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Sombras

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O Teatro da PombaGira é um emblemático grupo que surgiu em meados da segunda década do século XXI e sua força sempre morou na possibilidade de transgressão dos corpos nus de seus artistas. Se a nudez permanece tabu, o grupo, que tem como coordenadores o professor Marcelo Denny e o performer Marcelo D’Avilla, chafurdaram no lado b dessas possibilidades e claro, tangenciando sexualidade, vida pessoal e gênero, de forma conflitante e tendenciosa, já que em seus três trabalhos: “Anatomia do Fauno“, “Demônios” e “Sombras“, o foco é a homossexualidade masculina e as questões que envolvem os artistas presente nos respectivos elencos.

É de conhecimento de muitos os meandros, por vezes duvidosos, que perfaz a seleção e permanência de artistas para se compor o  famigerado grupo, que repercute com força nos homossexuais mais jovens, afeitos das possibilidades de ativar a própria libido. Para os mais velhos, o grupo de José Celso Martinez Corrêa fez o trabalho “muito bem obrigado” desde dos anos 90 – período esse em que comecei a acompanhar o grupo Uzyna Uzona.

Em “Anatomia do fauno” (2015), a encenação tinha como estímulo a literatura de Arthur Rimbaud e de tabela e mote as relações conflituosas e emocionais de gays, tendo como base as questões do elenco da época. As dezenas de artistas em cena propiciava cenas emblemáticas e interessantes que refletiam de forma pungente e crítica as relações homossexuais, já afetada pela fragilidade da promiscuidade, das relações pautadas em redes sociais e do preconceito dentro da própria comunidade.

O que sensibilizava a platéia nos Faunos, era justamente o misto de provocação, cenas esteticamente bonitas e emotivas e um elenco disposto a “dar a cara a tapa“, em prol de ser ouvido. Essa possibilidade de pegar o expectador pelas emoções deu lugar a uma encenação sombria e hermética – “Demônios” (2018) – que trouxe uma visão fatalista de corpos gays, rendido ao fetichismo da exaltação da imagem, divas e da violência.

O capítulo intitulado “sombra” do livro “A biblioteca à noite” de Alberto Manguel, foi o mote da 3° produção do grupo, e uma das atrações do evento realizado pelo SESC Paulista no segundo semestre de 2018. A encenação consistia em conflitar em cena trechos de obras literárias censuradas e os corpos dos artistas. O público ouvia os textos – que teve curadoria do Prof. Ferdinando Martins –  por meio de fones de ouvido, enquanto as singularidades em cena simbolizavam todo o desconforto e implicância de obras e corpos censurados. Por causa da instituição contratante, cenas foram censuradas.

Essa palavra “censura” sempre soará como uma forma castradora de cercear a concepção de um trabalho ou um pensamento, mas no caso do Teatro da Pombagira também foi – sem querer querendo – uma provocar os artistas para que eles não se apoiassem na sexualidade exacerbada, que virou obviamente, uma muleta de criação para os mesmos. O sexo é uma forma apelativa de prender o público, e o grupo ficou bem mal acostumado, ao se utilizar dessa opção para transmitir seu discurso. A constatação chegou e pode ser vista nas apresentações que o grupo faz durante as apresentações na edição deste ano do Festival Mix Brasil.

Parte do público assiste a encenação com fones, o que possibilita a audição de textos, que de certa forma implica numa outra leitura das cenas construídas pelos artistas. Sem os fones, metade do público (no mínimo) da platéia de sábado (16/11) teve sua percepção do trabalho prejudicado. Restou a esse público assistir cenas que fora do contexto da literatura perdem forças e se tornam frágeis. Mesmo artistas como Renato Teixeira que esboça um interessante trabalho de corpo, soa mais do mesmo, pois sua coreografia é basicamente uma extensão do que o mesmo fez em “Demônios“.

Numa era midiática onde somos bombardeados com milhões de imagens constantemente e temos acesso a qualquer tipo de informação, sexuais ou não, um trabalho como o feito pelo referido grupo precisa fugir da armadilha de achar que só criar possíveis imagens “polêmicas”, com pintos e bundas é o suficiente. Não é. Não mais. O grupo carece de uma reinvenção que o tire da forma e os preencha de sentido. Sentimento e utopia poderia ser uma poderosa combinação que justificasse as escolhas estéticas e cênicas dos artistas envolvidos.  Em “Sombras“, o ápice da futilidade foi atingida com a inserção da cena de sexo explicito.

