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Donna Summer Musical

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O teatro se tornou um campo prolifico para biografias de artistas da música. São inúmeros os  exemplos que se acumula e agora em São Paulo temos a opção de conhecer um pouco mais sobre Donna Summer (31/12/48 – 17/02/12) e seu reinado como Rainha da Disco Music. Condensar uma história de vida cheia de altos e baixos não é tarefa fácil e requer escolhas por vezes duvidosa, uma delas é não se aprofundar na história do biografado, já que musicais, são por princípio, entretenimento. O que é uma pena, pois é justamente seu caráter grandioso que poderia proporcionar um adensamento do público na história, já que cenas bem feitas e músicas  bem cantadas são imbatíveis para o público em produções de grandes portes.

O que mais chama a atenção em Donna Summer Musical é o visual charmoso que se dá a produção nacional. A versão original estreou em março de 2018 na Broadway e teve na plateia o diretor Miguel Falabella, que assina a direção local. Se o profissional não mexeu na estrutura musical, foi na parte do cenário e figurinos que sua direção pesou mais. É de longe o grande trunfo da montagem.

O cenário é composto por três estruturas gigantes, revestidas por ACM Espelhado que nos remete a um ambiente de discoteca e é utilizado de forma assertiva e atraente. Essas estruturas se abrem e se fecham e marcam mudanças de cenas e as trocas de figurino (são mais de 150).  Outro chamariz da concepção cênica do espetáculo, a cargo de Zezinho e Turíbio Santos são os globos espelhados sobre a platéia. O resultado desse último é ok, potencializado – bom ressaltar – pela iluminação criada por Caetano Vilela – o efeito de arco iris que em dado momento se cria com a iluminação é belo e conceitual.

Outro fator que ajuda a deixar o musical com uma cara mais “classuda” são os figurinos conceituais de  Theo Cochrane. Se as Donna’s (a protagonista é dividida por três atriz em diferentes fases da cantora: Amanda Souza/Jovem Donna, Jeniffer Nascimento/Disco Donna e Karin Hills/Diva Donna) usam figurinos brilhosos e chamativos, o resto do elenco tem suas roupas com cortes básicos (com poucas exceções) e muitas cores. Particularmente acho que é uma opção charmosa, que dá brilho ao ambiente sem parecer impositivo. Os prêmios nacionais direcionados aos musicais vão ter uma grande dificuldade em ignorar a qualidade oferecida em Donna Summer Musical.

A versão brasileira para o texto concebido por Colman Domingo, Robert Cary&Des McAnuff  ficou a cargo dos atores (de musicais) Bianca Tadini e Luciano Andrey. Não é possível precisar o quão se modificou para as plateias brasileiras. Mas a história de Donna é um pouco a história de muitas mulheres negras. Família pobre, numerosa e religiosa, talentos precoces se virando como podiam, machismo, misoginia, violência sexual e doméstica, abuso de poder, desvalorização financeira em razão do gênero feminino e o grande dilema entre se dividir entre o trabalho e a família. Exemplos tupiniquins foram as biografias de Hebe Camargo e Elis Regina, que em cena também trouxeram tais dilemas, e que assim como Donna, as colocaram como feministas em potencial, lutando pela própria individualidade sem abrir mão de sua profissão.

Vale ressaltar que o musical é também a oportunidade de evidenciar o protagonismo negro na história cultural da música americana. Sua música “Bad Girls” (por exemplo) provavelmente embalou cantoras como Rihanna e Beyoncé (divas do século XXI) que tem diversas músicas dançantes e que também se colocaram e exaltaram comportamentos considerados transgressores e errôneos em corpos femininos. Numa simples associação Rihanna pode facilmente ter herdado em suas letras o lado B de Donna – referência indispensável para (por exemplo) cantoras negras de todas gerações.

O recurso das facetas da protagonista dialogarem, como se as diversas Donna existissem numa mesma mulher dá um tom grandioso para a personagem, exaltando o mito em que ela se tornou. É uma peça para exaltar sua vida e sua arte. Está declarado e posto. Porém se Falabella não oferece grandes cenas dramáticas – as poucas que há parecem destoar do todo – também não o faz em cena cômicas. O que dá um tom sóbrio ao musical. O que é ótimo e dá uma sensação de novidade para o público de musicais.

Obviamente que a atenção recai para  Karin, Jeniffer e Amanda e suas potencias vocais, afinal é um musical e o público quer grandes performances. Se Amanda é a novata da vez e imprime verosimilhança aos dilemas de Donna com sua voz potente e seu ar juvenil e Karin a conhecida atriz e cantora do público, é Jennifer que surpreende com sua  primeira protagonista em musicais. A atriz imprime empatia, desenvolve as coreografias sem perder o fôlego e tem um alcance invejável. Ou seja: nasce uma estrela.

Mesmo que você não conheça ou seja fã da Dance Music, deve se interessar pela trajetória de Donna, já que é uma montagem atraente e bem conduzida. Cria-se uma expectativa para “o grande momento” – em musicais sempre há aquela cena-ápice – e ele não ocorre. Com o tempo de duração aquém do habitual (a peça dura cerca de 100 minutos) a canção ícone “Last Dance” (Oscar de melhor canção em 1978) aparece para encerrar a apresentação. Sim, isso é um spoiler, desculpe!

Donna Summer Musical não nos permite experienciar o fim da vida, da cantora que morreu em função de um câncer do pulmão. De certa forma o musical celebra a vida e os feitos, sem que o público tenha acesso ao fim. É assim que funciona em grandes baladas, e é o cerne do ambiente da Disco Music. Na pista, não existe dor nem fim, só o momento presente e os corpos que se agitam e vibram. Assistimos sentados ao musical, mas seria ótimo se pudêssemos levantar e dançar, e fazer valer a máxima da artista que dizia que no fim de tudo deveríamos estar dançando.

Rodolfo Lima

(Foto: Caio Galucci)

Evangelho Segundo Jesus – Rainha do Céu

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A edição da 7° Mostra Internacional de Teatro – MITsp trouxe em sua programação uma peça bastante emblemática para o cenário queer nacional. A dramaturga Jo Clifford ficou bastante conhecida no país, depois que Natália Mallo resolveu montar uma versão de seu texto em terras tupiniquins e teve o corpo da atriz Renata Carvalho como a plataforma para catapultar a poesia da dramaturga inglesa. A versão nacional de “Evangelho Segundo Jesus – Rainha do Céu” é uma peça seminal para se entender as questões enfrentadas por indivíduos transexuais, dentro e fora do palco. E se Renata se projetou com a peça, ela também – de tabela – ampliou a transfobia de muitos e de um sistema misógino, patriarcal e machista, alertando para que se mudasse o paradigma de como se entender os corpos trans. Ou seja, é algo para ser pautado sempre. Não há como ignorar a montagem nacional, mesmo que esteticamente ela não apresente nenhuma novidade.

