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BaqueStriBois

O Mirada 2022 acabou mas a última peça vista, ficou reverberando em mim. “BaqueStribois” lança a pergunta para seu público: “O que é que você vê nessa peça? O que te trouxe aqui?” É como se eles dessem uma permissão para que o público esboçasse o incômodo ou o desgosto de ter acompanhado a encenação. Ou seja, o grupo assume o risco, os atores se dispõe ao perigo e o público se joga no abismo de tentar compreender as imagens e metáforas que os três performer, sob direção de José Ramón Hernández, executam. 

Fiquei pensando que para responder às duas perguntas, eu poderia ser pessoal. Afinal decupamos um trabalho artístico a partir de nossa vivência, expectativas e compreensão de mundo. A peça se propõe a um mergulho no universo da prostituição masculina gay em Cuba e em vez de ditar conceitos e respostas prontas. Resolve provocar o público com imagens e símbolos. Sem o menor medo de ser redundante, cansativo ou escatológico. Deve ser porque em algum momento o  sexo tem essas três características, inevitavelmente. 

1) Fui ver a peça pois me interessa o mergulho em temas que dialogam com sexo, corpos masculinos, homossexualidade e prostituição – sim, acho um lugar muito potente de recriação de percepção de mundo e “BaqueStribois’ era uma das minhas apostas, digamos. E diria que para a curadoria do Mirada/SESC, foi a mais arriscada. 

2) Sou gay, então um corpo masculino nu, já me diz muita coisa. A provocação já começa ai. É diferente sim, minha percepção. Assumo, acho mais justo. 

* Um muro de tijolos onde se escreve frases sentimentais sobre o amor é o reflexo dos tempos em que vivemos, onde tudo parece ter que se concretizar no mais árido cenário. É poético e triste e um não anula o outro, foi a metáfora mais crua para mim;

* Bananas são facilmente associadas ao falo. É uma associação clichê. Porém quando vimos o performer comer mais de 10 bananas de forma compulsiva e sem interrupção, automaticamente fiz uma analogia ao excesso de sexo que os profissionais do sexo, vivenciam e porque não dos hábitos gays. Sim, em algum momento e a depender da intensidade e rotatividade do sexo, tudo pode parecer nojento e nauseante. Experimente fazer sexo sem vontade.

* Para reforçar toda a crítica que os profissionais do sexo recebem, pedras. Muitas pedras, que são jogadas para o alto com o intuito de atingir o corpo do performer. O público fica aflito com as pedras, e talvez seja isso que a encenação queria mostrar: como a opinião alheia pode machucar, ferir, atacar… é bíblico e óbvio, e por isso mesmo funciona, to-dos-en-ten-dem.

* Um doce literalmente feito na pele, batido no ventre, espumoso, branco e para muitos, saboroso. Um ator melado. Até onde a imagem pode nos levar?

“BaqueStribois” cria dualidades para criar tensões entre o olhar de quem vê e de quem faz.  Utiliza o corpo do ator como potente local perigoso, que se debate, se admira, se choca com outros e porque não se admiram… se esfregam… Pode haver afeto em algum momento, quem sabe. 

A associação da prostituição masculina com a transexualidade feminina, foi para a plateia brasileira uma associação perigosa, já que há um esforço hercúleo para que a comunidade trans se desassocie do gênero masculino e a peça reforça esse lugar. Ok, em Cuba, as prostitutas travestis/transexuais, infelizmente, ainda são enquadradas como homens, mesmo que sua imagem diga ao contrário. É uma questão que merecia ter tido uma adaptação a contento para o Brasil, já que houve a participação de mulheres transexuais, que tem no currículo experiência na prostituição. As diferenças entre Cuba e Brasil pareciam informações óbvias, mas, merecia um reforço, já que há uma preocupação da montagem de evidenciar os dilemas da transexualidade. Não ser confundido com homens que se travestem de mulher, talvez seja o mais emblemático deles.

Há espaço para a balbúrdia e as não respostas. O público fica vendo os artistas se esbaldarem de vinho, enquanto rolam no chão num misto de brincadeira/tesão/tensão/briga… É violento e erótico e porque não excitante. Sim, pode/deve haver prazer na vida de prostituto. Nem tudo deve ser dor, desamor, ignorância e medo. Para muitos não é possível mostrar a verdadeira identidade, o que acaba sendo um reflexo poderoso de uma sociedade que insiste em (tentar) calar o que foge das normas.

Corpos molhados, machucados, cansados, objetificados, desprezados,  pulsantes e por que não, entediantes. Melhores metáforas para ilustrar a complexidade que existe no mundo da prostituição. “BaqueStribois” (que estreou em outubro de 2016) termina sem resposta – ela é construída na cabeça de cada um, não se preocupa em ser agradável e nem compreensível. Propõe o que de melhor o teatro pode fazer: instigar e incomodar. 

Rodolfo Lima

Crédito: Rafael Ferro

Encantado

A capacidade de fabulação da dança nem sempre é fácil de ser digerida pelo público. Por vezes hermética e rebuscada, é uma linguagem artística que se torna acessível para poucos. Seja pela falta de hábito – infelizmente – do acesso a esses trabalhos, seja pelo valor dos ingressos, ou mesmo pela falta de bagagem cultural. Todos entendem e se contaminam por um corpo dançante. Mas nem todos são capazes de “ler” essa manifestação. Sempre precisa ser lida? Não pode ser apenas sentida? Pode. Deve. A dança é também uma das linguagens mais democráticas, pois não precisa fazer sentido, só precisa ser sentida.

“Encantando” da Companhia de Dança Lia Rodrigues, que estreou em Paris, ano passado, consegue unir com potência e beleza essas duas pontas da dança: a expressão do corpo, sem proselitismo, com a possibilidade de se ler e fabular narrativas e imagens a partir do que se está vendo. Ok, essa última é subjetiva, e todas as expressões artísticas são carregadas dessa potência. Mas, o trabalho em cartaz no Sesc Pinheiros tem por objetivo a recriação de mitos, seres encantados, de personagens “mágicos” e populares que perfazem a história da cultura brasileira. É um acerto de Lia.

Você senta para ver e é automaticamente capturado pelas imagens que vão sendo construídas na sua frente. Corpos nús + panos e as imagens se formam, simples assim, pontual assim, especial assim. A peça com duração de 60 minutos dura o tempo certo para não cansar e nem causar desinteresse. A narrativa vai num crescente nos mostrando o quão a criatividade e versatilidade dos bailarinos é bem vinda e atraente.  Seduz pela beleza das cores, pela diversidade dos corpos, pelas estampas que camuflam e confundem nosso imaginário, de forma lúdica e singela. É a mais bela opção, quando se opta pelo simples, pelo pequeno, pelo aparentemente banal. Lia Rodrigues faz de gestos e estampadas cotidianas um potente material de (re)criação, nos colocando de frente com o que há de mais sagrado em nós: a imaginação. 

