Pi – Panorâmica insana

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São 8 mil peças de roupas espalhadas pelo espaço. Cenário de um mundo em frangalhos assim como o entorno, as personas em cena, o público na platéia.  Não há nada de pé no Teatro Novo, mesmo que tenhamos a vã ilusão de que sim, estamos alheios a tudo aquilo. Não estamos. Pi – Panorâmica Insana, tem concepção e direção de Bia Lessa e coloca em cena quatro atores, que se dividem em dezenas de personagens.

Tais personagens tem nomes e RG, mas isso é o que menos importa, levando se em consideração a probabilidade de identificação com esse semelhante. E na primeira cena, já vimos que o caminho é sem volta. Somos aproximados de tipos, formatos, nomes, frases, sotaques, trejeitos…que nos universaliza e não nos deixa só. Mas todos estamos, veja bem. A identificação sutilmente ocorre. Seria cômico se não fosse trágico. É mais fácil rirmos do outro do que de nós mesmos.

Textos de Jô Bilac, Júlia Spadaccini, André Sant’anna, bem como fragmentos de Paul Auster e Franz Kafka são amarrados em cena de forma aleatória, como que a fazer um paralelo para aquele mar de roupas espalhadas no espaço que dialoga diretamente com a encenação de Bia. Se faz necessário afirmar: vejam a peça nesse local. Em qualquer opção convencional de palco italiano e platéia confortável em São Paulo, a cena se reconfigurará. E não, o teatro nem sempre é o lugar do conforto e o que PI está tentando fazer é justamente nos deslocar de qualquer lugar para longe do nosso “mundinho confortável”. Não é tarefa fácil. Artistas e público ruminam o que ouvem e emanam, sejam em palavras e/ou pensamentos e o que sobra é literalmente um grande buraco. Não se sabe se na existência, na alma, na subjetividade, na utopia.

Cético, o trabalho não nos deixa pistas de escapatória. Questiona-se a religião , o amor e a educação de forma dura e irreversível. Convenhamos, vivemos um período de pouca empatia pelo outro. É  essa percepção que a encenação quer nos despertar. Nomes de vítimas são elencados em torno de estranhos. Mas a questão é: estranho para quem? A travesti cearense Dandara, é lembrada, bem como a moradora de rua carioca Fernanda. Não posso dizer que o espectador do meu lado absorveu tais referências. Ou seja… Pi tem munição para todo mundo, provavelmente.

Nesse mundo devastado, Deus é argumento de gente preguiçosa, o amor não existe, todo mundo compete entre si, ninguém explica o que é a alma e uma bala perdida na cabeça de uma criança é útil. Reflita. A imagem do homem sangrando e dizendo que ama seu semelhante é achincalhada, e ninguém é capaz de mensurar o que acontece quando você toma um tiro no peito.

A miséria é antagonista. Seja a da alma, do corpo, dos sonhos, da imaginação. A herança que assimilamos e trazemos imprimidas no nosso histórico também é questionada e culpabilizada. E dentro desse escopo entra todos os tipos de fobias e o universo de chagas que acometem o nosso corpo físico e nossa alma. Afinal dormir e acordar é o retrato de uma vida miserável. Você ouve e se atemoriza. Será você um desses? Os 23 x 20m do espaço não nos oprime, nos acolhe, afinal, estamos todos a mercê do inevitável,  vulneráveis a. Quais são as probabilidade da gente ser feliz?

Um mundo a ser conquistado. Um lugar de anônimos a terem suas idiossincrasias ressaltadas. O mundo do outro sempre como antagonista de nossa realidade. Os atores são o retrato da condescendência, numa realidade onde nos atritamos com o outro e nem sempre temos consciência da aniquilação ofertada pelo caos coletivo. Nos apagamos. Aceitamos. As vezes é bom, afinal estamos morrendo a cada instante, seja de depressão, câncer, drogas, homicídio, feminicídio, transfobia, de AIDS, no trânsito, abortando, de paixão e etc…

A hipocrisia de quem veste camiseta branca pela paz também é reiterada. Como se a paz existisse. Em dado momento, com as atrizes ajoelhadas, prestes a serem executadas, pensamos que aqueles que defendem que o ser humano não deu muito certo, devem estar certos.  O bando de doidos que por vezes somos, tem a capacidade de cultuar e servir a Deus (“ou isso que chamamos de Deus” – Caio Fernando Abreu), mas o mesmo com o seu semelhante é praticamente impossível. Futebol não tem Deus, mas tem codinome (Neymar), já que estamos em plena Copa do Mundo. É triste.