A possibilidade de ver a montagem original é também a possibilidade de ver em perspectiva toda a situação: corpos trans em cena; artistas trans; um texto que ousa na subjetivação das questões religiosas e que longe de buscar o choque ou o embate feroz, busca um apaziguamento entre os gêneros estabelecidos e as diferenças sexuais. Afinal se Jesus é a representatividade de todo ser humano, ele ser exaltado como um homem é uma visão limitadora. É nesse ponto que a peça avança ao mudar o foco do olhar do narrador, branco e heterossexual, detentor em sua maioria de punições e regras.

Sai o “homem” e entre em cena uma mulher, hibrida, que assim como no mito grego do/da hermafrodita tinha em sua força e sua representatividade multiplicada por dois, já que carrega(va) em si o feminino e o masculino. Jo e Renata estão então para essa “divindade”, assim como nós, reles mortais, estamos submetidos a ideologia de gêneros e separados entre “quem pode vestir azul” e “quem pode vestir rosa“.

Diante desse panorama, a oportunidade de ver Jo Clifford se tornou indispensável. Principalmente para quem tem interesse nas questões trans bifurcadas com a arte e/ou com a religião. Pois bem, a figura de Jo não é imperativa por nenhum arrombo. Ela surge em cena com um vestido branco e um all star vermelho com cardaço colorido de forma singela e respeitosa. Sua figura quer antes de tudo ser ouvida, ser respeitada, aceita. A dramaturga associa-se a Jesus para que assim possamos entender que a humanidade tem uma visão deturpada de algumas histórias da bíblia e consequentemente seus ensinamentos. Renata Carvalho ao adentrar a cena já contém em seu olhar a ambiguidade de um corpo que não se sabe querido.

O público se divide em quem senta na mesa de “Jesus” e quem vê da plateia. Para Jo, qualquer um pode vir a ser um dos apóstolos, ou seja, nossas verdades e individualidades podem ser misturadas e validadas independente do nosso gênero ou sexualidade. Essa associação por si só já contém metade do que a encenação defende. Comer do seu corpo, beber do seu sangue são metáforas que perdem forças quando todos dão a mão em volta da mesa e reza. Estava na mesa, mas queria ter visto de fora a reconfiguração dessa potente imagem. Na montagem nacional Jesus permanece em seu pequeno altar/mesa como a nos relembra que sim, a uma diferença, por mais tola que ela seja.

Para alguns a comparação a reducionista e passível de grosserias, mas considero que ela é por vezes potente para se entender os caminhos e a potência de cada artista/ideia/proposta. E se Renata Carvalho avança de forma irreversível sobre seu público de forma irônica e debochada, Jo busca um caminho da evangelização, literalmente. Como se seu corpo cansado e envelhecido pudesse conter toda a sabedoria que é negada a corpos como o de Renata Carvalho. Sim, faz diferença a forma como as atrizes se portam em cena e ver Jo, foi um exercício para buscar na memória a montagem de Mallo para que assim entender o que ficou de todo esse “Evangelho…” – montagem essa (a nacional) que vi 4 vezes (1° ensaio aberto/ SESC Pinheiros/ Mora Mundo/ FESTARA).

Renata expõe seu corpo para ser vilipendiado pelo público. Essa ampliação do entendimento do texto de Jo faz toda a diferença. Lembro que no primeiro ensaio aberto, a presença em cena de Renata também continha essa contenção e certo apagamento de uma individualidade agressiva e/ou deturpada e que fui um dos que levantou a bola de que “nosso Jesus” tinha que mostrar de onde éramos. Renata, uma travesti periférica de Santos. Esse corpo continha um carga que por si só potencializa as palavras encandeadas de Jo. A montagem nacional portanto é um potente complemento a montagem original, também dirigida por uma mulher, no caso Susan Worsfold.

Se a atriz brasileira tem na exposição do seu corpo e na sua acidez implícita muito do componente que faz com que a versão nacional seja comovente e esclarecedora e na encenação inglesa que temos a impressão que nos aproximamos dos nossos semelhantes. Funciona de forma simples e pontual a mesa e todos ao redor. Mesmo que sem apelar para sentimentalismos ou chavões religiosos, por vezes todos os elementos em cena fazem sentido. Poderia eu beber do mesmo corpo que Jo, ser afetado por seu olhar ou desprezado por sua presença. Essa configuração desse corpo próximo a mim, sem estar diretamente em mim, é sempre uma opção interessante, pois a quebra da quarta parede brinca com a ficcionalidade da cena.

É uma pena que a MITsp não bancou a concepção original e conseguiu colocar o trabalho numa igreja para que os símbolos locais pudessem dialogar com o todo. As luzes se acendem e nos lembramos que não estamos numa igreja, isso faz uma diferença. Já que a força da versão inglesa está muito na encenação. Quando vemos Renata na luz fria somos eclipsados por sua figura porque o Evangelho é tudo o que seu corpo poderia representar e não o faz porque a preconceito não deixa. Portanto são visões diferentes e complementares de encarar um belíssimo texto, que tem força independente de sua interlocução.

Na mesa da apresentação do sábado, havia vários corpos trans ao redor da mesa da Jesus de Jo. Havia um emponderamento importante ali, conquistada pela montagem nacional. Não havia como encararmos a versão original sem ler. Naquela noite nenhuma delxs apanhou ou precisou sair correndo com o desespero nas mãos, sem contar com a solidariedade alheia. Foi um momento emblemático e importante, celebrada pela presença de Jo Clifford. #amém

Rodolfo Lima

 

Frutas & Trangressão – História para Tangerinas e Cavalas-Marinhos ou Paulestina Livre!!!

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Uma das pautas mais inflamadas da atualidade são as questões sobre gênero. O que define e como deve se portar um homem e uma mulher se tornou assunto vigente e fez com que retrocedêssemos no avanço das liberdades individuais. A potência das individualidades transexuais, luta há anos, numa especie de cissão que há entre o que se denominou macho e fêmea, para poderem se sentir legitimadxs no lugar que desejar, sem que isso dependa da genitália. O país nas mãos de governantes retrógrados e preconceituosos é só uma faceta do massacre que as singularidades não heteronormativas sofrem. A diferença de “ontem” para “hoje” é que agora elxs reagem com visibilidade. Um dos ganhos das redes sociais é a possibilidade de dar voz a todos, inclusive para quem corre a margem da famigerada “família tradicional brasileira“.

“Você late dentro da minha cabeça“, é a metáfora mais poderosa alcançada por Manfrin em seu “solo coletivo”, responsável pela concepção de  “Frutas & Trangressão – História para Tangerinas e Cavalas-Marinhos ou Paulestina Livre!!!” A frase contém de forma simples a agressividade e o desconforto com que a intolerância e a agressividade reverbera no outro. Mais complexo do que trabalhar em cena as questões da transexualidade e suas dissidências, o universo em que Manfrin se debruça é o da não binaridade, de pessoas que se assumem como fluídas e portanto não se encaixam em nenhum estereótipo de gênero, não de forma limitadora e conservadora.

