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Me chame pelo seu nome

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O filme tem estreia marcada para 18 de janeiro de 2018 e promete causar certo burburinho nos cinemas tupiniquins. Não tanto pela história em si, quero dizer, pelo que é mostrado, e sim pelo que é induzido: a dimensão do desejo e consequentemente o afeto e a forma como lidar com o que resta. Uma dinâmica sempre dolorosa e delicada quando se resta só diante de uma história, uma experiência emocional importante.

Em alguns lugares se lê que “Call me by your name” (Me chame pelo seu nome) é o próximo “O segredo de Brokeback Mountain“, discordo. O drama dos cowboys acontece numa aridez espacial e sentimental, ambos tem a mesma idade e realidade, e o afeto acontece meio que sem querer, como se eles fossem pequenos diante da grandiosidade do sentimento que os arrebata. Mesmo a efetivação do sexo entre os personagens, é visto como o encontro de dois homens. No longa em questão, vemos um menino e um homem. Em “Me chame pelo seu nome” a dupla em questão tem idades diferentes, o lugar em que estão é ensolarado e charmoso, e de certa forma estão protegidos pelos que os rodeiam. Além claro, do principal: a diferença de idade. Sim, ela faz diferença, como atestamos no final, com o diálogo arrebatador entre pai e filho – as mais de duas horas de projeção vale por essa cena, creia.

Adaptado do livro do egípcio André Aciman, lançado em 2007, e que também chega as livrarias ano que vem, o roteiro conta a história de Elio (Timothée Chalamet) um jovem de 17 anos que empresta seu quarto para Oliver (Armie Hammer), que passará seis semanas em função da amizade com o pai, a quem auxiliará numa pesquisa acadêmica. A história se passa nos anos 80, na costa da Itália, com paisagens charmosas e aconchegantes. Num primeiro momento parece que tudo é feito para seduzir, o que não ocorre “de cara”.

A sensação é de que há dois filmes. Que se interligam, claro, porém fazem a diferença se pensarmos separados. Na primeira 1 hora vemos a amizade de Elio e Oliver surgir, uma certa malicia no ar, porém de forma muito velada. A direção de Lucca Gadagnino dá toques poderosos de homoerotismo em seu longa. Muito dorso, muitos enquadramentos generosos dos corpos dos atores, sem que eles estejam nus. O fetiche também se mostra presente: vide para quem é fã de pés. Porém a sensação que se tem, é que tudo é muito velado e apático, embora o clima do local em que vivam esbocem o contrário. Se Elio se mostra ousado e impetuoso, Oliver se mostra indiferente, mas isso não o exime de ser atencioso com o garoto. Diria (correndo o risco de ser preconceituoso) que o filme tem um olhar “heteronormativo” para as questões gays.

Na virada da segunda metade do filme, com a concretização do desejo deles, as opções da direção se mostram sensíveis e certeiras e seduz a platéia de forma charmosa e delicada. Temos a diferença de idade, da efemeridade da situação, do risco de serem pegos, do charme do que vão viver. E o principal: da entrega a que estão submetidos. Lucca já havia dirigido outro filme (100 escovadas antes de dormir) onde a sexualidade aflorava num corpo jovem e claro, modificava a personagem e os que a rodeavam.

O filme é sobre isso, sobre essa entrega, sobre viver um momento, sobre não se intimidar diante do risco e assim crescer internamente com o vivido. O sexo é a cereja do bolo. Metaforizada de forma poderosa na cena do pêssego. Há ali, erotismo, poesia e beleza, não me lembro de ter visto outra cena onde o esperma tenha tanto protagonismo. Repare na forma como ele surge. Esse momento por sinal não é exatamente como é narrado no livro, mas o sugerido é poderoso e combina com o “clima charmoso” estabelecido na película.

Vou me ater – para não me prolongar mais – nas questões que envolver o personagem mais velho. Que simplesmente “pira” com o corpo jovem de Elio. Essa “virada” tão abrupta no filme parece over. Mas como comentou um amigo no final da projeção: talvez no livro não seja assim. É, esperamos que não.

Se Elio se empondera dessa possibilidade sexual, já que o outro o infla de segurança e masculinidade, Oliver se fragiliza e parece vulnerável demais. Além claro de questões relacionadas a diferença de idade, pouco se sabe sobre a sua sexualidade. Mas ver o outro refém do órgão genital alheio, permanece uma situação emblemática e poderosa, e claro, incômoda. Grosseiramente poderia dizer que é a história de dois homens heterossexuais que se permitem. E a beleza é justamente a capacidade da entrega. Ninguém resiste a personagens rendidos pelas próprias emoções.

No site http://www.guiagaysaopaulo.com.br há uma matéria que data de 09 de agosto de 2017, onde o diretor revela muito de como “seu olhar” impregnou a história de Elio e Oliver: “Eu não estava interessado em tudo. O tom seria muito diferente do que eu estava procurando. Eu queria que o público dependesse completamente da viagem emocional dessas pessoas e sentisse o primeiro amor. (em depoimento ao The Hollywood Reporter) Eu não queria que a platéia visse qualquer diferença ou discriminação em relação a esses personagens. Era importante para mim criar uma universalidade poderosa, porque toda a ideia do filme é que a outra pessoa faz você linda, ilumina você – o eleva. O outro é muitas vezes confrontado com a sensação, o medo, ou a sensação de medo, mas o acolhimento do outro é uma coisa fantástica a fazer, particularmente neste momento histórico“.

