Madame Satã

Madame-Satã-Grupo-dos-Dez

Os personagens do universo vivenciado por Madame Satã, seus pares na vida, na luta, na cama e na guerrilha, se misturam com facilidade pelos arredores da Caixa Cultural São Paulo que fica na Praça da Sé, região essa que ainda é insegura e deixa seus passantes desconfiados a qualquer tipo de aproximação. Portanto, o inicio da peça com os personagens na calçada, interagindo com os transeuntes, sambando e batucando é um convite interessante e tem força, caso a encenação aproveitasse com mais propriedade tal possibilidade. Entendemos que é tudo teatro, mas quando a travesti é assassinada, o público reage com espanto. O que choca? O susto, a morte, o inesperado, a transfobia, o racismo? Não sabemos ao certo.

A montagem do Grupo dos Dez, abre com a atriz Jhulia Santos clamando que o público perceba a transfobia diária: “uma travesti morre com três facadas na frente de vocês e vocês não fazem nada? Não vão fazer nada? Eu sou travesti, você não está vendo. Somos invisíveis até que morremos”.

A montagem resvala sobre vários invisíveis e a figura de Madame Satã é um ícone, o norteador. Um “farol” a iluminar os excluídos. Negros, presidiários, travestis, marginais, pixadores, prostitutas e cafetinas ocupam o palco a nos lembrar de todas as nossas fobias e preconceitos diários. É emblemático e pungente o canto de socorro que o elenco entoa. A saber, a direção musical, responsabilidade de Bia Nogueira é a melhor parte do trabalho. Com 17 músicas compostas para o trabalho, a trilha sonora é o “achado” e guia de toda a encenação.

A direção de Rodrigo Jerônimo, com a supervisão de João das Neves é falha e não alcança a mesma poesia que as canções. A coreografia é frouxa – uma música como a que referência “a pomba gira de todos nós” merecia um conjunto de corpos mais atuante – e o palco da Caixa parece exprimir o elenco. Algo impede que eles ganhem força, os corpos parecem tímidos naquele espaço, e isso não é para metaforizar a situação dos párias retratados pela montagem. E sim por uma fragilidade da direção. A saber o elenco das apresentações paulista conta com muitas substituições e isso pode ter atrapalhado a fluência em alguns momentos.

Madame Satã apresenta problemas como encenação, mas cativa. Rapidamente criamos empatia com os personagens, as cantoras, o canto, o universo do candomblé retratado e nossa percepção e recheada de vermelho e preto, as cores dos exús e que simbolicamente – e infelizmente – também metaforiza a morte e o racismo.

Fragmentar personagem é sempre um risco, e fazer isso com o principal praticamente um tiro no pé. Pois ao dar cara as diversas facetas, impede que o público crie empatia pelo todo, e/ou pior, que tenha “seu” personagem preferido. No caso de Madame Satã, os atores (Denilson Tourinho, Evandro Nunes e Rodrigo Santos) que dividem o personagem não vão além do básico e não tem suas particularidades como artista explorada, se tornam ilustrativos. De certa forma a visão da direção não avança e se rende ao apelos da parte musical, mas o correto seria que elas se complementassem e não ficasse uma aquém da outra.

João Francisco dos Santos (Madame Satã) é o estopim para um teatro de protesto. Madame Satã tem um elenco praticamente negro, tendo a cultura afro reverenciada que emociona pois os integrantes trazem na pele as marcas do preconceito que emana.  João Francisco a primeira travesti sambista, nos lembra que quem mata é Deus, o homem só atira. João como muitas crianças, são fruto da miséria e da falta de oportunidade, de uma mãe com o coração fraturado – “aqui até amor de mãe é arruinado” –  sacrificando parte de si, para salvar o todo. Madame Satã é o Robin Hood das minorias.

A homofobia está explicitada de forma clara e objetiva em palavras. Pena que a peça não dá conta de teatralizar os afetos gays do personagem central e seus cúmplices. Há um beijo gay na peça, mas ele é tímido e a depender do seu lugar na platéia, você perde o momento. A montagem carece dessa força de causar impacto, o que é uma pena, pois todos os elementos estão ali. Então é como se víssemos uma força desperdiçada.

Um trabalho como Madame Satã e um elenco como o do Grupo dos Dez, estar num palco privilegiado – como lembra Bia Nogueira, no final da peça – é um feito. Aproveitem que é grátis e prestigiem. As questões sociais e raciais que a peça aborda ainda são um problema latente, agonizando a espera de respostas. E a arte, por minutos nós iguala e nos conforta.

Rodolfo Lima

Limonada

18814383_10212767139762903_6210335320545612609_n

O teatro é uma arte complexa, por mais que pareça simples e automática. Não é. Tolos os que se enveredam pelos encantos dúbios do palco e não percebem o terreno que estão pisando e nem se questionam o que estão oferecendo a essa arte tão efêmera e subjetiva. João Hannuch parece fazer parte desse grupo de entusiastas da arte cênica, que se joga em cena, sem a menor noção do que está fazendo. É uma pena. E basta os primeiros minutos de sua “Limonada” ficar disponível ao público, para que esse perceba como pode azedar uma boa intenção.

Na história, escrita e protagonizada por João, ele é um aniversariante – não sabemos sua idade, mas ele se veste como uma criança confusa – que recebe cinco ex namorados na sua festa, comemoração essa forjada pelo próprio. Portanto seu espanto em receber os ex, não faz sentido. Começa ai a fragilidade da dramaturgia, que além de não se sustentar, acaba apelando para os clichês do universo gay e o mau gosto, com piadas do tipo: “deixa eu tirar o lacre do seu yakult“. Que bicha é essa, você se pergunta.