Para falar sobre corpos abjetos e que transitam entre o pré estabelecido,  a artista se coloca em saco de lixo, se joga no chão, se deixar penetrar por objetos, colore o cabelo, se enche de acessórios para tentar preencher o vazio interno de não se sentir pertencente a nada. Esse vácuo da sociedade em que as pessoas que lutam por poderem se expor ao mundo da forma como desejarem, se encontra mais vivo e eficiente do que nunca e não pode ser mais ignorado. Primxs de outrxs apartadxs (negros, mulheres – por exemplo) de uma sociedade  heteronormativa, supostamente branca, machista e patriarcal, indivíduos não binários são como camaleões que agonizam em praça pública. Pois o achincalhe, infelizmente, vem de brinde para sua postura fora da norma.

Diante desse universo caótico de difícil compreensão para quem não trabalha com riscos e experimentações na vida pessoal e íntima, e nem sofre com disforia de gênero toda vez que se olha no espelho – por exemplo – o mise-en-scéne criado pro Manfrin, talvez seja tão caótico quanto o material que perpassa sua mente ou como os “normais” o vêem. Esse caráter bizarro e risível, ganha força quando a encenação borra a obviedade com pitadas da singularidade dos presentes na arena cênica, fazendo que observemos com realce a potencialidade de cada corpo e no que ele contém de especial.

Na peça-teatro-performance-show-gritodealerta-happening a profanação parece ser a escolha inevitável para se fazer entender e devolver – como numa especie de refluxo – toda a indigestão que um mundo imposto por terceiros, fez com as individualidades, e o quanto a obrigatoriedade de alcançar um lugar, uma postura, um formato, é danoso e deixa marcas que o indivíduo carrega indesejadamente.

Desse lugar inóspito onde os não binários vem a público se revelar. Ouve-se diversas vozes. Felizmente o campo das artes – essa babilônia imprescindível para o ser humano – ainda permanece catapultando essa humanidade liberta de códigos cafonas e segregadores, para que numa operação a fórceps, se possa operar com valentia diante da caretice e da estupidez que é querer invadir a subjetividade alheia com as próprias certezas. Manfrin, tentou dois anos ser homem, tentou dois anos ser travesti, se rotula fruta, para que assim possa caminhar com suas tentativas sem ser (mais) violentadx. Quanto de nós não já não se sentiu assim?

Talvez careça ao Coletivo Profanas (todos xs integrantes do coletivo que realizou o trabalho) depois desse manifesto em prol de mais humanidade para seus corpos, trafegar por um lugar onde a questão do feminino e do masculino se torne mais ridículo e déjà vu sem que o grupo precise impor com obviedades as velhas questões clichês. Esse primeiro movimento do Coletivo para “dar a cara a tapa” compõe com força a cartela de trabalhos que ousam se debruçar por campos minados.

E para essxs corpxs, o acabamento artístico e as definições do que é artístico e as supostas definições estéticas para o que é o que é não é legitimo caem por terra, quando o que se deve fazer diante de corpos que agonizam por relevância e respeito, e se debate diante de nossos olhos incrédulos e cansados, talvez incapazes de olhar além do obvio com naturalidade e vigor, é apenas se calar e observar.

É por isso que tangerinas, cavalas marinhos, transexuais e pessoas não binárias são importantes e sempre bem vinda no campo atual das artes. É delxs que vem o ar que respiramos para não desistimos e achar que tudo nos será castrado e cerceado. Compreender dói e é cansativo, pressupõe uma disponibilidade interna de olhar para quem está ao seu lado e ver com mais generosidade o outro.

Frutas & Transgressão…” talvez não renove esteticamente as questões, talvez não se enquadre, talvez não tenha acertado em todas as escolhas cênicas expostas. Mais que importância tem o acerto e como mensurá-lo,  para quem vive sob o signo do erro?

Vá lá lutar com elxs ou pelo menos presenciar – e na melhor das hipóteses, aprender – com o que elxs tem a dizer!!!

Rodolfo Lima

(Foto: Elza Cohen)

Sombras

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O Teatro da PombaGira é um emblemático grupo que surgiu em meados da segunda década do século XXI e sua força sempre morou na possibilidade de transgressão dos corpos nus de seus artistas. Se a nudez permanece tabu, o grupo, que tem como coordenadores o professor Marcelo Denny e o performer Marcelo D’Avilla, chafurdaram no lado b dessas possibilidades e claro, tangenciando sexualidade, vida pessoal e gênero, de forma conflitante e tendenciosa, já que em seus três trabalhos: “Anatomia do Fauno“, “Demônios” e “Sombras“, o foco é a homossexualidade masculina e as questões que envolvem os artistas presente nos respectivos elencos.

É de conhecimento de muitos os meandros, por vezes duvidosos, que perfaz a seleção e permanência de artistas para se compor o  famigerado grupo, que repercute com força nos homossexuais mais jovens, afeitos das possibilidades de ativar a própria libido. Para os mais velhos, o grupo de José Celso Martinez Corrêa fez o trabalho “muito bem obrigado” desde dos anos 90 – período esse em que comecei a acompanhar o grupo Uzyna Uzona.

Em “Anatomia do fauno” (2015), a encenação tinha como estímulo a literatura de Arthur Rimbaud e de tabela e mote as relações conflituosas e emocionais de gays, tendo como base as questões do elenco da época. As dezenas de artistas em cena propiciava cenas emblemáticas e interessantes que refletiam de forma pungente e crítica as relações homossexuais, já afetada pela fragilidade da promiscuidade, das relações pautadas em redes sociais e do preconceito dentro da própria comunidade.

O que sensibilizava a platéia nos Faunos, era justamente o misto de provocação, cenas esteticamente bonitas e emotivas e um elenco disposto a “dar a cara a tapa“, em prol de ser ouvido. Essa possibilidade de pegar o expectador pelas emoções deu lugar a uma encenação sombria e hermética – “Demônios” (2018) – que trouxe uma visão fatalista de corpos gays, rendido ao fetichismo da exaltação da imagem, divas e da violência.

O capítulo intitulado “sombra” do livro “A biblioteca à noite” de Alberto Manguel, foi o mote da 3° produção do grupo, e uma das atrações do evento realizado pelo SESC Paulista no segundo semestre de 2018. A encenação consistia em conflitar em cena trechos de obras literárias censuradas e os corpos dos artistas. O público ouvia os textos – que teve curadoria do Prof. Ferdinando Martins –  por meio de fones de ouvido, enquanto as singularidades em cena simbolizavam todo o desconforto e implicância de obras e corpos censurados. Por causa da instituição contratante, cenas foram censuradas.

