De volta a Reims

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As questões gays continuam sendo um barril de pólvora que não para de fornecer munição para que seja desvelado mais camadas que envolvem a homossexualidade do indivíduo. Por isso nada mais natural que os artistas se inquietem e queiram refletir sobre tais assuntos a partir da própria vivência. Foi o que fez Pedro Vieira, com o texto De volta a Reims, montagem livremente inspirada no texto do filósofo francês Didier Eribon.

Temos então autor e ator ficcionalizando memórias. Ora elas se tensionam, oram elas se distanciam, dado a origem dos profissionais. O que fez o texto de Reni Adriano foi buscar uma proximidade que ajudasse o público a refletir sobre questões emblemáticas que o autor levanta, sem deixar de evitar momentos de empatia entre público e ator. Momentos esse onde a realidade de Pedro toma a frente e se não serve como parâmetro para a realidade francesa, serve para a nossa. Eis o pulo do gato da montagem, que em vez de chafurdar apenas no pensamento de Eribon, escolhe como protagonista a voz do intérprete. Efeito eficiente que faz com que pareça ouvirmos apenas a história de Pedro. Adriano digeri a obra do autor, mas isso não minimiza sua força.

Para além das intersecções entre realidade e ficção e o diálogo com o biodrama, através da prosódia da voz do autor, de fotos, projeções e causos, De volta a Reims traz pensamentos provocantes e seminais sobre a questão gay, para além dos modismos e clichês ao qual estamos acostumados. O filósofo também não está interessando em exemplos de representatividade que mira o superficial. Seu objetivo é o lado obscuro que forma uma sexualidade por vezes difusa, dolorida e mentirosa. Fosse mais arriscada em algumas questões que abordam, a montagem dirigida por Cácia Goulart teria o mesmo efeito que uma lampada estourando na cara do espectador.

Os minutos iniciais nos revela parte do corpo do ator enquanto ouvimos o mesmo atestar que são os insultos que moldam a vida de um gay. É na injúria e difamação que a singularidade homossexual vai sendo forjada sem que percebamos a gravidade disso. Há um leve respaldo na fetichização do corpo gay, que aliado as palavras de Eribon poderia resultar numa encenação desconfortável e densa. Talvez o fato da peça ser dirigido por uma mulher tenha feito a diferença, e retirado a encenação de um lugar mais nebuloso e a margem do que a temática lhe propicia.

É uma peça onde a dramaturgia ganha força seminal e de certa forma engessa o todo. É tudo funcional, da iluminação, ao cenário, as projeções. Pedro não balbucia e o texto sai de sua boca sem o menor esforço. É dono da cena e de sua história e hipnotiza seu público de forma sútil.

Se uma das maiores críticas do autor é a formatação ao qual nós gays estamos sujeitos para “caber” e ser aceito em certos ambientes, Pedro sendo nordestino e de pele retinta deve ter sofrido um bocado para ser aceito nos ambientes em que escolheu viver. Sua realidade vem a nós como conta gotas, mas o que o autor está nos provocando a pensar é que essas mudanças são invasivas e irreversíveis. Porém nada abala a concepção de persona elaborada pelo ator. É como se o ator-personagem não sofresse as agruras que narra. Não dá forma violenta como Eribon aponta.

De volta a Reims é potente e bem executado. Provoca reflexão e inquieta. Sugere que saibamos mais sobre o autor, e quiça busquemos em nós mesmos tais momentos de opressão que timidamente abafamos, mas que nos compõe como pessoas singulares. Pedro também supriu as mais dolorosas? O recorte das histórias escolhidas dão conta de compor o artista que vemos? A possibilidade de olharmos para o ator, duvidando de suas colocações, a partir das inquietações do autor é a afirmação subjetiva de que a peça ajuda o outro a rever conceitos.  Sua força está ai, no subterrâneo do outro.