“Me chame pelo seu nome” tem que ser visto e digerido. Pela ótica de outro diretor talvez propusesse um olhar mais ousado e quente para esse encontro. E nós, público gay saturado de tanta pornografia virtual e sedento da concretização dos atos, somos obrigado a educar o olhar e ser generoso com as questões alheias. Esse para mim é o maior desafio que o filme propõe para o público gay – por exemplo – a possibilidade de se reconectar com a sensação de poder viver uma emoção pura e transformadora.

Rodolfo Lima

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O som e a sílaba

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Você sabe qual a condição do cantor lírico no Brasil?” essa é uma das questões que vem a tona na montagem de “O som e a sílaba”, que parte de um pressuposto clássico: o encontro entre mentor e pupilo. No caso Sarah (Alessandra Maestrini) e Leonor (Mirna Rubim), a primeira uma jovem “diferente”, talentosa e sedenta de oportunidades e novidades, a segunda uma profissional famosa com um longo histórico emocional e artístico. É o embate entre essas singularidades – temperada com as questões sobre arte e vocação – a cereja do bolo da montagem.

Com texto e direção de Miguel Falabella, a montagem traz momentos delicados e sutis que fazem toda a diferença. Pois o público se encanta com Sarah/Alessandra e junto com ela vai vencendo a rigidez oferecida pela personagem de Leonor/Mirna. Digo isso, pois a realidade foi ficcionalizada no palco já que Mirna é professora de Alessandra, que estuda canto lírico desde a juventude.

O autismo (Síndrome de Asperger) de Sarah faz com que a realidade nos seja relatada por outros ângulos. A composição de Alessandra é bem delineada e causa empatia, e a experiência da atriz é um trunfo, pois, a vontade, a atriz brilha em cena. Mirna soa mais sisuda e automática nas marcações propostas peça direção. Porém, ambas são cantoras talentosas, e em cena  são verossímeis, cúmplice. Para quem não tem o hábito de frequentar óperas, a projeção vocal das artistas impressiona. O que levou a produção inserir um áudio da direção afirmando que as atrizes não dublam, cantam de verdade.

A dramaturgia é tocante ao tratar da doença da protagonista, revela com propriedade e clareza as questões que envolvem o diagnóstico. O mais bonito da montagem é envolver a questão clínica com as questões do universo artístico de um grande intérprete. Leonor quer que Sarah preencha os silêncios com as questões das personagens que canta, em especial, uma Julieta. Essa observação é a mais importante feita pela professora que ensina a importância do silêncio e as metáforas poderosa desse lugar assustador para alguns. É tocante e emblemática a visita de Sarah a uma feira de rua e a poesia que à na revelação desse momento.

Contidas, as piadas do texto, são digeridas entre momentos poéticos e dramáticos. Falabella, conhecido por diversas produções cômicas, enfatiza as habilidades de Sarah ressaltando suas qualidades como cantora lírica. A doença então é colocada em cena, como uma característica atípica da personagem e não como algo limitador e excludente. Dona de si, a personagem só quer uma oportunidade de poder dar vazão ao que considera importante. “Não estou pedindo que você me ame. Apenas que me estenda a mão“.

No final, sabemos que muitas pessoas precisam dessa “mão amiga” – uma mão lava a outra em muitos aspectos, bem sabemos – de alguém que acredite em nós e nos ajude a se estruturar. É essa simbologia a potencia da montagem, que do cenário (Zezinho Santos e Turíbio Santos) aos figurinos (Ligia Rocha e Marco Pacheco) esboça cuidado e bom gosto.

Sarah perdeu o pai, quando criança – “Triste lembrar de tantas músicas e não lembrar da risada do meu pai” – sempre foi vista pela mãe como estranha, mora com o irmão e a cunhada, que claro… vê nela um estorvo. É quando Sarah canta “On Mio Babbino Caro” que a emoção preenche o palco, e todos nós, assim como a personagem, precisamos ser perdoados.

Sarah aprende a organizar suas questões  – do seu modo, claro – e seu talento; Leonor se abre a aluna e é renovada com a sede de vida e talento da aluna; O público é agraciado com as questões sobre arte e vida. A entrega do artista e a forma como tudo se mistura de forma produtiva e ambígua.

Tudo em “O som a sílaba” é uma surpresa. Do equilíbrio entre momentos cômicos e dramáticos; o talento das artistas; a personalidade da autista que mescla estranheza com beleza; o teatro e a ópera mescladas de forma certeira e produtiva; além da emoção e a empatia que o público recebe.

Não percam a montagem. A peça oferece momentos de empatia importante nos dias de hoje. A alteridade, questionada por alguns, é celebrada de forma poderosa e tocante.

Rodolfo Lima

Obs: a peça segue em cartaz no teatro Porto Seguro até 26 de novembro

https://www.teatroportoseguro.com.br/programacao/pecas/o-som-e-a-silaba.html

 

A Invenção do Nordeste

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Foi em março de 2008 durante o Festival de Curitiba que esbarrei em dois nordestinos que mudaria as minhas referências do que vem a ser o tal “nordeste” do País. Ela baiana (Ceci Alves), ele cearense (Magela Lima), ambos jornalistas. A partir desse encontro aprendi que nem tudo “é coisa de baiano” como havia sido culturalmente – e erroneamente – educado. A parte o preconceito da expressão, começava a reciclagem das minhas referências.

