A fé que acostumou a falhar

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A fé é um peso. É inegável. Seja por carregarmos ela de forma espontânea e desejável ou herdá-la de forma irrevogável e inquestionável. O que leva uma pessoa a recorrer a fé? A literatura, a cultura dos livros, ler, escrever…são hábitos culturais constantemente acusado de desuso. Porém, o maior livro de todos (a tal Bíblia Sagrada) ainda reina absoluto.

Não temos certeza da veracidade de suas informações, nem do resultado tátil do que ela contesta como verdade absoluta. Porém questionar, discordar, criticar, são ações que nós é tolhida diante do conteúdo do tal livro. Uma coisa é certa, a bíblia nos tira a liberdade e sem essa sensação que nos enebria e incita, qual o espaço dos indivíduos que não tem a fé como bússola?

A fé que acostumou a falhar do Núcleo Arcênico de Criações, de São José do Rio Preto oferece um potente resultado dos desacordos entre o que nos induzem a acreditar e nossos instintos mais profundos. Nesse calabouço dos desejos individuais, está questões como um corpo livre, sexualidades múltiplas, desejos difuso. Metaforizados nos corpos de Vinicius Francês, Malu Oliveira e Alexandre Manchini Jr., esse último também responsável pela direção e ideia original.

Da criação do homem ao seu aniquilamento interior, o que a montagem faz é ilustrar de forma pungente, simbólica e intensa os descaminhos da fé. A sexualidade é o alvo do Núcleo. Desde a afirmação falocêntrica de um mundo originado a partir do gênero masculino, ao corpo feminino que se rebela e ousa se manifestar. Não há toa muitas foram acusadas e vitimadas violentamente como as famigeradas mulheres consideradas “bruxas”. Afinal, ter opinião é como portar uma arma. Um ato sadio, perigoso revolucionário.

A metáfora do fogo está presente. A potência do corpo nu e do seu sofrimento inerente, idem. Se a direção de Manchini liberta o feminino de tanta exclusão e renúncia, utilizando-se da palavra, agora não para calar, e sim para emponderar o feminino e torná-lo utopicamente autônomo, não oferece o mesmo destino ao masculino. Não aos homossexuais de tal gênero. As mulheres estão se livrando das camadas que a oprimem, metaforizado na troca de roupa entre os artistas em cena, já os homens…

Depois da recusa do feminino, de viver num mundo frágil e autoritário do “macho”, o que resta em cena são dois corpos masculinos que se encontram e se desencontram. A liga que os impulsionam ao desejo é a mesma que os enclausuram no repúdio e na dor, subjugados aos castigos de andar a margem do que pré estabeleceram da fé. É a poesia da dança que alivia o peso de certa visão cruel e sem saída para os homossexuais masculinos que se vêem na encruzilhada da fé e do desejo. Manchini dividi a dramaturgia com Homero Ferreira e talvez na dúvida de uma postura mais assertiva sobre os desígnios da fé ao corpo gay, o limbo foi o caminho escolhido.

Mais de mil tijolos são utilizados em cena para metaforizar a transitoriedade da fé, bem como sua suposta decomposição em andamento. É como se ela pudesse se esfarelar e virar nada.  Ela pode ao mesmo tempo pesar e ser leve. Pode criar abrigo e dar conforto e poder ser usada como obstáculo. Pode ser impressa na pele, ferir a pele, potencializar a pele.

A utilização da música “Flutua” de Johnny Hooker e a teatralização de um beijo gay que não se concretiza a contento, autoriza o público a guiar sua percepção da montagem pelo viés homoerótico. A música é a trilha sonora do romance. A direção podia ter verticalizado essas questões, “pesando” a mão nas imagens construídas, mas a sutileza e a dor (em vez do prazer) preenchem a cena, nos desiludindo de um resultado feliz. E quando isso ocorrer A fé que acostumou a falhar ganha uma força inabalável.

Se Vinicius dá corpo a uma singularidade despretensiosa e supostamente orgulhosa de si. Alexandre comporta um corpo medroso e violentado pela própria consciência. Ambas singularidades retratadas com muita propriedade pelos respectivos artistas. Como se primeiro desse vazão ao seus desejos e o segundo recusasse esse lugar. E aqui vale apostar que provavelmente esses lugares se misturaram dentro e fora dos intérpretes, fomentando a imaginação do público. Tudo é bonito e triste. Óbvio e poético.  Irremediável e sexy – sem ser vulgar.