O amor, tão almejado, deveria ser destinado só a quem amamos. Mas, somos animais insanos a fazer sexo com qualquer bunda dura por ai. Pi – Panorâmica Insana é angustiante e triste. Nos desnuda um mundo sem piedade e nos vemos refém das improbabilidades da vida.

O tom dramático é dado com muita potência por Claudia Abreu e Leandra Leal.  Atrizes do mainstream televisivo que desapegadas de ego, compartilham com seu público a forma que acharam de se desnudarem de si mesmas. Claudia se destaca e volta aos palcos quase duas décadas depois. A atriz segura o drama e o deboche com propriedade e jovialidade, e a peça ganha fôlego com sua presença vibrante. Do elenco masculino, cabe a Rodrigo Pandolfo um bom momento, já que Luiz Henrique Nogueira praticamente não tem texto.

A sonorização da encenação é um trabalho a parte e ao fundir ruídos, vozes dos atores, eco, nos desloca para um lugar não real, mesmo que a imagem esteja nos mostrando o contrário. Pi – Panorâmica Insana abre diversas possibilidades de leituras e vivências, parece simples, sua encenação se torna complexa ao mesclar teatro e possíveis improviso, mas nada apaga seu grande mérito, o do desnudamento coletivo, mesmo que nenhuma peça de roupa usada pelos atores seja retirada/abandonada literalmente.

Rodolfo Lima

(Crédito foto: João Caldas)

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[H3O]mens

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Com a crise do masculino escancarada pelas questões de gênero e a quebra da noção do evidente binarismo (homem/mulher) muito se tem a questionar sobre o que vem a ser um homem e do que ele é “feito”. Se o feminino se emponderou nos últimos anos, o masculino perdeu força e se descaracterizou. O velho formato do macho é questionável em qualquer roda de conversa onde se entenda o outro com suas individualidades, sem que seja nivelado pelo seu sexo anatômico.

[H30]mens vem questionar o que vem a ser um homem em atrito com as questões que envolvem seu “papel” na sociedade. Rafael Ravi, Rafael Bougleux e André D.O., formam o trio de atores da Cia.4 pra Nada. O referido trabalho tem a direção de Carlos Canhameiro e coreografias de três mulheres: Morena Nascimento, Maristela Estrela e Andreia Yonashiro. Segundo Canhameiro no blog de Miguel Arcanjo Prado, o trabalho é uma “investigação particular do que é ser homem, do homem diante de outro homem, e dançando para outro homem…“.

A questão principal que resulta desse trabalho é: e o afeto, onde se esconde no mundo masculino?

O trabalho – misto de teatro, dança, performance – comunica melhor quando põe seus artistas a dialogarem entre si. Um tapa no peito é uma briga, um comprimento, uma forma de intimidar ou de acarinhar de forma desajeitada? Não se sabe. Questiona-se o corpo do outro no que ele tem de particular. Seja uma barriga saliente ou o pau. Ambos locais no homem que são emblemáticos.

Se o trabalho potencializa as características de um tipo “macho”, um homem mais sensível não tem vez. Ou seja, o trabalho não reverbera homens heterossexuais que possam ser sentimentais e carinhosos. A proximidade de dois homens nus e supostamente heterossexuais podem ser vistos “pele a pele” sem que isso coloque em sexo a orientação sexual desses homens? A brincadeira com o sabonete que cai no chão durante o banho, por exemplo, é o momento explicito em que a peça resvala em questões do universo gay masculino. É pouco se levarmos em consideração que entende-se que as relações homoeróticas são problemáticas e problematizadoras para a maioria dos homens.

“Bromance” é uma expressão inglesa usada para classificar homens que são íntimos de outros homens, na “camaradagem” sem que sua masculinidade seja posta em prova. Essa “brincadeira” com o gênero masculino a dois, também não é esboçada. Não se ri das relações expostas, porém não se comove com elas.  O público fica num entre lugar sem que o trabalho aponte com veemência onde sua crítica deva recair. Não há singularidades expostas e nem forjadas que exponha os artistas, os individualizando. Se uma das perguntas durante o processo de criação foi como reagir diante de outro corpo masculino junto ao meu. A resposta é difusa, é o resultado é virtuoso e por vezes vago.