Algum tempo depois outro casal “lá de cima” entraria na minha vida para bagunçar as tais referências. Ele pernambucano (Rodrigo Dourado), ela potiguar (Weynna Dória), ambos eu encontrei no ambiente acadêmico. Com elas morei, em suas casas, em suas cidades, em suas realidades. Com eles aprontei pelas ruas, debati muitas questões artísticas, me hospedei em seus lares, interagi com o universo singular e provocante dessas minhas “amigas”. O nordeste se reconfigurou para mim. Fui novamente educado, agora pelos amigos.

Aprendi com eles que a tese de Euclides da Cunha poderia estar errada – “O nordestino é antes de tudo um forte” – porque independente da realidade que tais amigos viviam, eles são como eu, apenas tinham outras referências, outro linguajar, outro paladar, outras manias, outra forma de decodificar a vida. Ou seja, eram passíveis de fragilidades. O óbvio, né?Meu Deus… como eles me foram necessários e me fazem falta. Eu, um “paulista azedo” que sairia da casa da mãe pela primeira vez, justamente para mergulhar em Salvador, um “País” a parte, convenhamos. Parte do amadurecimento da minha história (emocional e artística), por sinal, começaria na Bahia.

Não poderia deixar de conferir a montagem do Grupo Carmin para o livro (A invenção do Nordeste e outras artes) de Durval Muniz de Albuquerque Jr. Ambos questionam a tal “invenção do Nordeste”. A primeira vez que li sobre o autor, foi na tese do amigo cearense. Se uma leitura pode soar sisuda e maçante para alguns, a montagem do grupo “alivia a barra” e deglute o livro. Com pitadas de deboche provoca o público a repensar o seu entendimento do que vem a ser qualquer estado acima do Espirito Santo. Não é um tarefa fácil, mas com leveza o grupo deu um briefing do quanto a questão é inflamada.

Em cena, Robson  e Mateus, respectivamente os atores Robson Medeiros e Mateus Cardoso – duelam por uma vaga de “nordestino” numa produção artística. Um tem “cara” de boliviano o outro de “paulista azedo”. Estereótipos na arena, o jogo começa. Afinal, “não precisa ser, basta parecer“. O “juiz” desse embate é um “diretor nordestino” escolhido para filtrar o mais nordestino deles. Ou seja… camadas ai de questões que vão sendo descamadas cena a cena. Precisa se achar uma voz, um corpo, uma “verdade nordestina”. Ela existe?

O Brasil tem 9 estados  (e 3.000 municípios) que compõem o que vem a ser o tal Nordeste do País. Todos eles são lugares míticos  – recheados de clichês – e culturas específicas, que fazem a fama dos lugares, onde todos “deitam e rola”, convenhamos. Cospem no prato que comem, eis a verdade. Quem está de dentro despreza o olhar do ângulo Sul/Sudeste e quem é de fora pretensiosamente se assegura de morar num lugar, num eixo, onde “tudo acontece”. Outro mito, culturalmente falando. Sabemos pouco um dos outros. Eis a trágica verdade. A relação é tensa, mas o olhar do grupo por vezes parece “fofa”. O apaziguamento e a poética são os recursos cênicos utilizados.

Há duas vertentes críticas na peça. Primeiro a que recria os mitos do universo nordestino e a segunda a regionalista, que coloca esses mesmos “abastados” um contra o outro. Um recorte estabelecido que define o que é regionalismo a partir de um único prisma pode ser visto no programa The Voice, por exemplo, Carlinhos Brown e Claudia Leite compunha metade da banca de jurados. O programa trocou uma cantora por outra. Sai Leite entra Ivete Sangalo.(Não vou me ater na guerra estabelecida pelo teor artístico de ambas).Mas quem tem coragem de dizer: “Tchau Ivete?

Em dado momento, parece que a questão em cena fica entre Natal e Pernambuco. O “paulista azedo” (Mateus Cardoso) é um achincalhamento necessário para pontuar a possível raiz de tantos bordões difamatórios aos nordestinos, porém e de Pernambuco que vem um dos grandes cultuadores da cultura nordestina: Gilberto Freyre. A Bahia – por exemplo – é ignorada, embora seu território seja declaradamente uma fronteira, onde “tudo pra cima é Norte e tudo pra baixo é Sul“. Para citar outro estado, além do Ceará, posto na mesa.

A peça tem duração de 60 minutos, mas os temas e os personagens dariam por si só outra peça e outros olhares para a questão: seja os personagens (Chicó, de “Auto da Compadecida”, por exemplo) do paraibano Ariano Suassuna; o casal de justiceiro Lampião (pernambucano) e Maria Bonita (baiana); a idoneidade religiosa de Padre Cicero (cearense); a política feita por Renan Calheiros (alagoense) e a Família Sarney (maranhense); a máscara de palhaço de Tiririca(cearense), e a diferença entre cangaço e sertão.

A peça enfatiza, foi no Ceará que começou um dos processos separatistas que talvez, tenha culminado em tanta xenofobia nacional, quando se isolou parte dos flagelados cearenses para que os mesmo não chegassem ao litoral. Isso em 1915, dezoito anos antes do processo de horror do nazismo alemão. Ou seja, o nordeste é algoz de si mesmo. O IBGE oficializou o Nordeste apenas em 1942. Foi esse o ponto inicial do processo da cultura separatista? Há muito dos interesses locais, que os estados abaixo da Bahia não tem um conhecimento aprofundado. Gosto daquela máxima: “Há muitos Brasis dentro Brasil”. A peça joga luz nesse imbróglio.

