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As Criadas

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Vivemos em guerra. Essa constatação é generalizada e irreversível. O mais triste é que os inimigos não estão só fora de nós e sim dentro de nós, deturpando a realidade, gerando rancores, desvalorizando singularidades, potencializando disparidades. Não podemos ter a inocência de temer apenas quem nos governa, quem nos educa, quem nos ama e quem declara querer ficar ao nosso lado independente de. Uma das verdades cruas e violentas do texto de Jean Genet, As Criadas, jogadas na cara do público sem o menor senão é: Quando escravos se amam não é amor.

Partindo desse pressuposto e da dura constatação de que vivemos escravizados em dogmas, esquemas, guetos, turmas e qualquer outra coisa que nos faça ser incluído num sistema cada vez mais ambíguo e  seletivo, não há amor em nenhuma instância. Pois não somos capazes de “amar” para além do que nos enquadra e nos aceita, se é que sabemos com clareza o que é isso. Todos estamos a caça dessa epifania da aceitação e de ser valorizado. Escravos das expectativas.

Num sistema ordinário, onde vence quem pode mais. Onde a potência é medida pelo poder de manipulação, o que nos resta, por vezes é apenas se revoltar. E é isso que Solange (Magali Biff) e Claire (Bete Coelho) compartilham conosco, uma simulação do que poderia ser esse sistema invertido, onde oprimido e opressor, lutam pelo protagonismo. Reféns de padrões estigmatizantes como rico x pobre, branco x preto, feliz x infeliz e por ai vai. Vivemos setorizados. Um desespero.

Nessa loucura que é querer estar no lugar do outro, desfrutando de toda acessibilidade que ilude a alguns com promessas de um dia a dia melhor, Solange e Claire se tornam alegorias bizarras e tristonhas de um sistema cultural, trabalhista e escravagista que parte do pressuposto de que o outro está aquém.

No palco do SESC Santana o que vemos não é apenas o clássico texto de Jean Genet, escrito em 1946, enquanto estava preso. Não vemos apenas uma peça sobre luta de classes: empregados x patrões. Vemos antes de tudo vidas vilipendiadas por um sistema que valoriza antes a capacidade de produção do indivíduo. E se não somos capazes de produzir nada, além do que repetições rotineiras e cotidianas, que se não nos salva do tédio, no permite ter uma vida comum e básica, o que nos restará?

A direção do polonês Radoslaw Rychcik não remontou apenas o texto do famigerado dramaturgo francês. Ele, ao colocar suas personagens sentadas e em poltronas/palanques nos obrigou – nós, o público, reféns delas por mais de uma hora – a mergulhar naquele universo humano cheio de rancor, tédio, resignação e humilhação. Ao invés de preencher a cena com quiproquós cênicos, Rychcik esteriliza a realidade delas e o discurso das personagens – ali só se tem a palavra, como uma arma poderosa e irrevogavel –  ganham sabores agridoces e ácidos, que torna a vida, por aquele período, insustentável. Não há saídas, acredite.

De quebra, ao colocar no topo do sistema “a atriz e cantora negra Denise Assunção” (assim que o diretor se refere a ela no programa do espetáculo) a peça oferece uma leitura do racismo e de toda luta por igualdade que os negros tanto lutam. Assim, a peça é atualizada e problematizada. Ao surgir cantando “O morro não tem vez”, o figurino – por sinal belíssimo de Hanna Maciag –  nos remete a figura de Oxum. Infelizmente não há amor naquele palco e de quebra  – se bobear – nem entre nós. O “morro” tem voz, mas o que se ouve é gritaria. Estamos fadados ao fracasso?

A proposta arriscada da direção só é bem sucedida pois tem a mercê duas atrizes potentes. Magali  e Bete são o que há de melhor na geração delas nos palcos nacionais. Se a primeira tem força em sua dramaticidade madura e convincente, a segunda flerta com o trágico, nos oferecendo um simulacro da realidade que mais do que nos entreter com sua capacidade corporal e vocal, nos inibe com seu poder de persuasão: nos reconhecemos naquela loucura histérica, infelizmente.

A música minimalista – e poderosa – composta pelos irmãos Michael Lis e Piotr Lis, nos enreda de uma forma sufocante e poética. Como se pudesse ir vislumbrando uma realidade bela, mesmo que nas trevas. Esse lugar potencializado pelas câmeras utilizadas em cena, revela que também vivemos num mundo que além de estigmatizar nos revela a todo instante. Registrando uma rotina que não nos traduz poeticamente, mas nos desnuda. Ou seja, não há escapatória.

E quando nos resta apenas cuspir no outro, como se esse ato de repudio e desespero nos salvaguardasse de nós mesmos, vemos que o teatro é capaz de nos ofertar o lado mais cruel da realidade. “As Criadas” do quarterto Radslaw, Bete, Magali e Denise, não é para iniciantes, tudo ali exige do público bagagem e repertório. Ao mesmo tempo que tem uma mensagem direta e certeira. Um feito e tanto. E prepare-se, não há epifanias na referida montagem, não foi dessa vez que o teatro irá te salvar.