A falta de precisão e linearidade nos gestos em conjunto ora funciona pois personaliza o corpo do outro e por vezes revela possíveis problemas de harmonia entre o todo. Se a falta de acessórios para ornar os corpos se faz presente, o homem reduzido ao falo é intensificado. Nus, os bailarinos criam uma dualidade boa para o público, que é a questão do para onde olhar e como. Mas é quando eles conduzem o olhar do público para seus falos que percebe-se com mais clareza que tudo se reduz a isso mesmo. O homem é um pau e ele permanece tendo uma importância seminal. A cena pode ser vista pelo viés da ironia, a questão é que não há um contraponto a tudo que é externo e físico. Ou seja… o homem é um protótipo com formato x, sem nuances e/ou camadas a serem reveladas.

Sem as singularidades o trabalho vira um simulacro das relações masculinas. Interessante corporalmente, porém indiferente em muitos momentos. O virtuosismo dos corpos de Ravi e Doriana, por exemplo, já puderam ser conferido em “Ofélia/Hamlet Rock/Machine“, grupo de teatro em que os artistas estão associados e que também é dirigido por Canhameiro.

Fiquei a pensar também como se questiona o masculino sem que se atenha as questões da sexualidade desse homem. Se os artistas estão pelados é esperado que tais assuntos permeiem a montagem. Tabus como a paternidade, também é outro tema emblemático para o homem, bem como seu diálogo com os afazeres associados ao universo feminino, como as funções de uma casa.

[H30]mens não te oferece respostas, porém também não elabora as perguntas com precisão. Diverte e entretêm, sem que saibamos ao certo como direcionar nossas questões.

Rodolfo Lima

Epidemia Prata

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Faz um ano que a Cia. Mungunzá cravou o nome na cena paulistana ao inaugurar seu Teatro de Contêiner, num dos lugares mais inóspito do centro da cidade. O espaço que fica nos arredores da cracolândia permanece um respiro no meio de tanta tragédia e miséria ao redor. Curiosamente, e não a toa, a nova produção da Cia. procura refletir as reverberações dessa ocupação. Um movimento natural, que os artistas regurgitassem a dura realidade que tentam digerir diariamente. Não é tarefa fácil, mas o grupo arriscou. E no risco, o hermético e o simbólico preenchem o palco do SESC 24 de maio.

O trabalho traz a cena os indivíduos prateados, que por vezes achamos graça e poucas vezes nos propomos a fazer algo para. Afinal, cedemos a sedução, sempre. O mundo está caótico, as pessoas cada vez mais individualistas, a miséria aumentando e o que se vê é uma descrença geral. Esse pessimismo também tomou conta da nova montagem da Mungunzá. O ser humano não tem saída. Não importa de que lado você está. Ou se está dentro ou fora da bolha. Afinal, uma “bolha” serve pra quê mesmo? Talvez seja a forma mais tacanha de reverenciar nosso egoísmo e nossa pretensa superioridade.

O trabalho tem uma pretensão – falar da miséria alheia – e o resultado tem uma complexidade – misto de convenção/ documentário/teatralização/depoimento – que causa estranhamento – não se chega a uma resposta, ou se fecha uma questão. A diretora reiterou a proposta: “Não queremos ficar dizendo o que as pessoas são. (…) Queremos seduzir com imagens” (O Estado de São Paulo, 24/05/18)

Verônica Gentilin fez a supervisão dramatúrgica e dá voz a uma das ocupantes do bairro. E por mais que os textos costure denuncia social, com sutis relatos pessoais, o grupo não se livrou da autocomiseração. Tadinho dos homens que se vestem de prata para ganhar mais prata. A questão que fica no ar é…?

A direção de Georgette Fadel fez bem para o grupo, tornou mais complexa sua presença em cena e a tradução das inquietações coletivas não é uma tarefa fácil. Há bons momentos cênicos, como a corrida em círculos e a chuva que cai sobre os corpos mortos, com certeza o momento que reverbera com mais eficiência no público. A cena inicial é uma forma impostada de nos incluir no debate tão inflamado e urgente que são as questões que envolvem habitação, desemprego, descaso público, miséria, drogas, propriedade privada, tudo-junto-misturado.

Portanto Epidemia Prata é um misto de teatralização da forma como o grupo digeriu o convívio com o entorno e uma vontade de evidenciar tal problemática. O grupo não se furta de revelar momentos em que a realidade ao redor, atravessou a realidade dos integrantes do grupo, ou mesmo o grupo em cena. A resposta do grupo a tudo isso, é pura inquietação. Incômodo esse que não nos deixa ver com clareza como o grupo ou seus artistas reagiriam, ou reagiram diante das dificuldades. Eles tacariam o pau na criança ou na mãe da criança? Sentiram nojo ou dó do chulé do outro?