Para entender o Nordeste é preciso entender o cangaço“, e quem explica?

O que você acha que é um cangaceiro?” O clima na platéia fica suspenso.

“Do que é feito o DNA nordestino?” Qual deles? Quis perguntar.

Um dos senões da montagem são os temas que ficaram de fora, como a questão racial. (Se o olhar fosse baiano, “vamos combinar” que o assunto seria condição sine qua non). O mito do cabra macho é esboçado em cena e é tudo colocado na conta de burgueses – como Freyre – que estudaram na Europa e trouxeram um “jeito afrescalhado” de ser para os nativos. Outro assunto bastante polêmico e que tem um tratamento simbólico – e porque não deficitário – é o Carnaval. Qualquer pessoa sabe que a festa “de lá” não é a mesma “de cá”.

Na busca infinita desse corpo nordestino – a peça não dá vai te dar a resposta, sim fiz um spoiler – a mitificação dele e sua subutilização é motivo de crítica e arranca risadas do público. Afinal, os atores nordestino são chamados para viverem personagens regionalistas em suas fases iniciais, de novelas e filmes, por exemplo, e depois substituídos pelos famigerados atores globais. como o ator Cauã Reymond. Quem pode dar mais mídia do que ele? Aprovado para viver na primeira fase, um personagem nordestino, Robson questiona: “Mas quem vai fazer ele na segunda fase? O Antonio Fagundes ou o Tony Ramos? Para que eu possa me preparar de acordo com o ator“. A ironia é sútil e certeira, ambos tem registros similares e não são nordestinos. Não há atores nordestinos nessa faixa etária?

O fato de se ironizarem é um salvo conduto para o grupo. Que debocham e fazem troça de muitos clichês nacionais, sem deixar de evidenciar os sub empregos que seus conterrâneos ocuparam na capital, bem como de métodos artísticos (referência a preparadora de atores Fátima Toledo) que supostamente alcançam o tal corpo nordestino.

Eu que tive a minha vida modificada e estimulada, por muito amigos nordestinos – não adentrei a Paraíba, por falta de tempo, não de amigo (Astier Basílio) – e pude contar com a influência irreversível de três artistas baianos (Saulo Moreira, João Pedro Matos e Marcelo Sousa Brito), sinto muita falta de não poder circular mais por tais regiões. De ser alvo de chacota – num preconceito reverso – por carregar uma região nas costas. Quem botou essa região na gente?

Parodiando a questão Shakesperiana o grupo afirma: a questão é “ser i não ser” e não mais “ser ou não ser“. Alguém dúvida?

Rodolfo Lima

 

Obs: a peça fica em cartaz até 26 de novembro no SESC Belenzinho, de quinta a sábado, 21h30 e domingo, 18h30. Mais sobre o grupo: http://www.grupocarmin.com

 

 

A visita da velha senhora

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Tenho uma queda pelo tema da vingança, confesso. Nunca me utilizei dessa possibilidade para fazer valer o que meu coração entenderia por justiça. Digo pelo viés emocional, porque creio que esse sentimento é um misto de mágoa, que sem querer querendo o indivíduo alimenta e se não toma cuidado, concretiza, externalizando o resultado das ações recebidas. Diante da possibilidade de ver minhas questões alimentadas por lábios alheios, não perderia a visita de Clara Zahanassian (Denise Fraga) a sua cidade natal.

Clarinha, como os moradores de Güllen a chamam, é uma espécie de Tieta do Agreste – a mítica personagem de Jorge Amado (1912-2001), que teria se inspirado no texto de Friedrich Dürrenmatt (1921-1990) para criá-la – para dar um exemplo nacional que se equipararia a versão Suíça, da mulher que volta emponderada e detentora de poderes materiais e que impõe suas vontades, reduzindo os outros aos caprichos de seus impulsos. Enfatizando com muita propriedade que a ética alheia é algo bem variável e claro, manipulável. A visita da velha senhora é um clássico que ganhou força com o tempo, pois estamos cada vez mais refém do poder econômico. E é justamente dessa fragilidade que Clara debocha e nos atinge em cheio, meros proletariados a esperar o dia do pagamento.

O riso provocado em Dürrenmatt é sarcástico e por isso pesa. Rimos do outro, pois ainda é melhor rir da desgraça alheia do que dá nossa. Porém o recado está dado. A direção de Luiz Villaça ao optar colocar os atores emparedados no fundo do palco a observar a cena, transforma o palco italiano numa arena, onde todos se tornam moradores da decadente cidade. Onde poderiam se entreolhar, mudos e cúmplices. Todos, personagens, atores e públicos observam passivamente o desenrolar da história e a agonia de Alfred Krank (Tuca Andrada), que acusado de ter largado Clara grávida em função de um casamento de interesse, tem que dar sua vida em troca de justiça. Já que para salvar a cidade da miséria, Clara pede o corpo de Alfred em troca. Quem o matará? Clara irá espera. O público também.

O dinheiro pesando contra a dignidade humana é um tema que Denise Fraga persegue. Esteve presente em “A Alma Boa de Setsuan” (2008), de Bertolt Brecht, autor que Dürrenmatt devotava. A visita da velha senhora, além de abordar com contundência o poder do dinheiro, traz a cena uma personagem feminista que ao assumir o controle da situação expõe resquícios da assimilação do universo masculino, que insensível aos dilemas alheios, fazem valer seus desejos, independente de. Um dos exemplos é a forma como Clara troca de marido, assim como os homens trocam de mulheres. A utilização do charuto é outro indicativo desse poderio supostamente masculino, que tem a utilização bem marcada na encenação.