É uma pena o trabalho ser visto (apenas) como uma obra “adulta”, muito em função da nudez dos artistas, que não tem a menor importância na cena, é apenas para evidenciar um corpo desprovido de significados que se molda na frente do público a partir de códigos e gestos que são construídos e jogado fora no momento seguinte, potencializado o hibridismo e as potencialidades do quanto podemos ser, virar, ter, imaginar. E se “Encantando” trabalho com panos (140 ao todo) e estampas, o potencial imagético do adulto, do que será capaz de provocar, ativar e estimular nas crianças e adolescentes? Arrisquem-se, não ignorem a capacidade de compreensão dos “pequenos”. “Encantado” é para todos, uma proposta seminal a favor da imaginação.

Inspirado no aclamado romance “Torto Arado” de Itamar Vieira Junior, o livro serviu de base, mas a sensação é que se torna figurante. Todas as imagens podem ser facilmente assimiladas e compreendidas a partir da bagagem do espectador, sem a necessidade de compreender a narrativa do livro. Se o intuito da montagem é trabalhar com o encantamento e nossos medos diante do desconhecido e do assombro do novo, o que se propõe ao público é uma viagem pessoal e encantadora por lugares que podem ser vista pela ótica dos pré-conceitos, mas que na cena de “Encantado”, perde sua força negativa e ganha status de novidade atraente. Atente-se para a instigante trilha sonora do povo indígena Guarani Mbya. Se entregue a essa experiência, você não sairá do teatro o mesmo. 

Rodolfo Lima

Encantado

Companhia de Dança Lia Rodrigues

Sesc Pinheiros

Teatro Paulo Autran

Sexta a domingo, até 10/04

R$40 (inteira) R$20 (meia)

http://www.liarodrigues.com/

Naked Boys Singing!

Naked Boys Singing! estreou dia 16 de outubro em São Paulo e logo depois teve seus ingressos esgotados. A temporada vai até 19 de dezembro de 2021 no Teatro Sergio Cardoso. Não se pode dizer que isso seja febre de teatro presencial, pois nem todas as salas em São Paulo estão com sua plateia lotada. 11 homens nus foi o impulso para que o público se manifestasse de forma tão pontual. O falocentrismo é notório e inquestionável, e a dramaturgia ressalta isso. Logo na primeira canção os atores afirmam que a plateia pode olhar a vontade, sem se sentirem constrangidos. Enquanto os mesmos balançam seus membros, os distraídos são fisgados. 


O jogo cênico é simples, cenas curtas sobrepostas, enquanto os atores desfilam nus em tom cômico e debochado. A plateia lotada parece “ganha”. Aplaude e reage com facilidade, mesmo quando o desempenho não é a contento – se o parâmetro for as performances de atores em musicais. A direção de Rodrigo Afner cometeu o deslize de trabalhar só no registro dos arquétipos e tudo se dilui, pois parece pueril e esquecível. Se o intuito era entreter e misturar riso com malícia, essa última faltou – já que em em nenhum momento a peça propõe um risco ao adensar as relações e/ou marcações – tornando as mais ousadas, o que é uma pena. A mistura de riso, risco, tensão e provocação teria sido mais potente, mas tudo vira um pastiche fetichento para satisfazer a plateia sedenta por: pau, literalmente.


Se o desejo era exaltar a poesia dos corpos masculinos nus, faltou um pouco de tato de entender que em alguns momentos seria mais interessante baixar o tom cômico e deixar que o enredo das cenas conduzisse o desfecho, que não precisaria ser engraçado. Que é o que acontece com a cena do casal interpretado por Rairo e André Lau. Um beijo (pra valer, o que não é o caso aqui) pode ser bem mais impactante e sedutor do que um corpo nu – por exemplo.


Idealizado pelo americano Robert Schrock, a peça estreou na Broadway em 1998. Trata-se de uma sequência de 15 esquetes no estilo vaudeville. Afner teve a liberdade para adaptações e duas de suas escolhas soa duvidosa: a citação ao deputado federal (nem vou me ater a dizer sobre suas opiniões e colocações) Alexandre Frota, que como ator posou para a GMagazine. Tantos atores/celebridades já fizeram isso, que citar Frota soa no mínimo de mau gosto; Um solo inteiro dedicado ao fetiche em homens rústicos como os personagens interpretados por Amácio Mazzaropi (09/04/12 – 13/06/81). Foi o tipo de escolha bem duvidosa pois ele não seria referência nem para os homens gays e nem para as mulheres. E numa adaptação mais pertinente, há outros “modelos” de homens rústicos que poderiam ter dado conta dessa metáfora.


Cenas em vestiário masculino,  homens circuncisados, homens que oferecem seus trabalhos domésticos nus, homens sofrendo por amor, a masturbação masculina e claro… a lendária cena (gay) de homens nus dentro da sauna. O espetáculo não é assumidamente gay, mas os clichês estão todos lá. Inclusive com a inserção de cenas onde o diretor exalta o feminino e uma identidade não binária – por exemplo. Cenas coletivas, como a da masturbação, são mais interessantes pois preenche o palco e não mostra tanto a fragilidade cênica de alguns atores.


São Paulo já teve uma adaptação dessa peça em 2003, que estreou no Teatro Augusta (infelizmente, fechado) pela direção de Zé Henrique de Paula, Se não me falha a memória, uma encenação mais viril – por exemplo. Encenado graças ao PROAC LGBT, “Naked Boys Singing!”deve voltar a cena em 2022, afinal, a depender da reação do público a essa primeira temporada, a procura é grande. Afner já levou a cena a questão da homossexualidade com sensibilidade ao dirigir “O Príncipe desencantado – O Musical” (2017), pena que nessa nova direção, não oferece ao público nada além do que uma celebração festiva e vazia da homossexualidade masculina.

Rodolfo Lima

Charlie e a fantástica fábrica de chocolate – o Musical

A volta do Teatro Musical nesta última quinta-feira (16/09) é um feito a se aplaudir de pé. Primeiro porque a pandemia arrasou o setor cultural e deixou o teatro vazio. Os que sobreviveram e que podem voltar à ativa, dá para contar nos dedos. A casa do gênero musical, localizado na Av. Brigadeiro Luiz Antônio e agora batizado de Teatro Renault vai abrir as portas para o público acompanhar e conhecer os Charlie e Willy Wonka brasileiros, até 19 de dezembro de 2021. É um feito, que vai testar o poder comercial do teatro musical e sua relação com o público, já que para se manter uma produção de 250 pessoas, precisa-se de muito fôlego financeiro, convenhamos. A peça que deveria ter estreado há 1 ano e meio atrás, mais precisamente no dia 19/03/2020 é o pontapé inicial de grandes produções nessa retomada e torcemos para que não seja a última.

Realizado pelo Instituto Artium de Cultura, com direção de John Stefaniuk (também responsável pela versão brasileira de Billy Elliot), a produção, que deveria ter estreado no Teatro Alfa, levou para o Renault em pouco mais de 1 mês, uma estrutura pensada para outro espaço. Empecilhos em função da pandemia impediram entre outras coisas que o design de luz estivesse presente, tendo que acompanhar todos os ensaios on line. Troca de elenco infantil, mudança de voz, também foram questões enfrentadas pela produção. Vale ressaltar que na coletiva de imprensa realizada à tarde, o presidente do Instituto, Carlos Cavalcanti, assumiu o risco da empreitada de estrear agora – o trabalho era previsto para voltar somente em 2022 – pois acredita que é seu papel apoiar e participar da retomada de eventos e produções da cidade de São Paulo, e assumiu que produtor também sofre. Não duvidamos.