Sinto falta disso, dessa posição do grupo. Que eles contam histórias, já sabemos, vide “Luiz Antônio-Gabriela” e “Poema Suspenso para uma cidade em queda”. Portanto não há a poesia de Gabriela a nos inundar e nos comover. Em Epidemia Prata é como se os personagens de “Poema…” fosse convidados a cena, porém sem protagonismo. Essa falta de personalização enfraquece o todo. E deixa o grupo protegido numa encenação que não conseguiu expor seus integrantes e nem os desafiou a romperem com os próprios pré-conceitos. Se isso ocorreu, o público não tem acesso.

Não é possível que achem tudo flores ao redor da rua dos gusmões. Não é possível que um dia não quiseram desistir de tudo, seja por cansaço, medo, horror, tristeza ou decepção. Não há poesia no cercado que o grupo fez num antigo estacionamento, que nos impeça de temer o ser humano.

Muito de “Luiz Antônio-Gabriela” é justamente a forma como Nelson Baskerville manipulou a forma como se desnudou diante das questões da irmã. Talvez diante dessa eficiente forma, que projetou o grupo e o fez se apresentar em 19 dos 27 estados brasileiros, o todo se retraiu. Não há nada que tenha mais peso e eficiência do que uma conversa franca e direta com a platéia. O trabalho funciona melhor quando não há palavras. O bairro de Pirituba não é a Luz, convenhamos.

Senti falta de uma radicalidade. De uma forma abrupta de nos emergir nos problemas locais. E se um dia uma tal Camila incomodou um evento cheio de intelectuais na sede do grupo, causando desconforto e repulsa, o resultado não é o mesmo quando a cena é referenciada. Estamos todos confortavelmente acomodados, sejam público ou artistas. É tudo tão pretensamente calculado e ensaiado, que não pude deixar de pensar que a vida não é assim. Que uma visita a sede do grupo nunca é tranquilo. Que a cracolândia e aquelas pessoas permanecem uma ferida aberta nas nossas memórias, e que a miséria está disponível a todos.

Julgamos o outro pelo que ele é. Pelo que ele aparenta ser. Pelo o que eles nos remete. É uma forma cruel e inevitável de forjar a empatia. Se a Cia. Mungunzá conseguiu problematizar ou não seu entorno, se conseguiu revelar o quanto do tema os atravessou, é que são elas. Eis a questão: o quanto o tema nos atravessa.

E só você que pode dar/formular essa resposta. Não espere isso da montagem.

Rodolfo Lima

Obs: a peça fica em cartaz até 15 de junho no SESC 24 de Maio, de 4° a 6° feira, e depois deve entrar em cartaz na cede do grupo.

Contos Negreiros do Brasil

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O teatro sempre foi um terreno fértil para o protesto. Ganha mais força ao dar voz aos que não tem. Mas o limite entre teatro e protesto, entre dramaticidade e militância é tênue e nem sempre trabalhada a contento. Em muitos casos um sempre sai em desvantagem. No caso de Contos Negreiros do Brasil e a direção econômica de Fernando Philbert, a teatralização dos contos perdeu.

“Conto Negreiros” de Marcelino Freire, lançado em 2005, inspirado em autores negros e nas questões do racismo é um dos exemplos a tornar literária as questões raciais. O autor pernambucano ganha cada vez mais espaço nas artes cênicas ao ter seus textos adaptados para o teatro, local esse, que o autor um dia sonhou viver, mas por timidez, desistiu.

Três atores negros assumem-se como porta voz de todo o racismo, descrença e vilania que há contra as questões do negro no Brasil e temas emblemáticos como as cotas nas universidades são potencializadas de forma bem produtiva – por exemplo. A montagem se esmerou em aliar a narrativa de Freire, temas latentes, atualizados e pessoais, esse misto de ficção, realidade e subjetividade torna a montagem tocante e pungente.

Se o protesto tem força seminal na montagem, muito se dá pela presença do sociólogo e filósofo Rodrigo França, que assume o papel de porta voz ao expor dados atuais e “presentificar índices estatísticos, contextualizados com cenas que reproduzem dores, paixões, medos, alegrias e angústias”. Afinal, como a carne negra permanece sendo a mais barata do mercado, a montagem a expõe em “suas dimensões e experiências reais, sociais e culturais”. França, tem presença, boa dicção e transmite confiança no que fala. Não tem como não ser afetado pela sua presença.