O elenco tem destaque com a presença de Fabio Herford, que dá corpo ao prefeito da cidade. Os personagens são arquétipos do cotidiano: o filho, a mulher, o mordomo, o marido, o policial, o padre, tudo bem simples para que não aja problemas na identificação dos códigos. A encenação de Villaça não oferece grandes arrombo cênicos e isso é bom, pois faz com que nos concentremos no texto, no que é dito de forma direta e sem rodeios. São duas horas de peça, não é fácil, mas é instigante. Afinal, sempre queremos saber do que o ser humano é capaz e como fará para conseguir o que deseja. Esperamos a morte de Alfred. Infelizmente?

Denise Fraga oferece nuances poderosas para sua Clara. Mesmo em silêncio pode se observar a atriz inteira. Na olhada, percebemos que Clara permanece dialogando com os moradores de Güllen, observar a atriz nessa personagem é uma delicia. Nada é mais prazeroso do que um ator inteiro, ou forjando com propriedade uma situação. No teatro nada melhor do que ser enganado. E se o que move a personagem é um desejo emotivo e questionável para e por alguns, a direção e a composição da atriz, evita o drama e oferece uma mulher embrutecida e fria. Os dois últimos momentos de Clara com Alfred poderiam resultar em melodramas, mas esse lugar é recusado.

Para evitar que apoiemos Clara?

Não tem como esquecer do lugar onde Clara pretende colocar o corpo de Alfred. Ou mesmo no que o seu corpo se transformou na recusa do amado. Até onde pode chegar o ser humano desprovido de acolhimento e compreensão. O quanto valemos está em questão o tempo todo na cena. É triste, excitante e engraçado. #experimente

Rodolfo Lima

Obs: a peça fica em cartaz, gratuitamente, de quinta a domingo, as 20h, até 26 de novembro de 2017, no Teatro do SESI-SP, na Avenida Paulista, 1313. É possível reservar convites através do site (www.centroculturalfiesp.com.br). Mas é possível nos dias de apresentação ficar no aguardo de ingressos remanescentes. 🙂

Bicho

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Não há obviedades em Bicho texto de André Sant’Anna com direção de Georgette Fadel. A trilha sonora – de nome homônimo a peça – poderia ser a da banda Titãs, ela também não aparece, mas é uma associação plausível no final das duas horas de encenação onde somos reduzidos a nada, simples assim. O clima abafado da sede da Cia. do Feijão favorece a tensão dos diálogos entre um ator (Jean Machado), um michê (Eduardo Speroni) e uma travesti (Rael Barja/Verónica Valentino), uma trinca potente de clichês que é praticamente esmiuçada sem piedade, por uma dramaturgia que não se importa com o bom gosto, e de forma direta e agressiva desestabiliza a percepção do público.

Boa parte dessa potência está na conta do ator Eduardo Speroni que imprime força e veracidade ao seu personagem, que se pode incomodar com o teor do texto que vocifera, agracia o público com uma entrega impar. O corpo do ator também já deu conta de um caranguejo numa das versões da famosa montagem teatral “Caranguejo Drive”. Ou seja, o corpo magro e vibrante do ator está a mercê de bichos à tempos.

“Seu” michê é bicho/bicha, paralelo ao desejo de ser artista sua principal ocupação é “comer” quem lhe pagar, rápido e prático. Renega classificações, debocha dos homoafetivos, ri dos que desprezam gays afeminados e intimida: quem pode afirmar que eu não sou homem?

Esse desnudamento cru e cruel da realidade de garotos de programas é um diferencial incomum  – diria inédito – nos palcos teatrais. “Garotos Noturnos”, “Garotos de Aluguel”, “Em Nome do filho” e porque não “O Assalto” de Zé Vicente, são exemplos (de textos) diferenciados de peças onde o corpo do homem e suas possibilidades são pautadas no quanto se está disposto a pagar: – Afinal, com camisinha você pode tudo. Curiosamente veio do Rio de Janeiro para São Paulo, também este ano, um potente relato protagonizado por um michê, vivido por Thadeu Matos, com texto de Joaquim Vicente (A Noite em Claro), na peça “Rio Diversidade”. Ambos violentos e que derrubam com força os conceitos de uma homossexualidade heteronormativa, hipócrita e “limpinha”.

O texto de Sant’Anna é provocativo, instigante e desestabiliza o que se entende por masculinidade, virilidade e mesmo a homossexualidade. Nesse balaio difuso de questões inflamadas do universo do homem, a dramaturgia de Bicho é instigante e põe o público a pensar sobre questões delicadas, como a utilização do ânus. “Cu é baixo astral“. A diferença entre “veado” e “gay” é outro exemplo instigante. Para o universo gay o discurso do michê é como uma bomba, explode certezas, revela a hipocrisia e detona o moralismo. Essa combinação de texto e interpretação é a base firme e produtiva da peça.