A pornografia camuflada de arte é uma opção vazia e tosca. Não excita, não provoca, não transmite beleza. O que se assiste é um ato que serve apenas para inflar e fragilizar o ego dos artistas envolvidos. Seria triste, e não fosse trágica a responsabilidade dessas pessoas que acreditam estar sendo transgressores quando oferecem mais do mesmo do que já ofertam em suas redes sociais e em outros eventos. Com o intuito de problematizar, a cena protagonizada por D’Avilla e Hugo Faz, ainda faz uma referência ao famigerado “clube do carimbo”, que consiste em indivíduos masculinos que “carimbam” outros homens gays com a possibilidade de serem infectados pelo vírus do HIV ao fazerem sexos desprotegidos. Sim a cena é sem camisinha e completamente desnecessária pois não dialoga com o tema da encenação, que supostamente fala sobre a censura imposta na literatura e de tabela nos corpos que a faz.

Fiquei pensando se essa minha postura de ter uma revelia a cena pudesse estar influenciada por outros motivos, de ordem pessoal e/ou moral – por exemplo – que desse conta de explicar minha aversão. Eu simplesmente não a entendo como uma opção útil para uma suposta dramaturgia da encenação. E como público acredito, que ter a impressão de que as escolhas cênicas servem para sanar o ego dos artistas envolvidos é uma das piores formas de decupar um trabalho. É literalmente, e no mal sentido, uma punhetação.

O tema da AIDS esteve presente em todos os trabalhos do grupo e permanece um fantasma para muitos homossexuais, promíscuos ou não. Ao enfatizar o ato sexual com o tal carimbo é como se a encenação credenciasse o tal “carimbo” como uma opção valida e louvável, para ir contra a censura e preconceitos aos corpos soropositivos. Repare, ser vitima de uma pessoal mal intencionada, que se propõe a contaminar os outros é muito diferente do que você se colocar “em risco” por livre e espontânea vontade.

Com tal cena, o Teatro da PombaGira atinge um lugar bem duvidoso e se torna refém do seu próprio discurso ao enfatizar, e validar uma prática, menosprezando a tão poderosa liberdade sexual e de escolhas. A cena é totalmente desnecessária. E fragiliza e talvez roube o que supostamente estimulou os artistas a criarem esse trabalho, a tal literatura. O grupo corre o risco de cair de novo no lugar comum, se não se reinventar e procurar outras formas de se colocar politicamente em cena, sem ter que se expor de forma apelativa e degradante. Ninguém merece isso. Quando as opções de atos masturbatórios (seja no ego, seja no físico) só faz sentido para o(s) artista(s) que o faz, o trabalho como um todo se revela inconsistente e pueril.

Rodolfo Lima

Crédito foto: Amanda Clemente

Obs: o grupo faz sua segunda apresentação dentro da programação do Festival Mix Brasil, as 17h (segundo consta no folder impresso) no Centro Cultural São Paulo – CCSP, grátis. Ingressos distribuídos 1 hora antes.

Eu de você

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Não há nada que comova mais nos dias de hoje que uma experiência a partir de fatos e sensações reais. Ou quando se pode comprovar/sentir emoções de fatos. Estamos tão saturados de tecnologia e relações efêmeras e digitais que o simples olho no olho por vez causa pequenos abalos internos. De posse dessa possibilidade de encarar e ser encarada, afetar e ser afetada, Denise Fraga sobe sozinha ao palco em seu primeiro monólogo: Eu de você. Na estrutura não há novidades,são histórias reais, que a atriz se utiliza para teatralizar situações e emoções. De cara a primeira referência é o quadro “Retrato Falado” – que foi ao ar no Fantástico, em dois período 2000 a 2001 e 2003 a 2007.

A fórmula: pessoas comum escrevem cartas, a atriz dá vida a elas. É a mesma premissa da peça, livremente inspirada em narrativas reais. Com direção do marido, Luiz Villaça, poderia ser mais do mesmo, mas a atriz dá um salto em sua performance ao se mostrar vigorosa em cena. Denise tem empatia de sobra, uma capacidade de imprimir verossimilhança que se não é um dom, não acho outro termo melhor para nomear essa qualidade que a atriz carrega de sobrepor verdades e intenções no seu corpo mignon.

Foram 34 cartas que serviram de base para a dramaturgia da peça. Na ficha técnica 5 pessoas respondem pela dramaturgia (Denise, Cassia Conti, Fernanda Maia, Villaça e Rafael Gomes), 3 pelo texto final (Gomes, Denise e Villaça) e 3 pela colaboração dramatúrgica (Geraldo Carneiro, Kenia Dias e José Maria). Não deixa de ser uma surpresa a forma como o texto – “construído” por 8 pessoas – decorre sem fissuras e vai envolvendo o público de forma delicada e tocante. A costura dramatúrgica é grande pois além das cartas, junta fragmentos de autores como: Valter Hugo Mãe, Fauzi Arap, Drummond, Clarice Lispector, Bertolt Brecht, Joel Pommerat e Leminski.