Parece desleal da minha parte dizer que o trabalho não emociona, diante de tantas questões delicadas e tristes contextualizadas. O que não é verdade dado o peso do tema e da forma como a direção conduz o trabalho no final. Mas não pude deixar de me ater no momentos em que a literatura do autor ganha destaque. Curiosamente são os momentos mais frágeis. Valéria Monã se destaca com sua Totonha, que é um dos textos mais marcantes da literatura do autor.  Assim como a também personagem feminina de “Da paz”, Totonha, sem violência e com uma ironia sutil e certeira nós faz ver a realidade por outro ponto de vista. Mesmo que a direção de Philbert não tenha se interessado em composições corporais e teatralizadas para os contos, o que tem a ver com o tom da montagem, eis a verdade, é bom quando o teatro nós emerge na politica do assunto sem ser panfletário.

E nesse caso a montagem falha na transposição do conto “Coração”, que tematizaria as questões das bichas “negras, periféricas e afeminadas”. Marcelo Dias compõe um personagem contido e o resultado é frustrante, já que o conto propõe muitas nuances e a leitura da montagem é apática, fica aquém. Sobre as bichas-negras-periféricas-afeminadas, o teatro ainda não produziu nada impactante, como é o caso do surgimento de Linn da Quebrada na música. Trabalhos como “Picumã”, “Isto é um negro?”, “Grajaú conta Dandaras, Grajaú conta Zumbis”, “Cartas a Madame Satã” e “Farinha com açucar ou sobre a sustança de meninos e homens”, por exemplo, que versaram no teatro sobre as questões negras ainda não se apropriaram dessa problemática de forma a justificar toda a violência que a comunidade gay e negra sofre.

Esses opostos na teatralização (Totonha e Coração – por exemplo) da dramaturgia do autor, faz com que a militância do tema abafe a teatralidade do mesmo. Em muitos momentos, tem se a impressão de estarmos numa aula. Um caso recente de “espetáculo documentário” é a montagem de “A invenção do Nordeste” do Grupo Carmin, que investigou o que vem a ser o tal nordestino, e para isso se armou de muito deboche, aliado a conhecidos pensadores do tal “homem nordestino”.

Talvez o épico não tenha sido a melhor escolha estética para acompanhar tanta denúncia, não porque ambos não dialogam, e são oriundos da mesma raiz, mas porque o que nos faz pensar é o fato do tema nos atravessar, seja pela identificação, seja pela teatralização, ou mesmo quando somos “colocados” no lugar do outro de forma incontornável.

Infelizmente o Brasil continua sendo racista. Pensadores negros e brasileiros, ainda estão galgando reconhecimento do público e um lugar tranquilo no status quo do conhecimento. E peça como Contos Negreiros do Brasil são necessárias para nos cutucar e nos retirar do lugar comum, nem que seja de forma didática.

E foi quando Rodrigo França pergunta:

qual foi o último autor negro que você leu?

Que pensei num dos títulos de Angela Davis (Mulheres, Raça e Classe) que carregava na bolsa.

Quais são as referências que você carrega?

Rodolfo Lima

obs: a peça faz suas últimas apresentações nesse final de semana no SESC Bom Retiro, sexta (25), sábado (26) às 21h e domingo (18h)

Extinção

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O solo novo de Denise Stoklos é explicado da seguinte forma no programa: “Espetáculo solo de … livremente inspirado no livro “Extinção”, de Thomas Bernhard, que apresenta uma obra demolidora das ideias e dos valores conservadores de nossa sociedade, os quais limitam os espaços de exercício de liberdade e de amor”. Resumindo e simplificando é um trabalho onde a atriz questiona sua própria trajetória, convenhamos.

Para além de todo hermetismo que existe no programa para explicar o trabalho, a graça de tudo é justamente esse tentativa da atriz de se desconstruir e rir de si mesma. Para quem não conhece, ou teve pouco acesso a produção da atriz, é uma oportunidade instigante. São 50 anos de carreira, 10 livros publicados, 27 trabalhos – por exemplo. Sua estrada iniciou-se aos 18 anos, em 1968, com sua primeira peça onde assumiu a dramaturgia, direção e produção: “Círculo na lua, lama na rua”. Essa autonomia na criação é base principal do Teatro Essencial, onde o ator tem autonomia em toda as etapas do trabalho.