Os descaminhos da fé são inúmeros e a montagem não pretende dançar todas elas. A trilha sonora uma crítica pontual a igrejas que utilizam  a fé como uma arma. Se a sexualidade e a dualidade feminino/masculino são o mote da ideia de Manchini isso não desmerece o resultado.  Muito pelo contrário, o atualiza numa época onde todos os corpos estão constantemente monitorados. Enquanto o desejo (seja do novo, do corpo do outro) quando concretizado, continuar a ser o verdadeiro inimigo da literatura bíblica, nada mais pertinente que homenageá-lo artisticamente.

Resistir ao outro. Resistir a cultura da fé. Resistir ao que desconhecemos de nós, de nossas potencialidades. Do alcance de nossas vozes, de nossa subjetividade, do nosso sexo. Da força poética e erótica dos artistas em cena. Quem resiste?

Rodolfo Lima

(Mostra Cênica Resistências – 2019)

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Carmen – a grande pequena notável

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Carmen Miranda (09/02/1909 – 05/08/1955) foi uma grande cantora nacional que fez carreira internacional no inicio do século XX. Sua trajetória foi marcada por diversos sucessos musicais, a repercussão fora do país, marchinhas de carnaval e pela sua capacidade vocal – essa qualidade rende o melhor momento do espetáculo. Sua habilidade de lidar com as palavras no canto era tão rápida que parecia uma “metralhadora de palavras”, impossível de acompanhar sem perder o ar. Quando a direção enfatiza essa informação, o resultado é recheado de uma comicidade inteligente, pois alia crítica e deboche, sem deixar de exaltar o taleto da atriz protagonista, Amanda Acosta.

Dirigido por Kleber Montanheiro a peça é cheio de predicados. Os figurinos de Montanheiro estão ótimos (os de Carmen são de encher os olhos, e o público reage imediatamente) a direção musical a cargo de Ricardo Severo funcionam a contento e o elenco de apoio (com destaque positivo a Luciana Ramanzini) estão inteirados e agem com naturalidade  e eficiência no palco. Espaço esse que espreme o cenário elaborado pela direção, que tem sua graça com a dinâmica das letras que compõem o nome da protagonista. Isso não impede que o elenco flua com a marcação, mas é nítida que o espaço é inadequado.

Amanda Acosta dá conta do recado. Quem acompanhou seu desempenho pra viver a atriz Bibi Ferreira, não tem mais dúvidas do talento da atriz. Ou seja, tudo corrobora para ser um espetáculo incontestável. Casa cheia durante toda a temporada, temperou a badalada estreia do espetáculo, vendida para o público infantil (maiores de 9 anos). Eis o maior senão da montagem, Carmen – a grande pequena notável é uma peça para o público adulto.

O teatro infantil requer uma feitura e produção artística muito específica. Não é fácil se conectar com o público infantil, seja pela dificuldade em achar a linguagem adequada, seja pela escolha dos códigos a serem utilizados. E tirando uma ou outra piada, o todo é decodificado com mais facilidade pelo universo adulto. São piadas para os pais. Afinal, enfatizar que Carmen era uma mulher empoderada, não é o suficiente. É necessário que se explique o que vem a ser isso? Fiquei a pensar.

Carmen assim como Hebe Camargo (08/03/1929 – 29/09/2012) e Bibi Ferreira(01/06/1922) – ambas retratadas no teatro recentemente – foi encurralada a escolher entre o relacionamento amoroso e a profissão. Ambas são vistas como mulheres a frente do seu tempo. Como uma garota decodifica isso, é que são elas. Na sessão presenciada por mim, havia apenas duas crianças, uma delas de colo. Ou seja…

O repertório escolhido da referida cantora não dialoga em nada com o público infantil. E isso também não foi pensado. Qual o recorte da vida e personalidade da cantora a produção quis traduzir para a cena, não é claro. É um “passadão” sobre a vida de Carmen. O musical é inspirado no livro de Heloisa Seixas e Julia Romeu, escrita para o público infantil. Mas de certa forma tentar dar conta da vida da cantora como um todo, não creio que foi a melhor opção. Já que o resultado é diversão para os pais, que assistem tudo como um grande teatro de revista.

As famigeradas festas populares conhecidas como carnaval e festa junina seriam um território prolifico para associar o trabalho com o lúdico, mas esse não é o resultado. A montagem traz a questão racial a toa, mas assim como o emponderamento feminino é um tema exposto e não traduzido para crianças com cerca de 10 anos de idade. Ou seja, a peça requer que os pais, caso os filhos se interessem, conversem com seus rebentos sobre os assuntos abordados.