Rodolfo Lima

Bug Chaser – Coração Purpurinado

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Você já pensou que pode ser infectado pelo HIV de propósito? Ou quantas vezes já passou pela sua cabeça ser infectado, para poder assim curtir o sexo sem neuras e aproveitar tudinho o que o corpo alheio oferece? A primeira vez que ouvi falar no tema, foi quando assisti “The Gift” (O presente) dentro da programação do Festival Mix Brasil. Lembro de sair sem rumo da sala de cinema e encontrar um amigo aos prantos do lado de fora. Isso foi em 2003. Corajosamente a Cia. Artera de Teatro (Ricardo Corrêa e Davi Reis) estimulado pela PROAC LGBT se debruçaram sobre o tema. E o resultado disso é um trabalho pungente, que aborda questões delicadas – e necessária – do universo gay e que oferece um questionamento maduro e urgente sobre a questão. Um trabalho importante.

Mark não tem ninguém. É um advogado criminalista bem sucedido, mas marcado por uma infância reprimida, cresce sequelado. Muito em prol de uma sociedade homofóbica, machista, e…heteronormativa. O personagem em questão vence na profissão e se sustenta. Porém não consegue bancar seu passado de forma sadia e produtiva. É justamente esses senões acumulados com o tempo que fazem com que Mark tome o seminal  caminho da infecção voluntária. Uma forma de se sentir vivo e integrado num sistema. É um personagem rico, porém sua retratação soa maniqueísta e tendenciosa. Primeiro porque vemos sua vida exposta de uma forma tão violenta e esvaziada de sentido que parece uma efemeridade pensar que ele possa ser feliz um dia. E segundo porque quem se infecta propositadamente, tem no mínimo uma perturbação interna, algo não resolvido. É sempre assim?

Para complicar o assunto, Ricardo Corrêa, ator e dramaturgo, isola seu personagem numa espécie de cela/laboratório, para uma quarentena, afinal, ele é uma arma ambulante (Uma possibilidade de leitura, porém segundo o ator o período é também o tempo referente a profilaxia – onde o indíviduo exposto ao vírus, toma um coquetel para barra a multiplicação do vírus). Sua “porra” pode ser mais fatal que qualquer outra idiossincrasia que seu corpo produza, embora letal mesmo, seja o câncer, como bem frisa o personagem em dado momento. Esse clima de história-de-ficção-futurista é cabível. Já que infectar o parceiro propositadamente pode render algum período encarcerado. Virou crime, e é sério. Afinal, “a cidade é um circo de horrores, ora luxo, ora esgoto.

Corrêa não deixa dúvida e ao surgir com uma cabeça de rato na primeira cena, reitera que seu personagem pode ser sim associado a um animal vil e pestilento, quiça virulento e repugnante. Seria uma forma de rotular o personagem? É uma questão importante que é celebrada quando vemos o personagem transitando por cinemas pornôs, cheios de homossexuais deprimidos e promiscuos, e garotos de programas sem esperanças. É um visão fatalista e real dos guetos da cidade. Uma realidade camuflada.

Ele gosta de ser assim? Eis ai uma questão que impede que o público se apegue ao personagem, mesmo que o ator tenha um desempenho cênico energizante, potencializado pela direção veloz de Davi Reis e a iluminação criativa de Fran Barros. Marc só revela esse lado “bad” da vida. Fiquei me perguntando: será possível querer conviver com o vírus e tudo bem, ser livre e bem resolvido? Bug Chaser, não oferece essa opção, e esse é o deslize da montagem, não deixar que o público se coloque em seu lugar, ou o julgue. Tudo é dado pelo personagem, ficamos de voyeur a observar ora com cumplicidade, ora com repúdio a realidade do outro, que rezamos, torcemos para estar bem longe de nós. Mas a verdade é uma só, quando se aceita transar com o outro sem preservativo, é feito um pacto, mudo e irreversível. Muitas vezes nem é uma exigência (a camisinha), apenas se aceita. Uma verdade que cala a todos.

O problema que o personagem apresenta é o coração que vai pifar a qualquer momento. Essas 400 gramas recheada de rancor e mágoa que Mark carrega no peito. O vírus mesmo não é a questão, serve para que o personagem consiga concretizar uma possibilidade de aceitação e parceria com Jhony, que se infecta primeiro e “vira purpurina”, antes que possa ser agraciado com alguém que o aceite. Mark é tão desgostoso da vida que um coração não resolveria seu problema, então sua desumanização – reiterada pela sua fala – é um exagero. Que dubiamente poderia soar como que um pedido de socorro, de atenção. Não é clara se a intenção do autor foi essa. A metáfora do problema do coração é uma reverberação bem bonita e trágica, da herança deixada pelos pais.

Esse deslocamento já perseguia o personagem desde criança, primeira lembrança de se sentir imundo – mais um adjetivo para o animal que supõe ser. Um troca troca entre primos se torna uma teorização sobre sua desumanização. Seria ali o inicio de uma caminhada que condenaria Marc a restar sempre com os líquidos alheios em seu corpo? A cena remete a um momento da peça “Luiz Antônio-Gabriela” onde diante do inevitável, a “leitada” (ato de jogar o esperma no outro sem nenhum tipo de proteção) se torna problemática.

