A cena teatral em 2017 – meu momentos preferidos!!!

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Em 2017 vi 124 peças em 7 cidades do Brasil. Muito mais do que prezar pela qualidade técnica e inovação dos trabalhos o que me chamou a atenção quando fui olhar essa lista, foram os momentos emotivos que presenciei. Então essa lista é sobre isso, sobre aquele momento que a situação/o momento a ação/feito cênico transpõe nossas defesas e nosso senso crítico e nos emociona, nos fazendo mais humanos, por segundos.

Teve a exposição sobre Laura Cardoso, foi emocionante seus depoimentos em videos; Escrevo sobre peças e muito artistas ignoram meus textos, mas não foi o caso de Paulo Betti (Autobiografia Autorizada), que me enviou recado agradecendo minhas observações e reiterando que estava consciente do tempo excedente do trabalho e que iria reduzi-ló; Quando ousei criticar Sinthia, de Kiko Marques, ele também enviou  mensagem para reiterar que meu olhar  era inédito, já que ninguém havia lido o trabalho pelo recorte que enfatizei. Ou seja… artistas que reconheceram minhas palavras mesmo eu não estando no mainstream na crítica teatral.

Nada mais me emociona do que um ator dando o seu melhor… e foram eles: Caio Blat e toda a epopeia que foi Grandes Sertões: Veredas, um texto de fôlego a ser decorado por um ator corajoso; Lena Roque (Louca de amor, quase surtada) sobrevivendo no palco e dando seu texto, se investigando, achando outras possibilidades em cena, por puro amor, vocação. Mesmo que sem a trilha sonora preterida; Andréa Beltrão e sua Antígona, sua vivacidade, seu poder de retórica, seu talento; Bete Coelho recuperadíssima em As Criadas, poucos artistas vão do trágico para o dramático, com tanta facilidade. Vale ressaltar aqui a montagem de Eles não usam tênis naique, um trabalho tocante surgido num grupo localizado na favela da maré (RJ). Um hibrido de teatralidade, depoimento pessoal e crítica social. A garra do todo, suas questões individuais, seus dramas aparentemente irreversíveis. Um mistura poderosa e potente a modificar o olhar de que os ouve.

Outros momentos:

10) Pink Star

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Gostamos de close e uma boa dublagem. Quando a peça tem temática gay a expectativa é sempre esse momento. Pink Star do Satyros é sobre uma transexual e seus desencontros na vida. No seu casamento uma apresentação rouba todo o momento, pois é engraçada, bem feita e com uma versão incrível de Postmodern Jukebox para My Heart Will Go On. Foi daqueles momentos que esqueci que estava no teatro e quis ir para o palco dançar junto. #veadagememnivelmaxímo

09) O Jornal

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Na peça, tudo funciona, o que já é um feito. Atores, dramaturgia e direção, bem como elementos cênicos em harmonia. Temas delicados como a religião, família, o amor e a sexualidade vem a tona de forma imbricada e irreversível. O drama de Dembe e a relação com a irmã nos minutos finais de O Jornal – The Rolling Stone é delicado, triste e irreversível. Supor o drama de cada um deles e o embate dessas dores transposta na interpretação dos atores… poxa… #docaralho

08) Tom na Fazenda

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Tom na Fazenda pode ter muito méritos, embora tenha me causado estranhamento  – em comparação com a versão cinematográfica – e seja contra o tom “auto ajuda” do final. Mas uma coisa é certa, o clima homoerótico empregado na montagem é um primor. A peça consegue aliar drama, comicidade e erotismo com bom gosto e de forma certeira. #bapho

07) Black Off

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A gente demora para entender o tal lugar de privilégio. Creio que é uma luta diária de conscientização e observação. No meu caso… por ser branco, cisgênero, classe média, barbudo… e por ai vai. Portanto foi certeiro e importante ver Black Off performance da africana Ntando Cele, onde através de um humor ácido, do seu gestual e de sua rebeldia, pude presenciar um relato urgente, necessário e importante. Sobre racismo e negritude no universo artístico. #lacrô

06) Bicho

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Eduardo Speroni é daqueles artistas que na primeira olhada você não dá nada. Tipo mignon, cara de menino…. porém sua performance em Bicho é um espetáculo a parte. Vibrante, emocionante e bem executada. A dramaturgia ajuda a contar a história desse michê e suas comparações com a profissão de prostituto e de artista. É uma pena que os tais prêmios ignorem um trabalho OFF como esse, Eduardo merecia ser olhado com mais atenção. #arrazôbee

05) Grazzi Ellas

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Mel Campus é uma travesti bem atuante em Londrina. Sua performance para Grazzi Ellas já havia chegado aos meu ouvidos. Pude conferir o trabalho é e de aplaudir de pé sua entrega. Seja pelo desnudamento físico, como pela capacidade de expor na pele as questões que o texto aborda. Transfobia, medo, sonhos, agressão, saudade… ficção… tudo junto & misturado num trabalho que antes de tudo é um grito de alerta, uma possibilidade de trabalhar a empatia. Mel consegue… mesmo que saia do palco sangrando. #respeitemos

04) Entrevista com Stela do Patrocínio

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Não sou amigo pessoal de Georgette Fadel, mas sou fã. Foi ela que me abriu a primeira porta no universo do teatro, quando permitiu que eu ocupasse um horário num teatro público que coordenava com seu grupo, isso há uns 15 anos atrás. Não pude deixar de ir no último dia de Entrevista com Stella do Patrocínio. Acho um exagero ela ser acusada de black face, culpabilizada por dar voz e corpo a uma poeta negra, num projeto que não morreu, porque ela assumiu o lugar do amigo protagonista (negro) falecido logo após a estreia. Ver a artista se disponibilizando a conversar, permitindo que o público a interrompa e validando a ideia de que a peça era de todos e portanto ela não detinha nenhum poder ser a obra em si, foi FODA, literalmente. Um aula, um momento único. Aprendizado para a vida toda. #inesquecivel