A estreia de uma peça que tem como temática central o poder da imaginação e a esperança parece “cair como uma luva” para os tempos em que vivemos. Charlie é um garoto vivendo numa situação paupérrima junto com sua mãe, avós e avôs e que sonha em poder conhecer a Fantástica Fábrica de Chocolate Wonka. Humilde e honesto o pequeno tem a capacidade de fabular sua realidade e um poder de resiliência invejável –  exemplos bem-vindos em tempos tão sombrios. A história de Roald Dahl publicada pela primeira vez em 1964 e adaptada para o cinema em 1971 é uma história moralista, onde crianças más e/ou que fogem às regras pré estabelecidas são punidas, além de terem comportamentos duvidosos que as tornam vaidosas, gulosas e arrogantes. A salva guarda de uma personalidade fora das normas é permitido apenas ao comportamento amoral de Willy, o dono da tal fábrica.

Interpretado por Cleto Baccic, o protagonista da história deixa a desejar no que tem de mais rico e inquietante – portanto passível de uma problematização – o sadismo implícito em suas ações. Baccic compõe seu Willy Wonka mais próximo de um “bonachão” e essa escolha por não carregar na interpretação, faz com que seu personagem careça de nuances que o torne mais interessante. Não é clownesco e não é engraçado. O pior: não é inquietante. Ou seja, é um personagem sem complexidade. É como se o personagem carecesse de tonos, de personalidade. O ator é um experiente profissional do segmento de musicais e perde a chance de oferecer uma composição a contento com – digamos – os brios e a malandragem brasileira – por exemplo. Não é claro qual a visão do ator para o mítico personagem. Digo isso pois, a montagem brasileira não é uma réplica da montagem original, o que permitiu que os profissionais tivessem liberdade para “ler” a história e oferecer ao público sua versão dos fatos.

História essa que também é levada ao palco do Teatro Renault com uma adaptação duvidosa que deixa de fora um fator importante para o entendimento da obra como um todo. Assim como os felizardos colegas que também acharam o bilhete premiado, que dá direito a conhecerem as instalações da fábrica, Charlie também infringe as regras e isso não fica claro na montagem. Ou melhor, nem é citado. Por sinal, essa passagem da peça – quando vemos Willy e Vovô Joe – no fundo do mar, é ruim, pois a cena se torna ilustrativa e não se justifica. Ela não é explicada. Se você não tem o repertório da história e não é um público atento a narrativa, passa batido essa “mancada” na adaptação de Mariana Elisabetsky – outra profissional experimente, inclusive com o público infantil. Já que o fato de Charlie também ser passível de erro e se mostrar arrependido no final, faz toda a diferença para que Willy o presenteie com a fábrica. Mas não, a montagem “chapa” o garoto como um coitado pobrezinho, que se solidariza com os coleguinhas, se tornando merecedor da bênção de Wonka, sem muitas explicações. É pouco. Essa escolha da direção aliado a falta de sadismo em Wonka, rouba a graça da história, que tem em sua dualidade de questões morais seu grande trunfo. Ou seja, temos uma montagem festiva e bem executada, porém rasa de contexto.

Mesmo com um orçamento acima do normal para uma peça de teatro (de outro gênero), os musicais costumam arrecadar alguns milhões para poder entrar em cena. Guardada as devidas proporções, obviamente que a cenografia – a cargo de Michael Carnahan – é o ponto que mais suscitará curiosidade, já que o público – habituado ao poder imagético da sétima arte – espera que o cenário surpreenda com sua excentricidade e explosão de cores. Há boas resoluções para o palco, e opções incompreensíveis como o espaço da sala de chocolates, que “enlouquece” Augustus, que não resiste e se atira no rio doce. Mesmo que se trate de uma peça onde o lúdico é instrumento essencial para se acompanhar a história, existem imagens que não deveriam ser supridas da imaginação do público. Muiro pelo contrário, deveria pro-vo-car o público. A montagem frustra ao não investir na instigante possibilidade de atiçar a gula do público. Afinal, estamos numa fábrica de… cho-co-la-tes.

As opções duvidosas da versão brasileira, não tira brilho da montagem. O elenco é potente e interessante. Personagens como as das crianças Veruca, Augustus e Violet (uma boa sacada na adaptação da retratação dessa personagem, no que tange questões de raça e cultura pop), da repórter Cherry, do vovô Joe e das mães. Todos imprimem energia na montagem e nos entusiasmam. Ou seja, se você não conhecer a história e nem tiver conhecimento e apego nas versões cinematográficas, será mais fácil se deixar levar e se divertir. Vale ressaltar que os adereços e figurinos são outro trunfo para que a peça possa ser apresentada de forma satisfatória no nosso contexto. A relação de Veruca com os esquilos e seu bizarro desfecho é um bom exemplo de como a peça pode resvalar intencionalmente no politicamente incorreto e em assuntos delicados, sem se ater ao debate, suavizando – mas não o suprimindo – de forma interessante com resoluções lúdicas. 

Charlie e a fantástica fábrica de chocolate – o Musical, entretém. Mira no público infantil, deve descontentar os adultos afeitos a outras referências da história, tem um ambiente instagramavel no hall do teatro e é nosso primeiro espetáculo musical. Uma tentativa corajosa para que o paulistano tome gosto pelo teatro novamente e fomente o setor das artes cênicas. Para uma história onde se prega a esperança e a boa fé, seu contexto, a tal “moral da história” é outro trunfo para desarmar os conservadores de plantão, afeitos a “pixar” as artes cênicas como um território apenas transgressor e de ideias esquerdistas. Temos aí um Willy para nos mostrar que-não-é-bem-assim. Seguir acreditando nos sonhos, valorizando a solidariedade e empatia familiar e ser um “bom garoto”, talvez não faça das crianças presentes na plateia, merecedoras de herdarem um império, mas com certeza garantirá muitas guloseimas caras.  

Rodolfo Lima

Serviço:

Teatro Renault, Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 411, Bela Vista.

Sex., 20h30. Sáb., 15h30 e 20h30. Dom., 14h30 e 19h30.

R$ 50,00 a R$ 310,00. Até 19/12/21

ticketsforfun.com.br.  

Classificação etária livre. Menores de 12 anos, acompanhado dos responsáveis.

 *Apresentação da carteirinha de vacinação é OBRIGATÓRIA #vacine-se

Olhares de perfil – O mito Greta Garbo

Mas do que nunca o teatro se tornou um lugar de resistência. Para além das questões de subsídios públicos para a criação de trabalhos teatrais, os artistas têm que enfrentar uma plateia vazia – agora em função das consequências da pandemia do Covid 19. Ando acompanhando o teatro presencial nessa (lenta) retomada e levar o público de volta para a caixa preta vai ser outra batalha para o artista.