João não quer apenas ser engraçado. Quer ser complexo e fazer um retrato cênico das relações contemporâneas, olhando para o passado. Isso não é o problema, a questão é o formato desengonçado que o todo é exposto. Para piorar é agraciado com cinco “fanfarronas” que interagem momento a momento, como se o excesso pudesse suprir as falhas. É ao contrário, são eles que revelam a fragilidade do todo, e os erros não superados. Na reestreia no dia 09, no Espaço do Parlapatões, os erros da iluminação foram um personagem a parte. João por vezes precisou procurar o foco para ser iluminado. Mas me pergunto caro João, porque você não se iluminou por dentro e nos brindou com um personagem vivo e presente e não uma caricatura banal que não tem a menor personalidade.

São 10 atores que preenchem a cena, cinco atrizes, as concubinas deslocadas de uma festa sem eira e nem beira e cinco atores que dão conta dos referidos namorados. Um festival “bizarro” de equívocos e descuidos, que são postos sem a menor criatividade em cena. Para piorar, alguns atores falam baixo, a dicção por vezes é incompressível. Não há química entre João e seus parceiros de cena, e se a intenção foi trazer um panorama de tipos para abrilhantar a festa, os escolhidos é a prova de como uma festa por fracassar.

Lheo Shiroma não domina o corpo e crê que fazer micagens e arrancar risos dos amigos da platéia bastam. Daniel Paulo carecia de uma direção que o ajudasse a construir o personagem com a personalidade dúbia – ele não tem esse profissional ao seu lado. Fernando Castro tem que dar conta do pior deles, pois é um arremedo estereotipado de “príncipe encantado”. Jhones Pereira é o “palhaço” da turma, veste uma camiseta escrita “blasé” e dialoga com um fantoche. A tragédia além do erro do texto é o ator se achar mais engraçado do que realmente é. Será que o grupo sabe o que significa ser blasé? É um erro tosco. Victor Damaso é o que melhor lida com a precariedade do todo. Sem o menor pudor, debocha da situação e aproveita a pieguice do seu personagem “fake” e preenche o palco de “viadagens”, porém torna inverosímel o tal romance.

Seria mais honesto que João assumisse a primeira pessoa, caso essa tenha sido sua intenção original, e tornado pungente um discurso que o revelaria de forma mais honesta e coerente. É constrangedor a cena que finge ser fotógrafo e assedia de forma jocosa o “modelo” da foto. É assim que João quer que as pessoas o vejam?

No release da peça, lê-se que Beto (João Hannuch) está fazendo 30 anos  – o que corrobora com a percepção de que seu personagem é infantiloide e não cresceu – e que ao receber seus ex namorados uma viagem ocorre em sua memória, tentando reconciliá-lo com seus sentimentos. Inspirado em seus próprios relacionamentos fracassados, pretende mostra como podemos ser mudado pelas relações que encontramos pelo caminho. Não João, seu público não entende bulhufas do que você quer dizer e/ou aprendeu. Porque antes de você tornar suas memórias em festa, reverência-las, as transformou num circo bizarro e piegas.

E para os que se aventurarem a assistir essa peça e não entenderem o conceito, divido aqui um trecho da informação que consta no release. E se acharem que tal informação traduz o todo, por favor me informem. Não consegui identificá-los em cena. #grato

“A encenação de LIMONADA parte de um conceito cartunesco e minimalista. A cenografia traz diver­sos cubos, que serão montados em diferentes configurações, fazendo alusão a brinquedos infantis e ao universo colorido no qual vive o protagonista (…) Já a trilha sonora mistura músicas dos anos 40, 50 e 60 colaborando para a imersão do públi­co neste universo lúdico e de HQ”.

Rodolfo Lima

 

Desmesura

18739629_1662329577140541_519929781802011730_n

Raul Torrada (1939 – 1987) é um desconhecido para nós. O famigerado dramaturgo e cartunista argentino, conhecido como Copi, morreu a 30 anos atrás. E foi buscando paralelos entre suas idiossincrasias e a atualidade que o Teatro Kunyn criou Desmesura. O que vemos é o resultado da inspiração que o dramaturgo Ronaldo Serruya estabeleceu com seu objeto de estudo. Depois de ver a peça, você conhecerá Copi? Não. Provavelmente não. Porém será agraciado com um olhar poético e emblemático sobre o mesmo. E isso, no final melancólico, parece bastar.

Para Serruya que além de assinar a dramaturgia, dá corpo e voz a Copi, seu personagem é adjetivado como algo tão grandioso que parece impossível mensurar sua importância. Dai o título da peça. Assumindo esse papel de humilde observador, sua dramaturgia é acertada quando resolve estabelecer um diálogo com a obra de Copi a partir de supostos devaneios, a beira da morte. Ou seja, nada faz parte da realidade, embora pareça ser. Assim como é de praxe, o diálogo da realidade com o que se intitula de vida.

Vemos então Copi com sua avó, Jorge – um amante, policiais e uma travesti, supostamente uma personagem inacabada. O autor morreria em consequência do vírus HIV em 1987, numa época pré AZT. Os personagens em questão dão margem para três caminhos de entendimento sobre Copi. Com sua avó vemos a relação estabelecida com a família e sua infância, com o amante sua visão de mundo sobre amores, corpos e sexo, o policial, sensor do indivíduo e portanto um prudente repressor, e a travesti que simboliza as diversas personagens Ts (travestis e transexuais) que Copi escreveu. É bastante material e vou me ater em dois deles – a questão das travestis e do travestimento e a famigerada doença.