03) 60!Década de Arromba

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Tua mãe te ensina a ouvir a Jovem Guarda, você cresce com essa referência, se apega em alguns artistas. Cria uma nostalgia, acha que algumas músicas traduz o seu universo sentimental. 60!Década de Arromba recupera esse lugar da inocência, “da mãe” no meu caso. Minha mãe ia nesses auditórios ver seus ídolos. Chorou por eles. E eis que quando Wanderleia, a estrela convidada do musical, surge no meio da platéia sozinha e sem proteção, a reação do público de devoção e espanto é emocionante. Você não sabe se olha para o público que reage ou a artista que se disponibiliza. O musical é bem interessante, com acertos, mas nada foi mais emocionante nesse trabalho, do que virar tiete e ver a cantora surge de forma icônica e poderosa, entre seus fãs. #momentomaravilhoso

02) 2 x 2=5: O Homem do Subsolo

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Fui aluno de Cacá Carvalho no primeiro semestre, e pude contar com a generosidade do seu olhar e de sua crítica certeira e pontual de forma impressionante. Cacá, dos atores conhecidos do mundo artístico, foi o primeiro que validou meu trabalho reconhecendo minha entrega, enfatizando que sou daqueles atores que parecem incorporados por uma entidade. Disse isso com muito respeito, me enxergando como um igual. Uma pena que não gravei minha cena final + sua avaliação, como queria rever e aprender mais e mais com suas observações. Como aluno foi chamado para interagir com ele em cena em seu  2 x 2=5: O Homem do Subsolo. Pensa: Teatro Faap, um ator como Cacá Carvalho e “nóis ali” na deixa para entrar em cena e não foder com a peça do coleguinha. Ahhhh…. que delicia de oportunidade. Que experiência incrível. #gratocacágrato por tudo.

01) A noite em claro (Rio Diversidade)

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Com texto de Joaquim Vicente e direção de Cesar Vicente, Thadeu Matos deu corpo e voz para um michê assassino na peça Rio Diversidade. Seria mais um em cena. Mais um prostituto, mais um corpo nu, mais um ator bonitão, mais uma bicha velha enfatizada. Se não fosse o poder para juntar todas essas questões numa cena certeira e pungente, tudo seria diferente. Ao ir desnudando seu ator o texto de Vicente nós encurrala numa armadilha. Somos arrebatados com a pungência do discurso que poderia vitimar qualquer um de nós, homossexuais, sedentos por sexo e um corpo heterotizado. E o que a nudez propõe ali é um ganho impar na cena, pois ela não é ilustrativa. É a condutora da ação, potencializando a narrativa. O que aprendi ali, e o impacto que senti… ao me ver vítima e testemunha daquele desejo escancarado é o tipo de momento irreversível. Como ser diferente depois que o teatro te transforma?

Rodolfo Lima

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O Jornal – The Rolling Stone

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A homofobia é uma causa a ser combatida. Sempre foi e pelo panorama atual, será ainda por muito tempo. E não se trata apenas de aceitar ou não um casal do mesmo sexo no convívio social e/ou dentro da própria casa. É necessário antes de tudo quebrar os paradigmas religiosos que alicerçam o discurso discriminatório que cada vez mais ganha espaço, infelizmente.

O racismo é uma catastrófica e triste forma de nivelar o outro, a partir de conceitos reducionistas, pobres e vexatórios. Pois antes de tudo… ao levar em consideração a cor da pele, em prol do caráter, da dignidade e do talento, estamos imputando sobre o outro nosso julgamento empobrecido pelo que nos ensinaram sobre o certo e o errado. Permanece sendo um horror.

Peças de temática gay é sempre bem vinda e não deixa de ser uma oportunidade de rever os estereótipos, mesmo que através do riso, da violência ou mesmo dos clichês. Quando ela minimiza os danos difamatórios, ufa!!! Um ganho.

Peças com artistas negros encabeçando o elenco, ainda é uma luta do movimento negro. Esse emponderamento é necessário pois precisamos supor Julietas, Blanche Dubois e Neusas Sueli, negras. Porquê não? O termo Black Face é utilizado para mapear (e acusar) peças que se utilizam desse lugar confuso e emblemático que é a representatividade negra, em prol de um apagamento desses artistas da cena artística.

Pois bem, O Jornal – The Rolling Stone, peça do britânico Cris Urch (que estreou em 2015 em Londres, arrebatando prêmios locais), com direção de Kiko Mascarenhas e produção de Lazaro Ramos, une esses dois temas espinhosos de forma impecável. Um ganho pra cena local carioca, que tem duas peças em cartaz com protagonistas gays e negros: “O Jornal…” e “L, o Musical”.

O Jornal “The Rolling Stone” circulou durante 10 anos em Kampala, capital de Uganda, estampando fotos de supostos homossexuais, o que incitava a população local a reagir com atos de extrema homofobia. Um dos casos foi o do ativista David Kato – uma espécie de Harvey Milk (emblemático militante dos direitos LGBT) local – que depois de ver seu retrato estampado, foi morto a marteladas. Sua circulação está enterrada, porém a reverberação de suas consequências, não. No mundo, hoje, ainda existe cerca de 70 países que consideram a homossexualidade ilegal, em alguns casos, passível de pena de morte.

Em cena, Dembe (Danilo Ferreira) e Sam (Marcos Guian) se amam. Dembe é negro, acabou de perder o pai e mora com os irmãos: Joe (André Luiz Miranda) e Wummie (Indira Nascimento). Dembe mora num lugar onde a homossexualidade é um crime… passível de punição divina. Mas assim como muitos, Dembe não consegue ter fé no desconhecido.  E não se sente obrigado a acreditar no silêncio e no vazio. Sim, a peça além dos temas citados, ainda traz questões sobre a presença e veracidade de Deus. Que ser é esse? É ele quem julga o próximo, ou nós?