Trabalhos como o de Roberto Cordovani que avançaram décadas, enfrentam outra questão, que é a falta de ineditismo. A nova temporada alavancada pelos recursos do PROAC LAB – Lei Aldir Blanc, traz a possibilidade para que as pessoas conheçam o trabalho do ator e vá ganhando confiança para voltar aos palcos.


“Olhares de perfil – O mito Greta Garbo”, faz curta temporada no Teatro Commune e oferta ao público um duplo programa, se aproximar do mito Greta Garbo (1905-1990) e do próprio ator, que tem como premissa levar personagens femininas – real e ficcionais – ao palco. Foi assim como Isadora Duncan, Eva Perón e a protagonista do romance “A Dama das Camélias”. Diante dessas informações é suposto que o ator está “contaminado” pela sensibilidade feminina e seus trejeitos. 


Não é a primeira peça de Cordovani sobre o mito GG. Porém é a primeira vez que sento para assistir sua composição. Mesmo diante dessa dicotomia, faço considerações para o referido trabalho em cartaz atualmente, pois embora sua personificação da mítica atriz passe de três décadas, o ator parece “engessado”.Cordovani, sabe o que faz e o faz com competência. Porém a impressão que se tem é que ele “troca” pouco com os artistas que o acompanham em cena. E isso é evidenciado com a relação estabelecida entre Gustaffson/Greta (Roberto Cordovani) e Jorge (Alan Ferreira), um fotógrafo que é atraído pela ambiguidade do ator/mito em cena. Explico. 


A sinopse parte do pressuposto que Garbo fugindo dos holofotes, poderia estar disfarçado de ator interpretando a si mesma num teatro off Broadway. O jogo cênico sugerido ao público é procurar “adivinhar” se o que vê, é a atriz interpretando um ator qualquer, ou um ator personificando a atriz. Diante dessa ambiguidade, o fascínio do público é exemplificado na personagem do fotógrafo. Se a composição de Ferreira traz um homem bonachão, chucro, talvez seja para criar uma oposição para o rebuscamento e mistério que Cordovani imprimi em cena com sua personagem. Se o fotógrafo parece sedutor a princípio, diante da fragilidade de Gustaffson, o que se vê no decorrer da encenação é justamente o enfraquecimento desse jogo de sedução, diante da frieza com que Cordovani se impõe em cena. Alan para sair da caricatura precisa que seu colega de cena “jogue” mais. Porém quando vimos que Cordovani não abre mão do arquétipo de femme fatale solitária e durona, a encenação perde pela falta de nuances e da impossibilidade de suscitar uma expectativa na platéia.


Vale ressaltar que o texto escrito por Cordovani e Alejandra Guibert tem colocações poéticas e tocantes; a direção do trabalho com o mínimo de recurso cênico resolve tudo com simplicidade e competência;  a trilha sonora e a iluminação cria um ar de melancolia e mistério que potencializa o clima noir da encenação. São pontos positivos do trabalho.


Se a sinopse sugere uma dualidade na interpretação do público, para mim ficou claro que não se trata de Greta em cena, e sim de Gustaffson, um ator interpretando sua diva. O tempo todo o personagem é referenciado no gênero masculino e não é muito claro o por quê a relação sexual do ator com o fotógrafo fracassa. A encenação abre margens para outros diálogos para o espetáculo, creio eu, como o homoerotismo, a ambiguidade presente em indivíduos não binários, a atração de gays por suas divas e de homens atraídos por outros homens vestidos de mulher. 


A presença do Manequim (Ruben Gabira) reforça meu ponto de vista, já que o que vemos é o mito Greta Garbo fora do corpo do ator – Gustaffson no caso – mas permeando o imaginário do artista, como uma assombração, um arquétipo, um vulto, que poderia ter sido criado na mente daquele artista. No embate entre Gustaffson e Jane (Ruben Gabira) vimos um Cordovani menos sisudo/engessado. E embora seja clara a composição do ator para sua diva, fica evidente também que o ator pode estar trabalhando no automático e a composição de sua mulher implacável e enigmática potencializou minha impressão.


“Olhares de perfil…” tem uma atmosfera classuda e Cordovani faz bastante com pouco. Que é um artista inteligente, não se questiona. Vale o ingresso. A poesia está lá, somos provocados a querer saber mais sobre GG e se você (leitor) é como eu, que aprecia um trabalho de composição de personagem, verá um exemplo significativo dessa técnica. Mesmo que fique evidente as diferentes composições dada aos outros personagens da peça. 

Assim como Cordovani nos convida a rever o mito Greta Garbo e provavelmente o próprio o fez durante todos esses anos em que a interpreta, creio que vale a direção rever as escolhas no jogo entre as personagens, para que possamos ser jogados no valão das emoções e da fantasia e assim como Gustaffson, chorar contido, resignado com a dureza da realidade impressa na cena.


E seria de bom tom também a utilização do artigo feminino para se referir “A” travesti ou a “UMA” travesti. Soa indelicado o uso do artigo masculino para se referir a essas individualidades. Se a própria Greta Garbo se ressentiu por não poder levar a cena personagens que fugissem do seu estereótipo, vale ai uma atualização na dramaturgia para as vivências trans. 

Rodolfo Lima

*A peça segue em cartaz todos os sábados (20h) e domingo (19h), até 17/10/2021. Teatro Commune – Rua da Consolação 1218 – Higienópolis (11)3476-0792 – R$60 – Ingressos: http://www.sympla.com.br

**Foto: Marisa Pereirinha

Donna Summer Musical

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O teatro se tornou um campo prolifico para biografias de artistas da música. São inúmeros os  exemplos que se acumula e agora em São Paulo temos a opção de conhecer um pouco mais sobre Donna Summer (31/12/48 – 17/02/12) e seu reinado como Rainha da Disco Music. Condensar uma história de vida cheia de altos e baixos não é tarefa fácil e requer escolhas por vezes duvidosa, uma delas é não se aprofundar na história do biografado, já que musicais, são por princípio, entretenimento. O que é uma pena, pois é justamente seu caráter grandioso que poderia proporcionar um adensamento do público na história, já que cenas bem feitas e músicas  bem cantadas são imbatíveis para o público em produções de grandes portes.

O que mais chama a atenção em Donna Summer Musical é o visual charmoso que se dá a produção nacional. A versão original estreou em março de 2018 na Broadway e teve na plateia o diretor Miguel Falabella, que assina a direção local. Se o profissional não mexeu na estrutura musical, foi na parte do cenário e figurinos que sua direção pesou mais. É de longe o grande trunfo da montagem.

O cenário é composto por três estruturas gigantes, revestidas por ACM Espelhado que nos remete a um ambiente de discoteca e é utilizado de forma assertiva e atraente. Essas estruturas se abrem e se fecham e marcam mudanças de cenas e as trocas de figurino (são mais de 150).  Outro chamariz da concepção cênica do espetáculo, a cargo de Zezinho e Turíbio Santos são os globos espelhados sobre a platéia. O resultado desse último é ok, potencializado – bom ressaltar – pela iluminação criada por Caetano Vilela – o efeito de arco iris que em dado momento se cria com a iluminação é belo e conceitual.