Um assunto pouco visto em peças que trazem personagens gays é a pertinência do desejo de gays da terceira idade. O michê em questão, ironiza o desejo que há em gays mais jovens, dispostos a tudo para terem seus desejos sanados, em prol de uma velhice supostamente desprezível. É um tapa com luva de pelica na prepotência gay. #atenha-se

A montagem que estreou em Abril de 2015 no Centro Cultural da Justiça Federal – CCJF e cumpriu uma nova temporada em março de 2016 na Sede de Cias, carece de visibilidade que dê conta de valorizar o trabalho como um todo. Não há toa, chega a São Paulo graças ao sucesso de sua “vaquinha coletiva” – a montagem conseguiu arrecadar através de 119 colaboradores, R$15.695,00 reais. A peça oferece mais do que um mergulho no universo da prostituição masculino: questões que envolvem o universo da travestilidade, consequentemente a pertinência delas no universo cênico e a profissão de ator e a mítica que envolve essa função tem espaços equivalentes. São arquétipos que entram em choque e modifica o olhar do público. Bingo!

A existência do “Movimento Nacional de Artistas Trans” encabeçado pela atriz Renata Carvalho colocou em alerta os artistas conscientes do seu papel social e sobre a possibilidade da utilização de um “Trans Fake”, ou seja… a negação da empregabilidade de uma artista travesti em função do trabalho de artistas cisgêneros (indivíduos que se identificam, em todos os sentidos, com seu sexo biológico). A reverberação dessa luta é presenciada de forma poética e eficaz quando a direção problematiza a questão, duplicando o papel da travesti e mostrando na pratica como um não pode ficar em demérito do outro. Bicho conseguiu exemplificar com qualidade uma questão recente e inflamada onde outras peças “patinaram”. Um exemplo foi Desmesura do Teatro Kunyn que trouxe recentemente o assunto para a boca de cena de forma insuficiente. Afinal, quem dá emprego para travesti?

O que leva uma pessoa a se travestir – e a se destravestir – também é colocado em cena, bem como sua sexualidade e a forma como se utilizam do seu corpo. Um das falas emblemáticas e que abrem margem para discussões (produtivas) tem um conteúdo similar ao que reproduzo abaixo: “Pra dar o cu o cara tem que ser mulher. Nem dá o cu o cara pode. Se veste de mulher para comer cu. Bicho se esfrega na primeira coisa que encontra. O humano não, inventa”.

Georgette esteve recentemente envolvida na polêmica do Black Face, onde foi acusada de apropriação cultural ao dar vida a poetisa Stela do Patrocínio (1941-1997), artista negra. Diretora consciente das questões sociais latentes, não se furtou da causa trans. A inserção da travesti Verónica Valentino no elenco, exemplifica com qualidade o que viria a ser o “tal lugar de falar”. Pois o público não fica isento da voz e do canto da vocalista da banda “Verónica decide morrer”. Na troca, a peça ganha outras possibilidades de leituras. Um barril de pólvora criativo e bem vindo. Veja e tire suas conclusões.

A função da arte e os questionamentos da existência de Deus também são problematizados de forma direta e bruta, mas se o conceito da existência divina é um imbróglio infinito (Se Deus é verdade. A verdade não existe, portanto Deus não existe) o do ator diante do seu papel é emblemático e se não exime o público do riso, oferece um retrato debochado do que se conhece pela procura de um artista pelo seu “papel”, é risonho e trágico, porque é real. Simples assim. O recurso do Metateatro se faz presente, as camadas são reveladas e quem diz o quê, se confunde. Afinal, temos em cena seres humanos com questões em comum, independente da profissão. O ator vai até o michê para investigar sua vida e recebe em troca uma resposta curta e incontestável: – Por R$50 reais eu como seu cu e você entende tudo sobre prostituição masculina.

Ali vemos o bicho homem ser destroçado e revirado pois suas crenças são constantemente questionadas. Tem forma melhor de saber sobre um assunto do que não vivenciá-lo na pele?

Temos quatro indivíduos que dão corpo e voz a um duelo insano sobre representatividade, o vazio da existência humana, a necessidade de sexo e porque não da possibilidade de continuar sonhando. Onde mora a poesia e o uso que fazemos dela não ameniza a agressividade do texto, mas serve como um alento. Qual o lugar do afeto?O público segue “manso” a absorver a realidade de tais personagens. Essa passividade não deixa de ser um retrato difuso e emblemático da forma como o bicho-homem lida com suas próprias questões. O público respira aliviado no final, mas transformado pelos personagens. Bicho é urgente, necessário e um alento para a caretice que assola nossas realidades. “Na minha poesia eu sou Deus“, o michê afirma. Acreditamos.

Rodolfo Lima

Obs: a peça segue em cartaz de sexta a segunda, até 27 de novembro, na Cia. do Feijão, rua dr. teodoro baima, 68, República – SP.

Aqui jaz Henry

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Renato Wiemer estava desiludido com a vida, questionando a carreira, as escolhas e os caminhos e a curva que o faria desistir, fez com que ele recuperasse o fôlego e estreasse “Aqui jaz Henry”, texto de Daniel Maclvor, inédito no país, e autor de pérolas como “In on It” e “A primeira vista” – sou fã declarado, assumo. Assim como nas peças citadas, o autor trata do tema da homossexualidade, mas sem fazer alarde ou jogar o protagonismo para a sexualidade de seus personagens. Em algum momento da peça, Henry afirma: eu não tenho problemas em ser gay. Tenho problemas com as pessoas que tem problemas. Não encare o personagem como alguém com problemas em lidar com sua sexualidade. A questão é lidar com seus fracassos, e claro, o amor está no “pacote” das coisas que não deram certo. Se o solo foi criado para o próprio autor desabafar suas questões e se expressar, Renato, recria a mesma possibilidade e permanece vivo. A dramaturgia de Daniel Brooks abrasileira as referências. Ok, tudo fica exemplificado. Mas as nossas referências, convenhamos, são inexplicáveis.