A “bíblia” de Didier Eribon intitulada “Reflexões sobre a questão gay” publicada em 2008 é um importante estudo para qualquer interessado na causa. Reni segue a risca os eixos que o livro propõe – análise de um experiência vivida, investigação de como uma singularidade se forma, e provoca, ao apontar possíveis causas de como as identidades gays são formadas  – e forjadas – em meio a tantos movimento partidários e apartidários, que roubam do movimento gay uma unidade que englobe a todos que se entendem como homossexuais.

Se pensarmos em peças de conteúdo gay e/ou que traga as questões gays em pauta, De volta a Reims é um potente e importante exemplo, de como as estéticas e o discurso gay são vendidos e reestruturado a partir das questões de um artista. Ou seja, não há como ignorar a importância da iniciativa de Pedro.

Rodolfo Lima

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Iracema via Iracema

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Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher, que frase mais machista“, essa é uma das frases lançadas por Iracema filha (Luciana Ramim) dentro do coletivo que abriga a peça Iracema via Iracema, uma parceria entre a Trupe Sinhá Zózima e o coletivo Agrupamento Andar7. Iracema provoca: vai deixar a mulher apanhar? Mete o pé o cara.

Esse tom irônico onde a violência se camufla de deboche é o tom da peça escrito por Suzy Lins de Almeida ao qual Luciana permeia de cacos e improvisos que potencializa o tom cômico da encenação. É esse subterfúgio pelo riso que faz com que a peça ganhe fôlego e não canse, mesmo no desconforto dos bancos dos ônibus e ter que ficar se desdobrando para acompanhar as marcações cênicas. A peça dentro do ônibus, é questionável, embora seja justamente essa a busca da performer, expressar sua personagem num espaço diminuto, com suas peculiaridades. A direção de Anderson Maurício preenche de forma satisfatória o espaço, mas a relação da personagem com um ônibus é zero. Tirando o fato de todos “se foderem em coletivo” a relação do ônibus com a personagem é frágil.

Iracema tem uma história permeada de pobreza, carências, maus tratos e violências, marcadas por um sistema opressor, machista, falocêntrico e misógino. A verborragia da personagem vai para todos os lados, do sistema de saúde, ao de comunicação, as teorias teatrais e a questões inflamadas e polêmicas sobre aborto e educação dos filhos.

A mulher que nos recebe como um santa é desconstruída minuto a minuto depois que adentramos seu ônibus-espaço-palco. Essa suposta sacralização de sua imagem também é uma forma zombeteira de nos depararmos com sua figura. Esse excesso de zombaria é uma faca de dois gumes, pois o público é fisgado por suas tiradas rápidas e engraçadas, ao mesmo tempo que os acontecimentos na vida de Iracema vão se atropelando e por vezes deixando de ter uma ordem coerente. O público ri de Iracema pois ela se torna uma espécie de clow amoral, que tem como intuito nos subverter pelo escárnio.

A busca pela cumplicidade do público é um recurso acertado da direção que ao inserir o público nas questões da personagem, oferta um espelhamento potente e disforme, já que a possibilidade de rir um do outro também é validada e ao mesmo tempo um ato de subversão. Adentramos o ônibus e em instantes estamos em sintonia com as mazelas da vida. A unidade cênica atingida pela obra é um trunfo.

Iracema via Iracema é o resultado de diversas experimentações realizadas pela equipe criadora Luciana/Suzy/Anderson e que se utilizam de diversos recursos audiovisuais para dialogar com o texto. O que se viu na 15° edição do Festival de Teatro de Araçatuba – FESTARA é a peça como uma obra fechada. Trabalho esse que em seu inicio teve três partes:  “Iracema moça: desejo e descoberta” , “Iracema mulher: revelação e luta” e “Iracema senhora: fé e abandono”.

Iracema é daquelas personagens que deixa uma vontade de revê-la. Seja pela suas tiradas ácidas, seja pelo gosto agridoce que suas memórias despertam em todos nós. O abandono de uma por uma das convicções da personagem desmascarando a todos nós de forma impetuosa e deliciosamente sarcástica.