A direção coloca a atriz cara a cara com o público numa forma de enfrentamento e por que não, uma forma de apelar para a sensibilização do público. A graça? Funciona. Denise consegue concentrar todo o foco do público em sua voz, corpo e personalidade, oferecendo sutis mudanças em corpo e voz, que faz com que sejamos apresentados, ou suponhamos nos aproximar, dos reais protagonistas das histórias. Sem os colegas de cena, sem elementos que a amparem, além do seu corpo e da cumplicidade do público,  Denise se mostra uma atriz versátil e com fôlego para, sozinha, dar conta de tantas singularidades.

As “minorias” tem destaque – negros e homossexuais (inesquecível a história do homem assaltado pós karaokê) – bem como temas delicados como a morte. Nesse último caso vale perceber como a atriz se joga no desconhecido ao buscar a emoção olho a olho com seu público. O texto é difícil, a proposta arriscada, o resultado da marcação imprevisível. E o que resulta disso é uma performance honesta e direta, que cativa pela possibilidade de vislumbrar o desnudamento emocional de Denise.

Num primeiro momento, o formato lembra o solo de Clarice Niskier “A Alma Imoral“, onde nua e de posse de uma pano, a atriz narra reflexões e pensamentos colhidos do livro de nome homônimo de Nilton Bonder e em cartaz desde 2006. Se Clarice apresenta textos mais complexos e de difícil digestão. Denise apresenta histórias mais palatáveis e não menos simbólicas e com possibilidade de reflexão.

Outra referência possível é o filme “Jogo de Cena” (2007) de Eduardo Coutinho. Onde vemos atrizes famosas ao lado de mulheres comuns tendo suas histórias,emoções e percepções do mundo metamorfoseadas, colocando em xeque os limites da dicotomia realidade x ficção. Em Eu de você, Denise recebe o público – prática comum em suas peças, já faz uns anos – e dialoga como conhecidos e desconhecidos como se todos fizessem parte do seu hall de amizades. A opção pela utilização da projeção de rostos de anônimos, em contrapartida a imagem famosa da atriz, corrobora com o insubstituível documentário de Coutinho. “As canções“(2011), outro filme do cineasta também pode ser associado ao solo da atriz.

O encantamento da atriz pelo cotidiano é inspirador e bem vindo. E se parte da solução para um mundo mais pacifico e harmonioso recai na empatia pelo outro, olhar para o lado, mesmo quando o lago de nossas vaidades e saudades nos obriga a olhar apenas para a frente é uma metáfora poderosa, um grito de alerta da atriz para que sobrevivamos melhor e possamos reverberar mais solidariedade e cumplicidade. O teatro de Denise é de comunhão. Não há como sair ileso do seu jogo cênico e da nossa inevitável necessidade de se conectar com o outro.

Rodolfo Lima

Obs: A peça segue em cartaz no Teatro Vivo até 15 de dezembro de 2019, de sexta a domingo, respectivamente nos seguintes horários: 20h, 21h e 19h.

+informações: @eudevoceoficial @denisefragaoficial

Brian ou Brenda?

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A questão mais urgente e inflamada do momento em relação aos direitos dos seres humanos recai sobre as questões de gênero que primeiro dividiu o mundo de forma binária: homens e mulheres, e depois, sadicamente, excluiu e empurra pra margem tudo o que não se enquadra em seres XX e XY, ou seja, o mundo realmente está em colapso e o destino é incerto. Uma montagem como Brian ou Brenda? é antes de tudo um convite a empatia.

Com direção de Yara de Novaes e Carlos Gradim, a montagem alavancada graças ao Prêmio Cleyde Yáconis, da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de São Paulo mistura com muito sucesso didatismo e teatro, criando resoluções cênicas, que provoca e sensibiliza a platéia. É um feito, mesmo que a peça seja literalmente uma bandeira hasteada em prol do que é considerado diferente. A produção levou tão ao pé da letra a pluraridade de corpos, gêneros, sexualidade e origens, que escalou para o elenco artistas de diversas origens: Jimmy Wong (Oriental), Paulo Campos (Negro), Kay Sara (Indígena), Marcella Maia (Mulher Trans) e Giovanni Venturini (baixa estatura), entre outros.

Diante de tanta singularidade o sistema coringa proposto pelo dramaturgo Augusto Boal (16/03/31- 02/05/09) foi um recurso pontual e assertivo da direção para que todos pudessem vivenciar diferentes papeis e assim, engrandecer o jogo cênico e ao mesmo tempo propor que as pessoas revejam suas questões sobre os gêneros estáticos. Se alguns podem ser tudo o que quiserem, porque outros não? É um convite a reflexão, mesmo que a peça “legende” isso a todo instante, inclusive com as (desnecessárias) músicas de “Secos e Molhados” – um exemplo do excesso, exposto em cena.