Sam é negro, mas a pele pode ser considerada clara demais. Tal fato o “classifica” como branco. Ou seja, é nós mesmos que continuamos apartando semelhantes e fomentando a segregação. E o pior, fazemos isso com pessoas da nossa “comunidade”. É um dilema também dentro do movimento negro, qual o limite desse lugar da negritude? Sam é médico, irá partir. Dembe não sabe se poderá estudar ou só trabalhará. Ambos precisam fugir desses lugares opressores que oprimem dentro e fora do indivíduo, seja uma religião, um familiar, a sociedade local, nossa capacidade de nos assumirmos como somos.

O ápice da história de Urch está dado de início, sabemos que não tem como acabar bem uma história que joga luzes em tantos assuntos delicados e de difícil digestão para alguns. Porém a direção de Mascarenhas torna a encenação ágil, simpática e nada no texto traduzido por Diego Teza é desperdiçado na boca do atores: um elenco excelente, pinçado de milhares de candidatos. A seleção inicial se deu com 5 mil inscritos.

Se temos em Joe uma espécie de Jair Bolsonaro bizarro, retratação essa que só causa horror e repúdio em pessoas cientes de que esses discursos extremistas, só servem para suplantar a solidariedade e a empatia pelo outro, e na retratação de Wummie que o público é pego de forma irreversível. Seu discurso mistura de forma bem tênue os limites da religião, do amor e do conceito de família, o certo e o errado é alicerçado dentro dela a partir de pré-conceitos a ela ensinado. Wummie, assim como outras pessoas, não foi ensinada a pensar por si mesma. Tem esse choque interno quando vê sua família ameaçada pela intolerância e extremismo. Nesse momento ela fraqueja, e como ela fraquejamos todos. O trabalho de Indira Nascimento é pontual e nos arrebata. O elenco todo é uniforme e preciso em suas falas e intenções. Assim como suas colegas de elenco, os homens também dominam suas falas e se posicionam, não nos deixando desatentos.

Infelizmente os personagens da peça, vivem numa sociedade onde é mais importante pastores do que médicos. Onde o trabalho enobrece o homem, mesmo que o aniquile. Onde é privilegiado a fofoca, o mau dito e a propagação de informações depreciativas, como se não bastasse alimentarmos dentro de nós nossas fobias, ainda temos que divulgá-las. Onde a violência é melhor que o diálogo (uma das falas da peça: “É necessário quebrar o pulso, do menino que desmunheca“). Onde levantar falsos testemunhos e jogar as primeiras pedras é lei. A lei da sobrevivência, como é pontuado na personagem  Mama (Heloisa Jorge). Se os inocentes  – Naome (Marcella Gobatti) – serão culpabilizados e terão suas sensibilidades atravessadas pela brutalidade dos que detêm algum tipo de poder, a quem recorrer para que lutemos por um mundo mais justo, igualitário e agregador?

Os diálogos da peça são ágeis, precisos, engraçados, violentos e sutilmente maliciosos, o que é muito bem vindo, obrigado. A direção de Mascarenhas é limpa e certeira e acrescido de elementos como o figurino (Tereza Nabuco) e a trilha sonora original (Wladimir Pinheiro) – por exemplo – oferece ao público um produto bem acabado e atual. Não há como sair indiferente da platéia do Teatro Poeira. Guerreamos com nossos valores, assim como vemos Demme se debater. Estamos todos na arena, a mercê de orações que nos salvem do fim trágico. A deriva de nossas emoções e do julgamento alheio. Alguns se salvarão, outros infelizmente, continuarão a morrer… por nós.

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Rodolfo Lima

Grazzi Ellas

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A causa trans (abreviação para as singularidades de travestis e transexuais) está com cadeira cativa nas artes cênicas (pensemos no palco de teatro, em festivais, mostras e silimares e etc, não em boates – por exemplo), lugar que sempre frequentou, porém sem tanto protagonismo. O jogo está virando. Se como objeto de cena e de estudos fomentou famigerados resultados, é quando elas se colocam na linha de frente e voltam os olhos para si mesmas que a teatralidade (o certo aqui seria performatividade, mas vou trabalhar com o primeiro conceito, pois me é mais familiar) se reveste de outras máscaras, bem complexas, convenhamos. Como se potencializando suas memórias pudessem fazer valer sua existência. Faz, é inevitável e bem vindo.

Infelizmente a realidade de travestis e transexuais no Brasil está colado com uma realidade vexatória, apartada, de exclusão e repúdio, ao mesmo tempo que causa atração (tudo pontuado com muita delicadeza e suavidade, quase sem querer) e curiosidade. É uma cultura nacional bizarra e tacanha, calcada na hipocrisia.

Se em Julho, durante a edição do PLURAL – Festival da Diversidade de Araçatuba, a cidade conheceu Renata Carvalho, protagonista de “O Evangelho Segundo Jesus – Rainha do Céu”, agora durante o FESTARA – Festival de Teatro de Araçatuba é a vez de Melissa Campus, da Cia. Divina Decadência. Mulher transexual, moradora de Londrina (PR), que sob a direção de Luan Almeida Sales (com orientação de Aguinaldo Moreira de Souza), protagoniza Grazzi Ellas.

A Grazzi em questão é uma das vítimas da transfobia – cegueira que extermina rotineiramente e coloca o Brasil no topo do ranking da intolerância. Os tempos são obscuros e de pouco diálogo, mas Melissa e Luan pretendem que a memória das que se foram não se apaguem. E é isso que Melissa faz, contar a história de muitas Grazzis, na própria pele.