Essa situação – experimentar o esperma do outro – é um assunto delicado, que Ricardo frisa com muita contundência: “Ditadura do Látex. Você acha que é fácil ter nascido sobre o estigma desse tempo“. As projeções utilizadas pela encenação, muito mais do que reiterar a violência homofóbica que muitas estão sujeitos – um clichê aceitável – poderia ter atualizado o aumento da doença entre os jovens, que no afã da juventude e numa era pós estigmatização do AIDS, que associava a doença APENAS aos gays, não temem a contaminação. O coquetel segura o baque das consequências e a vida pode seguir seu curso. Ter nascido com certa culpa é um fardo nefasto. E notícias do vírus em 1983, não é justificável.

Pode parecer uma exaltação ao ato, mas na peça é super pertinente quando o personagem reitera com todas letras que os praticantes de Barebacking transam sem camisinha, quando explica o que é cavalgar sem cela. Receber “vitamina” ou mesmo zerar a carga viral e ai… sai transando a vontade sem temor, uma roleta russa interminável. Obviamente que isso acarreta outros riscos para a saúde, mas colocada de forma crua e sem rodeios é o melhor que a peça pode fazer. Pois assim como Marc, para algumas pessoas o amor começa no sexo. E para essas pessoas, há limites quando o sentimento surge? Elas pagam o preço?!?!

O melhor momento da peça é incontestavelmente o momento que Marc supostamente se infecta. Para quem já frequentou qualquer tipo de inferninho – sauna, clube de sexo, dark room, suruba e similares – sabe do que o personagem fala, e se você nunca foi, poderá ter um exemplo do quem vem a ser. Quando o personagem caça o vírus como se isso o aproximasse mais do outro, e declara “eu posso viver contaminado, seja lá o que isso significa” é um “eu te amo” avassalador. Me remeteu a Hilda Hilst: “Te amo, ainda que isso te fulmine ou que um soco na minha cara, me faça menos osso e mais verdade”.

O “bom mocismo” contamina o trabalho e isso enfraquece o todo. Um cara sujeito a todo tipo de doença está lá preocupado com “seu lugar de privilégio”? Palavra da moda. Que importância tem a tragédia de Aleppo, se o personagem é incapaz de olhar para si mesmo com amor? O drama social em que o personagem está imerso é “maior” que seu universo interno. Eles deveriam estar complementares e não subjulgados um pelo outro. Partindo desse pressuposto da universalidade a peça perde a individualidade e não arrebata, oferece um recorte frio e racional de muitas questões inflamadas e urgentes para os homossexuais.

Imagina não ter o que sentir. Isso deve ser libertador“, diz Marc. Pena que ele não nos oferece essa possibilidade, essa epifania, essa abertura de na sua tragédia pessoal eu (re)construa meus senões. Porque eu tenho que me importar com quem me pede algo na rua? Que pieguismo é esse? É como se Marc fosse frágil, mesmo que a presença de Ricardo em cena demonstre o contrário. O melhor que Ricardo oferece é quando arrisca e oferece uma composição – e um texto – crua e sem rodeios. Não é uma (con)sequência de socos. O artista não opta por esse caminho e corre o risco de se exceder.

Eu era o depósito“. Essa imagem é poderosa. É das que o público deve guardar, assim como um dos momentos mais emblemáticos da encenação. “Bug Chaser – coração purpurinado” se rende ao virtuosismo em cena e isso prejudica em alguns momentos. Como se as marcações fosse mais importante do que o que está sendo dito, ledo engano. Uma insegurança de não deixar com que as palavras façam o serviço dela. A peça aborda um tema tão complexo e importante que é impossível sair indiferente. Precisa ser (re)vista, questionada e problematizada. Os artistas envolvidos prestam uma contribuição valiosa a história de peças gays no cenário paulista. Confiram.

 

Rodolfo Lima

Sínthia

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A complexidade é um dos adjetivos mais interessantes que se pode ofertar a uma obra. Isso pressupõe que há diversas camadas a serem lidas/interpretadas. E isso no teatro é uma raridade, um feito ousado e inteligente que tem que ser reverenciado. “Sínthia” da Velha Companhia é uma dessas peças. Porém, com tantas questões postas em cena, o risco da escorregadela pode ser maior. E arrisco dizer que no que tange a transgeneridade e a sexualidade do personagem Vicente (Kiko Marques, ator, autor e diretor) temos um exemplo um pouco nebuloso.

Na trama, Cida (Denise Weinberg) é mãe de quatro filhos. Personagem essa que abdicou cedo do sonho profissional e viveu “condenada” a cuidar dos filhos. Teve suas singularidades abafadas. Possíveis desejos suprimidos e a felicidade de ter uma menina perdida. Há muito senões nela. E para complementar, uma doença ameaça colocar tudo o que restou em risco. Mas o que restará, é uma questão que o público carrega a peça toda.