A peça é baseada na trágica história da Família Reimer, que viram todos os seus sonhos começarem a emergir num poço sem fundo ao aceitarem que, após uma operação de uma fimose mal sucedida, num dos gêmeos masculinos (Brian e Bruce) recém nascidos, os pais aceitassem,criar um dos filhos como uma garota, seguindo as orientações do DR. John Money que defendia que era possível criar uma criança de acordo com um gênero imposto pela genitália e ou por escolhas alheias as questões subjetivas e emocionais, e porque não espirituais. O experimento fracassa, as crianças são constantemente violentadas em suas singularidades e o final não poderia ser mais catastrófico com o desmantelamento dos integrantes dessa família.

A peça então surge como um alerta para os espectadores que acreditam que a ideologia de gênero existe e que ela precisa ser combatida. O caso exposto em cena revela sem deixar dúvidas ao público que o certo seria deixar a criança crescer e assim verificar em qual gênero ela se enquadraria, independente dos sexo biológico. É simples, mas muitas pessoas insistem em resistir a essa possibilidade libertária de criação de filhos, tantos crianças intersexo ( que nasçam com características biológicas de ambos os sexos), como crianças fisicamente normais. Que o feminino e o masculino são construções histórico -culturais e que essa “educação” é matriz de diversas fobias, machismo e intolerância, já é sabido. A pergunta que não quer calar é: Por que não nos tornamos mais tolerantes? Por que insistimos em criar filhos de forma a aprisionar suas singularidades? Por que se aceita o machismo como referência de atitudes? São muitos os porquês.

O texto de Franz Keppler ao mesclar fatos reais e ficcionais, recai sobre tais questões sem pesar a mão no panfletarismo, abrindo brechas para que a direção potencialize o que não pode ser respondido, apenas sentido, ou no caso do teatro, presenciado. Ao nos tornarmos cúmplice de tais atrocidades revemos nossos conceitos e mudamos as atitudes, certo? É o que se espera, mesmo que isso seja uma utopia.

A montagem tem uma estética colorida, jovem e em ritmo acelerado, para quem sabe atingir principalmente o público jovem, que fomentam a diferença e futuramente poderão interferir em prol de corpos plurais e na sexualidade fluida. Mesmo que os figurinos de Cassio Brasil parecem exagerados, em seus detalhes de cores e estampas, criando ainda mais camadas de leituras para os corpos em cena, o resultado acaba entusiasmando, mesmo que pareça um verniz a mais no todo.

Brian ou Brenda? é um necessário convite a reflexão, sem abrir mão do entretenimento e da militância. É realmente um acerto o resultado, mesmo que o diálogo diretamente sobre essas questões ainda pareça um imbróglio a ser resolvido, explico: na sessão do dia 19 de outubro, aconteceu um bate papo pós apresentação. Teatro lotado, final de peça metade do público vai embora, a metade que fica faz perguntas aos artistas – revelando a dificuldade de entendimento – que necessitam explicar didaticamente (não que a peça não o seja, veja bem) sobre os assuntos abordados. Nesse diálogo o ator Augusto Madeira faz duas colocações extremamente duvidosas.

A primeira diz respeito ao dialeto usado por Kay, mulher indígena, que em parte do texto diz suas falas em sua língua materna. Alguém do público pergunta qual seria esse idioma, a atriz responde e o ator completa:

ela pode dizer o que quiser né, a gente não entende nada.

No segundo caso, o ator tentou defender as ideias do médico ao sugerir que ele poderia acreditar piamente em suas convicções e não necessariamente fazer mal aos pacientes. Veja bem, estamos falando de um médico que tinha uma teoria e que tentou a fórceps colocá-la em prática. No momento mais cruel do que é contado em cena, o médico obriga o irmão a fazer sexo com a irmã(que se sente como um menino, é bom relembrar, para quem não viu a peça), para que ela saiba como deve ser e se comportar um corpo feminino. A minha pergunta é: como se defende uma pessoa assim?

A amiga que me acompanhava diz: tem que ser o branco cisgênero a falar merda.

Levantamos na hora, em protesto as colocações tão descabidas e indelicadas. Pois não se pode corroborar com a perpetuação das ações de tal médico, que mesmo se deparando com o fracasso de suas teorias, permaneceu impondo violências aos irmãos, alheio a todas as consequências oriundas dessas ações.

Diante do relato do ator que não teve empatia e respeito com o idioma da mulher ao lado e se compadece com os erros do médico, percebe-se que ainda temos muito trabalho a ser feito, principalmente quando a realidade se sobrepõem as questões ficcionais de forma tão capciosa.