Não é possível montar um espetáculo sem que se fale um pouco de sim mesmos, dos próprios horrores, fantasmas e desejos (Ariane Mnouchkine). É sobre os horrores que Melissa se debruça, e nos leva juntos. Num arrebatamento que nos choca pela crueza da situação. “Vida real, baby“, ela poderia dizer no final. Mas é educada e nos salva desse constrangimento. Cada qual que se vire com seus próprios pré-conceitos.

O trabalho é resultado da conclusão de gradução de Luan. A violência ao corpo trans e uma protagonista disposta a entrega é o que a direção tem nas mãos. O hibridismo entre entre teatro e performance contamina o resultado final e pode confundir a percepção do todo. Do ponto de vista teatral, a mise en scène é criado sem grandes aparatos ou novidades. Uma cadeira, velas, águas, flores, terra… o público ao redor. Cabe ao expectador conectar esses signos. Do ponto de vista da performance é quando vemos a carne de Melissa avermelhar que a ação se potencializa. O jogo proposto entre atriz e direção é aberto, o que possibilita rearranjos na hora da cena. Quantas camadas Melissa revelará hoje? Assim como “fazer pista” (se prostituir), ir para o centro da roda diante de uma platéia (oficial), também é um mergulho no escuro.

Talvez seja desonesto ignorar o “teatrinho” engraçado e leve que Melissa encena com alguém da platéia, que do ponto de vista da dramaturgia é uma ponta solta e sem muita conexão com o todo – não alcancei, confesso – mas que funciona para ganhar a atenção do público. Que diante da agressividade e da gravidade da situação da peça como um todo, nos emudece. Ver Melissa toda suja se debatendo pela sua vida é uma imagem inesquecível.

Diante do desnudamento da atriz – e não digo só físico, mas da necessidade, da coragem e da militância, a dramaturgia inicial desaparece. É frágil a primeira metade da peça, embora a presença de Melissa se imponha com propriedade em seu terrero-palco-rua-cova. O discurso entre 1° e 3° pessoa, pode confundir. Carecia de uma “limpeza”. Na “confusão”, a encenação perde força, pois tudo está no corpo alterado e vilipendiado que nos rouba a atenção.

Esse misto de boneca-Eva-Cicciolina-Melissa-Grazzi vai sendo destroçado a cada fio de cabelo que a atriz perde. E sim, é uma performance para se ver de perto. O olho no olho com a platéia é como um pedido de aceitação, não de desculpas, mas de permanência. Não no sentido católico e culposo e sim no que tange reconhecer o outro como ser humano, igual a si mesmo.

Nascida em 1976, Melissa já passou da média de mortalidade de outras como ela. Sobrevivente todos somos, mas são pessoas como ela que carrega o rótulo no peito. Melissa faz parte de uma “leva” de atrizes trans que estão ganhando força no cenário das artes cênicas, que conta com nomes (recentes, veja bem) como Renata Carvalho, Wallace Ruy, Leona Jhovs, Glamour Garcia (SP), Dandara Vital (RJ), Maite Schneider e Leonarda Glück (PR) e Verónika Valenttino (CE). Mas a história é sacal e invisibiliza. Leonarda e Maite tem uma longa trajetória no cenário curitibano, por exemplo. Assim como as ações de Melissa. Mas quem “aqui”sabe disso?

Grazzi Ellas é potente e honesto. A crueza da cena faz falta no cenário teatral onde tudo é imagem, poses e pretensões. É tocante a forma como as pessoas se disponibilizam a tocar a atriz no final. Lembrei-me na hora de sua irmã-jesus-Renata e do sentimento de solidariedade e compaixão que inunda o espaço cênico. Aquele momento que constatamos que a arte salva (só por hoje) e pode transformar.

#obrigatório

Rodolfo Lima

Crédito da foto: João TK

A peça integrou a programação do FESTARA 2017 (Festival de Teatro de Araçatuba), com apresentações dias 28 e 29/11 as 22h30.

 

Aos teus olhos

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O que Carolina Jabor propõe com seu novo filme não é simplesmente falar sobre um possível caso de pedofilia. E sim propor um jogo com o espectador, onde a verdade está no olhar de quem vê, recebe a informação, ou a manipula ao seu gosto. Ou seja… um campo minado e impossível de ser mapeado que se chama: subjetividade. Um carinho é ofensivo a partir de que ponto de vista? De que critério? Somos convidados a julgar o outro. Simples assim.

O filme em si, traz a história de Rubens (Daniel Oliveira) um carismático e atraente professor de natação, que leva uma vida mediana, trabalha, namora, faz comentários supostamente suspeitos – por serem dúbios – sobre a sensualidade de alunas do colega de profissão (Gustavo Falcão) no banheiro, entre um cigarro e uma descansada.

Um de seus alunos é Alex (Luiz Felipe Mello), um garoto introvertido que vive entre os pais separados e uma suposta ausência de compreensão, já que o pai é distante, mas sabe cobrar que o filho seja um vitorioso, no caso, um campeão na competição do clube. O filho perde o primeiro lugar. Mas antes dessa derrota, o professor já havia percebido o menino estranho e resolver acolhe-lo, ser carinhoso. O imbróglio está estabelecido de forma a inquietar o espectador, pois não se ouve o que o menino tem a dizer – detalhe importante – apenas o que seus pais dizem e sugerem. Ou seja… o professor vai ser acusado de abusar do garoto, pois segundo a mãe, o professor deu um beijo na boca do filho. A mãe se enfurece, o pai age por impulso, a diretora do clube não sabe como agir, o colega de profissão julga e faz suas próprias associações, o professor se desespera, a comunidade da academia reage, a situação fica descontrolada. Tudo claro, na arena midiática e desleal que se tornou as redes sociais.