O discurso de Copi, segundo Serruya mostra uma atualidade assustadora. Ainda somos indivíduos buscando uma liberação sexual e uma aceitação do corpo que nos livre das amarras e da culpa, como crianças que sabe que precisa crescer e não consegue – ainda não chegou a hora –  não aprendemos o desapego. Somos perseguidos por estigmas e o cu é um deles. O cenário de Lubi (Luiz Fernando Marques, responsável também pela direção) e Yumi Sakati coloca Copi e o público diante do cu do mundo. Local esse onde caberia de tudo, já que supostamente é um lugar associado para o que não é correto e bem aceito, o que está a margem. Do topo desse altar, sexual e vulgar ao mesmo tempo, Copi reverbera sua visão sobre sexo e a utilização dos corpos, o desapego com os afetos, o reconhecimento de que lealdade é mais importante que fidelidade, e a poética e controversa afirmação de que sexo é vida, já que vivenciar os prazeres do corpo é um dos benefícios de nós, humanos. Ignorando todos os malefícios que fomos obrigados a dissolver com o passa do tempo, refente a utilização plena do corpo e a falta de utilização de preservativos. Copi parece zombar de certa forma, afinal, ainda permanecemos presos. E controversa (outro sinônimo) pois a realidade que Serruya/Copi nos revela é conturbada e afetada, pela mitificação da doença e suas consequências.

Em Desmesura, Copi não é um maldito. Soa mais como um idealista apaixonado. Um bacante deslocado do tempo, que sobreviveu e vive (ainda) a zombar dos vivos e temerosos, ou seja, seu público. A peça é antes de tudo uma ode as potencialidades do corpo independente de qual parte (mente, coração, sexo). E quando o grupo apenas passeia pelo mundo efêmero e lúdico de Copi somos imersos em uma nuvem de melancolia e inquietação. Primeiro porque há um tom de nostalgia em tal retratação e segundo porque o corpo e suas deliberações ainda requerem questionamentos e abordagens esclarecedoras e que viabilize suas potencialidades e não apenas sua aparência binária e excludente. Copi não é um coitado em função da doença. Muito pelo contrário, a peça sugere que a famigerada doença potencializou toda a criatividade do artista. Uma forma bonita e generosa de criar ficção.

Premiado com o PROAC-SP, o grupo realizou três ações formativas. Duas oficinas e uma palestra. É justamente de uma das oficinas que surge o material que vai nutrir o momento mais politico do trabalho. Embora o tom da cena destoe do restante, mas não sem fazer conexões poderosas, o embate entre a travesti e o escritor, criador e criatura, ator cis e ator travestido revela mais do processo do grupo do que das questões de Copi diante da travestilidade. Não sabemos ao certo o que o escritor pensava sobre os homens descontentes e deslocados em sua condição masculina, que modifica e luta por uma expressão de gênero e por uma identidade que a/o represente, no caso, a feminina. Explico melhor material que alimentou tal cena:

Durante a oficina “O ator travesti”, ministrada por Fabiano de Freitas (Responsável pela montagem carioca de “O homossexual e a dificuldade de se expressar”, também do referido autor) ocorreu um embate feroz e emblemático entre uma transexual, uma travesti e um ator cisgênero (ou seja, independente de sua orientação sexual, “lemos” o mesmo como uma pessoa do sexo masculino). O ator em questão abordava a questão da travestilidade como material de criação, mesmo para indivíduos que não viviam tal drama na pele. Foi achincalhado aos berros pela dupla de “T”s que ofendidas fizeram da oficina, plataforma de embate. As transexuais o viram como um vilão a furtar uma oportunidade. Uma das tantas que a sociedade lhe rouba. É um assunto delicado e complexo que foi posto aos berros entre as partes, quase como que na peça. Digo quase, pois o Teatro Kunyn não fez jus  – nem sei se era o caso, veja bem – a realidade quando retratou o embate onde a personagem travesti questiona seu autor/ator e reclama do corpo e da falta de representatividade. Ou seja, em vez de empregar – por exemplo – uma travesti para a referida cena. Serruya sabiamente uso da metalinguagem e colocou o processo sobre o processo e deixou a ferida em aberto. Luiz Gustavo Jahjah, que faz a personagem em questão, intima que alguém da platéia assuma o seu lugar de fala, para que assim seja representada a minoria em questão.

É um blefe que funciona. Caso houvesse uma “T” na platéia, o trabalho teria que seguir outro rumo e a cena teria uma conotação diferente. Esse diálogo com a platéia é um risco, mas uma possibilidade impar de deslocar os artistas em cena para um suposto improviso. Uma pena que isso não aconteceu no dia que assisti. Mesmo assim, esse momento ainda é bem melhor que o inicio, onde os artistas pedem – de forma sacal – que julguemos os atores. O problema é que a opinião do público vale pouco, já que o personagem Copi já tem corpo e voz estabelecido, e o público é exposto a um constrangimento desnecessário. Porém é nesse desconforto que a força da opção cênica surge de forma pungente. Embora, possa ser questionado que no (sub)mundo sexual gay a doença importa pouco, quando se age por impulso e guiado pelo tesão. O público se espanta e revela ingenuidade.

A interação com o público é uma marca do grupo que a usou em todas suas produções. Em Desmesura essa opção não é excessiva, mas o formato pode ser questionado, assim como no inicio de “Orgia” e na intenção destemperada de emocionar como havia em “Dizer e não pedir segredo”.