Henrique Schafer dá vida ao marido. O “poeta”, que nada mais é do que um torturador dos anos 60, e que paga com a própria sanidade as escolhas da profissão. Se a mulher sofre por não se expressar para além dos afazeres domésticos, o marido complementa sua rotina com os dilemas que omite, e nessa omissão potencializa o abismo entre eles.

O trabalho é de fôlego, são três horas de uma encenação em boa parte do tempo inspirada e interessante, que alterna drama e comicidade de forma leve e cotidiana, o que aumenta a identificação do público. A peça ocorre em três tempos/período histórico, o que poderia confundir, se a direção de Marques fosse frágil. Não o é. Aliado com o trabalho dos atores – das atrizes, em especial Alejandra Sampaio – “Sínthia” é uma potente encenação teatral.

O que vemos naquela família é o desmantelamento das emoções, embora aparentemente a união entre eles seja o que os fortaleça. Porém, num mundo de ausências, silêncios e emoções abafadas, há muito o que se pesar/dizer. E é isso que os personagens “vomitam” em cena: suas questões mau resolvidas e/ou ainda não extravasadas a contento.

No prospecto do trabalho o grupo assume três temas na encenação: o feminino, a ditadura e a transgeneridade. Vou me ater a essa última e não a toa, ela carrega as outras duas, de forma indissociável.

A sexualidade de Vicente é colocada em cena pela primeira vez quando ele assume a falta de traquejo na iniciação sexual. E/ou quando assume que, depois de ter usado drogas, se vê/se imagina sem o pênis. Ao relatar para mãe, o fato, ouve da mesma: filho veado eu capo. Bom, a mãe é tão castradora e militar como o pai. Isso é herança: o autoritarismo. E isso veremos mais no final, quando os irmãos de Vicente narram o feito seminal.

Pois bem, Vicente é musicista, sensível, e a composição de Marques é formal e opaca, como que a esconder algo. Mas não sabemos bem ao certo do que se trata, ou se é apenas a personalidade introspectiva do personagem. Ele casa, tem filhas e em dado momento da vida é devastado pelo suicídio de um aluno, um pupilo, que o então professor, apadrinha. “Amigo” (Valmir Sant’anna) esse, a princípio, abastado de qualquer possibilidade de melhoria de vida. O embate entre eles é artístico e com questões sociais os diferenciando. Poderia haver ali uma camada sexual que os envolvessem numa áurea sexual? Sim. Mas a direção não escolhe esse caminho. Os momentos de diálogo entre os dois são carentes de desejo e empatia. Isso não evita que a mulher (Virgínia Buckowski) de Vicente desconfie da relação dos dois. Se não fosse a personagem apontar, tal possibilidade passaria batido.

Vicente desconcertado e infeliz resolve numa noite de natal, depois de passar três dias sumido, voltar para casa da mãe vestido de …”Sínthia”, a tal filha que a mãe não teve. E que deveria ter vindo na vez de Vicente. Ou seja, ou o personagem sente culpa, ou uma insatisfação interna com o próprio corpo. Nenhuma das duas questões é esboçada a contento na encenação. Os supostos 40 minutos do segundo ato, que se debruça sobre o tema, é pouco diante dos 120 minutos para se contar a saga familiar, e que perfaz o primeiro ato.

É comum no universo gay, o filho que supostamente é solteiro, cuidar da mãe no final, ainda mais se a mesma adoece. O clichê é legitimo e inquestionável. Mas usar roupas femininas não o faz melhor que os irmãos – que demonstram afeto e preocupação pela mãe – e sua infelicidade é usada para justificar suas ações. Ou seja, qual o papel real da mãe nessa história?Mãe essa que continua o chamado de filhO.

É uma pena que um trabalho tão sério, bonito e bem encenado, patine tanto nas questões de gênero. Para engrossar o caldo: a homofobia internalizada dos irmãos – usada claro, para enfatizar que todos naquela casa carregam o DNA do familiar militar. Soa forçado. Uma déjà vu desnecessário.

A peça tem base em memórias reais do diretor, que assim como seu protagonista foi esperado como menina e teve que viver com a frustração da mãe, vivendo num mundo estritamente masculino. Os dois anos de pesquisa do grupo não exímio a dramaturgia de “forçar” a sexualidade do protagonista, num mundo rígido e solitário, porém vivo e emotivo.

O drama final, com a mãe variando em função da doença avassaladora é verossímil e real. Se eu não tivesse vivido na pele tal realidade… Mas vale lembrar que a saúde da mãe é posta em cena em outros momentos. O público cria essa possibilidade junto com a personagem e os filhos. Mas quanto a transexualidade de Vicente… realmente isso não ocorre. Causando uma confusão nessa transição. Abafada por causa do potencial dramático da cena, em função do fim da mãe.

Se for possível alguém reler o trabalho, pelo viés das questões de Vicente, como se daria essas colocações? Vicente é travesti ou transexual? Gay ou apenas um homem em depressão? Questões que o trabalho sugere, mas não responde a contento.