Rodolfo Lima

(a peça segue em cartaz no Viga Espaço Cênico de 25 de outubro a 27 de novembro de 2019, de sexta a domingo)

 

 

Matadouro

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Em cartaz na Casa da Luz, o solo Matadouro de Órion Lalli propõe uma imersão nas questões sexuais enfrentadas por seu corpo e de tabela por corpos que estão do lado contrário da heterossexualidade e da cisgeneridade. Órion junto com a perfomance, oferta nos comôdos da Casa a exposição “Em.Coitros – Encontros Homoeróticos de um Corpo Soropositivo“, em conjunto as ações se tornam um indigesto mergulho na homossexualidade masculina. Há uma tentativa de poetizar as questões, mas a realidade cruel que tais corpos estão submetidos engole a possibilidade de poesia. Lalli de certa forma sabe, e debocha disso, como um sádico.

Se ao chegarmos ao espaço somos convidados a emergir em imagens de corpos nus, frascos de remédios, e resquicios de memória do corpo do artista, que na condição de soropositivo, procura questionar a relação do mesmo com o mundo que o cerca, ao adentrarmos o espaço cênico o que se propõe ao público e um convivio com a violência homofóbica e a intolerância que agredi fisica e emocionalmente os gays. Não é possível adentrar a sala da perfomance, sem as informações da antesala do espaço. Existe a intencionalidade do diálogo entre a violência que o ator expressa no seu “matadouro” e a que seu corpo sofreu ao ser adquirir o vírus HIV, ou pior, ao ser supostamente desprezado e vilipediado por tal situação? Aparentemente não.

Uma questão: tem como se deparar com a corpo do artista sem as informações que temos acesso antes da perfomance em si?

A questão da soropositividade não vem a tona em cena, Órion trava na frente do público uma luta inquietante com seus anseios, num misto de provocação e sentimentos difusos, que variam da dor para a solidão, imputando mais informações em seu corpo – já inscrito de signos, em virtude das tatuagens – que se debate em busca de uma saída. Um escape para o caos.

Um suposto problema é o fato do artista não constrói uma comunicação afetuosa com seu público, tudo é imposto como que a dizer: “engulam”. O reflexo disso é que a interação fisica com a platéia fica aquém do esperando, pois esse caminho de acesso ao outro não foi estabelecido a contento. Beijar, abraçar ou mesmo se jogar em cena carece uma cumplicidade que não é visto em cena. Mesmo que o artista se mostre receptivo ao seu público na chegada do mesmo.

Em Matadouro cenas são sobrepostas e patinam no lugar comum pois ao revelar imagens e situações de homofobia Brasil a fora, as informações acabam servindo de subtexto para o desconforto que Órion oferta. Essa comunicação por hora velada entre os sentimentos do artista, e hora explicita, pelas informações reais de agressões e assassinatos, preenchem toda a encenação. Essa inconstância de cenas, um misto de cenas improvisadas e pré organizadas fragiliza a peça como um todo e depõe contra a força que o artista leva para a cena.

Há espanto no seu olhar, saudades no seu corpo, aflição nas suas questões. Decupar isso para a cena sem o resultado paracer tão “solto” se torna um problema ao se pensar numa dramaturgia para Matadouro. O fato de ser um trabalho em processo que se faz na frente do público de acordo com a disponibilidade do mesmo, seria uma opção se a proposta fosse toda embasada nessa escolha, não o é. E essa brecha no acabamento enfraquece o resultado.

É como se o hibridismo de linguagens sugerida pelo artista (teatro, dança, artes visuais, performance) tivesse resultado numa mistura difusa de referências. Digo isso, pois a força de toda a provocação que o artista se propõe a instigar esta em seu próprio corpo. Como se fosse um bacante desgarrado e carente, que com sua dança, suplica empatia.

Finalizar a performance ao som da música “My Way” é uma opção agridoce para um artista que apesar do caos que o preenche, dentro e fora do seu corpo o que vemos e vida pulsando a espera de acolhimento, reconhecimento e validação. Uma busca insana a que muitos gays estão submetidos. É uma performance assumidamente gay e para o emponderamento do mesmo. Uma pena que o artista não tenha conseguido – dessa vez – fazer com que o público mergulhasse junto com ele e nele. Desnudando assim um desespero coletivo, mas que parece abafado dentro de cada um de nós.