Rodolfo Lima

Palhaça Sola

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A peça que abriu a 15° edição do Festival de Teatro de Araçatuba – FESTARA é da ATUACIA de Ribeirão Preto, protagonizada por Cinthia Vendruscolo, a Palhaça Sola. Na sinopse do espetáculo uma indicação do que virá: “… tendo a solidão como cúmplice, uma palhaça inicia a construção da sua nova casa e, durante essa tentativa, encontra uma revista com preciosa chamada: ‘Como arranjar um companheiro em três passos’…”. Soa simples para um trabalho de palhaçaria com viés feminista.

Se Cinthia é uma boa intérprete, cativando e executando as ações com precisão, e a direção de cena de Adriana Scannavez conceba bons momentos, o resultado oscila, pois em boa parte parece que Palhaça Sola é uma peça de palhaços para adultos (a indicação é 12 anos), porém está incluída no horário infantil/infanto-juvenil e suas gags são direcionadas para o público infantil. O resultado: a risada vem dos adultos que entendem as metáforas presentes na moral da história, enquanto para as crianças é reservado as simbologias lúdicas.

Sola é expulsa de um local com diversas malas. Sozinha na rua, resolve reconstruir um lugar para morar e nessa reconstrução “acha” no meio de suas coisas uma revista que dá dicas de como ela pode arrumar um namorado. O que a principio era a história de uma palhaça sem “lenço e sem documento” se torna um “drama” de uma mulher que precisa se enquadrar nos ditames de uma sociedade que estabeleceu em algum momento que para se ter um relacionamento é preciso ser magra, bonita e gostosa. Como uma criança decupa o desejo de um adulto de querer ser “gostosa”? O que significa ser gostosa, afinal?

Mesmo que a encenação faça trocadilhos com alimentos para atingir a todos, o alvo é claro, as mães. Então ficamos assim: a criançada com o imagético, e os adultos com a “moral da história”. Em partes a peça me remeteu a “Louca de amor, quase surtada”, solo da atriz Lena Roque, que esteve presente na última edição do FESTARA. Sola e Helena (a personagem de “Louca…”) tem suas existências atreladas a necessidade da presença e da  validação do outro. Essa dicotomia entre querer e ser da mulher contemporânea não é decupada a contento para o universo infanto-juvenil, o que faz com que o trabalho pareça deslocado do seu público alvo.

Isso porque não estou fazendo diferenciação entre o público infantil que ficaria abaixo dos 12 anos e o público juvenil, que abarcaria adolescentes aflitas para serem aceitas.

O tom amoral de Sola, é bem vindo e agrada, arrancando riso dos adultos. Esse tom propositadamente desrespeitoso me trouxe outra associação que é o trabalho de Marcio Douglas em “Animo Festas“. Sola e Klaus (o palhaço de “Animo…”) independente do gênero, são artistas que se utilizam da palhaçaria para subverter códigos e signos do mundo moderno. No caso de Sola, a busca pelo outro, a beleza e a aceitação.

A possibilidade de ri de si mesma como auto crítica é um recurso que funciona. É como se no ridículo da situação a personagem sublimasse o tom risível de sua angustias. A frase “Levanta a cabeça princesa, senão a coroa cai”  que viralizou ano passado por ter sido citado num reality show, parece ser uma referência para Sola, uma mulher que não se enquadra nas exigências do mercado dos afetos e restará só.

A solidão que fecha o solo de forma seminal é outra questão que deixa o trabalho com uma sensação de incompletude. Não há uma saída para as questões de Sola que a livre do tom culposo de restar só? E como explicar aos “baixinhos” um final tão silencioso? O riso que preenche os 60 minutos do trabalho soa um artificio frágil diante de um final tão fatalista.

Palhaça Sola abre janelas mas não indica como o público pode fechá-las.

Rodolfo Lima

Obs: o FESTARA – Festival de Teatro de Araçatuba, segue até o dia 22 de junho de 2019. Mais informações: https://www.facebook.com/festarafestival/

Kintsugi – 100 memórias

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Um vaso é espatifado no chão envolto por 4 atores. Eles fazem parte do mítico grupo teatral de Barão Geraldo, bairro que cresceu nos arredores da UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas), instituição que também deu régua, compasso e fomenta financeiramente o grupo, que acumula mais de três décadas de trabalhos e se tornou uma referência teatral no país.