É uma pena que o grupo abra mão de apenas vivenciar o(s) drama(s) em questão em detrimento de uma encenação desconstruída, que assim parece, mas soa dejá vù. Desmesura é triste e inquietante. No campo do discurso é o melhor trabalho do grupo e para quem conhece Ronaldo Serruya uma cópia dos seus pensamentos e da forma conciliadora com que reage diante dos conflitos. O desnudamento de Serruya é pouco, caso ele tivesse optando em nos apresentar um Copi vivo e pulsante, o resultado seria outro. Em vez de se desmascarar para que víssemos seu corpo/copi ruindo em cena, o ator e a direção oferta mais do mesmo do grupo e extrai pouco dos atores. A ironia é que no caso do autor em questão, que tinha como uma característica forte a autoficção, faz sentido um trabalho que revela as camadas de possíveis  leituras e não se atém a uma tentativa de retratar com fidelidade a realidade. A farsa ainda é a arma do grupo.

Desmesura, Copi, e o quarteto de artistas do Teatro Kunyn merecem ser conhecidos. Há muito que dialogar com e sobre os envolvidos. Em Desmesura há um deslocamento interessante do grupo, e o fato da montagem dar voz para um de seus integrantes é um ponto positivo. As máscaras não caíram, mas foram embaralhadas diante do público que os acompanha.

Rodolfo Lima

 

 

 

 

Lembro todo dia de você

Lembro-Todo-Dia-de-Você-Imagem-Destacada-

O argumento é ótimo: uma peça sobre um jovem soropositivo, tendo que lidar com as questões que envolvem a doença e sua contaminação. Para melhorar, a história é contada num musical, formato esse em ascensão, o que potencializa a adesão ao trabalho. Dirigido por Zé Henrique de Paula, que colhe bons frutos cênicos com “seu” Núcleo Experimental, ao lado de Fernanda Maia, e a preço populares no Centro Cultural Banco do Brasil. O que poderia dar errado?

A peça começa é vemos Thiago (Davi Tápias) e Julio (Gabriel Malo) em crise. O relacionamento é rompido e vamos acompanhar o que levou a tal momento. Para isso o texto de Fernanda Maia retrocede alguns anos, para que acompanhemos a trajetória do protagonista. A separação dos pais (Fabio Redkowicz e Anna Toledo), a ausência do pai, a presença do padrasto homofóbico e machista, a relação com a “namoradinha”/melhor amiga, as baladas noturnas, a cultura da noite, a paquera na lanchonete, o sexo fast food, e por ai vai…. Thiago é um cara comum, por mais que a peça seja morna até então, essa é justamente a graça dela: mostrar que apesar da soropositividade Thiago é um cara com uma rotina “igual a todos”, simples assim.

Maia aborda a questão da contaminação  de Thiago e perpassa por situações “básicas”, o constrangimento do atendimento médico, do diálogo na fila de espera, de ter que contar para o paquera da vez que tem o vírus. São exemplos de situações emblemáticas para qualquer soropositivo, independente da idade. Em dado momento não sabemos que idade Thiago tem, só que ele está infectado a “quatro anos”. Nesse período ele não se adaptou bem ao tratamento e não se cuidou. Continuou saindo e se divertindo e se relacionando sexualmente, como se a presença do vírus não o preocupasse. Eis ai um mote interessante para ser aprofundado na montagem e que supostamente poderia dar o gancho que a dramaturga oferece no segundo ato. Mas a peça “fofinha” não dá conta de aprofundar de maneira satisfatória as questões de Thiago e vemos “closes” como a canção “Não faz a loka” preencher a história, simplesmente para nada.

Tudo é inóspito na encenação. Dos figurinos de Zé Henrique – apáticos e formais, a coreografia (fraca) de Gabriel Malo, a cenografia de Bruno Anselmo, demonstrativa e mal utilizada. A presença de uma suposta Drag Queen (Fabio Augusto Barreto) não tem a menor força poética e nem dramática para a montagem. Penso que a retratação simbólica de tal personagem mítico do universo gay é sempre bem vinda, mas quando bem utilizada. Em “Lembro todo dia de você”, parece mais um fricote da encenação. Embora a peça toque em assuntos “caros” a comunidade gay, como o ato de fazer “banheirão” (transar com estranhos num banheiro), é pouco. Para os tempos atuais é pouco. A peça não transgride, e seu bom mocismo é um dos piores aliados que ela pode ter.

Para “piorar”, no segundo ato somos surpreendidos com uma virada no desenrolar da história que é um retrocesso. Maia simplesmente tira a capacidade do público de formular suas próprias conclusões e somos obrigados a ver Thiago sendo recriminado por tudo aquilo que “seriamos capazes de fazer”. São os próprios personagens que julgam e são julgados. A questão da soropositividade, fica abafada, assim como o romance entre Julio e o protagonista, a peça se torna um arremedo de clichês do menino que abandonado pelo pai, abandona todo mundo depois. Repare, Thiago não é bonzinho e nem mal, apenar um ser humano, é isso que a peça quer mostrar, porém a ação dramática é construída de forma a “zombar” desse fator, numa amarração dramatúrgica que é risível se não fosse irritante. Em dado momento um dos personagens diz: “mimimi do caralho”, sim é bem isso que a peça se torna, um arremedo de motivos e explicações para responsabilizar Thiago pelos seus atos.

Mas pera ai, cadê aquele menino que foi infectado e continuou vivendo a vida? Está ali no palco, sendo julgado. Não é tão “limpo” o recurso usado pela dramaturgia e corroborado com a direção. De um lado o jovem infectado pelo namorado, do outro um jovem infectado por um estranho, no meio as peças/pessoas que são elementos chaves da história. Se o pai é cruel se ausentando para sempre, a psicologa de posto médico impessoal, o cara mais velho sacal por transar sem camisinha, convenhamos, acontece. E esse moralismo simplista da peça detona a complexidade que há entre as relações expostas.