Carmen – a grande pequena notável portanto abre margem para um teatro longe de uma infantilização comum a peças para o público infantil. Resta saber se um resultado pode ser considerado eficiente quando parece se esquecer do seu (suposto) público alvo.

Rodolfo Lima

 

A Esposa

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O que mais me chamou a atenção em A Esposa (The Wife) não foi a suposta guerra de gêneros que o filme traz como um tema coadjuvante, e sim a infinita necessidade de completude que nós, seres humanos, sentimos. Na ruptura dessa possibilidade, morremos, alguns em vida. Se o filme de Björn Runge não aborda um tema necessariamente inédito, “Collette”  (2018) de Wash Westmoreland resvala no mesmíssimo lugar, uma esposa que serve de ghost writer para o marido. Ou seja, escreve no lugar, e para o marido, que publica seus textos e consequentemente fica com os louros. Ofertando assim um apagamento do feminino, o anulamento de sua individualidade e consequentemente borrando a história de forma machista e misógina. Quantas mulheres não ficam a sombra do marido?

É uma herança nefasta da cultura religiosa, binária e falocêntrica que herdamos e da qual não nos livramos. Alguém cuida da casa, alguém trabalha fora. Alguém coloca roupa na maquina de lavar roupa, alguém lava o carro. Filhos nascem, os afazeres se dividem, basicamente em todas as casas. Homens exercem determinadas funções, mulheres outros. Então… o combinado não sai caro, certo? Era assim, hoje em dia o combinado precisa ser revisto diariamente, pois os desejos, as frustrações e as oportunidades se intercalam de forma visceral e avassaladora, oprimindo pessoas, singularidades, sonhos. Embaralhando as possibilidades.

Joan (Glenn Close) não é exatamente uma mulher inocente. Aceitou o papel de escrever/revisar/criar os textos que eram publicados com o nome do marido, enquanto esse dava conta das crianças – por exemplo. Quando Joe (Jonathan Pryce) é laureado com o prêmio máximo da literatura (Prêmio Nobel), Joan é obrigada a revistar questões abafadas, que pareciam superadas, porém descobre-se que não. São assim os desejos e os impulsos… o não realizado, não há como fugir do retorno da vida.

O filme que deve dar o Oscar a atriz (que já bateu na trave, com 6 indicações e nunca levou) é um belo exemplar de história para se pensar a velha disputa de gênero e os papéis exercido na sociedade. Como se livrar deles é que são elas. O filme não aponta pistas. Estamos refém dessa herança nefasta. E para escapar o ser humano, a mulher no caso, precisa se impor, e ao se impor pagar o preço, contrariar uma sociedade que a diminui – por exemplo. É triste e trágico.

A dualidade que o filme emprega ao expor uma mulher conivente e um marido aparentemente grato a todo o esforço da mulher em permanecer do seu lado, é o ponto nevrálgico do filme. Você ao aceitar a postura de Joe, corrobora com o machismo implícito em sua atitude. Se o filme não é feito para alerta e enaltecer o papel feminino em detrimento de uma visão exploratória de gêneros, resvalar no tom emotivo do filme é uma saída para olhar para ele com empatia.

Digo isso, pois acho que o filme reforça a necessidade da busca por completude, ao mesmo tempo que revela a fragilidade dessa escolha. O outro sempre será nossa ilusão favorita. Não há como fugir. O outro existe na nossa vida para nos guiar e nos inundar. Alguns se afogam, outros sobrevivem. Muitos não tocam a água. Outro nem sabem que essa opção é possível. Joan ao tentar romper esse circulo vicioso – o de acreditar que o outro é um porto seguro – interrompe não só o sonho de uma vida a dois. Mina de forma seminal a possibilidade do agraciamento do acolhimento infinito.

Nunca é tarde para sermos confrontados. Nunca é tarde para nos vermos expostos. Se arrepender, e reverenciar o que acredita ser seu de direito. Mas e quando você aceita esse papel de coadjuvante? Quando você assume um lugar aquém do que a sociedade espera, quando você se envergonha em quem você se tornou.

Joan não quer que o marido a agradeça em público. Não quer que lhe seja jogado na cara o rótulo de mulher sofrida, apagada, submissa, que viveu para o marido e suas necessidades. Joan se apaixonou e aceitou Joe já nessa condição de subalterna, o filme parece indicar. Se a outra entre quatro paredes, tudo bem, em público, jamais. Quem nunca?