Rodolfo Lima

Serviço:

Casa da Luz

Rua Mauá, 512 – Luz

Dia 22/10 – 20h – Contribuição voluntária no final da apresentação

#últimapresentação

Cazuza pro dia nascer feliz – o musical

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Existem trabalhos que convidam a uma revisitação. O musical sobre o cantor Cazuza é um desses casos. Primeiro pela personalidade e talento do artista, e segundo por sua importância impar no cenário da música brasileira, quiça cultural do país. Agenor de Miranda Araújo Neto, o famoso Cazuza, morreu dia 07 e julho de 1990 em decorrência das consequências do vírus HIV, aos 32 anos, e marcou profundamente a história da epidemia no Brasil.

O musical dirigido por João Falcão, com textos de Aloísio de Abreu, que voltou em cartaz este ano após sua estreia em 2013 em terras cariocas, continua com fôlego para encher plateias e emocionar. Não é uma tarefa fácil já que hoje em dia muito se avançou no que se pensa e entende sobre ser “tocado”(termo delicado usado para falar sobre soropositivos) pelo vírus. Mesmo com tantas questões emblemáticas na abordagem da doença, o resultado em cartaz no Teatro Procópio Ferreira faz uma bela homenagem ao cantor e não poupa o público ao evidenciar o quanto a doença minuou a energia do artista.

Dividido em dois atos e com quase três horas, o musical exige fôlego e por mais que pareça excessivo, o que nos fica no final é a saudade que o cantor deixou. Suas colocações, suas músicas, seu jeito peculiar de viver e sua poesia. Não é um musical recheado de coreografias, grandes cenários, trocas de figurinos, ou o que se entende por tal gênero teatral. Ao contrário é um trabalho que concentra todas as apostas no protagonista e de como tudo e todos orbitaram a sua volta.

Bebel Gilberto, Frejat e os integrantes do Barão Vermelho, Caetano Veloso e Ney Matogrosso são os artistas retratados em cena, assim como Ezequiel Neves, famigerado produtor de Cazuza responsável por boa parte da carreira do artista. São retratos chapados e sem complexidade, com exceção de Neves que está caracterizado de forma caricata, destoando do toque sutil dado aos outros personagens.

É uma peça de ator, e nesse sentido Osmar Silveira não decepciona. Há empatia e certa semelhança com o artista, o que facilita na hora de embarcarmos na fantasia de estar diante de um ídolo. Silveira sabe fazer bom uso da persona que representa e todos acabam sendo beneficiados. Entre os artistas da primeira montagem, vista por 200 mil pessoas e que passou por 13 cidades brasileiros , está de volta ao palco: Susana Ribeiro (Lucinha Araújo), Marcelo Varzea (João Araujo), Fabiano Medeiros (Ney Matogrosso) e Bruno Narchi (Serginho) e André Dias (Ezequiel Neves).

Outro ponto importante resgatado pela remontagem do musical é a figura ideológica acoplada a imagem do artista. Cazuza é uma espécie de anti herói urbano e burguês que fez do seu corpo e de suas vontades campos de estudos e criatividade. Mesmo que a peça não rasgue a imagem do cantor e o subverta em cena nas questões referente a sexualidade (Cazuza soa como uma bicha deliciosamente afetada. Jamais seria um gay heteronormativo. #amém), há espaço para maneirismos do artista, com uma ou outra trepada. São esses detalhes que humanizam a figura do artista e faz com que transitemos entre o achar engraçado, sexy, louco e inteligente. É um artista que tem sua obra a frente da sua imagem. Um vencedor, sem precedentes.

A citação do episódio em que é ressaltado a capa da Revista Veja, que estampou na primeira página a doença do cantor insinuando que  o mesmo agonizava em público, revela que o lado b da imprensa está entre nós desde do século passado. A doença ocupa todo o segundo ato da peça e torna Cazuza um personagem quixotesco e a imprensa brasileira se tornou mais um dos desafios que teve que enfrentar antes de sucumbir de vez.  Sua luta é triste e linda ao mesmo tempo. O musical nesse sentido – de evidenciar o artista e sua obra – cumpre a função de entretenimento e provocação.

Cazuza ainda é o exemplo de uma figura controversa e fora dos padrões, que pagou o preço de suas escolhas, e que fez do excesso o trampolim para a realização dos seus desejos. Como não se seduzir e reverenciar esse exemplo de alma inquieta e ainda tão necessária para tempos obscuros? São respostas que o musical  não oferta. Saímos do teatro tocados por uma nostalgia incomum, talvez só despertados por artistas insubstituíveis. A montagem de Cazuza por dia nascer feliz – o musical corrobora com essa imagem.