É esse o clima de Aos teus olhos que tem roteiro de Lucas Paraizo, das ótimas séries: “Justiça” e “Sob pressão”, que já questionavam de maneira bastante interessante questões como senso de justiça e ética, bem como o “lugar” das certezas. E supervisão de Sergio Moura, que tem no currículo obras como “Amores Roubados” – uma das melhores séries nacionais dos últimos tempo. O filme teve première no Festival do Rio 2017, passou pelo 25° Festival Mix Brasil e tem previsão de estreia até meados de março de 2018.

Inspirado numa peça de teatro: O princípio de Arquimedes, do espanhol Josep Maria Miró a história traz acoplada no polêmico assunto, temas como o machismo, os julgamentos a que estamos sujeitos, a pedofilia como uma doença imperdoável (acho tudo triste, de agressor a agredido) e as consequências para uma criança dos pais separados. Tudo passível de serem julgados e no caso dos pais, por exemplo, o pai é sempre um vilão a ser criado. Atente-se. A peça foi publicada em 2015 pela editora Cobogó, com tradução de Luis Arthur Nunes. E também é de 2015 a adaptação espanhola, filmada por Ventura Pons, e que se chamou: El virus de la por.

A ideia primordial de Aos teus olhos é que você julgue. Que faça uma aposta, que tome partido. Obviamente tudo isso é feito a partir da própria subjetividade. Não consegui culpar o professor. Primeiro porque ele não me pareceu culpado. Segundo porque me ative numa questão, que para mim é essencial, que é a ausência do pai, e consequentemente de afeto e de parâmetros do local nebuloso entre o afeto e o abuso. Uma criança que não tem o referencial do pai, do masculino, do corpo do outro, como que é se expressa?

Obviamente fui um pequeno Alex, talvez minha última memória – corporal e imagética, veja bem –  seja deu deitado com meu pai vendo carnaval na casa da minha tia, debaixo das cobertas, e eu lembro de como achei aquela perna peluda quente. Não, ele não estava abusando de mim. O impacto da lembrança e que eu não lembro do rosto dele, mas sim do toque da pele dele na minha. Isso faz no mínimo 30 anos.

Me expus, para endossar minha opinião para o fato do garoto talvez não conseguir diferenciar o beijo no rosto, como uma expressão franca e acolhedora de carinho e respeito. Eu, criado pela mãe e rodeados de mulheres, cresci sem o referencial masculino. Corpo(s) esse que só pude ter acesso quando adulto, comecei a sair com outros homens. Ou seja… com o pai eu teria tido outro caminho no que tange a sexualidade? Expressar meus desejos num corpo similar ao meu, era uma busca indireta para um acolhimento paternal? Isso nunca foi uma fantasma. Depois dos 20 anos aprendi que não teria mais um pai – não adiantava criar tal expectativa – e que meu tesão provavelmente estaria em outro locais, não nessa busca pelo pai.

Foi nessas coisas que me peguei pensando no final da sessão. Nesse garoto – como tantos outros – que crescem com um pai ausente, ou embrutecido, ou mesmo grosseiro que não entende que negar sua presença é uma forma de violar a subjetividade do outro, muito mais do que um suposto beijo, ou um toque. Vide o “carnaval” que se tornou a estória (assim mesmo, associando ao que se conta, não aos fatos em si) com o performer Wagner Schwartz e sua performance (La Betê) inspirada em obra de Lygia Clark (da série Bichos, de 1960), onde uma criança, acompanhada pela mãe e num lugar público e rodeado de testemunhas, toca o pé do artista que se encontrava nu, no chão.

O filme é um ótimo exemplar para que se entenda como os discursos são construídos, e de tabela de quais elementos cada indivíduo vai se apoiando para fazer valer suas impressões. Aos teus olhos inquieta, entristece e incita o público a se posicionar. Faz com que você  desencoste da poltrona do cinema, num impeto de reação. Um grande feito para filmes nacionais mais preocupados em entreter e seduzir a platéia, ou mesmo chocá-la, sem fazê-la pensar.

Rodolfo Lima

 

Me chame pelo seu nome

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O filme tem estreia marcada para 18 de janeiro de 2018 e promete causar certo burburinho nos cinemas tupiniquins. Não tanto pela história em si, quero dizer, pelo que é mostrado, e sim pelo que é induzido: a dimensão do desejo e consequentemente o afeto e a forma como lidar com o que resta. Uma dinâmica sempre dolorosa e delicada quando se resta só diante de uma história, uma experiência emocional importante.

Em alguns lugares se lê que “Call me by your name” (Me chame pelo seu nome) é o próximo “O segredo de Brokeback Mountain“, discordo. O drama dos cowboys acontece numa aridez espacial e sentimental, ambos tem a mesma idade e realidade, e o afeto acontece meio que sem querer, como se eles fossem pequenos diante da grandiosidade do sentimento que os arrebata. Mesmo a efetivação do sexo entre os personagens, é visto como o encontro de dois homens. No longa em questão, vemos um menino e um homem. Em “Me chame pelo seu nome” a dupla em questão tem idades diferentes, o lugar em que estão é ensolarado e charmoso, e de certa forma estão protegidos pelos que os rodeiam. Além claro, do principal: a diferença de idade. Sim, ela faz diferença, como atestamos no final, com o diálogo arrebatador entre pai e filho – as mais de duas horas de projeção vale por essa cena, creia.

Adaptado do livro do egípcio André Aciman, lançado em 2007, e que também chega as livrarias ano que vem, o roteiro conta a história de Elio (Timothée Chalamet) um jovem de 17 anos que empresta seu quarto para Oliver (Armie Hammer), que passará seis semanas em função da amizade com o pai, a quem auxiliará numa pesquisa acadêmica. A história se passa nos anos 80, na costa da Itália, com paisagens charmosas e aconchegantes. Num primeiro momento parece que tudo é feito para seduzir, o que não ocorre “de cara”.