Essa palavra “censura” sempre soará como uma forma castradora de cercear a concepção de um trabalho ou um pensamento, mas no caso do Teatro da Pombagira também foi – sem querer querendo – uma provocar os artistas para que eles não se apoiassem na sexualidade exacerbada, que virou obviamente, uma muleta de criação para os mesmos. O sexo é uma forma apelativa de prender o público, e o grupo ficou bem mal acostumado, ao se utilizar dessa opção para transmitir seu discurso. A constatação chegou e pode ser vista nas apresentações que o grupo faz durante as apresentações na edição deste ano do Festival Mix Brasil.

Parte do público assiste a encenação com fones, o que possibilita a audição de textos, que de certa forma implica numa outra leitura das cenas construídas pelos artistas. Sem os fones, metade do público (no mínimo) da platéia de sábado (16/11) teve sua percepção do trabalho prejudicado. Restou a esse público assistir cenas que fora do contexto da literatura perdem forças e se tornam frágeis. Mesmo artistas como Renato Teixeira que esboça um interessante trabalho de corpo, soa mais do mesmo, pois sua coreografia é basicamente uma extensão do que o mesmo fez em “Demônios“.

Numa era midiática onde somos bombardeados com milhões de imagens constantemente e temos acesso a qualquer tipo de informação, sexuais ou não, um trabalho como o feito pelo referido grupo precisa fugir da armadilha de achar que só criar possíveis imagens “polêmicas”, com pintos e bundas é o suficiente. Não é. Não mais. O grupo carece de uma reinvenção que o tire da forma e os preencha de sentido. Sentimento e utopia poderia ser uma poderosa combinação que justificasse as escolhas estéticas e cênicas dos artistas envolvidos.  Em “Sombras“, o ápice da futilidade foi atingida com a inserção da cena de sexo explicito.

A pornografia camuflada de arte é uma opção vazia e tosca. Não excita, não provoca, não transmite beleza. O que se assiste é um ato que serve apenas para inflar e fragilizar o ego dos artistas envolvidos. Seria triste, e não fosse trágica a responsabilidade dessas pessoas que acreditam estar sendo transgressores quando oferecem mais do mesmo do que já ofertam em suas redes sociais e em outros eventos. Com o intuito de problematizar, a cena protagonizada por D’Avilla e Hugo Faz, ainda faz uma referência ao famigerado “clube do carimbo”, que consiste em indivíduos masculinos que “carimbam” outros homens gays com a possibilidade de serem infectados pelo vírus do HIV ao fazerem sexos desprotegidos. Sim a cena é sem camisinha e completamente desnecessária pois não dialoga com o tema da encenação, que supostamente fala sobre a censura imposta na literatura e de tabela nos corpos que a faz.

Fiquei pensando se essa minha postura de ter uma revelia a cena pudesse estar influenciada por outros motivos, de ordem pessoal e/ou moral – por exemplo – que desse conta de explicar minha aversão. Eu simplesmente não a entendo como uma opção útil para uma suposta dramaturgia da encenação. E como público acredito, que ter a impressão de que as escolhas cênicas servem para sanar o ego dos artistas envolvidos é uma das piores formas de decupar um trabalho. É literalmente, e no mal sentido, uma punhetação.

O tema da AIDS esteve presente em todos os trabalhos do grupo e permanece um fantasma para muitos homossexuais, promíscuos ou não. Ao enfatizar o ato sexual com o tal carimbo é como se a encenação credenciasse o tal “carimbo” como uma opção valida e louvável, para ir contra a censura e preconceitos aos corpos soropositivos. Repare, ser vitima de uma pessoal mal intencionada, que se propõe a contaminar os outros é muito diferente do que você se colocar “em risco” por livre e espontânea vontade.

Com tal cena, o Teatro da PombaGira atinge um lugar bem duvidoso e se torna refém do seu próprio discurso ao enfatizar, e validar uma prática, menosprezando a tão poderosa liberdade sexual e de escolhas. A cena é totalmente desnecessária. E fragiliza e talvez roube o que supostamente estimulou os artistas a criarem esse trabalho, a tal literatura. O grupo corre o risco de cair de novo no lugar comum, se não se reinventar e procurar outras formas de se colocar politicamente em cena, sem ter que se expor de forma apelativa e degradante. Ninguém merece isso. Quando as opções de atos masturbatórios (seja no ego, seja no físico) só faz sentido para o(s) artista(s) que o faz, o trabalho como um todo se revela inconsistente e pueril.

Rodolfo Lima

Crédito foto: Amanda Clemente

Obs: o grupo faz sua segunda apresentação dentro da programação do Festival Mix Brasil, as 17h (segundo consta no folder impresso) no Centro Cultural São Paulo – CCSP, grátis. Ingressos distribuídos 1 hora antes.

Eu de você

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Não há nada que comova mais nos dias de hoje que uma experiência a partir de fatos e sensações reais. Ou quando se pode comprovar/sentir emoções de fatos. Estamos tão saturados de tecnologia e relações efêmeras e digitais que o simples olho no olho por vez causa pequenos abalos internos. De posse dessa possibilidade de encarar e ser encarada, afetar e ser afetada, Denise Fraga sobe sozinha ao palco em seu primeiro monólogo: Eu de você. Na estrutura não há novidades,são histórias reais, que a atriz se utiliza para teatralizar situações e emoções. De cara a primeira referência é o quadro “Retrato Falado” – que foi ao ar no Fantástico, em dois período 2000 a 2001 e 2003 a 2007.

A fórmula: pessoas comum escrevem cartas, a atriz dá vida a elas. É a mesma premissa da peça, livremente inspirada em narrativas reais. Com direção do marido, Luiz Villaça, poderia ser mais do mesmo, mas a atriz dá um salto em sua performance ao se mostrar vigorosa em cena. Denise tem empatia de sobra, uma capacidade de imprimir verossimilhança que se não é um dom, não acho outro termo melhor para nomear essa qualidade que a atriz carrega de sobrepor verdades e intenções no seu corpo mignon.

Foram 34 cartas que serviram de base para a dramaturgia da peça. Na ficha técnica 5 pessoas respondem pela dramaturgia (Denise, Cassia Conti, Fernanda Maia, Villaça e Rafael Gomes), 3 pelo texto final (Gomes, Denise e Villaça) e 3 pela colaboração dramatúrgica (Geraldo Carneiro, Kenia Dias e José Maria). Não deixa de ser uma surpresa a forma como o texto – “construído” por 8 pessoas – decorre sem fissuras e vai envolvendo o público de forma delicada e tocante. A costura dramatúrgica é grande pois além das cartas, junta fragmentos de autores como: Valter Hugo Mãe, Fauzi Arap, Drummond, Clarice Lispector, Bertolt Brecht, Joel Pommerat e Leminski.

A direção coloca a atriz cara a cara com o público numa forma de enfrentamento e por que não, uma forma de apelar para a sensibilização do público. A graça? Funciona. Denise consegue concentrar todo o foco do público em sua voz, corpo e personalidade, oferecendo sutis mudanças em corpo e voz, que faz com que sejamos apresentados, ou suponhamos nos aproximar, dos reais protagonistas das histórias. Sem os colegas de cena, sem elementos que a amparem, além do seu corpo e da cumplicidade do público,  Denise se mostra uma atriz versátil e com fôlego para, sozinha, dar conta de tantas singularidades.

