Sombras

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O Teatro da PombaGira é um emblemático grupo que surgiu em meados da segunda década do século XXI e sua força sempre morou na possibilidade de transgressão dos corpos nus de seus artistas. Se a nudez permanece tabu, o grupo, que tem como coordenadores o professor Marcelo Denny e o performer Marcelo D’Avilla, chafurdaram no lado b dessas possibilidades e claro, tangenciando sexualidade, vida pessoal e gênero, de forma conflitante e tendenciosa, já que em seus três trabalhos: “Anatomia do Fauno“, “Demônios” e “Sombras“, o foco é a homossexualidade masculina e as questões que envolvem os artistas presente nos respectivos elencos.

É de conhecimento de muitos os meandros, por vezes duvidosos, que perfaz a seleção e permanência de artistas para se compor o  famigerado grupo, que repercute com força nos homossexuais mais jovens, afeitos das possibilidades de ativar a própria libido. Para os mais velhos, o grupo de José Celso Martinez Corrêa fez o trabalho “muito bem obrigado” desde dos anos 90 – período esse em que comecei a acompanhar o grupo Uzyna Uzona.

Em “Anatomia do fauno” (2015), a encenação tinha como estímulo a literatura de Arthur Rimbaud e de tabela e mote as relações conflituosas e emocionais de gays, tendo como base as questões do elenco da época. As dezenas de artistas em cena propiciava cenas emblemáticas e interessantes que refletiam de forma pungente e crítica as relações homossexuais, já afetada pela fragilidade da promiscuidade, das relações pautadas em redes sociais e do preconceito dentro da própria comunidade.

O que sensibilizava a platéia nos Faunos, era justamente o misto de provocação, cenas esteticamente bonitas e emotivas e um elenco disposto a “dar a cara a tapa“, em prol de ser ouvido. Essa possibilidade de pegar o expectador pelas emoções deu lugar a uma encenação sombria e hermética – “Demônios” (2018) – que trouxe uma visão fatalista de corpos gays, rendido ao fetichismo da exaltação da imagem, divas e da violência.

O capítulo intitulado “sombra” do livro “A biblioteca à noite” de Alberto Manguel, foi o mote da 3° produção do grupo, e uma das atrações do evento realizado pelo SESC Paulista no segundo semestre de 2018. A encenação consistia em conflitar em cena trechos de obras literárias censuradas e os corpos dos artistas. O público ouvia os textos – que teve curadoria do Prof. Ferdinando Martins –  por meio de fones de ouvido, enquanto as singularidades em cena simbolizavam todo o desconforto e implicância de obras e corpos censurados. Por causa da instituição contratante, cenas foram censuradas.

Essa palavra “censura” sempre soará como uma forma castradora de cercear a concepção de um trabalho ou um pensamento, mas no caso do Teatro da Pombagira também foi – sem querer querendo – uma provocar os artistas para que eles não se apoiassem na sexualidade exacerbada, que virou obviamente, uma muleta de criação para os mesmos. O sexo é uma forma apelativa de prender o público, e o grupo ficou bem mal acostumado, ao se utilizar dessa opção para transmitir seu discurso. A constatação chegou e pode ser vista nas apresentações que o grupo faz durante as apresentações na edição deste ano do Festival Mix Brasil.

Parte do público assiste a encenação com fones, o que possibilita a audição de textos, que de certa forma implica numa outra leitura das cenas construídas pelos artistas. Sem os fones, metade do público (no mínimo) da platéia de sábado (16/11) teve sua percepção do trabalho prejudicado. Restou a esse público assistir cenas que fora do contexto da literatura perdem forças e se tornam frágeis. Mesmo artistas como Renato Teixeira que esboça um interessante trabalho de corpo, soa mais do mesmo, pois sua coreografia é basicamente uma extensão do que o mesmo fez em “Demônios“.

Numa era midiática onde somos bombardeados com milhões de imagens constantemente e temos acesso a qualquer tipo de informação, sexuais ou não, um trabalho como o feito pelo referido grupo precisa fugir da armadilha de achar que só criar possíveis imagens “polêmicas”, com pintos e bundas é o suficiente. Não é. Não mais. O grupo carece de uma reinvenção que o tire da forma e os preencha de sentido. Sentimento e utopia poderia ser uma poderosa combinação que justificasse as escolhas estéticas e cênicas dos artistas envolvidos.  Em “Sombras“, o ápice da futilidade foi atingida com a inserção da cena de sexo explicito.

A pornografia camuflada de arte é uma opção vazia e tosca. Não excita, não provoca, não transmite beleza. O que se assiste é um ato que serve apenas para inflar e fragilizar o ego dos artistas envolvidos. Seria triste, e não fosse trágica a responsabilidade dessas pessoas que acreditam estar sendo transgressores quando oferecem mais do mesmo do que já ofertam em suas redes sociais e em outros eventos. Com o intuito de problematizar, a cena protagonizada por D’Avilla e Hugo Faz, ainda faz uma referência ao famigerado “clube do carimbo”, que consiste em indivíduos masculinos que “carimbam” outros homens gays com a possibilidade de serem infectados pelo vírus do HIV ao fazerem sexos desprotegidos. Sim a cena é sem camisinha e completamente desnecessária pois não dialoga com o tema da encenação, que supostamente fala sobre a censura imposta na literatura e de tabela nos corpos que a faz.

Fiquei pensando se essa minha postura de ter uma revelia a cena pudesse estar influenciada por outros motivos, de ordem pessoal e/ou moral – por exemplo – que desse conta de explicar minha aversão. Eu simplesmente não a entendo como uma opção útil para uma suposta dramaturgia da encenação. E como público acredito, que ter a impressão de que as escolhas cênicas servem para sanar o ego dos artistas envolvidos é uma das piores formas de decupar um trabalho. É literalmente, e no mal sentido, uma punhetação.

O tema da AIDS esteve presente em todos os trabalhos do grupo e permanece um fantasma para muitos homossexuais, promíscuos ou não. Ao enfatizar o ato sexual com o tal carimbo é como se a encenação credenciasse o tal “carimbo” como uma opção valida e louvável, para ir contra a censura e preconceitos aos corpos soropositivos. Repare, ser vitima de uma pessoal mal intencionada, que se propõe a contaminar os outros é muito diferente do que você se colocar “em risco” por livre e espontânea vontade.

Com tal cena, o Teatro da PombaGira atinge um lugar bem duvidoso e se torna refém do seu próprio discurso ao enfatizar, e validar uma prática, menosprezando a tão poderosa liberdade sexual e de escolhas. A cena é totalmente desnecessária. E fragiliza e talvez roube o que supostamente estimulou os artistas a criarem esse trabalho, a tal literatura. O grupo corre o risco de cair de novo no lugar comum, se não se reinventar e procurar outras formas de se colocar politicamente em cena, sem ter que se expor de forma apelativa e degradante. Ninguém merece isso. Quando as opções de atos masturbatórios (seja no ego, seja no físico) só faz sentido para o(s) artista(s) que o faz, o trabalho como um todo se revela inconsistente e pueril.

Rodolfo Lima

Crédito foto: Amanda Clemente

Obs: o grupo faz sua segunda apresentação dentro da programação do Festival Mix Brasil, as 17h (segundo consta no folder impresso) no Centro Cultural São Paulo – CCSP, grátis. Ingressos distribuídos 1 hora antes.

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