Renato, Jesser, Raquel e Cris estão em cena para revelar suas memórias e dessa vez reconstruir sua história e religar seus desejos, sonhos e frustrações com a platéia. O quarteto cresceu junto e portanto sofreu junto. Essa fatalidade da dor dentro de um grupo teatral é o tempo todo enfatizado pela frase seminal que um dia – possivelmente – Renato, teria soltado num jantar. Algo como: eu não preciso de vocês para nada!

Seria cômico se não fosse trágico, e cruelmente real, essa possibilidade de você construir algo com alguém e ver essa construção ser abalada por frases pretensiosas e estúpidas como essa. A frase volta diversas vezes como mola propulsora para que os atores se exponham e na explanação das suas memórias, o teatro ocorra na simplicidade de suas lembranças. Eles vão dando diversas versões para como reagiram ao escutar a frase e isso vai de certa forma modificando a postura deles em cena.

O resgate da história/memória é honesto e bem vindo. Embora soe empostado pelo excesso de informações, que gera redundância e nem sempre surpreende ou cativa. Afinal, é levado ao pé da letra a quantidade de “100 memórias” do título. A dramaturgia é de Pedro Kosovski que se não conseguiu radicalizar com o grupo, como fez em parceria com seu pai em “Tripas” – trabalho esse que também trabalha no limite entre realidade/ficção e reconstrução da memória – parece tentar. Isso fica mais evidente no trecho em que os atores se agridem verbalmente e que não fosse colocado na peça quase no final, onde o público já está de certa forma fatigado, e “amaciado” pela ambiguidade da encenação, e não parecesse exagerado, seria uma opção dramatúrgica violentamente certeira. Pois não há nada mais potente para uma platéia do que ficar em dúvida sobre a veracidade dos fatos. Será que é verdade???

Um deslize imperdoável na dramaturgia é esboçado no embate verbal das atrizes, quando uma acusa a outra de querer ser homem e usa – com o intuito de diminui-lá –  termos como “Travecão” e “Travecona”. Oi? Digamos que são termos pejorativos que enfraquecem a luta de pessoas trans para serem vistos e respeitados sem palavras depreciativas que os diminua perante uma sociedade majoritariamente heterossexual e cisgênera. Seria de bom tom rever a utilização desses termos chulos.

A base para o inicio do trabalho foi o Mal de Alzheimer, que entra na peça como suporte para as lembranças dos atores, que ao serem revelados ao público permanecem vivas, embora seja latente a possibilidade de qualquer um ali naquela sala ter suas lembranças deletadas do cérebro. O quarteto de atores temem essa possibilidade e Kintsugi – 100 memórias se torna um grito de resistência pelas histórias individuais e coletivas que os unem e os individualiza.

É guardado para o final o poema de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos) que traz a seguinte constatação: “O irreparável do meu passado, esse é o meu cadáver“. A morte rodeia os artistas pois parte de suas memórias são feitas de pessoas que já se foram e/ou se perderam de si mesmos. E ai, vale uma metáfora para a possibilidade deles terem se perdidos deles mesmos, já que é sabido que cada um ali procurou construir uma história paralela a criada pelos artistas que foram agrupados por Luís Otávio Burnier (25/12/56 – 13/02/95). Assumidamente a perda que une os artistas em cena.

A direção de Emilio García Wehbi enfatiza de forma sutil e tocante os momentos que o quarteto resgata trechos de trabalhos já realizados pelos atores, ao mesmo tempo que parece sufocá-los entre suas próprias lembranças. Já que o espaço vai sendo preenchido de objetos e os atores vão ficando sem pouco espaço “vago” para se locomover. Uma ironia, convenhamos, que nos alerta que a memória é uma faca de dois gumes a nos preencher e nos imobilizar, dado o peso que oriunda delas.