As “minorias” tem destaque – negros e homossexuais (inesquecível a história do homem assaltado pós karaokê) – bem como temas delicados como a morte. Nesse último caso vale perceber como a atriz se joga no desconhecido ao buscar a emoção olho a olho com seu público. O texto é difícil, a proposta arriscada, o resultado da marcação imprevisível. E o que resulta disso é uma performance honesta e direta, que cativa pela possibilidade de vislumbrar o desnudamento emocional de Denise.

Num primeiro momento, o formato lembra o solo de Clarice Niskier “A Alma Imoral“, onde nua e de posse de uma pano, a atriz narra reflexões e pensamentos colhidos do livro de nome homônimo de Nilton Bonder e em cartaz desde 2006. Se Clarice apresenta textos mais complexos e de difícil digestão. Denise apresenta histórias mais palatáveis e não menos simbólicas e com possibilidade de reflexão.

Outra referência possível é o filme “Jogo de Cena” (2007) de Eduardo Coutinho. Onde vemos atrizes famosas ao lado de mulheres comuns tendo suas histórias,emoções e percepções do mundo metamorfoseadas, colocando em xeque os limites da dicotomia realidade x ficção. Em Eu de você, Denise recebe o público – prática comum em suas peças, já faz uns anos – e dialoga como conhecidos e desconhecidos como se todos fizessem parte do seu hall de amizades. A opção pela utilização da projeção de rostos de anônimos, em contrapartida a imagem famosa da atriz, corrobora com o insubstituível documentário de Coutinho. “As canções“(2011), outro filme do cineasta também pode ser associado ao solo da atriz.

O encantamento da atriz pelo cotidiano é inspirador e bem vindo. E se parte da solução para um mundo mais pacifico e harmonioso recai na empatia pelo outro, olhar para o lado, mesmo quando o lago de nossas vaidades e saudades nos obriga a olhar apenas para a frente é uma metáfora poderosa, um grito de alerta da atriz para que sobrevivamos melhor e possamos reverberar mais solidariedade e cumplicidade. O teatro de Denise é de comunhão. Não há como sair ileso do seu jogo cênico e da nossa inevitável necessidade de se conectar com o outro.

Rodolfo Lima

Obs: A peça segue em cartaz no Teatro Vivo até 15 de dezembro de 2019, de sexta a domingo, respectivamente nos seguintes horários: 20h, 21h e 19h.

+informações: @eudevoceoficial @denisefragaoficial

Brian ou Brenda?

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A questão mais urgente e inflamada do momento em relação aos direitos dos seres humanos recai sobre as questões de gênero que primeiro dividiu o mundo de forma binária: homens e mulheres, e depois, sadicamente, excluiu e empurra pra margem tudo o que não se enquadra em seres XX e XY, ou seja, o mundo realmente está em colapso e o destino é incerto. Uma montagem como Brian ou Brenda? é antes de tudo um convite a empatia.

Com direção de Yara de Novaes e Carlos Gradim, a montagem alavancada graças ao Prêmio Cleyde Yáconis, da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de São Paulo mistura com muito sucesso didatismo e teatro, criando resoluções cênicas, que provoca e sensibiliza a platéia. É um feito, mesmo que a peça seja literalmente uma bandeira hasteada em prol do que é considerado diferente. A produção levou tão ao pé da letra a pluraridade de corpos, gêneros, sexualidade e origens, que escalou para o elenco artistas de diversas origens: Jimmy Wong (Oriental), Paulo Campos (Negro), Kay Sara (Indígena), Marcella Maia (Mulher Trans) e Giovanni Venturini (baixa estatura), entre outros.

Diante de tanta singularidade o sistema coringa proposto pelo dramaturgo Augusto Boal (16/03/31- 02/05/09) foi um recurso pontual e assertivo da direção para que todos pudessem vivenciar diferentes papeis e assim, engrandecer o jogo cênico e ao mesmo tempo propor que as pessoas revejam suas questões sobre os gêneros estáticos. Se alguns podem ser tudo o que quiserem, porque outros não? É um convite a reflexão, mesmo que a peça “legende” isso a todo instante, inclusive com as (desnecessárias) músicas de “Secos e Molhados” – um exemplo do excesso, exposto em cena.

A peça é baseada na trágica história da Família Reimer, que viram todos os seus sonhos começarem a emergir num poço sem fundo ao aceitarem que, após uma operação de uma fimose mal sucedida, num dos gêmeos masculinos (Brian e Bruce) recém nascidos, os pais aceitassem,criar um dos filhos como uma garota, seguindo as orientações do DR. John Money que defendia que era possível criar uma criança de acordo com um gênero imposto pela genitália e ou por escolhas alheias as questões subjetivas e emocionais, e porque não espirituais. O experimento fracassa, as crianças são constantemente violentadas em suas singularidades e o final não poderia ser mais catastrófico com o desmantelamento dos integrantes dessa família.

A peça então surge como um alerta para os espectadores que acreditam que a ideologia de gênero existe e que ela precisa ser combatida. O caso exposto em cena revela sem deixar dúvidas ao público que o certo seria deixar a criança crescer e assim verificar em qual gênero ela se enquadraria, independente dos sexo biológico. É simples, mas muitas pessoas insistem em resistir a essa possibilidade libertária de criação de filhos, tantos crianças intersexo ( que nasçam com características biológicas de ambos os sexos), como crianças fisicamente normais. Que o feminino e o masculino são construções histórico -culturais e que essa “educação” é matriz de diversas fobias, machismo e intolerância, já é sabido. A pergunta que não quer calar é: Por que não nos tornamos mais tolerantes? Por que insistimos em criar filhos de forma a aprisionar suas singularidades? Por que se aceita o machismo como referência de atitudes? São muitos os porquês.

O texto de Franz Keppler ao mesclar fatos reais e ficcionais, recai sobre tais questões sem pesar a mão no panfletarismo, abrindo brechas para que a direção potencialize o que não pode ser respondido, apenas sentido, ou no caso do teatro, presenciado. Ao nos tornarmos cúmplice de tais atrocidades revemos nossos conceitos e mudamos as atitudes, certo? É o que se espera, mesmo que isso seja uma utopia.

A montagem tem uma estética colorida, jovem e em ritmo acelerado, para quem sabe atingir principalmente o público jovem, que fomentam a diferença e futuramente poderão interferir em prol de corpos plurais e na sexualidade fluida. Mesmo que os figurinos de Cassio Brasil parecem exagerados, em seus detalhes de cores e estampas, criando ainda mais camadas de leituras para os corpos em cena, o resultado acaba entusiasmando, mesmo que pareça um verniz a mais no todo.