Estimulada pelo livro de Bernhard, que prevê uma visão radical sobre o futuro das artes e suas formas de produção, a atriz propõe desconstruir toda sua história em cena. Funciona quando vemos a atriz revelar detalhes de sua vida pessoal, como as sete internações que teve por overdose, a atriz faz “graça” dizendo que seus referenciais eram Tim Maia e Raul Seixas. As vezes que a cortina teve que ser fechada antes do tempo, pois ela não tinha a menor noção do que estava fazendo. E o hibridismo que existe em seu trabalho que a classifica ora como uma mímica, ora como uma atriz, sempre reduzindo uma função em prol da outra. É como se em toda sua carreira ela tivesse enfrentado dificuldades nesses rótulos. É uma crítica interessante que bate de frente como essa desenfreada necessidade de se rotular tudo.

Denise ao citar seus trabalhos “500 anos  – um fax de Denise Stoklos para Cristovão Colombro” (1992) e “Des-Medéia” (1994) elabora conexões interessantes com a realidade e atesta a atualidade dos textos. É como se eles não tivessem envelhecido, sua obra permanece latente. Porém suas escolhas não deixam de ser questionadoras quando nos deparamos com o apelo para as suas – inevitáveis e deliciosas – caras e bocas, “Denise Stoklos in Mary Stuart” (1970), a inexistência dos porquês “Elis Regina” (1982) não foi mais encenado, ou mesmo as piadas frouxas, e inexplicáveis para falar do (belíssimo) solo “Louise Bourgeois – Faço, Desfaço, Refaço” (2000), é impossível que dessa artista e deste trabalho o que deve ser referenciado são amenidades.

Mesmo que a atriz deboche de si mesma, de alguns trabalhos e da recepção dos mesmos, algo falta. Sua crítica não é tão assertiva a ponto de problematizar o rumo do próprio trabalho. Não há uma verticalização nas próprias questões a ponto de inflamar questões. Ela ironizar com a carta do público – supostamente alguém da platéia lhe envia uma carta – o fato de ser uma artista que lê o texto, é pouco. O momento que antecede a leitura é “engraçadinho” e se refere a entrega da tal carta, feita por alguém da produção, de forma “espalhafatosa”, momento-escada para a atriz se autocriticar, já que o suposto meliante fez o curso do seu teatro essencial pela internet.

Essas questões não apagam a empatia e o prazer de assistir a atriz em cena. É o tipo de artista obrigatória. Seja pela qualidade corporal e a empatia, seja pela intelectualidade, seja pelo histórico que ostenta – já passou por 33 países, por exemplo. “Extinção” tem uma ficha técnica poderosa com as direções de Marcio Aurelio e Francisco Medeiros, e uma participação simbólica de Antonio Abujamra em vídeo. Mas nada é mais interessante do que ver a suposta “nudez” da atriz, pena que esses momentos são soterrados pela imponência do cenário de J.C. Serroni, da luz de Aline Santini, itens não tão necessários se o foco é as histórias e o corpo da atriz.

Voltando para o texto do programa, a peça supostamente reverbera: “…o comportamento da classe média que aparece no pretenso humor de alguns espetáculos feitos para vender submissão e sujeição ao sistema escravagista das televisões, que acaba por contaminar certa classe artística em busca insaciável de aprovação e patrocinador, bem como de um público para um sucesso cego“. É uma contradição para um trabalho “comprado” pelo SESC realizado em coprodução com o Festival de Teatro de Curitiba. Seria a atriz DE FATO o próprio alvo que crítica?

Rodolfo Lima

Obs: a peça estará de graça em função da Virada Cultural no SESC Consolação, Sáb as 21h e 23h59 e dom, 18h.

Cabaret Transperipatético

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O teatro tem cada vez mais se tornando um potente veiculo de comunicação de singularidades que fora do ambiente metafóricos dos palcos, tem encontrado bastantes dificuldades para ter suas idiossincrasias conhecidas, respeitadas e compartilhada. O trabalho aguerrido do grupo teatral Satyros, na inclusão de indivíduos que encontram dificuldades de acolhimento, é um dos grandes trunfos do grupo. Sua mais nova empreitada atende por Cabaret Transperipatético, supostamente a primeira peça com o elenco formado apenas com homens e mulheres fora dos padrões heteronormativos.