Rodolfo Lima

O príncipe desencantado

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Peças que abordem as questões de gênero ainda são raridade. Talvez no futuro seja comum pensar a sexualidade para além dos padrões heteronormativos, porém o tema ainda é visto com muitos senões.  O Príncipe desencantado é um bom exemplo dessa herança nefasta da normalização de nossos desejos e da utilização dos nossos corpos. Afinal, no fundo parece que ter um filho “normal” ainda é o desejo da maioria. Mas o que é ser normal? Velha pergunta para uma questão que não deixa de ser inflamada. Já que hoje as supostas minorias conseguem ter voz e gritar aos quatro ventos suas questões e singularidades.

Disse, “nefasta” não por ser ruim, muito pelo contrário. O trabalho escrito, dirigido e produzido por Rodrigo Alfer é um delicado e bem intencionado musical infantil, que se não ousa nas marcações cênicas, tão pouco peca com erros grosseiros. A peça se equilibra num certo “bom mocismo”, o que pode ser um “problema”, já que sim, precisávamos de uma montagem mais transgressiva e que ousasse, por exemplo, no beijo entre os príncipes.

Mas o beijo é desnecessário, dirão alguns. Não o é. Qualquer criança cresce vendo beijos similares em novelas – por exemplo – e caso não seja portador de um celular com wi fi, procurar outros tipos de beijos é bastante dificultoso, já que expressões de carinhos entre pessoas do mesmo sexo, ainda tem hora e lugar certo e é recriminado em muito lugares público. Então levando em consideração essa questão – da falta de afeto – a peça de Alfer, deixa a desejar.

Famílias mais conservadoras que ousarem marcar presença na platéia podem ficar tranquilas com essa possibilidade, mas fiquei me perguntando se era querer demais que o trabalho dos artistas em questão arrombasse essa “porta”. Porque trabalhos infantis sempre tem que ser delicados e metafóricos, quando a realidade – essa mesma que invade o universo infantil – não o é?

O argumento da peça é inusitado e divertido num primeiro momento. Príncipe Vick (Davi Moraes) entediado com a festa organizada pela sua mãe para que ele arrume uma namorada, vai a um Karaokê se distrair e lá conhece Teco ( Cícero de Andrade), outro príncipe. Eles se encantam um pelo outro, mas a peça não mostra com muitos detalhes essas questões. Davi soa mais natural em seu constrangimento diante de uma possibilidade de um igual, enquanto Cicero soa mais farsesco e descompromissado. Um faz graça, o outro um tiquinho de drama. Um questão: que “criança/adolescente se agarra num microfone para cantar “evidências”, “o amor e o poder” ou “lua de cristal”? A intenção é boa, mas tais músicas tem a ver com o universo gay (a memória emotiva) dos adultos na platéia e não das crianças, e quando eles entoam “I Will Survive”, o escorregão é feio.  Isso porque estou levando em consideração que os acordes de Lady Gaga, são produtos da minha imaginação tendenciosa.

Observei dois meninos – três, das duas crianças na platéia no dia em que eu assisti, uma pena – ao meu lado e posso garantir que eles não esboçaram nenhuma reação a peça toda. Diria que o único código atual usado na peça é o tênis de led, mas esses também não fizeram a “cabeça” dos meninos. É interessante o uso de lâmpadas que outrora serviram para agredir homossexuais, bem como a lembrança de que carrinhos de pedreiro não carregam – infelizmente – só material de construção. Porém é importante frisar que talvez as crianças não leiam tais signos. E dai me pergunto, cabe a quem dissecar essa informação?

Se a educação de uma criança se complementa em lugares de sociabilidade, já que a base, quem dá é os país, O príncipe desencantado é um potente material de discussão. Alfer foi ambicioso e acrescenta ao tema já delicado a questão da transexualidade. Ou seja, é bastante assunto para familiares bem intencionados. Já que caberá a eles explicar o que aconteceu com o príncipe e a família dele, e porque a princesa não quer se princesa, já que ela é mais rock and roll. Sim… a peça tem um quê feminista.  E tome assunto. A forma como Vick reage ao retorno do pai é amaciado de uma forma, a ignorar a inteligência do público.

Como se vê, talvez não fosse possível a direção enfatizar a contento todos os temas abordados, mas de certa forma essa ausência denota receios temerosos da equipe de criação. Uma marcação como a do filho dublando a mãe, na primeira música – como uma boa drag queen mirim – é um acerto divertido e leve na marcação, que comunica e não causa mal estar entre os homofóbicos. O riso salvaguarda a ação.

“O menino teresa” e “A princesa e costureira”, são exemplos de peças com conteúdo similar ao do “príncipe…” e que tiveram resultados satisfatórios. No primeiro caso, uma menina gostaria de viver no lugar de um menino, não no corpo em sim, mas nas brincadeiras e nos códigos do universo masculino. E no segundo caso, a princesa em vez do príncipe, se encanta por uma costureira. Peças para crianças, veja bem!!!!