Brian ou Brenda? é um necessário convite a reflexão, sem abrir mão do entretenimento e da militância. É realmente um acerto o resultado, mesmo que o diálogo diretamente sobre essas questões ainda pareça um imbróglio a ser resolvido, explico: na sessão do dia 19 de outubro, aconteceu um bate papo pós apresentação. Teatro lotado, final de peça metade do público vai embora, a metade que fica faz perguntas aos artistas – revelando a dificuldade de entendimento – que necessitam explicar didaticamente (não que a peça não o seja, veja bem) sobre os assuntos abordados. Nesse diálogo o ator Augusto Madeira faz duas colocações extremamente duvidosas.

A primeira diz respeito ao dialeto usado por Kay, mulher indígena, que em parte do texto diz suas falas em sua língua materna. Alguém do público pergunta qual seria esse idioma, a atriz responde e o ator completa:

ela pode dizer o que quiser né, a gente não entende nada.

No segundo caso, o ator tentou defender as ideias do médico ao sugerir que ele poderia acreditar piamente em suas convicções e não necessariamente fazer mal aos pacientes. Veja bem, estamos falando de um médico que tinha uma teoria e que tentou a fórceps colocá-la em prática. No momento mais cruel do que é contado em cena, o médico obriga o irmão a fazer sexo com a irmã(que se sente como um menino, é bom relembrar, para quem não viu a peça), para que ela saiba como deve ser e se comportar um corpo feminino. A minha pergunta é: como se defende uma pessoa assim?

A amiga que me acompanhava diz: tem que ser o branco cisgênero a falar merda.

Levantamos na hora, em protesto as colocações tão descabidas e indelicadas. Pois não se pode corroborar com a perpetuação das ações de tal médico, que mesmo se deparando com o fracasso de suas teorias, permaneceu impondo violências aos irmãos, alheio a todas as consequências oriundas dessas ações.

Diante do relato do ator que não teve empatia e respeito com o idioma da mulher ao lado e se compadece com os erros do médico, percebe-se que ainda temos muito trabalho a ser feito, principalmente quando a realidade se sobrepõem as questões ficcionais de forma tão capciosa.

Rodolfo Lima

(a peça segue em cartaz no Viga Espaço Cênico de 25 de outubro a 27 de novembro de 2019, de sexta a domingo)

 

 

Matadouro

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Em cartaz na Casa da Luz, o solo Matadouro de Órion Lalli propõe uma imersão nas questões sexuais enfrentadas por seu corpo e de tabela por corpos que estão do lado contrário da heterossexualidade e da cisgeneridade. Órion junto com a perfomance, oferta nos comôdos da Casa a exposição “Em.Coitros – Encontros Homoeróticos de um Corpo Soropositivo“, em conjunto as ações se tornam um indigesto mergulho na homossexualidade masculina. Há uma tentativa de poetizar as questões, mas a realidade cruel que tais corpos estão submetidos engole a possibilidade de poesia. Lalli de certa forma sabe, e debocha disso, como um sádico.

Se ao chegarmos ao espaço somos convidados a emergir em imagens de corpos nus, frascos de remédios, e resquicios de memória do corpo do artista, que na condição de soropositivo, procura questionar a relação do mesmo com o mundo que o cerca, ao adentrarmos o espaço cênico o que se propõe ao público e um convivio com a violência homofóbica e a intolerância que agredi fisica e emocionalmente os gays. Não é possível adentrar a sala da perfomance, sem as informações da antesala do espaço. Existe a intencionalidade do diálogo entre a violência que o ator expressa no seu “matadouro” e a que seu corpo sofreu ao ser adquirir o vírus HIV, ou pior, ao ser supostamente desprezado e vilipediado por tal situação? Aparentemente não.

Uma questão: tem como se deparar com a corpo do artista sem as informações que temos acesso antes da perfomance em si?

A questão da soropositividade não vem a tona em cena, Órion trava na frente do público uma luta inquietante com seus anseios, num misto de provocação e sentimentos difusos, que variam da dor para a solidão, imputando mais informações em seu corpo – já inscrito de signos, em virtude das tatuagens – que se debate em busca de uma saída. Um escape para o caos.

Um suposto problema é o fato do artista não constrói uma comunicação afetuosa com seu público, tudo é imposto como que a dizer: “engulam”. O reflexo disso é que a interação fisica com a platéia fica aquém do esperando, pois esse caminho de acesso ao outro não foi estabelecido a contento. Beijar, abraçar ou mesmo se jogar em cena carece uma cumplicidade que não é visto em cena. Mesmo que o artista se mostre receptivo ao seu público na chegada do mesmo.

Em Matadouro cenas são sobrepostas e patinam no lugar comum pois ao revelar imagens e situações de homofobia Brasil a fora, as informações acabam servindo de subtexto para o desconforto que Órion oferta. Essa comunicação por hora velada entre os sentimentos do artista, e hora explicita, pelas informações reais de agressões e assassinatos, preenchem toda a encenação. Essa inconstância de cenas, um misto de cenas improvisadas e pré organizadas fragiliza a peça como um todo e depõe contra a força que o artista leva para a cena.

Há espanto no seu olhar, saudades no seu corpo, aflição nas suas questões. Decupar isso para a cena sem o resultado paracer tão “solto” se torna um problema ao se pensar numa dramaturgia para Matadouro. O fato de ser um trabalho em processo que se faz na frente do público de acordo com a disponibilidade do mesmo, seria uma opção se a proposta fosse toda embasada nessa escolha, não o é. E essa brecha no acabamento enfraquece o resultado.

É como se o hibridismo de linguagens sugerida pelo artista (teatro, dança, artes visuais, performance) tivesse resultado numa mistura difusa de referências. Digo isso, pois a força de toda a provocação que o artista se propõe a instigar esta em seu próprio corpo. Como se fosse um bacante desgarrado e carente, que com sua dança, suplica empatia.

Finalizar a performance ao som da música “My Way” é uma opção agridoce para um artista que apesar do caos que o preenche, dentro e fora do seu corpo o que vemos e vida pulsando a espera de acolhimento, reconhecimento e validação. Uma busca insana a que muitos gays estão submetidos. É uma performance assumidamente gay e para o emponderamento do mesmo. Uma pena que o artista não tenha conseguido – dessa vez – fazer com que o público mergulhasse junto com ele e nele. Desnudando assim um desespero coletivo, mas que parece abafado dentro de cada um de nós.

Rodolfo Lima

Serviço:

Casa da Luz

Rua Mauá, 512 – Luz

Dia 22/10 – 20h – Contribuição voluntária no final da apresentação

#últimapresentação

Cazuza pro dia nascer feliz – o musical

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Existem trabalhos que convidam a uma revisitação. O musical sobre o cantor Cazuza é um desses casos. Primeiro pela personalidade e talento do artista, e segundo por sua importância impar no cenário da música brasileira, quiça cultural do país. Agenor de Miranda Araújo Neto, o famoso Cazuza, morreu dia 07 e julho de 1990 em decorrência das consequências do vírus HIV, aos 32 anos, e marcou profundamente a história da epidemia no Brasil.