A metáfora do vaso sendo reconstruído em cena é bonito e embora não tenha força como ação cênica, resta como uma agridoce lembrança, que apesar do que é dito ali, o grupo está tentando reviver para além do que foi exposto e machucado no passado. Para mim foi inevitável não associar a “Nós“, do Grupo Galpão, de Minas Gerais, outro mítico grupo nacional, que também trafegou pelas histórias dos artistas do coletivo, numa tentativa de resgate, que no mínimo toca pela força das lembranças. Se em “Nós” a expulsão de Teuda Bara da cena é o apíce do limite entre realidade e ficção que a montagem alcança, em “Kintsugi…“, Raquel assumindo que nunca foi vista como uma artista potente (afinal o que podemos esperar de um pudim?), é apenas um dos vários momentos que a montagem se aproxima de uma suposta realidade, humanizando seus artistas e espalhando “caquinhos” por todo o espaço.

Numa associação livre, é como se Teuda (Nós) fosse um pedaço grande do vaso que quebra, em comparação com a encenação toda. E Raquel (Kintsugi), um dos diversos caquinhos do vaso que se espalham, numa encenação recheada desses “caquinhos”.

Lume e Galpão tem artistas que perderam a jovialidade física, que carregam anos de história nas costas, que tem o futuro ameaçado pela falta de perspectiva e inevitavelmente pela idade que avança e vai limitando os mesmos de assumirem determinados papéis ou se jogarem em especificas estéticas teatrais.

Kintsugi – 100 memórias é triste e engraçado, excessivo e redundante, soa prolixo e pretensioso, mas comove em momentos onde não há nada a se fazer a não ser se expor. E quem resiste a um artista que se expõe?

Rodolfo Lima

Obs: a peça segue em cartaz no SESC Paulista até o dia 23 de junho de 2019

A Golondrina

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Antes de entrar para assistir ao espetáculo estava lendo no jornal Folha de São Paulo do dia 17 de maio uma nota que trazia a seguinte chamada “País tem ao menos uma morte por homofobia por dia, aponta relatório”.  Segundo relatório produzido pelo GGB (Grupo Gay da Bahia) este ano já temos 141 mortes de LGBTs confirmadas. Ou seja…é alarmante. O triste é que os tais crimes de ódios estão tão arraigados na nossa cultura e no nosso dia a dia que na maioria das vezes reagimos com uma conivência assustadora. É contra essa suposta passividade que assola a todos que o texto A Golondrina do espanhol Guíllem Clua se arma.

O pano de fundo do drama dirigido por Gabriel Fontes Paiva é o ataque a Boate Pulse que em 12 de junho de 2016 vitimou 50 pessoas e deixou dezenas de pessoas feridas. O caso é considerado o pior ataque a tiros dos Estados Unidos. A maior violência terrorista ao povo americano depois do ataque do 11 de setembro de 2001. O mais grave a população LGBT americana.

Amélia (Tania Bondezan) e Ramón (Luciano Andrey) são vitimas em potenciais de tal violência. Ela perdeu o filho, ele o namorado.O encontro se dá de forma velada, já que Ramón se candidata a ser aluno de canto da professora Amélia. O argumento para se desenrolar o drama, o embate entre mãe e namorado do morto, não é novidade. “Norma” (2002) com Eduardo Moscovis e Ana Lucia Torres, “Vicent River” (2018) com Sandra Coverloni e Thalles Cabral e “Tom na fazenda” (2017) com Armando Babaioff e Gustavo Vaz, também trouxeram aos palcos paulistanos embate similares.

O assunto é tocante e comove a plateia mesmo que a direção de Paiva conduza seus personagens no limite entre a intensidade e a farsa. Esse tom parcimonioso com a interpretação dos atores é questionável, já que o texto sugere uma catarse dos intérpretes e a direção não conduz o embate cênico para esse fim. Busca o lugar da sutileza e do simbólico para quem sabe assim realçar o texto de Clua que tem vários momentos poéticos consideráveis.