O elenco é uniforme, Marcella Piccin como uma garota transgressora, retira risos saborosas da platéia. A naturalidade com que Davi Novaes lida com as situações não é a mesma que acompanha o elenco como um todo, mais na chave da (boa) caricatura. A direção os deixa refém do manuseio das lâmpadas, o que em dado momento empata a fluência do todo.

Não sei se no universo infantil “tudo acaba em carnaval”. Se ser “bela recata e do lar” é algo que interesse as epifanias mirins, mas comunica os adultos. O tom melodramático que há na cena entre o príncipe e a governanta destoa do clima leve e divertido que caracteriza a montagem e faz parte do seu charme.

A presença da atriz curitibana Maite Schneider é um ganho – ainda mais levando em consideração os debates sobre a presença de transexuais e travestis no universo da arte – e sua personagem daria uma outra boa história. Quem sabe na próxima, né Alfer?

Rodolfo Lima

Tom na Fazenda

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Peça com conteúdo gay são sempre uma caixinha de surpresa. A graça é quando ela se revela uma verdadeira caixa de pandora. “Tom na fazenda” do canadense Michel Marc Bouchard tem sua primeira montagem brasileira, graças ao desejo de Armando Babaioff que além de idealizar o projeto, traduz o texto e dá vida ao protagonista. A peça estreou no final de março no Oi Futuro no Flamengo (RJ) e tem força, fôlego e qualidade para uma trajetória longa e emblemática. Todo o esforço deve valer a pena, creia.

A sinopse é simples, Tom vai para o velório do namorado e ao se deparar com a família dele, a mãe  (Kelzy Ecard) e o irmão (Gustavo Vaz), percebe que a primeira não sabia da sexualidade do filho e o segundo sabia e recriminava. A simplicidade do argumento ganha camadas interpretativas poderosas e complexas, alcançadas – provavelmente – graças a direção provocativa de Rodrigo Portella. O texto foi encenado pela primeira vez no Canadá em 2011 e filmado pelo cineasta Xavier Dolan em 2013.

Tom (Armando Babaioff) ao se deparar com a realidade rústica da família do namorado não tem coragem de desnudar a verdade. Diante dessa impossibilidade se vê atrelado num mar de mentiras e omissões que o engendra a se comprometer de forma irreversível com a realidade dos familiares que lhe foram forjados. E claro que o grande embate não poderia ser menos intenso, já que se dá entre Tom e o cunhado homofóbico e machista. Portella potencializou esse contraste e transpassa a percepção do público com cenas homoeróticas, arraigadas de sensualidade, violência e sentimentos. A forma como essas camadas vão sendo compartilhadas com o público é o “crème de la crème” da montagem.

Há virilidade e sutilezas, que alternadas fazem toda a diferença, e brindam o público com a possibilidade de interpretar as nuances de forma a potencializar suas idiossincrasias. É perceptível a agressividade do preconceito e como a coragem de alguém que ousa enfrentar essa potência destruidora, pode causar abalos significativos. Tom simplesmente “atravessa” Francis (Gustavo Vaz) com seu jeito desajeitado de lidar com  a situação. O manuseio de códigos do universo masculino é uma arma tão poderosa, pois nos coloca como reféns, assim como está Tom, e não sabemos ao certo se gostamos ou somos contra. Tão arraigados está em nós uma construção machista da realidade e nossa vocação para a aceitação.

O jogo corporal dos personagens é colorida de forma erótica. Um caso raro de se vê nos palcos teatrais. Erotizado, e não com cores sensíveis a nos remeter ao universo feminino,e sim a nos relembrar que no controverso universo machista há lugar para delicadezas, mesmo que rústicas. E aqui, a contradição faz sentido, pois Portella quer nos fazer crer que a monstruosidade de Francis, pode ser revertida, ou apaziguada. No fundo é isso que desejamos, que o outro se acalme internamente. E é isso que Tom faz com Francis, de forma sensível e potente. Seja na brutalidade das cenas ou no deslocamento interno do(s) personagen(s).

O palco é desnudado, temos apenas baldes, uma lona e uma porção de barro a nos borrar a percepção do que temos. E corajosa essa opção de não oferecer nada além do trabalho dos atores, porém o quarteto dá conta. Babaioff imprime um tom melodramático em seu personagem, que resulta numa composição bonita e intensa. Falta nuances, talvez. Mas seu recorte apaixonado, confuso e emotivo é uma opção interessante. Tocante. Kelzy – que recentemente esteve na cidade com “Rio Diversidade” – compõe uma mãe sensível e plausível. Vemos sua construção e como a atriz é capaz de extrair força e verosimilhança em cenas como a do macarrão e do cemitério. Vaz é o típico macho-cafajeste-alfa, e a percepção que você tem desse personagem, revela muito sobre você (público), creia. Pois é no embate de sensações que Francis provoca que mora todos os senões.

A dramaturgia no final deixa o climax em suspenso, o que não deixa de ser frustrante, já que Portella constrõe cenas muito interessantes no decorrer das duas horas de peça. Numa época permeada de intransigências, com discursos mais preocupados em reduzir o ser humano, em vez de potencializar suas singularidades, um texto como esse não deixa de ser uma forte bandeira contra toda a intolerância vigente. É como se o lixo viesse a tona em cena, mesmo que não queiramos nos deparar com essa parte mórbida da nossa realidade.