Henry não é apenas um descontente, é um questionador. Sua carência de ter desejado a vida toda ser engraçado e não apenas mau, é tocante. Até porque sua fraqueza está justamente em tudo o que ele não pode ser/ter. E essa humanidade escancarada e a forma despojada e fragmentada com que o texto de Daniel nos chega é o que faz a peça ser uma experiência tocante. Renato está aquém do seu personagem, ele vem a tona e o toma, e no fundo o que falta na sua performance é justamente um desprendimento maior, afinal a verdade te deixa pelado. Renato permanece vestido. É uma metáfora, não precisava ser explicito.

A direção de Kika Freire não expurga tudo do ator. E o grande problema de um solo é que quando o ator não dá tudo o que pode, sua performance fica devendo. As nuances e as quebra que o texto autoriza está muito mais na entrega do ator do que no cenário ilustrativo de Teca Fichinski. Aliado ao figurino de Claudio Tovar e a iluminação de Paulo Cesar Medeiros, tudo é usado para agradar ao público, vide a trilha sonora que vai de Elis Regina, Marisa Monte e Anitta. Porém, o que queremos, público sedente por suor e sangue é justamente o arrombo do protagonista.

O monólogo na maioria dos casos tem que ser o trabalho de composição do ator. Subjugado ao texto e a encenação, corre o risco de submergir e não revelar a contento a que veio. A inércia do personagem em alguns momentos inibe a cena, o que é uma pena. Cara a cara com seu público, Renato sobrevive, pois o espelhamento é grande. Todos nós estamos ali, como Renato/Henry a margem da loucura, do desespero, da descrença e o ato corajoso de desistir. A questão é que não desistimos e essa suposta esperança nos iguala e faz com que nos tornamos cúmplice.

Não nos esforçamos Renato, estamos juntos contigo.

O ápice da dramaturgia é a forma como Henry se coloca diante do amor e da falta de compreensão que assola as relações humanas. Vide o que é dito, entendemos que o personagem é um fracassado emocional. Não há saída para ele, e na falta de uma resposta ele debocha. Sua ironia é recheada de carência. Sempre há o humor. Somos educados para não olhar no olhos do outro. E que o solo faz  – de maneira tímida – é justamente com que queiramos encarar o ator e porque não, rir com ele, dele e por ele. Nós te vemos, creia.

O coração de Henry está sozinho, ele jura por esse espaço ermo que é capaz de fazer tudo pelo outro. Que mesmo fraturado emocionalmente é capaz de ter força e ambição para carregar o outro.  E se o compromisso é o melhor amigo do amor, é com o ato de se comprometer  – mesmo que aos tropeços – que Henry nos ensina a não desistir.

Se as pessoas foram feitas para serem entendidas, como sugere a psicologia, é justamente o caos da personagem que nós faz ficarmos fazendo relações para entende-lo. Esse é o jogo que ele parece sussurrar para nós: você é capaz de me entender? E se entender, gostar de mim? “Você dá, eu recebo“, ele diz e exemplifica como nós devemos agir com ele. A alternância com toques de radicalidades entre comicidade, drama, ironia e deboche, é o que faria o trabalho de Renato crescer. Como podemos ser mais absurdos do que quando nascemos. Henry enfatiza, Renato poderia ter questionado. Esqueceu dessa possibilidade de quebrar as regras do bom gosto e afundar mais e mais, no próprio caos.

Como você se sentia antes de se sentir tão envenenado?” Não sei Henry, não sei Renato. E no final saímos do teatro melancólicos e silenciados. O suposto fracasso alheio reflete um pouco de cada um de nós. Inclusive em nossa miséria, nosso desamor, nossos sonhos de ser desumano e cruel, como uma forma de combater todos esses senões que a vida nos dá.

“Aqui jaz Henry” é mais uma possibilidade de se conhecer o dramaturgo canadense, imprescindível para os dias de hoje. E mergulhar em sua leitura de mundo, que antes e além de rótulos e clichês, nos empareda com o que há de mais pueril em nós, a necessidade de fazer sentido, para o outro e para nós mesmos, para além das mentiras que inventam e inventamos sobre nós.

Rodolfo Lima

A peça segue em cartaz todas as segundas e terças no Teatro Pequeno Ato, as 21h, até o dia 19/12

 

Alair

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Hoje qualquer pessoa se autodenomina fotógrafo de nu. Basta uma câmera boa, um modelo disponível e acesso as redes sociais. Pronto,  sua “carreira” deslancha e se você tiver sorte choverá corpos afim de terem suas idiossincrasias registradas e porque não exaltadas. Há certa banalização para quem se propõe um olhar crítico para essa produção caudalosa. A nudez é necessária e urgente, permanece um ponto nevrálgico de conflitos, discursos duvidosos e uma potente arma que desnuda os conflitos internos e intransferíveis de cada um de nós. Dos expoentes nacional temos Alair Gomes (1921 – 1992) que registrava os meninos do Rio de Janeiro, da janela de seu apartamento em Ipanema e consequentemente teve sua vida, sua obra e suas epifanias misturadas com seu objeto de estudo/trabalho/devoção, o corpo masculino.