Um deles – o mais importante – é o drama de Amélia que não foi capaz de compreender o filho em vida. Mães arrependidas é um prato cheio para a comoção. O que fez a diferença é a poesia da dramaturgia ao expor uma mãe incapaz de reagir positivamente a homossexualidade em vida. Não porque ela fosse homofóbica, mas sim porque tal situação demanda um tempo de digestão. Ao realçar de forma delicada os sentimentos da mãe, o texto amplia o tom egoísta que há na dor, onde os sobreviventes questionam quem sofre mais e os porquês.

O diálogo beira o maniqueísmo. As interpretações comedidas permite com que parte da plateia analise a situação de forma distanciada e crítica. Se Luciano Andrey soa impostado é Tania que de forma sutil provoca uma empatia maior. Faltou a direção de Gabriel arriscar nas marcações, propondo assim que seus atores crescessem em cena, mas isso não ocorre. É como se só o peso do tema servisse para que a história se desenvolvesse a contento.

A Golondrina é daqueles textos que propicia uma montagem onde vemos o tema se sobressair a encenação. É uma peça de e para o desempenho dos atores. A montagem paulista é cuidadosa e sóbria. Iluminação, cenário e figurinos jogam a favor da encenação, que se não propicia desempenhos memoráveis, hasteia sua bandeira contra o preconceito e entra para a lista das peças com um discurso pró LGBT.

A morte abrupta continua ceifando a população gay e trans. A intolerância e o preconceito ainda é uma praga que assola muitos e peças como essa são sim uma forma de combater as fobias cotidianas. Que a golondrina (tradução para andorinha) permaneça no ar.

Rodolfo Lima

(A peça segue em cartaz até o dia 09 de junho de 2019, no Teatro Nair Bello,no Shopping Frei Caneca)

 

O agora que demora – Nossa Odisseia II

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A encenadora Christiane Jatahy se tornou um forte nome do cenário teatral nacional. Não há toa, suas obras e o resultado delas abrangeu plateias de diversos países. Essa capacidade de alcance de sua obra, uma hora reverberaria  no conteúdo dela. Em O Agora que demora – Nossa Odisseia II a ambiciosa opção de aproximação do clássico de Homero (Odisseia), o drama de refugiados e da sua própria história, não é surpreendente, mas sensibiliza o público e oferta uma grande oportunidade de exercer a empatia.

Na estética da diretora, o teatro e o cinema se afetam e se modificam nessa troca. Se em Ítaca, a teatralidade inundou o Sesc Consolação, com dramas de carne e osso e uma bela encenação, o alvo da vez é o cinema e a realidade captada pela diretora, que registrou manifestações culturais e depoimentos pessoais de refugiados no Líbano, na Grécia, na África do Sul, na Palestina e na Amazônia – onde os índios de certa forma, simbolizam o termo refugiados em terras brasileiras.

O que é proposto ao público é portanto uma delicada possibilidade de imersão no que o outro – e sua realidade – pode ter de poético e singular. Seja o momento de se alimentar, de criar, de conversar, de depor. O que Christiane quer nos mostrar é que somos todos Ulisses em busca de um horizonte perdido, independente do tom da nossa pele, da região em que nascemos, do que o futuro condicionalmente nos reserva. O que se percebe é que não há dor maior do que ser refugiado de sua própria história. Apartado de perspectivas que enraíze nossa apreensão de passado/presente/futuro.

Em cena, atores nacionais e de outras nacionalidades interagem entre si, com as personas na tela e com a plateia. Tudo de forma que oscila entre a sutileza e certa empáfia. É pretensioso achar que o fato dos atores estarem ao lado do público seja o suficiente para sensibilizar. Nem sempre as vozes são ouvidas a contento, ou os gestos captados a nos fazer entender que a conexão entre teatro e cinema, palco e platéia, está sendo efetuada. Se exige mais do público, dado a pouca oferta de teatralidade que se oferece na encenação.