A sensação é de que há dois filmes. Que se interligam, claro, porém fazem a diferença se pensarmos separados. Na primeira 1 hora vemos a amizade de Elio e Oliver surgir, uma certa malicia no ar, porém de forma muito velada. A direção de Lucca Gadagnino dá toques poderosos de homoerotismo em seu longa. Muito dorso, muitos enquadramentos generosos dos corpos dos atores, sem que eles estejam nus. O fetiche também se mostra presente: vide para quem é fã de pés. Porém a sensação que se tem, é que tudo é muito velado e apático, embora o clima do local em que vivam esbocem o contrário. Se Elio se mostra ousado e impetuoso, Oliver se mostra indiferente, mas isso não o exime de ser atencioso com o garoto. Diria (correndo o risco de ser preconceituoso) que o filme tem um olhar “heteronormativo” para as questões gays.

Na virada da segunda metade do filme, com a concretização do desejo deles, as opções da direção se mostram sensíveis e certeiras e seduz a platéia de forma charmosa e delicada. Temos a diferença de idade, da efemeridade da situação, do risco de serem pegos, do charme do que vão viver. E o principal: da entrega a que estão submetidos. Lucca já havia dirigido outro filme (100 escovadas antes de dormir) onde a sexualidade aflorava num corpo jovem e claro, modificava a personagem e os que a rodeavam.

O filme é sobre isso, sobre essa entrega, sobre viver um momento, sobre não se intimidar diante do risco e assim crescer internamente com o vivido. O sexo é a cereja do bolo. Metaforizada de forma poderosa na cena do pêssego. Há ali, erotismo, poesia e beleza, não me lembro de ter visto outra cena onde o esperma tenha tanto protagonismo. Repare na forma como ele surge. Esse momento por sinal não é exatamente como é narrado no livro, mas o sugerido é poderoso e combina com o “clima charmoso” estabelecido na película.

Vou me ater – para não me prolongar mais – nas questões que envolver o personagem mais velho. Que simplesmente “pira” com o corpo jovem de Elio. Essa “virada” tão abrupta no filme parece over. Mas como comentou um amigo no final da projeção: talvez no livro não seja assim. É, esperamos que não.

Se Elio se empondera dessa possibilidade sexual, já que o outro o infla de segurança e masculinidade, Oliver se fragiliza e parece vulnerável demais. Além claro de questões relacionadas a diferença de idade, pouco se sabe sobre a sua sexualidade. Mas ver o outro refém do órgão genital alheio, permanece uma situação emblemática e poderosa, e claro, incômoda. Grosseiramente poderia dizer que é a história de dois homens heterossexuais que se permitem. E a beleza é justamente a capacidade da entrega. Ninguém resiste a personagens rendidos pelas próprias emoções.

No site http://www.guiagaysaopaulo.com.br há uma matéria que data de 09 de agosto de 2017, onde o diretor revela muito de como “seu olhar” impregnou a história de Elio e Oliver: “Eu não estava interessado em tudo. O tom seria muito diferente do que eu estava procurando. Eu queria que o público dependesse completamente da viagem emocional dessas pessoas e sentisse o primeiro amor. (em depoimento ao The Hollywood Reporter) Eu não queria que a platéia visse qualquer diferença ou discriminação em relação a esses personagens. Era importante para mim criar uma universalidade poderosa, porque toda a ideia do filme é que a outra pessoa faz você linda, ilumina você – o eleva. O outro é muitas vezes confrontado com a sensação, o medo, ou a sensação de medo, mas o acolhimento do outro é uma coisa fantástica a fazer, particularmente neste momento histórico“.

“Me chame pelo seu nome” tem que ser visto e digerido. Pela ótica de outro diretor talvez propusesse um olhar mais ousado e quente para esse encontro. E nós, público gay saturado de tanta pornografia virtual e sedento da concretização dos atos, somos obrigado a educar o olhar e ser generoso com as questões alheias. Esse para mim é o maior desafio que o filme propõe para o público gay – por exemplo – a possibilidade de se reconectar com a sensação de poder viver uma emoção pura e transformadora.

Rodolfo Lima

O som e a sílaba

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Você sabe qual a condição do cantor lírico no Brasil?” essa é uma das questões que vem a tona na montagem de “O som e a sílaba”, que parte de um pressuposto clássico: o encontro entre mentor e pupilo. No caso Sarah (Alessandra Maestrini) e Leonor (Mirna Rubim), a primeira uma jovem “diferente”, talentosa e sedenta de oportunidades e novidades, a segunda uma profissional famosa com um longo histórico emocional e artístico. É o embate entre essas singularidades – temperada com as questões sobre arte e vocação – a cereja do bolo da montagem.

Com texto e direção de Miguel Falabella, a montagem traz momentos delicados e sutis que fazem toda a diferença. Pois o público se encanta com Sarah/Alessandra e junto com ela vai vencendo a rigidez oferecida pela personagem de Leonor/Mirna. Digo isso, pois a realidade foi ficcionalizada no palco já que Mirna é professora de Alessandra, que estuda canto lírico desde a juventude.

O autismo (Síndrome de Asperger) de Sarah faz com que a realidade nos seja relatada por outros ângulos. A composição de Alessandra é bem delineada e causa empatia, e a experiência da atriz é um trunfo, pois, a vontade, a atriz brilha em cena. Mirna soa mais sisuda e automática nas marcações propostas peça direção. Porém, ambas são cantoras talentosas, e em cena  são verossímeis, cúmplice. Para quem não tem o hábito de frequentar óperas, a projeção vocal das artistas impressiona. O que levou a produção inserir um áudio da direção afirmando que as atrizes não dublam, cantam de verdade.