A esposa é para se deixar levar. Se contaminar pelos espinhos que o filme vai expondo no decorrer da projeção.  O jeito elegante, contido e por vezes tímido, com que Glenn Close conduz sua personagem é o grande trunfo, já que a personagem é construída de forma misteriosa, como se pudesse conter uma vulcão dentro de uma carcaça envelhecida e amorfa. Ficamos a mercê de sua explosão.

Mais do que revelar a fragilidade desse encaixe masculino-feminino, o filme implode nossa ilusão de quem sim, podemos nos construir a partir do outro. No final do filme a sensação é que por mais que juras de amor sejam feitas e por hora, aceitas. Nunca sabemos ao certo o que corre por trás da máscara colorida que se oferta ao outro. É essa crueldade que dói no final do filme. Nos deixando sem escapatória para sonhar.

Rodolfo Lima

 

O Confeiteiro

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Não sabemos com precisão de onde nasce o afeto. Se dá ausência de algo ou de sua abundância, do esforço individual ou simplesmente acontece, como um fenômeno natural e imprevisível. O Confeiteiro ( The Cakemaker) traz um exemplo do amor que nasce da morte. Como se na finitude de algo, outra ressurgisse no lugar, para que continuemos vivendo e assim dar conta disso que se chama vida. Parece óbvio essa constatação, mas na prática sabemos que nem sempre é com poesia e certa sorte, que as coisas acontecem, e que sim, muitas pessoas morrem em vida, dada a impossibilidade de se reinventar. Como escreveu um dia o autor Caio Fernando Abreu (1948 – 1996): existem pessoas que nascem para serem sós, a vida toda.

Não é o caso de Thomas (Tim Kalkhof) e Anat (Sarah Adler) ambos vitimados pela morte de Oren (Roy Miller), do qual ambos eram amantes. Amante do primeiro e esposo da segunda, Oren ao deixar de existir fisicamente na vida de ambos, catapultou em Thomas a necessidade de conhecê-lo mais e/ou reconstruir a trajetória de sua morte, já que sendo o amante e morando em outro país (Alemanha), soube tardiamente da morte do amado.

Nesse impulso de ir até a cidade natal (Jerusalém) de Oren e sua familia, Thomas procura simbolicamente reconstruir sua perda. O que lhe restou foi uma chave, que dá acesso ao armário do clube, onde o que resta é uma sunga. A peça intima do amado é o que lhe restou. Na ânsia de mais – afinal, como se preenche um vazio a contento? – Thomas vai até o endereço da esposa do amante. Ela, dona de um café. O sútil imbróglio se inicia nesse encontro.

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É o contato dessas singularidades que preenche o filme de Ofir Raul Graizer de poesia e simbolismos. Embora o filme tenha “ares” de filme gay, já que o mote da história é a relação entre dois homens, fico a pensar se tal rótulo dá conta de abranger o que o filme tem de melhor, que são os silêncios dos que vivem a superar uma ausência. O filme tem charme ao colocar a profissão de confeiteiro em evidência – nunca uma mão parece tão sexy numa massa de farinha – mas isso ocorre para ajudar a nos conectar com a história através de outros sentidos. Não podemos provar os doces de Thomas, mas somos cúmplices e invejosos de Anat quando ela é preenchida pelo sabor proposto pelo tal confeiteiro.

Anat e Thomas se aproximam e se envolvem porque Oren morreu. A morte aproxima essas duas pessoas. Então o que supostamente era um filme gay, dá indícios de um filme heterossexual. Ou como diria alguns, de certa gourmetização da sexualidade, como se os gays pudessem ser curados por heterossexuais. É importante evidenciar que Thomas se aproxima e talvez se apaixone pelo universo de Oren, e isso inclui sua família (mulher, filho e mãe), sua casa, suas roupas, o universo que ele deixou. Tem muita beleza nisso, convenhamos,  mesmo que utópica.

Uma das críticas que li do filme é sua tendência a ser um produto calculado para se “vender” o universo homossexual à plateias heterossexuais. Com opções de cenas softs e sem ousadias, para que assim o universo gay descesse guela abaixo dos homofóbicos. E o pior, que os gays masculinos fossem passíveis de serem salvos por uma mulher. O filme não afirma isso com precisão, sugere que a redenção de Thomas é na companhia de Anat, que por sua vez, para supostamente ser feliz, teria que perdoar o amante do marido. Se tirássemos o rótulo de filme gay de O Confeiteiro, sobre o que falaríamos? É o que fiquei a pensar depois da leitura de tal posicionamento crítico.