Outro fator que ajuda a deixar o musical com uma cara mais “classuda” são os figurinos conceituais de  Theo Cochrane. Se as Donna’s (a protagonista é dividida por três atriz em diferentes fases da cantora: Amanda Souza/Jovem Donna, Jeniffer Nascimento/Disco Donna e Karin Hills/Diva Donna) usam figurinos brilhosos e chamativos, o resto do elenco tem suas roupas com cortes básicos (com poucas exceções) e muitas cores. Particularmente acho que é uma opção charmosa, que dá brilho ao ambiente sem parecer impositivo. Os prêmios nacionais direcionados aos musicais vão ter uma grande dificuldade em ignorar a qualidade oferecida em Donna Summer Musical.

A versão brasileira para o texto concebido por Colman Domingo, Robert Cary&Des McAnuff  ficou a cargo dos atores (de musicais) Bianca Tadini e Luciano Andrey. Não é possível precisar o quão se modificou para as plateias brasileiras. Mas a história de Donna é um pouco a história de muitas mulheres negras. Família pobre, numerosa e religiosa, talentos precoces se virando como podiam, machismo, misoginia, violência sexual e doméstica, abuso de poder, desvalorização financeira em razão do gênero feminino e o grande dilema entre se dividir entre o trabalho e a família. Exemplos tupiniquins foram as biografias de Hebe Camargo e Elis Regina, que em cena também trouxeram tais dilemas, e que assim como Donna, as colocaram como feministas em potencial, lutando pela própria individualidade sem abrir mão de sua profissão.

Vale ressaltar que o musical é também a oportunidade de evidenciar o protagonismo negro na história cultural da música americana. Sua música “Bad Girls” (por exemplo) provavelmente embalou cantoras como Rihanna e Beyoncé (divas do século XXI) que tem diversas músicas dançantes e que também se colocaram e exaltaram comportamentos considerados transgressores e errôneos em corpos femininos. Numa simples associação Rihanna pode facilmente ter herdado em suas letras o lado B de Donna – referência indispensável para (por exemplo) cantoras negras de todas gerações.

O recurso das facetas da protagonista dialogarem, como se as diversas Donna existissem numa mesma mulher dá um tom grandioso para a personagem, exaltando o mito em que ela se tornou. É uma peça para exaltar sua vida e sua arte. Está declarado e posto. Porém se Falabella não oferece grandes cenas dramáticas – as poucas que há parecem destoar do todo – também não o faz em cena cômicas. O que dá um tom sóbrio ao musical. O que é ótimo e dá uma sensação de novidade para o público de musicais.

Obviamente que a atenção recai para  Karin, Jeniffer e Amanda e suas potencias vocais, afinal é um musical e o público quer grandes performances. Se Amanda é a novata da vez e imprime verosimilhança aos dilemas de Donna com sua voz potente e seu ar juvenil e Karin a conhecida atriz e cantora do público, é Jennifer que surpreende com sua  primeira protagonista em musicais. A atriz imprime empatia, desenvolve as coreografias sem perder o fôlego e tem um alcance invejável. Ou seja: nasce uma estrela.

Mesmo que você não conheça ou seja fã da Dance Music, deve se interessar pela trajetória de Donna, já que é uma montagem atraente e bem conduzida. Cria-se uma expectativa para “o grande momento” – em musicais sempre há aquela cena-ápice – e ele não ocorre. Com o tempo de duração aquém do habitual (a peça dura cerca de 100 minutos) a canção ícone “Last Dance” (Oscar de melhor canção em 1978) aparece para encerrar a apresentação. Sim, isso é um spoiler, desculpe!

Donna Summer Musical não nos permite experienciar o fim da vida, da cantora que morreu em função de um câncer do pulmão. De certa forma o musical celebra a vida e os feitos, sem que o público tenha acesso ao fim. É assim que funciona em grandes baladas, e é o cerne do ambiente da Disco Music. Na pista, não existe dor nem fim, só o momento presente e os corpos que se agitam e vibram. Assistimos sentados ao musical, mas seria ótimo se pudêssemos levantar e dançar, e fazer valer a máxima da artista que dizia que no fim de tudo deveríamos estar dançando.

Rodolfo Lima

(Foto: Caio Galucci)

Evangelho Segundo Jesus – Rainha do Céu

Nereu Jr Imagens

A edição da 7° Mostra Internacional de Teatro – MITsp trouxe em sua programação uma peça bastante emblemática para o cenário queer nacional. A dramaturga Jo Clifford ficou bastante conhecida no país, depois que Natália Mallo resolveu montar uma versão de seu texto em terras tupiniquins e teve o corpo da atriz Renata Carvalho como a plataforma para catapultar a poesia da dramaturga inglesa. A versão nacional de “Evangelho Segundo Jesus – Rainha do Céu” é uma peça seminal para se entender as questões enfrentadas por indivíduos transexuais, dentro e fora do palco. E se Renata se projetou com a peça, ela também – de tabela – ampliou a transfobia de muitos e de um sistema misógino, patriarcal e machista, alertando para que se mudasse o paradigma de como se entender os corpos trans. Ou seja, é algo para ser pautado sempre. Não há como ignorar a montagem nacional, mesmo que esteticamente ela não apresente nenhuma novidade.

A possibilidade de ver a montagem original é também a possibilidade de ver em perspectiva toda a situação: corpos trans em cena; artistas trans; um texto que ousa na subjetivação das questões religiosas e que longe de buscar o choque ou o embate feroz, busca um apaziguamento entre os gêneros estabelecidos e as diferenças sexuais. Afinal se Jesus é a representatividade de todo ser humano, ele ser exaltado como um homem é uma visão limitadora. É nesse ponto que a peça avança ao mudar o foco do olhar do narrador, branco e heterossexual, detentor em sua maioria de punições e regras.

Sai o “homem” e entre em cena uma mulher, hibrida, que assim como no mito grego do/da hermafrodita tinha em sua força e sua representatividade multiplicada por dois, já que carrega(va) em si o feminino e o masculino. Jo e Renata estão então para essa “divindade”, assim como nós, reles mortais, estamos submetidos a ideologia de gêneros e separados entre “quem pode vestir azul” e “quem pode vestir rosa“.

Diante desse panorama, a oportunidade de ver Jo Clifford se tornou indispensável. Principalmente para quem tem interesse nas questões trans bifurcadas com a arte e/ou com a religião. Pois bem, a figura de Jo não é imperativa por nenhum arrombo. Ela surge em cena com um vestido branco e um all star vermelho com cardaço colorido de forma singela e respeitosa. Sua figura quer antes de tudo ser ouvida, ser respeitada, aceita. A dramaturga associa-se a Jesus para que assim possamos entender que a humanidade tem uma visão deturpada de algumas histórias da bíblia e consequentemente seus ensinamentos. Renata Carvalho ao adentrar a cena já contém em seu olhar a ambiguidade de um corpo que não se sabe querido.

