundo Jesus – Rainha do Céu”, meu referencial afetivo dela, vem do seu solo “Dentro de mim mora outra”, mas claro que a peça que supõe a volta de uma Jesus Travesti, a emponderou e a tornou uma voz de projeção no meio do descaso e da invisibilidade. Gosto de pensar que apoio a luta da minha amiga e de suas parceiras, embora tenha muita dificuldades em aceitar o Manifesto na integra. Falho, me falta compreensão, assumo.  Ver o texto de Tony Goes desmerecendo esse lugar que Renata pleiteia, desmerecendo a repercussão belíssima e necessária da peça que nos oferece a oportunidade de rever os escritos da bíblia por outros ângulos, é de uma tristeza sem fim. Somos todos fóbicos. O desafio diário é lutar contra essas fobias que nos impede de exercer a alteridade.

Ao ver a imagem criada por Neto Lucon para apoiar a Renata, não pude ficar indiferente. Estou a investigar as raízes da minha inquietação perante o assunto. Defendo que nossa dificuldade vem da falta de referencial afetivo. Da nossa dificuldade de abrir mão do que nos afetou e nos transformou. É como se não fossemos capazes de olhar com empatia para o trabalho delas, as possibilidades do corpo delas. E isso é sério. Gostei muito de ouvir a fala de uma atriz chamada Leonarda Glück, onde ela baliza a questão dizendo não ser contra a presença de cis em peças que retratem as Ts, desde que se tenha empatia, respeito e ofereçam um trabalho digno e de qualidade. Caso contrário, sim o barulho se faz necessário. Para mim o Movimento do Coletivo está mais associado a movimentos sociais, onde indivíduos lutam primeiro por uma oportunidade, revogam um lugar, para depois se questionar a qualidade e abrangência dessa oportunidade. É um buraco bem profundo.

Rodolfo Lima

Hebe, o musical

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Existem figuras públicas que se tornam míticas em vida, foi o caso da apresentadora Hebe Camargo (1929 – 2012), a estreia do musical em 2017 só veio reforçar a imagem recheada de empatia e graça que envolvia a artista. Com direção de Miguel Falabella e dramaturgia de Arthur Xexéo o musical é uma oportunidade ótima para rever a trajetória de Hebe, pena que foi desperdiçada a oportunidade de problematizar questões importantes na vida e obra da protagonista. Os temas estão lá, esboçados, mas sem aprofundamento que dê peso e potência a retratada. O público se diverte mas é uma pena essa falta de “sustança” no todo.

Hebe casou com o primeiro Hebe se “amigou”, mas como diziam na época “amigado com fé casado é”) três vezes: Luís (Frederico Reuter), Décio (Guilherme Magon) e Lélio (Dino Fernandes) e em todos os casos foi alvo de maridos machistas e que de certa forma cobraram um preço alto para que Hebe pudesse compartilhar de uma casa – seu sonho era uma com três cômodos – e o amor de um homem. Com Décio, Hebe teve seu único filho. O que aconteceu com o filho que Hebe esperava de Luís, quando terminou seu relacionamento com Luís,  a peça não conta.

Então nesse embate entre entre Hebe e seus homens, as velhas questões masculino x feminino vem a tona e vemos uma mulher emponderada, que no limite, privilegiava a carreira e jamais aceitou por muito tempo ser condicionada aos desejos de um homem. Feminista portanto, diriam alguns. A peça não reforça essa ideia, mas supor isso torna a figura de Hebe mais interessante. Com certeza os dilemas enfrentado na carreira pela apresentadora, em confronto com seus desejos e sonhos pessoais contém muito dos antagonismos que nos faz mais humanos e mais interessantes. Essas questões provavelmente reforçaram a força de Hebe como mulher, comunicadora e uma voz dissoante na TV Brasileira. Só no SBT – onde minha memória alcança – foram 24 anos a frente do seu programa de entrevistas.

Outra questão emblemática é a carreira de cantora, que foi suplantada pela projeção de Hebe na função de apresentadora, revelando que esse foi um dos grandes celeumas na sua carreira. Hebe não teve uma projeção como cantora, é a peça sugere uma pontinha de mágoa por isso, sugerida na cena que Agnaldo Rayol convida Hebe para cantar com ele. Se Hebe foi um cantora frustrada, se o mercado a rejeitou, se os maridos a impediram… são muitas questões implícitas no universo de Hebe. Essa problematização aumentaria o drama da retratada, mas a peça se revela um retrato leve e ilustrativo, optando por desviar da complexidade que preenchia a protagonista. Um público mais crítico se ressente.  Faltou algo ali.