Rodolfo Lima

Obs: a peça segue em cartaz ate 03 de novembro de 2019, no Teatro Procópio Ferreira, sexta (21h) sábado (18h e 21h30) e domingo (18h)

Foto: Bruno Lemos

História Natural do Amor

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As narrações sobre as relações amorosas de homossexuais masculinos são frequentemente esboçadas no teatro e no cinema de forma fraturada e aquém ao idealizado. Isso é sempre uma questão em aberta, quase condição sine qua non para quem ousa se apegar a ideologia amorosa. Em História Natural do Amor de Guilherme Zanela ele enfatiza três vezes ao logo da encenação: “aqui não é Brokeback Mountain“. Referência explicita ao filme de Ang Lee lançado em 2005 e que se tornou um dos principais filmes do cinema queer, que entre outras questões, tem como fetiche a relação amorosa e sexual de dois homens cisgêneros, tudo sobre o arquetipo/fetiche dos cowboys.

O que Guilherme quer enfatizar é que não haverá relatos de afeto em seu discurso, não como estamos acostumados a idealizá-los, muito pelo contrário, suas experiências fisicas com outro homem vem alicerçadas por drogas, violência, prostituição, comércio. Ou seja, haja o que houver Guilherme parece ser uma alma com a sensibilidade esburacada. Não é triste, porque o tom que o ator impõe é sisudo e por vezes antipático. Se não há saída para as questões esboçadas por Zanela, o bom séria que ele se soltasse e se divertisse, afinal, ao sentarmos na platéia para ouvi-lo falar, já nos tornamos seu cúmplice, não há o que ele temer.

O texto de Javier Saez e Sejo Carrascosa “Pelo Cu: Políticas Anais” é a plataforma de argumentos de Guilherme que em vez do coração, foca no cu para tecer assim um desconfiado caminho para se acessar os afetos. Não vemos seu coração, mas seu cu. Mesmo que em algum momento ele peça permissão para beijar alguém da platéia, o que se vê é um ato mecânico para enfatizar que o cu nada mais é que a outra extremidade da boca, orificios que Zanela defende com a mesma frieza.

Essa falta de personalização em seu discurso torna pretensioso o resultado. Para os estudiosos do gênero que tem acesso ao texto usado como base para o solo, o resultado não tem um efeito surpresa e nem de choque que por vezes ele pretende. É o trabalho de formação do curso técnico para atores da Escola de Artes Dramáticas – EAD/USP, mas já que a ideia era “rasgar o cu” em cena, que o fizesse sem tanto melindres e porque não de forma a enaltecer essa dádiva que é “ir tomar no cu“. Esse é o desejo dele, mas seu discurso oferece uma visão crítica e agridoce do ato. Onde mora a parte boa disso?

Há associações que parecem exageradas, como a da crucificação de Jesus, afirmações frouxas “o amor é de esquerda”, e? Referências frágeis, como a dança típica do seu lugar de nascença. E lugares emblemáticos citado por Zanela, como que a debochar – como é o caso das saunas gays, famigerado lugar que acaba sendo o recurso de muitos gays para satisfazer o corpo e/ou procurar afeto. Mas Guilherme não chafurda nessa vivência, expõe o corpo – padrão, convenhamos: liso, branco, magro, jovem – expõe suas referências – excessivas e comum a muitos , e parece expor seu passado. Mas falta a Guilherme a vulnerabilidade, o risco, o que o individualize. As escolhas cênicas são tão esquemáticas que isso de certa forma depõe de forma duvidosa para o todo.

A direção de José Fernando Peixoto de Azevedo, que em sala de ensaio, estimulava o artista a esgarçar seus limites, colabora para esse tom de panfleto onde a encenação se encerra. O trabalho com cunho confessional como o que se propõe Guilherme merecia que essas questões nascidas sala de ensaio permeasse a cena diante do público, para que pudessemos ver o lado humano e falho – e sempre bonito e atraente, porque nos iguala – do artista e não um artista supostamente protegido e mecânico.

Entre as escolhas de marcação cênica a grande sacada é justamente ao do filme críticado, ilustrado neste post com uma imagem. É o único momento que podemos vislumbrar fagulhas de afeto, tesão e emoção, em contraponto a frieza e o tom zangado com que Guilherme se apresenta. Ali não é “Brokeback Mountain“, uma pena, mesmo que por segundos é nos ofertada a ilusão de reviver a cena e almejar o fetiche, existe alguém que não o deseje?

Não temos a possibilidade de se afeiçoar ao corpo de Guilherme – ele está nu, mas seu corpo não está a serviço do volúpia do desejo – suas referências carecem de significados que as dignifiquem e façam sentido para além do óbvio e o que nos resta são unir as peças que o ator joga ao público com sarcasmo e pessimismo. Mesmo que seja um trabalho necessário e significativo, não é uma encenação fácil e Guilherme soa como um cubo de gelo, que não sofre alterações diante da troca com seu público.