O “Infecto pas de deux” – nome de uma das músicas executada – entre Thiago e o “cara” que o infectou seria melhor realizado assumindo toda a ambiguidade e sedução que há no ato de se entregar para um estranho sem preservativo. Mas a peça ameniza e parece recriminar Thiago por ele não ter contado para o namorado. Ele foi “culpado, imaturo e irresponsável”. O assunto é sério e polêmico, mas a peça não adensa a questão, prefere lidar com julgamentos froxos e inconsistentes, a mergulhar profundamente no assunto.

A graça poderia ser passar por assuntos tão sérios e delicados para os soropositivos de maneira leve e pontual. Mas, não é bem o que se vê. A exceção fica a cargo da relação de Thiago com Maristela (Buna Guerin), é legitimo a cobrança dela ao descobrir que não sabia o que se passava com o melhor amigo, porém uma “forçação de barra” sugerir que ela fez disso motivo para um rompimento. É um exemplo de extremismo incoerente que a peça se alicerça.

“Ser ou não ser, soropositivo, eis a questão” é um dilema para muitos. Thiago não demonstra problemas em ser homossexual e nem sobre ser soropositivo, simplesmente porque “Lembro todo dia de você” o transforma num “chato” insensível e confuso e o público – que aprova, veja bem –  tem que engolir a seco isso.  “Lembro todo dia de você”, traz uma visão ingênua e pobre sobre o que é ser soropositivo em 2017. Não se trata de ser um panfleto ou não sobre a doença e suas consequências, e sim… como nos oferecer uma experiência a cerca do assunto. Infelizmente não consegui vivência-lá de forma criativa. Tudo pareceu frágil e pueril.

Rodolfo Lima

 

King Cobra

cobra1

Filmes são grandes potencializadores de questões urgentes e potentes. A arte em si é assim, bem sabemos, mas assim como as especificidades de cada manifestação artística, a do cinema mexe com a fantasia do público de uma forma impar. E isso borra as fronteiras da ficção, principalmente se for baseado em fatos reais.  No universo gay há diversos exemplos de filmes que provoca pelas imagens e pelas reverberações dos diálogos. O “mundinho” gay, ainda segue sendo um vespeiro por vezes indecifrável. E quando se assiste King Cobra, percebe-se que há camadas e camadas e camadas de (re)interpretações dessa comunidade da qual faço parte.

O filme conta a história de Sean, conhecido como Brent Corrigan (Garrett Clayton)  se tornou um astro do mundo pornô, graças ao empenho e desejos de Stephen (Christian Slater) que o encontrou, e o transformou em sua estrela maior. Temos ai, camadas diversas. O objeto em si, que é o corpo do ator e a forma como ele foi vendido, que é a arte do diretor – e no caso de Stephen, produtor/marqueteiro. A história dos dois é estremecidas por dois pilares principais: o desejo do diretor pelo ator e consequentemente a não aceitação de Brent pela forma como era tratado financeiramente por Stephen, além da ambição de Joe e Harlow – respectivamente, diretor e ator de uma produtora concorrente. O casal vê em Brent a possibilidade de sair da ruína, e é quando a relação do ninfeto com seu descobridor, estremece, eles entram em ação e agem. No caso, a história é baseada no assassinato de Bryan Kocis, fundador do site gay Cobra Video, que levou 28 facadas e teve a casa incendiada, justamente pela dupla Joe/Harlow. Onde Brent entra na história? É ele que entrega os colegas de profissão, tudo talvez em nome da própria liberdade. O filme oferece quatro arquétipos do mundo gay, inquestionáveis. Perceba:

Sean/Brent  (Garrett Clayton) é o típico menino/homem que se envolve com a pornografia aos 17 anos. Visa dinheiro, fazer o que gosta – cinema – e almeja projeção. O sexo gostoso e fácil, aliado a grana que o contenta a princípio é o grande motivo que o impulsiona a agir e a ceder aos desejos de Stephen. Muito mais do que ser brinquedo de outra pessoa, Brent não deseja ser manipulado. Nesse momento o filme revela um erro clássico de homossexuais mais velhos que (tentam) manipulam gays jovens e carentes, ignorar que por trás de um corpo excitante e vendável a singularidades e impulsos que são comum a homens que ainda não entraram na fase adulta, que não formaram seu caráter e portanto são perdoados, pela precária vivência de mundo. Garret é belo, transparece ingenuidade e malicia na medida. Seu passado de ex-disney (Teen Beach) também ajuda na propagação dessa inocência que é fetiche do universo masculino, sem fronteiras no campo gay.

Bryan/Stephen (Christian Slater) tem grana, ideias e alguém que o sirva a principio. Seu erro é ser traído pelo seu objeto de trabalho, e mais, fazer com que um seja mote para alcançar o outro. Essa mistura de trabalho e vida pessoal, desejo e poder, acesso e oportunismo perfaz a rotina de homossexuais mais velhos e/ou mais sagaz e com propriedade para potencializarem suas vontades de forma mercadológica. O corpo é visto como objeto rentável e quando o coração traí essa ambição primária, o buraco é formado, e saber quem cairá primeiro é só uma questão de tempo. Não há toa, infelizmente, foi esfaqueado, justamente enquanto estava ali, inflando de desejo e se deixando levar pelo instinto sexual. Mas clássico que isso, impossível.