Mesmo que o filme não se aprofunde na bissexualidade de Oren, podendo assim ser um produto quem sabe provocativo para as questões da sexualidade humana, as opções da direção são interessantes (é o primeiro filme do diretor) e resultam em momentos de epifania e leveza na tela, bem como de intensidade e – por que não – de tristeza. O choro guardado de Oren que explode em apenas um momento do filme é uma cena inesquecível. É um momento difícil na composição de Kalkhof, que em silêncio tem que dá conta de exprimir a dor que seu personagem sente.

Acabamos sendo vitimas das tais nomenclaturas que dividem o ser humano através de sua sexualidade e gênero. Como se os sentimentos e os desejos não pudessem ser fluídos e navegarem sem rumo por ai. É difícil aceitar que os são. E se o filme não dá conta de verticalizar essas questões de forma audaciosa – como é comum em alguns exemplos europeus e americanos – o resultado é uma bela forma de rever as questões sexuais de forma menos inflamada e mais suave. Como se a ficção pudesse nos induzir a crer que o mundo – e nossas questões – pudessem ser fáceis de serem digerido. Não o é.

Muitos de nós não seremos nunca brindados com a possibilidade de rir como Anat, mas é isso que faz com que o filme se torne emblemático e poético. No fim, é o resquício de esperança de Anat que carregamos para fora do cinema. Não é assim que deveria ser na vida também? Um nova possibilidade sobrevivendo para além das perdas irremediáveis?

Rodolfo Lima

Obs: o filme é o candidato de Israel a uma vaga ao Oscar na categoria de filme estrangeiro. #natorcida

 

O frenético, Dancin Days

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É bom quando somos lembrados que teatro é – entre outras coisas – pura diversão. Sem o menor comprometimento político e/ou com a verdade. O frenético, Dancin Days é um bom exemplo dessa fatia do mercado das artes cênicas. O musical carioca está em sua segunda temporada e se torna uma boa opção para a distração. Isso não quer dizer que ele esteja isento de críticas e/ou de erros e acertos. Mas é o típico trabalho que de inicio você só pensa em aproveitar o momento, mesmo que nem tudo seja desenvolvido a contento.

Dividido em dois atos e escrito por Nelson Motta e Patrícia Andrade, a peça pretende resgatar o clima vivido pela boate Frenetic Dancing Days, idealizado por Motta e seus amigos (Leonardo Netto, Dom Pepe, Scarlett Moon e Djalma – como consta na página do Shopping Village Mall) em 05 de agosto de 1976, num espaço ocioso dentro de um shopping, na ocasião, o da Gávea. Sua duração seria de 4 meses, mas isso não impediu que a boate, seus personagens, suas lembranças e seus frequentadores não entrasse para a memória cultural do país. Ok, isso pode ter se dado mais no eixo RJ/SP e provavelmente por causa da novela de Gilberto Braga, com nome homônimo e consequentemente com a projeção do grupo As Frenéticas. A boate é uma especie de marco da entrada da era da discoteca no país.

Motta é um autor que vem se expandindo em musicais e responde pela dramaturgia de “Elis, a musical“, “S’imbora o musical – a história de Wilson Simonal” e o acertado “Tim Maia – Vale tudo“. Como ele é parte integrante da história que conta, era de se esperar que ele peneirasse as informações e embaralhasse verdade e ficção, como que a polparmos de saber do lado B da boate e seus bastidores. Tem se a sensação de que a peça é “chapa branca” e isso claro, joga contra o resultado final. Tem se a sensação de algo pueril, conforme a peça vai se encaminhando para o fim.

Essa escolha do autor empobrece a peça principalmente no segundo ato, que nada acrescenta de informação e ainda transforma a si mesmo e seus amigos como anti heróis visionários que antes mesmo do politicamente correto já combatiam as minorias e levantam bandeiras a favor de mulheres, negros e homossexuais, por exemplo. A parte didática da peça é totalmente dispensável. Não serve para entreter e nem provoca uma reflexão aprofundada sobre os referidos assuntos. É ótimo saber que a mais de 30 anos atrás tínhamos pessoas como eles, mas a forma como esses louros são jogados é que são elas.

Se o autor se eximiu de tocar em assuntos e/ou situações mais sérias ou delicadas, a direção de Deborah Colker faz dessa ausência uma oportunidade de evidenciar questões latentes na sociedade atual e que – na ausência de uma dramaturgia que dê conta – ganham graça e brilho com a sua releitura. Como é o caso da homossexualidade masculina e a histórica música Y.M.C.A. e seus personagens machões, eternizados pelo grupo Village People. A cabeça enorme de um cervo (cenografia e direção de arte são de Gringo Cardia) adentra o espaço e os bailarinos – diferente da ostentação dos arquétipos mofados do masculino – “dão close” e uma boa “pinta” com figurinos coloridos, exóticos, corpos desconstruídos e porque não fora dos padrões. É o melhor exemplo da utilização de um clichê e sua (feliz) subversão.