“Conto histórias com minhas fotos”

A peça protagonizada por Edwin Luisi (Alair) é uma importante oportunidade de registrar um dos mais importantes fotógrafos nacionais, que teve no corpo do outro um material vasto e incansável de exploração e desejo. E deixou milhares de imagens que permanece um contundente material de protesto e poética que é exposta em cena, nos registos originais e através do corpo dos atores Andre Rosa e Claudio Andrade, que refazem algumas das posições dos fotografados, eternizadas nas lentes de Alair.

Se o fotógrafo tinha o homoerotismo como um norte a ser seguido, como que a “revidar” a dita arte “heterossexual” que assimilamos como a “correta”. Alair foi um ambicioso, um excêntrico e porque não uma pessoa que no afã de objetificar seu desejo, viveu obcecadamente para fazer valer o que se ouve no texto de Gustavo Pinheiro o misto de arte, tesão, procura, admiração e excitação que há nas fotos de Alair. O que o público “lê” com muita facilidade, dado a enxurrada de outros fotógrafos disponíveis no mercado.

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A graça da peça é a retratação de um Alair debochado e malicioso, que via em suas incursões atrás e através dos seus modelos, um lugar de acolhimento, provocação e excitação. Alair é “gente como a gente” e essa humanização de um artista, na qual sabemos pouco é o ganho da peça. Porém não espere que a peça provoque seu público como Alair se provocava se expondo diante de tais corpos desnudos. A direção de Cesar Augusto é tímida e não ousa. “Alair”, a peça, acaba sendo um registro moroso e óbvio, o que não deixa de ser uma decepção. Vide que é de Augusto a direção certeira para o texto de Joaquim Vicente na peça “Rio Diversidade”.

Na peça citada acima, Luís Antônio Martinez Corrêa (1950 – 1987) morreu na mão de um garoto de programa. E foi nas mãos de um de seus objetos de desejos que Alair também perdeu a vida. Augusto conseguiu traduzir no corpo e na disponibilidade de Thadeu Matos toda a violência e cegueira que a no desejo. Talvez essa oportunidade a direção não tenha encontrado no texto de Pinheiro e/ou nos atores de “Alair”. Uma pena. Homossexuais mais velhos, seduzidos e vitimados pelos desejo explicito e pela solidão que os rondava suplantada por corpos mais jovens e sedutores, permanece um fantasma atroz para qualquer juventude.  Não deixa de ser nostálgica a constatação de uma velhice solitária que ainda assusta muitos.

Se a direção de Augusto é careta, a sensibilidade de Luisi na composição de seu protagonista é singela e tocante e de certa forma comedida. É uma pena que um personagem tão emblemático, não tenha sido retratado com ousadia. Os tempos são obscuros, o amor entre homens ainda permanece um dilema a ser respeitado pela maioria. Vide fotos censuradas em redes sociais, museus e afins. Ou seja… se o teatro é a arena da discussão, da provocação, do embate… “Alair” se intimida e fica devendo.

“Sempre um dedo na minha cara apontando minha velhice”

Além de certa caretice em cena, há certa confusão e personagens maniqueístas. Se Alair é o clichê da bicha-velha-debochada-que-poderia-sustentar-seus-modelos-jovens-e-viris, e vejo ai o que diria se tratar da conjunção da feitura de um teatro gay, ou seja, a utilização de arquétipos indissociável do universo homossexual. Andre Rosa é o boy questionador e inquieto, e Claudio Andrade a paixão que Alair Gomes manteve no armário e que acabou perdendo. As causas dessa perda, a peça não explica a contento. Em ambos os casos a relação de Alair com eles é aquém do que se esperava. Vale ressaltar que o embate entre Alair e o boy questionador, reserva para peça, os momentos mais críticos, pois reforça a libido de Alair, frente aos questionamentos descriminatórios da juventude. Como enfatiza Alair: Qual o maior castigo possível aos gays? Um beijo entre homens por exemplo – que é algo que deve ser naturalizado – ganha em “Alair”, status de tabu. Um retrocesso.

Recentemente a Galeria Fortes D’Aloia & Gabriel expôs fotos de Alair Gomes ao lado das do americano Robert Mapplethorpe, como que a afirmar similaridades em homens que projetou toda as suas ambições e angustias na retratação do modelo de beleza grego masculino.

“A beleza e a juventude são a coisa mais importante do mundo”

Porém diferente do que se diz sobre Robert, o que se sabe sobre Alair e pouco. E se o primeiro teve uma cinebiografia ousada e que revelou facetas não tão palatáveis da feitura de suas fotos, com Alair me pergunto se tal exposição seria produtivo para quê? E por que? É uma resposta em aberto.

“Alair” não se furta de evidenciar a violência que ainda atinge a população não legitimada como heterossexual. O peso da religião que norteia mentes e cega percepções. E de exaltar o voyeurismo como uma possibilidade romântica de conexão de arte e vida pessoal. Alair queria que sua arte fosse acessível para todos. Se reconhecia como uma bicha culta e se utilizava dessa possibilidade intelectual de anulação do outro para se sobrepor. O erotismo ainda permanece um erê libidinoso a nos pregar peças.

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O desejo sufocou Alair e continua sufocando tantos outros homossexuais. A peça é a oportunidade de se aproximar de um dos mais importantes artistas da expoente arte homoerótica nacional. Só pelo peso de seu legado a peça se torna necessária. Não é libidinosa como sua arte, porém um importante passo na preservação de uma memória gay nacional.

Rodolfo Lima

Crédito foto: Elisa Mendes

A peça segue em cartaz no Teatro Nair Bello (Shopping Frei Caneca) até 05 de novembro de 2017, sexta e sábado as 21h e domingo as 18h.