O ponto alto da peça é quando a diretora assume papel de personagem/ persona/ imigrante e divide com o público parte de sua história. É nessa revelação que o público constrói sua história particular e revê suas raízes. Sua árvore genealógica. Origens que dignifica uma existência. É compartilhar da emoção de Christiane que nos faz reler todas as histórias narradas anteriormente. Vidas essas completamente deturpadas quando se é refugiado de um país em guerra, de um país com fome, de um país onde as histórias não são permanentes e valorizadas. De um corpo/país que não sabe ao certo seus porquês.

O agora que demora não está entre os melhores resultados cênicos da diretora. Porém seu escolha em estabelecer um diálogo entre cinema e teatro é uma requintada possibilidade de expandir os limites do teatro e da percepção do outro, que o mesmo desperta. Christiane é sagaz e obtém recursos financeiros e bons contatos para que sua arte ultrapasse mais barreiras. É um feito louvável. O tipo de artista que obriga seu público a sempre voltar para ver suas epifanias e o alcance de suas ideias.

Rodolfo Lima

(Foto: Lenise Pinheiro)

(a  peça segue em cartaz até 02 de junho, de 5° a domingo, no Teatro Paulo Autran – Sesc Pinheiros)

 

Angels in America

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Não se pode ignorar a coragem da Armazém Companhia de Teatro em encarar um texto como Angels in America. Para além dos prêmios que Tony Kushner acumula, a história é praticamente um marco da temática sobre o HIV nas artes cênicas. Abordar sexualidades dissidentes também não é novidade para os artistas liderado por Paulo Moraes, porém à de se enfatizar que o grupo não é conhecido por grandes inovações na retratação de personagens a margem dos padrões heteronormativos. Diante disso é bom reiterar que não se deve esperar novidades, a companhia tem seus méritos, mas certo formalismo em suas montagens, quando se trata de questões gays em cena, podem parece opacas demais, e é. Uma pena.

Prior (Jopa Moraes) é o personagem central, infectado pelo HIV e que tem na pele as marcas da AIDS. É o personagem central da trama, pois é como se fosse uma espécie de mártir da causa, numa época pré AZT, que enfrenta delírios, o abandono do namorado, a falta de perspectiva de futuro, certo descaso. A opção da direção de Paulo Moraes de deixar seu corpo em cena em praticamente toda a primeira parte (a peça é dividida em duas partes: “O milênio se Aproxima” e “Perestroika”) é arriscada e necessária. Aquele corpo fadado a morte nos alerta para muitas questões urgentes na realidade brasileira, uma delas, supostas ameaças do novo presidente nacional de inviabilizar o acesso a medicação para o tratamento da população infectada pelo vírus. O risco está no fato de Jopa Moraes não ter maturidade emocional para um papel com grande carga dramática. O que resulta numa montagem sem a menor emoção, mesmo tocando em pontos extremamente delicados para a comunidade gay.

Para “complicar” seu par na trama é Luis Felipe Leprevost, que dá vida a Louis, o namorado que não segura a barra da doença e o abandona, e acaba tendo um caso com Joe (Ricardo Martins). Se o desempenho de Luis oscila o de Jopa é chapado, e por mais que o atores se esforcem e tente injetar energia em seus personagens, o resultado é um casal sem a menor química. E convenhamos, estamos falando de uma história clássica e “cara” ao universo gay. É compreensível que a direção não optasse por fetichizar sua montagem com códigos do universo LGBT, mas é imperdoável um casal que não tem a menor sintonia em cena e que não se tornem atraentes ou emocionantes em nenhum momento.

Moraes já dialogou com signos do erotismo, do sarcasmo e do romantismo de forma muito potente quando encarou a montagem de “Toda nudez será castigada”. A linguagem do grupo se apoia em conceituadas imagens fornecidas pela cenografia, pelo acabamento da iluminação e ou da trilha sonora, mas não há como ignorar a falta de apuro técnico na imersão dos personagens. E para “piorar” a situação a atriz ícone do grupo é Patricia Selonk, que tem por praxe um acabamento corporal e emocional para seus personagens.