Os figurinos de Fernando Cozendey são uma interessante diversão a parte. Uma exacerbação de cores e misturas que ajuda colorir todo a história. E alguns deles, ótimos, diga se de passagem. Mas é uma opção perigosa já que reproduz culturalmente a época de forma indireta.

A inserção da música do grupo norte-americano alerta os mais atentos para a dissonância que pode haver entre as músicas escolhidas para ocupar a pista da boate da Gávea. A referida música (Y.M.C.A) é de um disco que o grupo lançou em 1978, dois anos depois da boate abrir e causar furor em terras cariocas. Uma pergunta que me rondava era: quais as músicas que realmente tocavam na pista dessa boate?

O melhor momento da peça – ou o certo seria dizer, o meu preferido – fica por conta da execução da música “Can’t Take my eyes off you” de Frank Valli, que fez sucesso em 1967 e serve para ilustrar a ida de Nelson Motta  a Nova York para xeretar as tendências musicais da época e poder assim revelar um som atualizado das tendências mundiais, na boate carioca. Motta relata uma viagem de alucinógeno e com ela o encantamento que sentia pela mulher de seu mecenas, que ele, em função dos efeitos da droga, jurava que também estava em NY e portanto se vislumbrava com a mulher desejada. Essa mistura de realidade, ficção, ilusão, glamour, e porque não, toques de desilusão, dão o tom do que pode ter sido aqueles tempos. Em cena Bruno Fraga e a estonteante Natasha Jascalevich – impossível tirar os olhos dela.

Outra questão emblemática na peça e talvez a que melhor deu conta de narrar um fato histórico, porque independente da verdade dos fatos, se utilizou de humor e deboche, foi a referência ao grupo As Frenéticas, que segundo a peça, tinha esse nome, pois todas foram garçonetes da famigerada boate, que entre servir um cliente e outro faziam performances no meio da noite.

Uma suposta despretensão nas coreografias tornou a peça leve e divertida, sem a caretice que é de praxe em histórias clássicas dos musicais. O corpo de baile também dá um arejada com a inserção do quarteto: Eddy Soares, Elio Barbe, Rômulo Vlad e Andrey Fellipy, um grande acerto da direção.

O Frenético Dancin Days diverte e empolga, entretêm e mesmo que sua dramaturgia não seja o melhor texto escrito por Nelson Motta, não deixa de ser uma possibilidade de lutar – indiretamente – contra a caretice e o conservadorismo que assola o país. Embora, é bom que se diga que de transgressor o musical não tem nada. Talvez a maior contradição de um trabalho que tem por intuito referenciar um ícone da contracultura carioca.

Rodolfo Lima

Obs: a peça está em cartaz no Teatro Bradesco (RJ), de sexta a domingo, até 24 de fevereiro de 2019.

Meus momentos preferidos na cena teatral em 2018

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Este ano vi 144 peças de teatro, em 4 estados nacionais.
A lista abaixo é para aqueles trabalhos que me tocaram de alguma forma. Eis os motivos!!!

ARVORES ABATIDAS – O drama do artista que não dá certo, que fracassa, que fraqueja, que envelhece, que adoece, que deprime, que não tem emprego, oportunidade, sucesso. Tudo isso junto e misturado nesse drama polonês com mais de 4 horas de duração e que inquietou e provocou a platéia do Sesc Pinheiros. A possibilidade de conhecer o trabalho delicado da direção de Krystian Lupa foi outro achado. Aliou poesia e morte de forma tocante e exigente. #trazeledenovoMITsp

CÉREBRO CORAÇÃO – Essa peça é um misto de uma atriz excelente, um texto provocativo, um cenário instigante e uma direção que não se rendeu ao popular, ou seja… o pacote completo. Sou fã de Mariana Lima, desde de “Apocalipse 1,11”, isso há quase duas décadas. “Seu” cérebro/coração se tornou um tocante e sensível questionamento sobre os caminhos dos desejos, dos sentimentos, o duelo da razão e emoção, e da necessidade e capacidade de se renovar como artista. Mariana soa tão honesta em cena, que o público apenas órbita em sua volta #soufãconfesso
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ENCONTRO 32 ANOS DEPOIS – NÓS DO MORRO – Subir um trecho do Morro do Vidigal (RJ) e poder acessar um pouco do trabalho dessa galera jovem foi um experiência agradável e inspiradora. É aquele teatro feito com pouco recurso e com muito amor, muita vontade de acertar. Inspirador e criativo.