A “novidade” é um ganho, pois é uma oportunidade desses artistas poetizarem suas questões, mostrarem seus talentos e poderem ter um trabalho, que foge das habituais profissões destinadas a essa população. Ao todo são 8 artistas: Daniela Funez, Fernanda Kawani, Gabriel Lodi, Guttervil, João Henrique Machado, Léo Perisatto, Luhmaza, Sofia Riccardi, sob a direção de Rodolfo Garcia Vazquez e dramaturgia coletiva.

O que se vê em cena são esquetes, cenas intercaladas que mais do que revelar as particularidades de cada um, expõe a fragilidade do todo. Uma das questões que surge é: o tema é latente e esses artistas serem inseridos é um feito. Mas isso basta para o trabalho ser aceito sem concessões?

Não é de praxe na direção de Vazquez um trabalho acabado na composição de atores, e mesmo que nesse Cabaret a maioria dos seus artistas funcionem na proposta, as cenas aparentam mal acabadas e/ou soltas de mais. É o que acontece com a primeira cena. Um concurso/show de boate que tem seus números expostos de forma a abrir margem para se pensar: é um deboche ou eles estão se levando a sério? Se é a última opção, porque não dublam direito? A cena é frouxa. A mesma sensação se tem na – ótima – paródia de “Vai Malandra”. O deboche, ou certa despretensão, nesse caso é ruim. Sem energia a cena fica só no discurso. O texto funciona, mas as ações não.

No programa do espetáculo a explicação: “Um espetáculo manifesto, um grito de liberdade e de representatividade, para falar sobre afeto, espaço social, opressão, transfobia, emponderamento, angústias e sonhos. Onde xs artistas ora interpretam elxs mesmxs, ora interpretam figuras e personagens que conduzem as esquetes do espetáculo”.

O citado acima traduz com fidelidade a proposta da encenação, que ao som da banda norte americana Antony and Johnsons ganha tom melancólico, reforçando a solidão nos corpos expostos em cena. O texto tem questões pontuais, acertadas, reflexivas e provocativas: ”Nos tentamos explicar o mundo, mas e se ele não tiver explicação?”, “Você nunca pensou no homem que construíram em você?”, “A casa sorriso da minha mãe, eu morria um pouco”, “Vocês tem medo de nos desejar. De que os expulsemos do mundo heteronormativo”, “Você acha que consegue parar de nos matar?

E nessa oscilação entre a graça, a educação e a poesia duas cenas merecem destaque. A protagonizada por Daniela Funez e outra por Luhmaza. Daniela se declara “trans facha/sapatão/lésbica do role”, e diante da dificuldade das pessoas não saberem o que fazerem com seu corpo, ela resolve dar uma aula explicativa. A cena é engraçada e revela uma questão importante: quem educa as pessoas a lidar com o corpo que foge dos padrões binários? É um desafio dar vazão ao desejo por esses corpos.

Luhmaza expõe a violência familiar e simbolicamente dança com o pai em cena. A violência paterna não eliminou do imaginário da atriz o afeto pelo e do pai. “Talvez meu pai gostasse de mim, ele só não sabia o que fazer. Talvez o meu pai só não soube me tirar para dançar”. É uma cena tocante, mesmo que as escolhas cênicas não potencializem o drama. É desta mesma cena a frase mais bonita do trabalho: “O teatro tomou conta de mim, como minha família não pode”.

Gabriel Lodi e seus parceiros, João e Léo, numa conversa despretensiosa também revelam o quanto se faz necessário rever os padrões machistas que a sociedade preserva e tem orgulho de ostentar. Afinal, é se você fosse nada do que ensinaram a você? Nesse Cabaret tudo soa muito despretensioso, mas não se engane, existem questões pungentes por todos os cantos.

Os Satyros não esqueceram de sua diva maior Phedra de Córdoba (1938 – 2016) que se faz presente em áudio, e seguem inserindo outras artistas trans nos palcos da cidade. Se o todo carece de acabamento, se a cidade carece de um trabalho que deslize para fora das amarras da militância e do protesto, não deixa de ser um ótima oportunidade visitar uma das sedes do grupo na praça Roosevelt e praticar a alteridade. Todxs agradecem.