O musical dirigido por João Falcão, com textos de Aloísio de Abreu, que voltou em cartaz este ano após sua estreia em 2013 em terras cariocas, continua com fôlego para encher plateias e emocionar. Não é uma tarefa fácil já que hoje em dia muito se avançou no que se pensa e entende sobre ser “tocado”(termo delicado usado para falar sobre soropositivos) pelo vírus. Mesmo com tantas questões emblemáticas na abordagem da doença, o resultado em cartaz no Teatro Procópio Ferreira faz uma bela homenagem ao cantor e não poupa o público ao evidenciar o quanto a doença minuou a energia do artista.

Dividido em dois atos e com quase três horas, o musical exige fôlego e por mais que pareça excessivo, o que nos fica no final é a saudade que o cantor deixou. Suas colocações, suas músicas, seu jeito peculiar de viver e sua poesia. Não é um musical recheado de coreografias, grandes cenários, trocas de figurinos, ou o que se entende por tal gênero teatral. Ao contrário é um trabalho que concentra todas as apostas no protagonista e de como tudo e todos orbitaram a sua volta.

Bebel Gilberto, Frejat e os integrantes do Barão Vermelho, Caetano Veloso e Ney Matogrosso são os artistas retratados em cena, assim como Ezequiel Neves, famigerado produtor de Cazuza responsável por boa parte da carreira do artista. São retratos chapados e sem complexidade, com exceção de Neves que está caracterizado de forma caricata, destoando do toque sutil dado aos outros personagens.

É uma peça de ator, e nesse sentido Osmar Silveira não decepciona. Há empatia e certa semelhança com o artista, o que facilita na hora de embarcarmos na fantasia de estar diante de um ídolo. Silveira sabe fazer bom uso da persona que representa e todos acabam sendo beneficiados. Entre os artistas da primeira montagem, vista por 200 mil pessoas e que passou por 13 cidades brasileiros , está de volta ao palco: Susana Ribeiro (Lucinha Araújo), Marcelo Varzea (João Araujo), Fabiano Medeiros (Ney Matogrosso) e Bruno Narchi (Serginho) e André Dias (Ezequiel Neves).

Outro ponto importante resgatado pela remontagem do musical é a figura ideológica acoplada a imagem do artista. Cazuza é uma espécie de anti herói urbano e burguês que fez do seu corpo e de suas vontades campos de estudos e criatividade. Mesmo que a peça não rasgue a imagem do cantor e o subverta em cena nas questões referente a sexualidade (Cazuza soa como uma bicha deliciosamente afetada. Jamais seria um gay heteronormativo. #amém), há espaço para maneirismos do artista, com uma ou outra trepada. São esses detalhes que humanizam a figura do artista e faz com que transitemos entre o achar engraçado, sexy, louco e inteligente. É um artista que tem sua obra a frente da sua imagem. Um vencedor, sem precedentes.

A citação do episódio em que é ressaltado a capa da Revista Veja, que estampou na primeira página a doença do cantor insinuando que  o mesmo agonizava em público, revela que o lado b da imprensa está entre nós desde do século passado. A doença ocupa todo o segundo ato da peça e torna Cazuza um personagem quixotesco e a imprensa brasileira se tornou mais um dos desafios que teve que enfrentar antes de sucumbir de vez.  Sua luta é triste e linda ao mesmo tempo. O musical nesse sentido – de evidenciar o artista e sua obra – cumpre a função de entretenimento e provocação.

Cazuza ainda é o exemplo de uma figura controversa e fora dos padrões, que pagou o preço de suas escolhas, e que fez do excesso o trampolim para a realização dos seus desejos. Como não se seduzir e reverenciar esse exemplo de alma inquieta e ainda tão necessária para tempos obscuros? São respostas que o musical  não oferta. Saímos do teatro tocados por uma nostalgia incomum, talvez só despertados por artistas insubstituíveis. A montagem de Cazuza por dia nascer feliz – o musical corrobora com essa imagem.

Rodolfo Lima

Obs: a peça segue em cartaz ate 03 de novembro de 2019, no Teatro Procópio Ferreira, sexta (21h) sábado (18h e 21h30) e domingo (18h)

Foto: Bruno Lemos

História Natural do Amor

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As narrações sobre as relações amorosas de homossexuais masculinos são frequentemente esboçadas no teatro e no cinema de forma fraturada e aquém ao idealizado. Isso é sempre uma questão em aberta, quase condição sine qua non para quem ousa se apegar a ideologia amorosa. Em História Natural do Amor de Guilherme Zanela ele enfatiza três vezes ao logo da encenação: “aqui não é Brokeback Mountain“. Referência explicita ao filme de Ang Lee lançado em 2005 e que se tornou um dos principais filmes do cinema queer, que entre outras questões, tem como fetiche a relação amorosa e sexual de dois homens cisgêneros, tudo sobre o arquetipo/fetiche dos cowboys.

O que Guilherme quer enfatizar é que não haverá relatos de afeto em seu discurso, não como estamos acostumados a idealizá-los, muito pelo contrário, suas experiências fisicas com outro homem vem alicerçadas por drogas, violência, prostituição, comércio. Ou seja, haja o que houver Guilherme parece ser uma alma com a sensibilidade esburacada. Não é triste, porque o tom que o ator impõe é sisudo e por vezes antipático. Se não há saída para as questões esboçadas por Zanela, o bom séria que ele se soltasse e se divertisse, afinal, ao sentarmos na platéia para ouvi-lo falar, já nos tornamos seu cúmplice, não há o que ele temer.

O texto de Javier Saez e Sejo Carrascosa “Pelo Cu: Políticas Anais” é a plataforma de argumentos de Guilherme que em vez do coração, foca no cu para tecer assim um desconfiado caminho para se acessar os afetos. Não vemos seu coração, mas seu cu. Mesmo que em algum momento ele peça permissão para beijar alguém da platéia, o que se vê é um ato mecânico para enfatizar que o cu nada mais é que a outra extremidade da boca, orificios que Zanela defende com a mesma frieza.

Essa falta de personalização em seu discurso torna pretensioso o resultado. Para os estudiosos do gênero que tem acesso ao texto usado como base para o solo, o resultado não tem um efeito surpresa e nem de choque que por vezes ele pretende. É o trabalho de formação do curso técnico para atores da Escola de Artes Dramáticas – EAD/USP, mas já que a ideia era “rasgar o cu” em cena, que o fizesse sem tanto melindres e porque não de forma a enaltecer essa dádiva que é “ir tomar no cu“. Esse é o desejo dele, mas seu discurso oferece uma visão crítica e agridoce do ato. Onde mora a parte boa disso?