Harlow (Keegan Allen) está no universo pornográfico, mas fazer isso com o namorado parece diminuir a culpa, já que foi o próprio que o incentivou a entrar na profissão, como parece mostrar a cena eu o mesmo se prostitui. A vida paralela de “casal feliz” que levam – já que o amor é recíproco – camufla o que está por trás da individualidade de cada um. Harlow é o típico homem que cresce por fora, mas por dentro permanece o menino de outrora. E nesse caso,  sofreu abusos sexuais do padrasto. O estupro é um fantasma muito difícil de ser esquecido e quando vemos o personagem chorando ou banhado de sangue, temos a certeza. O ator e cantor – que guarda semelhança facial com o personagem real – alterna com eficiência essas nuances psicológicas.

Joseph/Joe (James Franco) é um ex religioso, que acha o namorado num site de bate papo. Bom, por ai… já se pode imaginar os clichês que tal personagem carrega. É dele a ideia de ver o namorado ganhando grana trepando com outros homens. É dele também a ambição de satisfazer os sonhos do amado. O custo disso tudo, não é medido por ele. Ciumento e impulsivo, Joe trás consigo – segundo o filme – os ingredientes perfeito de uma bomba, pois guarda de ti ambição, arrogância, paixão e impulsividade. Franco parece estar um tom a cima, na intepretação, mas é justamente isso que ajuda o público a ter certa simpatia por seu personagem. A visão romantizada de sua história pode reforçar a ideia de que pelo amor vale tudo, vide o final do filme. Se compararmos Joe com Stephen, podemos observar formas extremadas de se lidar com os desejos e os caminhos para executá-los.

Stephen, Harlow e Joe souberam que não estavam tão seguros de si. Brent, aprendeu uma lição poderosa, mesmo que o filme não apresente os fatos com a verossimilhança da realidade. Foi inocente quando achou que precisava, impetuoso quando não se conteve, bancou o ferido e não se fez de rogado na hora de “lutar” pela própria liberdade. King Cobra é um prato cheio, e com muitos ingredientes. Tem que ser visto. O filme seduz e inquieta, como é típico de boas histórias.

A história abalou a indústria do cinema pornográfico gay  em 2007, virou livro “Cobra Killer: Gay Porn, Murder and the Manhunt to Bring the Killers to Justice” de Andrew E. Stone e Peter A. Conway em 2012 e ganhou realces atraentes no filmes dirigido por Justin Kelly. Harlow Cuandra  – por exemplo – foi condenado a pena de morte. O que o filme de certa forma não revela é que Harlow tinha o mesmo perfil físico que Brent. O que poderia  potencializar uma suposta rivalidade. Talvez ai uma escorregada na escalação de Allen, que diante de Clayton, parece um homem feito. Outro “erro” similar é a escalação de James Franco, que em duo com o Allen, parecem ser da mesma idade e biótipo, o que não condiz com a realidade, já que Joe era mais velho que Harlow, outro possível ponto de fricção interessante, não explorado pelo filme.

Apesar dos senões, King Cobra, cumpre o papel em instigar a curiosidade e relembrar um assassinato brutal. Como entretenimento serve. E de certa forma, ainda bem que não é a vida real, ela pelo visto foi bem mais pesada – dado a complexidade dos personagens – do que os 90 minutos de ficção. Como diria Blanche Dubois em “Um bonde Chamado Desejo”: eu não quero realidade, eu quero magia. Ou parafraseando Cecília Meirelles: a vida só é possível reinventada

Rodolfo Lima

 

 

60! Década de Arromba

xleabacks

Reinventar um gênero não é fácil, é tarefa árdua e requer uma disciplina e uma ousadia no conhecimento. Frederico Reder e Marcos Nauer arriscaram e deu certo. Ao produzirem um musical com mais de três horas, sem que a história fosse narrada pelos atores e sim metaforizada e/ou dançada pelos mesmos, o que vimos é um mix divertido de talento, clichê, diversão e emoção. A cereja do bolo, claro, é a presença da cantora Wanderléa, uma forma diferenciada de reverenciar uma artista, sem que sua vida fosse esmiuçada e talvez retratada de forma a não fazer jus a sua história.

O que se vê em 60! Década de Arromba é uma ode a uma artista que fez parte de um movimento musical e cultural visto como fútil e exacerbadamente romântico, numa década que o país se debatia ideologicamente visando um Brasil menos retrógrado e mais transgressivo, visando uma liberdade de expressão, que infelizmente, se percebe hoje, avançamos pouco na suposta conquista. O musical antes de tudo mostra que 50 anos atrás nem é tanto tempo assim.

A graça em grande parte é a amarração intertextual feita pela dramaturgia. O teatro se torna uma grande revista projetada e ao misturar tantas informações propõe um desafio ao público de entendimento histórico aliado as questões afetuosas que as informações suscita. Se teatro é ação, o público reage o tempo todo. Isso é uma qualidade impar do trabalho, pois tira o público de sua condição de passividade e o coloca como atuante. E no caso aqui, cantar junto com os atores é permitido. É o entretenimento sendo potencializado.

Há muito a se dizer sobre o musical, entre elas, que soa levemente feminino. Encabeçado por Wanderléia, o musical referência muitas mulheres, e se você ler por esse viés, temos figuras como Elis Regina, Simone Beauvoir, Rita Pavone, Gal Costa, Cacilda Becker, Dercy Gonçalves, as personagens Mônica, Cinderela, Barbie a Feiticeira, Edith Piaf, Marilyn Monroe, Jacqueline Kennedy, Mary Pop, A Noviça rebelde, as voadoras, Maysa, The Supremes, Elza Soares, Hebe Camargo, Carmem Miranda e Audrey Hepburn, por exemplo. Além claro, do sutiã queimado e de uma visibilidade conquistada, que ai sim, não soa déjà vu, as mulheres avançaram, conquistaram espaços e mesmo que não tenham o reconhecimento igual aos homens em muitos locais, essa diversidade de arquétipos femininos exposta em cena, revela muito da qualidade das ações que tais pessoas, personas e personalidades femininas suscitaram.