Aqui não vale uma comparação com o filme, mas é necessário ressaltar que são produtos (teatro e cinema) que partem do mesmo argumento, porém nos revela detalhes bem dispares. O que não deixa de ser curioso, pois até que ponto – assim como o cineasta – o ator teve uma liberdade poética para recriar a história. O final de ambos são completamente diferentes. Como será o original?

Na iniciação cientifica e no mestrado analisei peças gays e sempre me questionei se seria possível balizar o grau de contaminação do resultado final de uma peça, a partir da singularidade e sexualidade dos artistas envolvidos, e do quanto eles imprimiam seus olhar no produto final. O trio Vaz, Babaioff e Portella oferecem um combo de masculinidade, sensibilidade, virilidade e erotismo,  raro de se ver.

“Tom na fazenda” é sensual e cativante sem deixar de ser estúpido e cruel. Me pergunto, que outra obra conseguiu tal efeito e não acho a resposta.

Rodolfo Lima

Trans-Ohno

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Eu quero ser a bagunça. Quero que as pessoas me olhem e se sintam incomodadas, como eu me sinto quando me olho no espelho.” Eis a frase que – para mim – sintetiza o que significa a montagem do Coletivo Artístico As Travestidas, “Trans-Ohno”, que se ancora na dança butoh para ampliar as singularidades e questões do universo trans, local esse que o coletivo estabeleceu a base do seu trabalho desde de 2002, com o solo de Silvero Pereira “Uma flor de dama”.

Se o corpo da travesti é sempre associado a marginalidade, a prostituição, ao grotesco e a fetichização, a montagem em questão imprime metáforas e delicadeza a um universo tão carente de simbolismos poéticos. Diego Salvador e Rodrigo Ferrera funcionam como antíteses de um corpo imberbe em contradições e que de posse de suas singularidades ousa expressar-se a contento. O que se vê nos 60 minutos são imagens que obriga o espectador a sair do seu lugar confortável e buscar similaridades. Entre os atores, entre a cultura oriental e a ocidental, entre os personagens em cena, entre o que ele sabe e supôs saber do universo trans.

A reverência do corpo no butoh não aprisiona o indivíduo em gavetas, muito pelo contrário, o liberta e o exalta. Enquanto Salvador empresta seu corpo para esse hibridismo dolorido que é o ser humano, Ferrera assume a dubiedade na fala e constrói de forma direta e objetiva, um corpo desraizado de certezas. “Dizem que se conhece um homem pelos sapatos que calça“, ao dizer isso ele nos mostra seus saltos alto vermelho, ou seja, que homem é esse?

É justamente isso que a atualidade está tentando responder e não consegue. Qual o conceito de masculinidade? Como se definir o que é ser homem? Quais os códigos que perfazem esse gênero? Quando salvador dança temos a certeza que não sabemos. Quando a mulher-barbada-de-Rodrigo canta “eu sei que eu sou bonita e gostosa e sei que você me olha e me quer. Cuidado garoto eu sou perigosa”, não se duvida. Não porque ele aparenta ser perigoso e sim porque o que não se entende, é visto com ressalvas. Assim como o são a/os travestis e transexuais.  “Trans- Ohno” é portanto um trabalho que se ancora numa arte japonesa que requer disponibilidade do público, causa estranheza e transporta os mesmos para outro tempo. Talvez o tempo das incertezas. E isso é desconfortável.

O Coletivo Artístico As Travestidas sob direção de Tomaz de Aquino e dramaturgia de Ana Cristina Cola, atriz pesquisadora do grupo campinense Lume, parece avançar e revela um produto maduro e pungente, sem abrir mão do que adora fazer: o show, a dublagem, a famigerada montação. A sensação que se tem é que os atores estão desnudos, mesmo que a nudez não existe. O que vemos é personagens fraturados em cena e que abrem brechas para que o público a preencha como e quando puder. Ninguém fica alheio a um quadril de espuma. O trabalho de se construir é doloroso e insano e isso vemos de forma implícita nos corpos de Diego e Rodrigo. Esse hibridismo entre realidade e ficção, que é marca do coletivo faz toda a diferença nas cenas que constrói.

Yasmin Shirran e Mulher Barbada, identidade (desejada?) de Diego e Alter ego de Rodrigo se rendem e rompem com o decreto do feminino para as mulheres e para os gays e bagunçam a percepção que carregamos dessas “certezas” que se fragiliza mais e mais. O final da peça ao som de Antony And The Johnsons, que tem em sua vocalista uma mulher trans, torna tudo melancólico e mais frágil, assim como nossa sexualidade e nossos desejos e o que supomos saber dos outros. Não sabemos quando seremos capazes de virar do avesso nosso mundo. Mas em “Trans-Ohno” há um abalo imperceptivel, sísmico. Como se tudo ali cortasse sutilmente a gente, sem que percebamos. Um feito considerável.