O público se divide em quem senta na mesa de “Jesus” e quem vê da plateia. Para Jo, qualquer um pode vir a ser um dos apóstolos, ou seja, nossas verdades e individualidades podem ser misturadas e validadas independente do nosso gênero ou sexualidade. Essa associação por si só já contém metade do que a encenação defende. Comer do seu corpo, beber do seu sangue são metáforas que perdem forças quando todos dão a mão em volta da mesa e reza. Estava na mesa, mas queria ter visto de fora a reconfiguração dessa potente imagem. Na montagem nacional Jesus permanece em seu pequeno altar/mesa como a nos relembra que sim, a uma diferença, por mais tola que ela seja.

Para alguns a comparação a reducionista e passível de grosserias, mas considero que ela é por vezes potente para se entender os caminhos e a potência de cada artista/ideia/proposta. E se Renata Carvalho avança de forma irreversível sobre seu público de forma irônica e debochada, Jo busca um caminho da evangelização, literalmente. Como se seu corpo cansado e envelhecido pudesse conter toda a sabedoria que é negada a corpos como o de Renata Carvalho. Sim, faz diferença a forma como as atrizes se portam em cena e ver Jo, foi um exercício para buscar na memória a montagem de Mallo para que assim entender o que ficou de todo esse “Evangelho…” – montagem essa (a nacional) que vi 4 vezes (1° ensaio aberto/ SESC Pinheiros/ Mora Mundo/ FESTARA).

Renata expõe seu corpo para ser vilipendiado pelo público. Essa ampliação do entendimento do texto de Jo faz toda a diferença. Lembro que no primeiro ensaio aberto, a presença em cena de Renata também continha essa contenção e certo apagamento de uma individualidade agressiva e/ou deturpada e que fui um dos que levantou a bola de que “nosso Jesus” tinha que mostrar de onde éramos. Renata, uma travesti periférica de Santos. Esse corpo continha um carga que por si só potencializa as palavras encandeadas de Jo. A montagem nacional portanto é um potente complemento a montagem original, também dirigida por uma mulher, no caso Susan Worsfold.

Se a atriz brasileira tem na exposição do seu corpo e na sua acidez implícita muito do componente que faz com que a versão nacional seja comovente e esclarecedora e na encenação inglesa que temos a impressão que nos aproximamos dos nossos semelhantes. Funciona de forma simples e pontual a mesa e todos ao redor. Mesmo que sem apelar para sentimentalismos ou chavões religiosos, por vezes todos os elementos em cena fazem sentido. Poderia eu beber do mesmo corpo que Jo, ser afetado por seu olhar ou desprezado por sua presença. Essa configuração desse corpo próximo a mim, sem estar diretamente em mim, é sempre uma opção interessante, pois a quebra da quarta parede brinca com a ficcionalidade da cena.

É uma pena que a MITsp não bancou a concepção original e conseguiu colocar o trabalho numa igreja para que os símbolos locais pudessem dialogar com o todo. As luzes se acendem e nos lembramos que não estamos numa igreja, isso faz uma diferença. Já que a força da versão inglesa está muito na encenação. Quando vemos Renata na luz fria somos eclipsados por sua figura porque o Evangelho é tudo o que seu corpo poderia representar e não o faz porque a preconceito não deixa. Portanto são visões diferentes e complementares de encarar um belíssimo texto, que tem força independente de sua interlocução.

Na mesa da apresentação do sábado, havia vários corpos trans ao redor da mesa da Jesus de Jo. Havia um emponderamento importante ali, conquistada pela montagem nacional. Não havia como encararmos a versão original sem ler. Naquela noite nenhuma delxs apanhou ou precisou sair correndo com o desespero nas mãos, sem contar com a solidariedade alheia. Foi um momento emblemático e importante, celebrada pela presença de Jo Clifford. #amém

Rodolfo Lima

 

Frutas & Trangressão – História para Tangerinas e Cavalas-Marinhos ou Paulestina Livre!!!

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Uma das pautas mais inflamadas da atualidade são as questões sobre gênero. O que define e como deve se portar um homem e uma mulher se tornou assunto vigente e fez com que retrocedêssemos no avanço das liberdades individuais. A potência das individualidades transexuais, luta há anos, numa especie de cissão que há entre o que se denominou macho e fêmea, para poderem se sentir legitimadxs no lugar que desejar, sem que isso dependa da genitália. O país nas mãos de governantes retrógrados e preconceituosos é só uma faceta do massacre que as singularidades não heteronormativas sofrem. A diferença de “ontem” para “hoje” é que agora elxs reagem com visibilidade. Um dos ganhos das redes sociais é a possibilidade de dar voz a todos, inclusive para quem corre a margem da famigerada “família tradicional brasileira“.

“Você late dentro da minha cabeça“, é a metáfora mais poderosa alcançada por Manfrin em seu “solo coletivo”, responsável pela concepção de  “Frutas & Trangressão – História para Tangerinas e Cavalas-Marinhos ou Paulestina Livre!!!” A frase contém de forma simples a agressividade e o desconforto com que a intolerância e a agressividade reverbera no outro. Mais complexo do que trabalhar em cena as questões da transexualidade e suas dissidências, o universo em que Manfrin se debruça é o da não binaridade, de pessoas que se assumem como fluídas e portanto não se encaixam em nenhum estereótipo de gênero, não de forma limitadora e conservadora.

Para falar sobre corpos abjetos e que transitam entre o pré estabelecido,  a artista se coloca em saco de lixo, se joga no chão, se deixar penetrar por objetos, colore o cabelo, se enche de acessórios para tentar preencher o vazio interno de não se sentir pertencente a nada. Esse vácuo da sociedade em que as pessoas que lutam por poderem se expor ao mundo da forma como desejarem, se encontra mais vivo e eficiente do que nunca e não pode ser mais ignorado. Primxs de outrxs apartadxs (negros, mulheres – por exemplo) de uma sociedade  heteronormativa, supostamente branca, machista e patriarcal, indivíduos não binários são como camaleões que agonizam em praça pública. Pois o achincalhe, infelizmente, vem de brinde para sua postura fora da norma.

Diante desse universo caótico de difícil compreensão para quem não trabalha com riscos e experimentações na vida pessoal e íntima, e nem sofre com disforia de gênero toda vez que se olha no espelho – por exemplo – o mise-en-scéne criado pro Manfrin, talvez seja tão caótico quanto o material que perpassa sua mente ou como os “normais” o vêem. Esse caráter bizarro e risível, ganha força quando a encenação borra a obviedade com pitadas da singularidade dos presentes na arena cênica, fazendo que observemos com realce a potencialidade de cada corpo e no que ele contém de especial.

Na peça-teatro-performance-show-gritodealerta-happening a profanação parece ser a escolha inevitável para se fazer entender e devolver – como numa especie de refluxo – toda a indigestão que um mundo imposto por terceiros, fez com as individualidades, e o quanto a obrigatoriedade de alcançar um lugar, uma postura, um formato, é danoso e deixa marcas que o indivíduo carrega indesejadamente.

Desse lugar inóspito onde os não binários vem a público se revelar. Ouve-se diversas vozes. Felizmente o campo das artes – essa babilônia imprescindível para o ser humano – ainda permanece catapultando essa humanidade liberta de códigos cafonas e segregadores, para que numa operação a fórceps, se possa operar com valentia diante da caretice e da estupidez que é querer invadir a subjetividade alheia com as próprias certezas. Manfrin, tentou dois anos ser homem, tentou dois anos ser travesti, se rotula fruta, para que assim possa caminhar com suas tentativas sem ser (mais) violentadx. Quanto de nós não já não se sentiu assim?