É simples e belo os momentos dedicado a Marilyn, Piaf e Jacqueline, mulheres apaixonadas e apaixonantes que fornecem uma leitura da época. Um tocante caleidoscópio de referências. Em dado momento se lê: “me julgue como mulher não como esposa”. É como se pedissem, me olhem para além do gênero. Um pedido, atualíssimo, convenhamos.

Há humor, melodrama e comédia bem dosados e um momento de exaltação do público, típico das beatlesmaniacas e dos jovens que lotavam os estúdios da Record, para os programas televisivos apresentados pelos ícones da Jovem Guarda. Somos inseridos no contexto sem perceber. O ápice desse momento se dá com a presença de Wanderléa cantando “Foi assim” entre os corredores do teatro. É tocante ver a artista disponível e exposta, a reação do público e o resultado disso. Aqui um spoiler é bem vindo, vale a pena comprar ingresso na fileira G, pois no Theatro Net São Paulo é o corredor por onde a cantora passa, serena e a mercê do seu público.

O senões existem também. A peça perde fôlego no segundo ato, passa inexplicavelmente rápido por 1968 – a peça é dividida em quadros anuais, e apresenta um figurino basicamente cromático. Nem parece que foi elaborado pelo mesmo figurinista de cenas como a que referência as crianças mortas num incêndio circense em Niterói em 1961.

Falta ousadia também, daquelas transgressoras que fizeram muito da cabeça dos jovens na época. Afinal, é desse período Woodstock, o filme Hair, o episódio no bar Stonewall, e de artistas nacionais como José Celso Martinez Corrêa. Ou seja, reunidos e potencializados poderia ser uma ode a liberdade sexual e de gênero, mas a direção e a dramaturgia se acanha. Uma pena. Embora a peça seja um libreto do período, a abordagem de certos momentos – até para que se percebesse politicamente o momento – deveriam ter sidos verticalizados.

No que tange a comunidade LGBT, a inserção da música “I say a little prayer for you” soa ingênua e aliada a coreografia, piegas. A referência a Judy Garland, um dos ícones gays também é pouco para falar de um dia num bar em Londres que seria um marco na história da sexualidade masculina.

Outro ponto de questionamento, embora o musical, tenha muitos predicados, é parecer analisar a história nacional apenas pelo que ganhou visibilidade no eixo sudeste, as referências da famigerada dupla “São Paulo e Rio de Janeiro”. A exceção fica por contar dos nordestinos que chegaram para povoar e construir Brasilia.

Em 60! A década de arromba, utopia e realidade se cruzam de forma potente e confundem o espectador de forma positiva, que lida com suas emoções e referências. Sente falta, emite opinião, se emociona e tem sua memória produtivamente reativada. Sendo simples e pontual na mensagem. Para ver e rever… e claro, tietar Wanderléa.

Rodolfo Lima

 

 

 

Rio Diversidade

18268406_1295474560521671_472084839850285924_n - Copia

É merecido as indicações ao Prêmio Shell (Categoria Especial 2016) e Prêmio APTR (Categoria Especial 2016). Não porque inovam na direção ou na concepção cênica, não por causa das interpretações , não porque falam sobre gênero e isso está – no mínimo – na moda. Não. A reunião dos quatros dramaturgos e uma visão ácida, provocativa e que desloca o olhar do espectador, é o que faz/fez toda a diferença. O projeto idealizado por Marcia Zanelatto é um achado.

A peça parece pequena para o palco do SESC Santana, com certeza a proximidade da concepção original – o projeto estreou em meados de 2016 no Centro Cultural Municipal Oduvaldo Vianna Filho, mas conhecido como Castelinho do Flamengo – oferecia bônus na interação e na convivência com os personagens. Por outro lado, no palco as questões ficaram supervalorizadas e foram redimensionadas para outras percepções. Vide o que acontece com os solos “Flor Carnívora” e “A noite em claro”.

Para falar de “Rio Diversidade” é necessário revelar um pouco do que se vê, porém o mais importante não é o que se vê e sim o que se ouve. Do deboche ao drama, da ironia a provocação os textos de Marcia Zanelatto (Genderless – Um Corpo Fora da Lei), Daniela Carvalho (Como deixar de ser), Joaquim Vicente (A noite em claro) e Jô Bilac (Flor Carnívora) arejam as discussões que permeiam o universo LGBT e mesmo o discurso de Magenta Dawning – mestre de cerimônia da noite –  que poderia soar déjà vu, em algum momento faz sentido. É isso, são tensos os discursos dos personagens da peça, mas faz sentido, tudo faz sentido. E numa época em que vivemos em busca de algo que nós incite a continuar, a dramaturgia exposta na peça, corrobora com esse “respiro”. É necessário mudar o olhar, a postura, as iniciativas.