A dramaturgia é tocante ao tratar da doença da protagonista, revela com propriedade e clareza as questões que envolvem o diagnóstico. O mais bonito da montagem é envolver a questão clínica com as questões do universo artístico de um grande intérprete. Leonor quer que Sarah preencha os silêncios com as questões das personagens que canta, em especial, uma Julieta. Essa observação é a mais importante feita pela professora que ensina a importância do silêncio e as metáforas poderosa desse lugar assustador para alguns. É tocante e emblemática a visita de Sarah a uma feira de rua e a poesia que à na revelação desse momento.

Contidas, as piadas do texto, são digeridas entre momentos poéticos e dramáticos. Falabella, conhecido por diversas produções cômicas, enfatiza as habilidades de Sarah ressaltando suas qualidades como cantora lírica. A doença então é colocada em cena, como uma característica atípica da personagem e não como algo limitador e excludente. Dona de si, a personagem só quer uma oportunidade de poder dar vazão ao que considera importante. “Não estou pedindo que você me ame. Apenas que me estenda a mão“.

No final, sabemos que muitas pessoas precisam dessa “mão amiga” – uma mão lava a outra em muitos aspectos, bem sabemos – de alguém que acredite em nós e nos ajude a se estruturar. É essa simbologia a potencia da montagem, que do cenário (Zezinho Santos e Turíbio Santos) aos figurinos (Ligia Rocha e Marco Pacheco) esboça cuidado e bom gosto.

Sarah perdeu o pai, quando criança – “Triste lembrar de tantas músicas e não lembrar da risada do meu pai” – sempre foi vista pela mãe como estranha, mora com o irmão e a cunhada, que claro… vê nela um estorvo. É quando Sarah canta “On Mio Babbino Caro” que a emoção preenche o palco, e todos nós, assim como a personagem, precisamos ser perdoados.

Sarah aprende a organizar suas questões  – do seu modo, claro – e seu talento; Leonor se abre a aluna e é renovada com a sede de vida e talento da aluna; O público é agraciado com as questões sobre arte e vida. A entrega do artista e a forma como tudo se mistura de forma produtiva e ambígua.

Tudo em “O som a sílaba” é uma surpresa. Do equilíbrio entre momentos cômicos e dramáticos; o talento das artistas; a personalidade da autista que mescla estranheza com beleza; o teatro e a ópera mescladas de forma certeira e produtiva; além da emoção e a empatia que o público recebe.

Não percam a montagem. A peça oferece momentos de empatia importante nos dias de hoje. A alteridade, questionada por alguns, é celebrada de forma poderosa e tocante.

Rodolfo Lima

Obs: a peça segue em cartaz no teatro Porto Seguro até 26 de novembro

https://www.teatroportoseguro.com.br/programacao/pecas/o-som-e-a-silaba.html

 

A Invenção do Nordeste

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Foi em março de 2008 durante o Festival de Curitiba que esbarrei em dois nordestinos que mudaria as minhas referências do que vem a ser o tal “nordeste” do País. Ela baiana (Ceci Alves), ele cearense (Magela Lima), ambos jornalistas. A partir desse encontro aprendi que nem tudo “é coisa de baiano” como havia sido culturalmente – e erroneamente – educado. A parte o preconceito da expressão, começava a reciclagem das minhas referências.

Algum tempo depois outro casal “lá de cima” entraria na minha vida para bagunçar as tais referências. Ele pernambucano (Rodrigo Dourado), ela potiguar (Weynna Dória), ambos eu encontrei no ambiente acadêmico. Com elas morei, em suas casas, em suas cidades, em suas realidades. Com eles aprontei pelas ruas, debati muitas questões artísticas, me hospedei em seus lares, interagi com o universo singular e provocante dessas minhas “amigas”. O nordeste se reconfigurou para mim. Fui novamente educado, agora pelos amigos.

Aprendi com eles que a tese de Euclides da Cunha poderia estar errada – “O nordestino é antes de tudo um forte” – porque independente da realidade que tais amigos viviam, eles são como eu, apenas tinham outras referências, outro linguajar, outro paladar, outras manias, outra forma de decodificar a vida. Ou seja, eram passíveis de fragilidades. O óbvio, né?Meu Deus… como eles me foram necessários e me fazem falta. Eu, um “paulista azedo” que sairia da casa da mãe pela primeira vez, justamente para mergulhar em Salvador, um “País” a parte, convenhamos. Parte do amadurecimento da minha história (emocional e artística), por sinal, começaria na Bahia.

Não poderia deixar de conferir a montagem do Grupo Carmin para o livro (A invenção do Nordeste e outras artes) de Durval Muniz de Albuquerque Jr. Ambos questionam a tal “invenção do Nordeste”. A primeira vez que li sobre o autor, foi na tese do amigo cearense. Se uma leitura pode soar sisuda e maçante para alguns, a montagem do grupo “alivia a barra” e deglute o livro. Com pitadas de deboche provoca o público a repensar o seu entendimento do que vem a ser qualquer estado acima do Espirito Santo. Não é um tarefa fácil, mas com leveza o grupo deu um briefing do quanto a questão é inflamada.

Em cena, Robson  e Mateus, respectivamente os atores Robson Medeiros e Mateus Cardoso – duelam por uma vaga de “nordestino” numa produção artística. Um tem “cara” de boliviano o outro de “paulista azedo”. Estereótipos na arena, o jogo começa. Afinal, “não precisa ser, basta parecer“. O “juiz” desse embate é um “diretor nordestino” escolhido para filtrar o mais nordestino deles. Ou seja… camadas ai de questões que vão sendo descamadas cena a cena. Precisa se achar uma voz, um corpo, uma “verdade nordestina”. Ela existe?