A peça começa com ela adentrando o palco, a lição de casa de Jopa poderia ser feita dentro da própria casa, já que o ator é filho da atriz, mas isso não acontece. Sua composição para Prior se aproxima mais de um adolescente machucado, do que um adulto. E não adianta nos aproximar de um texto de mais de 30 anos atrás, recheado de clichês e pontos problemáticos, que soa datada, se ele não tiver permeado de emoção. De uma carga dramática que o valha. Com longas cenas de diálogos, Angels in America é uma peça de atores. Para atores. A encenação pode colaborar ou não para o ápice dos momentos emocionais. Mas nada consegue camuflar um desempenho aquém dos mesmos.

Os antagonistas gays, Roy (Sérgio Machado), Joe (Ricardo Martins) e Belize (Thiago Catarino) colorem a cena com suas especificidades e se apropriam com mais facilidade de seus personagens. O que aumenta ainda mais a fragilidade do casal protagonista. Navegar pelos clichês é sempre complexo, mas se é inevitável o melhor é fazer valer esse código de forma a ser irreversível seu julgamento. Roy é conservador, hipócrita, cruel e destemido. Ser destruído pela doença e mesmo assim não abrir mão de suas duvidosas crenças e colocações é o retratado – atualizado – de tantos homossexuais conservadores e retrógrados, que só sabem olhar para o próprio umbigo e que dialogam com sua sexualidade de forma duvidosa. É um retrato triste de uma “classe” que permanece tendo problemas em se unir, dado as diversas subdivisões que em vez de celebrar as dicotomias individuais, as aparta.

O bom mocismo fica a cargo do personagem de Thiago Catarino, uma espécie de anjo-amigo-enfermeiro do protagonista que – não a toa – tem em sua composição e seu figurino cores que o realçam e o destaca. É como se ele tivesse que desmunhecar, mas sem grandes exageros. Catarino é eficiente e nas poucas vezes em que lhe é permitido quebrar o clima sisudo da peça, o público responde com risadas. O riso não é uma marca da companhia, o que também é percebido nos momentos em que o texto pede um tom mais ácido e cruel e o resultado é chocho.

Assim como o corpo de Prior e Roy permanecem em cena por muitos minutos como a nos alertar do flagelo físico e do preconceito que a doença causa, Joe também tem sua individualidade exposta e aniquilada pelo julgamento do público, como se no meio de tanto descaso, o sentimento amoroso também fosse uma duvidosa opção de tentar se salvar do abismo da solidão  – que é uma especie de fantasma para os homossexuais masculinos.

Então quando se pensa na retratação de gays no teatro nacional – mote das minhas pesquisas acadêmicas e artística – é impossível ignorar o quinteto de Angels in America e não lamentar que a esperada montagem soe chapada e anódina.

Ambas as partes tem cerca de 140 minutos, e caso você opte em vê-las de uma vez só (opção possível aos sábados) o desafio de vencer o marasmo é grande. Com intervalo a imersão passa das 5 horas de peça. Porém o texto oferece pérolas tocantes, como o diálogo da mãe (Patricia Selonk) de Joe, que ao aconselhar Prior, sensibiliza: O HIV é como um câncer, e nada mais humano do que um câncer.

As “bichas” estão vazias como Joe, maldosas e descompassadas como Roy, se contaminando como Prior e fugindo de responsabilidades como Louis. Angels in America é um texto histórico e será sempre necessário por retratar uma época, um movimento. Não há como ignorar o desafio de encará-lo. O faça. Mas não espere nada além do que máscaras, na maioria das vezes esvaziadas de sentidos e refém de uma direção que se atém a convenções teatrais, que dessa vez, não funcionam a contento.

Rodolfo Lima

(a peça fica em cartaz de sexta a domingo, até o dia 02/06 no Teatro Antunes Filho, do Sesc Vila Mariana + informações no site da instituição: https://www.sescsp.org.br/unidades/13_VILA+MARIANA/ )