Rodolfo Lima

Non Soy Un Maricon

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São Paulo carece de um festival de Artes LGBTQIA (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais/transgêneros, queer, intersexos e assexuais) que dê conta de abranger toda a pluralidade artística produzida em terras tupiniquins. A terra da garoa conta com dois festivais, “Festival Mix Brasil de Cultura e Diversidade” e “Todos os Gêneros – Mostra de Arte e Diversidade”, do Itaú Cultural que dialogam com a questão dos gêneros. Porém, ambas carecem de uma curadoria descente que imprima personalidade e um pensamento claro e objetivo ao todo. Ou seja… é um amontoado de opções na programação, que favorece os equívocos e supostos atropelos. A edição do evento produzido pelo Itaú Cultural começou com o pé esquerdo.

Num ano que a programação parece privilegiar as questões de transexuais, travestis e transgêneros, e difícil entender a escolha de “No soy un maricon” do grupo mineiro Toda Deseo, para abrir o evento. A noite de terça (13/06) foi catastrófica. A proposta do grupo não funcionou na sede de instituto, o público reagiu com frieza e/ou abandonou a sala antes do término.

O programa traz a seguinte informação: A história de quatro travestis em busca de fama é contada no espetáculo do Toda Deseo, grupo de atores mineiros ligados à questão do universo trans. A montagem é em formato de show e, dividida em três partes, discorre sobre direitos humanos, democracia e questões ligadas a minorias transexuais.

As tais travetis, interpretadas pelo atores (David Maurity, Ronny Stevens e Rafael Lucas Bacelar) mais se parecem Drag Queen, eis a verdade. Levando em consideração as frequentes confusões que há no entendimento das questões Ts,  a montagem teatral não se preocupa em esclarecer nada. A peça é composta de quatro cenas-pocket e entre uma e outra apresentação de um Freddie Mercury cover e/ou a participação da platéia numa discotecagem com um mix de músicas chiclete-pop-boate. Obviamente que isso não funcionaria no palco do Itaú Cultural. #ninguémpercebeu

Não sei o que o grupo quis dizer com “em busca da fama”. Sugere uma história a ser contada, um conflito presenciado, uma questão apontada. Não há nada disso. São cenas onde há os elementos de um show de boate. Ou seja, close, dublagens, hit de divas e coreografias. Nada de novo, absolutamente nada. Para piorar as cenas mostradas não se prestam a ter coerência, é um arremedo de referências e influências que juntas, parece mais um “close” dos atores do que um espetáculo de teatro. Cenas que funcionam num show de cabaré, na boate, na festa “dazamigas”, num protesto. Mas no palco, não. #travestinãoébagunça

Uma das cenas merece especial atenção dado o perigo que ela é. O grupo reuniu todos os áudios de videos que viralizaram na internet e que trouxeram travestis em situações vexaminosas. Como por exemplo, Luana Muniz que ficou bem conhecida pelo bordão “travesti não é bagunça”, que dizia enquanto esbofeteava um possível cliente, captados pela lente da câmera de um programa de televisão (Profissão Repórter), e que dividiu opiniões na época de exibição. O grupo escolheu transformar essa junção em uma quadro cômico onde os atores dublam e recheiam a cena de cacoetes e poses bem popular no mundo gay. O resultado? risos, sem o menor senso crítico, a graça pela graça oferecida como fazem as drags caricatas. Ou seja… há uma dubiedade perigosa, pois se pensarmos que muitas delas estão buscando por uma visibilidade para além dos clichês, a cena corre o risco de reforçar todos eles. Não tenho silicones, mas sinto o impacto da cena, parafraseando um dos famigerados videos.

Seja lá quem selecionou a programação desse ano, não ignorou o fato de um coletivo de artistas Trans, estarem lutando por espaço no mercado de trabalho  – no universo das artes cênicas, por exemplo. Na recorte “Circuito SSEX BBOX”, na sexta (16/06) as 15h,  a mesa “As Artes e artistas trans: uma reflexão sobre representatividade” traz partes dessas atrizes questionando justamente “Qual a contribuição em obras que carregam discursos sobre elas?” Infelizmente, creio que nenhuma delas estava presente na platéia de “No soy un maricon”. #alitravestiébagunça

O grupo completa três anos em 2017 e possui um histórico de ações afirmativas e militantes em Belo Horizonte. A peça em questão é o primeiro trabalho do grupo que tem entre outras o “famoso” Campeonato Interdrag de Gaymada. O porquê do espetáculo-festa estar na programação não é compreensível, além de datado e frágil em sua estrutura, não funciona no palco italiano. A pluralidade de expressões artísticas de diversas regiões nacionais é sempre desejada pelo público, mas há de se ter apuro nessas escolhas.

O suposto cunho político do trabalho aparece em dois momentos. Quando eles citam a quantidade de mortes causadas pela transfobia e a militância ingênua da cena final. O trabalho precisa de uma problematização e de rever questões primordiais para a cena queer, para que ganhe força e pertinência. Do jeito que está é primário e pueril. Seria cômico se não fosse triste.

Rodolfo Lima