Por se tratar de um musical, a direção de Daniel Rocha não empolga. Sem a inclusão de grandes hits, e com versões desinteressantes das mais conhecidas, os números musicais ficam aquém. As coreografias de Fernanda Chamma também não é que de melhor o espetáculo oferece. Assim como a cenografia de Grinco Cardia e o visagismo de Anderson Bueno em muitos momentos tua soa apatica e gélido. As exceções são os figurinos de Ligia Rocha e Marco Pacheco, e claro Débora Reis, a Hebe em questão.

Alçada a diva por sua composição, Débora oferece uma Hebe sem nuances. Sua composição “chapada” é um problema, pois entrega todos os trejeitos que fizeram a graça de ser “Hebe” nos últimos anos de vida. A sutileza que apresenta quando Hebe aparece envelhecida – por exemplo – é abafada pelos gracejos da personagem, aparentemente sempre pronta a fazer graça e arrancar riso do seu público. Esse maniqueísmo é prejudicial para a composição da atriz, que parecida com a sua homenageada, fica refém do apelo ao riso. As direções de Falabella geralmente oscilam entre os apelos do mercado e as possibilidades de uma investigação artística. Hebe é fruto da primeira opção.

A composição de Carol Costa, que dá vida a Hebe jovem, também sofre desse otimismo forçado.

Nair Bello e Lolita Rodrigues (Renata Ricci) formavam com Hebe um delicioso “clube da luluzinha”. Momento muito bem vindo na montagem – arejando a dramaturgia que patina na repetição de um talk show  –  que humaniza Hebe. O diálogo do encontro de Hebe com Lolita, quando a primeira já se encontrava adoentada é um momento inesquecível. Amigas que se distanciaram por questões pessoais, ao ver a Lolita, Hebe dispara: “Se eu soubesse que você só viria me ver quando eu estivesse doente, teria adoecido antes”.

O momento mais dramático fica para o final, quando é reservado o momento da música “Você não sabe”, escrita por Roberto Carlos e Erasmo Carlos e claro, a morte da protagonista. Curiosamente seria o momento onde o melodrama ganharia uma força incontrolável, pois além da belíssima música que fala da presença de um amor infinito ela serve para ilustrar a ausência definitiva de Hebe. Mas não é o que se vê. Esse seria o melhor momento para que víssemos Débora Reis trabalhar – e emocionar –  para retratar um momento singular na carreira de Hebe, que foi a participação no show do cantor “Elas cantam Roberto Carlos”. O malabarismo musical para incluir todos na canção é um momento memorialista e pretensiosamente apoteótico, que não funciona. Uma pena.

Cheio de altos e baixos “Hebe – o musical” é o exemplo do quão é importante ter uma protagonista de peso. É a prova cabal de como o público – que continua lotando as sessões – já chega pretenso a gostar, já que supostamente era o público da apresentadora. A grande questão é surpreender esse público e oferecer um produto para além do retrato informativo. Tem que pagar para ver, literalmente.

Rodolfo Lima

obs: a peça segue em cartaz no Teatro Procópio Ferreira, até o dia 25 de fevereiro de 2018, de quinta a domingo, em diversos horários e ingressos que variam de R$50 a R$190 reais.

L – o musical

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Peças com conteúdo gay feminino são praticamente uma raridade na dramaturgia nacional. Segundo meus arquivos de 2000 para cá são pouco mais de 30 peças que versam sobre o amor entre mulheres. Para se ter uma noção, comparando com peças sobre homens gays, os números são 10 vezes maiores. L, o musical vem engrossar a lista, mas é bem frágil no que tange uma dramaturgia consistente.  Com direção e texto de Sérgio Maggio, a peça é mais um apunhado de cenas,  que juntas tem lá sua graça, mas inflada pela reação do público, que vibra com as canções imortalizadas por cantoras lésbicas.

Assisti uma das últimas apresentações da temporada carioca e o público reagia positivamente ao que se via em cena. Mesmo que o texto tenha se apoiado no clássico de Rainer Werner Fassbinder (As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant) no texto de Maggio tudo soa pueril e frágil. Por vezes ilustrativo e incoerente. Essa costura da dramaturgia com as músicas é sempre um risco. E quando as músicas são enxertadas no texto para supostamente fazer valer sua presença, o resultado é risível e piegas. A utilização de “Não vá ainda” é um exemplo de dramaturgia forçada. As canções conhecidas na voz de Maria Bethânia, Isabela Taviani, Zélia Duncan, Adriana Calcanhoto e Angela Rô Rô, por exemplo, carregam histórias e são sempre um risco pois o ouvinte tem sua bagagem sobre ela, e a peça simplesmente não consegue transpor esse lugar da subjetividade e nos lançar numa experiência nova.