Talvez careça ao Coletivo Profanas (todos xs integrantes do coletivo que realizou o trabalho) depois desse manifesto em prol de mais humanidade para seus corpos, trafegar por um lugar onde a questão do feminino e do masculino se torne mais ridículo e déjà vu sem que o grupo precise impor com obviedades as velhas questões clichês. Esse primeiro movimento do Coletivo para “dar a cara a tapa” compõe com força a cartela de trabalhos que ousam se debruçar por campos minados.

E para essxs corpxs, o acabamento artístico e as definições do que é artístico e as supostas definições estéticas para o que é o que é não é legitimo caem por terra, quando o que se deve fazer diante de corpos que agonizam por relevância e respeito, e se debate diante de nossos olhos incrédulos e cansados, talvez incapazes de olhar além do obvio com naturalidade e vigor, é apenas se calar e observar.

É por isso que tangerinas, cavalas marinhos, transexuais e pessoas não binárias são importantes e sempre bem vinda no campo atual das artes. É delxs que vem o ar que respiramos para não desistimos e achar que tudo nos será castrado e cerceado. Compreender dói e é cansativo, pressupõe uma disponibilidade interna de olhar para quem está ao seu lado e ver com mais generosidade o outro.

Frutas & Transgressão…” talvez não renove esteticamente as questões, talvez não se enquadre, talvez não tenha acertado em todas as escolhas cênicas expostas. Mais que importância tem o acerto e como mensurá-lo,  para quem vive sob o signo do erro?

Vá lá lutar com elxs ou pelo menos presenciar – e na melhor das hipóteses, aprender – com o que elxs tem a dizer!!!

Rodolfo Lima

(Foto: Elza Cohen)

Sombras

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O Teatro da PombaGira é um emblemático grupo que surgiu em meados da segunda década do século XXI e sua força sempre morou na possibilidade de transgressão dos corpos nus de seus artistas. Se a nudez permanece tabu, o grupo, que tem como coordenadores o professor Marcelo Denny e o performer Marcelo D’Avilla, chafurdaram no lado b dessas possibilidades e claro, tangenciando sexualidade, vida pessoal e gênero, de forma conflitante e tendenciosa, já que em seus três trabalhos: “Anatomia do Fauno“, “Demônios” e “Sombras“, o foco é a homossexualidade masculina e as questões que envolvem os artistas presente nos respectivos elencos.

É de conhecimento de muitos os meandros, por vezes duvidosos, que perfaz a seleção e permanência de artistas para se compor o  famigerado grupo, que repercute com força nos homossexuais mais jovens, afeitos das possibilidades de ativar a própria libido. Para os mais velhos, o grupo de José Celso Martinez Corrêa fez o trabalho “muito bem obrigado” desde dos anos 90 – período esse em que comecei a acompanhar o grupo Uzyna Uzona.

Em “Anatomia do fauno” (2015), a encenação tinha como estímulo a literatura de Arthur Rimbaud e de tabela e mote as relações conflituosas e emocionais de gays, tendo como base as questões do elenco da época. As dezenas de artistas em cena propiciava cenas emblemáticas e interessantes que refletiam de forma pungente e crítica as relações homossexuais, já afetada pela fragilidade da promiscuidade, das relações pautadas em redes sociais e do preconceito dentro da própria comunidade.

O que sensibilizava a platéia nos Faunos, era justamente o misto de provocação, cenas esteticamente bonitas e emotivas e um elenco disposto a “dar a cara a tapa“, em prol de ser ouvido. Essa possibilidade de pegar o expectador pelas emoções deu lugar a uma encenação sombria e hermética – “Demônios” (2018) – que trouxe uma visão fatalista de corpos gays, rendido ao fetichismo da exaltação da imagem, divas e da violência.

O capítulo intitulado “sombra” do livro “A biblioteca à noite” de Alberto Manguel, foi o mote da 3° produção do grupo, e uma das atrações do evento realizado pelo SESC Paulista no segundo semestre de 2018. A encenação consistia em conflitar em cena trechos de obras literárias censuradas e os corpos dos artistas. O público ouvia os textos – que teve curadoria do Prof. Ferdinando Martins –  por meio de fones de ouvido, enquanto as singularidades em cena simbolizavam todo o desconforto e implicância de obras e corpos censurados. Por causa da instituição contratante, cenas foram censuradas.

Essa palavra “censura” sempre soará como uma forma castradora de cercear a concepção de um trabalho ou um pensamento, mas no caso do Teatro da Pombagira também foi – sem querer querendo – uma provocar os artistas para que eles não se apoiassem na sexualidade exacerbada, que virou obviamente, uma muleta de criação para os mesmos. O sexo é uma forma apelativa de prender o público, e o grupo ficou bem mal acostumado, ao se utilizar dessa opção para transmitir seu discurso. A constatação chegou e pode ser vista nas apresentações que o grupo faz durante as apresentações na edição deste ano do Festival Mix Brasil.

Parte do público assiste a encenação com fones, o que possibilita a audição de textos, que de certa forma implica numa outra leitura das cenas construídas pelos artistas. Sem os fones, metade do público (no mínimo) da platéia de sábado (16/11) teve sua percepção do trabalho prejudicado. Restou a esse público assistir cenas que fora do contexto da literatura perdem forças e se tornam frágeis. Mesmo artistas como Renato Teixeira que esboça um interessante trabalho de corpo, soa mais do mesmo, pois sua coreografia é basicamente uma extensão do que o mesmo fez em “Demônios“.

Numa era midiática onde somos bombardeados com milhões de imagens constantemente e temos acesso a qualquer tipo de informação, sexuais ou não, um trabalho como o feito pelo referido grupo precisa fugir da armadilha de achar que só criar possíveis imagens “polêmicas”, com pintos e bundas é o suficiente. Não é. Não mais. O grupo carece de uma reinvenção que o tire da forma e os preencha de sentido. Sentimento e utopia poderia ser uma poderosa combinação que justificasse as escolhas estéticas e cênicas dos artistas envolvidos.  Em “Sombras“, o ápice da futilidade foi atingida com a inserção da cena de sexo explicito.

A pornografia camuflada de arte é uma opção vazia e tosca. Não excita, não provoca, não transmite beleza. O que se assiste é um ato que serve apenas para inflar e fragilizar o ego dos artistas envolvidos. Seria triste, e não fosse trágica a responsabilidade dessas pessoas que acreditam estar sendo transgressores quando oferecem mais do mesmo do que já ofertam em suas redes sociais e em outros eventos. Com o intuito de problematizar, a cena protagonizada por D’Avilla e Hugo Faz, ainda faz uma referência ao famigerado “clube do carimbo”, que consiste em indivíduos masculinos que “carimbam” outros homens gays com a possibilidade de serem infectados pelo vírus do HIV ao fazerem sexos desprotegidos. Sim a cena é sem camisinha e completamente desnecessária pois não dialoga com o tema da encenação, que supostamente fala sobre a censura imposta na literatura e de tabela nos corpos que a faz.