Rodolfo Lima

obs: a peça está em cartaz na Estação Satyros, de sexta (21h), sáb e domingo (19h30), até 31 de julho de 2018, ingressos populares a R$20 reais.

http://satyros.com.br/emcartaz/cabaret-transperipatetico/

 

Vidros Arriados

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Peças de conteúdo gays são uma boa opção para atrair um público carente de representatividade. Discutir a relação entre dois homens numa época onde muitos estão reféns de aplicativos e descrentes é outra boa opção. Afinal, os homossexuais permanecem carentes de afeto e visibilidade. Mas quem – independente do gênero – não está?

Vidros Arriados, escrito por Antonio Ranieri e dirigido por Márcio Macena é a mais nova possibilidade de escolha para o público LGBT. Junte-se a ele peças como “Sabe quem dançou” (Teatro do Ator); “Certos Rapazes” (Teatro Ruth Escobar) e “Bruta Flor” que volta em cartaz (Teatro União Cultural). Todas elas tem como mote as relações emocionais entre seus personagens.

Luiz (Antonio Ranieri) e Marcio (Rogerio Mendes) trabalham no mesmo prédio e se esbarram no elevador. O primeiro é um gay assumido, o segundo o típico bofe heterossexual que os homossexuais almejam. Marcio, casado com mulher, um dia entediado resolve se deixar levar pela sutis investidas de Luiz. Eles se esbarram no elevador, no estacionamento, quase no cinema… se olham, mas cada qual no seu quadrado, ou no caso, no carro.

A cena da primeira transa deles é um bom exemplo para explicar a proposta da direção e da dramaturgia que optou ressaltar o lado poéticos dos encontros homoeróticos. Se furtando de corpos desnudos, trilha sonora com as divas pop, e até mesmo piadas exageradas, apenas com o intuito de fazer chacota com as próprias mazelas. A cena não é executada com precisão, mas se entende a escolha da equipe. Ou seja… o que temos é opções simbólicas, beirando o clichê e que não avançam para além do óbvio. Isso é um problema.

A dramaturgia de Ranieri começa singela e pontual, traçando os perfis dos personagens com clareza. Ranieri tem empatia com o público e conquista seu público rapidamente. Mas o resultado é um casal desnivelado, pois Rogério Mendes não oscila com eficiência em sua composição, o que torna tudo meio que previsível e brochante. O texto descamba para a incoerência do meio para o fim. No intuito de criar um conflito que sustente a peça, as idas e voltas do casal não é crível. Passam-se anos de um encontro para outro e convenhamos, os dramas e as justificativas para que esses senões ocorram não faz sentido.

Se uma pessoa volta na sua vida depois de 1 ano, de ter ficado na UTI, de ter mudado de cidade, de ter procurado se entender e etc… e como você é a “bee” descolada e antenada, bem resolvida e etc…. o que você faz? Se você descamba para conhecer todos os inferninhos da cidade, boates, michês baratos e etc…. e está cansado das relações avulsas, ouvir um eu te amo – assim, do jeito que for – não deixa de ser um alento, convenhamos.

Luiz e Marcio são arquétipos bem conhecidos da comunidade gay. Assim com a rotina de aplicativos, academia, vinhos, comédias românticas, solidão e a expectativa de. Um dia quem sabe dar certo com outra pessoa.

É uma produção bem cuidada. A iluminação de Cesar Pivetti e Vânia Jaconis é charmosa e ajuda a compor a cena de forma atraente e a trilha sonora de Pietro Leal é o reforço bem vindo no lugar poético que a peça pretende se estabelecer. Ambos são prejudicados, digamos, com a pobreza das coreografias, a falta de uma presença cênica mais pontual de Rogério e das redundâncias da dramaturgia.

O público ri, mas é pouco. Com a demanda de peças deste “tipo”, e aqui, ouso enquadrar Vidros Arredios num segmento especifico, precisamos, como artistas, procurar caminhos que possibilitem ao público ser surpreendido. Para complicar, o final da peça tem um cunho social e de auto ajuda, do tipo: só queremos ser aceitos e amar e blá blá blá. É um tiro no pé.

Bibi Ferreira dizia que não fazia peça seguindo seus desejos pessoais, e sim para sanar a necessidade do público. Obviamente que compartilho dos desejos de Ranieri de explicitar em imagens e sons suas idiossincrasias. De lutar com sua arte por um mundo mais igualitário e sem fobias, privilegiando a empatia e o amor. Mas a pergunta que fica é: pra quem e por quê?

Rodolfo Lima

obs: a peça fica em cartaz até 28 de junho, as quartas e quintas, no Espaço dos Parlapatões.

Crédito foto: Caio Oviedo