Para complicar a composição das atrizes são frágeis e não acrescenta ao todo. Elisa Lucinda tem um lugar de respeito e destaque na encenação e ninguém fica indiferente ao vê-la recitar seus poemas, ou cantar canções tocantes e românticas. Porém a direção não extrai o melhor da atriz que oferece o básico para que a cena ocorra. É a primeira personagem lésbica que interpreta, mas o desafio na empreitada é zero. O diferencial fica por conta de Gabriela Correa e Luiza Guimarães. A primeira surpreende ao dar voz ao transexual da história, tematizando uma questão atual, onde o casal tem que começar a lidar com a readequação de gênero de uma das partes. Casal da personagem de Ellen Oléria, em dado momento sua personagem questiona ao se conscientizar que namora um homem trans: – agora eu sou heterossexual? Eis ai uma das questões boas sugeridas pela montagem, mas não problematizadas. Ok, talvez não fosse o momento para. Mas sua sugestão é bem vinda e instiga.

Luiza recebe o público e dá voz a youtuber da peça em projeções que entram entre uma cena e outra. A atriz é engraçada, causa empatia, improvisa e segura o público. É uma pena que não é aproveitada a contento. As tiradas cômicas de sua personagem seriam tiros certeiros no público ao vivo. A opção de ter as projeções é mais um dos arremedos sem sentido da direção. A forma como joga com o público fazendo com que o mesmo se torne parte do todo como figuração é o melhor momento da peça. Detalhe: é a primeira cena.

Uma questão curiosa na montagem é a alternância entre canto e recital. Enquanto algumas cantam outra parecem recitar o texto, essa combinação, essas inversões, parece um ruído dissonante no todo. Não é bonito, não é inovador, não dá conta do peso da música. Vozes como a de Ellen e Elisa não se harmonizam. Ou seja… firulas para tornar o todo engraçado e causar empatia, já que seduzir a platéia é uma das tônicas da montagem. Sim, por vezes parece que estamos num episódio do Zorra Total.

A montagem chega a São Paulo com a alcunha de preencher uma lacuna LGBT, mas me pergunto: a que preço? Pois ela está longe de propor uma discussão aprofundada. É mais uma celebração desse afeto – isso não é um problema, é bem vindo, óbvio – do que uma montagem que pode mudar parâmetros sobre “elas”. Por vezes a peça se apoia em clichês, o que empobrece ainda mais seu discurso. A caricatura é boa apenas quando ironiza a si próprio (Gay é o cacete eu sou sapatão) gerando de tabela uma auto crítica, quando se leva a sério, enfraquece tudo ao redor.

O metateatro é sempre um recurso interessante. Em L, o musical isso é explicitado quando vemos o trabalho do ator cruzar com a vida real criando situações para fomentar a história. Nesses momentos… o tom de conversar entre as atrizes é cativante, mas tem em sua intenção aquele momento (escancarado) de educar o espectador. Feminicídio, Lesbicidio, homens abusivos, estupros corretivos,  o palco virá um palanque. Rimos com a mítica do famoso “chá de buceta”, mas é nítido que o palco é uma trincheira onde todos-os-temas-possíveis-se-encontram.

Outra possibilidade de diversão ao público é buscar associações: eu associei o drama do casal protagonista, onde uma delas teve um filho fora do casamento, com a história de Cássia Eller; o amigo que me acompanhava encontrou sinais sobre a autora Cassandra Rios, o fato de uma das atrizes só usar branco a cantora Simone, além dos pés no chão – das atrizes – serem uma referência explicita a Maria Bethânia. Isso não está explicado, veja bem, é uma possibilidade de leitura.

O texto acima parece ranzinza, mas a verdade é que para além dos achismos e de uma suposto adensamento no tema, L, o musical, diverte, simples assim. E parte do público se vê representado. O que é um ganho. O rebuceteio da mulherada faz falta, pois o humor ácido arranca as reações de forma abrupta, interrompendo o fluxo do julgamento. E se tem algo que podemos aprender com a mulherada da peça é que a cama é um processo colaborativo. O que ninguém duvida, claro.

Rodolfo Lima

Obs: a peça estará em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo até o dia 26 de fevereiro de 2018 de sexta, sábado e segunda, as 20h e domingo às 19h

Manifesto Inapropriado

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O Teatro de Arena Eugênio Kusnet sediou uma programação elaborada pela Cia. Histriônica que trouxe luz para as problemáticas no universo LGBT. Oficina de maquiagem, dramaturgia,  literatura, dança, rodas de conversas, palestra e uma peça de teatro, que leva o nome do evento, ocupou o mítico teatro paulista. Dirigido por Rodrigo Mercadante Manifesto Inapropriado me causou surpresa pela reação do público, que eufóricos reagia com ênfase ao proposto pelos artistas em cena. Havia ali uma fragilidade, fiquei pensando.