Fiquei pensando se essa minha postura de ter uma revelia a cena pudesse estar influenciada por outros motivos, de ordem pessoal e/ou moral – por exemplo – que desse conta de explicar minha aversão. Eu simplesmente não a entendo como uma opção útil para uma suposta dramaturgia da encenação. E como público acredito, que ter a impressão de que as escolhas cênicas servem para sanar o ego dos artistas envolvidos é uma das piores formas de decupar um trabalho. É literalmente, e no mal sentido, uma punhetação.

O tema da AIDS esteve presente em todos os trabalhos do grupo e permanece um fantasma para muitos homossexuais, promíscuos ou não. Ao enfatizar o ato sexual com o tal carimbo é como se a encenação credenciasse o tal “carimbo” como uma opção valida e louvável, para ir contra a censura e preconceitos aos corpos soropositivos. Repare, ser vitima de uma pessoal mal intencionada, que se propõe a contaminar os outros é muito diferente do que você se colocar “em risco” por livre e espontânea vontade.

Com tal cena, o Teatro da PombaGira atinge um lugar bem duvidoso e se torna refém do seu próprio discurso ao enfatizar, e validar uma prática, menosprezando a tão poderosa liberdade sexual e de escolhas. A cena é totalmente desnecessária. E fragiliza e talvez roube o que supostamente estimulou os artistas a criarem esse trabalho, a tal literatura. O grupo corre o risco de cair de novo no lugar comum, se não se reinventar e procurar outras formas de se colocar politicamente em cena, sem ter que se expor de forma apelativa e degradante. Ninguém merece isso. Quando as opções de atos masturbatórios (seja no ego, seja no físico) só faz sentido para o(s) artista(s) que o faz, o trabalho como um todo se revela inconsistente e pueril.

Rodolfo Lima

Crédito foto: Amanda Clemente

Obs: o grupo faz sua segunda apresentação dentro da programação do Festival Mix Brasil, as 17h (segundo consta no folder impresso) no Centro Cultural São Paulo – CCSP, grátis. Ingressos distribuídos 1 hora antes.

Eu de você

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Não há nada que comova mais nos dias de hoje que uma experiência a partir de fatos e sensações reais. Ou quando se pode comprovar/sentir emoções de fatos. Estamos tão saturados de tecnologia e relações efêmeras e digitais que o simples olho no olho por vez causa pequenos abalos internos. De posse dessa possibilidade de encarar e ser encarada, afetar e ser afetada, Denise Fraga sobe sozinha ao palco em seu primeiro monólogo: Eu de você. Na estrutura não há novidades,são histórias reais, que a atriz se utiliza para teatralizar situações e emoções. De cara a primeira referência é o quadro “Retrato Falado” – que foi ao ar no Fantástico, em dois período 2000 a 2001 e 2003 a 2007.

A fórmula: pessoas comum escrevem cartas, a atriz dá vida a elas. É a mesma premissa da peça, livremente inspirada em narrativas reais. Com direção do marido, Luiz Villaça, poderia ser mais do mesmo, mas a atriz dá um salto em sua performance ao se mostrar vigorosa em cena. Denise tem empatia de sobra, uma capacidade de imprimir verossimilhança que se não é um dom, não acho outro termo melhor para nomear essa qualidade que a atriz carrega de sobrepor verdades e intenções no seu corpo mignon.

Foram 34 cartas que serviram de base para a dramaturgia da peça. Na ficha técnica 5 pessoas respondem pela dramaturgia (Denise, Cassia Conti, Fernanda Maia, Villaça e Rafael Gomes), 3 pelo texto final (Gomes, Denise e Villaça) e 3 pela colaboração dramatúrgica (Geraldo Carneiro, Kenia Dias e José Maria). Não deixa de ser uma surpresa a forma como o texto – “construído” por 8 pessoas – decorre sem fissuras e vai envolvendo o público de forma delicada e tocante. A costura dramatúrgica é grande pois além das cartas, junta fragmentos de autores como: Valter Hugo Mãe, Fauzi Arap, Drummond, Clarice Lispector, Bertolt Brecht, Joel Pommerat e Leminski.

A direção coloca a atriz cara a cara com o público numa forma de enfrentamento e por que não, uma forma de apelar para a sensibilização do público. A graça? Funciona. Denise consegue concentrar todo o foco do público em sua voz, corpo e personalidade, oferecendo sutis mudanças em corpo e voz, que faz com que sejamos apresentados, ou suponhamos nos aproximar, dos reais protagonistas das histórias. Sem os colegas de cena, sem elementos que a amparem, além do seu corpo e da cumplicidade do público,  Denise se mostra uma atriz versátil e com fôlego para, sozinha, dar conta de tantas singularidades.

As “minorias” tem destaque – negros e homossexuais (inesquecível a história do homem assaltado pós karaokê) – bem como temas delicados como a morte. Nesse último caso vale perceber como a atriz se joga no desconhecido ao buscar a emoção olho a olho com seu público. O texto é difícil, a proposta arriscada, o resultado da marcação imprevisível. E o que resulta disso é uma performance honesta e direta, que cativa pela possibilidade de vislumbrar o desnudamento emocional de Denise.

Num primeiro momento, o formato lembra o solo de Clarice Niskier “A Alma Imoral“, onde nua e de posse de uma pano, a atriz narra reflexões e pensamentos colhidos do livro de nome homônimo de Nilton Bonder e em cartaz desde 2006. Se Clarice apresenta textos mais complexos e de difícil digestão. Denise apresenta histórias mais palatáveis e não menos simbólicas e com possibilidade de reflexão.

Outra referência possível é o filme “Jogo de Cena” (2007) de Eduardo Coutinho. Onde vemos atrizes famosas ao lado de mulheres comuns tendo suas histórias,emoções e percepções do mundo metamorfoseadas, colocando em xeque os limites da dicotomia realidade x ficção. Em Eu de você, Denise recebe o público – prática comum em suas peças, já faz uns anos – e dialoga como conhecidos e desconhecidos como se todos fizessem parte do seu hall de amizades. A opção pela utilização da projeção de rostos de anônimos, em contrapartida a imagem famosa da atriz, corrobora com o insubstituível documentário de Coutinho. “As canções“(2011), outro filme do cineasta também pode ser associado ao solo da atriz.

O encantamento da atriz pelo cotidiano é inspirador e bem vindo. E se parte da solução para um mundo mais pacifico e harmonioso recai na empatia pelo outro, olhar para o lado, mesmo quando o lago de nossas vaidades e saudades nos obriga a olhar apenas para a frente é uma metáfora poderosa, um grito de alerta da atriz para que sobrevivamos melhor e possamos reverberar mais solidariedade e cumplicidade. O teatro de Denise é de comunhão. Não há como sair ileso do seu jogo cênico e da nossa inevitável necessidade de se conectar com o outro.

Rodolfo Lima

Obs: A peça segue em cartaz no Teatro Vivo até 15 de dezembro de 2019, de sexta a domingo, respectivamente nos seguintes horários: 20h, 21h e 19h.

+informações: @eudevoceoficial @denisefragaoficial