Rodolfo Lima

*as próximas apresentações da peça em SP são:

19 e 20/10 – Teatro Laboratório da ECA-USP

23 a 31/10 – SP Escola de Teatro

 

Baderna Planet

Baderna Planet – Foto de Henrique Mello10-min.JPG

A nova montagem do Satyros, grupo curitibano que completa 30 anos tem por objetivo em Baderna Planet discutir questões inflamadas dos tempos atuais, de forma baderneira e caótica. Mas o que se vê é um resultado agridoce de bandeiras levantadas e que esbarram nas questões de gêneros e raça. Com direção de Rodolfo García Vazquez e dramaturgia feita pela dupla Vazquez e Ivam Cabral, a festa poderia ter sido radicalmente elaborada, mas faltou a equipe criadora subverter os assuntos e oferecer ao público uma provocação a contento.

As temáticas são reais e problemáticas: homofobia, transfobia, racismo, misóginia, assédio, machismo  – por exemplo. Tudo junto seria o que formaria a tal baderna se por muitos momentos o público não fosse contemplado com cenas que beiram o confessional e portanto intimista, e que em vez de bagunçar o espectador por dentro o deixa sesnibilizado e protegido na platéia.

É o que acontece quando a abordagem aborda o machismo tóxico e a misoginia. Se a primeira cena tem como intuito pegar o público pelo lado sentimental e emblemático, próprio do depoimento pessoal – quatro atores depõe suas histórias para o público – a segunda “floreia” o assunto ao mostrar uma cena musicada para enfatizar que o discurso da mulher contemporânea está muito além dos velhos clichês. É boa também a referência que se faz as mulheres trans e suas questões, mesmo que a cena seja mas ilustrativa sem um acabamento combativo ou caótico.

O mesmo pode se dizer quando a peça esboça uma cena de capoeira para evidenciar a questão negra e suas referências. O trio tem empatia e força, mas a cena parece solta do todo, que no geral sofre do meio para o fim patinando em volta dos mesmos assuntos, mas sem a novidade e atração que a peça oferta na primera metade, quando a abordagem é a homossexualidade masculina e a possibilidade de se beijar em público. Temas como as fakes news propaladas pela religião – por exemplo – são abordadas no inicio e depois não retomam mais.

A montagem é resultado de um grupo de pesquisa criado para abordar o tema da intolerância e os 21 artistas em cena resulta num misto de artistas já conhecidos pelo público do grupo e novos “caras”. Essa é a verdadeira baderna característica do grupo, misturar diversas singularidades em cena e propor que suas individualidades e experiências contamine a cena, no intuito de assim atingir a um público maior e mais heterogêneo.

Há folêgo no grupo, fato, mesmo que por vezes tenhamos a sensação de que a abordagem do tema pareça um simulacro da realidade. Faltou então que a direção verticalizasse o tema e provocasse seu público de forma mais complexa e caótica, tanto na forma como no contéudo. Os figurinos de Vasquez quando se propõe a não revelar rostos, tons de pele e caracteristicas fisicas se torna uma importante amalgama para reitifica as mazelas que atingi o indivíduo na atualidade, independente de suas origens e caracteristicas fisicas.

O título da peça é uma referência a artista italiana Marietta Baderna, que se refugiou no Brasil aos 20 anos (em 1849) e desenvolveu em terras cariocas sua arte que trazia contestações importantes para uma sociedade machista e escravocrata e claro foi perseguida pelo seu viés ideologico e ovacionada por seus fãs. Porém sua voz é ouvida no inicio do espetáculo e depois é abafada no meio de tantas inquietações. É uma espécie de anti heroina, como a montagem se propõe a lembrar.

Fãs é o que não falta ao Satyros e justiça seja feita, a abordagem do grupo nas questões da homossexualidade masculina já tiveram muitos acertos e o grupo detêm uma dezenas de cenas de peças onde a questão veio a tona. Não há toa, esse tema é o melhor abordado em Baderna Planet. Propicia ao público um misto de ironia, provocação, poesia e improviso, que faz com que o público se inflame e reaja ao proposto pelo grupo. Do beijo ao medo somos inseridos numa abordagem crítica sobre a falta de liberdade afetiva e fisica que segue acometendo gays masculinos e cabeças retrogradas.

O clima de Happening ao qual o público é recebido no inicio da peça, perde força para o melodrama, o que esfria os ânimos, mas não acaba com a relevância das vozes de seus intérpretes e nem com a tentativa de criar uma baderna ainda maior do que já vivemos. Baderna Planet é mais uma das obras construidas pelo grupo que tem por intuito questionar certezas e colocar seu público para fora das caixinhas. É uma luta a se respeitar.

Rodolfo Lima

Obs: a peça permanece em cartaz até 09/11,  de quinta a sábado as 21h

+ informações: http://www.satyros.com.br

(Foto: Henrique Mello)