Há associações que parecem exageradas, como a da crucificação de Jesus, afirmações frouxas “o amor é de esquerda”, e? Referências frágeis, como a dança típica do seu lugar de nascença. E lugares emblemáticos citado por Zanela, como que a debochar – como é o caso das saunas gays, famigerado lugar que acaba sendo o recurso de muitos gays para satisfazer o corpo e/ou procurar afeto. Mas Guilherme não chafurda nessa vivência, expõe o corpo – padrão, convenhamos: liso, branco, magro, jovem – expõe suas referências – excessivas e comum a muitos , e parece expor seu passado. Mas falta a Guilherme a vulnerabilidade, o risco, o que o individualize. As escolhas cênicas são tão esquemáticas que isso de certa forma depõe de forma duvidosa para o todo.

A direção de José Fernando Peixoto de Azevedo, que em sala de ensaio, estimulava o artista a esgarçar seus limites, colabora para esse tom de panfleto onde a encenação se encerra. O trabalho com cunho confessional como o que se propõe Guilherme merecia que essas questões nascidas sala de ensaio permeasse a cena diante do público, para que pudessemos ver o lado humano e falho – e sempre bonito e atraente, porque nos iguala – do artista e não um artista supostamente protegido e mecânico.

Entre as escolhas de marcação cênica a grande sacada é justamente ao do filme críticado, ilustrado neste post com uma imagem. É o único momento que podemos vislumbrar fagulhas de afeto, tesão e emoção, em contraponto a frieza e o tom zangado com que Guilherme se apresenta. Ali não é “Brokeback Mountain“, uma pena, mesmo que por segundos é nos ofertada a ilusão de reviver a cena e almejar o fetiche, existe alguém que não o deseje?

Não temos a possibilidade de se afeiçoar ao corpo de Guilherme – ele está nu, mas seu corpo não está a serviço do volúpia do desejo – suas referências carecem de significados que as dignifiquem e façam sentido para além do óbvio e o que nos resta são unir as peças que o ator joga ao público com sarcasmo e pessimismo. Mesmo que seja um trabalho necessário e significativo, não é uma encenação fácil e Guilherme soa como um cubo de gelo, que não sofre alterações diante da troca com seu público.

Rodolfo Lima

*as próximas apresentações da peça em SP são:

19 e 20/10 – Teatro Laboratório da ECA-USP

23 a 31/10 – SP Escola de Teatro

 

Baderna Planet

Baderna Planet – Foto de Henrique Mello10-min.JPG

A nova montagem do Satyros, grupo curitibano que completa 30 anos tem por objetivo em Baderna Planet discutir questões inflamadas dos tempos atuais, de forma baderneira e caótica. Mas o que se vê é um resultado agridoce de bandeiras levantadas e que esbarram nas questões de gêneros e raça. Com direção de Rodolfo García Vazquez e dramaturgia feita pela dupla Vazquez e Ivam Cabral, a festa poderia ter sido radicalmente elaborada, mas faltou a equipe criadora subverter os assuntos e oferecer ao público uma provocação a contento.

As temáticas são reais e problemáticas: homofobia, transfobia, racismo, misóginia, assédio, machismo  – por exemplo. Tudo junto seria o que formaria a tal baderna se por muitos momentos o público não fosse contemplado com cenas que beiram o confessional e portanto intimista, e que em vez de bagunçar o espectador por dentro o deixa sesnibilizado e protegido na platéia.

É o que acontece quando a abordagem aborda o machismo tóxico e a misoginia. Se a primeira cena tem como intuito pegar o público pelo lado sentimental e emblemático, próprio do depoimento pessoal – quatro atores depõe suas histórias para o público – a segunda “floreia” o assunto ao mostrar uma cena musicada para enfatizar que o discurso da mulher contemporânea está muito além dos velhos clichês. É boa também a referência que se faz as mulheres trans e suas questões, mesmo que a cena seja mas ilustrativa sem um acabamento combativo ou caótico.

O mesmo pode se dizer quando a peça esboça uma cena de capoeira para evidenciar a questão negra e suas referências. O trio tem empatia e força, mas a cena parece solta do todo, que no geral sofre do meio para o fim patinando em volta dos mesmos assuntos, mas sem a novidade e atração que a peça oferta na primera metade, quando a abordagem é a homossexualidade masculina e a possibilidade de se beijar em público. Temas como as fakes news propaladas pela religião – por exemplo – são abordadas no inicio e depois não retomam mais.

A montagem é resultado de um grupo de pesquisa criado para abordar o tema da intolerância e os 21 artistas em cena resulta num misto de artistas já conhecidos pelo público do grupo e novos “caras”. Essa é a verdadeira baderna característica do grupo, misturar diversas singularidades em cena e propor que suas individualidades e experiências contamine a cena, no intuito de assim atingir a um público maior e mais heterogêneo.

Há folêgo no grupo, fato, mesmo que por vezes tenhamos a sensação de que a abordagem do tema pareça um simulacro da realidade. Faltou então que a direção verticalizasse o tema e provocasse seu público de forma mais complexa e caótica, tanto na forma como no contéudo. Os figurinos de Vasquez quando se propõe a não revelar rostos, tons de pele e caracteristicas fisicas se torna uma importante amalgama para reitifica as mazelas que atingi o indivíduo na atualidade, independente de suas origens e caracteristicas fisicas.

O título da peça é uma referência a artista italiana Marietta Baderna, que se refugiou no Brasil aos 20 anos (em 1849) e desenvolveu em terras cariocas sua arte que trazia contestações importantes para uma sociedade machista e escravocrata e claro foi perseguida pelo seu viés ideologico e ovacionada por seus fãs. Porém sua voz é ouvida no inicio do espetáculo e depois é abafada no meio de tantas inquietações. É uma espécie de anti heroina, como a montagem se propõe a lembrar.

Fãs é o que não falta ao Satyros e justiça seja feita, a abordagem do grupo nas questões da homossexualidade masculina já tiveram muitos acertos e o grupo detêm uma dezenas de cenas de peças onde a questão veio a tona. Não há toa, esse tema é o melhor abordado em Baderna Planet. Propicia ao público um misto de ironia, provocação, poesia e improviso, que faz com que o público se inflame e reaja ao proposto pelo grupo. Do beijo ao medo somos inseridos numa abordagem crítica sobre a falta de liberdade afetiva e fisica que segue acometendo gays masculinos e cabeças retrogradas.

O clima de Happening ao qual o público é recebido no inicio da peça, perde força para o melodrama, o que esfria os ânimos, mas não acaba com a relevância das vozes de seus intérpretes e nem com a tentativa de criar uma baderna ainda maior do que já vivemos. Baderna Planet é mais uma das obras construidas pelo grupo que tem por intuito questionar certezas e colocar seu público para fora das caixinhas. É uma luta a se respeitar.

Rodolfo Lima

Obs: a peça permanece em cartaz até 09/11,  de quinta a sábado as 21h

+ informações: http://www.satyros.com.br

(Foto: Henrique Mello)