GAVIÃO DE DUAS CABEÇAS – Nessa peça o que se entende pelo tal “lugar de fala” , o “biodrama”, quiça o “teatro documentário” e a dança-teatro são reconfigurados nesse solo de Andreia Duarte e, que depois de viver por anos numa tribo indígena mistura memórias, cultura e denúncia social para falar de forma direta sobre a questão indígena, sem se furtar de ser politica e emotiva. Um belo exemplo de solo!!!
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JOSEPHINE BAKER, A VÊNUS NEGRA – O que mais admiro no teatro é um artista entregue. Se acrescido a essa entrega tiver a força aguerrida de produzir tudo…#matchpoint. Ganha todo meu respeito. É o que acontece com Aline Deluna, que dá vida a personalidade marcante e irreverente da cantora Josephine Baker. Aline é talentosa, causa empatia, tem versatilidade e conseguir criar um trabalho que além de reverenciar sua “musa”, ainda serve de trampolim para projetar todo seu talento. Essa luz interior sempre me emociona. #arrazôgata
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ISTO É UM NEGRO? – Para mim uma das melhores qualidades num trabalho artístico é sua possibilidade crítica de debochar das próprias questões. A cena final de “Isto é um negro?” é o exemplo que fica de um trabalho com poucos recursos cênicos, com duas atrizes interessantes e que resultou numa grande provocação sem proselitismo.
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LOBO – São muitos homens nus em cena, se debatendo e se chocando de forma intensa, sem que isso resvale numa conotação (homo)sexual na primeira cena da performance. É possível ver todos esses homens e não associar a sua sexualidade. Ver que é possível a tensão masculina vier a tona, sem que isso vire uma grande pegação de homens em cena – vide o que é feito pelo Teatro da Pomba Gira – é o grande feito de Carolina Bianchi. A possibilidade que teve de ter tantos artistas a sua disposição é outro feito, #respeiteamoça

LOVE LOVE LOVE – Teatro é texto, é a palavra, e o que dela podemos potencializar em cena com nossos corpos. O texto de Mike Bartlett é um soco no estomago. O público acompanha o passar do tempo de uma família e com ela, toda a degradação de sonhos, emoções e expectativas. Não tem como sair indiferente do teatro. Para complementar Yara de Novaes ofereceu uma mãe inesquecível. #peçaobrigatória!!
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https://ilusoesnasalaescura.wordpress.com/…/03/love-love-l…/

OFÉLIA – A TRAVESTI GORDA – O que me chamou a atenção na performance de Magô Tonhon (foto), não foi sua capacidade de entreter e fazer rir, e sim sua capacidade de se desnudar e de debochar diante de questões tão delicadas para si mesma, como a travestilidade e a gordofobia. Para ser artista é preciso ter coragem antes de tudo, de arriscar e vencer os próprios limites, de não ter medo de ser ridícula e nem piegas. Magô não é atriz, ou pelo menos, ainda não. Mas… tenho grande empatia por quem se joga sem rede de proteção. #voltaofélia

TRIPAS – A radicalidade nas artes é sempre algo ambicionado. No teatro há muitos pretensos artistas que requentam escolhas de outros artistas e em vez de inovarem, oferecem um pastiche. Pedro Kosovski escreveu e dirigiu uma peça para falar sobre a doença do pai (Ricardo Kosovski) e todos os questionamentos que dela surgiram. Incluindo questionamentos sobre o amor, a paternidade e a (homo)sexualidade. O beijo na boca – e de língua – de pai e filho no final da peça é daquelas opções cênicas que nos tira da cadeira de forma irreversível. #arrazaramnacoragem

Rodolfo Lima

Crédito foto: Márcia Zanelatto

O que restou de você em mim

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          Histórias de amor são marcantes pelas suas especificidades, pelo que a singulariza. Amar e pertencer, amar e perder, amar e ser abandonado, amar e não ser amado… praticamente faz parte do histórico de todos. O que restou de você em mim, solo biográfico de Davi Novaes oferece essa possibilidade de catarse na reduzida platéia (8 pessoas ao todo) e não necessariamente por uma entrega visceral ou uma exposição explícita, das emoções, digo. E sim, porque o público se identifica com essa necessidade de amar e ser amado, com as ilusões que nos movem diariamente e também pela presença carismática do ator. 
 