São quase duas horas de peça e se o que é exposto no palco não surpreende em absolutamente nada, a conexão com a platéia acabou sendo o crème de la crème da apresentação. O  público ainda precisa ver validado o seu lugar de existência. Observando, percebi que antes de pensar se a peça é boa ou ruim, tinha que me ater no fato de quem sim, ela tinha uma importância, já que retratava os anseios de uma parcela do público que se sentia representado pelo que era narrado em cena.

O grupo se pauta em textos e figuras emblemáticas do universo gay, como Federico Garcia Lorca e Oscar Wilde, figuras soturnas como Roberto Piva e os não declarados como Mário de Andrade. Mesmo que os artistas vomitem diversos nomes da cultura LGBT como Caio Fernando Abreu – para ficarmos no campo da literatura. E exponha livros, como “Devassos no Paraíso”, de João Silvério Trevisan, a problematização sobre a temática é rasa. Tudo soa ilustrativo e ingênuo.

Rodrigo Mercadante já esteve envolvido num trabalho que trazia as questões gays em pauta, na época mergulhado sobre o jornal “Lampião na Esquina” (Sob a luz de um Lampião da Esquina), e assim como o trabalho anterior, ficou faltando uma verticalização nas questões. Mercadante fez o que sabe fazer de melhor… orquestrou seu atores a falar bem o texto, aliou a um trabalho musical interessante e transformou tudo num grande sarau. E nesse balaio de opções para se expressar a sexualidade, não transgrediu, fez mais do mesmo.

Se Lucas Sequinato e Ton Ribeiro causam empatia e dão conta do recado, e os músicos Paulo Ohana e Theo Coelho Yepez estão em sintonia, o que faltou para que os temas abordados fossem inflamados a ponto de doer no público? O resultado apresentado pareceu “fofo” demais. Inclusive a interação com o público. Essa impressão aumentou buscando na internet material sobre o trabalho dos artistas oriundos das salas de aula do curso de artes cênicas da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Há fotos – por exemplo – que esboça uma inquietação da dupla de atores, muito mais interessante do que o visual cafona e quadrado proposto por Ângela Sauerbronn. Parece que o trabalho foi higienizado para parecer teatral e caber no palco. É justamente certa “sujeira” em cena, que faz falta. Uma veadagem sincera, com autonomia. É tudo milimetricamente pensado. Até as piadas são colocadas para atingir um objetivo específico. É uma chatice. Mesmo que a direção seja correta no entra e sai dos textos e músicas, a sensação é que o trabalho fica devendo.

Mas repito, o público se envolve, reage, grita, participa. Então fiquei me perguntando: – ficou devendo a quem sr. Rodolfo?

Dois momentos me chamaram a atenção, curiosamente protagonizado pelos músicos. Paulo Ohana apoiada na música “Três travestis” de Caetano Veloso narra um episódio ao lado do pai, justamente quando eles se depararam com uma travesti de rua. A cena é singela, simbólica e o tom pessoal dado a ela, potencializa e imprime personalidade ao todo. Como se a peça fosse feita de impressões pessoais, o que salvaguardaria a pretensão de fazer um manifesto contra todas as fobias que oprime os não heteronormativos.

Yepez protagoniza o momento onde a sexualidade é problematizada ao lado do machismo e de todos aos achismos que imperam na ignorância do ser humano. Ao narrar que adentrando um metrô lotado, sentou numa cadeira – que ninguém queria  – onde estava pichado um pênis. Se a simples ideia de sentar num órgão masculino, mesmo que simbolicamente retratado como desenho ainda inibe muitos, nada mais pode ser mais tão emblemático.

Tirando esses dois momentos, o que se vê é um amontoado de clichês, alguns bem realizados cenicamente, como a dublagem ao som de Daniela Mercury, retratando a famosa rivalidade entre drag queens num palco. Ou para atualizar num termo conhecido pelos fãs de Ru Paul, os famosos “Lip sync”.

Se a ideia era pensar na complexidade da definição do que é ser homossexual hoje em dia, falar de Mário de Andrade e no quanto sua suposta vivência no armário foi nefasta parece pueril demais, num momento onde a internet e as redes sociais acabam dando voz e força para muitos homossexuais oprimidos e que tem sua singularidade vazada como um grito de alerta o discurso moderado do grupo é destinado a quem?

É esse lugar da transgressão e da subversão da temática que falta para que Manifesto Inapropriado saia do lugar do bom mocismo e transforme seu manifesto num grito feroz de alerta.

Rodolfo Lima