Dirigido por Guilherme Lema Garcia e protagonizado por Larissa Bracher, a história de Norrie May-Walby, primeiro indivíduo no mundo a conseguir ser reconhecido como uma pessoa sem gênero específico. Um corpo “fora da lei”, afinal, de quem é o nosso corpo? Da medicina? Do estado? O texto de Marcia revela a falência do binarismo de gênero e coloca em xeque, de forma poética, os clichês comuns ao universo feminino e masculino. A encenação minimalista não é atraente, por vezes incomoda e não pelo que se diz, mas sim pela dificuldade de ver com clareza. Essa necessidade de certezas do que se vê, pode ser uma metáfora potente para um personagem com voz, corpo e imagem assexuada. Esse ser pouco iluminado, só quer seguir seu caminho – sem nenhuma cartilha – e “não querer” é mais difícil do que querer. Ou seja, quando a pessoa foge dessas conceituações limitantes da expressão de gênero e orientação sexual, sua luta é uma árdua batalha diária. O texto é provocativo, questionador, revelador e poético. “Diante da complexidade do meu corpo, só querem saber da minha sexualidade. Meu corpo é repleto de sexualidade. Ser ou não ser Cis… ser hiato. Não caber em lugar nenhum. Não há chuva que me rejeite”.

Kelzy Ecard dá voz a uma lésbica frustrada, e sua vida em cores opacas e isolada potencializa a repressão que sofreu a vida toda. A direção de Renato Carrera equilibra deboche e drama na voz de uma mulher que refém da mãe e de uma sociedade reprimida, sufocou os próprios desejos e agora sozinha, surta. Seu discurso é um vômito sentimental e revela o quanto de deslocamento é possível guardar dentro de sim. O quanto é perigoso e estúpido pautar a vida pelo olhar do outro. Da religião do outro. Dos animais do outro. Em épocas em que bichos são filhos de indivíduos solitários, ser abandonado, também, pelo bicho é a concretização da derrota emocional. Peça com homossexuais femininos são infinitamente inferiores aos de gays masculinos. “Como deixar de ser” busca analogias entre animais racionais e irracionais. Entre moradores da mesma casa. Entre solidões e como reagimos a ela. E sobre a morte, a diária. “Meu desejo exigia outro vocabulário. Uma necessidade indisfarçável de esbarra para tocar. Já tive mil músicas para dividir com Raquel. Se eu morrer eu paro de sentir?”

Entre os quatro solos a intervenção de Magenta revelou no dia da estreia as cisões que há entre cariosas e paulistas. Segundo ela, um apaziguamento entre essas “velhas irmãs” que se olham e se espelham é mais difícil, que instaurar a democracia no país. Entre o empresário e o bispo, salve-se quem puder. Sua “transoração” alerta: quem me diz quem eu sou, sou eu mesmo, não o seu olhar.

É esse tal “olhar” que violenta os homossexuais masculinos na plateia. Afinal, “veado só ouve pau e cu”. Rever o assassinato de Luiz Antônio Martinez Corrêa, ocorrido em 1987, pelo viés do assassino é um “achado”, pois nessa inversão, somos jogados para longe do mimimi e vemos um reflexo crítico e potente sobre os homossexuais e seus hábitos. “Veado só gosta do perigo. Será que ele vai ser violento? Será que vai me bater? Será que ele vai ser cafajeste? Será que vai me matar?” Qual gay que numa situação de sexo casual e procura pelo outro não teve essas questões ilustrando o pensamento? Sim, correr riscos faz parte do imaginário gay, e é bom que não sejamos hipócritas. Afinal, “Vocês são foda. Vocês dão muito mole por causa de homem.” A direção de Cesar Augusto expor o corpo do ator Thadeu Matos é a crítica mais acertada do projeto. Pois ao olhar e se pensar seduzido pelo corpo do ator somos fisgados e nos tornamos refém do mesmo desejo que matou Luiz. É uma associação de nudez com crítica social, implacável. “Sou bonito, sou atlético. Sou o ideal. Classe média. Te mato e saiu tranquilo. Sempre tive que lidar com seu olhar guloso, seu olhar pedinte: me fode! Essas porras tem que morrer”. Pois bem, a “porra” é você mesmo, que assiste e se identifica. Não satisfeito, o texto de Joaquim Vicente, ainda reverbera a fobia com gays idosos. “107 facadas. De quantas você precisa para eliminar seu ódio?” A música (Não recomendado – Caio Prado) que fecha o solo é a que foi melhor usada. O michê avisa: “Eu gritava pelos olhos quem eu era. Mas você não ouvia. A humanidade não ouve. Veado só ouve pau e cu”. “A noite em claro” é um soco no estômago. E ficamos assim a mercê e refém e cúmplice da vítima – “vítima não discute”. O público também não pode reagir. Juntos, observamos. Em enquanto ouvimos que Luiz depois de torturado, ficou amarrado e nu olhando pela janela o mar, o dia amanhecendo, somos silenciados. É impossível continuar.

Adassa Martins não tem fôlego para nos tirar do lugar que o texto de Joaquim nos jogou, eis a verdade. A leveza do texto e a graciosidade da atriz, parece um respiro para a densidade que o projeto potencializa. Mas talvez devesse ter aberto a peça, para que seduzidos, pudéssemos ter sido vítimas dessa flor faminta. No final, não há mais espaço para a comicidade. O texto de Jô Bilac fala sobre plantas e flores. Sobre o hermafroditismo presente em algumas espécies. Sobre ser masculino e feminino. Completo nessa possibilidade de fecundação – reservatórios de néctar. Magenta em algum momento disse: essa é uma noite de celebração. Uma ironia cortante e doída. Já que assim como as moscas, nós também estamos a mercê de uma vida implacável e na maioria das vezes inexplicável. A direção de Ivan Sugahara celebra a falta de padronização para as plantas. Torna festivo e irônico a não polarização de pessoas e flores, mas o que é o ser humano, senão essa necessidade nefasta de criar rótulos e limites? “A vida não é bela. A vida é foda”.

Rodolfo Lima