          A peça tem um quê de biodrama – estética onde o artista parte de um acontecimento real de sua vida e teatraliza os fatos e/ou cria uma performance para expor suas questões – porém sua excessiva teatralidade rouba o que poderia nos contaminar pela sinceridade e naturalidade. Uma das músicas que abre o trabalho é “Someone Like You” de Adele, um hino romântico e certeiro. Ao adentrarmos o quarto de Davi – o personagem/ator, tudo tem uma estética vermelha. Das paredes a capa de livros, posters, copo, tênis, embalagem de chocolate e por ai vai. Qual a relação da cor com a história de Davi, não sabemos. Tirando o clichê que vermelho é supostamente a cor da paixão… Poderia ser do sangue, da raiva, do sexo ou de qualquer outra pulsão latente que desse a Davi uma ambiguidade. Isso não ocorre. 
 
          Davi é revelado a nós como uma pessoa sensível, sonhadora e claro, machucada. Afinal seu solo é sobre isso, sobre o fim de algo que termina na prática, no dia a dia, nas ações. Porém permanece dentro de nós, como que nos a assombrar e nos mover rumo a lugares nebulosos, como o passado, as lembranças… um inferno chamado saudade. O texto escrito por Davi ganha mais força quando ele se atém a revelar detalhes do cotidiano perdido. Quando sua atenção volta a reconstruir momentos que são só dele e por isso mesmo encanta e emociona. Ao oferecer uma analise sobre o que é o amor, o texto soa impostado e pretensioso, embora Davi tenha uma presença cênica acolhedora e carismática. O que cativa é ele ou a história dele? 
 
          O momento mais emblemático do solo é quando narra seu primeiro encontro oficial. Sabemos o título do filme, o cinema, o sabor do chiclete…são essas  particularidades que individualiza o personagem e o enriquece, não o poster do filme Moulin Rouge na parede ou o livro de Virginia Woolf. Quem gostava de Ana Cristina Cesar? Davi ou seu amado? O filme Ela é importante pra quem? Porquê? 
 
          Em O que restou de você em mim a ambientação aprisiona o ator numa estética que não traduz com verossimilhança o universo do quarto do “personagem”. A honestidade do simples e do banal, e de objetos dispostos ao leu e sem uma combinação excessiva teria surtido mais efeito. Um trabalho como esse, mereceria mais momentos onde pudéssemos ouvir a respiração do ator e o sentimento aflorando dentro dele, do que marcações onde o faz pular de um canto para o outro, como se isso potencializasse sua história. Discordo. O que potencializaria isso era seu desnudamento emocional. O olho no olho. A montagem por vezes pede que o ator apenas divida conosco a sua versão da história, como se isso bastasse para o livrar da solidão de ser deixado. Há um momento em que o ator, sentando numa cadeira, apenas respira. Três respiros ofegantes que não nos deixa perceber com clareza se é cansaço, saudade ou dor. No meio do abandono não há com saber e esse “estar perdido”, faz toda a diferença.
          A direção é da dupla Alejandra Sampaio e Virginia Buckowski, atrizes da Velha Companhia, conhecidas por encabeçarem o elenco de montagens sensíveis como “Sínthia” e “Cais ou a indiferença das embarcações”. Davi Novaes cativou o público no musical infantil “O príncipe desencantado”. Ou seja, não é por falta de exemplos de sutileza que a equipe de construção do trabalho carece.
          O Jornal Agora São Paulo trouxe uma nota no dia 23 de novembro com o seguinte trecho: “Sozinho no palco, Novaes interpreta um homem que, para se redimir de algumas histórias do passado, visita lugares que representam antigos namoros.” A falta de objetividade nessa “peça-depoimento” como é citado no release,causa esse tipo de distorção. Se trata de uma experiência pessoal, um namorado, um amor específico e porque não: uma história de amor gay.
          A experiência de adentrar o quarto de Davi é válida, não necessariamente catártica, embora na sessão que eu estive, apenas eu e outro espectador não nos debulhamos em lágrimas. Davi conta sua versão da história, o público se espelha no seu desamor e é fisgado. Mas que o ator e a direção podiam ter se arriscado mais… e fugido de algumas opções fáceis, ah… isso podia.
          Rodolfo Lima
          Obs: a peça faz suas últimas apresentações do ano sexta, sábado e domingo na Zona Franca (Rua Almirante Marques Leão, 378 – Bela Vista. Informações: 98202-4658)