O Brasil tem 9 estados  (e 3.000 municípios) que compõem o que vem a ser o tal Nordeste do País. Todos eles são lugares míticos  – recheados de clichês – e culturas específicas, que fazem a fama dos lugares, onde todos “deitam e rola”, convenhamos. Cospem no prato que comem, eis a verdade. Quem está de dentro despreza o olhar do ângulo Sul/Sudeste e quem é de fora pretensiosamente se assegura de morar num lugar, num eixo, onde “tudo acontece”. Outro mito, culturalmente falando. Sabemos pouco um dos outros. Eis a trágica verdade. A relação é tensa, mas o olhar do grupo por vezes parece “fofa”. O apaziguamento e a poética são os recursos cênicos utilizados.

Há duas vertentes críticas na peça. Primeiro a que recria os mitos do universo nordestino e a segunda a regionalista, que coloca esses mesmos “abastados” um contra o outro. Um recorte estabelecido que define o que é regionalismo a partir de um único prisma pode ser visto no programa The Voice, por exemplo, Carlinhos Brown e Claudia Leite compunha metade da banca de jurados. O programa trocou uma cantora por outra. Sai Leite entra Ivete Sangalo.(Não vou me ater na guerra estabelecida pelo teor artístico de ambas).Mas quem tem coragem de dizer: “Tchau Ivete?

Em dado momento, parece que a questão em cena fica entre Natal e Pernambuco. O “paulista azedo” (Mateus Cardoso) é um achincalhamento necessário para pontuar a possível raiz de tantos bordões difamatórios aos nordestinos, porém e de Pernambuco que vem um dos grandes cultuadores da cultura nordestina: Gilberto Freyre. A Bahia – por exemplo – é ignorada, embora seu território seja declaradamente uma fronteira, onde “tudo pra cima é Norte e tudo pra baixo é Sul“. Para citar outro estado, além do Ceará, posto na mesa.

A peça tem duração de 60 minutos, mas os temas e os personagens dariam por si só outra peça e outros olhares para a questão: seja os personagens (Chicó, de “Auto da Compadecida”, por exemplo) do paraibano Ariano Suassuna; o casal de justiceiro Lampião (pernambucano) e Maria Bonita (baiana); a idoneidade religiosa de Padre Cicero (cearense); a política feita por Renan Calheiros (alagoense) e a Família Sarney (maranhense); a máscara de palhaço de Tiririca(cearense), e a diferença entre cangaço e sertão.

A peça enfatiza, foi no Ceará que começou um dos processos separatistas que talvez, tenha culminado em tanta xenofobia nacional, quando se isolou parte dos flagelados cearenses para que os mesmo não chegassem ao litoral. Isso em 1915, dezoito anos antes do processo de horror do nazismo alemão. Ou seja, o nordeste é algoz de si mesmo. O IBGE oficializou o Nordeste apenas em 1942. Foi esse o ponto inicial do processo da cultura separatista? Há muito dos interesses locais, que os estados abaixo da Bahia não tem um conhecimento aprofundado. Gosto daquela máxima: “Há muitos Brasis dentro Brasil”. A peça joga luz nesse imbróglio.

Para entender o Nordeste é preciso entender o cangaço“, e quem explica?

O que você acha que é um cangaceiro?” O clima na platéia fica suspenso.

“Do que é feito o DNA nordestino?” Qual deles? Quis perguntar.

Um dos senões da montagem são os temas que ficaram de fora, como a questão racial. (Se o olhar fosse baiano, “vamos combinar” que o assunto seria condição sine qua non). O mito do cabra macho é esboçado em cena e é tudo colocado na conta de burgueses – como Freyre – que estudaram na Europa e trouxeram um “jeito afrescalhado” de ser para os nativos. Outro assunto bastante polêmico e que tem um tratamento simbólico – e porque não deficitário – é o Carnaval. Qualquer pessoa sabe que a festa “de lá” não é a mesma “de cá”.

Na busca infinita desse corpo nordestino – a peça não dá vai te dar a resposta, sim fiz um spoiler – a mitificação dele e sua subutilização é motivo de crítica e arranca risadas do público. Afinal, os atores nordestino são chamados para viverem personagens regionalistas em suas fases iniciais, de novelas e filmes, por exemplo, e depois substituídos pelos famigerados atores globais. como o ator Cauã Reymond. Quem pode dar mais mídia do que ele? Aprovado para viver na primeira fase, um personagem nordestino, Robson questiona: “Mas quem vai fazer ele na segunda fase? O Antonio Fagundes ou o Tony Ramos? Para que eu possa me preparar de acordo com o ator“. A ironia é sútil e certeira, ambos tem registros similares e não são nordestinos. Não há atores nordestinos nessa faixa etária?

O fato de se ironizarem é um salvo conduto para o grupo. Que debocham e fazem troça de muitos clichês nacionais, sem deixar de evidenciar os sub empregos que seus conterrâneos ocuparam na capital, bem como de métodos artísticos (referência a preparadora de atores Fátima Toledo) que supostamente alcançam o tal corpo nordestino.

Eu que tive a minha vida modificada e estimulada, por muito amigos nordestinos – não adentrei a Paraíba, por falta de tempo, não de amigo (Astier Basílio) – e pude contar com a influência irreversível de três artistas baianos (Saulo Moreira, João Pedro Matos e Marcelo Sousa Brito), sinto muita falta de não poder circular mais por tais regiões. De ser alvo de chacota – num preconceito reverso – por carregar uma região nas costas. Quem botou essa região na gente?

Parodiando a questão Shakesperiana o grupo afirma: a questão é “ser i não ser” e não mais “ser ou não ser“. Alguém dúvida?

Rodolfo Lima

 

Obs: a peça fica em cartaz até 26 de novembro no SESC Belenzinho, de quinta a sábado, 21h30 e domingo, 18h30. Mais sobre o grupo: http://www.grupocarmin.com